Adelson Elias Vasconcellos
Propositadamente, ontem, juntei em uma mesma postagem, à notícia do Valor Econômico sobre o Bolsa Família, uma outra em que se informa a queda da renda do trabalho sobre a renda das famílias. E, de acordo com a estatísticas de acessos das postagens, vimos que outros temas mereceram muito mais atenção do que esta pequena – e importantíssima informação.
Há certo desvio na análise sobre a importância do Bolsa Família na vida das pessoas. Já escrevi vários artigos a respeito, mas, tristemente, constato que tanto a imprensa quanto o próprio governo – independente de ser Lula ou Dilma – o conceito permanece imutável. Festeja-se muito o crescimento no número de beneficiários e fala-se quase nada sobre as pontes ou portas de saída.
Contudo, é promissor o fato de que a nova ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, demonstre preocupação com o problema. Os dados mostram que parte da estratégia delineada pela nova ministra, defendendo a criação de "portas de saída" para que os beneficiários do Bolsa Família deixem de receber o benefício - já está em andamento, mas é bastante tímida, através de microcréditos destinados a aberturas de pequenas e microempresas. Entretanto, e conforme opinião da professora da UFRJ, Lena Lavinas,: é "ilusório" pensar que "todos os pobres são potenciais empreendedores", e a política social de criar portas de saída do Bolsa Família não deve estar condicionada à isso.
"Em qualquer classe de renda, a maior parte das pessoas é funcionário, apenas uma minoria é empreendedora. Além disso, a expansão do crédito aos pobres precisa vir acompanhada de programas de instrução e qualificação".
Assim, aquele “apêndice" que inserimos ontem, deve ser refletido com muita cautela e vale reproduzi-lo:
O trabalho perdeu força no total de rendimentos das famílias brasileiras, apesar dos consecutivos recordes na criação de emprego formal e do aumento real de salários no Brasil. Enquanto em 1999 a renda do trabalho representava 81,5% do rendimento total das famílias, dez anos depois já recuava para 77,4%. Levantamento feito a pedido do Valor pelo economista Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que a principal responsável por essa perda de força do trabalho foi a região Nordeste, onde a renda do trabalho caiu quase dez pontos percentuais na década, saindo de 81,7%, em 1999, para 72,5%, em 2009.
Ora, o programa de microcrédito mal atinge 2% do total de beneficiários do Bolsa Família. Por que, então, esta brutal redução do trabalho na composição da renda familiar? E, paralelamente, também, é de se questionar que, não sendo a causa o desemprego, até pelo contrário, não estaria associada esta perda justamente pela expansão a qualquer preço dos programas de transferências de renda, até com viés eleitoreiro, por parte tanto do governo federal, quanto dos estaduais e até prefeituras? Não estaria o desejo de se ampliar sem medidas ou critérios, a base da perda do trabalho assalariado na composição da renda familiar? Ou seja: quanto mais se expandem os programas sociais, menor a necessidade que as pessoas sentem de buscarem no trabalho sua maior e, talvez, única renda.
A crítica que fazemos – e não é de agora – pouco a pouco vai se mostrando acertada. Reparem que metade dos beneficiários do Bolsa Família se constituem de crianças e adolescentes. Dado paralelo: metade dos jovens que concluem o ensino fundamental, estão fora do ensino médio. E, apesar do crescente números de matrículas, houve uma redução brutal de alunos matriculados de uns anos para cá. Sendo assim, não estariam os tais programas ditos “sociais” incentivando a menor busca por trabalho pelo adultos e de estudo pelos jovens?
Há outros dados – frutos de pesquisas sérias, algumas até oficiais - que merecem ser vistos com carinho. Em várias regiões do país, Nordeste principalmente, e em áreas rurais do sul e sudeste, os empregados se negam a deixarem suas carteiras de trabalho serem assinadas pelos empregadores, por medo de serem excluídos do programa Bolsa Família. Como a fiscalização do Ministério do Trabalho tem sido intensiva, há enorme dificuldade dos agropecuaristas em preencherem as suas necessidades de mão de obra.
Fica claro, deste modo, que o Bolsa Família, se por um lado proporciona a seus beneficiários a inserção no mercado de consumo, e alimentação com melhor qualidade, podendo sustentar o custo dos estudos de seus filhos, por outro, tem inserido um comportamento de ociosidade em parte da população que beneficia, sejam jovens ou adultos. E nem se pode contra argumentar com a questão de emprego, num momento de pleno emprego em que vive o país.
Portanto, é preciso renovar o alerta que temos feito há bastante tempo: o Bolsa Família somente poderá ser aplaudido como “programa social” a partir do momento que ele próprio servir de ponte para que seus beneficiários deixem de depender do auxílio financeiro que ele proporciona. É preciso avançar e oferecer portas de saídas, que passam, obrigatoriamente, pela educação e qualificação. Enquanto não houver “saída”, o programa continuará sendo aquilo que alguns de seus críticos o definem: assistencialismo com viés eleitoreiro. Apenas isso. O programa não pode ser comemorado pelo resultado econômico de “consumo”. Isto é perenizar a pobreza e a dependência ao assistencialismo.
A partir do momento em que o programa comece a reduzir sensivelmente, o número de beneficiários, por conta de que passou a oferecer alternativas de saídas, permitindo que se ande por conta própria sem ver diminuída sua qualidade de vida, aí sim, o Bolsa Família poderá ser festejado, cantado em verso e prosa como programa social. Até lá, e dado os resultados danosos que vimos acima, ele continuará a ser o que, no presente, realmente é, um programa assistencialista com propósitos eleitoreiros.
Assim, é promissor observar na nova ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, a preocupação com as tais portas de saída. Mas é indispensável que o sentimento e o desejo se unam à ação. Existem uma quantidade enorme de possibilidades para mudar os conceitos atuais do Bolsa Família. Do contrário, esta dependência tende a se eternizar. E o que é pior: a partir de um dado momento, passará a criar barreiras para se manter intocável, o que, em última análise, representaria roubar dos seus beneficiários sua autodeterminação. O de que menos o país precisa é um batalhão de ociosos e párias bancados pela sociedade, perigosa massa de manobra para políticos aventureiros.
Na mudança da condução do Bolsa Família estará o registro do programa ser ou não um programa social digno do nome.








