Adelson Elias Vasconcellos
No mesmo Jornal da Globo do qual extraímos e comentamos a coluna do Arnaldo Jabor no post mais abaixo, também extraímos o comentário do Carlos Alberto Sardenberg, fazendo um rápido balanço sobre a economia no período Lula.
E, a exemplo das dezenas de artigos e comentários feitos sobre o tema economia, Sardenberg foi objetivo e preciso ao creditar o crescimento brasileiro, de 2003 para cá , como consequência da economia mundial. E que, graças às reformas feitas por Fernando Henrique, o país pode ficar preparado para surfar na onda do crescimento vertiginoso da economia mundial. Assim, o retorno do crédito ao consumidor e até para as empresas não foi uma dádiva concedida por Lula coisa nenhuma. Ela só seria possível, como foi, diante de uma economia estabilizada e com baixíssima inflação. Tivesse este governo sido menos incompetente e covarde, e avançado um pouco mais nas reformas que ainda nos faltam, e por certo o Brasil teria tirado maior proveito desta onda. Prova disto é que o país cresceu um pouco abaixo da média mundial e muito aquém das economias emergentes, conforme já demonstramos aqui em vários momentos.
E que se registre mais uma vez: TODAS as reformas promovidas por Fernando Henrique que nos asseguraram condições de poder aproveitar os anos dourados da economia mundial, ocorridos no período de 2003 a 2008, foram combatidas ao extremo pelo próprio Lula e seu partido quando eram oposição. Não houve uma única medida contra a qual o Brasil pudesse ter contado com apoio desta gente.
Todo este fuzuê que Lula prega agora, fechando seu ciclo na presidência da república, tem apenas um único pilar estrutural: o governo de FHC, a quem Lula deveria agradecer boa parte de sua aprovação recorde. E se ainda se quiser partir para o terreno das políticas sociais, ainda assim, na base de sustentação destas “vitórias”, vamos encontrar a marca do governo FHC.
Disse uma vez e repito: precisará passar um certo tempo com Lula fora do poder, para que o país, como um todo, reconheça que os méritos todos do avanço e do crescimento do Brasil se deve ao período anterior à Lula. Seu mérito foi não ter desmanchado aquilo que encontrou, aquilo que, na oposição, ele e seu partido, se indispuserem de forma selvagem e incondicional.
Esta justiça precisaremos, cedo ou tarde, resgatar. Afinal, nem sempre a ignorância vai nos manter tão cegos e distantes da verdade. Menos mal que, apesar dos discursos vagabundos e vigaristas de Lula, o registro do legado de FHC está aí devidamente desenhado. Cedo ou tarde o país despertará para ele.
Sardenberg destaca, também, que nosso crescimento se deve ainda a dois outros fatores reunidos numa única riqueza, as commodities. De um lado, tínhamos a Vale, devidamente privatizada e preparada para crescer, com o minério de ferro fazendo a alegria da nossa balança comercial. E de outro, e a razão maior da nossa fortaleza econômica, o agronegócio, que é quem de fato gerou o superávit comercial que nos permitiu formar as reservas internacionais volumosas a nos dar guarida diante de crises na economia mundial. Hoje, não fosse nossa produção agropecuária, e estaríamos vivendo déficit comerciais.
Assim, temos o tripé do nosso momento: as reformas macroeconômicas que deram fim ao flagelo da inflação, com todas as reformas de estado necessárias para consolidar esta conquista, que, a seguir, foi garantida pela excelência do nosso agronegócio tão demonizado ainda hoje pelo governo, além das privatizações que carrearam modernidade, tecnologia e bilhões de investimentos, com a geração de milhões de empregos e renda. E este conjunto, não há discurso que esconda que sua construção foi feita por FHC, não por Lula. Ele apenas é o herdeiro do bônus político derivado do trabalho feito por seu antecessor.
Diante de um governo Dilma, a partir de janeiro, qual a expectativa que podemos ter? Bem, conforme o ex-ministro da Fazenda, Delfim Neto, a economia mundial já não nos poderá mais ajudar. Com efeito, Estados Unidos, Comunidade Europeia e alguns “tigres asiáticos” ainda demorarão para retomarem a um sólido crescimento econômico. Sendo assim, enquanto a China mantiver seu ritmo, nós poderemos respirar sem uso de aparelhos.
Nem o crescimento vigoroso deste ano será possível manter já em 2011. Precisaremos dar uma freada por aqui, do contrário, a inflação periga fugir ao controle. Além disto, aquelas reformas que Lula não quis pagar por seu preço político, estão pedindo passagem. Alguns indicadores internos também pedem atenção e, neste sentido, precisaremos encontrar uma solução para o câmbio. Porém, isto exige contenção de gastos do governo e, pelo discurso de Lula, por enquanto tal hipótese está descartada.
O grande problema para o Brasil não se complicar mais à frente está no fato de que, até aqui, praticamente, nada precisou ser feito pelo governo Lula para a carreta andar. Não havia ameaça de nenhuma espécie. Porém, tanto externa quanto internamente, os ventos mudaram de direção e, goste o governo ou não, algumas medidas amargas precisarão ser tomadas, se o objetivo de manutenção da estabilidade econômica com controle da inflação e redução dos juros internos for mantido como objetivo a ser perseguido por Dilma. Não dá para escapar do problema fazendo de conta que ele não existe e, tampouco, será possível produzir milagres à base do “deixa como está prá ver como fica”. Resta saber até aonde Dilma se deixará influenciar pelo ufanismo irresponsável da era Lula, ou, se ao contrário, decidirá levar seu mandato pelo caminho da cautela e responsabilidade fiscal para não entornar de vez o caldo da estabilidade econômica.
Pelo ministério escolhido tem-se a impressão de que, num primeiro momento, Dilma procurará não mexer muito na herança recebida. Contudo, em 2014, temos a Copa do Mundo, e já nem falo da Copa das Confederações um ano antes. Serão doze cidades sedes, todas pedindo reformas e obras urgentes que, até aqui, se circunscreveram apenas nos estádios. Só que os encargos assumidos vão muito além dos estádios. E o que se viu, todavia, foi muito discurso, muito peito estufado, e obra que é bom, N-AD-A. Junte-se a isso a manutenção de um longo legado de programas federais que precisarão ser revistos, PAC inclusive. Não dá para fazer tudo. E o melhor que Lula faria seria manter distância do governo, para que a sua sucessora possa respirar e encontrar soluções por sua conta e risco próprios.Contudo, terá ela perfil para, se necessário, se indispor aos caprichos do padrinho? Isto é o que nós vamos ver.
Repito o que afirmei acima: o cenário em que Dilma inicia seu governo, não é favorável, nem aqui nem lá fora. Até agora, o governo petista não precisou conviver com as “dificuldades” que doravante passará a encontrar. Não são “dificuldades” importadas. São fruto da gastança desenfreada promovida por Lula para eleger Dilma e consagrar própria figura. E isto exigirá mudança tanto de postura quanto de programas e prioridades. Até aonde irá a disposição para não tocar na “herança” lulista? E até aonde ele próprio evitará contaminar o mandato da pupila com interferências arbitrárias? O tempo nos dirá. É torcer e rezar para tudo dar certo. Porque, no final das contas, para o bem ou para mal, quem paga a conta e arca com o prejuízo, somos nós mesmos.
Segue o “balanço” do Sardenberg sobre a economia do período Lula.


