Adelson Elias Vasconcellos
O voto proferido pelo ministro Ricardo Lewandovski, como já me manifestei ontem, não me surpreendeu nem um pouco. Surpresa mesmo foi o seu rigor no voto contra Henrique Pizzolato, seja pela dureza de seu entendimento, seja pelo fato de restringir-se ao processo em si, seguindo, assim, o voto prolatado pelo ministro relator, Joaquim Barbosa.
Já a manha que empregou para inverter a sequência do relator, deixando para o fim o voto em relação a João Paulo Cunha, era demonstração de que iria seguir o roteiro já antecipado aqui.
Como não se pode entender que João Paulo Cunha não seja culpado pelos crimes a ele imputados pelo Ministério Público, quando, ao contrário do que afirmou Lewandovski, o petista recebeu dinheiro da conta de Marcos Valério e não do PT, como alegou o ministro revisor? Apenas por aí, é possível entender que o revisor despiu sua toga de ministro do STF, para vestir a roupagem de advogado de defesa do petista.
Como não levantar suspeição pelo papel que Lewandovswki esteja representando, se, ao invés de apenas absolver Luiz Gushiken, a exemplo do que já fizera tanto Roberto Gurgel quanto Joaquim Barbosa, não satisfeito, tratou de impor aquele desagravo final, e com tamanho entusiasmo que deve ter surpreendido o próprio advogado de defesa? Nem o partido de Gushiken chegou a tanto!
Além disso, qual peso deve ter o testemunho de Delúbio Soares no processo? E quanto a declarações de advogados de defesa dos réus? Pois para Lewandovski tem peso maior do que qualquer outra evidência quanto à corrupção praticada por João Paulo Cunha.
Custo a crer que o ministro revisor, de fato, esteja ali imbuído em praticar justiça. Ao contrário, parece pretender assar uma rodada de pizza ao melhor estilo e com sabores variados. Não me surpreenderei se, ao final, acabe livrando o núcleo político do processo, aceitando, passivamente, que a grana desviada do Banco do Brasil, e que pelo menos isto ele aceitou, tenha sido utilizada “apenas” fins eleitorais, de caixa 2, como Márcio Bastos, ainda como Ministro da Justiça, conseguiu inventar, como se o destino do dinheiro reduzisse a gravidade do desvio de dinheiro público!
Se ele seguir por este caminho, o que seria um absurdo processual completo, jogará no lixo as leis e a dignidade do STF. Como desde o início, Lewandovski vem se esmerando em jogar o processo para as calendas, apostando numa prescrição completa de penas, aliviando a barra dos grandes amigos de seu maior amigo e padrinho, e mesmo que sob tiroteio da opinião pública, ele entenderá ter cumprido sua “missão”, que não guardará nenhuma relação com o cargo em que se encontra investido.
Quanto as tais pesquisas supostamente pagas por João Paulo Cunha, o revisor resolveu ignorá-las. Sequer se deu ao trabalho de conhecer seu conteúdo, que era de natureza particular do acusado, e sem nenhum nexo com a Câmara, e com o acusado mentindo ser o PT o dono do dinheiro. Cheque de Marcos Valério nominal à SMP&B, do Banco Rural de Belo Horizonte, para ser recebido em Brasília? É tomar a todos por imbecis ao aceitar a versão cretina prestada por João Paulo Cunha e admitida como “verdadeira” pelo revisor...
Ora, as pesquisas foram amplamente esmiuçadas pelo ministro relator que deixou demonstrado que seu conteúdo não tinha nenhuma relação com a Câmara de Deputados. Aceitá-las como “confidenciais”, e não ir além disso, demonstra bem o espírito de total parcialidade do senhor Lewandovski.
Além disso, e ao contrário do que Lewandvski tentou argumentar, para justificar sua “absolvição”, João Paulo Cunha fez o mesmo que Henrique Pizzolato fizera no Banco do Brasil, e a quem Lewandovski condenou: autorizara a despesa, mesmo que o pagamento não tivesse sido feito por ele. Dada a autoridade que desfrutava, ao autorizar o pagamento, deu sinal verde, entendo que todas as cláusulas dispostas em contrato, haviam sido cumpridas. Pra, por que, então, dois pesos e duas medidas? Isto o ministro não explicou e sequer, parece, se interessou em saber. Afinal, para que serve a coerência, não é mesmo?
Nos meios de comunicação, estão sendo exibidos textos e vídeos de partes do voto do senhor Ricardo Lewandovski. Ao fim e ao cabo somos forçados em reconhecer que seu trabalho não foi o de revisar coisíssima nenhuma o voto do relator. Foi o de praticar uma lavanderia imensa nas acusações que pesavam sobre João Paulo Cunha. E o que é pior: tentou, ao longo de sua leitura, insuflar muitos dos ministros presentes, alisando-lhes o ego, numa tentativa vigarista de lhes condicionar o voto e o entendimento pelo desvirtuamento dos fatos que ele próprio praticou. Os demais ministros, ou pelo menos aqueles a quem Lewanadovski dirigiu-se, cairão na arapuca? Isto é algo que ainda veremos.
Que o ministro não se importe com as críticas que recebeu, conforme afirmou hoje, isto é lá problema dele. Contudo, deveria lembrar de que sua atitude atinge diretamente uma instituição republicana que pertence ao conjunto da sociedade. E, como bom cristão que é, ao menos é como se declara, poderia lembrar da máxima de Santo Agostinho: “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem.”
Afirmar como fez de que “...Tenho certeza de que o Brasil quer um Judiciário independente, com o juiz que não tenha medo de pressão de qualquer espécie”, deveria valer para os dois lados. Esta avenida tem duas mãos, A pressão a que o ministro diz ignorar para manifestar seu voto, não pode ser apenas a que é escrita e identificada. Vale também para as pressões subterrâneas e que ficam longe da opinião pública ou da mídia.
É evidente que cada juiz julga e vota de acordo com a sua consciência e, a partir dos fatos destacados e demonstrados no processo, dispor seu entendimento de acordo com o conjunto das leis. Certo? Mas o que o senhor Lewandovski não pode é agredir o bom senso comum, fazer birra infantil por não ver aceitas suas teses, ou, embirrar-se feito garoto malcriado, e ao contrário do que o próprio Regimento do STF dispõe, adjudicar para si um direito de tréplica que não lhe está assegurado, ameaçando abandonar o julgamento! Aliás, isto é bem mais do infantil, senhor ministro, muito mais...
Uma observação final: muito embora Lewandovski tenha inocentado João Paulo Cunha, faltando-lhe apenas pedir por sua canonização, o voto do revisor é apenas um dentre onze. O petista não está livre ainda da condenação. Isto só acontecerá se pelo menos cinco ministros aceitarem os argumentos de defesa proferidos pelo revisor. Portanto, antes de seus advogados e dele próprio soltarem rojões em comemoração, é bom que se acautelem. João Paulo Cunha ainda é réu, foi absolvido apenas por um dos onze ministros do STF.
Dada a reação negativa à postura de Ricardo Lewandovski, é bem provável que o petista venha, ao final, sair condenado o que, diante dos fatos conhecidos, seria a verdadeira justiça praticada pela Suprema Corte. A pizzaria na Praça dos Três Poderes ainda mora no Congresso Nacional.
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