terça-feira, fevereiro 19, 2008

Petrobrás: pequeno comentário sobre o roubo

Adelson Elias Vasconcellos

O presidente da Petrobrás afirmou hoje, quando perguntado sobre o roubo de informações e equipamentos havido na Petrobrás, de que não houve “falhas” na segurança. Ora, vários engenheiros da estatal já declararam que este não foi o primeiro. Então, se falha não houve, por que aconteceram os roubos, sendo este último o mais incisivo ?

Além disto, se falha não houve, é de se supor que alguém anda “entregando” computadores e informações estratégicas da empresa para a concorrência ou para os “inimigos ocultos”. Assim, sem mais, nem menos ? Estranho...

Querem saber ? Acho que estamos diante de mais uma daquelas lambanças que, por detrás de pequenos delitos, se escondem gigantescas trapaças. Não me surpreenderia se de duas, pelo menos uma das seguintes hipóteses fosse verdadeira: alguém de fora, tentando retardar o processo de auto-suficiência do Brasil na produção de gás. E, neste caso específico, façam suas apostas sobre quem poderia lucrar com isto. E claro, com a devida conivência dos encastelados no poder.

Ou, de outro lado, alguém tentando jogar na lama as demais companhias do ramo, tentando, a partir do enrosco, criar um clima político para ações menos honestas. E isto atingiria o núcleo do próprio governo.

Assim, é sempre bom nos resguardarmos em relação a esta gente que nos desgoverna. A reação deles diante de fato tão grave, está me parecendo tranqüila demais. Deus queira que um dia saibamos da verdadeira tramóia que se esconde por detrás desta lambança.

E que tal se não se estaria criando um fato novo para dispersar as atenções sobre a roubalheira dos cartões e dos repasses das ONG’s ? Quem há de saber...

Também quero um!

João Mellão Neto, Estadão

Os cartões de crédito corporativos, a princípio, são uma boa idéia. Antes do surgimento deles, as pequenas ou emergenciais despesas do governo eram pagas em dinheiro vivo, causando transtornos desnecessários no caixa, ou então eram quitadas pelo próprio agente administrativo, que, para recuperar o que gastou, tinha de apresentar um longo e circunstanciado relatório justificando o porquê daquele dispêndio. Prática adotada em quase todos os países adiantados, eles surgiram por aqui na gestão de FHC. Entre outras vantagens, o cartão de crédito apresenta, em seus extratos, o que, quanto, onde e quando se realizaram as despesas. Mas no Brasil, onde há quem guarde dólares na cueca e existe gente disposta a falsificar cédulas de R$ 2, algum tipo de fraude ainda haveria de ser inventada tendo por base o vulnerável e flexível "dinheiro de plástico".
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No início, apenas autoridades de primeiro escalão e sua assessoria direta tinham direito de portar o cartão. Logo, como seria de prever, autoridades de menor expressão fizeram uma irresistível pressão para que o benefício fosse estendido a elas. Quando o volume de cartões passou da casa do milhar, não havia mais auditoria, por mais eficiente que fosse, capaz de analisar e controlar um a um. O problema agravou-se com o Partido dos Trabalhadores (PT) no poder. Ser portador de um cartão dava status. Além de demonstrar o prestígio de seu detentor, ele representava uma espécie de "licença para gastar". O volume de cartões se multiplicou, a ponto de tornar impossível a sua checagem e análise.
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Além disso, virou praxe o saque em dinheiro, nos caixas eletrônicos, o que tornava impraticável checar o destino do dinheiro. Nos dias de hoje, qualquer barnabé bem relacionado obtém com facilidade o seu cartão corporativo e sai por aí, a gastar impunemente. Apesar de já existirem vários milhares de cartões, não se tem notícia de um único servidor público que tenha sido punido pelo seu uso impróprio. O partido que se diz do povo se vale do dinheiro do próprio povo para custear as suas mordomias. E ninguém tem o direito de reclamar, visto serem seus membros legítimos delegados do próprio povo. Ficam criados, assim, além dos gastos de consumo supérfluo da odiosa burguesia, os dispêndios indispensáveis para o trabalho dos agentes do povo - não importando, no caso, que os tipos de despesas sejam idênticos. Vá lá que era o próprio PT, quando estava na oposição, o campeão inconteste dos requerimentos de CPIs. Mas agora, meia década passada, o partido amadureceu. E todos ali concordam com a tese de que tais comissões só servem para fazer barulho. Pode existir iniciativa tão impatriótica?

Provavelmente, não. E é por isso que os bravos parlamentares do PT lutam, no limite de suas forças, para impedir que tal comissão seja instalada. Se isso não for conseguido, a alternativa será o caos. Haverá inúmeras acusações levianas e sem fundamento por parte da ala oportunista da oposição; todos terçarão armas com todos para que, no final, pouca coisa seja comprovada. E assim vai mais um ano legislativo, o qual o presidente Lula pretendia que fosse utilizado para as imprescindíveis reformas de base, tão necessárias ao País.
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Quais seriam as tais reformas? Ora, o governo já acenou que pretende criar um grupo de estudos para analisar quais reformas mereceriam prioridade. Como estes trabalhos demandam tempo, o presidente espera contar com as inestimáveis contribuições de seu secretário para ações a longo prazo, o qual, até lá, já teria concluído o ciclo básico de seu curso de Português. Pelo que se sabe, ele já aprendeu a manejar, com maestria, a máquina eletrônica em que opera o seu cartão corporativo.
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Ao invés de promover inúteis CPIs, os congressistas poderiam, por exemplo, editar um livro com todos os discursos proferidos, até hoje, nos microfones das duas Casas, nesta legislatura. Os jovens ficariam sabendo, em detalhes, como o idioma português foi sendo barbaramente torturado e esquartejado pelos oradores das tribunas.
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E quanto ao Lula? Este poderia governar em paz. Enquanto o texto das reformas de base não fica pronto (como já se passaram cinco anos, muita gente maldosa insinua que o presidente não pretende realizar reforma nenhuma?), Lula poderia dedicar-se com maior afinco àquela que é a sua obra maior, o Programa Bolsa-Família.
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Ele - quem diria - nasceu quase por acidente. O presidente Lula, em seu primeiro dia de trabalho, anunciou à Nação, com toda a pompa possível, que iria erradicar o fantasma da fome no Brasil. Imediatamente deu posse ao ministro encarregado da façanha, o economista José Graziano. Os publicitários foram rápidos na elaboração do nome do programa, que passou a ser conhecido como Fome Zero - aberto às contribuições voluntárias dos cidadãos comuns.Mas, se o marketing foi rápido, as ações efetivas teimavam em não sair do papel. Quem salvou a cara do governo Lula foi algum tecnocrata gaiato que alertou o presidente de que o cadastro de nomes já existia desde o governo FHC. O então presidente criara um programa social, com a devida lista de nomes, em que constavam todas as mães do País com filhos em idade escolar. A idéia era conceder benefícios a essas genitoras, desde que seus filhos fossem assíduos nas escolas.
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Havia dois preciosos cadastros mais: o Bolsa-Escola e o Vale-Gás. Lula unificou os três cadastros, deu a esse somatório o nome de Bolsa-Família e, a partir daí, ampliou o programa até atingir 11 milhões de famílias.
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Do jeito que os cartões corporativos estão se multiplicando, que ninguém duvide que o governo ainda acabe criando o "Vale-Cartão". Afinal o programa do PT prega que sejamos todos iguais, não é mesmo?

Uma confusão anunciada

Carlos Alberto Sardenberg

É simplesmente inacreditável a lambança feita pelo governo federal, mas também pelos governos estaduais, políticos, fazendeiros e frigoríficos, nessa história da exportação da carne para a Europa.
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A coisa começou lá em 2002. O Brasil foi exportando carne de boi para a União Européia (UE), aumentando as vendas progressivamente, mas tudo isso ao lado de uma negociação em que os europeus deixaram claro que iriam exigir a tal rastreabilidade - um moderno sistema pelo qual é possível saber de onde veio o bezerro, onde foi criado e abatido.
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Os produtores brasileiros foram introduzindo o sistema paulatinamente - primeiro rastreando o animal adulto - e o governo federal assumiu o compromisso de completar o ciclo, do bezerro ao boi, até dezembro de 2007. A partir de fevereiro deste ano, só poderia ser exportada para a Europa a carne de animais inteiramente rastreados.
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No final do ano passado, o governo brasileiro concluiu uma lista de pouco mais de 8 mil propriedades certificadas para exportar. O processo foi concluído por empresas certificadoras.
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Em outubro do ano passado, os técnicos europeus vieram ao Brasil checar a lista e escolheram uma amostra de fazendas certificadas em alguns Estados. Toparam com problemas grosseiros, conforme relatou o presidente da Associação Brasileira de Criadores, Luís Alberto Moreira Ferreira, em entrevista que me concedeu na sexta-feira passada, na rádio CBN.
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Havia, além de erros grandes, fraudes enormes, como documentos forjados. Muitas fazendas certificadas não tinham sido visitadas por ninguém. E muitos proprietários simplesmente vetaram a entrada dos técnicos europeus.
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Obviamente, a lista foi condenada. Foi então que os europeus pediram uma nova lista, mas preparada diretamente pelos técnicos do Ministério da Agricultura, que teriam de auditar as certificações feitas anteriormente.
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Apareceu, então, a exigência da tal lista de 300 fazendas. Por que 300?
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Conforme relatos de pessoas envolvidas, aconteceu o seguinte. Era novembro de 2007 e a nova lista deveria estar concluída em dezembro ou, estourando, em janeiro último. Numa conversa em Brasília, diz-se que os técnicos europeus perguntaram aos colegas brasileiros quantas fazendas conseguiriam fiscalizar nesse período. E os brasileiros, depois de comentar sobre a precariedade de recursos, responderam: umas 300.
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Pronto, cravaram o número.
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Mas, em janeiro, o Ministério da Agricultura mandou aquela lista com 2.681 fazendas. Os europeus, de novo com razão, desconfiaram e não aceitaram. Depois se soube por aqui que o Ministério, não tendo condições de fiscalizar muitas, pedira auxílio a secretarias estaduais, que incharam as listas com fazendas incluídas “politicamente”, dos correligionários.
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Foi aí que o Ministério reconheceu o erro, reduzindo a lista para 600 e tantas fazendas, depois para 523, relação essa apresentada na última sexta-feira em reunião em Bruxelas, ainda sob suspeitas.
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Ficou acertado que os técnicos europeus voltam ao Brasil no final deste mês, para novas vistorias. E a exportação de carne para a Europa continua embargada, com prejuízos diários para o País, para os produtores e, sim, para os consumidores europeus. As autoridades européias foram pacientes, deram e adiaram vários prazos, não por serem compreensíveis, mas porque precisam da carne brasileira, boa e de preço competitivo.
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Aliás, comenta Luís Alberto Moreira Ferreira, parece que os brasileiros confiaram demais nessa necessidade européia. Algo assim: “eles precisam da nossa carne, não há disponibilidade no mundo, de modo que eles não podem suspender as importações; danem-se as exigências”.
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Uma atitude tão estúpida quanto as declarações de autoridades e políticos segundo as quais a Europa quer esmagar a produção brasileira, quer impor seu sistema ao Brasil - e tantas outras bobagens.
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A coisa é simples: quer vender para os europeus? Siga as regras. Do mesmo modo, por exemplo, e como nota Moreira Ferreira, frigoríficos brasileiros abatem animais conforme os preceitos judeus para poder vender a Israel. Assim como produtores de frangos abatem pelos preceitos muçulmanos para ter acesso ao rico mercado árabe.
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Além disso, o rastreamento é uma exigência cada vez maior nos países desenvolvidos, onde os consumidores, especialmente os mais ricos, fregueses que compram as carnes nobres, e caras, querem produtos que possam ser auditados na origem e qualidade.
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Finalmente, adotar o rastreamento é bom para o país produtor, nota Moreira Ferreira. É uma garantia não apenas de cumprimento das condições sanitárias, como dá segurança jurídica a todo o processo.
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O sistema é caro e trabalhoso. É preciso colocar um brinco com chips em cada animal, mas não há alternativa se o País quer ocupar a posição de líder mundial na exportação de carnes.
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Pecuaristas e frigoríficos deveriam dividir os custos e assumir o processo, em vez de ficar reclamando e tentando enganar os europeus e o governo. E tem que ser uma atitude do setor privado, dada a óbvia incapacidade e incompetência do governo.
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É possível fazer. Já há no Brasil fazendas e frigoríficos de ponta, que acabam prejudicados pela situação dos outros e pelas confusões do governo.
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Aliás, todo esse episódio é uma amostra do Brasil de hoje. De um lado, um agronegócio moderno, competitivo, que ganha espaço no mundo todo. De outro, empresários picaretas, vivendo à custa de politicagem. E um governo incompetente, que deixa politizar questões técnicas.
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(O Estado de SP - 18/02/2007 )

Certificado de incompetência

Editorial Estadão

Reveladas as circunstâncias em que foram elaboradas as listas de fazendas que o Ministério da Agricultura considerou aptas a exportar carne para a União Européia (UE), entende-se agora que a reação das autoridades agrícolas européias não poderia ser outra senão a rejeição pura e simples dessas listas. Os europeus querem a garantia de que a carne exportada pelo Brasil procede de áreas livres da ocorrência de febre aftosa - o que deve ser comprovado pelo sistema de rastreamento do gado nacional - e, por isso, exigiram que só um número limitado de fazendas fosse considerado, pelo governo brasileiro, apto para abastecer seu mercado. Mas o Ministério da Agricultura não resistiu às pressões de políticos e pecuaristas e elaborou listas bem maiores, que foram recusadas.A questão das exportações de carne para a Europa vem se agravando desde novembro, quando inspetores europeus estiveram no País para averiguar as condições sanitárias das fazendas e o funcionamento do sistema de rastreamento. Até agora, o governo não conseguiu dar respostas convincentes aos europeus, que querem certificar-se de que o produto que estão comprando obedece às regras de sanidade fixadas de comum acordo com as autoridades brasileiras. O único certificado que os europeus aceitaram até agora é o da incompetência do governo brasileiro.
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No fim de janeiro, o governo brasileiro enviou uma lista com 2.681 fazendas. Os europeus nem a examinaram, pois o número era muito maior do que o acertado com as autoridades brasileiras, e decidiram suspender a importação de carne in natura procedente do Brasil. Tinham razão. Fontes do governo brasileiro admitiram que a lista não era baseada apenas em critérios técnicos ou sanitários. Fazendeiros, secretários estaduais de Agricultura e políticos pressionaram o Ministério para que elaborasse uma lista maior do que a admitida pela UE - e o Ministério assim fez.
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A suspensão da compra de carne brasileira pela UE está em vigor desde o dia 1º de fevereiro. Para quebrar o embargo, o secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Inácio Kroetz, armou-se de documentos para apresentar às autoridades européias. Os documentos, segundo ele, comprovam a "consistência" das ações do governo, dos pecuaristas e dos frigoríficos brasileiros para assegurar ao produto exportado para a UE as condições exigidas pelos compradores.
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No entanto, nem bem seu auxiliar embarcara para Bruxelas, para reuniões com as autoridades européias, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, admitiu publicamente a incapacidade do País em fiscalizar adequadamente a produção de carne bovina. Durante audiência na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado, Stephanes disse que alguns frigoríficos exportaram para a UE carne de animais não rastreados.
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Como se não bastasse essa confissão de incompetência, para irritar ainda mais os europeus, a nova lista de fazendas apresentada pelo Ministério da Agricultura também era maior do que a acertada. Tinha 523 propriedades, bem mais do que o limite de 300 que a UE considera aceitável. Pior ainda, constavam da lista fazendas que não estavam nas listas anteriores e em muitas que constavam de outras listas o número de animais era diferente.
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Funcionários do Ministério das Relações Exteriores que acompanham as negociações se dizem inconformados com o "papelão" que o Brasil está fazendo diante das autoridades européias. Como em outras áreas, também no caso das exportações de carne para a UE o governo Lula age como se o grande interessado em resolver o problema fossem os outros, os europeus, não o Brasil.
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Para o governo, tudo parece se passar como se a Europa fosse fortemente dependente do fornecimento brasileiro. É um erro grave. De toda a carne in natura que consome, a UE importa menos de 10% e, de suas importações, 46,4% procedem do Brasil. Isso significa que o Brasil responde por uma fatia de apenas 4,4% do consumo europeu. Em resumo, depois de tanta demonstração de incompetência dos representantes brasileiros, a UE poderia simplesmente encerrar as discussões e comprar de outro fornecedor. O governo brasileiro ainda não se deu conta de que esse é um risco real.

O ‘DINHEIRISTA’

Adriana Vandoni, site Diego Casagrande

No começo do escândalo do mensalão, quando aquelas denúncias de compra de parlamentares começaram a vir à tona, abismava-me ao ver a que ponto havia chegado o parlamento brasileiro. As declarações recentes do deputado José Eduardo Cardozo, secretário-geral do PT, são claras e inequívocas: "não tenho dúvida de que houve situações de ilegalidade com a destinação de recursos financeiros de forma indevida a aliados políticos". O que se passava na cabeça daqueles homens que usavam aquela casa como se fosse um prostíbulo, só que no lugar de seus corpos vendiam suas idéias? Porque tanta ganância? Haveria prazer naqueles atos? Tal qual as meretrizes, talvez o negócio fosse dinheiro, apenas isso.
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É certo que nos subterrâneos, nos rendez-vous de toda sociedade, convivem de gigolôs e aprendizes a prostitutas. O que difere uma casa de tolerância do parlamento brasileiro, é que as "moças" da casa de tolerância não hipotecaram seus corpos como representante de um povo, elas vendem uma mercadoria que lhes pertence, enquanto que o ocupante do parlamento vende sua opinião depois de ter sido hipotecada a serviço do povo, ou seja, vende uma mercadoria que não é só dele, que não lhe pertence.
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Comecei então a procurar pessoas de bem parlamento brasileiro. Mirava em um e acompanhava o seu desempenho, suas posturas e opiniões. Alguns pareciam se indignar com aquilo tudo, mas a maioria não tem opinião formada de nada, apenas uma conveniência da hora. Um exemplo que me chocou foi do então parlamentar Eduardo Paes, na época do PSDB, opositor e ferrenho orador contra os aqueles atos ilícitos cometidos na república do PT, tornou-se secretário de esportes do Rio de Janeiro e passou a elogiar o governo que tanto combatia antes. Seu exemplo deixou claro que o certo hoje é o errado amanhã, o errado hoje é a certeza da correção de amanhã. Não se está lá para defender os princípios ou ideais, sejam os da situação ou da oposição. Assuntos de relevância pública só são considerados quando o clamor popular os obriga a fazer algo. Se esse clamor cessa, instala-se a pasmaceira, e o trabalho volta a ser a procura pela liberação de suas emendas e de verbas para "as suas bases". São eles, em sua maioria, os "dinheiristas", termo que ouvi certa vez de um interlocutor revoltado com alguns desdobramentos políticos.
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Sentados à mesa de um restaurante, batendo com a mão, forte a ponto de chacoalhar copos e garrafas, chamando a atenção das mesas vizinhas, dizia-me: "fulano é 'dinheirista', não é oposição nem situação, é 'dinheirista'!, essa turma só pensa em dinheiro e não tem compromisso com ideais."
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Ouvia atenta e com a admiração que nutro pelas pessoas que são capazes de defender suas posições. Ouvia com o respeito que tenho pelos coerentes, seja qual for sua inclinação ideológica. A discordância de idéias é parte da democracia, e almejar ideais de consenso é acreditar em um regime opressor e totalitário. Compreendo e louvo a mudança de opinião, quando isso representa amadurecimento intelectual. Mas alguns ideais são básicos e independem da linha ideológica.
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E assim aquela palavra "dinheirista" ficou na minha cabeça. Acreditei piamente nesse meu interlocutor. A veemência com que defendia seus argumentos e com que atacava os tais "dinheiristas" era coerente com o que penso, e imaginava que isso também ocorresse com ele.
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O tempo passou e me reservou uma surpresa. Aliás, esse é o lado bom do tempo. Ele cura feridas, dissolve nós, amadurece e principalmente, mostra a verdadeira face de uma pessoa. Pois o tempo me fez compreender que aquele ferrenho interlocutor nada mais era que um dos "dinheirista". O tempo me explicou que aquele bater na mesa, aquele espumar de raiva ao defender um ideal coletivo não passava de uma crise de rebeldia adolescente de um filho bastardo do "dinheirismo".
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Essa compreensão que o tempo me trouxe, foi de grande representatividade para a minha percepção da política brasileira. Este é um fato que deve ser corriqueiro a muitos e muitos brasileiros que como eu, ainda insistem em acreditar.Bem-aventurado seja o dia em que os guardiões da ética e da população mais humilde não sejam aqueles para os quais a corrupção significa um bom negócio, mas descrito assim porque ele não fez parte.

O advogado dos Sem-Moral

Adelson Elias Vasconcellos

Quem ontem assistiu ao Programa Roda Viva da tal TV Brasil, ou TV Sem Traço, e pôde suportar a entrevista feita a Jorge Hage, da Controladoria Geral da União, deve ter se espantado. Isto, claro, para quem não se apercebeu da degradação que se processa no Estado brasileiro a partir de 2003. Degradação que, diga-se de passagem, é a marca registrada de um partido político cuja tônica é sentar-se no poder, absorve-lo por completo, independentemente dos meios que se utilizará ali para manter-se. Gente que jamais entenderá o real significado, por mínimo que seja, do que seja escrúpulo.

Durante todo o tempo, o ministro comportou-se com propagandista das glórias do governo Lula. Melhor faria se, ou mudasse de setor e passasse a chefiar a Defensoria da União, ou mudasse do órgão sob sua responsabilidade para qualquer coisa parecida com Defensoria e Propaganda das Glórias do Petismo. Seria ao menos mais honesto.

O Sr. Jorge Hage esqueceu, por exemplo que a CGU não foi criação do governo atual. Ela foi criada sim no governo FHC. E mais: todos os números que ele desfilou ao longo da entrevista são verdadeiros ? No caso seja dos cartões ou mesmo dos repasses à ONG’s e demais entidades picaretas a serviço do PT e denominadas de “entidades sociais” , há fortes controvérsias. Que o digam as dezenas de relatórios emanados do Tribunal de Contas, este sim, um órgão bem mais sério e confiável.

Até porque, dentre os jornalistas quem poderia ter acesso aos mesmos números cuspidos por Hage ? Assim, fica fácil o ministro despejar números e mais números, porque sabe que ninguém poderá contesta-lo. Contudo, a memória dos relatórios do Tribunal de Contas estão registrados nos arquivos do COMENTANDO A NOTICIA.
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E, a bem da verdade, que moral pode ter alguém para falar em "Transparência", como no caso dos cartões, se é permitido conhecer-se apenas pouco mais de 11,0% de tudo o que foi gasto, sabendo-se ainda que 70% daquele total foi sacado na boca do caixa ? Esta gentalha longe está de ter um pingo de decência e vergonha na cara !!!

Contudo, o comportamento indecente de quem deveria agir como “controlador” mas opta por não passar de mero “advogado dos sem-moral” não é estranhável. O Estado brasileiro foi privado pelo petismo ralé e pelo sindicalismo vagabundo, todos absolutos no comando das verbas públicas em benefício privado. Os escandalosos gastos com os cartões corporativos aconteceram de 2003 para cá. E, nem por isso, o Sr. Hage se deu por vencido: insiste em querer arrolar na mesma lama o governo anterior. Assim como todas as falcatruas cometidas no governo Lula, eles nunca negam o crime. Sua defesa, invariavelmente, é dizer que fazem o que os outros fizeram, mesmo que este “os outros fizeram” seja uma forçação de barra estúpida e indecente.

Assim, é possível entender e ler o resultado da pesquisa CNT-Sensus divulgada ontem. Dela, extraio este dado:

CONFIANÇA NAS INSTITUIÇÕES

O primeiro número refere-se a abril de 2007; o segundo, a fevereiro/2008
Em %

Igreja - 37,2; 39,4
Forças Armadas - 16,5; 16,5
Imprensa e Meios de Comunicação - 11,2; 12,7
Justiça - 9,5; 11,3
Governo Federal - 5,0; 4,4
Polícia - 3,4; 4,1
Congresso - 1,1; 5
Nenhuma/NS/NR - 16,5; 11,2

Agora, leiam com atenção os dados seguintes:

AVALIAÇÃO DO GOVERNO
Ótimo - 13,2; 15,2
Bom - 33,3; 37,5
Regular - 35,9; 32,5
Ruim - 7,3; 5,7
Péssimo - 9,2;- 8,0
NS/NR - 1,3; 1,3

DESEMPENHO DE LULA
Aprova – 61,2. 66,8
Desaprova – 32,5; 28,6
NS/NR - 6,3; 4,7

Ou seja, para a grande maioria da população, segundo a pesquisa, Lula parece não ter nada a ver com o Governo Federal. Parece alguém distante dali, quando na verdade é ele quem comanda toda a porcaria por ali instalada. Toda a lama fedorenta que escorre daquele imenso fosso é fruto de qual governo afinal? Dos anteriores? Se ele é o chefe do executivo, e é, tudo que for demanda do governo federal é fruto do governo Lula, seja na saúde, na educação, na segurança pública ou na infra-estrutura. Sem esquecer da corrupção e malversação de dinheiro público. E em cinco anos de poder, ainda ouvi-lo acusar o governo anterior pela porcaria de governo que comanda, chega a ser ridículo. Porém, não se pode negar que todo o esquema de propaganda oficial no qual se torram milhões de reais para vender como verdade incríveis mentiras, tem sido de uma eficiência aterradora. Daí porque o resultado da pesquisa ser o que é. Para a população, ou a sua grande maioria, Lula parece nada tem a ver com a droga de governo federal que nos desgoverna e que ele comanda.

Deste modo, ouvir Jorge Hage é o mesmo que ouvir Dilma Roussef, Tarso Genro, Luiz Marinho, Nelson Jobim e tantas outras figuraças. Fazem todos parte da mesma escola de cretinices, vendendo ao povo um país que não existe, e deitando glórias ao patrono responsável (ou seria irresponsável?) por todas as mazelas do país escondidas nos meandros da mistificação e engodo oficiais.

Assim, e apesar de gente do próprio PT, como o deputado José Eduardo Cardoso, secretário geral do partido, reconhecer em entrevista à Revista VEJA a existência do mensalão, o advogado dos Sem Moral, ocupando a CGU, insiste em lhe atribuir ares de fanfarronice. Portanto, é fácil entender o resultado da pesquisa CNT-Sensus, em que se vê que, para a grande maioria, o presidente da república nada tem a ver com o Governo Federal do qual é o maior mandatário. É deprimente ? Por certo, é. É degradante ? Sem dúvida que é. Mas a se ver como nossos gigolôs da política têm tratado a educação nos últimos anos, não há razão para estranhezas. Estamos colhendo ignorância onde plantamos uma política sem moral e sem escrúpulos.