Gabriel Castro
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Graças ao pagamento do bônus de Libra e ao Refis, o governo central conseguiu economizar R$ 75 bilhões em 2013. Segundo Mantega, dado foi antecipado para 'acalmar o mercado'
(Ueslei Marcelino/Reuters)
O ministro Guido Mantega divulgou o resultado primário
do governo central nesta sexta-feira em Brasília
O governo central - que inclui o governo federal, a Previdência Social e o Banco Central - fechou 2013 com um superávit primário (economia feita para o pagamento dos juros da dívida) de aproximadamente 75 bilhões de reais. O resultado, que significa o cumprimento da meta traçada pelo Ministério da Fazenda - de 73 bilhões de reais - foi divulgado na tarde desta sexta-feira pelo ministro Guido Mantega e só foi alcançado graças a receitas extraordinárias, como o Refis (programa de parcelamento de dívidas com o Fisco) e o pagamento do bônus de assinatura do campo de Libra, o primeiro do pré-sal a ser licitado.
O superávit primário consiste na economia feita pelo governo entre o que é arrecadado e o que é gasto pelo poder público para pagar os juros da dívida. Trata-se de um importante indicador que mostra a capacidade do país de controlar seu nível de endividamento: quanto mais juros são pagos, menos a dívida cresce. O dado divulgado nesta sexta-feira refere-se somente ao governo central. Já o resultado consolidado, que leva em conta os governos regionais, o Banco Central e as empresas estatais - deve ser divulgado até o fim do mês.
Ao anunciar o resultado, o ministro tentou se defender das críticas de que o cumprimento da meta deu-se graças às receitas extras. "Todo ano costuma ter receita extraordinária. O normal é ter receita extraordinária. É um tributo que não foi pago e que passa a ser pago. É algo devido ao governo. A receita está crescendo independentemente da receita extraordinária."
No ano passado, o governo contou com arrecadação extra de 15 bilhões do pagamento de Libra, em novembro, além da arrecadação do Refis. Para aderirem o programa de parcelamento das dívidas, as empresas têm de efetuar uma parcela do pagamento, o que ajuda positivamente na arrecadação. Questionada pelo site de VEJA, a Receita Federal disse que não tem dados consolidados sobre quando o programa de parcelamento de dívidas rendeu ao Fisco. O último dado divulgado, referente a novembro, mostrou que o programa injetou 20,4 bilhões de reais aos cofres públicos apenas naquele mês.
Mantega reconheceu, contudo, o efeito positivo do parcelamento das dívidas e disse que o aumento de arrecadação com o Refis ainda será sentido no início deste ano. "É claro que o Refis ajudou no sentido de que ele liberou a possibilidade das empresas que tinham dívida tributária voltarem a pagar essa dívida, e isso voltará a ocorrer nos próximos meses. Em janeiro, fevereiro e março deveremos ter uma continuação dessa trajetória da elevação da arrecadação."
Por outro lado, o ministro tentou minimizar a existência de receitas extraordinárias comentando que também houve gastos adicionais. "Também tivemos despesa extraordinária que não tivemos no ano passado", disse ele, citando os gastos para impedir elevações na conta de luz quando o cenário da geração de energia era instável. Essa despesa, de acordo com Mantega, consumiu 9 bilhões de reais. Aproximadamente 7 bilhões também foram gastos para aplacar os efeitos da seca no Nordeste.
Apesar de o governo ter celebrado o cumprimento da meta, ela também só foi alcançada graças à alteração da regra do superávit primário, aprovada pelo Congresso no final de novembro depois de forte pressão do Palácio do Planalto sobre os parlamentares. Anteriormente, a Lei de Diretrizes Orçamentárias previa que o governo federal deveria suprir eventual frustração de meta dos governos regionais - uma realidade nos últimos anos. Com a mudança na regra, o governo central tirou de si a responsabilidade de cobrir o rombo deixado por Estados e municípios, ou seja, a partir de agora a economia pode ser muito menor do que a prevista anteriormente. Se a meta cheia fosse levada em consideração, dificilmente seria cumprida no ano passado.
Também nesta sexta, o governo divulgou dados do mês de dezembro, cujo superávit ficou em torno de 14 bilhões de reais. A arrecadação no último mês de 2013 também foi recorde: de 116 bilhões de reais, segundo Mantega. Segundo o ministro, houve apenas "um restinho de Refis" em dezembro, o que comprovaria a solidez do aumento de arrecadação.
Mercado — Segundo o ministro Mantega, o governo resolveu divulgar nesta sexta-feira o dado para tentar acalmar os ânimos do mercado. "Nós antecipamos o anúncio do resultado para abaixar a ansiedade. Como havia alguns analistas que diziam que nós não iríamos cumprir o fiscal, ficar com essa expectativa até o final de janeiro não seria bom. Isso vai acalmar os nervosinhos", disse Mantega ao anunciar o resultado. O governo tem tentado usar o discurso para reverter a deterioração das contas públicas, mas o mercado tem se mantido cético devido às manobras adotadas pelo governo ao longo dos últimos anos para maquiar as contas públicas.
Apesar de o governo ter atingido a meta, o mercado não comemora o resultado, alcançado graças a receitas extraordinárias e à mudança no cálculo do primário.
Contabilidade criativa —
Para tentar manter as finanças em ordem, o governo recorreu a manobras fiscais ao longo de 2013, como a antecipação de dividendos de estatais e uso de repasses do BNDES ao Tesouro, mas diminuiu o ritmo dessas medidas depois de receber fortes críticas de fazer "contabilidade criativa" para fechar as contas e diante da ameaça de um rebaixamento da nota de crédito do Brasil. Em junho, a agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P) rebaixou a perspectiva da nota de crédito do Brasil de "estável" para "negativa", sinalizando uma possível revisão da nota. Caso o rating do Brasil seja diminuído, isso pode se refletir em menos investimentos no país, prejudicando ainda mais o já enfraquecido cenário de crescimento econômico.
Expectativas —
Embora o mercado não espere uma melhora do cenário fiscal e de crescimento econômico em 2014, Mantega - que vive arriscando previsões - acredita que o cenário econômico deve melhorar. "Estamos numa trajetória positiva da economia brasileira, com melhoria do emprego, do consumo, do investimento, das concessões. Tudo isso vai convergir no sentido de que tenhamos um 2014 melhor do que 2013. As condições estão dadas para que isto aconteça", prevê o ministro.
Ainda que um ajuste seja necessário, o mercado não espera que o governo faça grandes mudanças nas contas públicas este ano devido à corrida presidencial de outubro.
Orçamento —
O ministro também afirmou que, em 2014, o governo deve realizar novas concessões nos setores ferroviário, portuário, elétrico e de petróleo e gás. Ele garantiu ainda que as despesas com custeio estão sob controle, e afirmou que no fim de fevereiro o governo deve anunciar qual será o contingenciamento no Orçamento de 2014.
Ainda segundo Mantega, a melhoria econômica no cenário internacional vai favorecer as exportações brasileiras, o que pode auxiliar o desempenho da economia nacional no ano.
Dólar —
Mantega disse que a alta no dólar na quinta-feira - que fechou a 2,39 reais - foi uma variação natural, já amenizada. "Em relação ao cambio, é um movimento internacional. Todas as moedas se desvalorizaram em relação ao dólar ontem", disse ele.
O ministro também negou que o governo pretenda aumentar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na compra de moeda estrangeira. Recentemente, o governo elevou de 0,38% para 6,38% o imposto cobrado sobre os saques em moeda estrangeira e os gastos com cartões pré-pagos, normalmente usados por turistas em viagem aos Estados Unidos.
Segundo Mantega, o objetivo da nova cobrança é equiparar as operações às de crédito, nas quais já era cobrado o tributo de 6,38% em compras internacionais. "Os gastos lá fora estão muito altos. Nós estamos colocando um tributo que tem um objetivo regulatório, mais do que arrecadatório, de evitar exageros", disse o ministro.
Os artifícios usados para engordar o superávit em 2013
O governo vem tentando a duras penas cumprir a meta de superávit primário deste ano. A economia feita para o pagamento de juros foi reduzida de 3,1% para 2,3% do PIB e ainda assim não deve ser alcançada. Por meio de Medidas Provisórias e decretos, o governo federal vem criando mecanismos para 'maquiar' as contas públicas na tentativa de garantir o cumprimento do primário — expediente que vem sendo usado desde 2010, por sinal. Mas em 2013, os mecanismos se tornaram mais elaborados. Confira quais são:
• Aumento de Capital da Caixa
Em 2013, o governo autorizou, por meio de duas medidas provisórias, a Caixa Econômica Federal a aumetar seu capital. Por meio das MPs 600 e 620, esse aumento significou o repasse de xxxx bilhões de reais ao banco. O objetivo era viabilizar os financiamentos aos programas Minha Casa Minha Vida e Minha Casa Melhor, concedendo uma linha de crédito de 18,7 bilhões de reais para a compra de eletrodomésticos por beneficiários do programa habitacional. A MP 600, editada em dezembro de 2012 e retificada em janeiro de 2013, permite à União conceder até 7 bilhões de reais à Caixa. Já a MP 620 autoriza a capitalização do banco em até 8 bilhões de reais.
• Uso de créditos de Itaipu para financiar corte na conta de luz
Entre outros pontos, a medida provisória 615 permitiu a antecipação de créditos de Itaipu, ou seja, de valores que o governo deveria receber apenas no futuro. Com a permissão, o Tesouro poderá emitir no mercado, a qualquer momento, títulos públicos até o limite de 15 bilhões de dólares, sem aumentar a dívida. Isso porque o governo vende um papel com base no que tem a receber da usina até 2023. Tal malabarismo é possível porque o Tesouro tem autorização para comprometer receitas da usina de mais três governos.
Em 11 de junho de 2013, a Fazenda fez uso da MP e autorizou a venda de 1,455 bilhão de reais de créditos da usina Itaipu Nacional, que pertencem à União. O objetivo era utilizar esse dinheiro para os repasses à Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que banca os subsídios à conta de luz. Mas, depois de sofrer fortes críticas do mercado, por se tratar de uma medida de “maquiagem” das contas públicas, o governo desistiu da medida. Foi nessa época que a agência de classificação de risco Standard & Poor's revisou para negativa a perspectiva para a nota do Brasil. Também nesse período, a desconfiança em relação ao controle fiscal no país se intensificou.
• Repasses para a capitalização do BNDES
O governo vem usando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Sustentável (BNDES) para financiar uma série de medidas que buscam garantir, a todo custo, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país — e que não têm surtido muito efeito, tendo em vista a alta de 1% verificada em 2012 e a perspectiva de crescimento de 2% para este ano.
Para manter o banco capitalizado, o Tesouro tem feito diversos aportes. Em 1º de julho, o governo autorizou a concessão de 15 bilhões de reais ao BNDES. No final de novembro, foi autorizado um novo crédito, de 24 bilhões de reais, por meio de títulos públicos em favor do banco de fomento.
Outra medida adotada este ano para melhorar as contas públicas é uma modificação no estatuto do banco. Em edição extra do Diário Oficial da União, de 28 de junho, o governo publicou decreto que permite que o banco amplie o pagamento de dividendos à União. Para que isso ocorra, o Tesouro tem de compensar o banco com mais emissões de títulos. Após tantas medidas 'bondosas', o ministro Guido Mantega chegou a afirmar que a tendência é que, em 2014, haja uma diminuição nos repasses. É ver para crer.
• Receitas com concessões
Devido à queda na arrecadação e à redução do leque de opções de contabilidade criativa devido à deterioração fiscal, o governo teve de lançar mão de outros artifícios para conseguir chegar, ao menos, perto de cumprir a meta de superávit. Uma das maneiras encontradas foi a utilização de receitas extraordinárias, que são aquelas que não são arrecadadas com previsibilidade, como as receitas com concessões, por exemplo.
De acordo com o último relatório de despesas e receitas – referente ao 5º bimestre, o governo estima arrecadar 23,9 bilhões de reais com as concessões de obras de infraestrutura em 2013. Desse total, 15 bilhões de reais são referentes ao pagamento do bônus de assinatura do campo de Libra, que faz parte das reservas do pré-sal, e que foi leiloado no final de outubro pela Agência Nacional de Petróleo (ANP).
• Refinanciamento de dívidas tributárias de empresas - Refis
Outra fonte extraordinária de receitas que deve ajudar o governo são dos Refis da Crise. Por meio de um programa de refinanciamento de dívidas de empresas e de bancos com o Fisco, executado em 2009, ano de crise, o governo elevou em 20 bilhões de reais a arrecadação de 2013. A cifra considera um universo de 36.024 empresas que aderiram ao Refis até 29 de novembro e superou as expectativas da própria Receita, que era de levantar um montante entre 12 bilhões e 16,4 bilhões de reais.
Do total de empresas, 75 são instituições financeiras - entre bancos, financeiras, corretoras e seguradoras - que renegociaram dívidas da ordem de 12 bilhões de reais. Segundo a Receita, o Refis de empresas multinacionais atingiu 7,571 bilhões de reais. Entre as companhias que aderiram estão a Vale, a Fibria e o banco Pan.
• Abatimento de desonerações e investimentos do PAC
Por meio da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano – que serve como parâmetro para o orçamento federal – o governo está autorizado a descontar da meta fiscal até 65,2 bilhões de reais referentes a desonerações tributárias e gastos com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Trata-se de uma medida de maquiagem contábil antiga, aplicada desde o governo Lula, e que permite que os valores gastos com o programa sejam retirados da lista de despesas e direcionados para a lista de investimentos.
Para efeito contábil, trata-se de um gasto que é simplesmente excluído do balanço, o que alivia o resultado fiscal. Em 2012, o governo já havia abatido 25,6 bilhões de reais em gastos com o PAC e o Minha Casa Minha Vida. As desonerações que também serão abatidas são as do imposto sobre produtos industrializados (IPI) e as desonerações de folhas de pagamento. O governo estima que, juntas, as duas formas redução tributária tenham impactado as contas públicasem 64 bilhões de reais.
• Depósitos Judiciais
Outro mecanismo que ajudou o governo a melhorar as contas públicas foram os depósitos feitos em juízo pelos contribuintes que travam disputas com o Fisco. Entre janeiro e agosto deste ano houve um acúmulo de 8,5 bilhões de reais. Esse volume é 43% superior ao registrado em igual período do ano passado. O dinheiro ajuda porque vai diretamente para a Conta Única do Tesouro Nacional.
Os depósitos judiciais são feitos pelos contribuintes após ordem judicial e servem para sustentar causas em discussão com a Receita. Se o contribuinte ganhar a disputa, os recursos são devolvidos, corrigidos pela variação da Selic – atualmente em 10% ao ano.