terça-feira, fevereiro 19, 2008

Uma confusão anunciada

Carlos Alberto Sardenberg

É simplesmente inacreditável a lambança feita pelo governo federal, mas também pelos governos estaduais, políticos, fazendeiros e frigoríficos, nessa história da exportação da carne para a Europa.
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A coisa começou lá em 2002. O Brasil foi exportando carne de boi para a União Européia (UE), aumentando as vendas progressivamente, mas tudo isso ao lado de uma negociação em que os europeus deixaram claro que iriam exigir a tal rastreabilidade - um moderno sistema pelo qual é possível saber de onde veio o bezerro, onde foi criado e abatido.
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Os produtores brasileiros foram introduzindo o sistema paulatinamente - primeiro rastreando o animal adulto - e o governo federal assumiu o compromisso de completar o ciclo, do bezerro ao boi, até dezembro de 2007. A partir de fevereiro deste ano, só poderia ser exportada para a Europa a carne de animais inteiramente rastreados.
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No final do ano passado, o governo brasileiro concluiu uma lista de pouco mais de 8 mil propriedades certificadas para exportar. O processo foi concluído por empresas certificadoras.
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Em outubro do ano passado, os técnicos europeus vieram ao Brasil checar a lista e escolheram uma amostra de fazendas certificadas em alguns Estados. Toparam com problemas grosseiros, conforme relatou o presidente da Associação Brasileira de Criadores, Luís Alberto Moreira Ferreira, em entrevista que me concedeu na sexta-feira passada, na rádio CBN.
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Havia, além de erros grandes, fraudes enormes, como documentos forjados. Muitas fazendas certificadas não tinham sido visitadas por ninguém. E muitos proprietários simplesmente vetaram a entrada dos técnicos europeus.
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Obviamente, a lista foi condenada. Foi então que os europeus pediram uma nova lista, mas preparada diretamente pelos técnicos do Ministério da Agricultura, que teriam de auditar as certificações feitas anteriormente.
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Apareceu, então, a exigência da tal lista de 300 fazendas. Por que 300?
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Conforme relatos de pessoas envolvidas, aconteceu o seguinte. Era novembro de 2007 e a nova lista deveria estar concluída em dezembro ou, estourando, em janeiro último. Numa conversa em Brasília, diz-se que os técnicos europeus perguntaram aos colegas brasileiros quantas fazendas conseguiriam fiscalizar nesse período. E os brasileiros, depois de comentar sobre a precariedade de recursos, responderam: umas 300.
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Pronto, cravaram o número.
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Mas, em janeiro, o Ministério da Agricultura mandou aquela lista com 2.681 fazendas. Os europeus, de novo com razão, desconfiaram e não aceitaram. Depois se soube por aqui que o Ministério, não tendo condições de fiscalizar muitas, pedira auxílio a secretarias estaduais, que incharam as listas com fazendas incluídas “politicamente”, dos correligionários.
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Foi aí que o Ministério reconheceu o erro, reduzindo a lista para 600 e tantas fazendas, depois para 523, relação essa apresentada na última sexta-feira em reunião em Bruxelas, ainda sob suspeitas.
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Ficou acertado que os técnicos europeus voltam ao Brasil no final deste mês, para novas vistorias. E a exportação de carne para a Europa continua embargada, com prejuízos diários para o País, para os produtores e, sim, para os consumidores europeus. As autoridades européias foram pacientes, deram e adiaram vários prazos, não por serem compreensíveis, mas porque precisam da carne brasileira, boa e de preço competitivo.
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Aliás, comenta Luís Alberto Moreira Ferreira, parece que os brasileiros confiaram demais nessa necessidade européia. Algo assim: “eles precisam da nossa carne, não há disponibilidade no mundo, de modo que eles não podem suspender as importações; danem-se as exigências”.
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Uma atitude tão estúpida quanto as declarações de autoridades e políticos segundo as quais a Europa quer esmagar a produção brasileira, quer impor seu sistema ao Brasil - e tantas outras bobagens.
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A coisa é simples: quer vender para os europeus? Siga as regras. Do mesmo modo, por exemplo, e como nota Moreira Ferreira, frigoríficos brasileiros abatem animais conforme os preceitos judeus para poder vender a Israel. Assim como produtores de frangos abatem pelos preceitos muçulmanos para ter acesso ao rico mercado árabe.
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Além disso, o rastreamento é uma exigência cada vez maior nos países desenvolvidos, onde os consumidores, especialmente os mais ricos, fregueses que compram as carnes nobres, e caras, querem produtos que possam ser auditados na origem e qualidade.
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Finalmente, adotar o rastreamento é bom para o país produtor, nota Moreira Ferreira. É uma garantia não apenas de cumprimento das condições sanitárias, como dá segurança jurídica a todo o processo.
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O sistema é caro e trabalhoso. É preciso colocar um brinco com chips em cada animal, mas não há alternativa se o País quer ocupar a posição de líder mundial na exportação de carnes.
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Pecuaristas e frigoríficos deveriam dividir os custos e assumir o processo, em vez de ficar reclamando e tentando enganar os europeus e o governo. E tem que ser uma atitude do setor privado, dada a óbvia incapacidade e incompetência do governo.
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É possível fazer. Já há no Brasil fazendas e frigoríficos de ponta, que acabam prejudicados pela situação dos outros e pelas confusões do governo.
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Aliás, todo esse episódio é uma amostra do Brasil de hoje. De um lado, um agronegócio moderno, competitivo, que ganha espaço no mundo todo. De outro, empresários picaretas, vivendo à custa de politicagem. E um governo incompetente, que deixa politizar questões técnicas.
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(O Estado de SP - 18/02/2007 )