Fausto Wolff , Jornal do Brasil
Há sempre alguém perguntando o porquê das coisas. Há sempre alguém pedindo uma definição sem atentar que a vida talvez fosse melhor antes da definição. A poesia, por exemplo, ela ou é indefinível ou se define demais. De qualquer modo, prefiro os homens que fazem boa poesia aos que fazem poesia alguma e aos que fazem má poesia. A poesia existe e cabe a você, leitor, enxergá-la. Aquele sujeito abraçado àquela palmeira está de porre ou simplesmente ama a árvore de paixão? E aquele macaco tirando pulgas da macaca estará mesmo tirando pulgas ou aquilo é um código para dizer quanto a ama? E o amor? Melhor não mexer com isso, pois é matéria que todo mundo finge entender, mas não entende picles, daqueles de embalagens de vidro para a gente poder ver o que vem dentro.
Pessoalmente, gosto muito do poema jornalístico, mas não daqueles que o subpoeta escreve porque se comemora alguma data idiota qualquer. Falo do poema jornalístico como os que escreviam Shakespeare, Blake, Camões, Drummond, Vinicius e tantos que já se foram por amar demais. Antoñito el Camborio, de Lorca, na primeira página de um jornal, nos contaria não só a guerra espanhola como a dos gigantes contra os titãs. Jamais alguém falará numa "cantada" sem mencionar Shakespeare, que convenceu uma bela mulher a casar-se com o horrendo Ricardo III em frente ao cadáver do viúvo vítimo.
Sempre que palpitei na direção de qualquer jornal dei um jeito de colocarem poema na primeira página, a fim de dar uma grandeza trágica mundial ao que, aos olhos do leitor, pareceria no máximo mais um troço chato. Como não posso publicar o poema que queria na primeira página, faço-o na minha coluna.
Precisamos descobrir o Brasil
Escondido atrás das florestas,
Com a água dos rios no meio
O Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil
O que faremos importando francesas
Muito louras de pele macia,
Alemãs gordas, russas nostálgicas para
Garçonetes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas
Precisamos educar o Brasil,
compraremos professoras e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites
Cada brasileiro terá sua casa
Com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão de conferências científicas.
E cuidaremos do estado técnico.
Precisamos louvar o Brasil
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
Do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das Sublimes Paixões.
Os Amazonas inenarráveis... os incríveis João –Pessoas
Precisamos adorar o Brasil
Se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens.
Por que motivos eles se juntaram e qual a razão dos seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil
Tão majestoso, tão sem limites
Ele quer repousar de nossos terríveis carinhos
O Brasil não nos quer. Está farto de nós.
Nosso Brasil é noutro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E, acaso, existirão os brasileiros?
Este poema se chama Hino Nacional e é de autoria de Carlos Drummond de Andrade, um homem bom, aparentemente parecido com todos nós. Ele gostava de fingir que era como nós ou talvez nem soubesse que era o gigantesco ser que era. Não me lembro mais do dia do seu aniversário nem do da sua morte. Talvez eu tenha publicado este poema por seu autor ter sido um dos 100 homens que garantiam ao mundo que tínhamos uma cultura. Hoje, são menos de 50. Poetas e heróis morrem sempre cedo, não importa quando.
Quem sabe publiquei o poema de Drummond - um dos poucos motivos de orgulho é ter dado um curso sobre sua obra na Faculdade de Letras de Copenhagen - porque nossos artistas viraram palhaços; nossos arquitetos, decoradores; nossas estradas, espanholas; nossos automóveis, alemães; nossos aviões, sucata americana; nossa música, alienígena.
As prostitutas mudaram e as profissionais estão levando uma surra das amadoras. Os políticos ainda não acharam a vergonha, mas continuam recebendo dinheiro para mudar de posição. Dizem que em Aldeia Campista tem um velhinho professor de aritmética que sabe de cor a Estrela da manhã, de Manuel Bandeira. Prefiro o teu Hino Nacional, Drummond. É menos convencido, menos exibicininista e atualíssimo. Finalmente, talvez eu tenha publicado este poema porque estou pendendo para o trágico, tal qual outro Manoel, o de Barros ou, se assim o permitirem, porque me deu na veneta.
Há sempre alguém perguntando o porquê das coisas. Há sempre alguém pedindo uma definição sem atentar que a vida talvez fosse melhor antes da definição. A poesia, por exemplo, ela ou é indefinível ou se define demais. De qualquer modo, prefiro os homens que fazem boa poesia aos que fazem poesia alguma e aos que fazem má poesia. A poesia existe e cabe a você, leitor, enxergá-la. Aquele sujeito abraçado àquela palmeira está de porre ou simplesmente ama a árvore de paixão? E aquele macaco tirando pulgas da macaca estará mesmo tirando pulgas ou aquilo é um código para dizer quanto a ama? E o amor? Melhor não mexer com isso, pois é matéria que todo mundo finge entender, mas não entende picles, daqueles de embalagens de vidro para a gente poder ver o que vem dentro.
Pessoalmente, gosto muito do poema jornalístico, mas não daqueles que o subpoeta escreve porque se comemora alguma data idiota qualquer. Falo do poema jornalístico como os que escreviam Shakespeare, Blake, Camões, Drummond, Vinicius e tantos que já se foram por amar demais. Antoñito el Camborio, de Lorca, na primeira página de um jornal, nos contaria não só a guerra espanhola como a dos gigantes contra os titãs. Jamais alguém falará numa "cantada" sem mencionar Shakespeare, que convenceu uma bela mulher a casar-se com o horrendo Ricardo III em frente ao cadáver do viúvo vítimo.
Sempre que palpitei na direção de qualquer jornal dei um jeito de colocarem poema na primeira página, a fim de dar uma grandeza trágica mundial ao que, aos olhos do leitor, pareceria no máximo mais um troço chato. Como não posso publicar o poema que queria na primeira página, faço-o na minha coluna.
Precisamos descobrir o Brasil
Escondido atrás das florestas,
Com a água dos rios no meio
O Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil
O que faremos importando francesas
Muito louras de pele macia,
Alemãs gordas, russas nostálgicas para
Garçonetes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas
Precisamos educar o Brasil,
compraremos professoras e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites
Cada brasileiro terá sua casa
Com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão de conferências científicas.
E cuidaremos do estado técnico.
Precisamos louvar o Brasil
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
Do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das Sublimes Paixões.
Os Amazonas inenarráveis... os incríveis João –Pessoas
Precisamos adorar o Brasil
Se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens.
Por que motivos eles se juntaram e qual a razão dos seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil
Tão majestoso, tão sem limites
Ele quer repousar de nossos terríveis carinhos
O Brasil não nos quer. Está farto de nós.
Nosso Brasil é noutro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E, acaso, existirão os brasileiros?
Este poema se chama Hino Nacional e é de autoria de Carlos Drummond de Andrade, um homem bom, aparentemente parecido com todos nós. Ele gostava de fingir que era como nós ou talvez nem soubesse que era o gigantesco ser que era. Não me lembro mais do dia do seu aniversário nem do da sua morte. Talvez eu tenha publicado este poema por seu autor ter sido um dos 100 homens que garantiam ao mundo que tínhamos uma cultura. Hoje, são menos de 50. Poetas e heróis morrem sempre cedo, não importa quando.
Quem sabe publiquei o poema de Drummond - um dos poucos motivos de orgulho é ter dado um curso sobre sua obra na Faculdade de Letras de Copenhagen - porque nossos artistas viraram palhaços; nossos arquitetos, decoradores; nossas estradas, espanholas; nossos automóveis, alemães; nossos aviões, sucata americana; nossa música, alienígena.
As prostitutas mudaram e as profissionais estão levando uma surra das amadoras. Os políticos ainda não acharam a vergonha, mas continuam recebendo dinheiro para mudar de posição. Dizem que em Aldeia Campista tem um velhinho professor de aritmética que sabe de cor a Estrela da manhã, de Manuel Bandeira. Prefiro o teu Hino Nacional, Drummond. É menos convencido, menos exibicininista e atualíssimo. Finalmente, talvez eu tenha publicado este poema porque estou pendendo para o trágico, tal qual outro Manoel, o de Barros ou, se assim o permitirem, porque me deu na veneta.