terça-feira, outubro 22, 2013

A greve burra

Adelson Elias Vasconcellos


Talvez tenha partido do Financial Times a melhor definição para o leilão do campo de Libra: “O leilão que não foi”. Com um único competidor, onde se encaixa a palavra “leilão”?

Por mais que o governo afirme que o dito “leilão” tenha sido um sucesso, na verdade ele se converteu em um mico desastroso. Tanto é assim que o consórcio vencedor ganhou a parada apenas com o lance mínimo, sem ágio algum, o que obriga, se tiverem juízo, nossos governantes a reverem com urgência o modelo proposto. 

Não considero o modelo de partilha, adotado pelo governo o petista, como o melhor e mais seguro. Creio que o regime de concessão produziria maiores e melhores resultados.  Tanto é assim que o próprio governo Dilma estuda mudar as regras para os próximos leilões, no que faz muito bem. É de se esperar que se reduza, portanto,  a intervenção estatal para que se proporcione melhores lucros para o país.  Mas esta já seria uma discussão posterior. 

Um dos grandes males que afligem o Brasil, que o torna selvagem a cada dia, que transforma seus universitários em uma legião imensa de semi-analfabetos, que faz com que seus eleitores mantenham no poder cafajestes assumidos e corruptos empedernidos só porque são “simpáticos”,  é teimosamente parte dos que poderiam contribuir para reduzir a pó estas mazelas todas, insistindo em se manter ou ignorantes ou descompromissados com os destinos de seu próprio país.

 São ignorantes não por seu intelecto mas por seu espírito jurássico, trevoso. Renunciam a paz que a civilização é capaz de nos dar, e o progresso que nos torna seres melhores a cada dia, menos doentes e mais capazes de evoluir. Querem se manter primatas, no original, na essência mesma que o atraso moral, espiritual e até intelectual lhes permite viver em estado natural, grosseiros e estúpidos.

Quando leio as barbaridades que alguns membros do tal Black blocs, constato o quanto a lavagem cerebral é capaz de tornar selvagens  levas e levas de seres que poderiam ser mais úteis se resolvessem evoluir e úteis a si mesmos.  Acham que negar tudo, quebrar tudo, arrasar tudo torna suas vidas melhores. Torna-os, isto sim, mais selvagens, mais estúpidos, mais primitivos.  São mais dignos de pena e desprezo do que de indignação. Mas num país livre e democrático, há leis para colocá-los no lugar próprios para a sua essência de animais selvagens: as jaulas dos presídios. Não merecem conviver sob o manto da paz que a  civilização proporciona a quem ama, sobretudo, a própria liberdade  evolutiva e considera a vida um valor inalienável, mesmo que com prazo de validade que acaba, dia mais, dia menos, para todos. 

Nas últimas semanas  vimos inúmeras manifestações de idiotas promovendo passeatas contra o leilão do Campo de Libra, o primeiro a ser explorado para a produção de óleo e gás na camada do pré-sal.  Dizem os ignorantes que o leilão colocará uma riqueza nossa nas mãos do capital internacional. Como é triste ver gente desperdiçando tanto esforço em nome de causas  absurdamente sem sentido. E burras.

Vamos ver. A grande maioria de empresas que participarão do leilão são  estatais asiáticas,  e a de maior   capacidade econômica é nada menos do que chinesa. Será que os jurássicos que protestam preferem trocar o capitalismo ocidental pelo estatismo chinês?   Um imperialismo por outro? 

Os petroleiros da Petrobrás, que resolveram cruzar os braços em nome de uma causa burra,  o fazem em nome de quê, afinal, se a Petrobrás é quem dará as cartas seja na operação de exploração seja nos lucros? Duvido que aqueles todos que se colocam contra o leilão tenham ao menos lido as regras. Se o fizessem,  ao menos saberiam que não estamos entregando riqueza nenhuma a quem quer que seja. Todo o petróleo de Libra permanecerá sendo  brasileiro, ora bolas. 

E por que o leilão é necessário? Porque, simplesmente, a  Petrobrás  não tem a capacidade de investir o montante necessário para tornar Libra um campo produtivo e gerador de riquezas para o país. Ao atrair investidores parceiros,  (e o nome correto é este: PARCEIROS), a Petrobrás, em troca de uma cota do produto a ser extraído,  encherá   as arcas do país de uma fortuna que, sozinha,  ele não poderia obter. 

Assim, onde está o perigo de lesa pátria como alguns ignorantes enchem a sua boca para proferir palavras de ordem nas passeatas? Estranha-nos o fato de a direção da Petrobrás não ter orientado seus funcionários sobre o que de fato estará sendo feito, quais as consequências positivas para o país e para a própria empresa, como resultado final da exploração partilhada do Campo de Libra. 

Além disto, há um dado que precisa ser esclarecido. Nos últimos anos, a Petrobrás perdeu boa parte de sua capacidade de  investir em razão da política de combustíveis adotada principalmente no governo Dilma,  obrigando a estatal a comprar combustível lá fora a preços muito acima do que o governo permite praticar internamente.  E isto é do conhecimento geral. Da mesma forma, durante o governo Lula a Petrobrás se pôs a comprar ativos no exterior verdadeiros desastres, do qual a Refinaria Pasadena, nos Estados Unidos,  é o exemplo mais mal acabado do que representa uma gestão temerária.  

Assim, se antes a capacidade de investimento poderia bancar ao menos uma parte do necessário à exploração da camada pré-sal, a gestão petista, tanto de Lula quanto de Dilma, fizeram desaparecer tal capacidade.

Se o país pretende explorar suas riquezas em benefício do seu povo, não pode se dar ao luxo de fazer beicinho ao capital externo que pode advir de uma parceria que em nada nos  compromete. Pelo contrário. Ou será que alguém imagina que alguma alma magnânima nos doará bilhões de dólares apenas por sermos brasileiros?  Se alguém investir em qualquer atividade econômica, não é justo que receba o justo pagamento? Ou alguém no país acha que pode ir ao Banco do Brasil, tomar lá uns R$ 500 mil de empréstimo e que o Banco não lhe cobrará além do principal, os juros  de mercado?  E, nem por isso, saímos por aí a fazer passeatas contra o Banco do Brasil, não é mesmo? 

Assim, melhor fariam estes desavisados se racionassem de forma menos emocional, antes de brandir bandeiras e palavras de ordem contra uma suposta ação de lesa pátria que, vista não só em seu contexto,  mas em  toda a sua extensão de benefícios possíveis ,  através das parcerias que serão construídas com o leilão.  Aliás,s é bom acrescentar e esclarecer: nem se trata de leilão, e sim de um processo de escolha de um parceiro, porque a rigor não está vendendo coisa alguma. O Brasil, senhores e senhoras, não está perdendo absolutamente nada, está apenas ganhando uma imensa fortuna. 

Há um sindicalista que afirmou que o governo arrecadará apenas uma gorjeta de R$ 15 bilhões, para justificar a greve dos petroleiros. Ou o sujeito é mau caráter, ou não sabe ler. Os tais 15 bi são apenas a cota inicial, meu caro senhor. É como se, ao parcelar o pagamento do que será arrecadado, o parceiro tivesse que pagar um sinal  inicial, para poder  firmar um contrato de parceria. E o resto, meu camarada, você não leu, não é?  Nesse modelo, o dono do petróleo é o Tesouro que reparte a produção (nas proporções previamente contratadas) com o consórcio, já deduzidos os custos. E adivinhe a quem tocará a parte do leão nesta divisão? 

A Petrobrás, além de única operadora, ainda participaria em 30% do que tocar a cada consórcio vencedor. Na última hora, vendo o tamanho do desastre, aceitou elevar sua cota para 40%, exigência pelos participantes do consórcio vencedor para evitar um fracasso retumbante. Feitas as contas, impossível não reconhecer que o país não perde nada, a não ser a cota que será repassada ao parceiro da estatal brasileira, que ajudou a financiar a exploração. Afinal, ninguém investe sem que possa obter algum retorno.

E vejam que interessante: do petróleo total a ser produzido, nada mais nada menos do que 65% ficará com o Brasil, muito embora alguns afirmem 80% e a senhora Rousseff foi para a tevê garantir que será 85%. Conta errada. O certo é 65%, ou seja, os 41% do lance mínimo e mais 40% sobre o restante que tocará à Petrobrás. Esta cota da Petrobrás, é bom esclarecer, é calculada sobre o restante 59%, algo próximo à 24%. Tudo somado o resultado é 65%. Mesmo assim é um bom ganho.  Pergunta chata: onde está a “doação” do patrimônio público que a greve burra não se cansou de berrar nas ruas, nas praças, nos jornais, nas televisões?

Se prejuízo houver, será pelo mau emprego que políticos e governantes possam  fazer da fortuna que será gerada e arrecadada. Só que os estrangeiros, privados ou estatais,  não têm culpa nenhuma neste sentido, já que nossos políticos e governantes são escolhidos por nós mesmos.

Mas a pérola do dia foi assistir dona Dilma explicando, em cadeia de rádio e televisão, que leilão não é privatização. Lembrando  as campanhas presidenciais passadas, quando ela própria e Lula acusaram os tucanos de privatizar enquanto faziam concessões, a gente chega até a achar graça. A explicação agora, portanto, não tem preço.

Ou o Brasil acaba com a bagunça, ou o país vira bagunça geral.

Adelson Elias Vasconcellos


A gente aprende desde pequeno que decisão judicial não se discute: se cumpre. Errado. Na democracia, decisão judicial se cumpre,  mas, também,  se discute.  Como lembra o jornalista Reinaldo Azevedo, só na ditadura  é que decisão judicial não se discute.

O Brasil se arrasta há anos mantendo um certo grupo de privilegiados aos quais a lei não alcança, decidem segundo critérios próprios, se mantém num pedestal elitizado ao qual os mortais comuns não têm acesso. 

Falo dos juízes e magistrados brasileiros. Hoje, poucos  são os que se pode apontar como profissionais da lei, que não se deixam embaraçar pelo corporativismo, que  se comportam como aquilo que realmente são,  servidores públicos em defesas da legalidade.. Qualquer  individuo que preste serviço ao Estado, esteja em que nível de contratação for,  recebendo salários  fruto desta prestação, é mero servidor público, Presidente da República, Presidente do STF, Presidente do Congresso, e todas aqueles que a eles se vinculam na cadeia de comando, são servidores. Devem  prestar contas de seus atos, do destino  que porventura que lhes cabe dar ao dinheiro público. O dono deste país, portanto, o patrão de todos eles, é o povo brasileiro. 
É secular este costume depravado de qualquer servidor público se achar acima de qualquer cidadão, se achar dono do país, e que a ele tudo é permitido. 

Porque o país não consegue sair do marasmo do subdesenvolvimento, ou do país em crescimento, eterno país do futuro,  tem sua base de explicação no costume arraigado que governo é patrão, e o povo é capacho, a quem cabe sustentar esta categoria especial de “cidadãos”. 

Há alguns meses o país assiste inerte, estas ações que, para mim, há muito deixaram de ser apenas vandalismo, e passaram à categoria de crimes.  De um lado, temos governantes como que   manietados pelp pensamento estúpido que grande parte da imprensa teima em deitar cátedra. Qualquer ação das forças de segurança que tentar pôr fim à baderna de bombas, quebra-quebra, invasão de prédios públicos,  destruição de prédios privados,   desobstrução de vias públicas bloqueadas pelo  ateamento de fogo em veículos, ônibus, lixeiras, destruição de patrimônio público, será, imediata e impiedosamente,  esconjurado. Estes terroristas urbanos estão livres para sua ação predatória por saberem que a imprensa os tratará como agentes da “democracia”. 

Se a gente fizer um levantamento de junho para cá, o montante de prejuízos que as tais manifestações “pacíficas”  já provocaram, perceberá que de pacíficas elas só tem a embalagem que a grande imprensa lhes pespegou. O que já se saqueou de lojas, se quebrou de bens públicos e privados, o que se feriu, é coisa que se conta em bilhões de reais em prejuízos. 

Por qualquer razão besta, o que se observa é um bando de criminosos assaltando a paz das pessoas, destruindo, depredando, como se a democracia pudesse se fortalecer com a anarquia.

Ou nossas autoridades, inclusive o judiciário, tomam pulso da situação e mandam os editorias e artigos de jornalistas imbecilizados às favas, e começam a tratar estes malucos  sob o rigor da lei,  tratando de garantir a segurança das pessoas e seus patrimônios, ou nos tornaremos,  não demora muito,  numa republiqueta de quinta categoria, às portas de um convulsão social.

No centro do Rio de Janeiro, empresas estão encerrando suas atividades mais cedo, para permitir que seus funcionários possam retornar às suas residências em relativa segurança. Os que ainda insistem em cumprir sua jornada de forma total, se obrigam a ver seus funcionários trancafiados e amedrontados com medo de sair às ruas.

O Brasil, senhores, virou uma bagunça geral, e em certos momentos, o quadro que se tem é a de um cenário de guerra.

Doloroso observar que certos juízes teimam em mandar de volta às ruas gente que deveria permanecer trancafiada pelo bem da sociedade. Infelizmente, o papel que certos juízes  tem adotado é de total irresponsabilidade. Há um clima de total insegurança tornando um inferno a vida das pessoas decentes e que, é bom lembrar, é a grandiosa maioria. 

Grupelhos de terroristas e criminosos estão dando às ordens, impondo sua regra, e o que se assiste é uma imprensa imbecilizada e um judiciário irresponsável. A autoridade dos governantes que, é bom se diga, foi conquistada nas urnas de forma legítima,  está sendo esculhambada por força deste pensamento infame que tomou conta do país. 

As imagens exibidas  ao vivo e a cores em tempo real, criam-nos uma angústia terrível e gerando uma dúvida cruel: A TROCO DO QUÊ JUÍZES ESTÃO LIBERTANDO ESTE BANDO DE CRIMINOSOS, QUE NÃO RESPEITAM LIMITES E,  INSANDECIDOS, DESTROEM AQUILO QUE NÃO LHES PERTENCEM, GERANDO PREJUÍZO, DESCONFORTO E INSEGURANÇA NA SOCIEDADE?  

Há uma coisa que precisa ser esclarecida: quem parte para o confronto  contra forças de segurança, jamais poderá reclamar de violência. Não pode esperar que, após jogar bombas, paus e pedras nos policiais seja tratado por eles com flores e bombons.  Se parte para agressão contra forças militares incumbidas. Constitucionalmente, por zelarem pela paz e ordem,  tem o dever de responder e suportar as consequências de seu ato impensado,e a imprensa tem a obrigação de informar ao público em geral quem de fato agride e quem por direito tem o dever de zelar pela ordem. Se nenhum abuso é tolerado em relação aos policiais,  muito menos deve ser acariciada a agressão que manifestantes fazem não apenas contra os policias mas também contra patrimônio público e privado.  Contra gente má intencionada que parte para agressão e confronto, é que existe lei e força de segurança. Isto é civilização, gostem os jornalistazinhos amantes da bagunça. 

A se observar atentamente as decisões judiciais que insistem em devolver às ruas criminosos e terroristas urbanos, incluindo neste rol até criminosos com longa folha de crimes,  alguns até contra a vida, parecem ter medo de sentenciar de acordo com a lei. Sentem calafrios em mandar ou manter alguém na prisão. No Brasil, bandido é tratado como mocinho, e os mocinhos, no caso a grande parte da sociedade pacífica,  são tratados  a coices e pontapés, seja pelo Judiciário seja pela própria imprensa.  Talvez leve décadas para estas duas castas compreenderem  que a lei foi feita para salvaguardar a segurança da maioria, e não apenas para punir aqueles que a ela não se enquadram.  Esta é que deveria ser a ordem natural das coisas. No Brasil atual o  que menos se tem é ordem.

Portanto, precisa o Judiciário brasileiro cair na real: ele existe  para servir à sociedade e, de acordo com as leis, decidir em favor da sua segurança, preservando a ordem e fazendo cumprir a lei, e não em favor de bandidos, por mais bandeiras de causas estúpidas que tentam acenar como desculpa para sua delinquência.

Deste modo, ou o Brasil acaba com a bagunça que está varrendo o país de norte a sul desde junho, ou chegaremos ao abismo mais rápido do que se imagina. Isto aqui já virou terra de ninguém, ou melhor, as facções de criminosos e pervertidos do pensamento estão tomando conta do país.  E elas estão em toda a parte, na política, no judiciário, nos governos e até na própria imprensa. É bom não esquecer 1964: a ditadura se instalou por muito menos.

Perguntar não ofende: quando é que vamos parar de falar em “violência” quando se trata de CRIMES?

Ricardo Setti
Veja online

(Foto: Christophe Simon-AFP)

No Rio, Black blocs acendem coquetel molotov para lançar contra PMs:
 sistematicamente chamamos de “violência” o que, na realidade é CRIME

Perguntar não ofende: quando é, afinal de contas, que governantes, políticos, especialistas no tema e a imprensa vão deixar de falar em “violência” quando o assunto é CRIME?

Esse desvio léxico vem sendo praticado à exaustão no noticiário, nas análises, nos comentários e nas mesas-redondas que abordam, por exemplo, o que os baderneiros dos black blocs fazem durante manifestações de rua. Um degenerado desses que arremesse um coquetel molotov contra a polícia está cometendo um CRIME. É, sim, um ato de violência, mas de violência criminosa. O que deve predominar é a consideração de que se trata de crime, e não de “violência”.

Mas não é de hoje o desvio léxico: há muito tempo se fala, sistemática e erradamente, por exemplo, da necessidade de enfrentar ou combater “a violência” ou determinada “onda de violência” quando há CRIMES, em geral gravíssimos — como homicídios — em causa. Quando se trata não apenas de violência, mas de CRIMINALIDADE.

O próprio e excelente serviço público prestado pelo Disque Denúncia em São Paulo, destinado a propiciar informações sobre crimes à Polícia sob garantia de anonimato, tem como lema “Vamos acabar com a violência”.

Não se trata apenas de violência, amigos. Trata-se de CRIME!

Para não ir mais longe, basta lembrar o que diz o Dicionário Aurélio on-line sobre o que é uma e outra coisa.

Violência”, no Aurélio, é “s.f. [substantivo feminino] Qualidade ou caráter de violento. (…) Ato ou efeito de violentar. / Opressão, tiranias. (…).

Violento”, por sua vez, é “adj. [adjetivo] Que atua com força, ímpeto ou intensidade; forte, impetuoso, intenso (…) / Em que se usa força bruta (…) / Colérico, irascível, arrebatado (…)

Agora, vamos ao que o dicionário define como sendo CRIME:

s.m. [substantivo masculino] Qualquer violação grave da lei moral, civil ou religiosa; ato ilícito; (…)  / Ato condenável, de conseqüências desagradáveis (…) / Dir. [em Direito] Ato ilícito de maior gravidade para o qual a lei comina sanção de natureza penal. // (…)”.

Repito o que já escrevi outras vezes, em outros veículos, e o que disse em palestras:

– A PRIMEIRA providência para enfrentar o crime é chamá-lo pelo nome correto.

Óleo do pré-sal, dinheiro de onde?

O Estado de S.Paulo

O novo desafio da Petrobrás, depois do leilão do Campo de Libra, é conseguir o dinheiro necessário para o desenvolvimento e a exploração da maior reserva de petróleo já entregue à atividade empresarial no Brasil. Com uma dívida de US$ 112,7 bilhões no fim do segundo trimestre, a maior estatal brasileira é também a maior devedora do mundo entre as companhias abertas não financeiras, de acordo com o Bank of America. A segunda na classificação do banco, a China State Grid, devia US$ 104 bilhões na mesma data. A terceira, a americana Verizon, US$ 98 bilhões. Com participação de 40% na área leiloada ontem, a Petrobrás ainda terá de ficar com pelo menos 30% nas próximas licitações, se forem mantidos os critérios adotados até agora para o modelo de partilha. A empresa terá caixa suficiente para seus compromissos, disse no fim de semana o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o Tesouro, portanto, ficará dispensado de qualquer socorro. Isso pode ser verdadeiro no curtíssimo prazo, quando será preciso desembolsar R$ 6 bilhões para o bônus do leilão, valor correspondente à participação no consórcio.

As demais participantes são a anglo-holandesa Shell (20%), a francesa Total (20%) e as chinesas CNPC (10%) e CNOOC (10%). O pagamento do bônus será só o começo de gastos enormes e a rigor imprevisíveis por causa das dificuldades tecnológicas do empreendimento.

O leilão pode ter sido um sucesso, na avaliação oficial, mas o modelo dificilmente será mantido, segundo opinam especialistas. Só 11 empresas se inscreveram para a disputa e apenas 5 - as integrantes do consórcio vencedor - acabaram apresentando um lance, embora houvesse 40 em condições de entrar no jogo. Várias razões aconselham a alteração de critérios. A recém-criada Pré-Sal Petróleo (PPSA) poderá interferir nos critérios técnicos de exploração e terá prerrogativa de veto em questões importantes, mesmo sem entrar com dinheiro.

Nem a Petrobrás terá tanta influência, mesmo controlando, por exigência legal, pelo menos 30% de cada área licitada. Essa participação, somada à condição de operadora única dos campos, também pode ser, e parece ter sido no leilão de ontem, um fator de hesitação para muitas empresas. Além de tudo, é preciso levar em conta a sobrecarga financeira e operacional imposta à Petrobrás. Esse fator poderá complicar a realização dos próximos leilões ou forçar a estatal a reduzir outros itens de seu plano de investimentos.

O próprio governo tem dificultado e poderá continuar atrapalhando a geração de caixa da Petrobrás. O empecilho mais evidente é a política de controle de preços dos combustíveis, um artifício usado pelas autoridades para administrar os indicadores de inflação. Além de complicar a situação financeira da empresa, essa política, adotada há muitos anos, prejudicou também os investimentos na produção de etanol.
Nenhum outro país teria condições tão favoráveis quanto as do Brasil para ser um grande exportador de álcool combustível, mas, quando o governo americano anunciou a abertura de seu mercado, os produtores brasileiros estavam sem condições de aproveitar a oportunidade.

A incapacidade de fixar prioridades e a falta de foco das políticas também têm impedido a Petrobrás de alcançar os objetivos em sua área de negócios. Convertida em instrumento de política industrial, por uma das confusões petistas, a empresa tem sido forçada a dar preferência a equipamentos nacionais.

O governo parece disposto a insistir nesse erro. A exploração do pré-sal vai fortalecer a indústria naval e os fornecedores de equipamentos, disse ontem o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. Sem dúvida, essa pode ser uma das boas consequências dos investimentos no setor de petróleo - se a indústria brasileira for capaz de competir. Será um erro grave sobrecarregar a exploração do pré-sal com os custos de uma política industrial superada. A preferência à indústria naval brasileira já resultou no fiasco de um navio lançado oficialmente com discurso presidencial e só posto em operação mais de um ano depois, quando teve, finalmente, condições de navegar. O País pode ganhar com mais foco e menos demagogia.

Déficit de legalidade e cidadania

Sebastião Ventura Pereira Da Paixão Jr
Zero Hora

A ideia é simples: quanto mais a lei é aplicada, melhores são as instituições; por outro lado, quanto menos a lei é prestigiada, maior o grau de degeneração institucional. Vamos, então, deixar as subjetividades de lado e passar a casos objetivos: a Constituição, por exemplo, assegura “o respeito à integridade física e moral” dos presos, determina que o salário mínimo deve ser capaz de atender as necessidades de “moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social” e, por último, diz em alto e bom som que “moralidade e eficiência” são princípios da administração pública brasileira. Tais regras, no entanto, só existem no papel, pois os presídios são caóticos, o salário mínimo praticamente se esvai em moradias precárias e magra alimentação, enquanto que moralidade é uma palavra desconhecida da política, assim como eficiência é uma nota proibida no sarau da burocracia brasileira.

Moral da história: a lei no Brasil é, muitas vezes, uma simples miragem no deserto da incompetência política. E, quanto maior a incompetência da política, mais distante a Constituição fica da realidade da vida. Em outras palavras, é a política a nobre arte humana de dar cores ao preto e branco da norma sobre o papel. Logo, a aridez da vida pública nacional revela que nossos políticos, com honrosas exceções, são simples artistas de um teatro profano. O preocupante é que a situação, ao invés de melhorar, mais empalidece a cada nova primavera.

Outro dado sintomático de que a lei não funciona no Brasil está no vertiginoso aumento da litigiosidade judicial, ou seja, se há litígio, é porque a lei não foi cumprida em alguma medida, criando um conflito de interesses entre as partes envolvidas. É claro que algum espírito mais benevolente poderá sustentar o contrário: o aumento da litigiosidade, ao invés da fragilidade institucional da lei, revela justamente que as pessoas estão indo atrás de seus direitos. A premissa é bonita, mas é logicamente falsa. Afinal, se as pessoas precisam ir atrás de direitos, é porque, na prática, não os têm.

Na verdade, a lei no Brasil é como aquela imagem do macaco correndo atrás da banana: no início, o macaquinho corre, corre, corre, e nada; chega um momento em que o pobre mortal, exausto de tanto correr, desiste e, aí, o que ele faz? Bate na porta do Judiciário em busca de justiça. Tal fenômeno vem acontecendo sistematicamente em nosso país e bem revela que muitos de nossos direitos precisam de um ato judicial para serem efetivados. No final, além da fadiga dos materiais que funcionam, restará a amarga evidência de que a lei brasileira promete muito, mas a política faz muito pouco. Sim, a política está definitivamente mal e degradante. Mas e nós, como cidadãos e sociedade civil, o que temos feito de positivo para mudar esse quadro desolador?

Os olimpianos e as curvas

Gaudencio Torquato
O Estado de S. Paulo

Um oceano de distância separa os territórios de artistas como Roberto Carlos (que saudades das curvas da estrada de Santos), Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros de áreas frequentadas por figuras exponenciais da política e do governo. Mas uma condição os torna habitantes da mesma constelação: a visibilidade de seus perfis, que lhes confere fama e poder. O mesmo ocorre com jogadores de futebol, atores e atrizes de novelas, príncipes e princesas de monarquias que ainda povoam o mapa das nações.

Ao lado de um político comum, Pelé, Neymar ou Messi, a atriz Deborah Secco, o ator Antônio Fagundes ou William e Kate, duque e duquesa de Cambridge, certamente ganhariam mais palmas, não se descartando a hipótese de apupos dirigidos ao detentor de mandato popular. Se o político, porém, dispuser de extraordinário poder, como Barack Obama, que preside a maior potência do planeta, seria razoável pensar em efusivos aplausos para ele.

A admiração por uns e a rejeição a outros decorre da simbologia que encarnam, um formidável arco de conceitos e situações que abarca o mundo das diversões; as esferas da política, com seus graus diferenciados de poder; os reinos que fazem lembrar contos de fadas, onde os olhares se embevecem com casamentos reais entre príncipes e plebeias que adentram os palácios e ascendem às alturas; as novelas noturnas, com dramas e tramas psicológicas, fontes de catarse e consolação de plateias fiéis aos personagens; os shows musicais, que permitem às multidões fruir um frenesi coletivo, abrindo as gargantas para acompanhar bandas e cantores, sob a cadência movimentada de corpos e braços; os espetáculos esportivos, onde torcedores fanáticos aplaudem seus ídolos e xingam adversários e o juiz da partida, beijando a camisa dos times e promovendo a integração de sentimentos e paixões.

Essa moldura do novo Olimpo, que o filósofo e educador Edgar Morin descreve como o habitat das vedetes do Estado Espetáculo, é iluminada todos os dias pela fosforescência midiática. Os tipos, com sua dualidade divino-humana, alguns elevados à categoria de heróis do cotidiano, se tornam onipresentes em todos os setores da cultura de massa.

Essa casta desperta curiosidade e admiração. Afinal, indagam-se os mortais, eles fazem as mesmas coisas que fazemos? Enfrentam dificuldades, acordam cedo, tomam banho, têm dores de cabeça, queixam-se da dureza do dia a dia ou suas rotinas são um desfile interminável de almoços e jantares, conversas e festas? Para entrar nesses céus envoltos em mistério, as pessoas comuns se valem dos fenômenos da projeção e da identificação, que os fazem transferir seu ambiente psicológico para o habitat das celebridades, depois de conhecer seu lado humano e se identificar com seus gostos, atitudes e pensamentos. A felicidade frui quando alguém descobre: “puxa, sou um pouco parecido com ele (o ídolo)”. Nessa esteira, multiplicam-se as histórias sobre a “vida pessoal” de cantores, compositores, políticos, jogadores de futebol, ao mesmo tempo em que se expandem as revistas ilustradas e de “fait divers”, com matérias sobre o mundo artístico. As biografias não autorizadas constituem o acervo mais denso desse nicho. São ferramentas para furar as muralhas que cercam as fortalezas em que se encastelam estrelas da constelação olimpiana.

Dito isto, vem a pergunta: as vedetes da cultura de massa podem ter biografias não autorizadas sobre suas vidas ou os relatos devem receber sua prévia autorização? A resposta comporta, de início, considerar a faceta pública desses semideuses, tanto os políticos quanto os artistas. Uns e outros têm deveres para com a sociedade. Dependem do público. A partir do momento em que suas atividades são massificadas – fator de sucesso profissional – submetem-se ao ordenamento ético de prestar contas a quem os acompanha. Que inclui relatos não apenas das retas, mas das curvas de sua existência. A esse posicionamento público do artista e do político, soma-se o ditame constitucional que acolhe a manifestação de pensamento e da informação sem restrição. Se a honra, a vida privada e a imagem das pessoas são invioláveis, ainda nos termos constitucionais, lembre-se que há dispositivos no código penal contra danos morais, calúnia (art.138), difamação (art. 139) e injúria (art. 140), além da restrição às biografias, prevista pelo art. 20 do Código Civil. Países democráticos, como EUA, Canadá, Reino Unido, França, Espanha, não admitem qualquer censura às biografias não autorizadas, ao contrário de Rússia, China e Síria, por exemplo.

Imagine-se a execração pública de Bill Clinton se censurasse biografia sobre sua trajetória presidencial, nela incluído o episódio com a estagiária Mônica Lewinski. Aliás, os norte-americanos estão lendo avidamente o livro “Sexo na Casa Branca”, do historiador David Eisenbach e do editor Larry Flynt, que conta histórias impactantes, algumas conhecidas, mas não relatadas com detalhes, como as que envolveram os presidentes Abraham Lincoln, Thomas Jefferson, James Buchanan, Franklin Roosevelt e John Kennedy. Houvesse censura na Inglaterra, a história do príncipe Charles e Camila Parker teria sido guardada no baú. E também o caso mais escandaloso da política inglesa: o envolvimento do ministro da guerra, John Profumo, com a modelo Christine Keeler, no começo dos anos 60. Isso é importante? Sem dúvida. São as entranhas da política.

Estabelecer patamar diferente para político e artista é defender tratamento privilegiado para uns. É formar uma casta dentro da casta. Biografias autorizadas são livros de auto-glorificação, loas ao biografado. E querer cobrar do autor percentagem pela obra é apropriar-se de um direito que não pertence ao artista. Nas situações em que as biografias alavanquem a venda de discos, o autor da obra teria direito a uma percentagem da vendagem? Livros maldosos e mentirosos devem ir, sim, para a fogueira. Pelas mãos dos leitores, não pelo tacão da censura.

A bebida amarga

Sandro Vaia
Blog Noblat

Como beber dessa bebida amarga? Tragar a dor, engolir a labuta?

Eram maus tempos aqueles em que as pessoas se dedicavam ao delicado quebra-cabeça de ressignificar as metáforas que vinham semeadas com inteligência, escondidas entre as dobraduras dos textos de jornal e das letras de música.

Como era proibido falar com clareza, a censura obrigava a imaginação a se desdobrar em imagens poéticas para ser decifrada e fruída intelectualmente por aqueles a quem a trava das proibições era uma violência a merecer vingança.

E a vingança era a poesia que escapava à limitação intelectual dos censores.

Pois não é que agora os nossos construtores de metáforas, que incendiaram o imaginário popular com seus impiedosos versos, e aqueles que gritavam que era “proibido proibir” se transformaram eles mesmo na reencarnação moderna do mal contra o qual lutaram?

Como beber dessa bebida amarga?

Não há metáfora que esconda o verdadeiro sentido da ação do grupo Procure Saber, encabeçado pela famosa sabe-se-lá-o-quê Paula Lavigne: vetar biografia não autorizada é censura prévia. A Constituição, à qual um artigo do Código Civil não pode sobrepor-se, veta expressamente a censura prévia.

As justificativas que os nomes célebres que aderiram à causa alinhavaram em textos de jornal, tornaram a emenda pior que os seus piores sonetos. 

Caetano e Chico escreveram artigos desajeitados no jornal para justificar a sua posição; o primeiro chegou a escrever que topa uma biografia não autorizada de tipos como Sarney, sem dar-se conta que defendia a censura seletiva.

O segundo cometeu um pecado do qual teve que redimir-se pedindo desculpas: desmentiu ter dado uma entrevista, que o autor tinha gravado e, para vergonha do bardo, colocou no ar.

Dos defensores da causa, as vergonhas maiores ficaram para Paula Lavigne, que usou um programa de TV para cometer uma baixaria contra a colunista Bárbara Gancia, a pretexto de fazer uma analogia despropositada, e Marilia Pêra, que “monetizou” a questão com esta frase de rara infelicidade:

- É "doloroso" ver publicadas verdades indesejáveis sem compensação financeira ao biografado.

Ela quis dizer que com compensação financeira as “verdades indesejáveis” deixam de ser indesejáveis ou, com um pouco de boa vontade, devemos considerar que ela cometeu apenas uma impropriedade de linguagem? A dúvida e a vergonha alheia ficam pairando no ar.

Biografias honestas costumam ser narrativas históricas de fatos reais, que compõem as histórias de vida de personagens públicos. Se o autor relatar fatos que não aconteceram e incorrer em injúria contra o biografado, existem leis para reparar esses danos.

O que não há é lei que justifique a censura prévia. Afastem de nós esse cálice.

A economia no brejo

Suely Caldas
O Estado de S.Paulo 

Antecipada em um ano, a campanha eleitoral toma conta da cena nacional. A ela deve se aconchegar a economia, submeter-se humildemente aos interesses políticos dos candidatos orientados pelos marqueteiros que têm um único foco: ganhar eleição e ganhar eleição. Para isso vale sacrificar o que for preciso, inclusive o que foi penosamente conquistado, mas não tem visibilidade eleitoral e ainda carrega nomes esquisitos como câmbio flutuante, superávit primário e metas de inflação, o tripé que sustenta e dá fôlego à macroeconomia e foi alvo de contestações e debates, na última semana, entre os candidatos Marina Silva, Dilma Rousseff e Aécio Neves.

Do tripé, o mais frágil é o tal superávit primário (economia de dinheiro para pagar juros e conter a expansão da dívida pública). Afinal, ano eleitoral não serve para economizar dinheiro, serve é para gastar e, se faltar para o gasto, contraem-se novas dívidas, produz-se mais dinheiro. É tempo de festa. E, quanto mais animada e rica a festa, mais ludibriado é o eleitor, porque no fim de tudo é ele quem paga as despesas da alegria dos políticos.

A candidata do PT tem intensificado viagens pelo Brasil afora, inaugurando qualquer coisa, usando a máquina do governo para exibir realizações - algumas úteis, outras inúteis, inacabadas e capengas - e escondendo o que parou (a Transnordestina e a transposição do Rio São Francisco, por exemplo). Viaja quase diariamente, faz discursos, dá entrevistas a rádios locais, mas jura que não transgride a lei que proíbe antecipar campanha eleitoral. O tucano Aécio Neves e a dupla Marina-Eduardo Campos não têm máquina pública nem obras para inaugurar, mas cutucam e provocam Dilma, a líder nas pesquisas, e passaram ainda a criticar-se entre si na disputa pelo segundo lugar. Com isso, garantem exposição pública. E nesse ringue político, o desmanche do tripé macroeconômico foi o tema mais concorrido na semana.

O maior inimigo eleitoral de Dilma tem sido - e será em 2014 - o fiasco no crescimento econômico. O alívio do 2.º trimestre (o PIB cresceu 1,5%) rapidamente desmoronou e hoje não há, nem mesmo no governo, quem projete uma taxa positiva para o 3.º trimestre. Com isso o PIB pode fechar 2013 em torno de 2%, bem abaixo dos 2,9% projetados para a economia mundial. Os maiores amigos da candidata têm sido a geração de empregos e o aumento da renda salarial (com fôlego mais lento, é verdade, mas ainda crescendo), além do Bolsa Família e outros programas sociais.

Mesmo com uma taxa de investimento patinando em ridículos 18%, Dilma demorou a "descobrir" o que é tão óbvio: sem investimentos, a economia dá pulos, mas não cresce continuamente. Aí ela partiu para um programa de privatizações em infraestrutura, prometendo resultados grandiosos. Mas tropeços, trapalhadas, mudanças, intervenções do governo não permitiram ao programa decolar até agora.

É com a privatização que ela vive o pior dos mundos. Primeiro, porque é - e será na campanha eleitoral - uma palavra maldita, que o PT tratou de demonizar no enfrentamento eleitoral com os tucanos, e agora, na troca de lado, vai responder a acusações que já começaram (o ex-governador José Serra denunciou que o governo entregará o petróleo do pré-sal para o governo da China e petroleiros em greve ameaçam impedir a participação de Dilma no leilão de amanhã). Em segundo lugar, porque o tratamento que a presidente tem dispensado aos potenciais investidores - ora os tratando como desumanos perseguidores de lucros, ora a eles se rendendo e satisfazendo seus lobbies - causou incertezas e inseguranças até jurídicas tal o zigue-zague de mudanças de regras e miúdas intervenções do governo nas licitações para tentar acertar o que nasceu errado.

É claro que essa atuação desnorteada de Dilma e equipe contribuiu para minar a credibilidade do governo e distanciar o capital privado dos projetos de investimento. Agora o ministro Guido Mantega tenta fazer acreditar que o modelo mudou e voltarão as regras que vigoraram no governo tucano, até o primeiro mandato de Lula. Mas está difícil de convencer.

Para um bom domingo: Banksy

Elio Gaspari
O Globo

Grafiteiro inglês alegra Nova York

Banksy desceu em Nova York. O misterioso grafiteiro inglês, que foi saudado por um editorial do “Times”, está alegrando a cidade. Na capital do dinheiro, brincou com ele. No domingo passado, botou uma mesinha impessoal no Central Park, oferecendo por 60 dólares gravuras assinadas que no mercado valem até US$ 30 mil. Só três pessoas compraram as peças e uma senhora conseguiu 50% de desconto. As gravuras valiam US$ 225 mil.

Van Gogh pintou 900 quadros e só vendeu um, mas todos têm o direito de achar que seriam capazes de comprá-los, teria faltado apenas a oportunidade. Na tarde de domingo, umas mil pessoas passaram batidas pela mesinha dos Banksys. Isso, na cidade em que, em 1956, o Museu de Arte Moderna mandou uma carta a um artista pedindo que não lhe mandasse mais quadros, pois não os queria. Chamava-se Andy Warhol e hoje a Marilyn Dourada é uma das principais peças do seu acervo.

O misterioso Banksy faz do anonimato a suprema forma de estudada celebrização. Não se sabe ao certo quem ele é. Tem cerca de 40 anos, não se deixa fotografar, raramente dá entrevistas (sem mostrar o rosto) e tanto pode dizer uma coisa como o seu contrário. Cultiva essa imagem com advogados e até mesmo uma agência de relações públicas. Banksy solta seus grafites na rua e num deles, deixado no Bronx, a vizinhança pobre está cobrando US$ 20 dólares para quem quiser tirar fotos. Chamá-lo de grafiteiro é uma imprecisão, pois o que deixa nos muros são imagens feitas com moldes e sprays. Há nele poesia, delicadeza e um humor militante que ecoam Warhol. Copia-lhe alguns truques, mas falta-lhe a faísca. Suas raízes estão no francês Blek Le Rat, um tipo oposto no comportamento. É um parisiense convencional que fez um poderoso David de metralhadora em defesa de Israel, enquanto Banksy fez do mesmo David um homem-bomba.

Banksy é acima de tudo uma boa discussão. Gênio? Espertalhão? O lance do Central Park ajuda a vender suas obras nas galerias por centenas de milhares de dólares, mas também desmistifica o fetiche dos originais. Uma reprodução de um desenho de Banksy não tem porque valer US$ 30 mil, a menos que a pessoa queira pagar pelo autógrafo. (Por US$ 9.750 compra-se um bilhete assinado de Matisse e por US$ 9.500 leva-se uma carta manuscrita de Winston Churchill.) Como Banksy já grafitou: “Eu não entendo porque idiotas compram essas merdas”. (Dois deles: Brad Pitt, Angelina Jolie.) As três esculturas mais contempladas do mundo (o David de Michelangelo e as portas do Batistério de Florença, bem como os cavalos da Basílica de São Marcos, de Veneza) são cópias. Os originais estão por perto, em locais que deturpam o ambiente em que devem ser vistos.

Mesmo tendo parado de correr da polícia há tempo, Banksy, como todos os grafiteiros, tem uma aura de marginal. Ele não é um verdadeiro vândalo, dizem seus críticos. Banksy é hoje o mais conhecido artista plástico inglês. Ocupa o lugar deixado por Francis Bacon, morto em 1992. Nem de longe tem sua genialidade, muito menos sua essência verdadeiramente marginal. Prostituto na juventude e gay da pesada (vestia couros por cima e lingerie por baixo), quando lhe deram um atelier em área chique, fugiu. (Essas informações estão numa ótima biografia, que horrorizaria Roberto Carlos.) Banksy é o símbolo de uma grande arte, que há décadas é deixada nas ruas. Por elas passou Jean-Michel Basquiat, que tinha a faísca.

De graça, estão na rede 18 trabalhos que o grafiteiro espalhou por Nova York desde o dia 1º, alguns deles com vídeo e áudio. Para um bom domingo, basta ir a eles em banksy.co.uk.

Como se acobertou a morte de Amarildo?
A Polícia Civil do Rio parece ter desvendado o caso do pedreiro Amarildo. Ele teria sido assassinado na UPP da Rocinha. Já estão presos um major e nove PMs.

Falta a PM explicar como se deu a tentativa de acobertamento do crime. Como pifaram as câmeras que teriam registrado a saída do cidadão? Com que frequência elas pifam? Como e por que surgiu a versão segundo a qual traficantes puseram seu cadáver num carro de lixo? Como prosperou a história segundo a qual o traficante “Catatau” contou que Amarildo fora morto por bandidos?

Policiais asfixiando um preso com o saco de plástico da aplaudida cena de “Tropa de Elite” é um crime praticado por poucas pessoas. O acobertamento precisa de mais gente e da compreensão dos superiores. Ele corrói a instituição. A disciplina militar não pode impedir que se mate um preso, mas a instituição não pode carregar a fraude. Em 1971, o Exército acobertou o assassinato de Rubens Paiva no DOI do Rio. Inventaram um sequestro implausível, durante o qual ele teria fugido. O assassino de Paiva pode estar morto. Um dos oficiais que teriam tirado o cadáver do DOI já morreu, mas a fraude permanece, intacta, encravada na instituição.

Madame Natasha
A doutora Dilma lançou o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. Madame Natasha acredita que se deva lançar o Plano Nacional de Compreensão dos Planos do Planalto..

Em junho foi criado o cargo de diretor do Departamento de Racionalização das Exigências Estatais da Secretaria de Racionalização e Simplificação da Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da República.

Falta explicar
Se os cidadãos declararem suas rendas à Receita da mesma forma que o secretário do órgão, Carlos Alberto Barreto, explica o pedido de demissão do seu xerife da fiscalização, o Brasil quebra.

Caio Cândido foi-se embora reclamando da “influência externa em algumas decisões, com prevalência (...) de posições menos técnicas e divorciadas do melhor interesse”.

Barreto fez que não leu e atribuiu a decisão a um “natural desgaste”. Dias depois, retificou a declaração e disse que Cândido foi embora por causa de uma divergência legal. Cadê a “influência externa”?

Fiscais da Receita queriam investigar as conexões da empreiteira Delta. A iniciativa foi abatida em voo.

Chamem o Exército
O comissariado chamou o Exército para garantir o leilão do Campo de Libra.

No comício do dia 13 de março de 1964, João Goulart garantiu-se com a tropa. Deu no que deu.

Há dois meses o vice Michel Temer e o ministro da Defesa, Celso Amorim, chegaram à Academia Militar das Agulhas Negras com duas horas de atraso para a cerimônia de entrega dos espadins aos cadetes. 

Tomaram uma tremenda vaia. Está no YouTube.

Não é mais aquele

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Visto durante anos como símbolo de liberdade e de status, o automóvel passa por lento desmanche de prestígio, especialmente nas grandes cidades.

Como pode sentir-se livre e diferenciado o proprietário de um veículo que permanece engaiolado durante horas nos gigantescos congestionamentos de trânsito; que está sujeito a restrições exasperantes de circulação, como os rodízios e os corredores exclusivos de ônibus impostos pelo prefeito paulistano, Fernando Haddad; e que se sente vítima de uma indústria implacável de multas?

Ainda não apareceu quem denuncie o automóvel como causador de câncer, mas as relações com o que aconteceu com o cigarro começam a pipocar. O especialista em Sustentabilidade da consultoria Ernst & Young, Ricardo Catto, leva o assunto para o lado do marketing: "Assim como houve mudança de mentalidade em relação ao uso do tabaco, a indústria automotiva também terá que repensar seu modelo de negócio". Ele atribui o aumento do estresse ao volante e essa difusa sensação de impotência à falta de planejamento e a problemas crescentes de mobilidade (ou imobilidade) urbana. "Ser proprietário de um carro começa a ser malvisto é, até mesmo, como nocivo à sociedade."

O problema não se restringe às grandes cidades brasileiras. Nem se pode dizer que a "desmotorização" seja generalizada. "No Brasil, o sonho do automóvel como meio de transporte e de qualidade de vida continua de pé", diz Marcelo Cioffi, consultor do setor automotivo da PwC Brasil. Contribuem para isso a estrutura deficiente de transporte coletivo, o aumento de renda da população e as facilidades de acesso ao crédito.
Mas esse desmanche já é um processo em curso. Até mesmo no Brasil, grande número de jovens começa a entender que dirigir um carro atrapalha a enturmação digital, admite Cioffi. Tanto quanto é proibido atender ao celular quando se dirige um carro, também o é quando se tenta tuitar ou enviar torpedos eletrônicos nessas condições.

Nos Estados Unidos, se pudessem optar, nada menos que 30% dos jovens entre 18 e 24 anos prefeririam ter acesso à internet a possuir um carro. Só 12% dos adultos com 54 anos ou mais fariam a mesma escolha, aponta pesquisa realizada em 2012 pela consultoria Gartner. "Os mais jovens dão mais importância ao estilo de vida digital e a formas alternativas de mobilidade", reforça Thilo Koslowski, analista da Gartner.

Esse processo, no entanto, será relativamente lento e ocorrerá em ritmos diferentes em cada região do mundo. Mesmo nos Estados Unidos, a tendência de vendas de veículos é de crescimento, ao menos até 2015, avalia a consultoria Alix Partners. Os países em desenvolvimento, como Brasil, Rússia, Índia e China, deverão manter a demanda aquecida. Mas na Europa e no Japão a perspectiva é de estagnação.

Serviços de aluguel de carro por hora (car-sharing) e incentivos de empresas para caronas entre funcionários, comuns na Europa, ainda são raros no Brasil. "Cada vez mais carros são vendidos, mas não podemos construir mais ruas nas cidades", diz Ivar Bermtz, sócio da Deloitte. 

Colaborou Danielle Villela

Por que falta mão de obra qualificada no Brasil

Beatriz Souza
Exame.com

Segundo pesquisa da Hays, os principais desafios no Brasil são o mercado de trabalho inflexível e os altos custos para fazer negócios por aqui

REUTERS/Atef Hassan
Segundo a pesquisa, o Brasil sofre com a escassez 
de profissionais qualificados nas áreas de infraestrutura, petróleo e gás

São Paulo - Uma pesquisa que avalia a eficiência dos mercados de trabalho dos países, apontou que o Brasil está no caminho certo para ter um mercado de trabalho equilibrado - pelo menos do ponto de vista do empregador. A pesquisa "The Hays Global Skills Index 2013", elaborada pela empresa de recrutamento e seleção Hays, avaliou quão fácil ou difícil é para as empresas brasileiras recrutarem mão de obra qualificada (veja tabela ao final).

A pontuação brasileira caiu de 5.7, em 2012, para 5.6 neste ano. Segundo a Hays, uma nota perto de 5.0 significa que a capacidade das empresas do país de recrutar, reter ou substituir os seus talentos-chave é a ideal.

Em relação ao mercado de trabalho brasileiro, apesar da nota não tão distante da ideal, vivemos uma escassez de profissionais qualificados, especialmente em áreas onde a demanda está em um nível alto, como: infraestrutura e petróleo e gás.

O Brasil está entre os piores do ranking em termos de qualidade da educação do ensino secundário. "A história do desempenho educacional no nível secundário tem impacto na oferta de competências para os empregadores hoje e continuará a ter-lo no futuro, caso nada seja feito", afirma o relatório.

Segundo a Hays, os principais desafios no Brasil são o mercado de trabalho inflexível e os altos custos associados a fazer negócios por aqui. Por outro lado, o país é considerado o centro natural para o estabelecimento das multinacionais na América Latina, o que oferece oportunidades para os profissionais.

A pesquisa mosta ainda que as habilidades mais procuradas pelas empresas entre os trabalhadores brasileiros são o domínio da língua inglesa e pensamento estratégico. "As empresas brasileiras estão se concentrando em produtividade e na retenção de talentos", explica a diretora da Hays Brasil, Carla Rabelo. 
Mundo

A principal conclusão da pesquisa deste ano aponta que a eficiência dos mercados de trabalho não está diretamente relacionada com o estado atual da economia. "Nosso índice mostra que fatores estruturais, como educação e flexibilidade do mercado de trabalho, têm mais impacto sobre a eficiência deste mercado", afirma o relatório. 

A pesquisa demonstra que os países onde as empresas podem ser ágeis para reagir à dinâmica do mercado de trabalho - por exemplo ajustando os salários regionais - diminuem significativamente as chances de incompatibilidade de talentos e desemprego de longa duração.

Além disso, a Hays afirma que é preciso diminuir a diferença entre o que os jovens aprendem na universidade e o que o mercado de trabalho espera deles.

"A reforma da educação deve ser desenvolvida através de uma estreita colaboração entre os governos e a comunidade empresarial. Há uma séria desconexão entre empregadores, instituições de ensino superior e graduados quando se trata de requisitos educacionais", diz a pesquisa.

Como resultado, muitos jovens estão entrando no mercado de trabalho com uma qualificação 'no papel', mas sem as habilidades e experiências necessária para garantir o emprego a longo prazo.

Pesquisa
A pesquisa avaliou o quão fácil ou difícil é para as empresas de diversos países recrutarem mão de obra qualificada através de sete idicadores:

Flexibilidade da educação: mede se o sistema educacional consegue se adaptar às necessidades das empresas

Participação do mercado de trabalho: mede se o grau de talentos do país é totalmente utilizado. Uma pontuação alta indica que a proporção de pessoas em idade ativa que são empregados não está aumentando, o que indica restrições na disponibilidade de recursos adicionais.

Flexibilidade do mercado de trabalho: Avalia o ambiente legal e regulatório enfrentado pelas empresas. Uma pontuação mais alta significa que a legislação laboral é considerada inflexível e que há restrições em relação à colocação de imigrantes para preencher as lacunas de talentos.

Incompatibilidade de talentos: Mede o descompasso entre as competências necessárias por parte das empresas e das competências possuídas pela força de trabalho. A pontuação mais alta significa que a mão de obra disponível não tem as habilidades que os empregadores querem.

Pressão salarial geral: mede se os salários estão mantendo o ritmo com a inflação, que é uma medida de aperto global do mercado de trabalho. A pontuação mais alta significa que os salários reais estão aumentando rapidamente.

Pressão salarial em indústrias de alta competência: a pontuação mais alta significa que os salários em indústrias altamente qualificadas estão subindo mais rápido do que em setores de baixa qualificação.

Pressão salarial em ocupações de alta qualificação: Mede o prêmio salarial pago em ocupações altamente qualificadas, o que é um indicador da falta de talentos-chave. A pontuação mais alta significa que os salários em profissões altamente qualificadas estão subindo mais rápido do que em ocupações de baixa qualificação.

Lesa-pátria

Luiz Garcia
O Globo

Autoridades do ensino — nem todas, certamente — sofrem de um mal incurável: o desrespeito por esse patrimônio nacional que é o idioma que falamos e escrevemos

O Exame Nacional do Ensino Médio é, obviamente, instrumento indispensável para a avaliação da qualidade da educação no Brasil. Mais importante do que ele só pode ser o registro do avanço na alfabetização do nosso povo. Principalmente daqueles condenados, pelo berço, a não passarem das primeiras letras.

Mas, mesmo que o avanço no estabelecimento de relações saudáveis entre o ABC e a maioria dos brasileiros, no sertão e nas favelas, mostre índices animadores, é preciso, obviamente, ficarmos de olho no progresso do ensino médio. Simplesmente porque é dele que depende, em larga escala, o progresso do país. Talvez tanto, ou até mais, do que a qualidade do ensino universitário, inevitavelmente concentrado, quase todo ele, nos estados mais ricos.

As notícias mais recentes sobre o problema não são animadoras. O Exame Nacional do Ensino Médio do ano passado foi denunciado, por muitos professores — bons professores, evidentemente — por erros graves nos textos: candidatos que atropelaram sem dó o idioma conseguiram nota máxima. O próprio ministro da Educação, Aloízio Mercadante, prometeu que desta vez as provas serão — como sempre deveria ser — corrigidas severamente.

Em países que tratam a educação com o devido respeito, os professores que se revelarem incompetentes numa tarefa tão simples como a correção de provas do Ensino Médio serão reavaliados a propósito de sua competência para dar aulas.

Aqui, ocorre o fenômeno oposto. Em 2012, as normas para a correção das provas determinavam que erros na concordância dos verbos — um problema grave, certamente — “excluem a redação da pontuação mais alta”. Nas regras para 2013, essa exclusão não existe. Na verdade, não há qualquer referência aos erros de concordância. E ainda foi acrescentada uma colher de chá que não consegui entender: chama atenção para a existência do acento em “espanhóis”. Há algum tempo, uma reportagem do GLOBO registrou que provas do Enem com erros grosseiros, como “enchergar”, “rasoavel” e “trousse”, receberam nota máxima.

Pelo visto, as autoridades do ensino — nem todas, certamente — sofrem de um mal incurável: o desrespeito por esse patrimônio nacional que é o idioma que falamos e escrevemos. Não é grande exagero dizer que se trata de um crime de lesa-pátria.

Por que inovamos tão pouco?

Marcos Troyjo
Folha de S. Paulo

Produção científica brasileira gera cada vez mais artigos, mas poucos produtos inovadores

O número de patentes geradas a cada ano não é a única forma de medir o que um país produz em termos de inovação. Quando, no entanto, se trata de pedir registro de novas patentes à OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual), os números são embaraçosos.

Em 2012, os EUA entraram com 50 mil novos pedidos; China, 17 mil; Coreia do Sul, 11.000. Brasil? Pouco mais de 600.

Por que o Brasil vai mal em inovação intensiva em tecnologia quando o mundo nos vê criativos e empreendedores?

Nossa criatividade voltada ao mercado é bem-sucedida: o aclamado design das Havaianas e os cosméticos ecologicamente corretos da Natura são bons exemplos.

Ademais, o Relatório de 2010 do Global Entrepreneurship Monitor aponta o Brasil como o mais empreendedor dos países do G20.

Por que então não surgem mais startups brasileiras com potencial para virarem novos Googles ou Teslas? Bem, “criatividade não é suficiente”, estipulava Theodore Levitt. Para esse lendário guru de Harvard, “criatividade é pensar coisas novas, inovação é fazer coisas novas”.

A inovação brasileira é do tipo “adaptação criativa”, não a schumpeteriana “destruição criativa”, que reinventa setores e inaugura ciclos econômicos. É a isso que convida a política industrial de substituição de importações dos últimos dez anos.

Inovar vem da interação entre capital, conhecimento, empreendedorismo e um ecossistema que catalise tudo isso. Seria possível esperar do Brasil grandes inovações quando investimos apenas 1% de nosso PIB em pesquisa & desenvolvimento (P&D)? A média nos 20 países mais inovadores é de 2,3%.

O Brasil concentra 80% dos gastos com inovação em instituições governamentais. A maioria dedica-se à ciência pura. Interação com empresas não faz parte de seu ethos.

E nas universidades públicas muitos professores e alunos demonstram feroz resistência ideológica a laços estreitos com empresas.

A presidente Dilma Rousseff busca estimular a inovação por meio do “Ciência sem Fronteiras”. Ainda que louvável, o programa apenas tangencia a P&D orientada a mercado, o que requer do Brasil ambiente de negócios conducente à inovação.

Resultado: a “produção científica” brasileira expande-se com mais e mais artigos publicados em revistas indexadas, mas poucos produtos inovadores.

Mas se seu papel é chave, por que o setor privado investe tão pouco em inovação?

Abismo entre universidades e empresas. Políticas que sufocam a concorrência. Complexidades burocráticas, trabalhistas e fiscais a exaurir recursos que poderiam ser destinados a laboratórios e cientistas.

Eis os fatores que arrastam o Brasil à 56 ª posição no mais recente Relatório de Competitividade Global.

Nosso subdesempenho inovador tem menos que ver com deficiências na ciência, criatividade ou capacidade empreendedora e mais com camisas de força microeconômicas e institucionais. Os obstáculos que coíbem a inovação empresarial são os mesmos que bloqueiam nosso caminho à prosperidade.


Enem atrai quem há muito saiu da escola

Marina Azaredo, Victor Vieira e Angela Lacerda 
O Estado de S.Paulo

Do total de candidatos desta edição, 77% não estão no último ano do ensino médio

A quantidade de inscritos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pulou de 4,03 milhões para 7,11 milhões entre 2009 e 2013, mas poucos candidatos extras vêm direto da educação básica.

Embora avaliar o ensino médio fosse o objetivo da prova, quando criada, há 15 anos, 77% dos candidatos desta edição já estão fora da escola. Útil para vários objetivos - como vestibular de instituições públicas, acesso a bolsas em particulares, diploma de ensino médio e intercâmbio pelo Ciência sem Fronteiras - a prova tem atraído cada vez mais pessoas fora do grupo de concluintes do ensino médio.

Com dois filhos e dois netos, Brivaldo Maciel sequer passou pelo 3.º ano. Aos 57 anos, vai fazer o Enem para conseguir o certificado do ensino médio. Motorista de ônibus por mais de 20 anos, parou há dois anos para poder completar os estudos. Seu sonho é ser aprovado no exame e fazer o curso de Direito. Se não passar, pretende tentar de novo em 2014.

"Não tenho problema para desenvolver uma ideia, mas me enrolo com gramática", reconheceu ele, que divide o tempo entre biscates e aulas em um centro de educação para jovens e adultos no Recife. Um dos mais velhos da turma, e ganhou o apelido de "coroa" e "veinho".

Mariana Araújo, de 21 anos, acreditava que a fase de vestibulares havia ficado para trás quando entrou na Universidade Federal do Espírito Santo, em 2010. A situação mudou em junho deste ano, quando a jovem, que cursa Engenharia Civil, soube que o Enem se tornou obrigatório para o Ciência sem Fronteiras, que dá bolsas a alunos de graduação e pós no exterior.

Sem opções, após recorrer ao Ministério da Educação e à Justiça, ela fará o exame para tentar a viagem ao Reino Unido. "É difícil estudar porque tenho faculdade e estágio. Comecei há poucos dias." Para ela, as dificuldades são Biologia e Geografia, que usa pouco na faculdade.

Direto da escola. Já a estudante Aracelles Medrado, de 16 anos, pretende emendar o 3.º ano do ensino médio com o curso de Medicina em uma instituição pública. Com o Enem, ela concorre a vagas nas federais de Minas e Bahia pelo Sistema de Seleção Unificada, além de tentar Unicamp, USP e Unesp, que usam vestibulares próprios. "Os professores dão dicas sobre cada prova, mas não há tanta diferença em relação a conteúdo", diz. Nas últimas semanas, tem dedicado duas horas diárias aos livros, além do dia ocupado por aulas.

Beatriz Pereira, de 17 anos, preferiu rotina menos pesada. Além de não fazer o pré-Enem oferecido pela escola, a adolescente tira folga dos livros aos sábados. Interessada em um curso de gastronomia em instituição privada, acredita que deve ter menos dificuldades que os colegas que tentam universidades públicas disputadas. "Ano passado eu fiz como treineira e tirei boa nota."

O caso de Beatriz não é isolado. Com a disseminação de treineiros, é fácil encontrar veteranos entre quem mal concluiu o ensino médio. Fazendo a prova pela segunda vez, Antonio Nogueira Neto, de 16 anos, de Altamira, no Pará, pretende ingressar em algum curso de Engenharia da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, onde mora parte da família. Caso não consiga, o jovem tentará vaga pelo Programa Universidade para Todos (ProUni) do governo federal, que dá bolsas em instituições privadas.

Dicas. 
Na reta final, a especialista em educação Andrea Ramal recomenda fazer edições antigas do Enem para ficar mais acostumado com o formato da prova. Para quem se desdobra em vários processos seletivos, ela diz que é preciso priorizar o de mais interesse. "Mas, de modo geral, se estuda bem para um, está preparado para os outros", afirma Andrea.

Ciência sem Fronteiras abre inscrições para 20 países

Exame.com
Yara Aquino, Agência Brasil

Até o dia 29 de novembro estarão abertas as inscrições para quem quer concorrer a uma bolsa para graduação sanduíche do programa

Wikimedia Commons 
Sala de aula: o Ciência sem Fronteiras foi lançado em 2011 
com a meta de conceder 101 mil bolsas até 2014

Brasília – Até o dia 29 de novembro estarão abertas as inscrições para quem quer concorrer a uma bolsa para graduação sanduíche do Programa Ciência sem Fronteiras em 20 países. O edital de cada país está no site do programa.

As inscrições estão abertas para cursos no Reino Unido, na Bélgica, no Canadá, na Holanda, Finlândia, Austrália, Nova Zelândia, Coréia do Sul, Espanha, nos Estados Unidos, na Alemanha, França, Itália, Suécia, Noruega, Irlanda, China, Hungria, no Japão e na Áustria.

O Ciência sem Fronteiras foi lançado em 2011 com a meta de conceder 101 mil bolsas até 2014. Para se inscrever é preciso ter feito o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e obtido nota igual ou superior a 600 pontos, apresentar teste de proficiência no idioma aceito pela instituição de destino e ter cumprido no mínimo 20% e, no máximo, 90% do currículo do curso de graduação.

A bolsa concedida aos candidatos selecionados custeará a permanência do aluno por até 12 meses para a realização de estudos em tempo integral. Os estudantes também terão auxílio-instalação, seguro-saúde, auxílio-deslocamento para aquisição de passagens aéreas e auxílio-material didático.

O Enem de 2013

O Estado de S.Paulo

Marcado para os dias 26 e 27 deste mês e com cerca de 7,1 milhões de inscritos, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) mais uma vez será realizado em meio a uma polêmica sobre as implicações políticas de suas perguntas e os critérios de correção - principalmente o da prova de redação. Nas últimas edições, algumas questões foram formuladas com nítido viés ideológico, avaliando não o conhecimento dos alunos, mas sua opinião com relação a temas como direitos humanos e identidade sexual, por exemplo. No caso da redação, a falta de domínio das normas cultas do idioma não foi levada em conta na definição das notas.

Redações com erros grosseiros de ortografia - como "enchergar", "rasoavel" e "trousse"- e de acentuação, pontuação e concordância obtiveram a nota máxima na prova de 2012. Na época, vários pedagogos afirmaram que a concessão de nota máxima a quem não tem mérito leva os estudantes a se acomodarem e estimula a banalização da língua portuguesa, impedindo a formação de profissionais capazes de se comunicar corretamente. Refutando a crítica, o Ministério da Educação afirmou que a tolerância com erros de português decorreu da "consideração de ser o participante do Enem, por definição, um egresso do ensino médio, ainda em processo de letramento na transição para o nível superior".

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, prometeu mais rigor no Enem de 2013, afirmando que os corretores da prova tolerarão apenas "desvios pontuais" para a concessão de nota máxima. A divulgação do Guia do participante - a redação no Enem de 2013, contudo, mostra que a promessa dificilmente será cumprida. Com relação ao guia do ano passado, por exemplo, as menções a erros "mais graves", "graves" e "leves" foram suprimidas. Algumas redações a título de ilustração também contêm problemas de acentuação, erros de concordância e uso inadequado de palavras.

Para as autoridades educacionais, por ser mais conciso do que o do ano anterior, o guia de 2013 é "mais objetivo e rigoroso". Elas também afirmaram que os dois guias não poderiam ser comparados, pois foram formulados com base em editais distintos.

"Quando não sou muito conciso, dou margem a interpretações como as que vocês da imprensa questionaram, e, em alguns pontos, devidamente. Os corretores vão se basear no edital e na objetividade do texto. Se acharem excepcionalidade e não repetição (no erro), muito bem. O guia tem de ser aprimorado ao longo do tempo", diz Luís Cláudio Costa, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pela aplicação do Enem.

Para os pedagogos, o problema não está no aprimoramento do guia, mas na continuidade da leniência do Inep com a falta de domínio da norma-padrão da língua escrita.

"O Inep está dizendo explicitamente aos candidatos que um erro será perdoado. Quando digo que o Inep reforça a impressão de que o objetivo é subir as notas, estou me baseando nos números do Enem e comparando-os com o desempenho desses mesmos alunos em outros exames. Basta examinar os textos dos participantes do Enade para ver que o caos redacional impera", diz Claudio Henriques, titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da UERJ, depois de enumerar erros cometidos, como "egnorancia" e "bule" (bullying).

"Não pode haver maior ou menor rigor linguístico. A norma existe e deve ser obedecida. Erro de concordância é gravíssimo. Como posso ter um sujeito no plural e o verbo no singular? Se os candidatos não forem capazes de se fazer entender na língua materna, como terão condições de adquirir outros conhecimentos? Nivelaremos sempre por baixo?", pergunta o professor Jerônimo de Moraes Neto, da UFRJ.

Infelizmente, essa tem sido a sina do Enem. Em vez de valorizar apenas o conhecimento e o mérito, a avaliação faz concessões a "variantes linguísticas" e outros modismos pedagógicos, comprometendo sua credibilidade.

O fenômeno Dilma

Percival Puggina
Zero Hora

Uma pulga passeava, irrequieta, atrás da minha orelha. Dilma Rousseff ponteia as pesquisas. Mantido o panorama atual, vencerá sem dificuldade a eleição do ano que vem. Datafolha credita-lhe, nos vários cenários, o apoio bastante firme de 40% do eleitorado. A tal pulga ia para lá e para cá, desassossegada: como pode? 

Foi um feito de Lula, a primeira eleição da presidente. Guerrilheira que um dia sonhara tomar o poder pelas armas, Dilma haveria de receber esse poder - quem diria? - como um regalo de amigo. Coisa tipo - "Lembrei-me de você!". Em 2010, Lula tomou-a pela mão e saiu a apresentá-la aos brasileiros. "Muito prazer, Dilma Rousseff", dizia ela. "Mas pode chamá-la de mãe do PAC", completava ele, pimpão. Assim, de mão em mão, de grão em grão, as urnas foram enchendo o papo e Dilma subiu a rampa catapultada pelo voto de 55,7 milhões de brasileiros. Agora, quando seu governo sacoleja no trecho final, deve estar mandando lavar, passar e engomar a faixa presidencial para nova entronização. 

Contar com quarenta por cento dos 140 milhões de eleitores brasileiros significa que Dilma inicia a nova campanha com um estoque equivalente aos votos que obteve no segundo turno de 2010. Pois bem, o que eu me proponho trazer à apreciação dos leitores é a explicação para esse fenômeno. Fácil, como se verá. O SUS, sabe-se bem, caminha para a perfeição. Todos são atendidos a tempo e hora, em condições adequadas. Não há bom médico, no mundo, que não queira trabalhar aqui. A longa espera nas emergências tem se revelado um excelente meio de integração social e formação de novas camaradagens. Os finais de turno não deveriam ser brindados com champanha? A marcação de consultas especializadas e cirurgias segue cronograma rigoroso. Pontual e mortal. Doravante, insatisfeitos, procurem Raúl Castro! Aposentados do INSS providenciam passaportes e trotam mundo afora, efetivando aquele direito que Lula oposicionista apontava como coisa normal à velhice dos povos civilizados. A Educação, seja na base, cumprindo papel de promoção social e cultural, seja no topo, alinhando o Brasil com a elite tecnológica do planeta, opera prodígios na transformação da nossa realidade. A Economia? É lunática: contabilidade nova, inflação crescente, PIB minguante, carga tributária cheia... E a segurança pública enfim promove, como nunca antes neste país, digamos assim, o encontro dos criminosos com as grades e do povo com a paz social. Corrupção? Tudo intriga, maledicência, coisa de quem não tem o que falar. 

Repare como Dilma esbanja carisma. Não é uma sedutora? Que discursos! Palavra fácil, empolgante! Ao final de cada locução, os auditórios se erguem e aplaudem-na em pé, seja em Itapira, seja na ONU. Durante estes anos como "presidenta", não confirmou ela, plenamente, o que Lula assegurava a seu respeito? Observem como o governo foi bem gerenciado. Vejam o rigor com que se cumprem os prazos e se enxugam os gastos. O Brasil tem programa e cronograma, estratégias, previsões e provisões. Você duvida? Não prometera a presidente, aqui na terrinha, em 2010, que sua Porto Alegre teria, enfim, linha de metrô e nova ponte no Guaíba? Pois para desgosto dos incrédulos, as obras estão aí, novamente prometidíssimas! Basta que o Estado e o município, nos anos por vir, "casem" os bilhões que faltam. Um sucesso, o governo Dilma. Agora, se os motivos não se acham bem visíveis acima, então só resta procurá-los dentro das bolsas.

A garantia de Dilma

O Estado de S.Paulo

Quanto vale uma garantia dada pela presidente Dilma Rousseff? Em fevereiro do ano passado, Dilma esteve em Parnamirim (PE) para visitar um trecho das obras da ferrovia Transnordestina. Na ocasião, ela disse aos jornalistas que seu governo exigiria que os prazos da obra fossem cumpridos "sistematicamente" e assegurou que tomaria "todas as medidas" para atingir o objetivo de entregar a obra "até o final de 2014". A presidente foi enfática sobre sua disposição: "Não há limites para o que faremos". Pois bem. Na última quarta-feira, o governo anunciou que o prazo para a entrega da obra, que já havia sido estendido para dezembro de 2015, foi novamente alterado - e a previsão agora é de que a ferrovia seja inaugurada apenas em setembro de 2016, quase dois anos depois do que foi prometido por Dilma.

A Transnordestina é um caso exemplar da desconexão entre discurso e realidade nos governos petistas. A ferrovia, de 1.728 km, que ligará o sertão do Piauí aos litorais do Ceará e de Pernambuco, começou a ser construída em 2006, com a sua conclusão prometida para dezembro de 2010. Logo, se o último prazo anunciado for finalmente cumprido, terão sido quase seis anos de atraso.

Tal vexame não é um fato isolado numa área crucial para o desenvolvimento do País. O próprio ministro dos Transportes, César Borges, admitiu que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) executou apenas R$ 7 bilhões do orçamento de R$ 15 bilhões para este ano.

Borges atribuiu essa situação a uma série de entraves, como projetos mal elaborados, demora na concessão de licenças ambientais, disputas judiciais e exigências do Tribunal de Contas da União, cuja tarefa é apontar indícios de sobrepreço. Para o ministro, esses obstáculos legais afugentam as empreiteiras, que "reclamam que não há segurança jurídica", e "isso faz com que nós fiquemos meses, anos com problemas" - como se esses obstáculos não fossem causados, em primeiro lugar, pelo próprio governo.

As obras da Transnordestina começaram a atrasar em razão da liberação irregular de verbas e graças às dificuldades para realizar desapropriações. Houve casos em que o governo ofereceu entre R$ 6 e R$ 140 de indenização a agricultores que tiveram suas terras cortadas pela ferrovia. O Dnit nega que esses valores pífios estejam errados - o que evidencia os equívocos desse processo.

Enquanto isso, o preço da obra não para de subir. A ferrovia foi inicialmente orçada em R$ 4,5 bilhões. Na época, esse valor foi considerado muito inferior ao real, pois as primeiras projeções indicavam que seria necessário algo em torno de R$ 8 bilhões. Mas o governo exigiu mudanças no projeto, de forma a barateá-lo. Em 2010, no entanto, houve o primeiro reajuste do custo, para R$ 5,4 bilhões.

Quando Dilma visitou as obras, em 2012, ela disse ter "certeza" de que as projeções sobre o valor estavam "bem próximas da realidade" e que seu governo não pretendia "ficar elevando indefinidamente o preço dessa ferrovia". A certeza durou apenas 15 meses: em maio passado, a estimativa para a Transnordestina saltou para R$ 7,5 bilhões. Como o contrato é reajustado pela inflação, especula-se que o custo já tenha superado R$ 8 bilhões.

O ministro Borges defendeu os aumentos nos contratos: "Às vezes parece que os aditivos são uma coisa criminosa, mas os aditivos existem porque existe a realidade". O problema é que a "realidade" à qual o ministro se refere é menos um eventual aumento de custos criado por imprevistos e mais a incapacidade do governo de tirar seus projetos do papel.

A Transnordestina é uma obra estratégica. Com capacidade para transportar cerca de 30 milhões de toneladas por ano, a ferrovia permitirá que os produtores do Nordeste ganhem tempo e economizem recursos, pois evitarão o custoso transporte por caminhão e poderão escoar seus produtos por portos da região, sem depender de terminais do Sudeste. O investimento, portanto, é urgente. O que se espera do governo é que, sem mais delongas, simplesmente cumpra o que prometeu.