terça-feira, outubro 22, 2013

Maduro e o truque da eterna conspiração

Editorial
O Globo

Regimes autoritários costumam buscar fora do seu âmbito os responsáveis por fracassos. O novo presidente da Venezuela segue, neste aspecto, a cartilha de Chávez


Em geral são regimes autoritários, sem instituições republicanas, dependentes de um algum “pai da pátria”. Nos momentos de dificuldades, os líderes desses governos tendem a se esquivar de responsabilidades, e a forma mais usada para isso é responsabilizar algum inimigo interno ou externo, envolvido em alguma conspiração contra eles. Enquanto há oposição, ela é a culpada por tudo. Quando ela não mais existe, ou, de tão fragilizada, é como não se contasse, alguma força estrangeira será a causa das atribulações.

Mesmo quando o inimigo é real, ele cumpre inestimáveis favores. Até hoje, os irmãos Castro manipulam o anacrônico embargo comercial americano para esticar a sobrevida do não menos anacrônico stalinismo caribenho — ao lado da Coreia do Norte, um dos últimos parques temáticos do “socialismo real” à disposição de visitantes. O da Coreia, nem visitar é possível. A Venezuela chavista, de tão próxima a Cuba, usa o mesmo truque. Desde a fundação deste outro “parque temático”, no caso, do nacional-populismo latino, “conspirações externas” são denunciadas a cada piora no crônico desabastecimento no comércio de produtos de primeira necessidade, provocado, na verdade, pela política de estatização.

Além da evidente insegurança jurídica e institucional que afasta investidores privados da Venezuela — a não ser aqueles garantidos por governos amigos —, há uma enorme injeção de ineficiência no sistema produtivo e de intermediação. Se a poderosa União Soviética desabou devido a esta ineficiência, não seria a Venezuela que sobreviveria.

Herdeiro de Hugo Chávez, Nicolás Maduro copia o caudilho, inspirador e criador ao decretar a expulsão, no final de setembro, de três diplomatas americanos, sob a acusação de conspirarem “com a extrema-direita” (...) “para sabotar o sistema elétrico venezuelano, a economia e criar uma guerra psicológica”. Outro bode expiatório é o que resta de imprensa independente na Venezuela. Contra ela, Maduro fundou o Centro Estratégico de Segurança e Proteção da Pátria (Cesppa). O órgão censor visa, por exemplo, a coibir informações sobre a grave crise econômica. Nomear “conspiradores” ajuda a explicar os seguidos apagões no país. Três, desde o início do ano, dois em setembro. Num deles, 18 dos 24 estados venezuelanos ficaram às escuras. Só mesmo um sabotador neoliberal ou similar para explicar a falha. Mas como o tempo não para, será necessário desbaratar muitas conspirações a fim de explicar tantos problemas, inclusive uma inflação que se aproxima dos 50%.

A operação de caça ao “inimigo da pátria” volta e meia também é acionada na Argentina. Como na ditadura militar, quando o general-presidente Leopoldo Galtieri, com o regime cambaleante, invadiu as Malvinas. Obteve o desejado apoio popular, mas também atraiu uma esquadra inglesa, e a ditadura chegou ao fim do mesmo jeito. Mas ao desnecessário preço de mortos e feridos, jovens argentinos em sua maioria.