quinta-feira, outubro 25, 2007

Legalizando e regulamentando o crime.

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

É interessante o comportamento deste governo: começa com a regulamentação dos jogos, um deles o bingo, que acabou sendo “escanteado” por conta do estouro do escândalo Waldomiro Diniz, mas não pensem que foi abandonada a idéia. Tanto que corre no Congresso projeto que pode virar lei liberando os Estados para “criar” seus próprios jogos.

Depois, veio e ainda se debate, a questão da descriminalização das drogas, que só pode funcionar na cabeça de um camarada pra lá de “chapado”. Aliás, já se sabe, que o Brasil se tornou segunda pátria dos narcotraficantes. E é bem verdade que alguns foram pegos, mas existem outros, muitos outros espalhados e soltos por aí.

Em seguida o governo achou por bem proteger o desvalidos do preconceito social. Assim, com medidas pra lá de duvidosas intenções, criou regimes de cotas raciais nas universidades. Por elas institucionalizou o preconceito e ainda sua ministra (ir) responsável pela área afirmou que o preconceito de branco contra negro é crime, porém não é quando for de negro contra branco.

Não satisfeito, o governo luta agora para a liberação do aborto. Diz que se trata de política pública de saúde, quando na verdade se trata de política pública da morte. E é bom que se diga que, pesquisas recentes, assinalavam que 86% da população brasileira é contra o aborto, a não ser naqueles casos que a lei já prevê.

Um pouco antes disto, o ministério do Trabalho ainda no primeiro mandato de Lula, criou e disponibilizou na internet o Manual da Prostituta, vá ver baseado na biografia de muitos políticos que rondam o país.

Agora, CCJ da Câmara de Deputados acaba de dar seu parecer favorável ao projeto de lei que regulamenta a profissão das chamadas “mulheres de vida fácil”. Não li o projeto mas entendo que ele deveria prever também a atividade de gigolô, já que, em grande número de casos, um não vive apartado do outro. Poderia, a titulo de sugestão, recomendar ao governo trata-los como os “sindicalistas do sexo”, já que eles se auto-proclamam de protetores das “meninas”. Vai ver que, inspirado neles, o governo tratou de regulamentar a existência das centrais sindicais, a quem se destinará cerca de R$ 100,0 milhões para “aplicações diversas” na sua insana atividade.

Quando o atual presidente assumiu em janeiro de 2003, encontrou já implantados, inúmeros programas sociais. Assim, tratou de junta-los num único “bolsão” e liberou geral. A desnutrição, o trabalho infantil, a freqüência nas escolas, a mortalidade infantil e materna, tudo isso se considerou entraves à expansão do programa. Aliviou-se o freio no cadastro, e temos hoje 47,0 milhões de pessoas dependentes do bolsa-família, apelido que deram ao bolsa compra-voto. A conseqüência é a seguinte: a popularidade do “homi” aumentou e se mantém na esteira dos indicadores sociais que despencaram: a freqüência escolar diminui, inclusive com altas taxas de evasão, a mortalidade estagnou, a mortalidade materna aumentou, o trabalho infantil não cessa de avançar, e em muitas regiões grande parte dos beneficiados se negam em procurar emprego, e para os que conseguem, se negam em deixar assinar suas carteiras de trabalho.

Por outro lado, não há um só dia que não “estoura” algum escândalo de corrupção em algum canto escondido do governo federal. Em contrapartida, a carga tributária não cessa de aumentar. Os cargos ditos de confiança, ou seja, aqueles para os quais não se exige concurso e nem sequer qualificação, apenas padrinho político, pularam de pouco mais de 18 mil para cerca de 23 mil, tudo, claro, sustentado com salários acima dos de mercado.

Paralelamente, o Congresso nunca “gozou” de tão baixa confiança junto à população como agora. Pouco mais de 10% acredita em políticos, provavelmente estes pouco mais de 10% sejam eles próprios, acompanhados dos parentes colocados em alguma boca rica (e são muitas!), na prática canalha do fisiologismo que muito defendem e tentam asquerosamente “justificar”.

Este é o país que o governo atual está tentando criar: liberado para o crime, agora regulamentado em diversas atividades como “sérias”. Este é o espírito de corpo (e de porco) que a cretinice das esquerdas tenta impor à uma sociedade que se deseja, até sua chegada ao poder, como séria, honesta, trabalhadora, decente. Fica difícil considerar como “sério” um país em que o submundo do crime passa a ser institucionalizado, tornado “atividade” legal sobre aplausos das mentes medíocres que ainda nos cobram aplausos por seus “atos de puro vandalismo” ao desenvolvimento da nação.

Se algum esquerdopata quiser “justificar” esta ação medíocre como “avanço” social, é bom saber que, no mundo civilizado, todas estas atividades criminosas foram expurgadas da vida diária. Todas são crimes, todas são punidas com prisão. Assim, este dito “avanço” nada é mais do que ranço do atraso e da barbárie. Definitivamente, regredimos à Idade Média. Só um psicopata empedernido justificará tanta miséria moral. Doloroso é saber que eles ainda acham que “tudo” isto ainda é pouco.

Pelo andar da carruagem a conclusão que se pode chegar diante do descalabro que estamos assistindo é o seguinte: ser branco, honesto, estudante, trabalhador, sem indicações “políticas”, defensor da vida e não da morte, não drogado nem “bebum”, tudo isto neste país um dia ainda será considerado como um clandestino, um “marginal”. Mas a conclusão mais devastadora nem está aí. Está no fato de que este movimento todo contrário à cidadania civilizada, apesar do discurso cretino do governo, que fere princípios que ergueram nossa civilização ocidental e à levou ao progresso material e intelectual, que pôs ordem no caos e na baderna que antes vigorava, não consegue ser contraposta por nenhuma instituição com a força de demover a classe política de praticar este esbulho, este desmonte da organização social. Esta marcha para trás, este retrocesso gigantesco não encontrou ainda nenhuma entidade institucional capaz de levantar sua voz, e se fazer ouvir de forma mobilizadora, e que pudesse reverter este cenário que nos conduzirá, inevitavelmente, a desagregação social.

Assim, diante de eminente ruptura, questionamos: se não temos instituições confiáveis e suficientemente fortes de mobilizar a nação num movimento de defesa da nossa organização social, que se desmantela a olhos vistos, como poderemos defender a nossa ainda incipiente democracia ? Senhores, senhoras, dá um medo danado pensar no que tudo isto vai dar, e em que selva maluca estão enterrando o futuro da democracia brasileira.

Pobre Rio! Tão perto do mar, tão longe de Deus!

Reinaldo Azevedo

Publiquei ontem à noite a entrevista que o governador do Rio, Sérgio Cabral, concedeu ao Portal G1. Trata-se ali de muitos assuntos, mas duas opiniões do governador chamaram a minha atenção. Ele volta a defender a legalização das drogas e o aborto. No primeiro caso, compara o consumo ao do cigarro e do álcool. Já escrevi aqui sobre a falácia desse argumento. São desiguais na origem, na cultura e, claro, na prática. Empolgado, à esteira de pensar com desassombro, também defende o aborto como um medida de combate à violência. Reproduzo a questão e a resposta:

G1 – Mas o Brasil não consegue dar conta do mosquito da dengue. Teremos condições de resolver essa questão das drogas?

Cabral - O Brasil não dá conta do câncer. Não dá conta dos que necessitam de CTIs. Não dá conta de um monte de coisas. Se for partir para isso... São duas questões que têm a ver com violência: uma é a questão das drogas que é mais internacional. O Brasil deve contribuir. A outra, é um tema que, infelizmente, não se tem coragem de discutir. É o aborto. A questão da interrupção da gravidez tem tudo a ver com a violência pública. Quem diz isso não sou eu, são os autores do livro "Freakonomics" (Steven Levitt e Stephen J. Dubner). Eles mostram que a redução da violência nos EUA na década de 90 está intrinsecamente ligada à legalização do aborto em 1975 pela suprema corte americana. Porque uma filha da classe média se quiser interromper a gravidez tem dinheiro e estrutura familiar, todo mundo sabe onde fica. Não sei por que não é fechado. Leva na Barra da Tijuca, não sei onde. Agora, a filha do favelado vai levar para onde, se o Miguel Couto não atende? Se o Rocha Faria não atende? Aí, tenta desesperadamente uma interrupção, o que provoca situação gravíssima. Sou favorável ao direito da mulher de interromper uma gravidez indesejada. Sou cristão, católico, mas que visão é essa? Esses atrasos são muito graves. Não vejo a classe política discutir isso. Fico muito aflito. Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal. Estado não dá conta. Não tem oferta da rede pública para que essas meninas possam interromper a gravidez. Isso é uma maluquice só.
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É um escândalo
Em primeiro lugar, Sérgio Cabral não leu o livro. Ele transforma o que, lá, é, no máximo, uma correlação — na verdade, um chute — em uma relação de causa e efeito. Os autores não defendem o aborto como método para diminuir a violência. E é isso o que faz o governador do Rio de Janeiro, dizendo-se, não obstante, cristão e católico. Vai ver anda lendo o Eclesiastes com as mesmas lentes demoníacas do autoproclamado bispo Edir Macedo, dono da Record e da seita Igreja Universal do Reino de Deus.

Sempre que se fala da diminuição da criminalidade nos EUA, não se lembra que o país está entre os que têm os mais altos índices de população carcerária do planeta, coisa que a nossa esquerda abomina. Se Sérgio Cabral decidisse assassinar todos os fetos das mulheres pobres — nosso Herodes pequeno-burguês — e optasse por uma esterilização censitária, acho que não conseguiria baixar o número de homicídios por 100 mil da cidade do Rio aos patamares da capital paulista. A razão é simples de novo: São Paulo prende muito mais. E o Rio mata quase quatro vezes mais.

Que tempos estes em que vivemos, não? Se Cabral tivesse defendido a pena de morte, nesta quinta, assistiríamos a um verdadeiro deus-nos-acuda. Aliás, ele próprio está sendo severamente criticado por conta da ação de sua polícia no combate ao crime. Mas os nossos humanistas se calarão diante da defesa do aborto e da legalização das drogas. A pena de morte (a que me oponho, diga-se), num estado democrático e de direito, dá ao acusado ao menos o direito de se defender. Até no confronto com a polícia, o bandido não se queda inerme. Vai à luta. Cabral tem uma outra idéia a respeito: acredita que é preciso impedir que os pobres venham à luz. Prefere condená-los antes.

Ele acredita, certamente, que tem do seu lado a razão pragmática: “Ah, mas o aborto já é praticado mesmo”. O crime, então, seria uma conseqüência dos abortos não-feitos. Sua sugestão, por dedução lógica, só seria eficaz, ao longo do tempo, se houvesse um crescimento exponencial de abortos. É um homem de coragem. Até havia pouco, os que defendem a legalização da prática alegavam que se tratava de admitir uma situação de fato. Na tese de Cabral, não. É preciso que aumente brutalmente o número de abortos para que a solução seja eficiente. É católico? A Igreja deveria excomungá-lo.

Imaginem se...
Com alguma freqüência, diante de algum descalabro, escrevo aqui: “Imaginem se isso estivesse sendo dito ou feito por alguém identificado com a direita...” Imaginem se Padre Júlio Lancelotti fosse de direita, por exemplo. Não o faço para ideologizar todos os assuntos, como acusam os petralhas (que se querem não-ideológicos). Faço-o para evidenciar o quanto o princípio está ausente dos debates. O assassinato em massa, se proposto por um “progressista”, assume dimensões verdadeiramente civilizatórias.

Eu entendo. Este mal já cometeu até o Apedeuta. Os políticos começam a governar o Brasil e, de súbito, ficam com vontade de governar a Suécia. Vejam lá. Cabral queria ser governador da “Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana”. O que ele não suporta é ter de governar também a Rocinha. Aí, teve uma idéia...

Observo ainda que ele deveria parar com essa cascata de legalizar as drogas. Porque sabe que o Brasil não pode fazer isso sozinho. E, tolo que é, o resto do mundo não se mostra disposto a concordar com ele. O governador faria melhor se reprimisse o consumo de drogas ilícitas nas praias, em meio a crianças, como se pode ver a qualquer momento — um trabalho sistemático e metódico de formação de novos consumidores, que vão alimentar o narcotráfico.

Essas suas duas utopias — uma claramente homicida — são a prova de um cansaço e de uma desistência. A solução, para o governador do Rio, está em medidas que simplesmente não serão adotadas — e, pois, não está em lugar nenhum. É questão de lógica elementar.

Lastimo ainda que sua coragem seja de um tipo tão particular. Ele próprio se diz contrário ao aborto. Mas defende a medida como prática de alcance, digamos, social. Cabral pode dizer o que quiser, mas é inegável que, segundo a sua tese, ventres de classe média e alta jamais dão bandidos à luz. A pobreza é mais do que um destino. Tornou-se uma genética. E, no entanto, vocês sabem, o reacionário sou eu.

Pobre Rio! Tão perto do mar, tão longe de Deus!
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Vou tirar da estante Sob o Sol de Satã, do grande escritor católico Georges Bernanos. Que morou no Brasil.

Hino nacional

Fausto Wolff , Jornal do Brasil

Há sempre alguém perguntando o porquê das coisas. Há sempre alguém pedindo uma definição sem atentar que a vida talvez fosse melhor antes da definição. A poesia, por exemplo, ela ou é indefinível ou se define demais. De qualquer modo, prefiro os homens que fazem boa poesia aos que fazem poesia alguma e aos que fazem má poesia. A poesia existe e cabe a você, leitor, enxergá-la. Aquele sujeito abraçado àquela palmeira está de porre ou simplesmente ama a árvore de paixão? E aquele macaco tirando pulgas da macaca estará mesmo tirando pulgas ou aquilo é um código para dizer quanto a ama? E o amor? Melhor não mexer com isso, pois é matéria que todo mundo finge entender, mas não entende picles, daqueles de embalagens de vidro para a gente poder ver o que vem dentro.

Pessoalmente, gosto muito do poema jornalístico, mas não daqueles que o subpoeta escreve porque se comemora alguma data idiota qualquer. Falo do poema jornalístico como os que escreviam Shakespeare, Blake, Camões, Drummond, Vinicius e tantos que já se foram por amar demais. Antoñito el Camborio, de Lorca, na primeira página de um jornal, nos contaria não só a guerra espanhola como a dos gigantes contra os titãs. Jamais alguém falará numa "cantada" sem mencionar Shakespeare, que convenceu uma bela mulher a casar-se com o horrendo Ricardo III em frente ao cadáver do viúvo vítimo.

Sempre que palpitei na direção de qualquer jornal dei um jeito de colocarem poema na primeira página, a fim de dar uma grandeza trágica mundial ao que, aos olhos do leitor, pareceria no máximo mais um troço chato. Como não posso publicar o poema que queria na primeira página, faço-o na minha coluna.

Precisamos descobrir o Brasil
Escondido atrás das florestas,
Com a água dos rios no meio
O Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil
O que faremos importando francesas
Muito louras de pele macia,
Alemãs gordas, russas nostálgicas para
Garçonetes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas
Precisamos educar o Brasil,
compraremos professoras e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites
Cada brasileiro terá sua casa
Com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão de conferências científicas.
E cuidaremos do estado técnico.
Precisamos louvar o Brasil

Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
Do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das Sublimes Paixões.
Os Amazonas inenarráveis... os incríveis João –Pessoas
Precisamos adorar o Brasil
Se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens.
Por que motivos eles se juntaram e qual a razão dos seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil
Tão majestoso, tão sem limites
Ele quer repousar de nossos terríveis carinhos
O Brasil não nos quer. Está farto de nós.
Nosso Brasil é noutro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E, acaso, existirão os brasileiros?

Este poema se chama Hino Nacional e é de autoria de Carlos Drummond de Andrade, um homem bom, aparentemente parecido com todos nós. Ele gostava de fingir que era como nós ou talvez nem soubesse que era o gigantesco ser que era. Não me lembro mais do dia do seu aniversário nem do da sua morte. Talvez eu tenha publicado este poema por seu autor ter sido um dos 100 homens que garantiam ao mundo que tínhamos uma cultura. Hoje, são menos de 50. Poetas e heróis morrem sempre cedo, não importa quando.

Quem sabe publiquei o poema de Drummond - um dos poucos motivos de orgulho é ter dado um curso sobre sua obra na Faculdade de Letras de Copenhagen - porque nossos artistas viraram palhaços; nossos arquitetos, decoradores; nossas estradas, espanholas; nossos automóveis, alemães; nossos aviões, sucata americana; nossa música, alienígena.

As prostitutas mudaram e as profissionais estão levando uma surra das amadoras. Os políticos ainda não acharam a vergonha, mas continuam recebendo dinheiro para mudar de posição. Dizem que em Aldeia Campista tem um velhinho professor de aritmética que sabe de cor a Estrela da manhã, de Manuel Bandeira. Prefiro o teu Hino Nacional, Drummond. É menos convencido, menos exibicininista e atualíssimo. Finalmente, talvez eu tenha publicado este poema porque estou pendendo para o trágico, tal qual outro Manoel, o de Barros ou, se assim o permitirem, porque me deu na veneta.

Ausência de instituições

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Vale insistir no tema, porque só não vê quem não quer. O terceiro mandato vem sendo preparado e significará formidável retrocesso no regime democrático, ainda que represente a única saída para os atuais detentores do poder, que não admitem perdê-lo.

A pergunta que se faz, assim, é a respeito de quem ou do que poderá evitar tão abominável mancha em nossa História. Que instituição nacional poderia liderar a resistência à continuidade do presidente Lula, com base na evidência de que só ele venceria as eleições de 2010, órfãos que se encontram o PT e penduricalhos de nomes capazes de aspirar à vitória.

É aqui que o País vai atrás da vaca, quer dizer, para o brejo, porque falta um grupo organizado em condições de mobilizar a opinião pública para obstar a avalancha que se prenuncia. Senão, vejamos:

Poderia o Congresso opor-se ao terceiro mandato? Nem pensar. Faltarão à Câmara e ao Senado forças até mesmo para impedir a Constituinte Exclusiva, parte fundamental da armação continuísta. Através de métodos variados, inclusive os pouco ortodoxos mensalões, o Legislativo tornou-se massa informe, insossa e inodora. Perdeu a força para resistir a qualquer coisa, envolto em nomeações e liberações de verbas. Nem adianta lembrar os partidos, apêndice desimportante do Congresso, sem ideologia ou doutrina senão a do interesse pessoal.

Caberia ao Judiciário esse papel? Também não. Mergulhado no formalismo jurídico, de um lado, e, de outro, na prolongada designação de seus ministros pelos detentores do poder, os tribunais superiores não teriam como objetar, caso a Constituição fosse alterada pela Constituinte Exclusiva ou pelo Congresso, dando aos futuros presidentes cinco ou seis anos de mandato, em vez de quatro. Não haveria sentença deixando de considerar que, no novo sistema, todos os brasileiros teriam direito de se candidatar. Inclusive ele.

Os militares já promoveram inúmeras intervenções no regime. Disporiam de motivação, agora, para insurgir-se? De jeito nenhum. Postas na defensiva, sucateadas e carregando o peso de excessos praticados faz pouco, às Forças Armadas falta aquela identificação natural com a opinião pública que, no passado, motivou boa parte de suas insurreições. Vai demorar muito, talvez uma eternidade, para que as armas voltem a falar. Ainda bem.

A Igreja Católica tem liderado movimentos de significativa expressão histórica, mas mobilizar os púlpitos para uma causa que baterá de frente com as massas dependentes do bolsa-família envolveria o risco de um racha dos diabos (com as devidas desculpas pela citação dos adversários). Utilizando linguajar cada vez mais hermético, ousaria a CNBB sequer condenar o terceiro mandato, quanto mais puxar a fila da resistência? No fim da leitura de um desses documentos divulgados com freqüência, ficaríamos sem saber se nossos prelados estariam contra ou a favor.

Das igrejas evangélicas nada haverá a esperar. Apesar do número crescente de parlamentares eleitos pelas diversas seitas, a praia deles é outra. Jamais se posicionariam contra o poder, do qual dependem senão para ampliar os cofres de suas organizações, ao menos para não sofrer a aplicação da lei que, em muitas situações, lhes causaria dificuldades para renascer.

Estaria nos sindicatos a força mobilizadora do sentimento democrático nacional? Só por milagre, tendo em vista, primeiro, o desgaste das centrais que não sensibilizam mais ninguém. Depois, porque o presidente conseguiu conquistar diretamente as bases populares, carecendo da intermediação sindical.

CUT, Força Sindical e sucedâneos deixaram de ser personagens principais para tornar-se coadjuvantes de um poder que pouca importância lhes dá. Jamais bateriam de frente com ele. Ao contrário, seriam ligeiros na adesão ao terceiro mandato. Vale o mesmo para o Movimento dos Sem-Terra, porque se nem Lula concretizou a reforma agrária, o que dizer da alternativa de um tucano?

A imprensa seria a instituição capaz de despertar o País para a defesa da democracia? Como costuma escrever mestre Helio Fernandes, a resposta só pode ser uma: "Ha! Ha! Ha!" Não houve um só movimento nacional, dos louváveis aos abomináveis, em que, diante da perspectiva de vitória, não contasse com o apoio quase unânime dos meios de comunicação.

Das ditaduras de 37 a 64 às libertárias reações democráticas, jamais os jornais, revistas, rádios e televisões se viram flagrados no lugar errado. Com o tempo, reajustam dispositivos e até empreendem reviravoltas de 180 graus. Mas para enfrentar o empuxo, jamais. Fora as exceções de sempre, por certo.

Outras instituições? Nem a Ordem dos Advogados do Brasil, nem a universidade, nem os intelectuais e os artistas, sequer o Ministério Público deteriam condições, ou ânimo, para interromper o estupro constitucional. Torceriam o nariz, umas, dariam de ombros, outras, mas não ousariam sair à frente de uma reação que não acontecerá.

E quem imaginar no empresariado a salvadora linha de resistência receberá o primeiro prêmio na copa da ingenuidade. Ou não estão os bancos e o sistema financeiro faturando como nunca faturaram? Os exportadores jamais negociaram tanto. Industriais, praticantes do agronegócio e comerciantes só se insurgiriam caso ameaçados seus interesses.

Em suma, quando vierem estabelecer o terceiro mandato, não haverá uma só instituição disposta a insurgir-se e a arregimentar o sentimento democrático nacional. Num primeiro momento prevalecerá o conselho da ministra Marta Suplicy: imaginarão todos relaxar; quanto a gozar, nem tanto...

Reformas ou golpe, Dirceu?

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

O ex-deputado e cassado José Dirceu, semanalmente, comparece ao Jornal do Brasil com um artigo. O de hoje até vale dar uma olhada com aquela natural precaução, por ser ele quem é, e ter a ideologia que defende.

Ao longo do texto, Dirceu fala abertamente de reformas, da necessidades do país implementa-las, etc, etc. Cita a reforma tributária chegando a criticar a perversidade do poder público quanto ao montante que nos cobra, em contrapartida com o retorno zero em serviços que devolve à sociedade. Fala também da reforma política como instrumento capaz de afastar o fantasma da corrupção, apontando que “...Não há consenso social sobre essas questões vitais para o nosso futuro...”, o que particularmente duvido, uma vez que a corrupção está no político, e não no sistema e, que neste caso, o consenso de toda a nação é dar um tiro de misericórdia na safadeza e, principalmente, na impunidade com que os políticos se alimentam e exploram a sociedade que deveriam representar. Mesmo diante de um sistema frágil e com portas escancaradas para o cometimento de crimes, o honesto resiste à tentação e cumpre seu papel, aliás, para o qual ele ali está.

Depois, menciona a reforma administrativa mas sem nada acrescentar. Trata-se apenas de uma mera citação. Nada além disto.

Mas era de reformas que Dirceu queria falar ? De jeito nenhum, apesar do título do artigo ser “reformas, quais reformas?”.

A questão vital do artigo está neste trecho: “Logo, o problema é formar uma maioria no país e eleger uma maioria parlamentar a partir de uma proposta de reformas política, tributária e administrativa, o que só será possível nas eleições de 2010. Esse é o principal desafio dos partidos, particularmente do PT, que sustentaram o projeto político que levou Lula à Presidência da República por duas vezes.”

Agora, analisemos o que isto significa. Dirceu sabe que o PT, dentro de seu projeto hegemônico, não poderá ir muito longe considerando-se, primeiro, o fato de não haver sucessores naturais dentro da atual base aliada ao atual presidente. De fato, nenhum nome tem o peso, a importância e a popularidade de Lula capaz de vencer e herdar o “tesouro” já plantado. Segundo, para que as reformas apontadas por Dirceu possam ser aprovadas sem discussão e reação negativa, o partido precisaria de ampla maioria nas casas do Senado e da Câmara, com a qual pudesse aprovar qualquer mudança legal, mexer na Constituição a seu bel prazer. Assim, para Dirceu o que importa é o porto de chegada, e nunca de partida. Para a tal “ampla maioria” cumpre investir pesado.

Se agora olharmos para os pontos básicos neste segundo mandato, vamos encontrar a estratégia já devidamente delineada para a luta que se travará nas urnas. A propósito, Dirceu também sabe que não há espaço para golpismo de espécie alguma. A sustentação do poder em mãos petistas só se fará pelo voto. Daí sua preocupação com a tal “ampla maioria” congressual.

No fundo, tampouco reforma administrativa nem mesmo a tributária são para Dirceu e mesmo o governo atual e ainda o próprio PT, prioridades extremas. Pra eles o que vale é a reforma política, esta sim capaz de dar seguimento às ambições políticas com que as esquerdas sonham e se alimentam. E aqui o que importa é aplainar o caminho para reeleições sucessivas, ou até mesmo mexerem no mandato presidencial, quando tudo se apagaria e Lula ganharia de bandeja a possibilidade de concorrer em 2010. É lá que está o foco, mas o caminho começa em 2008.

Os “investimentos” estão sendo feitos a toque de caixa. Primeiro foi o balaio de pacs. Agora, vão espalhando as diferentes estratégias. Vejam: vem aí TV pública, ótimo fonte de propaganda e formação de opinião partidária petista. Depois, a luta imensa para a continuidade da CPMF, ótima fonte de recursos para bancar o programão partidário nas campanhas que virão. Seguem ainda as ampliações dos programas ditos sociais, que darão mais dinheiro para mais gente, garantindo assim o voto como a contraprestação dos serviços federais. E, nesta semana, a garantia para estados e municípios de que as verbas dos pacs estarão acima da Lei de Responsabilidade Fiscal, e terão seus repasses como obrigatórios, mesmo que, pela LRF, estados e municípios estejam impedidos, por inadimplência com a União, de serem alimentados pela ração distribuída pelo Tesouro Nacional.

Interessante ainda destacar que o artigo do Dirceu é que, apesar de mencionar reformas e mais reformas, mas não foi capaz de escrever uma linha sequer sobre “quê” medidas deveriam ser tomadas. Por exemplo, reforma tributária: quais impostos cortar, quais alíquotas reduzir. Na política, nem uma palavrinha miserável que fosse sobre representatividade. Sistema distrital misto ou puro ? E na administrativa, por que não “sugerir” que se acabasse de vez com os 23,0 mil cargos de confiança, obrigando que as vagas fossem preenchidas através de concurso ? Ou mesmo sua redução ? Ou também que tal diminuir-se o tamanho do ministério ? Nada.

Portanto, ele próprio dá a senha para o que pretende: todos os que se alinham ao esquerdismo psicopata, ou esquerdopata, devem se entregar de corpo e alma na busca de ampla e geral maioria parlamentar para que o PT possa impor uma agenda de reformas na política nacional capaz de garantir a permanência ad eternum do PT no poder. O resto é firula. Embromação, o famoso “me engana que eu gosto”. Se é para falar de reformas, e se Dirceu quer participar como cidadão brasileiro do verdadeiro e honesto debate, que ponha na mesa suas sugestões. Agora, usar como escudo o amplo sentido do que sejam “reformas” para escamotear a real intenção de aplicar um “caroço” nas instituições, convenhamos, é cretinice demais. Até para alguém como Dirceu...

A Mesa do Senado ''delubiou''

Editorial Estadão

Na mesma reunião em que resolveu segurar por tempo indeterminado o sexto pedido de abertura de processo por quebra de decoro parlamentar contra o presidente licenciado Renan Calheiros e arquivar pedido semelhante contra o representante mineiro Eduardo Azeredo, a Mesa do Senado tomou terça-feira uma decisão do bem: abriu mão da prerrogativa de decidir se encaminha ou não representações do gênero ao Conselho de Ética. Repassará burocraticamente as solicitações, e o colegiado que julgue, em cada caso, se cabe iniciar uma ação contra o senador acusado ou se rejeita a denúncia, por entender que é destituída de fundamento. Mas, sendo o que são os políticos brasileiros, não surpreende que essa iniciativa meritória tenha vindo em má companhia.
Embora sem votação formal, a cúpula do Senado derrubou a sugestão do presidente interino Tião Viana, do PT do Acre, para que se divulgasse no site da instituição como os seus membros declaram gastar os R$ 15 mil mensais da chamada verba indenizatória - para cobrir despesas com aluguel e manutenção de escritórios nos Estados, contratação de assessores e até com gasolina. Apenas 2 dos 81 senadores - o pernambucano Marco Maciel, do DEM, e o amazonense Jefferson Peres, do PDT - dispensam o ajutório. A fórmula encontrada pelos integrantes da Mesa para rebarbar a proposta de Viana foi a de que o assunto precisaria ser submetido antes ao colégio de líderes da Casa. Note-se que a inovação não incluiria a reprodução das notas fiscais a serem reembolsadas.
Depois da reunião, a portas fechadas, o presidente em exercício disse à imprensa ter argumentado que a divulgação sistemática dos gastos daria mais segurança aos próprios senadores. "Se não tiver nenhum corredor escuro, se tudo for aberto", justificou-se, "não poderá mais haver dossiê contra senadores."Foi uma alusão ao rumor de que, recentemente, a mando de Calheiros, para intimidar os seus pares que desejam vê-lo pelas costas, o diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, teria preparado prontuários sobre o uso de notas frias para o ressarcimento de gastos fictícios. Os opositores de Viana murmuraram que a idéia era um golpe de teatro, para o seu autor, interessado em ficar de vez na cadeira do licenciado, ganhar pontos junto ao público. E que haveria de errado se fosse? Mas isso, evidentemente, não passa de pretexto.

A verdade é que baixou no Senado o espírito do então tesoureiro-mensaleiro do PT, o inesquecível Delúbio Soares. Certa vez, quando se aventou a conveniência de que os partidos publicassem pelo menos mensalmente nos seus sites a contabilidade das entradas e saídas de suas campanhas eleitorais, o professor goiano foi de uma franqueza a toda prova. "Transparência assim", ensinou, "também já é burrice."

Na reunião da Mesa, a lição teria sido repetida com palavras mais elegantes por um dos seus membros, o primeiro-secretário Efraim Moraes, do DEM da Paraíba. A ele se atribuiu o irritado comentário de que a transparência sugerida deixaria a instituição "exposta demais". Não se pode acusá-lo de incoerência. Ele foi um dos dois mesários (em sete) a pedir o arquivamento sumário da mais nova representação contra Calheiros.

Por sinal, o político alagoano, na tentativa de provar que tinha meios para arcar com os seus gastos extramatrimoniais, juntou aos seus vencimentos de senador (R$ 16,5 mil mensais) os R$ 15 mil da verba indenizatória. O fato é que o reembolso de que gozam os senadores, sem compartilhar com o eleitorado as informações sobre os dispêndios que os justificariam, é uma importação da Câmara, no início da legislatura passada. Mas, desde 2004, os 513 deputados assumiram a obrigação de divulgar na internet de que forma gastaram os reais que voltarão para as suas contas. A obrigação não se estende à apresentação de notas ficais.

Considerando o conjunto de dados sobre a atividade dos parlamentares federais brasileiros, o Senado é uma caixa mais preta que a Câmara, cujo site contém um Portal Transparência.

Ali o interessado também encontra informações sobre a freqüência com que os deputados comparecem às sessões deliberativas - outra proposta de Viana vetada pelos seus desassombrados colegas de Mesa.

Entre o crime e a mentira

Olavo de Carvalho, filósofo, Jornal do Brasil

O episódio do Prêmio Nobel James Watson, suspenso do Laboratório Cold Spring Harbor por ter dito que os negros são inferiores aos brancos, é uma excelente ocasião para fazer recordar à comunidade politicamente correta alguns fatos que ela já conseguiu extirpar da mídia e dos livros didáticos, mas que, por milagre divino ou negligência da censura, ainda estão vivos nos documentos.

O racismo é, por inteiro, uma criação da modernidade, das luzes, da mentalidade científica, ateística e revolucionária, e não das tradições religiosas que formam a base da nossa civilização. Nem haveria como ser de outro modo. Não pode existir um sentimento de superioridade racial sem prévia identidade racial, nem muito menos esta poderia ter surgido antes que o conceito de raça fosse criado pelos biólogos iluministas no século 18. E mesmo que eles o tivessem inventado numa época anterior, ele não poderia ter-se transfigurado em instrumento de guerra cultural antes que a classe dos cientistas e dos intelectuais acadêmicos tivesse adquirido, em substituição ao clero, a autoridade pública de suprema instância legitimadora das idéias.

Por isso mesmo, você não encontrará nos dogmas da Igreja, nas sentenças dos papas ou nas decisões conciliares uma só frase que sugira, nem mesmo de longe, a superioridade dos brancos sobre os negros. Em compensação, encontrará muitas nas obras dos enciclopedistas, de Kant, de Voltaire, de Karl Marx e de Charles Darwin - os gurus máximos das luzes, do progressismo e da revolução. Se Voltaire enriqueceu no comércio de escravos e Kant assegurou que "os negros da África, por natureza, não têm sentimentos acima da frivolidade", Marx e Darwin, em especial, fazem daquela pretensa superioridade branca um argumento ostensivo em favor do extermínio das "raças inferiores", que o primeiro considerava necessário ao progresso histórico e o segundo, um pressuposto básico da evolução humana, concordando nisso com seu antecessor Herbert Spencer e sendo ecoado fielmente por seus dois principais discípulos, Thomas Huxley e Ernst Haeckel, o que mostra que toda tentativa de separar evolucionismo e racismo é pura maquiagem ex post facto.

A rigor, a declaração de James Watson contra os programas sociais, ante a qual os paladinos da boa imagem da ciência tanto se fingem de escandalizados, não passa de uma versão atenuada do seguinte parágrafo de Charles Darwin:

"Entre os selvagens, os fracos de corpo e mente são logo eliminados. Nós, civilizados, fazemos o possível para evitar essa eliminação; construímos asilos para os imbecis, os aleijados, os doentes; instituímos leis para proteger os pobres... Isso é altamente prejudicial à raça humana".

Se, após ter espalhado no mundo esse apelo genocida, a ideologia progressista-científica tenta inculpar por isso as épocas anteriores que o desconheciam, não há aí nada de estranho: é da essência do movimento revolucionário inverter a ordem do tempo histórico e, com ela, a autoria das ações, transfigurando a inocência alheia em crime e a sua própria abjeção em motivo de vanglória.

Lênin viria a resumir esse procedimento-padrão na máxima: "Acuse-os do que você faz". Isso é assim nos grandes como nos pequenos lances da história desse movimento. Quando nossos políticos de esquerda fomentam a criminalidade e depois a diagnosticam como criação perversa da "sociedade de classes", ou quando vão construindo o mensalão em segredo ao mesmo tempo que brilham ante os holofotes como perseguidores de corruptos, não lhes falta a quem imitar. A tradição revolucionária é o perfeito casamento do crime com a mentira.

Derrubar a CPMF: questão de saúde pública

por Sebastião Paixão Jr. , site Diego Casagrande
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A continuidade da CPMF nada tem a ver com os graves e invencíveis problemas estruturais do SUS. O fato é que o tributo, criado para atender provisória e temporariamente as necessidades do sistema saúde, se transformou em receita geral da União, sendo progressivamente desviado da finalidade para a qual foi criado. Portanto, quando discutimos a manutenção da CPMF, o debate passa ao largo do colapso da saúde pública brasileira; o que está realmente em jogo é a necessidade crescente do caixa único. Se, ao menos, o governo tivesse a humildade de admitir o real motivo da CPMF e deixasse as balelas de lado, seria possível um embate mais profícuo e de maior calibre intelectual. Inaceitável, todavia, é pensar que os olhos do cidadão são cegos à realidade.

Os defensores da exação dizem que o tributo se tornou imprescindível para a implementação de políticas sociais. Tal linha discursiva sensibiliza pelo seu aspecto humanitário. Todavia, a razão de ser da CPMF é apenas uma: municiar o sistema de saúde pública de forma a tirá-lo de sua situação falimentar que se encontra. Fora daí, por mais sedutora que seja a justificativa, a manutenção da referida contribuição é injustificável. Isso porque a CPMF é um tributo com destinação específica e desvirtuá-la constitui ilegalidade invencível, mesmo que seja para atender outras necessidades sociais.

Além disso, desde sua criação, não se viu melhoras substanciais. Nossa população carente e idosa continua a sofrer com longas e intermináveis filas; os hospitais públicos continuam carentes de medicamentos e leitos; os médicos persistem com uma remuneração incompatível com o alto ofício da medicina; enfim, a vida segue a perecer. Tais fatos estão a indicar que algo vai mal com a CPMF. Os problemas, para os quais veio a solver, permanecem e se agravam. O interessante é que a arrecadação do tributo foi crescente, ou seja, se as deficiências ainda existem, é porque as políticas de saúde pública foram mal executadas.

Se realmente houvesse seriedade na utilização e na destinação da receita da CPMF, as discussões que são travadas inexistiriam; a continuidade do tributo seria aprovada com facilidade. Ocorre que o governo federal tem se mostrado pródigo na administração das finanças públicas. As despesas fixas crescem de forma vertiginosa, puxadas por um estrondoso aumento da máquina pública. A CPMF está sendo usada para tapar os furos do orçamento. Daí, porque se tornou imprescindível. A derrubada da CPMF é uma questão de saúde pública institucional: enquanto houver fartura, o governo continuará a gastar muito para nada. Na verdade, a proteção da saúde virou uma grande mentira, tal como o "P" de provisória da CPMF. Aliás, não seria "P" de Pinóquio?

Paradoxo da fome

Xico Graziano *, Estadão

A fome resiste à modernidade. Segundo a FAO, a agência de alimentação da ONU, 850 milhões de pessoas sofrem a privação de comida na mesa. Qual a razão desse drama insuportável?

A análise histórica permite descobrir que as causas da fome se tornaram complexas após a industrialização da sociedade mundial. Antes, na sociedade antiga, a fartura dependia das regras da natureza. Quando chovia bem, garantido estava o celeiro. Se viesse a seca, faltava o pão. Imperava a agricultura de subsistência e o excedente, pequeno, alimentava a nobreza perdulária.Tempos difíceis acometeram o povo no início do capitalismo europeu. Transformadas em operários, as massas campesinas viram desagregar-se a velha ordem. A crise provocou insuficiência da produção rural. Juntou a fome com a vontade de comer. Talvez tenha sido exatamente essa tragédia que, ao baratear a mão-de-obra, facilitou a vitória do capitalismo. Com a urbanização, rompeu-se o liame entre a moradia e a garantia alimentar. As cidades abriram um fosso entre a produção rural e o consumo doméstico.

O raciocínio fácil põe a culpa da fome nas costas da agricultura. Mas a análise histórica mostra que a insuficiência da produção de alimentos sempre esteve associada a outros problemas. Guerras, inclusive. Na atualidade, essa conjunção entre a fragilidade da agricultura e os conflitos bloqueia o abastecimento popular na África.

A mais famosa suposição sobre a origem da fome diz respeito ao crescimento demográfico. A explosão demográfica assusta, há séculos, os estudiosos. Não é para menos. Os números impressionam qualquer leigo. Em 1650, a população da Terra era suposta em 500 milhões de pessoas. Duzentos anos depois, em 1850, dobrava para 1 bilhão de almas.

O inglês Thomas Malthus elaborou sua teoria demográfica nessa época. Em seu famoso Ensaio sobre a População, de 1798, sentenciou que a população crescia em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos aumentaria em progressão aritmética. O terrível descompasso parecia inevitável.A História, porém, desmentiu Malthus. Em que pese a crescente multiplicação humana, o avanço da tecnologia permitiu fortes ganhos de produtividade na exploração da terra, elevando o nível das colheitas. As fronteiras da agricultura se expandiram, sustentando o crescimento populacional. A ampliação do comércio entre as nações facilitou a oferta de comida em regiões distantes.

A população continuou sua acelerada marcha. Em 1930, passados apenas 80 anos do primeiro bilhão, novamente os habitantes da Terra duplicavam, alcançando 2 bilhões de pessoas. Mais 45 anos e, em 1975, já eram 4 bilhões de pessoas. Hoje passam de 6,5 bilhões.

A produção rural, de forma até surpreendente, agüentou o tranco. O pior havia passado. A partir da segunda metade do século passado, a queda na taxa de natalidade da população começou a fazer diferença. O Velho Mundo equilibrou, em termos, sua população. Os EUA o seguiram. Na América Latina e na Ásia demorou, mas a redução progressiva da natalidade nos países em desenvolvimento significou a pá de cal na hipótese malthusiana.

Conforme ensina Joelmir Beting, porém, na prática a teoria é outra. A despeito do aumento da produtividade no campo e da redução do crescimento populacional, a fome persiste angustiando a cidadania. Os economistas descobriram, nessa jornada da humanidade, que o fator determinante da fome reside não na produção, mas na distribuição da comida.

Na economia monetária, é a renda das famílias que estabelece o nível de consumo da sociedade. Sem dinheiro no bolso, mesmo havendo oferta farta, pessoas, crianças principalmente, padecem de subnutrição. A desigualdade social, melhor que a falta de alimento, explica a terrível privação humana.

Hoje, ainda 52,4 milhões de pessoas enfrentam a subnutrição na América Latina e no Caribe. Segundo os dados da FAO, representam 10% da população. A situação mais grave está na América Central, onde o número total de pessoas com fome subiu, nos últimos 12 anos, de 5 milhões para 7,5 milhões. Já a América do Sul conseguiu baixar o número de seus famintos de 42 milhões para 35 milhões, caindo de 14% para 9% da população total. Menos mal.Em artigo publicado em 16 deste mês, Dia Mundial da Alimentação, José Graziano, representante da FAO no Chile, atesta que apenas o Haiti produz menos alimentos do que necessita para suprir seu povo. Na média, a América Latina e o Caribe produzem 31% a mais; no Brasil, o excedente, sobre a necessidade básica, é de 41%.

É claro que a exportação explica boa parte desse paradoxo. O Brasil tornou-se o maior exportador mundial de alimentos, somando a soja, as carnes, o açúcar, o suco de laranja, entre tantos componentes da balança comercial do agronegócio. Sabe-se, também, existir muito desperdício de alimentos, como no consumo das hortaliças.

De qualquer forma, é tristemente curioso perceber que existe excedente de comida numa sociedade em que perambulam milhões de famintos. Mas imaginar reduzir as vendas externas, como política para vencer a fome, piora a questão. Pois são exatamente as vendas externas que puxam o dinamismo da economia interiorana.

A receita mais segura para salvar o povo faminto está mesmo na geração de empregos, salário no bolso. Os agricultores, antes como agora, têm dado conta do recado. Mas as injustiças sociais, criadas historicamente, se perpetuam nos gabinetes da cidade. Esse é o pior flagelo.
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* Xico Graziano, agrônomo, é secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Dinheiro do PAC nas eleições

Weiller Diniz, Jornal do Brasil

O diabo mora nos detalhes. O bordão popular se ajusta perfeitamente à Medida Provisória 387, votada na noite de terça-feira pela Câmara dos Deputados e que agora segue para o Senado. Sobre o pomposo título de que a proposta "dispõe sobre a transferência obrigatória de recursos para execução de ações do Programa do PAC", o governo, até aqui com a chancela da Câmara, acaba de inaugurar uma nova modalidade de transferência orçamentária, atropelar a Lei de Responsabilidade Fiscal e sepultar pelo menos um artigo de Lei Eleitoral. É a chamada transferência obrigatória. Hoje só existem duas modalidades para transferir dinheiro público: as transferências voluntárias através de acordos ou convênios e as despesas obrigatórias com custeio.

Na história recente, todos os escândalos de corrupção foram germinados no orçamento público. Por isso, ao longo dos anos, foram sendo criadas amarras e limitações para evitar abusos e o uso político-eleitoral do orçamento público. Uma delas foi a Lei de Responsabilidade Fiscal, que além de impor limites para gastar, proíbe, por exemplo, repasses para prefeituras inadimplentes. Igualmente foi incluído na legislação eleitoral um artigo que proíbe as transferências voluntárias para obras faltando três meses para a eleição. Tudo isso para impedir que alguém se eleja auxiliado pelo dinheiro público ou que, no mandato, empurre dívidas para sucessores políticos adversários.

A MP aprovada com apoio de 249 deputados é um retrocesso e escancara o cofre para que o executivo transfira, a seu critério e a qualquer tempo, os recursos previstos no Plano de Aceleração do Crescimento. Para 2008 estão previstos no orçamento R$ 18 bilhões em obras, além de R$ 41 bilhões das estatais.

Crise tucana
Os deputados do PSDB emparedaram os senadores do partido na reunião do alto comando. Na Câmara, apenas um deputado votou com o governo na CPMF e os deputados exigiram uma oposição equivalente no Senado. Os senadores tucanos se reúnem hoje com o ministro Guido Mantega e irão apresentar uma listinha com seis exigências para aprovar a CPMF. Se o governo fizer cara feia, a negociação vai azedar. A senha de que o PSDB quer faturar a imagem da boa vontade e votar contra foi dada pelo futuro presidente da sigla, Sérgio Guerra (PE): "Vamos caminhar na mesma direção que vocês".

Crise Tucana 2
As exigências do PSDB são: desoneração tributária, destinar mais recursos para a saúde, adotar um redutor de gastos de 0,2% ao ano nas despesas do governo, redução da alíquota da CPMF e prorrogação do imposto do cheque por apenas um ano. Todos sabem que o governo vai torcer o nariz - e aí vem o discurso tucano. Não foi intransigente, quis negociar, mas a recusa do governo libera os senadores para votar como quiserem. Detalhe: 11 dos 13 senadores tucanos são contrários à prorrogação da CPMF. Restará ao Palácio buscar os votos no varejo.

A corte é festa
Oposicionistas e governistas se juntaram numa animada farra na casa do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) com direito a canjas pela madrugada. Eduardo Suplicy cantou a de sempre: Blowin' in the wind, de Bob Dylan. Roseana Sarney, numa minissaia que congelou olhares, atacou de Eu tenho tanto pra lhe falar, do Rei Roberto Carlos, e encerrou a noitada num duo com Demóstenes com Preta, pretinha.

Fora do tom
Passaram pela noitada os ministos Walfrido dos Mares Guia, da Coordenação Política, e Nelson Jobim, da Defesa. O deputado Rodrigo Maia, presidente do Democratas, tendo ao fundo uma dissonante senadora Kátia Abreu (DEM-TO), provocou a saia-justa da noite, exigindo, um tom acima, que os dois ministros "respeitassem a oposição".

Primeiros passos
O ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação do Palácio, desligou o áudio do tiroteio em cima da MP que cria a TV do Lula. Assina hoje com Marcelo Deda, governador petista de Sergipe, o primeiro convênio com a TV educativa local - TV Aperibê - que deseja transmitir integralmente a TV do Lula quando ela for inaugurada.

Depois reclama
A Comissão de Infra-estrutura do Senado deveria sabatinar ontem os dois novos conselheiros da Agência Nacional de Aviação Civil, Marcelo Pacheco e Alexandre Gomes. Os dois fizeram uma exposição monótona e um debate para o presidente da Comissão e um único senador: João Durval (PDT-BA). Os senadores foram entrando, votando e saindo. Sem nenhum questionamento, foram aprovados por 18 votos a 2. Nem parece que há uma crise aérea no Brasil.

Causa própria
O deputado Clodovil Hernandes (PR-SP) fez ontem um plantão no fundo do plenário da Câmara e colheu 100 assinaturas para que a Casa contrate um urologista e um proctologista. Antes que a maldade corresse, Clodovil esclareceu que teve câncer de próstata e frisou a importância do diagnóstico precoce.