quarta-feira, junho 19, 2013

Soberana hipocrisia

Adelson Elias Vasconcellos

Assim, o discurso de Dilma não revela apenas soberana hipocrisia e fenomenal cinismo, mas profundo  descaso e incapacidade para  ouvir e compreender a alma do povo brasileiro.  

Várias vezes já citei a capacidade que Lula tinha e que - parece haver ensinado direitinho sua pupila - Dilma parece haver herdado, de se descolarem de problemas que lhes digam respeito diretamente. 

Em seus discursos, o ex-presidente falava das mazelas do país de tal forma que, aos ouvidos dos menos atentos, pareceria não ser ele o presidente, o responsável direto pelos erros, distorções e medidas erradas adotadas em seu governo. E, no entanto, deixou atrás de si, o esfacelamento completo da infraestrutura por teimosia ideológica, serviços públicos de responsabilidade da União em situação miserável.

Ontem, ao lançar o Marco da Mineração, Dilma reuniu-se antes com Lula e seu marqueteiro. Ou seja, enquanto o povo brasileiro vai às ruas reclamar suas demandas, Dilma parece mais preocupada em consultar o marqueteiro sobre o discurso que lhe garanta o palanque em 2014. Isto, por si só, já representa o quanto esta senhora é uma total despreparada para o cargo que ocupa. Quando um governante precisa consultar seus marqueteiros sobre o que dizer ao povo é porque, no fundo, ela não tem nada a dizer, não sabe o que dizer, não tem a menor noção de seu papel.

Se a coisa se resumisse a este figurino  vergonhoso e patético, vá lá. Mas Dilma foi para o púlpito cumprir, rigorosa e religiosamente, o mesmo roteiro dos discursos de Lula, ou seja, tentou descolar-se das motivações que levaram às ruas milhares de brasileiros em todo o país.  Teve a petulância de afirmar, em alto e bom som, que ela ouve a voz das ruas. Ora, perguntem aos ministros e assessores que trafegam pelo Planalto, se Dilma é dada a ouvir alguma coisa além de sua própria voz.  Não uma voz qualquer, serena, equilibrada. Nada disso.  Dilma não fala, berra, grita, explode, ofende, constrange, humilha, desqualifica quem quer que seja que ouse discordar de sua voz. Como poderia ouvir aquilo que afeta diretamente à sua incompetência no comando do país?

Saúde pública diz respeito a quem? Governo Federal. Tem hospitais que sequer esparadrapo tem para tratar os doentes. Pessoas estão estendidas em macas surradas e imundas pelos corredores.  Grande parte dos médicos se nega a trabalhar em regime de escravidão, dada a remuneração vergonhosa que o governo federal lhes quer oferecer. 

Educação pública diz respeito a quem? Governo Federal. Perguntem aos profissionais de ensino o quão miseráveis são  suas condições de trabalho. Qualidade de ensino?  Bastar olhar o ranking mundial e ver em que últimas colocações é classificada a qualidade de ensino de responsabilidade do MEC.

Corrupção? Em seu primeiro ano precisou dispensar vários ministros apontados como corruptos. Poupou aqueles que eram petistas. E, passado algum tempo, e sempre de olho nos palanques de 2014, chamou alguns de volta, como se nada tivesse acontecido. 

Além disto, basta que se olhe com que tipo de político Dilma formou sua imensa base política de apoio no Congresso, e teremos a exata pouca importância que ela dedica à questões ...éticas.

Vejamos agora a questão do transporte público. No centro da crise financeira de 2008/2009, o governo do senhor Lula resolveu adotar medidas anti-crise, entre as quais a expansão desenfreada do crédito e a concessão de bilhões de incentivos fiscais para fabricação e venda de automóveis, que são veículos de transporte individual. 

Dilma, ao assumir, deu sequência a esta expansão. O resultado desta política, foi entupir cidades grandes e médias com automóveis, tornando o trânsito que já era difícil, em verdadeiro caos.  Por que a opção não foi investir estes bilhões no transporte coletivo, com implantação e extensão de linhas de metrô e trens de superfície, renovação e ampliação das frotas de ônibus para o transporte urbano? Mais: por que parte deste investimento não foi direcionado para as chamadas obras de mobilidade urbana, tão necessárias para desafogar o trânsito dos grandes centros?

Aí, o leitor dirá: mas a Copa do Mundo não iria dedicar investimentos para estas obras? Pois é, IRIA. O raio é que, como o governo da senhora Dilma muito mais gasta do que recebe, e gasta muito mal,  resulta que o investimento público, ao invés de subir em seu governo, DESCEU. 

Exemplo desta gastança irresponsável, perdulária, verdadeiro desperdício de recursos públicos, temos na reportagem do site Contas Aberta, informando  que, só com copeiragem, o governo Dilma vai torrar módicos 6,8 milhões em 2013. Além dos estádios da copa, o governo já torrou outros 80,0 milhões em “outros estádios”.  Do projeto original da copa,  pelo menos 8 grandes obras de mobilidade urbana, em diferentes cidades, foram retiradas do projeto. Além disto, raríssimas serão as obras que o governo conseguirá entregar antes do início do evento, muitas sequer sairão do papel. Algumas, inclusive, só terminarão depois de encerrado o evento. Se não ficarem pelo caminho. Pelo menos metade do previsto a ser construído sequer saiu do papel. E,  nunca é demais lembrar, que a escolha do Brasil para sediar os eventos das Copas das Confederações e do Mundo, se deu em outubro de 2007, portanto, há mais de seis anos e há obras AINDA HOJE  em fase de PROJETO! Ora, e vem dona Dilma afirmar, com o maior cinismo, que ela ouve as vozes que vem das ruas?

O PT, minha cara soberana, saiba bem, está há mais de dez anos no poder, e não apresentou  durante todos estes anos um miserável projeto em parceria com  prefeituras e estados, para beneficiar justamente o transporte coletivo. E o que se dizer do transporte intermunicipal, que precisa enfrentar a buraqueira das estradas que o governo federal não conserta e não consegue lhes dar manutenção adequada? 

Se alguém neste país deveria muito mais ouvir do que deitar falação sobre as razões da insatisfação popular, seria precisamente o governo de dona Dilma que, entre outras virtudes, teve a de fazer renascer, com toda a força, a inflação alta no país. Depois de tanto tempo no poder, torrando dinheiro às toneladas, com um aparelhamento indecente e insustentável do Estado, com a criação de estatais inúteis e dispendiosas, com gastança em itens de pura ostentação da corte faraônica erguida à sua volta, com a ampliação irresponsável de mais ministérios inúteis, que servem apenas como cabideiro de empregos para a companheirada vagabunda  e fonte inesgotável de desperdício de recursos públicos, que moral tem esta senhora para afirmar que, além de ouvir as demandas da população, terá competência suficiente para atendê-la, se após tantos anos no poder, sequer consegue fazer o mínimo indispensável, além de regredir a economia brasileira a níveis de descontrole e desarrumação?  

E o que dizer dos investimentos cada dia mais minguados no campo do saneamento básico e segurança pública por exemplo. Não, a senhora Dilma Rousseff deveria refletir sobre tudo o que o seu governo e o de seu padrinho deixaram de fazer estes anos todos, apesar das oportunidades, dos recursos   e das necessidades estendidas à sua frente.  Dizer que vai fazer, quando não fez quando podia e devia, é tentar mentir vergonhosamente e da situação tentar tirar proveito eleitoreiro com vistas à 2014. 

Todas as demandas tem um dedo em que o governo federal tem sido o grande omisso e negligente. E se a gente for enveredar para o terreno da economia, então, Dilma Rousseff, fosse sincero o discurso, deveria ter feito um pedido de desculpas ao povo brasileiro pelo péssimo governo que realiza e que tem provocado este descontentamento em escala nacional. 

Quem, senão ela e Lula, foram e são responsáveis pelas obras da Copa do Mundo e das Confederações?  Informação: faltando muito para ser concluído, os custos com estes eventos já somam mais de R$ 28,0 bilhões, com acréscimo de R$ 1,5 bilhão desde o último cálculo. 

A hipocrisia da soberana parece não ter limites. Tentar descolar-se do que se passa no Brasil é uma ação muito sórdida.   Ao afirmar que o recado passado pela sociedade era para todos os governantes, o fez de tal forma que nem parecia ser ela a governante maior do país. 

Como afirmei ontem, e o faço de novo, toda esta insatisfação demonstrada pela população, encontrará além das ruas, seu melhor canal de se externar e até de se vingar, nas urnas de 2014.  Porque todas as mazelas reclamadas são produto único dos maus políticos, maus governantes, do apodrecimento das instituições,  cujos ocupantes, lamentavelmente, foram colocados lá através do nosso descuidado voto. 

É bom , é ótimo, trata-se até de um direito exigirmos cidadania. Porém, se não a exercitarmos, e delegarmos aos maus políticos a condução dos destinos do país, isto significa dizer o seguintes: incompetentes e irresponsáveis eles de fato são, grande parte até corrupta é. Porém, a culpa deles deterem o poder é do povo que os escolhe. Neste caso, fomos nós que prevaricamos ao deixar de exercer com seriedade nossa própria cidadania. Ninguém é responsável pelo direito que deixamos de exercer, ou exercermos mal, senão nós mesmos. 

Chega ser até fácil cobrar dos políticos o respeito que eles nos negam, porém quem permitiu o desrespeito foi o nosso voto descuidado em maus políticos, inclusive aqueles com comprovado histórico de má conduta. 
Porém, se Dilma for reeleita, e junto com ela forem reeleitos estas ratazanas que a apoiam,  que o povo brasileiro ponha a mão na consciência, e reconheça o mea culpa. Foi para as ruas berrar por nada. 

No seu falatório, lembrou que o povo reclama do mau uso do dinheiro público, esquecendo-se  quem é que  guarda a chave do cofre e assina os cheques que liberam a grana.  Acrescente-se que, do PIB do país, o Estado retira mais de 38% em impostos variados e devolve tão somente menos de 2% ao distinto público. Assim, o discurso de Dilma não revela apenas soberana hipocrisia e fenomenal cinismo, mas profundo  descaso e incapacidade para  ouvir e compreender a alma do povo brasileiro.  

Para encerrar. Ricardo Noblat, em seu blog, levantou uma questão bem interessante: Quanto custam as frequentes viagens de Dilma a São Paulo atrás de orientação de Lula? Sairia mais barato convocar Lula a Brasília ou, então, devolver logo o poder a ele.

É, faz sentido!

O Brasil ainda confunde democracia com anarquia

Adelson Elias Vasconcellos

Quanta tolice podemos ouvir nas transmissões ao vivo dos protestos, principalmente os que se realizam em São Paulo. Sinceramente, adoraria saber onde certa gente aprendeu os conceitos que defende sobre democracia, sobre direitos de expressão. Escutem: as imagens que a telinha exibe, atinge, em certos momentos, o extremo radicalismo ea tal ponto que fica difícil que aquela coisa, parecida com gente, pendurada num mastro em frente à prefeitura de São Paulo, tentando por fogo na bandeira do Estado,  possa ser qualificada como um ser humano. Dizer, como certos apresentadores e âncoras, que é apenas lamentável, convenhamos,  é quase aplaudir um crime. Porque, tocar fogo na bandeira do Estado erguida em frente de um prédio público, gostem as Leilanes da vida ou não, é crime, sim senhor.~

Jogar pedras, quebrar vidros, jogar rojões contra funcionários do Estado é crime também, e deve ser condenado com a máxima veemência. Mas o que se ouve destes narradores de um espetáculo circense de terror, chega a ser  inacreditável. 

Há como que um consenso na grande imprensa brasileira: tudo é permitido, até deixar o vandalismo correr livre e solto, desde que a polícia se mantenha fora do pega-pega. Pergunta: a quem pertencem os prédios públicos pichados, vandalizados, arrebentados?  Ao povo, certo? E do bolso de quem sairá o custo dos consertos? E depois ainda querem achar “roubo” os vinte centavos a mais na tarifa do coletivo urbano? 

É preciso ser muito imbecil para ficar como que incentivando esta baderna toda. Temo que isto só tenha um fim no momento que aparecer um corpo estendido no chão, fruto de uma pedrada, de uma tijolada. Aliás, e não dá para negar, teve muito manifestante ferido pela violência de outros manifestantes.  E, muito embora se tenha exigido que a polícia se mantivesse à distância, ainda vão acusar a mesma polícia de omissão por conta do vandalismo e violência.  Na verdade, quem está jogando o povo contra as instituições são alguns jornalistas que não sabem distinguir a diferença entre democracia e anarquia. Democracia só existe com ordem, com limites. São estes limites que mantém as relações de harmonia entre tantos diferentes. 

Querer negar a missão indispensável das forças de segurança é apostar que o banditismo triunfou sobre a civilização. As pessoas no Brasil confundem ordem com repressão. Esta é a estupidez que faz aumentar a criminalidade ano após ano. E os bandidos estão todos por aí, soltos e livres para barbarizar as pessoas honestas, que trabalham e pagam impostos e veem suas vidas arremetidas na estupidez dos “formadores de opinião”.

Pergunto aos repórteres, principalmente os da Rede Globo e Globo News, por que eles escondem no meio da multidão, os logos dos seus microfones?  No dia em que encontrarem a resposta, talvez se deem conta de que, ao contrário de suas pregações e editoriais, a fala de seus âncoras muito mais incentivaram o quebra-quebra, do que o entendimento. Mas não são apenas os da Rede Globo e Globo News que confundem democracia com anarquismo. Regra geral, o que mais existe na imprensa brasileira são esquerdistas enrustidos. 

Praticamente, após a quinta feira da semana passada, a totalidade da imprensa não apenas condenou a violência policial, no que estava certa, mas mandou que ela se afastasse dos manifestantes, se possível que ficasse em casa assistindo tudo pela tevê. O assalto às Prefeituras, de Rio e São Paulo, a tentativa de invasão do Palácio Bandeirantes, sede do governo estadual de São Paulo, as lojas e agências depredadas quando não totalmente destruídas, as dezenas de saques, a tentativa covarde de linchamento de um policial por dezenas de bandidos, convenhamos, já deixou de ser manifestação pacífica. Trata-se da ação de vândalos, que devem ser chamados por aquilo que são: bandidos.   E, se não bastasse as  imagens absurdas de selvageria exibidas em tempo real pelas tevês, o comando de “fora policia” acabou se voltando contra jornalistas, a imprensa em geral, culminando com a destruição e incêndio de uma veículo de reportagem da TV Record. É o que dá flertar com a desordem, com a anarquia, com a bandidagem. 

Agora, assistam ao vídeo abaixo que já chegou na internet.



Ali temos a equipe de Caco Barcellos, que gravava (ou tentava gravar) matéria para seu programa  “Profissão Repórter”, que entendo ser um dos programas jornalísticos de melhor conteúdo e qualidade da Rede Globo.

Pois bem,  querendo colher depoimentos dos participantes dos protestos, viu-se cercado e foi obrigado ouvir um refrão bem carinhoso. Reparem: era um representante da imprensa que ali estava cumprindo seu trabalho.  Quando alguém berra por seu direito de se manifestar, mas,contraditoriamente, impede que a imprensa faça seu papel de informar e ainda a repudia, fica claro que esta gente só entende de democracia  salvo conduto para o tal “pode tudo”, até negar o exercício do mesmo direito aos outros. Isto é “manifestação pacífica”?

Interessante notar que a Globo fez questão de esconder o “carinho” recebido.

Vamos ver aonde esta bagunça vai dar. No fundo, e isto temo sinceramente, vai resultar em medidas de arremedo, os famosos puxadinhos, sem que o problema central, a má qualidade do transporte público fruto da falta de fiscalização pelas prefeituras, continuará escancarado  O transporte pode ter a tarifa que tiver, desde que a qualidade seja compatível com o preço. Em que a redução da tarifa vai resolver o problema que o lixo do transporte público se tornou? Resposta curta e grossa: EM NADA. Vai continuar o lixo que é, porque os governos, seja de que nível for,  não vao deixar de aumentar os salários de vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, ministros  e presidente para investir mais dinheiro no transporte público. Se alguém se ilude com tal possibilidade, vai morrer cansado de esperar.

E uma observação: a violência que se observa nas tais manifestações  que se querem pacíficas, revelam muito do povo brasileiro, onde boa parte vive de forma selvagem, com mentalidade primitiva, achando que liberdade libera o instinto animal para delinquir, de não se respeitar os limites legais e que se pode, de forma absolutamente pré histórica, invadir os direitos dos demais cidadãos.

Queria muito que a direção destas manifestações tomasse outro rumo. Mas, infelizmente, o que estamos assistindo é um radicalismo que não levará a coisa nenhuma, apenas a redução de uns poucos centavos nas tarifas, e nada mais. Todas as grandes questões que entravam  o desenvolvimento do país continuarão em aberto e sem solução. E o que é pior: grande parte do Brasil continuará sendo governada pelo crime organizado no poder. Parece ser este destino que estes imbecis escolheram impor à toda nação.

Quanto ao tal Movimento Passe Livre é preciso que as pessoas  tirem a venda dos olhos para enxergar com clareza diante do que estamos. Primeiro, entendem que por ter direito ao protesto pacífico,  isto não lhe concede nenhum dever. Assim, se encantam se puderem impedir o resto da cidade de seguir sua vida, seu caminho, seu trabalho, seus fazeres gerais, enfim. Não pode. O direito de um não se sobrepõe ao direito de outro. Este é um princípio elementar de qualquer democracia mais ou menos constituída.  Segundo, leio na Folha que um de seus líderes não condena os saques, as depredações, os assaltos, o quebra-quebra, a violência dos grupos ditos minoritários, que se juntaram ao bando todo. Ora, se ele que se quer pacífico, vivendo numa democracia plena como a brasileira, justifica o uso da violência e do terror como meio de atingir seus objetivos, então este Movimento Passe Livre democrata não é. Se lhe dessem o poder, converter-se-ia numa das mais terríveis ditaduras, uma vez que quer impor sua agenda, não importando quantos dela possam discordar, mesmo que tal discordância parta da maioria.  

Sob tal ângulo, preocupa-me a presença de pessoas estranhas ao MPL, porque estão se deixando seduzir por um movimento que agita uma bandeira aparentemente inocente, a da tarifa zero, mas que não passa de um delírio inviável. Estas outras pessoas  se unem às passeatas até para ali apresentarem sua agenda por outras demandas, mas  no fundo estão sendo iludidas por darem  trela e força para um grupo de pequenos déspotas travestidos de “bons meninos”. O simples negação em aceitar negociar,  já é prova suficiente  do  espírito nada democrático desta gente.

A sociedade com que o grupo sonha, lamento informar, só existe em ditadura e tiranias. É só observar as falas e os comportamentos dos líderes. E que se note:  até ontem, eles estiveram na base de apoio a Fernando Haddad e praticaram as mesmas agitações contra Kassab, com o propósito de desqualificar sua gestão e ver um petista sentado no trono. Seja pelo passado recente, seja por não condenarem a violência de uma parte de seus componentes, não me peça para me alinhar a esta gente.

Entendo ser  importante este alerta. Vejo pessoas engrossando o coro do que parece ser uma insatisfação nacional, para aumentar  as muitas causas do enorme mal estar geral que tomou conta do Brasil.

Assim, se tinha lá minhas reservas em relação ao movimento e sua utopia desde o início, e escrevi a respeito, ao ler e ouvir de seus líderes que toda a violência brutal empregada por gente ligada ao movimento se justifica, lamento informar, a reserva que agora faço é total. Não seria a este movimento que me juntaria. Não numa democracia, tampouco numa ditadura. Porque certamente, com eles no poder,  estaríamos em lados opostos. Eles no poder, e eu nas ruas pedindo a volta da democracia.  Talvez o tempo, este senhor da razão, acabe por revelar a verdadeira face destes “bons meninos” deixando a mostra seu extremismo e a verdadeira cor de suas bandeiras. Digo mais: não me venham traçar paralelo  entre estas manifestações de agora e as das ”Diretas Já”. A começar, porque  o movimento de 1984 ia para as praças e parques. Não interrompia o trânsito tampouco parava a cidade. Depois, os enormes comícios e passeatas se realizavam em finais de semana e feriados, também para não perturbar  o dia a dia das pessoas. Terceiro, e aqui temos a cereja do bolo que faz toda a diferença, lutavam para derrubar uma ditadura. Pergunto: em quais destas alternativas se encaixa as manifestações do Passe Livre?  E ATENÇÃO: chega a ser entristecedor ler que, dentre tantas centenas de cartazes, há alguns pedindo “‘ABAIXO A DITADURA”.   Digam lá, a que ditadura esta gente se refere? Ou eles acham que uma sociedade guiada pela lei e pela ordem, é ditadura?  Eis aí uma boa porta para aqueles que desejam entender este alarido que se espalhou pelo Brasil. Acho que muito jornalista, sociólogo, historiador e analista de botequim vai se surpreender  com o “lado” desta moçada.

Claro que entre os milhares que estão nas ruas, e disse isto aí em cima, há muitos que gritam por outras causas, muitas delas sensatas e justas. Viram nas manifestações a motivação ideal para protestarem também e mostrarem seu inconformismo com este governo de quinta categoria de dona Dilma. Mas não se iludam: para termos um país melhor, não precisamos nos abraçar ao diabo que até pode prometer o paraíso com que todos sonham, contudo, lembrem-se: ele apenas está em campanha. Depois...  

Nesta edição, assim como nas anteriores, há artigos que até festejam a agitação da moçada e que fiz questão de reproduzir. O objetivo era mostrar como o diabo é capaz de encantar e seduzir quando pretende atrair os incautos. Mas é preciso pesar bem os lados desta balança: só é admissível aceitar manifestações que não ponham a lei, a ordem,  as instituições, a democracia de lado para impor uma agenda absolutamente delirante, e que para atingir seu propósito admita como “revolta popular” a violência e os absurdos que ela produz. Isto, gente boa, chama-se fascismo, nunca foi e jamais será democracia.

Eu também quero um Brasil melhor, e para isso este blog foi criado. Tenho sido crítico ao extremo  das políticas implementadas pelo petismo a partir de 2003, por entender que elas muito mais mascaram uma realidade cruel do nosso povo, do que propriamente conseguem  resolvê-las em definitivo.  Quero menos Estado na vida das pessoas, por entender que compete ao indivíduo  empreender o esforço necessário ao seu crescimento e sucesso pessoal. Compete ao Estado, isto sim, e pela via da educação, fornecer a este indivíduo as armas e instrumentos necessários, com igualdade de oportunidades, para que este indivíduo faça suas escolhas e siga em frente. Não compete ao Estado determinar o que devemos comer, vestir, pensar, falar, comprar.  Sonho com uma sociedade justa sim, mas que valorize o mérito e o esforço individual em nome de seu progresso.

Para que se atinja tal ponto de civilidade, é preciso construir com trabalho, paciência, e determinação esta sociedade melhor, mas andando para frente,  e isto implica as gestores públicos cumprirem  suas obrigações essenciais, o que não acontece no Brasil, e que esta construção esteja sob a tutela do estado democrático e de direito. Com violência, gente, estaremos abraçando  o retrocesso até o ponto de barbárie.

Qualquer movimento, tenha quantas demandas justas tiver, mas que se guie por este norte, isto é, o da civilidade, terá meu apoio. Aquele que flertar com o obscurantismo, com a estupidez, com a agressão às instituições, que vimos ontem representada na tentativa de queima de um pavilhão do governo de São Paulo ou na queima de um carro da imprensa, ou, mais ainda, nas tentativas de assaltos às sedes de prefeituras e do governo do Estado, terá meu desprezo. Rejeito a ideia imbecil e primitiva de que os fins justificam os meios. Nunca numa democracia plena, jamais numa sociedade civilizada.  

Portanto, é um erro querer reduzir toda a agitação que se percebe no país apenas a questão tarifária do transporte público. Grande parte dos que estão nas ruas sequer utilizam transporte público. Quantos são os pobres que realmente se encontram ali? A grande maioria pertence, gostem ou não, a verdadeira classe média (não aquela “coisa” inventada pelo governo Dilma). E tem sido ela, a verdadeira classe média,  a mais prejudicada pelas políticas implementadas pelos governos do PT.   E ela revela, em toda a sua extensão, uma enorme insatisfação não apenas com o governo que repele e rejeita. Sua insatisfação se dá muito mais pela falta de representação política de seus anseios. Mesmo tendo votado  na oposição de forma maciça na eleição que deu vitória à Dilma, não conseguiu ver na ação das oposições a defesa de seus anseios e o acolhimento de suas demandas.  Mesmo que o governo até nem aceite tal consideração, o fato é que boa parte das manifestações atingem em cheio  o governo Dilma.

Querem mudar o Brasil, e para melhor? Ótimo, eu também quero. Em outubro de 2014 teremos a grande oportunidade para promover mudanças. Que toda esta insatisfação seja despejada nas urnas, não reelegendo nem Dilma Rousseff, tampouco toda a corte de corruptos e incompetentes que lhe dão sustentação política.

Aliás, Dilma mudou o discurso depois de consultar seus mentores. E sobre esta fala vamos tratar no próximo post. O discurso de ontem  da soberana  não é apenas fruto da análise e orientação de seu marqueteiro. Representa uma tremenda hipocrisia. Dilma diz que ouve a voz das ruas. Mentira. A única voz que Dilma ouve e dá atenção é a sua própria. Que o digam seus assessores e ministros, cansados de serem humilhados e constrangidos pelas grosserias e deseducação presidenciais. 

A vaia na veia

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

Em 30 de dezembro de 1974, quando o general Spinola renunciou à presidência de Portugal, cinco meses depois da Revolução dos  Cravos de 25 de Abril de 1974 que derrubou o salazarisno, assumiu o governo o general Costa Gomes, chefe do Estado-Maior do Exército e principal líder militar da Revolução.

Carlos Lacerda estava em Lisboa, foi visitar Costa Gomes, seu velho conhecido, no Palácio de Belém:

- Presidente, precisa ter cuidado com a infiltração comunista. Entre seus assessores diretos, conheço dois.
Costa Gomes pegou a caneta, começou a escrever números:

- Veja, doutor Lacerda. A União Soviética tem 250 milhões de comunistas. É a segunda potência do mundo. A China tem um bilhão de comunistas. É uma das cinco potências do mundo. Portugal tem esses dois, que o senhor conhece, e mais alguns, que eu conheço. Como o senhor vê, é uma porcentagem muito baixa de comunistas.

Lacerda, amigo de Spinola, afastado dias antes, não gostou. Foi embora. Essa historia foi relembrada à presidente Dilma Roussef, dias atrás, em Lisboa. Seria bom que a presidente recolhesse a lição.

A FAÍSCA
O general Costa Gomes, sereno, simpático, conversa espichada e muito esperto, que meus colegas portugueses chamavam de “General Cortiça” porque nunca afundava, sabia como o fogo crepita, mesmo quando ainda começando.  As fagulhas sociais costumam tornar-se fogueiras que podem chegar a incontroláveis incêndios.

O general viu a brutal guerra colonial de Salazar na África implodir de repente, quando a juventude portuguesa não quis mais ser bucha de canhão. Havia alguma força política organizada por trás do bravo Movimento dos Capitães. Sempre há. Havia o Partido Comunista de Álvaro Cunhal exilado em Moscou e o Socialista de Mario Soares em Paris.

Durante meio século Salazar conseguiu sustentar sua retrograda (teclados invertidos) e criminosa ditadura. Até que a estúpida guerra contra os africanos rebelados implodiu tudo. Foi a faísca no paiol.

ANARQUISTAS
Não se compara água com azeite. Atrás do oportuno e anônimo Movimento do Passe Livre, criado por estudantes de vários Estados,  também há meia dúzia de partidos nanicos inexpressivos. Mas nas ruas quem aos poucos assume o comando das ações que estão ocupando praças e avenidas pelo pais a fora é um punhado de grupos anarquistas, vândalos.

Rostos cobertos, camisas enroladas nas mãos, tênis sujos, eles avançam sobre os vidros de monumentos seculares, como o Palácio Tiradentes no Rio,  igrejas em São Paulo e vão quebrando ou pichando tudo. O governo finge não saber o que eles querem. Mas sabe e se cala.

PAULISTA
Não fazem discursos como nas passeatas de antigamente, não discutem posições políticas  nem sequer slogans produzem. É uma cerveja na mão, bombas nas mochilas, panos nos rostos e quebrar o que puder.

E vão arrastando cada dia mais gente atrás deles, porque têm um objetivo concreto : ocupar espaços como a Avenida Paulista e fazer deles fortalezas, como a Tahrir no Egito ou a Taksim na Turquia. Atenderam a brilhante e vitoriosa lição do lúcido delegado Mariano Beltrame  no Rio:

- Não adianta cercar,  subir, prender, trocar tiros, às vezes matar e ir embora. As favelas só deixarão de ser esconderijos de bandidos quando a policia ocupar, instalar-se e implantar serviços públicos. Ai viram bairros.

DILMA
A presidente Dilma ficou surpresa e literalmente possessa com a força e unanimidade da vaia que recebeu em Brasília na abertura da Copa das Federações. A vaia lhe entrou na veia. A maioria do pais sente-se enganada com o bla-blá-blá do PT, promessas de investimentos não  cumpridas, obras paradas, serviços públicos (saúde, educação, transportes e saneamento) cada dia piores, inflação e juros subindo e PIBinho descendo.

E eles achando que miúdos empréstimos da Caixa e do BB, isenções de impostos, tapeiam. Vão acabar, como Wando,  distribuindo  calcinhas.

O avanço invisível da crise

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Como é fácil prever o passado! Motivos para a insatisfação sempre houve, da falta de vergonha de muitos governantes aos preços altos, do transporte público deficiente aos impostos gigantescos, passando pelas ordens da FIFA que o Brasil atende com tanta presteza; mas os sinais de que a insatisfação transbordava para as ruas foram ignorados. 

Houve o tumulto da Bolsa-Família, houve o tumulto nas barcas do Rio de Janeiro, o tumulto do fechamento (que acabou sendo suspenso) da Feirinha da Madrugada, em São Paulo, e também em São Paulo os protestos, sempre na Avenida Paulista, ponto-chave da cidade, dos professores do ensino público, dos agentes penitenciários, dos agentes de saúde. Os confrontos com índios foram encarados como coisa pitoresca. Mas nada é pitoresco quando envolve vidas humanas. Outro sinal: as pesquisas mostram queda na avaliação dos Governos em geral, de todos os níveis, sejam de um ou outro partido. Os protestos contra o preço do tomate também foram tomados como coisa pequena - mas nada é pequeno quando atinge o bolso da família. E, claro, o tomate foi apenas um símbolo daquilo que incomodava de verdade a população: a alta dos preços. A reação foi a mesma de Maria Antonieta, a rainha da França, quando multidões reclamavam do preço do pão. "Se não têm pão, comam brioches".

A gota dágua foi a tarifa de ônibus. E agora? Talvez as manifestações se esvaziem com as férias escolares, talvez não. Sabe-se como os movimentos começam, mas não como acabam. 

E prever o passado é mais fácil do que o futuro.

E?
Há muita gente eufórica com o sucesso popular das manifestações. Imaginemos, entretanto, que apareça um anjo bom propondo-se a atender às reivindicações dos manifestantes. Que é que o Bom Anjo poderá fazer, se até agora não se sabe qual a pauta das manifestações? Há quem diga que o problema é a tarifa dos ônibus, ponto; há quem diga que a tarifa é apenas um dos problemas. 

OK: quais as exigências? Cancelar a Copa? Tornar obrigatória uma verba específica para Educação, e outra para a Saúde? Concluir a transposição das águas do rio São Francisco e livrar sabe-se lá quantas pessoas da seca? 

Apenas dizer que a praça é do povo o poeta Castro Alves já dizia, há um século e meio, e em belos versos.

A voz rouca
Entrada para o jogo do Brasil, no mínimo R$ 150,00. Uma garrafinha dágua, sete reais. Um cachorro-quente, R$ 12,00. Ver a presidente fechar a cara na hora das vaias, e imaginar o que deve ter dito a seus assessores, não tem preço.

O horror do som
Vaias e aplausos em estádios têm pouca importância. Lula foi vaiado e elegeu Dilma. Médici, o mais duro dos ditadores, foi aplaudido no templo das vaias, o Maracanã, e nunca se atreveu a disputar eleição. Mas, no caso atual, há um clima difuso de insatisfação no país. É difícil defender a multiplicação dos custos com a Copa, a política econômica que gera inflação e baixo crescimento, os subsídios a países estrangeiros para beneficiar empreiteiras brasileiras. É um clima ruim. 

Super-super-supersônico
O governador fluminense Sérgio Cabral Filho levou quatro horas para reagir ao quebra-quebra na Assembléia. Foi ágil: a viagem de Paris ao Rio costuma ser bem mais demorada.

Os homens invisíveis
Os destaques das manifestações foram três petistas de primeira linha:
1 - o prefeito paulistano Fernando Haddad. Dizem que pode ser encontrado ao lado de Wally, aquele de "onde está Wally?" Aumentou o ônibus e sumiu.

2 - o ministro da Educação e papagaio-de-pirata chefe, Aloízio Mercadante. Foi notadíssimo por não estar em seu posto normal de trabalho, no ombro direito da presidente Dilma, na hora em que ela foi vaiada no Estádio Mané Garrincha.

3 - O ex-presidente Lula, que se mantém em silêncio há mais de duzentos dias, desde a Operação Porto Seguro, e silente se manteve. 

Atribuiu-se a ele uma declaração, embora escrita, de que manifestação é coisa própria da democracia.

O homem visível
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi facílimo de encontrar durante a crise e falou sempre que teve chance. 

Seria melhor se tivesse se calado.

Os que ganham
No custo do transporte público estão embutidos impostos federais, estaduais e municipais, que oneram desde os veículos até os combustíveis, passando pelos salários. Já o transporte de luxo merece tratamento VIP: como revela o colunista Lauro Jardim (http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/), o Governo Federal oferece empréstimo a juros baratinhos, de 3% ao ano, com dez anos para pagamento, a quem comprar jatos executivos da Embraer. 

No programa social Minha Casa Melhor, os juros são de 5% ao ano, para pagamento em quatro anos.

A juventude de volta
Um assíduo leitor desta coluna rejubila-se: aos 52 anos, com duas faculdades concluídas, foi convidado para voltar a ser secundarista e ganhar carteirinha de meia entrada. 

O convite foi feito pelo telefone da UMES paulistana.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Os políticos em xeque

Merval Pereira
O Globo

A tomada simbólica da cúpula do Congresso Nacional pelos manifestantes de Brasília, e os ataques à Assembléia Legislativa no Rio, apesar de inaceitáveis como parte de manifestações democráticas que não deveriam dar lugar a depredações e vandalismos, sintetizam o espírito dos protestos espalhados por várias capitais do país.

O sociólogo Manuel Castells, um dos maiores especialistas em novas mídias, esteve no país recentemente e deu declarações sobre os movimentos mobilizados pelos novos meios sociais, chamando a atenção para o fato de que todos os dados mostram o desprestígio total dos políticos, partidos e parlamentos pelo mundo.

A descrença na democracia representativa levaria a que, se os cidadãos pudessem, mandariam todos embora, mas o sistema bloqueou as saídas, comentou Castells em entrevista à Folha de S. Paulo. Sua admiração pelos novos meios de comunicação, no entanto, não o leva a superdimensionar o poder desses instrumentos de mobilização.

Ele adverte que “não basta um manifesto no Facebook para mobilizar milhares de pessoas”. A mobilização dependeria do nível de descontentamento popular e da capacidade de mobilização de imagens e palavras, explicou. “A internet é uma condição necessária, mas não suficiente para que existam movimentos sociais”.

Também o professor Clay Shirky, autor do livro “The Political Power of Social Media”,( “O poder político dos meios sociais”) conclui na mesma linha, dizendo que “as redes por sí só não tem poder político, sendo necessário que a sociedade esteja madura para que seus efeitos aconteçam”. Castells diz que agora o cidadão tem “os meios tecnológicos para existir independentemente das instituições políticas e do sistema de comunicação de massa”.

Essa ação através das mídias sociais tenta preencher o que Castells define de “vazio de representação”, criado pela vulgarização da atividade político-partidária, que caiu no descrédito da nova geração de usuários da internet. 

Manoel Castells acha que um político ligado aos partidos convencionais dificilmente conseguiria superar essa rejeição, mas acredita que a ex-senadora Marina Silva tem condições de assumir esse papel. Sem se referir ao projeto de lei que está em tramitação no Senado que dificulta a criação de novos partidos, Castells previu que Marina “terá de enfrentar todo o sistema, porque um ponto sob o qual todos os partidos estão de acordo é manter o monopólio conjunto do poder”.

No seu livro “Comunicação e Poder”, Castells, já analisado aqui na coluna, chega à conclusão de que as redes de comunicação social mudam a lógica do poder na sociedade atual, e já não se pode fazer política se não se leva em conta a crescente autonomia e o dinamismo da sociedade, utilizando a desintermediação dos meios de comunicação. 

Os jovens da nova classe média, que deflagraram esses movimentos por todo o país, fazem parte de um conjunto de novos atores da política nacional que os políticos procuram entender e cooptar. A oposição, por que, como já advertira o ex-presidente Fernando Henrique, o “povão” estaria já cooptado pelos programas sociais do governo petista.

O governo, por que a presidente Dilma havia avançado muito sobre esse novo público, agregando novos eleitores aos tradicionais seguidores do PT, ampliando sua vantagem sobre a oposição. Pela motivação dos protestos pelo país, com críticas à corrupção dos políticos até à realização da Copa do Mundo pela falta de orçamento para setores que consideram mais importantes como saúde, educação e transportes públicos, o governo federal está no centro dos protestos.

Por esse motivo Fernando Henrique soltou uma nota ontem dizendo que “os governantes e as lideranças do país precisam atuar entendendo o porquê desses acontecimentos nas ruas. Desqualificá-los como ação de baderneiros é grave erro. (...) As razões se encontram na carestia, na má qualidade dos serviços públicos, na corrupção, no desencanto da juventude frente ao futuro". Também o ex-presidente Lula se manifestou,"Ninguém em sã consciência pode ser contra manifestações da sociedade civil porque a democracia não é um pacto de silêncio, mas sim a sociedade em movimentação em busca de novas conquistas". Ambos usaram o Facebook para suas manifestações.

No pé de quem?

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

O ministro Gilberto Carvalho parece que estava adivinhando. Em meados de dezembro, há exatos seis meses, o secretário-geral da Presidência da República gravou em vídeo uma saudação de fim de ano ao PT convocando a militância a ir às ruas "assim que passarem as festas".

Aconselhava os companheiros a "descansarem bem agora" porque "em 2013 o bicho vai pegar". Demorou um pouquinho, mas não deu outra: o bicho pegou.

Em configuração diferente daquela pretendida pelo ministro na convocatória de dezembro. Lá a ideia era "a gente ir para as ruas" em defesa do governo federal, contra os "ataques sem limites ao nosso querido presidente Lula".

Na concepção do ministro, em protesto a "eles". Quem? "Os mafiosos midiáticos da oposição ao Brasil", cujo objetivo único na versão natalina de Carvalho seria a destruição "do nosso projeto, do nosso governo, do nosso PT".

Note-se a expressão "da oposição ao Brasil". Refere-se a qualquer grupo, cidadão ou instituição que critique ou discorde do governo tornando-se, por isso, automaticamente inimigo do País.

O ministro atirou na imagem construída por devaneios persecutórios costumeiramente usados como armas de ataque disfarçadas em instrumentos de defesa, mas acertou em sentimentos distantes do alcance da vista.
Há exaustão, há revolta, há contrariedade. Mas não há por parte dos exaustos, dos revoltados, dos contrariados adesão a partido algum. Não que os manifestantes ou parte deles não tenham suas preferências, mas elas não se expressam na explosão da chama acesa pelo aumento das passagens de ônibus.

À exceção de grupos alojados em pequenas legendas cuja expressão é nenhuma, não há até agora a digital de partidos por trás dos protestos que pegaram o Brasil de surpresa.

De um modo geral os políticos têm evitado falar. Estão tentando entender o que se passa, antes de se pronunciar. Os poucos que o fizeram ou falaram bobagem ao repetir os velhos bordões sobre "orquestração" de adversários ou passaram ao largo da questão central: a discrepância entre a agenda do mundo política e as demandas de uma sociedade maltratada pelo Estado.

Seja ele representado por governantes do PT, PSDB, PMDB ou qualquer partido. Estão evidentemente à margem dessa mobilização popular. Além de não terem o menor interesse em transferir o jogo da política de espaços conhecidos (gabinetes, Congresso e tribunais) para o terreno desconhecido das ruas, são todos eles alvos da insatisfação.

Nessa altura quem aparecer para tentar capitalizar eleitoralmente a comoção provavelmente será repudiado. O levante também é motivado pelo descrédito na política. A desqualificação do Congresso, a preocupação exclusiva dos partidos com a disputa de votos, a discussão concentrada em eleição distante enquanto as condições objetivas da vida vão piorando dia a dia, não faz dos políticos aliados confiáveis.

Os "mafiosos midiáticos da oposição ao Brasil", referidos pelo ministro Gilberto Carvalho para (des) qualificar os críticos, como se vê não são mafiosos, não são midiáticos, não são inimigos do País. Ao contrário, estão chamando atenção para a indiferença do poder público, independentemente do matiz partidário.

O bicho realmente está pegando. Resta saber, porém, no pé de quem exatamente. Em outras palavras: é de se conferir para onde caminhará essa insatisfação quando chegar a hora de a manifestação se expressar nas urnas.

No momento a única certeza é a de que não se direciona em favor de força político-partidária alguma. De um lado é bom porque não permite que nossos representantes enfrentem a questão debitando o custo na conta do vizinho. De outro há o risco de se deixar prosperar a semente para a pregação do voto nulo, ferindo gravemente a representação.

O Monstro foi para a rua

Elio Gaspari
O Globo

JK percebeu quando ele saiu da caverna

Em dezembro de 1974, a oposição havia derrotado a ditadura nas urnas, elegendo 16 dos 21 senadores, e o ex-presidente Juscelino Kubitschek estava num almoço quando lhe perguntaram o que acontecia no Brasil.
— O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está em todos os lugares.

Abaixou-se, como se procurasse alguma coisa embaixo da mesa, e prosseguiu:

— Ele está em todos os lugares, aqui, ali, onde você imaginar.

— Que monstro?

— A opinião pública.

Dois anos depois JK morreu num acidente de automóvel e o Monstro levou-o nos ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá ocorreu a maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart.

Em 1984 o general Ernesto Geisel estava diante de uma fotografia da multidão que fora à Candelária para o comício das Diretas Já.

— Eu me rendo — disse o ex-presidente, adversário até a morte de eleições diretas em qualquer país, em qualquer época.

Demorou uma década, mas o Monstro prevaleceu. O oposicionista Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral e a ditadura finou-se.

O Monstro voltou. O mesmo que pôs Fernando Collor para fora do Planalto.

No melhor momento de seu magnífico “Pós-Guerra”, o historiador Tony Judt escreveu que “os anos 60 foram a grande Era da Teoria”. Havia teóricos de tudo e teorias para qualquer coisa. É natural que junho de 2013 desencadeie uma produção de teorias para explicar o que está acontecendo. Jogo jogado. Contudo, seria útil recapitular o que já aconteceu. Afinal, o que aconteceu, aconteceu, e o que está acontecendo, não se pode saber o que seja.

Aqui vão sete coisas que aconteceram nos últimos dez dias:

1 — O prefeito Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin subiram as tarifas e foram para Paris, avisando que não conversariam nem com os manifestantes. Mudaram de ideia.

2 — Geraldo Alckmin defendeu a ação da polícia na manifestação de quinta-feira passada. Mudou de ideia e pacificou sua PM.

3 — O comandante da PM disse que sua tropa de choque só atirou quando foi apedrejada. Quem estava na esquina da Rua da Consolação com Maria Antonia não viu isso.

4 — Dilma Rousseff foi vaiada num estádio onde a meia-entrada custou R$ 28,50 (nove passagens de ônibus a R$ 3,20.)

5 — O cartola Joseph Blatter, presidente da Fifa, mandarim de uma instituição metida em ladroeiras, achou que podia dar lição de moral aos nativos. (A Viúva gastará mais de R$ 7 bilhões nessa prioridade. Só no MaracanãX, torraram R$ 1,2 bilhão.)

6 — A repórter Fernanda Odilla revelou que o Itamaraty achou pequena a suíte de 81m2 do hotel Beverly Hills de Durban, na África do Sul, e hospedou a doutora Dilma no Hilton. (Por determinação do Planalto, essas informações tornaram-se reservadas e, a partir de agora, só serão divulgadas em 2015.)

7 — A cabala para diluir as penas dadas aos mensaleiros que correm o risco de serem mandados para o presídio do Tremembé vai bem, obrigado. O ministro Dias Toffoli, do STF, disse que os recursos dos réus poderão demorar dois anos para ir a julgamento.

Para completar uma lista de dez, cada um pode acrescentar mais três, ao seu gosto.

Políticos vivem psicose do que pode acontecer

Josias de Souza

É linda a revolta que nasceu de um reajuste de R$ 0,20 nas passagens de ônibus e resultou em 250 mil brasileiros fazendo barulho nas ruas. A beleza está na ausência do grande líder por trás do movimento. Atônitos, os políticos vivem a psicose do que ainda está por vir. Descobriram um inédito sentimento de vulnerabilidade. Sem exceção, viraram todos alvos do imponderável.

Políticos vivem atrás de uma teoria unificadora. Nas últimas horas, todos tentaram de tudo para chegar à explicação absoluta. Mas tudo não quis nada com os teóricos. Em 1992, Fernando Collor estava por trás da ira coletiva. Agora, nenhum político sente-se à vontade para atirar pedras em outro. Se o asfalto informa alguma coisa é que, para a turba, todos têm telhado, porta, janela, paletó e gravata de vidro.

A história ensina que não se deve esperar de políticos exames profundos de consciência ou atos espetaculares de contrição. Porém, o instinto de sobrevivência também pode abrir picadas para a virtude. Que o digam as autoridades de São Paulo –no intervalo de um final de semana, evoluíram da porrada e da bala de borracha para o diálogo e o recuo da tropa de choque.

Algo de muito diferente sucedeu nesta segunda-feira, 17 de junho de 2013. Há uma sensanção de prefácio no ar. Falta responder: prefácio de quê? Seja o que for, algo já ficou entendido: atrasado, o brasileiro aprendeu que, com um computador e dois neurônios, qualquer pessoa pode acender o pavio de uma revolta. Ninguém depende mais de partidos, sindicatos ou entidades.

Qualquer mote serve de pretexto: o preço da passagem, as borrachadas da polícia, a corrupção, a PEC 37, os gastos da Copa, a penúria da educação, o flagelo da saúde… A rapaziada informa que o brasileiro acomodado já não a representa. Resta saber como esse inconformismo difuso será exercido.

Com sorte, a revolta apartidária pode reintroduzir na política a crise do “de repente”. Os bambambãs saberão que, saída do nada, uma vaia pode soar num estádio, uma legião pode invadir a Avenida Paulista, uma multidão pode lotar a Candelária, uma meninada pode converter o espelho d’água do Congresso numa piscina.

'Passe Livre' vale mais

Arnaldo Jabor 
O Globo

Errei na avaliação do primeiro dia das manifestações contra aumento das passagens

“Eu sou um cão imperialista; eu sou o verme dos arrozais”! — assim começava a autocrítica de um alto dirigente chinês, creio que Peng Dehuai, por ousar criticar a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, que exterminou milhares de inocentes.

Talvez eu seja mesmo um “cão imperialista” porque, outro dia, eu errei. Sim. Errei na avaliação do primeiro dia das manifestações contra o aumento das passagens em SP. Falei na TV sobre o que me pareceu um bando de irresponsáveis pequenos burgueses fazendo provocações por 20 centavos. Era muito mais que isso, apesar de parecer assim. Pois eu, “lacaio da direita fascista”, fiz um erro de avaliação.

Este movimento que começou outro dia tinha toda a cara de anarquismo inútil. E (quem acredita?), critiquei-o porque temia que tanta energia fosse gasta em bobagens, quando há graves problemas a enfrentar no Brasil. Eu falei em “ausência de causas”, em “revolta sem rumo”.

Mas, a partir de quinta-feira, com a violência maior da polícia, ficou claro que o movimento expressava uma inquietação que tardara muito no país pois, logo que eu comecei a escrever em 1992 (quando muitos manifestantes estavam nascendo), faltava o retorno de algo como os “caras pintadas” — os jovens derrubaram um presidente.

Mas, não falo por justificar-me. Erros se explicam mas não se justificam, como diziam no serviço militar. Portanto, errei.

Mas agora peço atenção (e uma pausa nos esculachos contra mim) aos jovens que me leem, para algumas linhas sobre este fenômeno que surgiu nas redes sociais e em milhares de “sacos cheios” por tanta paralisia política no Brasil e no mundo.

Hoje eu acho que o movimento Passe Livre expandiu-se como uma força política original, até mais rica do que os “caras pintadas”, justamente porque não tem um rumo, um objetivo certo a priori. Assim, começaram vários fatos novos em países árabes, na Europa e USA. E volto a dizer que essa ausência de rumos é muito dinâmica e mutante. Como cantou Cazuza: “As ideias não correspondem mais aos fatos”, que são hoje muito mais complexos do que as interpretações que eram disponíveis, entre progressistas e reacionários.

Como bem escreveu Carlos Diegues: “O movimento é importante porque talvez o mundo tenha perdido a esperança em mudanças radicais. Talvez porque a ‘revolução’ tenha perdido prestígio para a mobilidade social. Talvez por não nos sentirmos mais representados por nenhuma força política (...) os jovens do Movimento Passe Livre trazem agora para Rio de Janeiro e São Paulo e outros estados esse novo estilo de contestação, típico do século XXI — uma contestação pontual, sem propriamente projeto de nação ou de sociedade.” É isso.

Não vivemos diante de “acontecimentos”, mas só de incertezas, de “não acontecimentos”. Na mídia, só vemos narrativas de fracassos, de impunidades, de “quase vitórias”, de derrotas diante do Mal, do bruto e do escroto.

O mundo está em crise de representatividade. Essa perplexidade provoca a busca de novos procedimentos, de novas ideologias, de uma análise mais cética diante de velhas certezas. E toda essa energia tem de ser canalizada para melhorar as condições de vida do Brasil, desde o desprezo com que se tratam os passageiros pobres de ônibus, passando pelo escândalo ecológico, passando pela velhice do Código Penal do país que legitima a corrupção institucionalizada. O importante nessas novas manifestações é que elas (graças a Deus) não querem explicar a complexidade do mundo com umas poucas causas onde se trancam os fatos.

Eu sei, eu sei que é difícil escapar do “ideologismo; sei que a ideia de complexidade é vista como “frescura” e que macho mesmo é simplista, radical, totalizante. Mas, no mundo atual, a inovação está no parcial, no pensamento indutivo, em descobrir o Mal entranhado em aparências de Bem.

Sei também que é muito encantador uma luta mais genérica, a “insustentável leveza do ser revolucionário”, que cria figuras como os “militantes imaginários” que analisei outro dia. Estes jovens saíram da condição de torcedores por um time ou um partido e estão militando concretamente. O perigo é serem esvaziados, como foi Occupy Wall Street.

É fundamental que o Passe Livre se amplie e persiga objetivos concretos.

Tudo esta parado no país e essa oportunidade não pode ser perdida. De um fato pequeno pode sair muita coisa, muito crime pode estar escondido atrás de uma bobagem. Os fatos concretos são valiosos. Exemplo: não basta lutar genericamente contra a corrupção. Há que se deter em fatos singulares e exemplares, como a terrível ameaça da PEC 37 que será votada daqui a uma semana e que acaba na prática com o Ministério Público, que pode reverter as punições do “mensalão,” pode acabar até com o processo da morte de Celso Daniel; fatos concretos como a posse do Feliciano ou o extraordinário Renan em suas duas horas de presidente da República. Se não houver “núcleos” duros dos fatos, dos acontecimentos presentes e prováveis, as denúncias caem no vazio abstrato tão ibérico e tão do agrado dos corruptos e demagogos.

Por isso, permito-me sugerir alguns alvos bons:

Descobrir e denunciar por que a Petrobras comprou uma refinaria por 1 bilhão de dólares em Pasadena, Texas, se ela só vale 100 milhões? Por quê?

Por que a Ferrovia Norte Sul, que está sendo feita desde a era Sarney, ainda quer mais 100 milhões para mais um trechinho. Saibam que na época, há 27 anos, a “Folha de S. Paulo” fez uma denúncia genial: botou na página de classificados um anúncio discreto onde estava o resultado da concorrência dois dias antes de abrirem as propostas. Claro que a concorrência era malhada. Foi um escândalo mas continuou até hoje, comandada pela Valec, de onde o ex-diretor Juquinha, indescritível afilhado do Sarney, supostamente teria tascado 100 milhões.

Por que as obras do Rio São Francisco estão secas?

Por que obras públicas custam o dobro dos orçamentos?

Por que a inflação está voltando? Por que a infraestrutura do país está destruída?

Por quê?

O protesto brasileiro

Fernando Gabeira

... fácil supor como os acontecimentos mexeram comigo e me trouxeram esperança. Sem prejuízo do trabalho, pretendo agora voltar com um texto diário. As vezes não dá nem esperar um dia. De qualquer forma, até amanhã. No Rio, onde se fez a maior manifestação do Brasil, houve violência e isto não é bom

Os acontecimentos se precipitam, a noite ainda não acabou. Mas sinto-me no dever de dizer que estou aqui, acompanhando tudo.

Durante a semana, preparo o artigo para o Estado de São Paulo. É um comentário, entre outras coisas, sobre o livro de Manuel Castells, Redes de Indignação e Esperança. Ele analisou a Primavera Arabe, o movimento Occupy Wall Street, os jovens indignados na Espanha e analisou o caso pioneiro da Islândia.

O Brasil entrou no mapa internacional das grandes revoltas populares articuladas pelas redes sociais na internet.

Fiz hoje um texto para a Band, acrescentando essa ideia: em quase todos lugares, o movimento começa com uma reinvidicação pontual e termina com uma vontade de mudar o país.

Isso já aparece nos cartazes das manifestações dos brasileiros aqui e no exterior: desculpem o transtorno mas estamos mudando o Brasil.

Alguma coisa começou e não sabemos todos os seus contornos. Uma revista me perguntou hoje como via o futuro. Disse que o cenário era mais complexo no ano que vem, quando teremos Copa do Mundo, eleições presidenciais e perigo de inflação.

Joseph Blatter falando pela FIFA e expressando também o desejo do governo afirmou que a Copa das Confederações vai arrebatar os brasileiros e vão esquecer de seus problemas.

É uma ilusão porque também estão em jogo nas manifestações os gastos com a Copa do Mundo. Ao que tudo indica, as pessoas pedem melhores serviços públicos e combate à corrupção.

É ridículo supor que vão abrir mão de suas queixas apenas porque o Brasil conquistou o título.

Joseph Blatter também perguntou onde estavam a educação e o fair play quando o estádio vaiou Dilma em Brasília.

Ele nos vê como torcedores porque está em curso um projeto milionário que enriquece a Fifa e alguns grupos, mas leva enormes recursos do povo brasileiro.

É fácil supor como os acontecimentos mexeram comigo e me trouxeram esperança. Sem prejuízo do trabalho, pretendo agora voltar com um texto diário. As vezes não dá nem esperar um dia. De qualquer forma, até amanhã.

No Rio, onde se fez a maior manifestação do Brasil, houve violência e isto não é bom.

Um dos aprendizados do século XX foi rejeitar a tese de que os fins justificam os meios.

Sei que os conselhos as vezes parecem pretensão. Mas a história nunca começa do zero, sempre é renovada com as lições do passado.

É possível questionar o transporte coletivo, os gastos da Copa, os serviços públicos, falar em mudanças no Brasil - tudo isso sem violência.

Esse patrimônio também é nosso!

Maria Helena RR de Sousa
Brickmann & Associados 

...Nada importa a minoria de baderneiros e vândalos. Esses são como cupim: são eternos. Mas não foi essa minoria que atacou no Rio nesta segunda,17 de junho: a assinatura deixada nas paredes do Paço Imperial e da Igreja de São José não deixa dúvidas. São vinho de outro barril, um barril hediondo...

Não me venham dizer que mensagens via redes sociais teriam essa força toda se não vivêssemos uma época fértil para o desencanto. Os jovens têm sangue na guelra, estão descobrindo a vida e o amor. Têm muito mais o que fazer do que andar pelas ruas a reclamar das tarifas dos ônibus...

Até que começaram a se cansar do que vêm à sua volta: o futuro complicado pela corrupção desenfreada; o dinheiro sobrando para os mais inacreditáveis fins; estádios de luxo que todos sabem ficarão às moscas depois dos eventos esportivos que só interessam aos grandes da FIFA, do COI, e de Brasília. 

Os políticos sempre muito bem de vida. Política passou a ser sinônimo de vida fácil. O respeito que poderiam despertar foi para o ralo. Ninguém pensa em servir ao Brasil. E o cinismo se instala no coração dos jovens, testemunhas que são de que a ‘carreira’ política é para os que querem se servir do Brasil...

E em sua vida diária e na de seus próximos, os meninos sentem a dor dos que se queixam de hospitais indecentes pela falta de tudo, de médicos a material hospitalar; sofrem em universidades inseguras e sem aulas, pois que sem professores; passam por escolas com menos conforto que os hotéis para os pets das dondocas; servem-se de transportes mal ajambrados, inseguros e caros; e ouvem as autoridades batendo no peito ao dizer que o Brasil acabou com a pobreza quando eles, pelas ruas, veem cada vez mais gente dormindo nas vielas e becos.

Para saber do que se passa no país e melhor se informar eles se servem das redes sociais. A meninada se comunica e conclui que ou ela se mexe, ou o Brasil vai para o brejo. E resolve se manifestar. Querem falar em nome dos despossuídos, mas querem ser ouvidos e não querem nem apanhar, nem bater. Entre suas palavras de ordem está a bela "Este patrimônio é nosso, cuidado!". Reparem que onde foram respeitados, não quebraram nada porque eles não estão ali para isso. 

Mas aqui no Rio, terra sem lei nem grei há muito tempo, aconteceu o que mais temíamos: a infiltração de pessoas do mal. 

Ricardo Noblat em um emocionante artigo, "E eles saíram do Facebook", diz, a certa altura: 

"Pouco importa que os jovens disparem suas exigências em todas as direções sem priorizar nenhuma, que careçam de líderes amadurecidos, e que acolham em seu meio uma minoria de baderneiros e de vândalos.

Desde quando foi diferente no passado?

Somente a experiência ensina. E não há porque imaginar que os jovens de hoje não aprenderão".

Concordo com ele. Nada importa a minoria de baderneiros e vândalos. Esses são como cupim: são eternos. Mas não foi essa minoria que atacou no Rio nesta segunda, 17 de junho: a assinatura deixada nas paredes do Paço Imperial e da Igreja de São José não deixa dúvidas. São vinho de outro barril, um barril hediondo. Tanto é assim que os manifestantes originais, a meninada decente, já está no Centro ajudando a limpar o que foi pichado.

A experiência de ontem certamente já ensinou muito aos meninos; quem acompanhou pela TV a retirada, pelos jovens, de 12 policiais de dentro de uma agência bancária, para protegê-los, sente que foi experiência rica para a Polícia também. Agora é esperar que também tenha ensinado às autoridades: confiem nos jovens. Deixem que falem e procurem atender muitas de suas reivindicações. 

Eles não querem ladrilhar as calçadas com pedrinhas de brilhante. Eles querem uma cidade decente, saudável, limpa, onde possam viver com saúde, em paz e em segurança, para si e para os seus. 

E onde os barris cheios de pura hediondez não tenham vez.

Sensação de 'mal estar' social contribui para protestos

Luís Guilherme Barrucho
BBC Brasil 

Para analistas, os protestos representam uma insatisfação especialmente dos jovens


"Eles (manifestantes) não querem derrubar o governante, mas serem ouvidos, ou seja, que a política pública exista através do diálogo." - Ricardo Ismael, cientista político, PUC-Rio

A onda de protestos realizada em inúmeras cidades brasileiras na semana passada é motivada por uma sensação de "mal-estar coletivo", compartilhada em especial pela juventude das grandes cidades.

Na opinião da maioria dos especialistas ouvidos pela BBC Brasil, o fenômeno é mais social do que político e concentra-se nas regiões metropolitanas, onde as sucessivas políticas públicas executadas por governantes locais teriam deixado de atender aos principais anseios da população, sobretudo os mais jovens.

Eles, no entanto, refutaram uma comparação com a chamada Primavera Árabe, a onda de protestos ocorrida no Oriente Médio, que resultou na derrubada de regimes autoritários.

Na semana passada, manifestantes tomaram as ruas de pelo menos seis cidades brasileiras para protestar contra o aumento das tarifas do transporte público. Em São Paulo, na quinta-feira, a polícia reprimiu uma passeata e acabou ferindo várias pessoas, incluindo jornalistas.

No sábado e domingo, novos protestos voltaram a ocupar o noticiário nacional, dessa vez nas imediações dos estádios de Brasília (Mané Garrincha) e Rio de Janeiro (Maracanã) onde foram realizados os primeiros jogos da Copa das Confederações.

Novas manifestações ocorreram nesta segunda-feira.

Motivações
Em suas interpretações sobre as causas dos protestos, sociólogos e cientistas políticos destacam a insatisfação dos jovens com a administração pública e com as condições de vida nas grandes cidades.

"Existe uma espécie de mal-estar difuso, sem um foco claro. Há uma espécie de ressentimento e frustração de ordem social, alimentados por um estilo de gestão que não oferece diálogo à população", afirmou à BBC Brasil o sociólogo Gabriel Cohn, ex-diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP).

Instinto primitivo?


As primeiras análises sobre o comportamento dos indivíduos em grandes manifestações começam a surgir no final do século 19 em meio à ascensão dos movimentos operários.

Uma das mais famosas teorias é a do psicólogo francês Gustave Le Bon (1841-1931), em seu livroPsicologia das multidões (1895).

Le Bon dizia que, numa multidão, a personalidade do indivíduo é dominada pelo comportamento coletivo. Assim, ele regrediria a uma espécie de estado primitivo, perdendo sua racionalidade e sendo mais facilmente guiado pelo poder hipnótico de seus líderes.

Adolf Hitler e Benito Mussolini foram alguns dos simpatizantes das obras do autor francês.

Entretanto, segundo explicou à BBC Brasil a socióloga Márcia Cristina Consolim, a teoria foi superada pela própria psicanálise durante o século 20.

"Em seus estudos sobre o comportamento das massas, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, tratou de enterrar de vez o conceito de Le Bon, que não dispunha de base científica".

Cohn, porém, acredita que esse mal-estar também reflete "uma insegurança dos jovens em relação a seu futuro. Nos últimos anos, o Brasil passou por profundas transformações, o que gerou fortes expectativas dessa camada social, e há uma ansiedade justificada por parte deles se isso vai se sustentar ou avançar nos próximos anos", acrescentou.

Para o sociólogo Aldo Fornazieri, diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), os protestos são uma crítica à mobilidade urbana, sobretudo por parte dos jovens, que se ressentem da falta de representatividade nas diferentes esferas de administração pública.

"As manifestações refletem uma insatisfação sobre o modo sufocante de viver nas grandes cidades, cada vez mais hostis à população em geral. Isso cria uma espécie de uma anomalia social, uma sensação de não pertencimento. Para piorar, o poder público não está conseguindo garantir qualidade de vida aos moradores dos grandes centros urbanos", disse Fornazieri, que diz conhecer alguns dos líderes do MPL, aos quais deu aulas.

"A principal bandeira é o transporte público porque o jovem ─ especialmente o de classe média baixa ─ que muitas vezes precisa trabalhar e estudar, é o mais afetado por tudo isso. Essa situação gera uma angústia na juventude, que não se vê representada nem nos sindicatos nem nas associações estudantis, pois estes estão relativamente acomodados em suas conquistas", acrescentou.

A socióloga Angela Maria Araújo, da Unicamp, concorda em parte. Ela vê as manifestação como um protesto dos jovens contra a gestão da cidade e à falta de perspectivas geradas por uma educação deficiente.

Para ela, o movimento está principalmente relacionado "a um descontentamento dessa parcela da população mais jovem com as condições em que vivem nos grandes centros urbanos. O transporte é de péssima qualidade e o trânsito, caótico", disse.

"Além disso, as escolas não dão resposta às expectativas desses jovens", acrescentou.

Já o cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, define o protesto como "um movimento social urbano vinculado à qualidade do transporte público".

"É um fenômeno restrito às regiões metropolitanas que revela uma insatisfação em relação aos governantes, que deixaram de lado as políticas públicas para a melhoria desse setor."

Manifestantes protestaram no entorno do Maracanã no domingo

Na avaliação do sociólogo Bolívar Lamounier, os protestos foram incentivados, em parte, por uma "impaciência com a corrupção e com a inflação".

Reação da polícia
De acordo com os analistas, a reação da polícia às manifestações, especialmente em São Paulo, acabou por dar musculatura à mobilização popular, atraindo novos adeptos e também novas causas.

"Inicialmente, os manifestantes protestaram contra o aumento da tarifa dos transportes públicos. Naquela ocasião, nem todos apoiavam a causa. Mas, por causa da truculência da polícia, o movimento ganhou simpatizantes, que se solidarizaram às suas causas e também passaram a reivindicar outras propostas", afirmou Ismael, da PUC-Rio.

"Há um sentimento de reivindicação legítima, e a maneira como o governo vem tratando a questão não é a mais adequada no ambiente democrático", acrescentou.

"Apesar de não vivermos em um regime autoritário, vemos o avanço real de forças truculentamente conservadoras na sociedade", afirmou Cohn, da USP.

Primavera Árabe?
Embora admitam que a convocação dos protestos por meio das redes sociais é similar ao da Primavera Árabe, os especialistas descartaram uma semelhança mais profunda com a onda de protestos que varreu o Oriente Médio e, mais recentemente, a Turquia.


"Diferentemente da Primavera Árabe, as manifestações aqui não são contra o governo instalado", disse Araújo, da Unicamp.

"Eles não querem derrubar o governante, mas serem ouvidos, ou seja, que a política pública exista através do diálogo", defende Ismael, da PUC-Rio.

Entretanto, os analistas ouvidos pela BBC Brasil têm visões diferentes sobre a vocação política das manifestações.

Falando sobre os protestos ocorridos em São Paulo, Cohn diz que não vê insatisfação política pois, em sua opinião, os manifestantes não advogam "grandes causas".

"Quem é o objeto das manifestações?", questiona. "O movimento é fraco politicamente porque é muito reativo, pois não propõe ou defende questões reais. Trata-se apenas de um estímulo para reagir e correr para a rua. Uma ação propositiva faria mais sentido", afirmou.

Ismael, da PUC-Rio, discorda. Para ele, existe um descontentamento "político" pela crítica aos governantes.
"Não é porque as manifestações não pediram a renúncia de um determinado governante que não existe vocação política por trás dessas mobilizações populares", afirmou.

"Eu diria até que foi esse apartidarismo que vem unindo mais e mais manifestantes. Caso contrário, se fizesse escolhas políticas, o movimento certamente perderia força", avaliou.

Já Bolívar Lamounier diz acreditar que, em São Paulo, o protesto foi insuflado por "grupos trotskistas" e que tem como alvo o governador do Estado, Geraldo Alckmin.

Casa Civil diz não ser possível calcular redução em tarifa

Exame.com
Luana Lourenço, Agência Brasil

Desde janeiro, o governo desonerou a folha de pagamento das empresas de transporte coletivo, abrindo mão de 3,58% de arrecadação

Antonio Cruz/ABr 
Ao retificar a informação, ministra Gleisi Hoffmann disse que não é possível garantir
 que percentual do qual governo abriu mão com desonerações seja repassado integralmente
 para reduzir preço das passagens, porque cálculo da tarifa leva em conta outros custos

Brasília - A ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, retificou a informação sobre o impacto de desonerações federais na tarifa de ônibus e disse que não é possível calcular em quanto as prefeituras podem reduzir o preço das passagens a partir das medidas federais.

Desde janeiro, o governo desonerou a folha de pagamento das empresas de transporte coletivo, abrindo mão de 3,58% de arrecadação. Em 31 de maio, por meio da Medida Provisória 617/2013, o governo passou a isentar de PIS/Cofins os serviços de transporte coletivo rodoviário, metroviário e ferroviário, medida que, segundo o governo, representou mais de 3,65% de perda de arrecadação.

Mais cedo, a ministra Gleisi Hoffmann havia dito que as desonerações permitiriam que os municípios fizessem reajustes menores nas tarifas de ônibus ou reduzissem o preço nos casos em que o reajuste já foi feito, com queda de 7,23% ou R$ 0,20, em média, considerando o preço da tarifa em 14 capitais. “As duas desonerações promovidas pelo governo federal dão cerca de 7,23% de redução no custo, o que é, em média, R$ 0,20 centavos para a tarifa. Isso propicia aos municípios uma redução desse total, ou um reajuste menor nas tarifas de ônibus”, disse a ministra no início da noite. “Em São Paulo, como em todas as outras capitais, como em todos os outros municípios, há esse espaço, tanto do impacto da redução do PIS e da Cofins como da desoneração da folha”, acrescentou.

No entanto, ao retificar a informação, a ministra Gleisi Hoffmann disse que não é possível garantir que o percentual do qual o governo abriu mão com as desonerações seja repassado integralmente para reduzir o preço das passagens, porque o cálculo da tarifa leva em conta outros custos.

“O governo abriu mão de 7,23% de arrecadação em cima do faturamento das empresas de transporte coletivo para proporcionar ou uma redução da tarifa de transporte ou um aumento menor. Mas não podemos afirmar que esse valor que estamos desonerado vai ser, necessariamente, o valor de redução da tarifa”, reconheceu a ministra.

Em São Paulo, por exemplo, onde os cálculos do governo mostram que a perda da arrecadação corresponderia a R$ 0,23 a menos nas tarifas, o prefeito Fernando Haddad já havia considerado a desoneração de PIS/Cofins antes do anúncio do reajuste de R$ 3 para R$3,20 no último dia 2. “É bem possível que o prefeito quando já tenha utilizado isso para fazer um reajuste menor”, disse Gleisi.

SP tem noite de caos, com ataque à Prefeitura, saques, 2 feridos e 47 presos

O Estado de S. Paulo

Após roubos no centro, pichação do Teatro Municipal e depredação da Prefeitura, Tropa de Choque volta às ruas


SÃO PAULO - "Quebrar, quebrar é melhor pra se manifestar". O grito de guerra do grupo que tentou invadir a Prefeitura de São Paulo na noite de segunda-feira, 18, ferindo dois guardas-civis municipais, marcou o sexto ato contra a tarifa de ônibus, que começou de forma pacífica e terminou com o retorno da Tropa de Choque à cena e pelo menos 47 presos.

Cinco dias depois do protesto mais violento até agora, uma nova manifestação terminou, pela primeira vez, com lojas saqueadas no centro (pelo menos 20) e o Teatro Municipal pichado. Depois da concentração na Praça da Sé, os manifestantes se dividiram em dois grupos. O primeiro seguiu para a Avenida Paulista, novamente interditada. Até a meia-noite, o clima era de tranquilidade. Depois, um grupo de mascarados vindo do centro ateou fogo a um painel da Copa e atirou pedras na polícia.

Márcio Fernandes/AE
Manifestação tinha 12 mil pessoas na Praça da Sé
 e acabou com 30 mil na Avenida Paulista

Já no grupo que seguiu para o Viaduto do Chá a tensão era total: houve tentativa de arrombamento do Edifício Matarazzo (sede do governo municipal), vidraças foram quebradas e a fachada, pichada, sob gritos de "sem moralismo". Na sequência, o grupo colocou fogo em uma cabine da PM e em um furgão da Rede Record, por volta das 20h. Tudo isso a cerca de 150 metros da sede da Secretaria da Segurança Pública do Estado. Só após o vandalismo os bombeiros seguiram para o ponto atacado. Não havia PMs na área.

Uma das justificativas para a mudança de cenário é a atuação dos chamados Black Blocks, a "Tropa de Choque anarquista" do movimento. Irritado com a face "classe média" que o protesto começou a tomar, o grupo partiu para invasão, vandalismo e depredação. Já a demora de três horas para a reação policial foi considerada estratégica - a ação só ocorreu após determinação do governador Geraldo Alckmin, e quando havia certeza de ação criminosa.


Duas horas antes, enquanto o grupo de manifestantes atacava a sede de governo - com secretários municipais fechados em uma sala de situação -, o prefeito estava reunido com a presidente Dilma Rousseff e com o ex-presidente Lula, como revelou o Broadcast Político, primeiro serviço em tempo real dedicado exclusivamente à cobertura política. A ideia era buscar uma saída política. À noite, um grupo de manifestantes do Passe Livre decidiu protestar na frente da casa do prefeito, no Paraíso, zona sul.

Durante o dia, mais seis capitais do País anunciaram reduções no valor das tarifas, usando os benefícios da medida provisória do governo federal assinada no dia 31, que desonerou o setor. Ontem, voltaram a ocorrer atos em solidariedade aos paulistanos no Brasil e no exterior - em Londres, Barcelona, Copenhague, Sydney, Hamburgo, Berlim e Nova York.