sexta-feira, agosto 24, 2012

Greve é da democracia. Problema é uso desigual desse direito


Míriam Leitão 
O Globo 

As greves no setor público se espalham, interrompem vias de acesso dos cidadãos nas ruas das cidades e nos aeroportos. Produtos não chegam porque ficam retidos pela Anvisa ou pela Receita Federal nas alfândegas. Empresas ficam sem insumos. Há risco de faltarem alguns medicamentos. O custo recai sobre a economia e sobre as pessoas em geral. O contribuinte depois pagará os salários dos grevistas. O “Globo” fez a conta: em apenas cinco categorias, o custo dos salários pagos a trabalhadores foi de R$ 1 bilhão em sete anos. 

Direito de greve é democrático, trabalhador tem que ter a liberdade de usá-lo para mostrar sua insatisfação com salários, condições de trabalhos, imposições do empregador. Não existe democracia sem isso. O problema é que há no Brasil o uso desigual do direito de greve. 

Se empregados de empresas privadas ficassem dois meses de braços cruzados, eles perderiam seus empregos. Essa ameaça incentiva os trabalhadores a negociar. Servidores que têm estabilidade não serão demitidos, por isso o incentivo que recebem é para radicalizar. É da natureza humana. Se não há risco, vamos ao limite; se há perigos, vamos pensar cuidadosamente no que fazer. 

Há desigualdades no setor público. Algumas categorias tiveram aumentos muito altos, outras, não. Há uma tendência que já nos levou a armadilhas, que é a da isonomia entre categorias. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Não se pode equalizar tudo, porque a cada aumento que se der a um, todos vão requerer o mesmo, como se direito garantido fosse. No passado, nessa armadilha, o setor público tinha que dar aumentos sequenciais, porque havia elevado um grupo. Mas também o que faz sentido agora é olhar os que ficaram com seus salários baixos na comparação com outros do setor público e com os da iniciativa privada e corrigir distorções. 

O governo Lula aumentou bastante os salários e elevou muito a contratação. A hora é da sintonia fina, de dar atenção a quem está atrasado e não de dar novos aumentos para categorias fortes que já receberam reajustes grandes nos últimos anos. 

O governo Dilma demorou a negociar, a ter uma proposta e a agir. Achou que venceria pelo cansaço. E cansados estamos nós, contribuintes, que sustentamos o governo com os nossos impostos, sempre crescentes. Cansados de uma greve que não termina, em que o empregador não tem habilidade de negociação e os trabalhadores radicalizam antes de negociar.