sexta-feira, maio 22, 2020

O OBSCURANTISMO DE UM GOVERNO IRRACIONAL

Comentando a Notícia


As atitudes e falas de Bolsonaro, antes, durante e depois da reunião ministerial de 22.04.2020, em conjunto com as suas  reações após a liberação do vídeo pelo STF, deixa muito claro uma coisa: Bolsonaro e seus asseclas costuram tentativa de golpe de estado. Vão forçar, a qualquer custo, uma ruptura institucional, jogando a sociedade contra suas instituições. 

São bravatas, teorias absurdas de conspiração, mentiras no atacado, inimigos fantasmas,  além da forma agressiva e estúpida com que ataca imprensa, os poderes Judiciário e Legislativo, governadores, prefeitos, todas as instituições democráticas, a forma autoritária e ríspida com que tenta interferir em órgãos de Estado,. A democracia deu a Bolsonaro o poder que ele agora, com soberba e arrogância, tenta usar o mesmo poder para destruí-la. 

É impressionante as manifestações lastimáveis de vários de seus ministros, sem falar da atuação pífia a frente dos ministérios que comandam ,  e que aos berros, com ofensas e ataques absurdos, tentam esconder sua incompetência e idiotice. Num governo sério e decente, tipinhos ordinários como Ricardo Salles – Meio Ambiente, Damares – Direitos Humanos(?), Ernesto Araújo – Relações Exteriores, Abraham Wientraub – (des)Educação,  não serviriam nem para servir cafezinho, quanto mais para ocuparem o cargo de ministros. São verdadeiras mulas  com pose de sábios e que, na base de agressões e mentiras, tentam ocultar suas desqualificações.

Salles trava uma dura batalha para destruir  principalmente a floresta amazônica. Ernesto luta contra qualquer respeito que uma diplomacia comprometida com o interesse do país, deve guardar em relação aos nossos parceiros internacionais. A única coisa que este imbecil faz é ficar de quatro perante Donald Trump. 

Weintraub é um rematado jumento que sequer domina a língua-mãe. 

Damares adora contar histórias, com um impressionante acervo de mentiras e fantasias que utiliza para encaixar suas teses obcurantistas. 

Houve um momento que este ministério do absurdo montado por Bolsonaro, até aparentava seriedade  e rumo técnico. Porém, com as saídas de Mandetta e Sérgio Moro, e a aliança espúria costurada com o Centrão,  jogou não só a seriedade e tecnicalidade par o espaço, mas levaram junto a responsabilidade e a decência. 

Na retaguarda, os três filhos insuflados pela bestialidade do débil mental Olavo de Carvalho, foi montado um bem azeitado bunker de destruição de reputações e produção em série de mentiras, as chamadas fake news (comportamento bem fascista). Qualquer crítica e crítico ao governo é rebatido com notinhas mentirosa nas redes sociais com o objetivo de matar o mensageiro. 

Pelas mesmas redes sociais, inflama-se uma turba de idiotas úteis a bradarem chamadas antidemocráticas e inconstitucionais. O imbecil vai lá estende uma faixa pedindo a volta do AI-5, coisa que o jumento nem sabe do que se trata. Mas para incensar o “mito”, vale até pedir intervenção militar (o jumento não viveu na ditadura nasceu depois dela), pede fechamento do Congresso e do STF, ignorando que são estes poderes que dão sustentáculo à democracia que lhes garante o direito de serem imbecis na máxima potência. Nas ditaduras, civis ou militares, o único direito que você tem é o de não ter direito algum.

Bolsonaro e sua  trupe se vale da imensa ignorância e analfabetismo de um bando de desvairados para fazer IBOPE e , assim,  dar sequência ao seu poder imperial de fechar o Brasil para o mundo. Tanto é  que ele próprio afirmou que só sai do governo em janeiro de 2027 e diz isto esquecendo que sequer chegou à metade de um primeiro mandato. Como afirmei em outro texto, seria bom que ele se preocupasse, primeiro,  em chegar como presidente em 31 de dezembro de 2022. 

Da mesma forma que criticamos e condenamos o aparelhamento danoso praticado pelos petistas em todas as esferas de poder federal, também é preciso condenar o aparelhamento praticado por Bolsonaro nas mesmas esferas substituindo técnicos de carreira por militares sem experiência, formação e qualificação para os cargos em que estão jogados. É o que se vê, por exemplo,  acontecendo no Ministério da Saúde. 

Quando olhamos para ministérios como o da Educação e Meio Ambiente,  o que vemos é a política da terra arrasada, Está em curso na Educação a política do embrutecimento da inteligência das novas gerações, tirando-lhes a capacidade de pensar, de serem críticos, de terem bom senso e equilíbrio emocional adequados para  suas formações profissionais. No Meio Ambiente joga-se no lixo toda a construção de leis, regras e instrumentos regulatórios no sentido de preservação da natureza. O que se constata com o que se passa na Amazônia é intolerável. Estão destruindo um patrimônio que  mantém equilibrado o regime climático do Brasil e a consequência ruinosa serão bruscas mudanças no regime de chuva e perdas irreparáveis de área hoje agricultáveis, além de apodrecerem os mananciais hidrográficos que dão regularidade ao regime de chuvas, indispensáveis para a nossa soberania agrícola.   

A jumenta que comanda a pasta dos Direitos Humanos entende que defender os valores da família é querer fazer com que o mundo dê um giro de 180º na sua evolução retornando aos valores vigentes do século 19. Você defende os valores fazendo-os evoluir e não retroagindo ao tempo pré-histórico das cavernas. 

Mas não se vá concluir que o governo Bolsonaro seja apenas estes pequenos detalhes de estupidez e atraso.. Ele é muito mais do que isso e está firmemente empenhado em destruir a construção de 500 anos para, em seu lugar, erguer um castelo imperial de onde ecoa a voz e emana o poder do mito.  A nota distribuída nesta sexta-feira, pelo general Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, não foi um ato isolado do general. Todo o gabinete presidencial dela teve ciência antes de sua distribuição. E não apareceu ninguém para condená-la e pedir por seu cancelamento. Foi feita de coisa pensada e articulada para servir como uma ameaça clara ao estado democrático de direito e suas instituições. E tanto é assim que foi redigida a partir até de uma falsa informação sobre ato do ministro Celso de Mello, mas trazendo nas entrelinhas o tom de desafio ao descumprimento do regramento legal do país. 

Como afirmei ao comentar aquela nota lamentável tanto quanto estúpida, civis e militares, instalados no poder, precisam entender que o Brasil  dos nossos dias,  não é mais um quartel das Forças  Armadas dominado pela força de generais, tampouco transformou-se em uma república do tipo Venezuela onde Maduro solta suas milícias para instalar o medo, o terror  e amordaçar seus opositores, se preciso, à bala. E se alguém conhece um pouco de história recente, há de identificar que por aqui tenta-se seguir o mesmo roteiro de desmanche institucional. 

As esquerdas comandadas pelo PT, tentaram por 13 anos instaurar o mesmo regime bolivariano, claro que com algumas adaptações tupiniquins. Foram alijados do poder por conta de sua ambição em vingar um projeto de poder permanente, sufocando qualquer resistência. Bolsonaro e seus asseclas cumprem e seguem idêntico caminho, utilizando-se das mesmas armas e ferramentas, com o acréscimo que aparelhar o poder com militares, achando que todas as Forças Armadas haverão de lhes dar guarida. 

O que eles não esperavam é que havia uma pedra no caminho, uma pedra invisível e letal chamada coronavírus. Quando vemos o desespero com que parte da equipe econômica atua para deixar de socorrer pessoas e empresas neste momento de crise, agindo para manter os postulados da economia como se nada de anormal estivesse acontecendo, vê-se ali a preocupação de manter tudo no lugar para que a economia impulsione uma pretensa reeleição de Bolsonaro, o que garantiria a continuidade de seu projeto demoníaco de poder. 

Quando vemos o pouco caso com que o governo enfrenta a pandemia,  ridicularizando seus efeitos danosos para a saúde das pessoas, indo contra conhecimentos científicos, quando percebemos a insensibilidade com que tratam a dor e sofrimento das famílias perdendo entes,  sem o humano e sagrado direito de uma despedida final, isto é revoltante.

Mas a natureza se rege por suas próprias leis e a vida humana a ela está atrelada. Colhemos o que plantamos, e este bando de imbecis não perde por esperar. As sociedades até aceitam por um certo tempo viverem sob um a total apatia, sem poder de reação aos desmandos do poder. As pessoas, mais preocupadas com seu dia a dia, pouco importância dão aos descaminhos com que o poder instalado desgoverna seus destinos. Mas esta dormência não é eterna. Assim foi com o reinado do PT. Porém, cedo ou tarde, mesmo que muito lentamente, esta dormência acaba, e lentamente no horizonte o sol vai voltando a brilhar e despertando novas consciências. Este movimento clareia as mentes entorpecidas e elas passam a renunciar e reagir às ações destes governantes cheios de soberba e arroubos arrogantes e totalitários. É quando começa nova colheita e põem-se por terra todos os desatinos cometidos. 

Talvez este imperialismo autoritário de Bolsonaro e sua turma até vinguem no Brasil por algum tempo, mas não por todo o tempo., pois tão certo é que não há bem que dure, tampouco há mal que não acabe. O poder, concentrado em único indivíduo ou grupo não é eterno. Um dia ele vira pó. Porque a única coisa insuportável de se ter no poder, é uma família real miliciana e autoritária...

RUMO À LIDERANÇA: Com 1.001 mortes por covid-19 em 24 horas, Brasil supera os 21 mil óbitos

Gilson Garrett Jr., Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

Com mais 20.803 casos confirmados em um dia, o país passou a Rússia e agora é o segundo com mais infectados no mundo

(Bruno Kelly/Reuters)
Manaus: a capital do Amazonas concentra 70% das mortes no estado. 

O Brasil tem 330.890 casos confirmados e 21.048 mortes por coronavírus. Os dados foram atualizados pelo Ministério da Saúde nesta sexta-feira, 22. Com mais 20.803 testes positivos em um dia, o país passou a Rússia e agora é o segundo no mundo em número de casos. Está atrás apenas dos Estados Unidos, com 1,5 milhão. Em 24 horas foram confirmadas também mais 1.001 vítimas.

O país concentra mais da metade de todos os casos da América do Sul. O diretor do programa de emergências da Organização Mundial da Saúde, Mike Ryan, afirmou em entrevista coletiva nesta sexta-feira (22) que a região se tornou o novo epicentro mundial da pandemia.

O continente já soma mais de 600 mil casos de covid-19 e se aproxima das 30 mil mortes causadas pela doença, segundo dados atualizados diariamente pela plataforma Worldometer.

Em número de casos, o Brasil está em primeiro lugar. Logo atrás estão Peru (111.698 infectados e 3.244 mortos) e Chile (61.857 casos e 630 óbitos).

A Argentina, país com a terceira maior população absoluta da América do Sul, está em sexto no ranking de casos e óbitos pela covid-19, com 9.931 infecções registradas e 419 mortes pela doença.

Isolamento sobe em São Paulo

O total de pessoas mortas por covid-19 em São Paulo cresceu 3,8% nas últimas 24 horas, chegando a um total de 5.773 óbitos. Foram mais 215 mortes nas últimas 24 horas. O total de casos confirmados da doença aumentou de 73.793 para 76.871.

A taxa de isolamento social na capital paulista na quinta-feira, 21, segundo dia do feriado prolongado, ficou em 52%, melhor índice para uma quinta desde março. Os dados foram divulgados pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico e Social.

O megaferiado que começou na quarta-feira, 20, é uma das medidas para tentar conter o avanço da doença no estado.

O município do Rio de Janeiro tem uma taxa de mortalidade por covid-19 de 12,7%, quase o dobro da média nacional, de 6,5%, segundo dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em informações passadas pelo Ministério da Saúde.

Na capital fluminense, os dados atualizados pelo IBGE na manhã desta sexta-feira, 22, contabilizavam 18.743 casos confirmados de covid e 2.376 mortos. Em todo o estado são 33.589 infectados e 3.657 vítimas.


******** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Como se nota, as ações do governo Bolsonaro para evitar o combate à pandemia, continuam dando resultados expressivos. O colapso na saúde já atingiu vários estados. No Rio, há fila de espera para internação. Os cemitérios não estão dando conta dos sepultamentos. Os mortos já somam mais de 1.000 diários, somando mais de 21.000 óbitos e mais de 330.000 infectados.. A pandemia vai fazendo a festa diante de um governo de braços cruzados e que combate o próprio combate à covid-19 . 

Assim, Bolsonaro pode comemorar: o Brasil caminha a passos largos rumo à liderança da pandemia. Com muito esforço do presidente já chegamos à vice-liderança. Nosso Doutor Genocida é um vencedor.

Sua nota é ameaça de golpe, General Heleno?

Comentando a Notícia

Já não somos a república de bananas que as Forças Armadas dominaram ditatorialmente por 21 anos.

O Gabinete de Segurança Institucional, comandada pelo General Augusto Heleno, acaba de divulgar uma nota que se pode traduzir como uma tentativa de crime e uma ameaça gravíssima ao estado de direito democrático. 

A tentativa de crime é a posição do GSI de negar-se a cumprir uma determinação legal - seria obstrução de investigação - partida do ministro Celso de Mello, do STF. Não há previsão legal que impeça que a Justiça exija perícia no telefone celular do Presidente da República, e justamente numa investigação que o envolve.  Se insistir estará praticando outro crime, o de desobediência à uma ordem legal.

Quanto ao tal alerta ao final da nota em que diz “...poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional...”, a que consequência Vossa Senhoria se refere? A de que haveria espaço e motivo para um golpe de Estado? Seja homem, venha a público com coragem e de forma digna dizer com clareza as consequências as quais o senhor está se referindo. 

Mas saiba de antemão, e este alerta é a sociedade civil que lhe faz: TODOS, incluindo o presidente da República na pessoa do senhor Jair Messias Bolsonaro, são iguais perante a lei. O inquérito da qual o ministro Celso de Mello é relator, envolve a figura deste presidente numa tentativa ou pretensa tentativa de interferência na Polícia Federal, que é um órgão de Estado e não de governo.

Neste sentido, senhor general, não ameace a segurança institucional , achando que o senhor Bolsonaro está fora do alcance das leis do país.

Não nos ameace com golpinhos. Estamos em 2020, não em 1964,  e o Brasil já deixou de ser um mero quartel das Forças Armadas. Que o senhor Presidente da República cumpra com a ordem legal que lhe foi dada, assim como qualquer recruta deve cumprir com as ordens de um militar que o comanda por mais absurdas que elas sejam. Talvez nos diferentes cursos que Vossa Senhoria tenha cursado, faltou o aprendizado básico de que ordem legal se cumpre, mesmo que depois venha recorrer ou discutir. Já não somos a república de bananas que as Forças Armadas dominaram ditatorialmente por 21 anos.
  
O texto a seguir é d jornal O Estado de São Paulo.

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Apreender celular de Bolsonaro pode ter ‘consequências imprevisíveis’, diz Heleno


Tânia Monteiro, 
O Estado de S.Paulo

Ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) afirmou nesta sexta-feira considerar ‘inconcebível’ o pedido de apreensão do celular do presidente

BRASÍLIA – O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, afirmou nesta sexta-feira, 22, considerar “inconcebível” o pedido de apreensão do celular do presidente Jair Bolsonaro e que, caso aceito, poderá ter  “consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”.

Foto: Foto: Marcos Corrêa/PR
Jair Bolsonaro e o ministro do GSI, Augusto Heleno;
 general agora evita tratar da questão dos filhos do presidente 

A solicitação foi apresentada por parlamentares e partidos da oposição em notícia-crime levada ao Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito do inquérito que apura suposta interferência do presidente na Polícia Federal. Nesta sexta-feira, 22, o ministro Celso de Mello, relator do caso, pediu que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste sobre assunto.

“O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência alerta as autoridades constituídas que tal atitude é uma evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os poderes e poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”, diz Heleno, em nota publicada nas redes sociais.


A apreensão do celular de Bolsonaro, de um dos filhos, Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), além do depoimento do presidente, foram requisitados pela deputada federal Gleisi Hoffmann e pelo governador da Bahia, Rui Costa, ambos do PT, e pelas bancadas do PDT, PSB E PV. Ao todo, o grupo apresentou três notícias-crimes em que acusam Bolsonaro de interferência na Polícia Federal.

No governo, é dado como certo que o procurador-geral da República, Augusto Aras, deverá opinar pelo arquivamento das notícias-crimes, mas isso não impediu que Heleno divulgasse condenando o pedido e alertando para possíveis consequências. “Caso se efetivasse, seria uma afronta à autoridade máxima do Poder Executivo e uma interferência inadmissível de outro Poder, na privacidade do Presidente da República e na segurança institucional do País”, afirma o ministro do GSI.

O recado de Heleno ao Supremo ocorre pouco antes de Celso de Mello decidir sobre a divulgação do vídeo da polêmica reunião ministerial do dia 22 de abril. Segundo o ex-ministro Sérgio Moro afirmou em depoimento, na ocasião Bolsonaro ameaçou demiti-lo caso não trocasse o comando da Polícia Federal. Um inquérito na Corte investiga se o presidente interferiu de forma irregular no órgão de investigação.


Brincando de ser presidente

Editorial
O Estado de S.Paulo

O enfrentamento da crise é quase impossível quando se tem um presidente absolutamente incapaz de ver o mundo além do próprio umbigo

O Brasil decente e solidário está de luto. O Congresso e o Supremo Tribunal Federal decretaram no sábado passado luto oficial de três dias, depois que o Brasil superou a triste marca de 10 mil mortos pela covid-19. O governador de São Paulo, João Doria, já havia feito o mesmo na quinta-feira, dia 7, e o luto paulista será mantido até o fim da pandemia. Como lembrou o Supremo, em nota oficial, “precisamos, mais do que nunca, unir esforços, em solidariedade e fraternidade, em prol da preservação da vida e da saúde”. E a mensagem da Corte arrematou: “A saída para esta crise está na união, no diálogo e na ação coordenada, amparada na ciência, entre os Poderes, as instituições, públicas e privadas, e todas as esferas da Federação deste vasto país”.

No mesmo dia em que as principais autoridades do Judiciário e do Legislativo manifestavam pesar pelos milhares de concidadãos mortos e rogavam aos brasileiros que se unissem na luta contra a pandemia, circularam pelas redes sociais imagens do presidente Jair Bolsonaro a passear de moto aquática pelo Lago Paranoá, em Brasília, divertindo-se à beça. A este senhor, que brinca de ser presidente, não basta incitar seus camisas pardas vestidos de verde e amarelo a desafiar as instituições republicanas e a intimidar jornalistas; é preciso tripudiar sobre o sofrimento dos milhares de brasileiros que morreram e dos milhões que ora se encontram em quarentena, abrindo mão de sua vida social e enfrentando as agruras do desemprego e da redução de renda.

E mais: enquanto os governadores e prefeitos lutam para convencer seus governados a ficar em casa, única forma de retardar o colapso do sistema público de saúde – que já se verificou em diversos Estados –, o presidente avisa que vai ampliar, por decreto, o número de atividades consideradas essenciais e, portanto, livres de restrições durante a pandemia. “Vou abrir, já que eles (governadores) não querem abrir, a gente vai abrindo aí”, declarou Bolsonaro, como se a quarentena fosse uma escolha, e não um imperativo. Respeitados especialistas dizem, aliás, que o ideal seria impor desde já o chamado “lockdown”, isto é, a radicalização do isolamento social – o exato oposto do que Bolsonaro defende.

Compreende-se a dificuldade de fazer com que os cidadãos aceitem o isolamento social, o que inclui pôr em risco a própria sobrevivência e a da família em muitos casos. A situação fica ainda mais dramática à medida que a quarentena se estende no tempo. Portanto, é razoável esperar uma progressiva queda na adesão ao esforço coletivo para reduzir o contágio, mas está claro que essa queda tende a se acentuar quando a mensagem das autoridades a respeito da pandemia é confusa e fragmentada.

Se o presidente usa sua destacada posição de principal dirigente da República para, além de debochar dos mortos e dos que estão sofrendo, incitar os cidadãos a ignorar a quarentena imposta por governadores e prefeitos como se fosse desnecessária, não surpreende que muitos o façam. Em vez de inspirar os cidadãos a aceitar a responsabilidade de cada um no enfrentamento da pandemia, o presidente estimula o fracionamento da autoridade – o que, no limite, leva à desobediência e ao caos. 

Para complicar, o Ministério Público ainda colabora para minar a credibilidade dos governos estaduais e das prefeituras ao criar caso com compras emergenciais de equipamentos médicos, ignorando que, neste momento, eventuais irregularidades, previsíveis numa operação dessa magnitude, são o menor dos problemas diante da urgência urgentíssima.

O enfrentamento desta crise, que caminha para ser a maior da história do Brasil, depende, fundamentalmente, de harmonia entre as diversas autoridades, em todas as esferas, resguardadas as prerrogativas de cada uma, conforme o espírito da Federação. E depende de articulação dedicada entre o presidente, seus ministros, os governadores e os prefeitos, além do Congresso, do Judiciário e do Ministério Público. Obviamente não é fácil, como ficou claro na maior parte dos países do mundo, às voltas com atropelos no combate à covid-19. Mas é muitíssimo mais difícil, quase impossível, quando se tem um presidente que, tal como um adolescente birrento e mandão, é absolutamente incapaz de ver o mundo além do próprio umbigo.

Quem é o dono da vacina?

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

O acesso às doses exigirá um amplo esforço global, num ambiente de colaboração entre empresas, governos e instituições internacionais

No início deste ano, a companhia farmacêutica Moderna, com sede em Cambridge, nos EUA, tinha um valor de mercado em torno de US$ 7 bilhões. No início desta semana, bateu US$ 30 bilhões depois de ter informado que obtivera resultados positivos em testes com humanos para a vacina contra o novo coronavírus. Dois dias depois, esse valor caiu uns US$ 2 bilhões, quando cientistas e autoridades sanitárias levantaram algumas questões.

A principal: o teste havia sido limitado a poucas pessoas e ainda na fase 1. Mas a companhia já tinha autorização do governo americano para iniciar a fase 2, com milhares de testes. Estará pronta, se tudo der certo, depois de uma fase 3, lá pelo final deste ano ou início de 2021. Esperanças. Mas, de todo modo, a companhia já adiantou planos de levantar no mercado um aporte de US$ 1,2 bilhão.

A empresa recebeu ajuda do governo americano – algo como 500 milhões de dólares – mas é privada, com ações diluídas em bolsa.

Diversas outras companhias privadas estão trabalhando na vacina antiCovid-19. Há também laboratórios ligados a governos ou a universidades, mas é grande a possibilidade de que empresas privadas cheguem antes aos melhores resultados. E diferentes: as empresas estão desenvolvendo tecnologias diversas — por exemplo, ou enfraquecendo o vírus ou usando partes dele.

Na verdade, a melhor expectativa entre cientistas e autoridades sanitárias é a seguinte: que várias farmacêuticas, cada uma no seu caminho, cheguem a, digamos, quatro ou cinco tipos de vacinas.

Uma primeira razão é econômica. Encontrada a fórmula, será preciso produzir algo como 5 bilhões de doses ou o dobro disso, se forem necessárias duas doses para a imunização completa. Já há empresas reservando instalações para isso, mas o esforço será monumental. 

E mais: as companhias privadas terão a patente — o segredo da fórmula — e obviamente terão que ser remuneradas por isso. Dirão: mas isso é uma insensibilidade, uma crueldade; com centenas de milhares de pessoas morrendo, vai-se proteger o lucro dos acionistas?

Imaginemos que não. As patentes são tornadas públicas e as vacinas já produzidas, confiscadas.

Daqui a alguns anos, aparece outra mutação desse coronavírus — qual companhia vai torrar dinheiro na busca de uma vacina ou de um remédio?

Por outro lado, deixada a coisa por conta do mercado, sem nenhuma intervenção, sabemos o que vai acontecer: os mais ricos serão os primeiros a ter acesso às primeiras vacinas, a preços de rico. Depois, o conhecimento vai se espalhando, surgem outras fórmulas, depois de algum tempo, os genéricos e o medicamento vai alcançando as classes médias. Quanto tempo levaria até alcançar os pobres?

Por isso, cientistas, autoridades sanitárias, empresários, governos e instituições internacionais estão procurando soluções intermediárias. Na OMS, surgiram propostas para que as patentes descobertas sejam de propriedade social, mundial.

É generoso, mas não resolve o problema de remunerar as pesquisas — as atuais e as que serão necessárias no futuro. Bill Gates falou em montar um consórcio de bilionários e grandes empresas que comprariam as vacinas e as distribuiriam nas regiões mais pobres. 

Por outro lado, governos também precisarão comprar, mas com preços relativos, como já se faz com medicamentos de controle do HIV. Países mais ricos pagam mais, outros pagam menos.

E os ricos, as pessoas ricas, onde quer que se encontrem, vão pagar do seu bolso ou de seus caros planos de saúde. Aliás, vai ser outra briga: entre os planos e as seguradoras versus os fabricantes — também como já ocorre hoje.

O importante é ter regras e negociações razoáveis, de tal modo a combinar os interesses — melhor, as necessidades das pessoas — e os estímulos para que as empresas formem e contratem os quadros capazes de descobrir essas maravilhas da tecnologia.

Será preciso um amplo esforço global, num ambiente de colaboração entre empresas, governos e instituições internacionais. Acho que, por necessidade, voltaremos a prezar a globalização e a eficiência dos mercados.




Desenvolvimento humano despencará pela 1º vez em 30 anos, prevê ONU

Gabriela Ruic
Exame.com

O novo coronavírus acertará em cheio o desenvolvimento humano (IDH) mundo afora. E o impacto será pior do que o visto pela crise econômica de 2008

(Christian Hartmann/Reuters)
Paris, França: novo coronavírus trouxe colapso para a saúde mundo 
afora e ainda paralisou as engrenagens econômicas e a educação 

O desenvolvimento humano, medido pelo índice de desenvolvimento humano (IDH) da Organização das Nações Unidas (ONU), irá cair em 2020 em razão da pandemia do novo coronavírus. A queda será mais severa do que a que foi observada entre os anos de 2008 e 2009, ano de crise econômica global. A previsão é da ONU e foi publicada na manhã desta quarta-feira, 20.

A pandemia do novo coronavírus está se mostrando uma das maiores crises que a humanidade já enfrentou. Embora tenha começado como uma crise de saúde pública, a covid-19, doença causada pela nova cepa do coronavírus, acertou em cheio diferentes setores em razão das medidas de lockdown, quarentenas e isolamento social implementadas mundo afora para tentar barrar a sua propagação.

A saúde pública entrou em colapso em países desenvolvidos, emergentes e pobres, e as engrenagens econômicas foram paralisadas, assim como a educação, já que milhões de crianças e adolescentes estão fora das salas de aula, com aulas suspensas. E é justamente essa característica de amplitude dos efeitos da pandemia, explica a entidade, que está se mostrando fundamental nessa mudança no panorama de crescimento do desenvolvimento humano visto nas últimas décadas.

“O mundo viu muitas crises nos últimos trinta anos, incluindo a crise financeira global entre 2007 e 2009. Cada uma delas impactou duramente o desenvolvimento humano, mas, em geral, ganhos foram feitos ano a ano em todo o mundo. A covid-19, que acertou a saúde, a educação e a renda, deve mudar essa tendência”, explicou Achim Steiner, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

IDH 2019

O índice de desenvolvimento humano é medido pela ONU desde a década de 90 e é calculado a partir dos avanços feitos por mais de 180 países e territórios em três dimensões: expectativa de vida, educação e renda per capita. Quanto mais próxima de 1 a pontuação, mais desenvolvido é o local.

A situação do desenvolvimento humano no mundo já demonstrava fragilidades muito antes do coronavírus. Em 2019, ano no qual o mundo observou revoltas populares em várias partes, principalmente na América Latina, a ONU notou que os retrocessos nas áreas avaliadas pelo IDH fizeram com que 20% dos avanços feitos nos últimos anos se perdessem em 2018.

Na expectativa de vida, por exemplo, o estudo constatou que 17% das crianças nascidas no ano 2000 em países de baixo desenvolvimento vão morrer antes dos 20 anos contra apenas 1% nos países desenvolvidos. Em igualdade de gênero, mostrou que, no ritmo atual, serão necessários 202 anos para fechar a lacuna existente entre os homens e as mulheres.

As perdas foram significativas e vieram em uma situação na qual não se considerava os efeitos de uma pandemia global sem precedentes. Em 2020, agora colocando o novo coronavírus na conta, tudo indica que o cenário do IDH global será ainda pior.



Bolsonaro e as atividades essenciais

Notas & Informações, 
O Estado de S.Paulo

À medida que governadores e prefeitos são obrigados a ampliar as medidas de isolamento social, adiando a reabertura do comércio, o presidente Bolsonaro vai fazendo o oposto

À medida que governadores e prefeitos de cidades de grande e médio portes são obrigados a ampliar as medidas de isolamento social, adiando a reabertura do comércio, o presidente Jair Bolsonaro vai fazendo o oposto. Depois de ter baixado no dia 7 de maio um decreto que inclui atividades industriais e construção civil como atividades essenciais, em meio ao avanço da pandemia da covid-19, na semana passada ele assinou outro decreto, desta vez incluindo academia de ginástica, salão de beleza e barbearia no rol de serviços essenciais.

“Academia é vida. As pessoas vão aumentando o colesterol, tem problema de estresse (sic). Vai ter vida mais saudável. Fazer cabelo e unhas é questão de higiene”, alegou. Um dia antes de anunciar o novo decreto ele informou que já tem outras atividades em mente para listar como essenciais. “Devo botar mais profissões como atividades essenciais. Vou abrir a economia”, disse ele a apoiadores, em frente ao Palácio do Planalto. Ao todo, a lista já contém 57 atividades classificadas como essenciais.

Ao serem classificadas como essenciais, do ponto de vista da União essas atividades e serviços ficam autorizados a continuar em operação no período de quarentena. O problema é que a estrutura federativa do País confere aos Estados e municípios prerrogativas legais para que, em suas jurisdições, possam fazer o oposto, adotando sistemas mais drásticos de rodízio de automóveis e circulação de pessoas e exigências mais severas para reabertura de fábricas e lojas. Têm poderes, inclusive, para adotar planos de emergência, restringindo o acesso da população ao transporte público para reduzir risco de contágio.

O compartilhamento de prerrogativas faz parte da estrutura descentralizada do federalismo – um modelo político-administrativo que está em vigor desde a primeira Constituição republicana brasileira, promulgada em 1891. Inspirada no modelo adotado nos Estados Unidos, essa estrutura descentralizada deixa para os poderes locais e regionais a responsabilidade sobre o cotidiano da vida econômica e social, ao mesmo tempo que atribui à União a responsabilidade pela articulação dessas atividades no plano nacional. Esse modelo pressupõe equilíbrio, diálogo e negociação entre municípios, Estados e União. O exemplo mais conhecido entre nós está na área da educação, na qual os secretários municipais e os secretários estaduais de Educação criaram duas entidades para representá-los nas negociações com a União.

Portanto, quando decide alargar o rol de atividades essenciais, como forma de limitar o âmbito de ação de prefeitos e governadores, Bolsonaro está cometendo um erro crasso. Por maior que seja a amplitude de seus decretos, ele não dispõe de prerrogativa legal para interferir na autonomia dos prefeitos e governadores. Com suas iniciativas demagógicas, Bolsonaro pode incitar politicamente patrões e empregados contra os governos municipais e estaduais. Mas não pode ir além dessa atitude deletéria.

Fosse mais responsável e conhecesse a Constituição que jurou cumprir, em vez de dificultar o combate à pandemia ele estaria exercendo um papel de articulador, estabelecendo marcos normativos e diretrizes nacionais em matéria de saúde pública, contribuindo para que o Brasil adotasse uma política racional e eficiente de combate ao avanço da covid-19.

Nem mesmo nos Estados Unidos, o país que tem a maior estrutura político-administrativa federativa do mundo, o presidente Donald Trump – ídolo de Bolsonaro – teve sucesso quando pressionou governadores republicanos para suspender as medidas de isolamento social. Alguns governadores chegaram a antecipar o retorno às aulas, mas o fizeram levando em conta os laudos técnicos de suas assessorias, e não os apelos de Trump.

É por isso que de nada adianta Bolsonaro insistir em ampliar o rol de atividades essenciais e pressionar as instâncias superiores do Judiciário a obrigar prefeitos e governadores à obediência. Isso só serve para desorientar os cidadãos expostos ao vírus letal.

O mistério da demissão de Queiroz

Elio Gaspari
O Globo

Tem cheiro de vazamento

A entrevista do empresário Paulo Marinho à repórter Mônica Bergamo recolocou no centro da mesa a mesma pergunta: Por que Jair Bolsonaro demitiu seu chevalier servant, o ex-PM Fabrício Queiroz, no dia 15 de outubro de 2018, uma semana depois do primeiro turno da eleição e duas semanas antes do segundo? No mesmo lance, dispensou também a filha de Queiroz. Se eles fizeram algo de errado, nunca se soube. Ela ganhava R$ 10 mil mensais no gabinete do então deputado Jair Bolsonaro, e ele recebia R$ 9 mil servindo ao seu filho Flávio, que acabara de ser eleito senador.

Desde os primeiros dias do governo de Bolsonaro conhecem-se as movimentações financeiras de Queiroz. Ele nunca explicou suas operações, limitando-se a dizer que “fazia dinheiro” comprando e vendendo carros. Queiroz empregou no gabinete de Flávio Bolsonaro a mãe do PM da reserva e miliciano da ativa Adriano da Nóbrega, foragido da Justiça por quase dois anos até que foi morto pela polícia baiana em fevereiro passado.

Paulo Marinho é suplente do senador Bolsonaro e revelou que os Queiroz foram demitidos dias depois do cinematográfico encontro de três colaboradores de Flávio Bolsonaro com um delegado da Polícia Federal na segunda semana de outubro de 2018. Ele teria revelado que uma investigação apontava para traficâncias de Queiroz. Dias depois, Queiroz e sua filha foram demitidos. O alerta teria mobilizado os Bolsonaro, Marinho, o futuro ministro Gustavo Bebianno e três advogados. O ex-PM assustou-se, temendo ir para a cadeia, chegou a vomitar no banheiro de um escritório e desapareceu.

Quando o Ministério Público investigava suas atividades, Queiroz queixou-se da falta de ajuda, sentindo-se ameaçado. Achava que os procuradores tinham um objeto “do tamanho de um cometa para enterrar na gente”.

O que seria uma história de 2018 juntou-se a uma encrenca de hoje, com a denúncia do ex-ministro Sergio Moro de que Bolsonaro tentou interferir no trabalho da Polícia Federal do Rio de Janeiro, onde havia servido o delegado Alexandre Ramagem. Ele cuidou da Operação Cadeia Velha, que investigava malfeitorias na Assembleia Legislativa. 

Tudo voltou ao ponto de partida: a superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Bebianno morreu, e Flávio Bolsonaro desqualifica as revelações de seu suplente, mas Marinho colocou na roda pessoas que discutiram a estratégia de defesa de Queiroz. Algumas delas teriam presenciado a conversa com o delegado. Marinho não a presenciou.

Só as investigações do Ministério Público e da PF poderão esclarecer essa questão, mas uma coisa é certa há mais de um ano: a demissão de Queiroz e de sua filha tem cheiro de vazamento.

Paulo Marinho está no PSDB, alinhado com o governador João Doria, e é candidato a prefeito do Rio. Durante a campanha abrigou em sua casa do Jardim Botânico o quartel-general do candidato. Lá realizavam-se gravações e reuniões da equipe de Bolsonaro. Nessa relação estreita ele ganhou a suplência do senador Flávio Bolsonaro e perdeu uma cozinheira de várias décadas, levada pelo presidente para Brasília.

Fase 2, sobrevivência

Rosângela Bittar, 
O Estado de S.Paulo

Bolsonaro entregou, sem hesitar, a chave do cofre bilionário do FNDE ao Centrão

  Foto: Gabriela Biló/Estadão
O presidente Jair Bolsonaro se irritou com perguntas 
de jornalistas em frente ao Palácio da Alvorada 

É imperativa a compreensão do alcance da firme reação humanista com que homens públicos de diferentes tendências e origens estão respondendo ao surto de barbarismo do governo Jair Bolsonaro. As manifestações ponderadas de ex-ministros de Estado chamam à realidade muitos dos seus sucessores, em áreas sensíveis como Direitos Humanos, Relações Exteriores e, nesta semana, Defesa. A exortação enfática à razão visa o presidente.

Duas vantagens com as quais Bolsonaro ainda conta, porém, impõem cautela na tradução dos manifestos em ação concreta: o apoio de parte da opinião pública, que se reduziu, mas não acabou; e a sua ínfima, porém real, capacidade de, mesmo cambaleando, ainda conseguir obter o apoio de um grupo político como o Centrão. Às feras da barganha entregou, sem hesitar, a chave do cofre bilionário do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Uma prova de que Bolsonaro ingressou, definitivamente, na fase 2 do seu governo, a da sobrevivência.

Para isso, precisou recuar de promessas e remodelar o teatro. Além do Centrão, quer a seu lado os egressos da carreira militar, da ativa ou da reserva. Se há uma distorção do conceito de poder que habita Bolsonaro esta é a que simplifica a conjugação do verbo mandar. A lógica é: ele manda, todos obedecem. Os militares, como têm na disciplina um norte, se estão no governo, defendem o governo. 
Os argumentos recentes de três deles, apresentados para justificar a crueldade e descaso presidencial com a população doente e enlutada, são evidências desta missão. Um deles, a título de ser portador de boa notícia, anunciou um plano econômico, ainda no esboço, cuja existência ocultara do ministro da Economia. Outro, em fórum internacional sobre o assunto, omitiu a perplexas autoridades a gravidade da situação brasileira. Um terceiro alegou, em entrevista, os vários tipos de morte, inclusive no trânsito, para se queixar da ênfase aos que perderam a vida com a infecção por coronavírus.

Não está prevista, também, a substituição dos suspeitos de corrupção e dos ministros ventríloquos das ideias estapafúrdias. Com uma exceção recente: Bolsonaro já admitiria tirar o cargo de Abraham Weintraub. Sem noção, desde sempre, além do conjunto da obra, decidiu estranhar a presença do Centrão no seu ministério. Mas Ernesto Araújo e Damares Alves estão garantidos.

À medida que o governo vai se decompondo, as cabeças que ainda davam algum sentido à primeira formação ficam esperando sua hora.

Paulo Guedes se mostra cada vez mais transtornado e agressivo à moda presidencial, no ataque em marcha contra as instituições, os Poderes, os governadores. Engole a seco o conflito do seu plano com as concessões exigidas pela crise e decreta que o inferno são os outros. Sua presença não é mais compreendida. Quando sair, o critério da homogeneidade deve elevar, para seu lugar, a cotação do presidente da Caixa Econômica Federal. Se for, combina.

Também estrela da concepção original, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, sabe que vai sair, só não sabe quando. Ela se enfraqueceu no bombardeio diplomático e ideológico à China, com quem o agronegócio brasileiro mantém vigoroso mercado. É conhecida a máxima da prática política de que ministro forte recebe pedidos e ministro fraco recebe apoio. Não foram poucas as notas de apoio a Tereza Cristina, de cuja competência e seriedade não há dúvidas.

Bolsonaro ainda detém instrumentos de poder, como as prerrogativas de governar, que não usa. Mas usa e abusa de outros, como a autoridade, que não tem. Situação que sugere a urgência de antecipar aquele choque de humanismo inserido nos manifestos referidos. Já espalharia um pouco de ar neste sufocante clima.

Adiamento do Enem: crônica de um governo

Priscila Cruz*, 
O Estado de S.Paulo

Ministro da Educação fez do Enem sua trincheira na disputa entre o presidente e os governadores. Além disso, declarar a decisão no dia em que haveria a votação na Câmara dos Deputados também mostra uma clara provocação ao Legislativo

O enredo que envolve o adiamento do Enem apresenta elementos característicos desse governo: a constante disputa com aqueles que consideram inimigos, a gestão pautada por escolhas ideológicas e a completa falta de capacidade técnica para colocar em prática políticas bem desenhadas e implementadas. De certa forma, os dois primeiros constituem o diversionismo para esconder o terceiro, mas também são a expressão mais forte dos propósitos das lideranças atuais dessa gestão.

Não resta dúvidas que a escolha técnica mais adequada – já muito debatida e exposta em vários meios de comunicação – é o adiamento da realização das provas do Enem. A insistência em manter o calendário, até que a pressão pela alteração tivesse efeito, pode ser explicada por esses três fatores.

Primeiro: o ministro da Educação, seguindo a determinação do próprio chefe do Executivo de adesão ao discurso de afrouxamento do isolamento social e de confronto com os governos estaduais, fez do Enem sua trincheira na disputa entre o presidente da República e os governadores. Além disso, declarar a decisão no dia em que haveria a votação na Câmara dos Deputados também mostra uma clara provocação ao Legislativo.

Segundo: em sua crença, defesa e implementação de uma agenda baseada em ideologia, em vez de evidências e escolhas técnicas, o ministro defendeu a manutenção do calendário, apesar da profunda desigualdade de condições dos jovens brasileiros para manter os estudos na pandemia, afirmando, inclusive, que não era papel do exame corrigir desigualdades sociais. Essa é a concepção de mundo e de educação revelada pelas palavras e ações do servidor público de plantão no Ministério da Educação hoje: um entendimento torto de meritocracia e das responsabilidades da gestão pública educacional.

Terceiro: realizar a alteração do calendário exige uma capacidade mínima de gestão, articulação e trabalho, que sabemos não fazer parte do descritivo do atual ministro e sua equipe mais próxima. Lá no fundo, o ministro sabe que lhe falta habilidade para montar e percorrer esse novo percurso, que envolve novos desenhos, arranjos e acordos.

E assim o Enem, porta de entrada de muitos jovens para oportunidades que farão imensa diferença em suas vidas, transformou-se nessa história de suspense, apreensão e medo. 

A gestão pública federal, que deveria focar em resolver a profunda crise gerada pela pandemia na educação básica, lavou as mãos, jogou a responsabilidade para os governos subnacionais e aproveitou o tema para criar mais uma frente de confusão e poucos resultados.


* Co-Fundadora e Presidente Executiva do TODOS PELA EDUCAÇÃO

O ENEM da desigualdade

Fernando Lavieri
Revista ISTOÉ

Apesar de 6,5 milhões de alunos da rede pública não terem como se preparar online, o ministro da Educação Abraham Weintraub não quer discutir o adiamento do ENEM
   (Crédito: Bruno Santos; Mateus Bonomi/Agif)

SENSIBILIDADE ZERO 
Professor Daniel Cara (à esq.) critica decisão de Weintraub que mantém data da prova

O educador baiano Anísio Teixeira (1900-1971) se destacou pela luta por um sistema educacional que pudesse atender de forma equânime todos os brasileiros. Como diretor-geral do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), teve uma atuação tão marcante que seu nome foi literalmente incorporado — desde 2001, o órgão se chama INEP Anísio Teixeira. Vinculada ao ministério da Educação, a entidade organiza o Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM. A igualdade de oportunidades sonhada por Anísio Teixeira, no entanto, está ameaçada: não apenas pelo coronavírus, mas pela intransigência do próprio ministro da Educação.

A nova realidade imposta pela pandemia exigiu a interrupção das aulas presenciais nas redes estaduais, afetando cerca de 87,5% dos estudantes do ensino médio no Brasil. Desse total, 6,5 milhões de alunos não têm sequer acesso à internet, o que impede uma preparação adequada para as provas. O ENEM está marcado para o período de 1 a 8 de novembro, mas um grupo de 145 entidades que representam universidades públicas e privadas, movimentos estudantis, associações de professores, organizações da sociedade civil e servidores do INEP exigem o adiamento dos exames. Para Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, os alunos da rede pública podem ter seu desempenho prejudicado. “Esse é um momento crucial. Emocionalmente, o aluno se prepara melhor no último ano”, afirma.


O ENEM é a principal forma de acesso ao ensino superior no País. Se o calendário for mantido, pode haver uma redução significativa no número de inscrições, além de abandono de provas e diminuição da qualidade na média final. “A falta de mediação do professor no processo de aprendizado, e na apropriação de cultura, é prejudicial aos candidatos”, diz Cara.

Intransigência

O ministro Abraham Weintraub descarta qualquer alteração no calendário. “O ENEM não foi feito para corrigir injustiças, mas para selecionar”, afirmou Weintraub, durante uma reunião com senadores. “Educação não é privilégio. O governo não pode negar a realidade. O calendário tem que ser alterado”, defende Daniel Cara.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:


Um simples detalhe já seria suficiente para desmontar qualquer argumento esdrúxulo que o senhor Wientaub poderia apresentar para não adiar a realização dos exames. 

Com as aulas suspensas, um "jênio da lâmpida" entendeu que bastariam aulas online e todos seriam preparados igualmente. Esqueceu este "jenio" as imensas desigualdades existentes no país. E uma delas é justamente o acesso à internet. Então vamos lá: sem internet no Brasil temos no |Norte/Nordeste, são 21%, na área rural temos 56% e, no /Sul/Sudeste, entre 5 a 8%. Vejam no quadro acima, em quantidade de alunos da rede pública  e privada o oceano de desigualdade.

Ora, com tamanhas carências no Norte/Nordeste e Zonal Rural, como estes alunos desfrutariam de igualdade de oportunidade e preparo com os alunos do Sul? Só um jumento de dimensão colossal como o tal ministro da Deseducação não consegue enxergar este desequilíbrio!!!

Menos mal que o Congresso pressionou o suficiente para que a dupla Bolsonaro/Weintraub caísse na real e adiasse o ENEM.

  

Ministério da Educação anuncia adiamento do Enem (Weintraub, seu jumento, você perdeu)

Redação,
 O Estado de S.Paulo

Exame Nacional do Ensino Médio será realizado 'de 30 a 60 dias' após data prevista

Foto: Dida Sampaio/Estadão
O ministro da Educação, Abraham Weintraub  

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e o Ministério da Educação (MEC) decidiram adiar, nesta quarta-feira, 20, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), anteriormente marcado para os dias 1º e 8 de novembro. Por conta da pandemia do novo coronavírus, as novas datas ainda não estão definidas, mas serão entre um e dois meses depois.

Em nota, o Inep atribuiu a decisão a "demandas da sociedade" e a "manifestações do Poder Legislativo em função do impacto da pandemia". As inscrições para a prova terminam às 23h59 da próxima sexta-feira, 22.

Na manhã desta quarta, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, já havia sinalizado o adiamento do exame. Em publicação no Twitter, Weintraub afirmou que deseja ouvir os estudantes inscritos na prova para definir as novas datas.

O adiamento do Enem foi aprovado nesta terça-feira, 19, pelo Senado Federal, com 75 votos a favor. Apenas Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) votou contra.

Confira a nota do Inep na íntegra:

Atento às demandas da sociedade e às manifestações do Poder Legislativo em função do impacto da pandemia do coronavírus no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e o Ministério da Educação (MEC) decidiram pelo adiamento da aplicação dos exames nas versões impressa e digital. As datas serão adiadas de 30 a 60 dias em relação ao que foi previsto nos editais.

Para tanto, o Inep promoverá uma enquete direcionada aos inscritos do Enem 2020, a ser realizada em junho, por meio da Página do Participante. As inscrições para o exame seguem abertas até as 23h59 desta sexta-feira, 22 de maio.



Ensino a distância na quarentena esbarra na realidade de alunos e professores da rede pública

Dani Borges
De São Paulo para a BBC News Brasil


 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Para os estudantes, dificuldades vão de acesso precário à internet a problemas familiares

Desde que a quarentena teve início no Estado de São Paulo, um cenário de incertezas pairou sobre pais, alunos e professores.

Com as aulas suspensas por tempo indeterminado, afinal, como ficaria o ano letivo? Inicialmente, a saída cogitada foi a antecipação das férias escolares. No entanto, após um mês, uma nova realidade se desenhava: a do ensino à distância.

Correndo contra o tempo, a Secretaria de Estado da Educação (SEE) conseguiu colocar no ar uma plataforma gigantesca, que permite conectar alunos e professores.

A iniciativa, porém, esbarra em uma dura realidade: dificuldades dos alunos, seja pela falta de internet ou estrutura familiar, e a falta de preparo dos professores para lidar com a plataforma e todas as mudanças na forma de ensinar.

"Para os professores, que estão na ponta do processo, está claro que esse modelo não funciona. Ele não é inclusivo e aumenta ainda mais as desigualdades", diz Maria Izabel Noronha, presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores da Educação Oficial do Estado de São Paulo) e deputada estadual pelo PT, partido de oposição ao governador João Doria (PSDB).

Para ela, não se trata apenas de um posicionamento corporativista, que defende o ensino em sala de aula, mas da falta de um melhor planejamento para o uso das ferramentas.


Demanda sufocante

Segundo a professora, todos os dias, quase 24 horas por dia, os professores da rede são bombardeados com mensagens que chegam pelas vias digitais - seja o WhatsApp, seja pelos chats da Central de Mídias.

"Os professores se queixam que não conseguem dar conta da demanda e isso é angustiante para eles", diz Noronha, compartilhando com a reportagem mensagens da rede WhatsApp recebidas de alunos, pais e professores se queixando de dificuldades para acessar o novo sistema.

"A cada dia, recebemos mais e mais relatos de professores que estão extremamente estressados e exaustos. A principal queixa deles é que não estão conseguindo ministrar o ensino a distância por várias questões: acesso à tecnologia, falhas na programação, falta de recursos, seja internet ou celular para dar conta das atividades", explica Neuza Ribeiro, coordenadora a Subsede da Apeoesp em Araraquara.

Segundo Neuza, há uma grande pressão por parte da SEE e das diretorias de ensino para que o processo dê certo, sem levar em conta a realidade dos professores e alunos.

"Além da pressão do dia a dia para dar conta do processo, que é novo e trabalhoso, os professores ainda sofrem com ameaças de faltas e até processos administrativos caso não consigam trabalhar o conteúdo programado", diz. "Toda essa pressão é para tampar o sol com a peneira. Temos visto que isso não funciona nem mesmo na rede particular", completa.

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Professor Rodrigo Baglini prepara vídeo aula: 'Essa pandemia nos obrigou a apresentar
 para o mundo um novo modelo de ensino, que deveria ser implantado num processo progressivo'

'Construção conjunta'

Para o secretário de Estado da Educação, Rossieli Soares da Silva, mesmo com os relatos sobre problemas de acesso à plataforma, o programa tem tido sucesso entre alunos e professores.

"Temos uma clareza que não será um acesso de 100%. Mas mesmo que o aluno não se conecte no aplicativo, temos dois canais abertos com os conteúdos disponíveis. Isso ajuda resolver bastante a questão da conectividade", diz. "Estamos adaptando o conteúdo, sabemos que esse processo é novo e é difícil."

Rossieli diz que há lives quase diárias com professores para dirimir as dúvidas e dificuldades. "Temos tido conversas muito transparentes. E estamos todos tentando correr atrás. É o momento de solidariedade".

Para o secretário, é normal que alguns professores se sintam desconfortáveis com essa nova modalidade num primeiro momento.

"É lógico que dá medo. Eles têm que sair da zona de conforto", avalia. Segundo ele, na primeira semana, foram 1,5 milhão de alunos conectados às aulas - um pouco menos da metade dos 3,5 milhões inscritos na rede estadual.

Com relação aos problemas de conectividade, o secretário ressalta que uma parceria com as operadoras de telefonia proporciona aos alunos e professores o uso de dados patrocinados pelo Estado. "Esse patrocínio de dados é feito via aplicativo", diz.

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Professores na rede estadual se queixam do excesso de cobranças - para eles, burocracia 
criada para o acompanhamento das aulas faz com que ultrapassem as jornadas diariamente


Dificuldades na forma e no conteúdo

Além das questões técnicas de acesso ao Centro de Mídia criado pela SEE, muitos professores se queixam da qualidade do conteúdo das aulas apresentadas aos alunos e apontam uma desconexão entre esse conteúdo e o currículo.

"Já vi, por exemplo, que teve a mesma aula para três séries diferentes. Parece até que estão gravando aulas com temas aleatórios, então usam a mesma aula para séries diferentes. Nem a grade curricular do Estado está sendo respeitada", diz a professora Mariana (nome fictício), 38 anos, de Araraquara.

Docente há 16 anos, ela discorda da forma como o processo vem acontecendo. Quando veio a notícia das aulas online, os professores ficaram preocupados com possibilidade de terem, eles mesmos, que gravar as aulas. Mas esse, no entanto não foi o caminho do projeto. O que trouxe alívio, mas também preocupação.

"Perdemos nossa autonomia em sala de aula. Não é nosso planejamento pedagógico que está sendo passado. E, pior, as aulas, genéricas, não levam em consideração as diferenças entre as cidades, as escolas", diz Mariana.

"O professor faz um diagnóstico para planejar as suas aulas. Essa forma não respeita o ritmo dos alunos, da turma. Acaba, também, sendo uma aula superficial para o aluno, o que não é suficiente para fazê-lo entender", avalia.

Para a professora Marisa Borges, coordenadora pedagógica em Sorocaba, o fato de tudo ser um processo novo pesa bastante, mas é preciso ter paciência. "Os professores estão tentando se adaptar a essa realidade. Nós estamos aprendendo a mexer com todas as ferramentas", explica.

Apesar das dificuldades, alguns professores têm se dado bem com o processo.

É o caso de Rodrigo Ferrari Baglini, 32 anos, docente há 10 anos na capital. Ele concorda com a professora Marisa sobre a necessidade de paciência. "Essa pandemia nos obrigou a apresentar para o mundo um novo modelo de ensino, que deveria ser implantado num processo progressivo. As crianças estão no mundo digital, mas não têm a cultura digital do aprendizado. E isso é um processo que precisa de tempo", diz.

Cobranças excessivas para que o EaD emplaque

Os professores na rede estadual também vêm se queixando do excesso de cobranças na implantação do EaD. Para eles, a burocracia criada para o acompanhamento das aulas faz com que ultrapassem as jornadas diariamente.

"Temos sido obrigados a fazer um monte de relatórios para provar que o professor está, de fato trabalhando", diz a professora Mariana. "Eu fiquei sem recursos para fazer as aulas online, porque a fonte do meu computador queimou. Faz duas semanas que estou falando isso e que não tenho como fazer. E a resposta da coordenação é dizer que então vou ficar com falta."

O professor Samuel Augusto Alves Lima, 39 anos, docente da rede estadual há seis anos, também vem enfrentando problemas parecidos. "Temos dispendido de recursos próprios. De equipamentos, de internet. Mas isso às vezes não é suficiente. A equipe gestora pressiona para que façamos as atividades e há uma série de confusões sobre as orientações do planejamento", conta.

Segundo Samuel, apesar de a Secretaria anunciar o patrocínio de dados para o acesso ao aplicativo, essa não é a única ferramenta usada pelos professores que acabam, sim, dependendo do uso de dados próprios para acesso à internet.

Para o professor, outro entrave está relacionado a uma grande quantidade de informações desencontradas. "Cada escola tem dado as suas orientações sobre como isso deve acontecer. E há muitas idas e vindas, dificultando ainda mais a vida dos professores", diz.

Ensino a distância x educação presencial

A realidade da implantação de EaD na rede estadual de ensino levanta a discussão sobre as possibilidades de substituição da educação presencial pelo ensino a distância no ensino fundamental.
Mas mesmo quem defende o processo remoto é taxativo em dizer que o modelo atual não funciona de forma definitiva.

Para o secretário de Educação, durante as conversas com professores da rede, muitos colocaram essa questão. "No início, o maior receio era que o EaD fosse substituir os professores. Mas não é disso que se trata. E não temos como fazer com que a EaD substituía a educação presencial na educação básica. O que estamos fazendo agora é um esforço de tentar conectar as pessoas com a educação", diz. Segundo ele, ao colocar em prática o EaD, a Secretaria tenta manter o vínculo educacional dos estudantes.

Para Fabio Fonseca, Diretor Acadêmico da Faculdade FAEL, uma das pioneiras no processo de EaD no país, o ensino a distância é uma ferramenta valiosa, mas é preciso tempo e organização para que os professores possam aprender a usar essa ferramenta.

"Viemos de um modelo presencial, numa mudança abrupta. Mas certamente é uma mudança sem volta. O processo online veio para ser uma ferramenta importante" ele conta. Para auxiliar nesse processo, a FAEL disponibilizou para os docentes um curso gratuito sobre ensino a distância.

Oito em cada dez professores não se sentem preparados para ensinar online

Renata Cafardo, 
O Estado de S.Paulo

É o que mostra pesquisa do Instituto Península, à qual o ‘Estadão’ teve acesso com exclusividade. Quase 90% deles informaram nunca ter tido experiência com ensino a distância e 55% não ter recebido treinamento para atuar

Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Em Itapecerica da Serra, a professora Márcia Cristina Amorim Chagas 
improvisa videoaulas na horta de casa, com a ajuda da filha adolescente  

Quase dois meses depois de as escolas fecharem no País todo por causa da pandemia do coronavírus, 83% dos professores não estão preparados para ensinar online. E são eles que dizem isso, em pesquisa realizada pelo Instituto Península, à qual o Estadão teve acesso com exclusividade. Os docentes de redes públicas e particulares ainda se declaram ansiosos e nada realizados com o trabalho no momento atual.

Estudos internacionais e experiências em países que são considerados exemplos de educação mostram que o professor é fator determinante para o ganho de aprendizagem do aluno, principalmente para os mais vulneráveis. Em tempos de isolamento, a importância aumenta, já que muitas vezes o profissional é o único vínculo com a escola

Quase 90% dos docentes informaram na pesquisa que nunca tinham tido qualquer experiência com um ensino a distância e 55% que não receberam, até agora, suporte ou treinamento para atuar de maneira não presencial. Sem orientação clara, os profissionais têm criado as próprias atividades. Não é à toa que 83% afirmaram se comunicar pelo WhatsApp com as famílias, em vez de usar ferramentas pedagógicas das escolas ou redes.

“Enquanto uma série de profissionais no meio de uma pandemia está fazendo seu trabalho de casa e já é difícil, o professor ainda está tendo de se reinventar completamente”, diz a diretora executiva do Instituto Península, Heloisa Morel. “Imagine a sobrecarga e o estresse.”

Desde meados de março, quando as aulas foram paralisadas, as secretarias de Educação têm oferecido programas a distância, alguns pela TV,  e feito parcerias para usar ferramentas online. “Mas é preciso uma organização maior para que o professor entenda o que ele tem de fazer.”

A professora Márcia Cristina Amorim Chagas, de 50 anos, decidiu gravar vídeos com o celular no sítio onde mora em Itapecerica da Serra. É a filha de 17 anos que faz as filmagens, “quando está de bom humor”, brinca. Em um deles, Márcia teve a ideia de mostrar aos alunos como as cinzas das queimadas podem ajudar a adubar a terra para plantar cebolinha. Depois, o material vai sempre por WhatsApp para os pais das crianças.

Márcia ainda pede que os alunos escrevam ou gravem em áudio o que aprenderam. “Uso o meu celular, com a minha internet, que às vezes não funciona, e meu computador que paguei durante dois anos”, diz ela, que dá aulas para 4º e 5º ano  em uma escola estadual na Vila Madalena, zona oeste.

“Eu  trabalho numa escola integral e tive alguma formação em tecnologia, mas para o que estamos precisando agora, o que aprendi foi mínimo.” A professora diz que ainda não conseguiu usar o Centro de Mídias com suas turmas, plataforma criada pelo governo do Estado para o ensino remoto durante a pandemia.

Na rede particular, o WhatsApp é menos comum e 56% disseram usar o aplicativo de mensagens para se comunicar com o aluno. Mais frequente é a comunicação por meio de plataformas da escola. Mesmo assim, o sentimento de despreparo diante do desafio de ensinar online é o mesmo. “As coisas foram impostas de um dia para o outro, com o isolamento. Ninguém teve tempo de se preparar”, diz a professora de ensino fundamental de uma escola particular de elite da capital, que pediu para seu nome não ser divulgado.

Ela dá aulas para a fase de alfabetização e passou a criar jogos em aplicativos, com quebra-cabeça e localização de palavras, para seus alunos. “Estamos fazendo o melhor possível, mas não é nem de longe o que a gente entende por educação. Isso é bastante angustiante.”

A presidente executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, diz que poucas secretarias de Educação ou mesmo escolas particulares no País deram formação ou infraestrutura para professores em aulas não presenciais. A maioria dos profissionais tem usado seus próprios computadores, Wi-Fi ou celulares.

“Não há preparação para aulas  a distância e que são muito diferentes das presenciais. Não é intuitivo saber o que fazer online para assegurar a aprendizagem dos alunos”, diz.

Saúde mental prejudicada

A pesquisa ainda mostra que o cenário inclui uma saúde mental já prejudicada do professor. Quase 70% deles se disseram ansiosos e só 3%, realizados. E a maioria (75,2%) relatou que não recebeu até agora nenhum apoio emocional da escola em que trabalha. Mesmo em redes particulares, as equipes costumam se reunir online para discutir as abordagens pedagógicas durante a pandemia, mas raramente há grupos com psicólogos para que os professores possam expor o que sentem.

Em documento divulgado pelo Todos pela Educação na semana passada, o impacto emocional em professores foi um dos pontos principais apontados para que as escolas se preocupem na volta às aulas. O grupo de especialistas que analisou 43 pesquisas sobre momentos semelhantes ao atual, como desastres e guerras, diz que o suporte psicológico para professores é crucial porque, além de serem diretamente impactados pela crise, precisarão atuar na minimização dos efeitos sentidos pelos alunos.

A pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil”, do Instituto Península, está ouvindo os profissionais da Educação desde março e continuará até o fim da crise. Participaram nesta etapa 7.734 professores de escolas públicas e particulares do País, entre os dias 13 de abril e 14 de maio.


Pais estão dando mais valor à nossa profissão’, conta professora


A professora Fabiane Bandeira Viana, que dá aulas em uma escola municipal de Manaus, no Amazonas, descobriu um jeito de seus alunos, de 5 anos, conseguirem fazer atividades remotas. Como eles não têm impressoras, ela escreve em um caderno a lição, fotografa e manda pelo WhatsApp para os pais, que copiam para os cadernos dos filhos. Depois que as crianças realizam a tarefa, a família tira outra foto e manda de volta.

“Nem todos respondem todo dia, às vezes um liga e avisa que não mandou porque ficou sem crédito no celular”, conta. 

A professora nunca tinha dado aulas online e agora já sabe editar vídeos para mandar aos alunos. “Aprendi com umas blogueiras, coloco carinhas, música.” Ela diz que sofre de ansiedade e medo de se contaminar com a covid-19, mas vê um lado bom. “Os pais estão dando mais valor à nossa profissão, estão vendo que não é fácil educar.”

Foto: Acervo pessoal
Fabiane manda foto das lições pelo WhatsApp para seus alunos

OMS pede atenção para nova inflamação misteriosa em crianças

Guilherme Dearo
Exame.com

Doença pode estar ligada ao novo coronavírus; OMS pede que equipes médicas reportem casos com urgência

(Juan Carlos Ulate/Reuters)
Covid-19: nova síndrome vista em crianças e adolescentes
 pode estar ligada ao novo coronavírus 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um comunicado na última sexta-feira (15) alertando que equipes médicas fiquem atentas a uma nova inflamação misteriosa que está afetando crianças e adolescentes e pode estar ligada ao novo coronavírus.

A doença, chamada de síndrome multi-inflamatória, é parecida com a síndrome de choque tóxico. Segundo a OMS, é grave, requer cuidados intensivos e pode ser fatal. Os sintomas incluem alergia, problemas cardíacos, problemas de coagulação no sangue, vômito, diarréia e dor abdominal.

O nome provisório da doença, proposto por alguns pesquisadores, é PIMS-TS, sigla para o nome em inglês, que seria “Síndrome Pediátrica Inflamatória Multisistêmica Temporariamente Associada ao SARS-CoV-2”.

Análises preliminares de médicos indicam que a doença surge em pessoas entre 0 e 19 anos que foram expostas ao Covid-19.

A OMS alertou que médicos ao redor do mundo devem mandar com urgência dados coletados para ajudar pesquisadores a entenderem a doença e desenvolverem um tratamento.

Alerta do CDC

O órgão americano Centres for Disease Control and Prevention (Centro para Controle e Prevenção de Doenças) também emitiu comunicado alertando para a doença que pode estar ligada ao coronavírus.

Os sintomas são parecidos com a Doença de Kawasaki, recém-identificada por cientistas. A síndrome inflamatória tem afetado crianças abaixo de cinco anos e afeta as paredes das artérias. Ela tem afetado cerca de uma criança a cada dez mil e já há casos fatais observados. A síndrome foi relatada primeiro em abril por pesquisadores britânicos.