terça-feira, janeiro 07, 2014

Piora a qualidade dos investimentos externos

Flavia Lima
Valor

Piorou a qualidade dos investimentos estrangeiros diretos (IED) no Brasil nos dois últimos anos, com o aumento da participação dos empréstimos intercompanhias e a contínua perda de força da indústria como destino desses recursos.

Esses investimentos são uma fonte de financiamento externo importante de longo prazo, bem mais estáveis do que os investimentos em portfólio, por exemplo. Entre janeiro e novembro de 2013, o total dos investimentos diretos somou US$ 57,5 bilhões - o que corresponde a cerca de 80% do déficit de US$ 72,7 bilhões em transações correntes do período.

O detalhamento dos números do Banco Central mostra, contudo, que a manutenção de um volume expressivo de investimentos estrangeiros diretos para o Brasil foi sustentada por um aumento dos empréstimos intercompanhias, operação na qual o capital é transferido da matriz para a filial no Brasil, sem garantias de que se destinará a investimento produtivo. O volume desses empréstimos aumentou 57% de janeiro a novembro de 2013. Já o total de recursos efetivamente empregados na criação, ampliação ou aquisição de negócios teve um declínio de 20% no mesmo período.

Mas há outros indicadores de piora na qualidade do investimento estrangeiro direto. Um deles é a perda de força da indústria no direcionamento desses recursos. Outro indicativo é que as operações acima de US$ 100 milhões ainda somam mais de 40% do IED, o que significa uma concentração em poucas e grandes operações e, portanto, maior vulnerabilidade.

"Boa parte das operações foi feita em extração de petróleo e gás natural, em parte por conta do leilão de Libra. Isso é uma pista para 2014. Se o governo não tiver grandes leilões, é melhor não contar com grande massa de investidores diretos pulverizados", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luis Afonso Lima.

A fatia dos ingressos destinados a participação no capital no setor industrial diminuiu de 36,7% entre janeiro e novembro de 2012 para 31% em igual período de 2013, voltando aos níveis de 2008, quando essa participação foi de 32%. Lia Valls Pereira, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas, lembra que a maior atratividade de outros segmentos - como agricultura e extração mineral - se deve ao fato de serem setores "ainda em construção".