Adelson Elias Vasconcellos
Assim, o discurso de Dilma não revela apenas soberana hipocrisia e fenomenal cinismo, mas profundo descaso e incapacidade para ouvir e compreender a alma do povo brasileiro.
Várias vezes já citei a capacidade que Lula tinha e que - parece haver ensinado direitinho sua pupila - Dilma parece haver herdado, de se descolarem de problemas que lhes digam respeito diretamente.
Em seus discursos, o ex-presidente falava das mazelas do país de tal forma que, aos ouvidos dos menos atentos, pareceria não ser ele o presidente, o responsável direto pelos erros, distorções e medidas erradas adotadas em seu governo. E, no entanto, deixou atrás de si, o esfacelamento completo da infraestrutura por teimosia ideológica, serviços públicos de responsabilidade da União em situação miserável.
Ontem, ao lançar o Marco da Mineração, Dilma reuniu-se antes com Lula e seu marqueteiro. Ou seja, enquanto o povo brasileiro vai às ruas reclamar suas demandas, Dilma parece mais preocupada em consultar o marqueteiro sobre o discurso que lhe garanta o palanque em 2014. Isto, por si só, já representa o quanto esta senhora é uma total despreparada para o cargo que ocupa. Quando um governante precisa consultar seus marqueteiros sobre o que dizer ao povo é porque, no fundo, ela não tem nada a dizer, não sabe o que dizer, não tem a menor noção de seu papel.
Se a coisa se resumisse a este figurino vergonhoso e patético, vá lá. Mas Dilma foi para o púlpito cumprir, rigorosa e religiosamente, o mesmo roteiro dos discursos de Lula, ou seja, tentou descolar-se das motivações que levaram às ruas milhares de brasileiros em todo o país. Teve a petulância de afirmar, em alto e bom som, que ela ouve a voz das ruas. Ora, perguntem aos ministros e assessores que trafegam pelo Planalto, se Dilma é dada a ouvir alguma coisa além de sua própria voz. Não uma voz qualquer, serena, equilibrada. Nada disso. Dilma não fala, berra, grita, explode, ofende, constrange, humilha, desqualifica quem quer que seja que ouse discordar de sua voz. Como poderia ouvir aquilo que afeta diretamente à sua incompetência no comando do país?
Saúde pública diz respeito a quem? Governo Federal. Tem hospitais que sequer esparadrapo tem para tratar os doentes. Pessoas estão estendidas em macas surradas e imundas pelos corredores. Grande parte dos médicos se nega a trabalhar em regime de escravidão, dada a remuneração vergonhosa que o governo federal lhes quer oferecer.
Educação pública diz respeito a quem? Governo Federal. Perguntem aos profissionais de ensino o quão miseráveis são suas condições de trabalho. Qualidade de ensino? Bastar olhar o ranking mundial e ver em que últimas colocações é classificada a qualidade de ensino de responsabilidade do MEC.
Corrupção? Em seu primeiro ano precisou dispensar vários ministros apontados como corruptos. Poupou aqueles que eram petistas. E, passado algum tempo, e sempre de olho nos palanques de 2014, chamou alguns de volta, como se nada tivesse acontecido.
Além disto, basta que se olhe com que tipo de político Dilma formou sua imensa base política de apoio no Congresso, e teremos a exata pouca importância que ela dedica à questões ...éticas.
Vejamos agora a questão do transporte público. No centro da crise financeira de 2008/2009, o governo do senhor Lula resolveu adotar medidas anti-crise, entre as quais a expansão desenfreada do crédito e a concessão de bilhões de incentivos fiscais para fabricação e venda de automóveis, que são veículos de transporte individual.
Dilma, ao assumir, deu sequência a esta expansão. O resultado desta política, foi entupir cidades grandes e médias com automóveis, tornando o trânsito que já era difícil, em verdadeiro caos. Por que a opção não foi investir estes bilhões no transporte coletivo, com implantação e extensão de linhas de metrô e trens de superfície, renovação e ampliação das frotas de ônibus para o transporte urbano? Mais: por que parte deste investimento não foi direcionado para as chamadas obras de mobilidade urbana, tão necessárias para desafogar o trânsito dos grandes centros?
Aí, o leitor dirá: mas a Copa do Mundo não iria dedicar investimentos para estas obras? Pois é, IRIA. O raio é que, como o governo da senhora Dilma muito mais gasta do que recebe, e gasta muito mal, resulta que o investimento público, ao invés de subir em seu governo, DESCEU.
Exemplo desta gastança irresponsável, perdulária, verdadeiro desperdício de recursos públicos, temos na reportagem do site Contas Aberta, informando que, só com copeiragem, o governo Dilma vai torrar módicos 6,8 milhões em 2013. Além dos estádios da copa, o governo já torrou outros 80,0 milhões em “outros estádios”. Do projeto original da copa, pelo menos 8 grandes obras de mobilidade urbana, em diferentes cidades, foram retiradas do projeto. Além disto, raríssimas serão as obras que o governo conseguirá entregar antes do início do evento, muitas sequer sairão do papel. Algumas, inclusive, só terminarão depois de encerrado o evento. Se não ficarem pelo caminho. Pelo menos metade do previsto a ser construído sequer saiu do papel. E, nunca é demais lembrar, que a escolha do Brasil para sediar os eventos das Copas das Confederações e do Mundo, se deu em outubro de 2007, portanto, há mais de seis anos e há obras AINDA HOJE em fase de PROJETO! Ora, e vem dona Dilma afirmar, com o maior cinismo, que ela ouve as vozes que vem das ruas?
O PT, minha cara soberana, saiba bem, está há mais de dez anos no poder, e não apresentou durante todos estes anos um miserável projeto em parceria com prefeituras e estados, para beneficiar justamente o transporte coletivo. E o que se dizer do transporte intermunicipal, que precisa enfrentar a buraqueira das estradas que o governo federal não conserta e não consegue lhes dar manutenção adequada?
Se alguém neste país deveria muito mais ouvir do que deitar falação sobre as razões da insatisfação popular, seria precisamente o governo de dona Dilma que, entre outras virtudes, teve a de fazer renascer, com toda a força, a inflação alta no país. Depois de tanto tempo no poder, torrando dinheiro às toneladas, com um aparelhamento indecente e insustentável do Estado, com a criação de estatais inúteis e dispendiosas, com gastança em itens de pura ostentação da corte faraônica erguida à sua volta, com a ampliação irresponsável de mais ministérios inúteis, que servem apenas como cabideiro de empregos para a companheirada vagabunda e fonte inesgotável de desperdício de recursos públicos, que moral tem esta senhora para afirmar que, além de ouvir as demandas da população, terá competência suficiente para atendê-la, se após tantos anos no poder, sequer consegue fazer o mínimo indispensável, além de regredir a economia brasileira a níveis de descontrole e desarrumação?
E o que dizer dos investimentos cada dia mais minguados no campo do saneamento básico e segurança pública por exemplo. Não, a senhora Dilma Rousseff deveria refletir sobre tudo o que o seu governo e o de seu padrinho deixaram de fazer estes anos todos, apesar das oportunidades, dos recursos e das necessidades estendidas à sua frente. Dizer que vai fazer, quando não fez quando podia e devia, é tentar mentir vergonhosamente e da situação tentar tirar proveito eleitoreiro com vistas à 2014.
Todas as demandas tem um dedo em que o governo federal tem sido o grande omisso e negligente. E se a gente for enveredar para o terreno da economia, então, Dilma Rousseff, fosse sincero o discurso, deveria ter feito um pedido de desculpas ao povo brasileiro pelo péssimo governo que realiza e que tem provocado este descontentamento em escala nacional.
Quem, senão ela e Lula, foram e são responsáveis pelas obras da Copa do Mundo e das Confederações? Informação: faltando muito para ser concluído, os custos com estes eventos já somam mais de R$ 28,0 bilhões, com acréscimo de R$ 1,5 bilhão desde o último cálculo.
A hipocrisia da soberana parece não ter limites. Tentar descolar-se do que se passa no Brasil é uma ação muito sórdida. Ao afirmar que o recado passado pela sociedade era para todos os governantes, o fez de tal forma que nem parecia ser ela a governante maior do país.
Como afirmei ontem, e o faço de novo, toda esta insatisfação demonstrada pela população, encontrará além das ruas, seu melhor canal de se externar e até de se vingar, nas urnas de 2014. Porque todas as mazelas reclamadas são produto único dos maus políticos, maus governantes, do apodrecimento das instituições, cujos ocupantes, lamentavelmente, foram colocados lá através do nosso descuidado voto.
É bom , é ótimo, trata-se até de um direito exigirmos cidadania. Porém, se não a exercitarmos, e delegarmos aos maus políticos a condução dos destinos do país, isto significa dizer o seguintes: incompetentes e irresponsáveis eles de fato são, grande parte até corrupta é. Porém, a culpa deles deterem o poder é do povo que os escolhe. Neste caso, fomos nós que prevaricamos ao deixar de exercer com seriedade nossa própria cidadania. Ninguém é responsável pelo direito que deixamos de exercer, ou exercermos mal, senão nós mesmos.
Chega ser até fácil cobrar dos políticos o respeito que eles nos negam, porém quem permitiu o desrespeito foi o nosso voto descuidado em maus políticos, inclusive aqueles com comprovado histórico de má conduta.
Porém, se Dilma for reeleita, e junto com ela forem reeleitos estas ratazanas que a apoiam, que o povo brasileiro ponha a mão na consciência, e reconheça o mea culpa. Foi para as ruas berrar por nada.
No seu falatório, lembrou que o povo reclama do mau uso do dinheiro público, esquecendo-se quem é que guarda a chave do cofre e assina os cheques que liberam a grana. Acrescente-se que, do PIB do país, o Estado retira mais de 38% em impostos variados e devolve tão somente menos de 2% ao distinto público. Assim, o discurso de Dilma não revela apenas soberana hipocrisia e fenomenal cinismo, mas profundo descaso e incapacidade para ouvir e compreender a alma do povo brasileiro.
Para encerrar. Ricardo Noblat, em seu blog, levantou uma questão bem interessante: Quanto custam as frequentes viagens de Dilma a São Paulo atrás de orientação de Lula? Sairia mais barato convocar Lula a Brasília ou, então, devolver logo o poder a ele.
É, faz sentido!






