Adelson Elias Vasconcellos
Talvez tenha partido do Financial Times a melhor definição para o leilão do campo de Libra: “O leilão que não foi”. Com um único competidor, onde se encaixa a palavra “leilão”?
Por mais que o governo afirme que o dito “leilão” tenha sido um sucesso, na verdade ele se converteu em um mico desastroso. Tanto é assim que o consórcio vencedor ganhou a parada apenas com o lance mínimo, sem ágio algum, o que obriga, se tiverem juízo, nossos governantes a reverem com urgência o modelo proposto.
Não considero o modelo de partilha, adotado pelo governo o petista, como o melhor e mais seguro. Creio que o regime de concessão produziria maiores e melhores resultados. Tanto é assim que o próprio governo Dilma estuda mudar as regras para os próximos leilões, no que faz muito bem. É de se esperar que se reduza, portanto, a intervenção estatal para que se proporcione melhores lucros para o país. Mas esta já seria uma discussão posterior.
Um dos grandes males que afligem o Brasil, que o torna selvagem a cada dia, que transforma seus universitários em uma legião imensa de semi-analfabetos, que faz com que seus eleitores mantenham no poder cafajestes assumidos e corruptos empedernidos só porque são “simpáticos”, é teimosamente parte dos que poderiam contribuir para reduzir a pó estas mazelas todas, insistindo em se manter ou ignorantes ou descompromissados com os destinos de seu próprio país.
São ignorantes não por seu intelecto mas por seu espírito jurássico, trevoso. Renunciam a paz que a civilização é capaz de nos dar, e o progresso que nos torna seres melhores a cada dia, menos doentes e mais capazes de evoluir. Querem se manter primatas, no original, na essência mesma que o atraso moral, espiritual e até intelectual lhes permite viver em estado natural, grosseiros e estúpidos.
Quando leio as barbaridades que alguns membros do tal Black blocs, constato o quanto a lavagem cerebral é capaz de tornar selvagens levas e levas de seres que poderiam ser mais úteis se resolvessem evoluir e úteis a si mesmos. Acham que negar tudo, quebrar tudo, arrasar tudo torna suas vidas melhores. Torna-os, isto sim, mais selvagens, mais estúpidos, mais primitivos. São mais dignos de pena e desprezo do que de indignação. Mas num país livre e democrático, há leis para colocá-los no lugar próprios para a sua essência de animais selvagens: as jaulas dos presídios. Não merecem conviver sob o manto da paz que a civilização proporciona a quem ama, sobretudo, a própria liberdade evolutiva e considera a vida um valor inalienável, mesmo que com prazo de validade que acaba, dia mais, dia menos, para todos.
Nas últimas semanas vimos inúmeras manifestações de idiotas promovendo passeatas contra o leilão do Campo de Libra, o primeiro a ser explorado para a produção de óleo e gás na camada do pré-sal. Dizem os ignorantes que o leilão colocará uma riqueza nossa nas mãos do capital internacional. Como é triste ver gente desperdiçando tanto esforço em nome de causas absurdamente sem sentido. E burras.
Vamos ver. A grande maioria de empresas que participarão do leilão são estatais asiáticas, e a de maior capacidade econômica é nada menos do que chinesa. Será que os jurássicos que protestam preferem trocar o capitalismo ocidental pelo estatismo chinês? Um imperialismo por outro?
Os petroleiros da Petrobrás, que resolveram cruzar os braços em nome de uma causa burra, o fazem em nome de quê, afinal, se a Petrobrás é quem dará as cartas seja na operação de exploração seja nos lucros? Duvido que aqueles todos que se colocam contra o leilão tenham ao menos lido as regras. Se o fizessem, ao menos saberiam que não estamos entregando riqueza nenhuma a quem quer que seja. Todo o petróleo de Libra permanecerá sendo brasileiro, ora bolas.
E por que o leilão é necessário? Porque, simplesmente, a Petrobrás não tem a capacidade de investir o montante necessário para tornar Libra um campo produtivo e gerador de riquezas para o país. Ao atrair investidores parceiros, (e o nome correto é este: PARCEIROS), a Petrobrás, em troca de uma cota do produto a ser extraído, encherá as arcas do país de uma fortuna que, sozinha, ele não poderia obter.
Assim, onde está o perigo de lesa pátria como alguns ignorantes enchem a sua boca para proferir palavras de ordem nas passeatas? Estranha-nos o fato de a direção da Petrobrás não ter orientado seus funcionários sobre o que de fato estará sendo feito, quais as consequências positivas para o país e para a própria empresa, como resultado final da exploração partilhada do Campo de Libra.
Além disto, há um dado que precisa ser esclarecido. Nos últimos anos, a Petrobrás perdeu boa parte de sua capacidade de investir em razão da política de combustíveis adotada principalmente no governo Dilma, obrigando a estatal a comprar combustível lá fora a preços muito acima do que o governo permite praticar internamente. E isto é do conhecimento geral. Da mesma forma, durante o governo Lula a Petrobrás se pôs a comprar ativos no exterior verdadeiros desastres, do qual a Refinaria Pasadena, nos Estados Unidos, é o exemplo mais mal acabado do que representa uma gestão temerária.
Assim, se antes a capacidade de investimento poderia bancar ao menos uma parte do necessário à exploração da camada pré-sal, a gestão petista, tanto de Lula quanto de Dilma, fizeram desaparecer tal capacidade.
Se o país pretende explorar suas riquezas em benefício do seu povo, não pode se dar ao luxo de fazer beicinho ao capital externo que pode advir de uma parceria que em nada nos compromete. Pelo contrário. Ou será que alguém imagina que alguma alma magnânima nos doará bilhões de dólares apenas por sermos brasileiros? Se alguém investir em qualquer atividade econômica, não é justo que receba o justo pagamento? Ou alguém no país acha que pode ir ao Banco do Brasil, tomar lá uns R$ 500 mil de empréstimo e que o Banco não lhe cobrará além do principal, os juros de mercado? E, nem por isso, saímos por aí a fazer passeatas contra o Banco do Brasil, não é mesmo?
Assim, melhor fariam estes desavisados se racionassem de forma menos emocional, antes de brandir bandeiras e palavras de ordem contra uma suposta ação de lesa pátria que, vista não só em seu contexto, mas em toda a sua extensão de benefícios possíveis , através das parcerias que serão construídas com o leilão. Aliás,s é bom acrescentar e esclarecer: nem se trata de leilão, e sim de um processo de escolha de um parceiro, porque a rigor não está vendendo coisa alguma. O Brasil, senhores e senhoras, não está perdendo absolutamente nada, está apenas ganhando uma imensa fortuna.
Há um sindicalista que afirmou que o governo arrecadará apenas uma gorjeta de R$ 15 bilhões, para justificar a greve dos petroleiros. Ou o sujeito é mau caráter, ou não sabe ler. Os tais 15 bi são apenas a cota inicial, meu caro senhor. É como se, ao parcelar o pagamento do que será arrecadado, o parceiro tivesse que pagar um sinal inicial, para poder firmar um contrato de parceria. E o resto, meu camarada, você não leu, não é? Nesse modelo, o dono do petróleo é o Tesouro que reparte a produção (nas proporções previamente contratadas) com o consórcio, já deduzidos os custos. E adivinhe a quem tocará a parte do leão nesta divisão?
A Petrobrás, além de única operadora, ainda participaria em 30% do que tocar a cada consórcio vencedor. Na última hora, vendo o tamanho do desastre, aceitou elevar sua cota para 40%, exigência pelos participantes do consórcio vencedor para evitar um fracasso retumbante. Feitas as contas, impossível não reconhecer que o país não perde nada, a não ser a cota que será repassada ao parceiro da estatal brasileira, que ajudou a financiar a exploração. Afinal, ninguém investe sem que possa obter algum retorno.
E vejam que interessante: do petróleo total a ser produzido, nada mais nada menos do que 65% ficará com o Brasil, muito embora alguns afirmem 80% e a senhora Rousseff foi para a tevê garantir que será 85%. Conta errada. O certo é 65%, ou seja, os 41% do lance mínimo e mais 40% sobre o restante que tocará à Petrobrás. Esta cota da Petrobrás, é bom esclarecer, é calculada sobre o restante 59%, algo próximo à 24%. Tudo somado o resultado é 65%. Mesmo assim é um bom ganho. Pergunta chata: onde está a “doação” do patrimônio público que a greve burra não se cansou de berrar nas ruas, nas praças, nos jornais, nas televisões?
Se prejuízo houver, será pelo mau emprego que políticos e governantes possam fazer da fortuna que será gerada e arrecadada. Só que os estrangeiros, privados ou estatais, não têm culpa nenhuma neste sentido, já que nossos políticos e governantes são escolhidos por nós mesmos.
Mas a pérola do dia foi assistir dona Dilma explicando, em cadeia de rádio e televisão, que leilão não é privatização. Lembrando as campanhas presidenciais passadas, quando ela própria e Lula acusaram os tucanos de privatizar enquanto faziam concessões, a gente chega até a achar graça. A explicação agora, portanto, não tem preço.
