domingo, dezembro 05, 2010

Pelo visto, está tudo bem!

Claudio Schamis, Opinião & Notícia

É preciso que o governo gaste dinheiro com coisas importantes para o povo.
Ontem bateu aquele desespero sobre o que eu iria falar. Eram 6h35 de uma manhã meio nublada, meio querendo sair o sol, e que apenas começava e eu ainda acordado, saía de uma imersão de cultura, o Corujão da Poesia. Rugas se formaram em meu rosto, peguei o jornal que chegava naquele momento, fresquinho, cheirava quase como um pão francês no afã de ter alguma luz divina. A luz veio, mas de divina nada tinha. Muito pelo contrário.

E será difícil prever quem foi o responsável? Quem? Quem? Raimundo Nonato? Não. Tenta de novo. Vai, coragem, arrisca. Lula!? Bingo! Desculpe, mas bingo é proibido. Mas então tá tudo bem?

Poderia estar. Mas não está não. Será que você pode considerar tudo bem quando o presidente ainda em exercício, vendo (acredito eu) tudo o que aconteceu aqui no Rio de Janeiro, defende a compra de um novo avião para sua pupila-sucessora, e agora presidente Dilma Rousseff? Será mesmo que a prioridade número dois de Lula – a primeira foi eleger Dilma – deveria ser comprar um avião para Dilma? Tudo bem que ele tenha dito que tudo o que o governador pedisse ele daria para ajudar na nossa luta contra a violência. Mas, não é só isso. Colocar as forças armadas na rua pode resolver o problema agora só que o buraco é mais embaixo. Não será com armas que vamos acabar com isso. A visão deve ser mais ampla e deve abraçar nossas crianças que estão despertando para a vida. Que estão começando a se formar como pessoas, como indivíduos.

E o que é o individuo para Lula? Não sei. Ele sabe? Será que dar uma Bolsa aqui, outra ali vai ajudar a resolver alguma coisa? Para que tapar o sol com a peneira? Para que insistir em usar um cobertor curto, que na hora que se puxa, os pés ficam descobertos?

Lula, vou te ensinar uma coisa que não se aprende na escola. Tudo é uma questão de querer e de prioridade. Maquiar o problema não vai adiantar. Fico envergonhado de ouvir você falar que acha vergonhoso o avião presidencial ter que fazer várias escalas por falta de autonomia de voo. Não sinta vergonha disso. Sinta vergonha dos escândalos pelos quais seu governo passou. Sinta vergonha de ter professores ganhando péssimos salários, sinta vergonha de policiais ganhando péssimos salários, sinta vergonha de ter a imagem do Rio de Janeiro e do Brasil ter sido manchada no mundo pela guerra pela qual nós cariocas passamos.

Vergonha é ter esse índice alto de analfabetos. Vergonha é ter poucos querendo se formar professores. Vergonha é saber que pessoas num país como o Brasil morrem na fila dos hospitais por falta de médicos, leitos, remédios, atendimento. Isso é vergonhoso. Vergonhoso é ter um presidente que pensa isso. Que pensa assim. Vergonha será a aprovação da cobrança do “novo-velho” imposto que vocês chamam de contribuição e que falam que irá servir para ajudar na saúde. Se antes não ajudou, agora vai? O que mudou? Não foi sua cabeça. Ou vai mudar a forma de aproveitar o dinheiro?

Na sua cabeça não sei o que se passa. Aliás, acho que sei. É vergonhoso, isso eu te digo.

Vergonhoso é achar que o Palácio do Planalto precisa trocar seus móveis, tapetes e de uma reforma astronômica e cara enquanto pessoas não têm onde morar nem o que comer. Ou pessoas morando onde não há saneamento básico. Vergonhoso é ver aumentos de salário para os parlamentares serem aprovados em questão de segundos e com índices que nenhum economista conseguiria me convencer de que são honestos, enquanto que o aumento para o salário mínimo tem que ser discutido com todos e acaba virando uma novela do tipo “Vale a pena ver de novo?” e é necessário fazer contas para, aí sim, ver se é viável. O nosso aumento. O de vocês não. Qual é a mágica? Para os “reis” tudo, para seus súditos o resto?

Não somos dignos de restos. Não queremos sobras. Merecemos mais respeito. E uma maior preocupação conosco. Com nossa educação, formação, saúde e qualidade de vida.

Você poderia pegar toda essa sua vergonha e sentir-se envergonhado como nunca na sua vida.

Vergonha da vergonha. Mas proponho uma coisa. Será como um exercício. Ou como contar de uma história. Você não quer pelo menos tentar? Não vai doer. Ou talvez doa um pouco. Mas você vai sobreviver. E entender. Começa assim: “Era uma vez um rei que ao acordar num dia qualquer de um ano qualquer, se sentiu incomodado, envergonhado e achava que deveria comprar mais cavalos para sua charrete oficial que seria passada ao seu sucessor e para que ele não tivesse que parar muitas vezes pelo caminho para cruzar fronteiras e visitar outros países com quem mantinha relações comerciais. A compra desses cavalos iria resolver o problema. Mas então surgiu um murmurinho na rua que foi ouvido lá de cima do alto da colina e que fez com que ele olhasse pela janela e lá do alto então ele viu talvez pela primeira vez, que várias pessoas estavam nas ruas vendendo prateleiras. Aquilo lhe chamou a atenção e pediu que fossem perguntar qual a razão daquilo tudo. E a resposta não tardou a chegar: “V.Exª, disseram que como não há livros para serem colocados nas prateleiras, pelo menos ao vendê-los eles terão o que comer ou como comprar remédios”. Foi nesse momento que então a vergonha sentida naquele dia qualquer por uma razão qualquer se transformasse na vergonha de não ter percebido que o povo que o elegera precisava de livros, saúde e comida, tudo como sendo um complemento do outro e não como uma prova de múltipla escolha onde você deveria optar.

Lula, pega essa grana e investe no povo, investe na sua gente como você diz que o povo é. Tenha orgulho de ser um presidente que não se importa em ter que parar várias estações para chegar onde tiver que ser. Quem tem que ter a chance de chegar em algum lugar o mais rápido possível somos nós. E é somente através da educação que você poderá realizar a maior viagem da sua vida sem escalas.

Os fatos desmentem Lula

O Estado de São Paulo

Fiel a seu costume de contar a história à sua maneira, sem o mínimo compromisso com os fatos e a verdade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mais uma vez falou sobre a "herança maldita" recebida em 2003, ao iniciar seu primeiro mandato. Desta vez, o rosário de inverdades foi desfiado perante o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. O evento foi uma das várias despedidas programadas pelo presidente para este mês. De novo ele falou sobre o País quebrado e sobre o mau estado da economia no momento da transição do governo. De novo ele se entregou a uma de suas atividades prediletas, a autolouvação despudorada, atribuindo a si e a seu governo a inauguração de uma economia com fundamentos sólidos, estabilidade e previsibilidade. As pessoas informadas e capazes de discernimento conhecem os fatos, mas talvez valha a pena recordá-los mais uma vez, para benefício dos mais jovens e dos vitimados pela propaganda petista.

A primeira informação escamoteada pelo presidente Lula e pela companheirada é a origem da crise inflacionária e cambial de 2002. Os problemas surgiram quando as pesquisas mostraram o crescimento da candidatura petista. Não surgiram do nada e muito menos de uma perversa maquinação dos adversários. Os mercados simplesmente reagiram às insistentes ameaças, costumeiras no discurso petista, de calote na dívida pública e de outras lambanças na política econômica. Figuras importantes do partido haviam apoiado um irresponsável plebiscito sobre a dívida e mais de uma vez haviam proposto uma "renegociação" dos compromissos do Tesouro.

Tinha sólidos motivos quem decidiu fugir do risco proclamado pelos próprios petistas. A especulação cambial e a instabilidade de preços foram o resultado natural desses temores. A Carta ao Povo Brasileiro, com promessas de seriedade, foi o reconhecimento do vínculo entre a insegurança dos mercados e as bandeiras petistas.

Essas bandeiras não foram inventadas pelas fantasmagóricas elites citadas pelo presidente nas perorações mais furiosas. São componentes de uma longa história. Petistas apoiaram algumas das piores decisões econômicas dos últimos 30 anos. Uma de suas figuras mais notórias aplaudiu entre lágrimas uma das mais desastradas experiências dos anos 80, o congelamento de preços do Plano Cruzado. Nenhum petista ensaiou uma discussão séria quando os erros se tornaram mais que evidentes e o plano começou a esboroar-se.

Naquele período, como nos anos seguintes, petistas continuaram pregando o calote da dívida externa. Ao mesmo tempo, torpedearam todas as tentativas importantes de reordenação política e econômica e resistiram a assinar a Constituição.

O PT combateu as inovações do Plano Real. Foi contra a desindexação de preços e salários. Resistiu ao saneamento das finanças estaduais e municipais. Combateu - como já vinha combatendo - a privatização de velhas estatais, mesmo quando não havia a mínima razão estratégica para manter aquelas empresas sob o controle do Tesouro. Criticou a Lei de Responsabilidade Fiscal e atacou todas as iniciativas de ajuste das contas públicas.

A economia foi retirada do caos e seus fundamentos foram consertados, nos anos 90, contra a vontade do PT. O saneamento e a privatização de bancos estaduais permitiram o resgate da política monetária. Graças a isso foi possível, em 2003, conter o surto inflacionário em poucos meses. O Banco Central simplesmente manejou ferramentas forjadas na administração anterior.

Todos os princípios e instrumentos de política econômica essenciais à estabilidade nos últimos oito anos são componentes dessa herança mais que bendita. Se os tivesse abandonado há mais tempo, o governo Lula teria sido não só um fracasso, mas um desastre. Mas a fidelidade aos princípios do governo FHC nunca foi total. O inchaço da administração, o loteamento de cargos, a desmoralização das agências de regulação e o desperdício são partes da herança deixada à sucessora do presidente Lula, além de compromissos irresponsáveis, como o de um trem-bala mal concebido e contestado econômica e tecnicamente. Esse legado não será descoberto aos poucos. Já é bem conhecido.

Quem precisa de psicanálise é o Presidente, para ajudá-lo na volta à planície

João Bosco Rabello, Estadão.com


Não se sabe qual o conceito de “evolução” do presidente Lula para chamar de retrógrado um repórter que lhe perguntou se estava no Maranhão agradecendo o apoio da oligarquia Sarney nas eleições presidenciais.

Campanha Maranhão Lula x Sarney



Video de campanha de Lula no Maranhão falando mal da família Sarney. Como é que ele agora defende tanto esta pessoa?

Mas a receita que sugeriu ao repórter é mais recomendável neste momento ao próprio Lula: um psicanalista que o ajude no processo de volta à planície.

Só uma fobia aguda pela saída do poder explica uma reação tão despropositada e de conteúdo tão desmerecedor: afinal, mesmo ao ser mais distraído não é dado desconhecer que a política dos velhos clãs está em extinção.

A pergunta do repórter Leonêncio Nossa, da Agência Estado, faz todo o sentido principalmente se lembrada a opinião do mesmo Lula há alguns anos sobre o aliado de hoje.

Dizia ele que Sarney representava o atraso e a corrupção. Hoje é sinônimo de evolução política.

Nada de mais: Lula disse o mesmo de Collor que disse o mesmo de Sarney para se eleger seu sucessor. Hoje estão todos juntos a pretexto da governabilidade.

Agora, difícil mesmo é saber onde está o preconceito que o presidente acusou na fala do repórter. Foi preciso que a governadora Roseana Sarney atalhasse para colocar-se como alvo por ser mulher.

Ora, ora, então ficamos assim: qualquer crítica debita-se à conta de um preconceito – qualquer um, mesmo que não se possa identificá-lo – e está resolvido o problema.

Ainda que alguns “preconceitos” tenham acabado na polícia ou no Judiciário. Ou em ambos.

Sarney, Roseana e Lula estão juntos agora!!!


Essa é a história do oportunismo do Sarney Pai no Maranhão, agora a sua filha Roseana Sarney está seguindo os passos do pai.

Lula deve tá com o rabo muito preso pra aguentar isso.

O principal espião de Lula no governo Dilma já especula sobre a volta do verdadeiro chefe

Reinaldo Azevedo

Ao comentar anteontem a psicopatia política de Lula, desentranhei o sentido nem tão secreto das expressões “herança maldita” e “herança bendita”. Empregada a primeira para designar o governo FHC, servia a dois propósitos conjugados:

1) se as coisas desandassem, a culpa seria do antecessor;

2) se as circunstâncias sorrissem, como sorriram, os méritos seriam atribuídos a Lula.

A segunda expressão tem o sentido espelhado em relação à primeira, mas com o mesmo propósito, que é enaltecer o Babalorixá de Banânia:

1) caso o governo Dilma seja bem-sucedido, Lula lhe terá deixado uma base formidável; 2) caso naufrague, a responsabilidade será inteiramente dela (ou da economia mundial), e o demiurgo virá, então, para nos salvar.

Lula já negou, para incredulidade geral, que vá tentar a volta. Ele próprio empregou o verbo “desencarnar” para se referir à necessidade de o espírito de presidente da República abandonar o seu corpo e migrar para o de Dilma Rousseff. Mais: diz ter aprendido que ex-presidente atrapalha e que pretende ser um ex “como nunca antes na história destepaiz…” Vai apenas assar coelhos - e não adianta, leitor, torcer para que vá caçar sapo.

Não obstante tanta disposição para o decoro, a nata do primeiro escalão de Dilma é mais pró-Lula do que o governo do próprio. Com algum exagero, sim, mas que chama a atenção para a essência da questão, pode-se dizer que Dilma está cercada por um grupo de espiões lulistas. Ao menor sinal de desarranjo da equação imaginada pelo chefe, eles dariam o sinal de alerta: Gilberto Carvalho (secretário-geral da Presidência), Antônio Palocci (Casa Civil), Guido Mantega (Fazenda), Miram Belchior (Planejamento). Todos aí certamente respeitam o cargo da presidente, mas não há, no grupo, um só admirador de Dilma ou que a tenha como líder. Ela será, quando muito, uma chefe.

As coisas vão se cumprindo mais ou menos como o imaginado por Lula. Quando foi buscar uma sem-voto para fazer dela candidata, tinha claro que estava construindo uma obra. Cheguei a chamá-lo de “Pigmaleão da política”, o que deu vida a uma estátua. Ele só não está exatamente apaixonado pela sua criação, como no mito. Ela é uma peça de seu xadrez político: tinha de entregar o poder a alguém que não fosse lhe fazer sombra na máquina partidária, que controla sindicatos, estatais, fundos de pensão etc. Ela governa, mas ele manda.

Durante um bom tempo, ouviremos falar do “estilo Dilma”; do seu “pragmatismo em contraste com a intuição de Lula”; de sua maior propensão à “racionalidade” ao tomar uma decisão, enquanto ele seria mais “emotivo”, essas coisas. Esses exercícios que perscrutam a alma da personagem da notícia, suas intenções secretas, seus receios íntimos, suas ambições etc. migraram das antigas revistas femininas para a cobertura política e resultam nos tais “perfis”, salpicados de psicologices e sociologices. Recorrendo à livre interpretação, repórteres e colunistas situam o texto na fronteira entre o jornalismo e a literatura, com boas doses, portanto, de ficção. E a Dilma independente, com marca distintiva, que pode dissentir de forma importante do PT, é uma dessas criações.

Ontem, Gilberto Carvalho, atual chefe de gabinete da Presidência e futuro secretário-geral, desandou a falar, acreditem, sobre 2014, a sucessão de… Dilma Rousseff!!! Não fosse o PT o que é, não fosse Lula quem é, não estivesse Dilma onde está justamente porque um é o que é, e o outro é quem é, deveríamos ficar um tanto espantados. Mas não há mesmo motivo para isso. Aquele escalado para ser o braço-direito da próxima presidente comporta-se como porta-voz do atual, especulando mais sobre o futuro dela do que sobre o futuro dele. Na ordem normal das coisas, é um despropósito. Mas ela não chegou lá porque se tenha cumprido a ordem normal: sem Lula, não teria se elegido vereadora em Cochinchina do Mato Dentro.

Carvalho concedeu uma entrevista à jornalista Vera Rosa no Estadão deste domingo. E foi indagado sobre a eventual volta de Lula em 2014. A única resposta ética, que respeita a figura institucional da presidente eleita, é esta, com variações de palavras: “Não faz sentido tratar disso agora; vamos nos esforçar para fazer um grande governo, e a presidente Dilma tem o direito constitucional de pleitear a reeleição”. E acabou! Ocorre que Dilma não é chefe no partido; Dilma não é nem será chefe de Gilberto Carvalho; Dilma não será chefe da Presidência. A menos que tente virar a mesa, o que, creio, não fará. Lula vai voltar? Eis a resposta de Carvalho:

“Ele não planeja nem voltar nem não voltar. Vai depender muito do que vai acontecer. Uma coisa é um governo Dilma bem-sucedido, e outra, com dificuldades. Uma coisa é ele articular um papel internacional muito mais amplo ou não. Tudo é possível. Agora, ambição automática de voltar não existe”.

Ponto final! Dilma está sendo testada pelos petistas na função de presidente da República, cargo que pertence a Lula. Uma única coisa é certa: ele não será professor da Sorbonne. Pode retomar seu “trabalho” no Instituto da Cidadania. Um empresário já busca a sede para o futuro Instituto Lula. O Grande Timoneiro expressa ainda o desejo de se dedicar ao combate à fome na África e à mobilização em favor da reforma política no Brasil. Tudo será feito para que ele se mantenha no noticiário, deixando evidente quem continua no comando. Adicionalmente, o recado também vai para as oposições: “Torçam para o governo Dilma dar certo; nesse caso, vocês a enfrentam nas urnas; se der errado, terão de enfrentar Lula”. Na entrevista de Gilberto Carvalho ao Estadão, lemos este trecho:

[Lula]Cobra resultados?
Cobra. E sem misericórdia. Mas, ao mesmo tempo, é o cara que dois minutos depois já esqueceu aquilo e é superafetuoso. Tem um episódio que nunca vou esquecer na minha vida.

Qual?
Foi quando eu fui exposto, na CPI dos Bingos (em 2005), por causa da questão de Santo André. O presidente sabia da maldade de tudo aquilo, um jogo político, mas podia ter se livrado de mim. E houve um dia em que teve aquela acareação com os irmãos do Celso Daniel (prefeito assassinado de Santo André). Lula ia viajar às 18 horas. Eu cheguei de volta do Congresso lá pelas 19 horas e ele estava na minha sala me esperando. Atrasou a viagem, passou a mão na minha cabeça e falou: “Gilbertinho, você não tem uma cachacinha pra gente tomar aí, não?” Um cara desses você morre por ele. Sou um privilegiado.

Encerro
Como se nota, já estamos no terreno da idolatria, o que, não custa lembrar ao muito pio Carvalho, é pecado!

Lula viaja na maionese ao classificar de “tentativa de golpe” contra ele o golpe, este sim, contra as instituições que foi o Mensalão

Ricardo Setti, Veja online



Amigos do blog, é inacreditável que o presidente Lula, com a maior cara de paisagem, continue dizendo que houve uma “tentativa de golpe” contra ele em 2005, quando o país ficou sabendo que havia um gigantesco esquema de dinheiro sujo destinado a comprar apoios ao governo no Congresso.

Em entrevista que concedeu a rádios comunitárias, o presidente, a certa altura, deitou a seguinte falação, sem nunca identificar quem são os misteriosos “eles”, seu tradicional inimigo, e insinuar um “golpe” sem proferir a palavra:

– Tentaram fazer comigo o que vocês viram em 2005 e só não foram mais adiante porque eles tinham medo da minha relação com a sociedade brasileira e eles não sabiam o que poderia acontecer neste país.

Mais tarde, numa espécie de solenidade de despedida dos integrantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Lula soltou a seguinte pérola:

– No auge da crise de 2005 — eu nunca tinha falado isso — mas naquela tentativa de golpe, vocês permaneceram no Conselho. Vocês não misturaram o trabalho que estavam fazendo para o Brasil (sic).

Tentativa de golpe? Ué, mas eu, como muita gente, achava que quem estava corroendo as instituição eram pessoas como José Dirceu (cassado pela Câmara dos Deputados), José Genoino, João Paulo Cunha, Marcos Valério…

Se era tentativa de golpe, por que será que o procurador-geral da República, como chefe do Ministério Público, guardião da lei, não foi atrás dos “golpistas”, mas processou três dezenas de pessoas pela bandalheira do mensalão — inclusive o que classificou como o “chefe da quadrilha”, o então chefe da Casa Civil, José Dirceu?

Mais ainda, se aquilo foi um golpe, por que Lula pediu publicamente desculpas ao país, em discurso canhestro, em que se apresentou trêmulo, pálido, sem saber onde olhar — como já ressaltei em post anterior? (Confira o vídeo abaixo).

Discurso de Lula sobre o mensalão - 12/09/2005
Pronunciamento do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura da reunião ministerial




O presidente, ao tocar nesse assunto, uma vez mais faz o que sempre fez em relação ao assunto: viaja, navega, desliza na maionese.

A guerra que não vai acabar

João Ubaldo Ribeiro - O Estado de São Paulo

Ao que parece, o ser humano (quase escrevo "serumano", neologismo que, quem sabe, pode vir a ser adotado, pois outro dia ouvi na TV que um casal era "dois serumanos") precisa, pelo menos de vez em quando, alterar sua percepção da chamada realidade, mexer com a própria mente e as emoções. Prisioneiro de seus cinco limitadíssimos sentidos, não consegue perceber, em condições normais, aquilo que suspeita ou sabe existir além deles. E quer sair da prisão, quer sensações que ordinariamente não estão a seu alcance. Outra necessidade, que corre paralela, é alterar o comportamento habitual e quem for tímido tornar-se extrovertido, quem for melancólico tornar-se alegre, a moça que hesita em dar resolver dar e assim por diante.

Para obter esses estados alterados de percepção e comportamento, o famoso ser humano não usa somente drogas. Muitos lhes devotam aversão ou medo e recorrem a vias diferentes. Se forem poetas, poetam; se não forem, embarcam na poesia pelas mãos dos poetas. Ou veem o mundo pelos olhos dos pintores e fotógrafos. Ou meditam, ou contemplam a natureza, ou ouvem música, esta última considerada por alguns tão potente que Platão, por exemplo, a baniu de sua República. Aliás, não falta quem condene a música, ou certos tipos de música, por crer que ela induz à depravação e à expressão de temíveis baixos instintos. E, como as experiências com esses alteradores da consciência não são excludentes entre si, o ser humano desfruta de várias delas, entrando no que se designa genericamente como "barato".

Os baratos, de mil e uma formas e em mil e uma nuances, podem ocasionar diversos tipos e graus de transtorno, não só em quem os experimenta como naqueles que com este se relacionam. Não há de ser outra a razão por que tantos deles são proibidos e têm o comércio, ou mesmo uso, das drogas que os causam punido até com a morte. Não obstante, com toda a repressão, as drogas proibidas continuam a ser vendidas e existe muita gente que acha que seu barato vale o risco de uma longa prisão ou de execução. Não vem ao caso especular sobre as razões para isso, mas cabe um raciocínio econômico singelo: é fenômeno universal a oferta aparecer assim que aparece a demanda. Havendo nariz para cheirá-lo, haverá pó.

Ou seja, enquanto existir demanda, existirá quem forneça drogas. Não há nenhuma novidade nesta constatação, mas a guerra ao narcotráfico, contrariando todas as evidências, continua a tentar neutralizar a oferta e nada faz quanto à demanda. Esta jamais deixará de existir, mas pode, por uma fração mínima do que se gasta em repressão, ser razoavelmente controlada. Então por que será que verdade tão patente é descartada? Por que será que se continua a mover essa sangrenta guerra, tão vã e, sobretudo, tão dispendiosa?

Porque não interessa vencê-la e muito menos acabá-la. Quem pensa que interessa somos nós, o otariado. Não me refiro a indivíduos, mas ao que pode ser chamado de "sistema". Existe um vastíssimo sistema relacionado à repressão ao narcotráfico, composto não só pelas polícias genéricas e especializadas, mas por todas as estruturas criadas para colaborar nessa repressão. É a lógica de sua existência, através da qual têm sido mantidas e são diuturnamente ampliadas. Nacional e internacionalmente, esse aparato, que envolve desde ministérios e forças armadas a polícias de aldeias, tem como premissa que se deve combater um inimigo que se sabe que nunca será vencido, combate este com um número cada vez maior de frentes e custos cada vez mais elevados.

Claro, não é apenas esse mostrengo, cujo aparato intrincado e labiríntico não dá para ser inteiramente mapeado, que resiste, funcional e corporativamente, à mudança. O interesse sistêmico em manter-se tem que ser levado em conta, mas ainda maiores que ele são os interesses dos fornecedores, diretos e indiretos, de equipamentos e serviços. Corre muito dinheiro na guerra contra o tráfico e cairá o queixo de quem apurar na ponta do lápis o custo total apenas da operação do Alemão e sua manutenção com tropas federais. Os produtores e vendedores de armamento têm vivido grandes dias no Rio de Janeiro, o mercado só tende a ampliar-se, até mesmo com a propaganda.

Muito mais dinheiro ainda é movimentado pelo tráfico, que repassa seus custos ao consumidor, como é a prática empresarial de praxe. Se não houvesse repressão, esses custos baixariam vertiginosamente. Quem perderia? Não somente os vendedores de armas e equipamentos bélicos, mas os corruptos de todos os níveis e quilates. Para quem pensa que isso é coisa de Terceiro Mundo, lembre-se a corrupção policial nos Estados Unidos, durante a vigência da Lei Seca. E, somente em Nova York, os casos de corrupção policial envolvendo drogas fazem parte de um prontuário considerável. Em alguns países, a corrupção nem ao menos tenta manter as aparências, como muitas vezes ocorre aqui, mas é institucionalizada e contamina toda a cadeia a que se vincula.

A corrupção está disseminada em toda parte, não somente no sistema brasileiro, como no do mundo inteiro, em maior ou menor grau. Se não houver tráfico e a guerra santa contra ele, onde ficarão os ganhos dos corruptos, que não terão por que exigir comissões, subornos e propinas? É tolerável perder essa fonte de renda, em muitos casos milionária? Receio que não, e o mercado continuará a funcionar esplendidamente, para a felicidade harmoniosa de seus agentes, num entrelace delicado, em que o traficante agradece à repressão por lhe proporcionar um ramo de negócios lucrativo, a repressão e seus instrumentos agradecem ao traficante por fazê-los prosperar e o corrupto agradece a ambos pelo rico dinheirinho a ser malocado em contas secretas. "O mundo é perfeito", sempre diz meu amigo Benebê, em Itaparica. Isso mesmo.

Muito acima das nuvens

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, Blog do Noblat

Já calculava que o presidente Lula fosse ter um fim de mandato angustiado e triste. Não por conta do povo que o adora, mas por conta do vazio de sua vida sem o poder.

Ele está nas alturas há tanto tempo e vem de tal modo alçando vôos cada vez mais altos, que há muito furou a atmosfera terrestre e lá sei eu em que camada do espaço está atualmente.

Não deve ser fácil sair da situação em que ele está e voltar à terra. Mormente quando aqui em baixo ele não tem nada para preencher suas horas.

É homem ainda moço para se satisfazer com a vida de avô, por exemplo. Vem de uma vida muito agitada para apreciar os confortos e o carinho de uma rotina caseira. Isso não faz seu gênero, já se vê.

Não tem, que saibamos, nenhum hobby. Não me consta que seja cinéfilo, ou freqüentador de teatro. Não gosta de ler, segundo suas palavras. Não viaja pelo prazer de conhecer novos mundos e visitar cidades e monumentos. Seu prazer ao viajar, é bem outro.

Seu poder foi tão forte e tão prolongado – desde a fundação do PT Lula tem a força do poder – que durante algum tempo ele carregará com ele a aura de poderoso e será tratado com toda a deferência.

Sua herdeira e sucessora, por mais grata que seja ao padrinho, aos poucos irá vestir o hábito dos grandes desse mundo e se tornará um deles, o que a transformará, assim como o transformou em 2003.

E pouco a pouco, até sem perceber, ela se afastará da influência dele para gerir as coisas ao seu modo.

Assim é com todos os que se despem do poder e é preciso que a pessoa tenha uma vida interior muito rica e uma estrutura emocional equilibrada para não se deixar abater. Ajuda, e muito, uma intensa atividade intelectual.

E ter amigos. Dos bons, dos de verdade.

Lula conhece muita gente, uma multidão. Mas nas posições que ocupou, terá feito verdadeiros amigos? Serão sinceras as manifestações de afeto que recebe?

Tudo isso me passa pela cabeça ao ver as reações do presidente nos últimos meses e, sobretudo, após as eleições das quais saiu mais vitorioso que a eleita.

A declaração para justificar a compra de outro avião, francamente, envergonha todo o Brasil. Foram palavras que nunca deveriam ter sido ditas e que só o foram porque, como todo astronauta sabe, o ar muito rarefeito deixa as ideias meio obnubiladas.

Ontem, dia 2, ele deu uma entrevista às rádios comunitárias e entre outras coisas, disse: "há uma briga histórica que eu considero um equívoco: os meios de comunicação confundirem uma crítica que qualquer pessoa faça a eles como um cerceamento de liberdade de imprensa. É a coisa mais absurda, mais pobre do ponto de vista teórico que conheço é alguém achar que não pode receber crítica, que são intocáveis". (Estadão.com, 2/12)

A frase em si já é um espanto. Esse “do ponto de vista teórico” só perde para “o preconceito” diagnosticado em quem criticou seu grande amigo Sarney. Quem ali naquela festividade no Maranhão se achava intocável? O representante da grande mídia, ou o presidente da República?

A “briga histórica” que ele quer vencer eu sei qual é: que nossa Imprensa só se refira ao “escândalo do mensalão” como “aquela infame tentativa de golpe contra o presidente Lula”!

E à compra do avião que não precisa fazer escalas como “necessidade imperiosa para a segurança da presidente Dilma”.

E que nunca, jamais, em momento algum, a imprensa diga que dia 1º de janeiro começa o terceiro mandato de Lula. Essa, eu também adoraria não ler. Mas desde que fosse a verdade verdadeira.

De qualquer forma, meus votos de boa aterrissagem, presidente. Porque ela virá, não tenha dúvida...

Avião presidencial

Folha de São Paulo, Editorial

O Brasil negocia em condições reservadas a compra de um novo avião presidencial para substituir o Aerolula. A intenção do governo de adquirir a aeronave foi revelada pela Folha, na segunda-feira.

O equipamento pode custar aos cofres públicos, a depender do modelo escolhido, até R$ 500 milhões -cinco vezes o valor gasto com o atual, em 2005.

Faz pouco tempo, como se vê, que o Sucatão, como foi apelidado o Boeing-707 que servia à Presidência no governo anterior, foi substituído pelo Airbus-319 executivo.

Trocá-lo por outro avião depois de período tão curto seria não apenas um atestado de incompetência do Executivo, mas uma sinalização equivocada, de desperdício de recursos, num momento em que as finanças públicas exigem forte ajuste.

Assim que o assunto veio a público, o presidente Lula fez questão de sair em defesa da troca, sem cerimônia ou preocupação com valores: "Não tem por que não comprar. Acabou aquela bobagem do Aerolula. Acho que o Brasil precisa de um avião com mais autonomia para o presidente".

Num evidente exagero, o mandatário argumentou que o Brasil "passa humilhação" pelo fato de a aeronave precisar de escalas para conseguir alcançar alguns destinos internacionais.

A autonomia do avião presidencial é de aproximadamente 8.500 km, o que não garante uma viagem em condições seguras entre Brasília e Londres, por exemplo.

Já o Airbus-330MRTT, cuja aquisição está em estudo, pode voar 12.500 km sem necessidade de reabastecer. Cotado como alternativa, o Airbus-A340 executivo, alcança 17 mil km.

Além da maior autonomia, as aeronaves em tela ofereceriam mais espaço, em benefício do séquito de convidados que costuma atravessar os ares na companhia presidencial. O Aerolula transporta 30 pessoas, sendo 10 delas na área VIP - número que poderia ser quadruplicado.

Se a compra do Aerolula foi mal planejada, que o governo arque com as consequências - bem menos graves, aliás, do que insinua o presidente.

Se não há risco à segurança, que se mantenha o atual equipamento. Há situações de fato humilhantes no país a pedir solução - e não se comparam às prosaicas escalas do Aerolula.

Poeira estelar e forças de paz da guerra

Arlindo Montenegro, Alerta Total

É muito comum que um assunto indigesto para os governantes seja logo arquivado e substituído por notícias espetaculares, "científicas" na maioria das vezes, de interesse vital para congregar todas as atenções, locais ou mundiais. Diante de dificuldades internas intransponíveis, o governo de Mr. Obama mobilizou a Nasa, para lançar a notícia que chegou ao mundo como "descoberta de vida extraterrestre"!

Erro de interpretação? Ou interpretação deliberada para criar o sensacionalismo? A metodologia da propaganda já é conhecida há muito tempo para formar a opinião pública. Isto é, manobrar, meter uma opinião na cabeça da gente, associando informações "científicas" com ilusões, que nem aconteceu com o aquecimento antropogênico do Al Gore.

A Royal Society acaba de quebrar a bola de cristal e dar uma marcha à ré: não dá para saber como nem quando o clima vai mudar... no futuro. Isto um ano depois do fracasso da Conferência sobre o Clima em Copenhague, provocado pelas denúncias da fraude, feitas por centenas de cientistas sérios do mundo inteiro, como o brasileiro Dr. Molión.

As verdades emergem nas ainda existem "formadores de opinião", ingênuos ou sacripantas, defendendo as mentiras da Onu-Al Gore espalhadas pelas escolas do mundo inteiro com filminho que parecia "verdade". Hoje, graças à liberdade que a internet proporciona, as informações históricas são revistas. E as "verdades" se tornam incovenientes para os governantes de estados cada vez mais poderosos.

Verdadeira é a guerra que desmonta vidas e cérebros, que desmonta culturas e persegue religiões, impõe mudanças comportamentais e ridiculariza crenças, valores e atitudes, que nos conduziram positivamente, para resistir e subsistir no campo minado pelas armadilhas da velha-"nova ordem mundial".

O "telefone" direto entre a Casa Branca e o Kremlin, os botões que acionariam os dispositivos nucleares para destruir o mundo, foram descartados e a guerra se fragmentou, deixando de ser um evento distante, para ameaçar e matar em qualquer cidade, bairro, favela ou povoado interior, com a venda ilegal de armas e drogas.

Os exércitos antes mobilizados para defender as instituições "democráticas" ou "comunistas", para defender a "democracia" contra as ameaças à liberdade, mudaram o foco objetivo: agora, os velhos "instrumentos" preparados para a guerra e para a defesa da soberania, para a conquista ou defesa territorial, são mobilizados como "forças de paz" contra narco-traficantes locais.

Força de paz para fazer a guerra! Bem orwelliano! É o ambiente dos "conflitos gerenciados", pelos que implantam a nova ordem mundial. Com a vantagem do controle que têm sobre a informação que confunde e estimula a opinião de cabresto. Já tramam incriminar quem denuncia e adverte com provas materiais, os propósitos "secretos" e a desfiguração da história.

Ontem mesmo, no Congresso Nacional, um deputado denunciava o Código Florestal, fundamentado nas crenças implantadas pela fraude do aquecimento antropogênico e semeadas por ativistas de ongs internacionais, em defesa de interesses externos. O tal código impõe "multas exorbitantes e interdições arbitrárias" desmontando a agricultura num país que poderia estar produzindo o dobro do que produz.

Naquele instante, o Congresso homenageava o líder e ativistas do MST, movimento marginal, obediente às orientações revolucionárias do Foro de São Paulo, intimamente ligado ás Farc, que abastecem o mercado brasileiro com o pó, que infecta as narinas e os cérebros de muitos homens que decidem e outros associados ao comércio infame, aqueles que o Prof. Olavo de Carvalho define como os barões da droga.(http://www.olavodecarvalho.org/semana/101201dc.html).

O Congresso Nacional então acredita que a co-responsabilidade do MST com o contrabando de armas e drogas das Farc, do Perú, da Bolívia, como já sabem os serviços de segurança, representa "um serviço de relevância para a sociedade", merecendo então a Medalha do Mérito Legislativo!!!

Que o diga a ONU, orientando seus servidores para a desmobilização de serviços prestados às "comunidades" cariocas, mobilizando os planos de emergência - "calling tree e o Standard Operating Procedures" - para a segurança nas mobilizações, no terreno onde a guerra assimétrica continua. Ainda não foi preso nenhum grandola do tráfico. Muito menos algum "barão". O que há por baixo do pano, se intui, mas não se sabe ao certo, reside nos foros econômicos secretos.

O guizo no pescoço

Merval Pereira, O Globo

A eleição presidencial mostrou que a oposição tem um nicho eleitoral de cerca de 40% desde 2002, quando foi derrotada pela primeira vez pelo PT. Um nível bem acima do que o PT sempre teve antes de se decidir a ampliar suas alianças para chegar ao poder. Até 2002, a esquerda não passava de 30% do eleitorado brasileiro.

Mas para ampliar seu eleitorado a fim de fazer frente aos governos petistas, a oposição precisará para início de conversa aumentar sua penetração no norte e nordeste do país, regiões que já foram dominadas por partidos conservadores como o PFL, atual DEM, e hoje são fontes inesgotáveis de votos para os petistas.

Mas precisará, sobretudo, unificar seu principal partido, o PSDB. Como se tem visto nas últimas três eleições, qualquer que seja o candidato a presidente, não tem chances de vencer se não ganhar em Minas.

Mas também não será eleito sem ter o apoio de São Paulo. E o PSDB, embora esteja no governo já há algum tempo nos dois maiores colégios eleitorais do país, não consegue se entender politicamente.

Pior: há em curso uma disputa regional que leva a que essa cisão partidária se transforme em um obstáculo quase insuperável para a organização de uma candidatura viável em 2014.

Terminada a eleição presidencial, ficou a sensação entre os tucanos paulistas de que a máquina do partido em Minas não funcionou como deveria, a mesma sensação que já ficara nas eleições de 2002 e 2006, quando Lula venceu Serra e Alckmin em Minas da mesma maneira que Dilma venceu Serra desta vez.

Na raiz dessa atuação, há a impressão de que o mote do principal líder tucano de Minas, Aécio Neves, de que existe uma paulistização da política dentro do PSDB nacional, criou em Minas um sentimento de rejeição aos candidatos a presidente vindos de São Paulo, como Serra e Alckmin.

De fato, a base da campanha de Aécio para candidato à presidência da República era a defesa da importância política de Minas, que já estaria na hora de dar o candidato do partido depois que Fernando Henrique, Serra e Alckmin se candidataram, todos políticos paulistas.

E depois da terceira derrota seguida, o diretório regional de Minas começa a reivindicar a liderança do processo de reorganização partidária, através de seu presidente o deputado Nárcio Rodrigues.

A declaração dele de que, depois de tantos paulistas, “agora é a nossa vez”, referindo-se à candidatura de Aécio Neves à presidência em 2014, abriu uma guerra nos bastidores do partido.

Nem Aécio nem Serra dão declarações oficiais com queixas recíprocas, ao contrário, defendem a unidade partidária.

Mas nos bastidores, rola um clima de tensão até que se definam as posições em que cada um vai jogar nos próximos anos.

Aécio, eleito senador, terá um papel de relevância no Congresso e já começou a mostrar suas habilidades de costurar alianças políticas congressuais tanto com o PMDB quanto com o PSB.

A unificação de ações políticas entre PSDB e PSB seria uma alternativa perfeita, com os tucanos dominando o sul e o sudeste e o pessebistas atuando no nordeste, se não fosse a resistência dos tucanos paulistas à aproximação com o partido de Ciro Gomes.

O PSDB paulista nega ser hegemônico, e cita que os quatro principais cargos partidários estão com tucanos de outras origens: o presidente, Sérgio Guerra, é pernambucano; o secretário-geral, Rodrigo Castro, é mineiro; o líder na Câmara João Almeida é baiano e o líder do Senado, Arthur Virgilio é amazonense.

O candidato à presidência derrotado, José Serra, está começando a reorganizar sua vida pessoal, vai dar aulas e palestras para ganhar a vida, mas também sua atuação política.

Ele pretende continuar “no ativismo”, como tem definido, e fazendo uma linha de oposição mais agressiva, como quando assumiu a presidência do PSDB em 2003, após derrota para Lula.

No discurso inaugural ele classificou o PT de “bolchevismo sem utopias”, ressaltando o lado patrimonialista da atuação petista.

Ele nega que tenha tentado se aproximar de Lula no início da campanha, quando expôs sua foto com o presidente no programa eleitoral, atribuindo a essa aparição uma importância muito menor do que seus próprios eleitores deram, negativamente.

Mas não parece inclinado a tentar voltar à presidência do partido, e também rejeita a idéia de que possa vir a se candidatar à Prefeitura paulista novamente.

Mas quem conversa com ele sai convencido de que aquelas palavras de despedida no discurso da noite da derrota – “A luta continua. Não é um adeus, é um até logo” – não são mera retórica de palanque.

O que criará um clima de enfrentamento com o senador Aécio Neves, tido como “a bola da vez” por seus correligionários.

O miado do leão

Carlos Brickmann

Surpreenda-se: o ministro Samuel Pinheiro Guimarães é antiamericano! Pasme: os países árabes temem mais o Irã do que Israel! Boquiabra-se: o Governo russo é dirigido em dupla pelo primeiro-ministro Vladimir Putin, o principal dirigente político do país, e pelo presidente Dmitri Medvedev, seu aliado menos importante (e, nos meios diplomáticos, são conhecidos como Batman e Robin).

Até agora, os documentos vazados pelo Wikileaks, e que provocaram tanta expectativa, são como uma Ferrari com motor de carro chinês: aparentavam muito mais do que realmente são. Os americanos espionam, claro, todos os dirigentes estrangeiros que podem (os russos, obviamente, também; e os franceses, e os ingleses, e os israelenses, e os chineses, e os alemães - o Serviço Secreto da antiga Alemanha Oriental, do temível Markus Wolf, sempre foi um dos mais eficientes do mundo). Carla Bruni, bonita e charmosa, é um reforço e tanto à habilidade diplomática de seu marido, o presidente francês Sarkozy. A presidente argentina Cristina Kirchner ouvia muito os conselhos de seu falecido marido, o ex-presidente Néstor Kirchner. O presidente Lula é corinthiano. E não é preciso acompanhar vazamentos de informações para saber essas coisas.

O idealizador e comandante do Wikileaks promete novas e sensacionais revelações, inclusive referentes aos negócios de um gigantesco banco internacional. Pode ser. Mas as novas e sensacionais revelações sobre o Brasil, que poderiam até ter influído no resultado das eleições, essas não apareceram até agora.

O rugido do gato
Não se impressione com a pressão do PMDB sobre a presidente Dilma Rousseff para obter mais cargos. O PMDB é um partido grande, mas tem grande dificuldade de atuar em conjunto (está dividido até entre bancada na Câmara e bancada no Senado). A pressão vai continuar, mas não a ponto de colocar em risco a aliança com o Governo. E as reclamações continuarão sendo feitas, mesmo que todos os cargos governamentais sejam postos à disposição do partido. O PMDB, como define um grande empresário, é como um gato: mia e goza.

O rosnado do silêncio
É ensurdecedora a quietude de Sérgio Cortes, O Breve, aquele que foi dormir ministro da Saúde e acordou como secretário do Rio, e olhe lá. Não falou nada. Deve ser terrível tornar-se famoso como o que não foi sem nunca ter sido.

O troar das turbinas
O BAFO (Brazilian Air Force One), ou AeroLula, um Airbus 319 comprado zerinho, decorado com capricho, com poucos anos de uso, feito na medida para o presidente Lula, parece pouco para a presidente eleita. Pede-se agora um jato bem maior, de quatro motores, capaz de voar sem escalas a uma distância muito superior, que deve custar algo como cinco vezes o preço do anterior. É bom: pode levar a presidente para mais longe de nós. E justo: é o cumprimento de uma antiga promessa. Ao assumir o Ministério da Defesa, Nelson Jobim determinou o aumento do espaço para passageiros nos aviões nacionais. Começou por cima.

O falsete dos pelinhos
O deputado federal Jair Bolsonaro, do PP do Rio, sugeriu aos pais que, se algum filho tiver alguma inclinação gay, deve apanhar o suficiente para desistir disso. Pois é, pois é. Já veio a resposta, na forma de fotos: o blog de Marli Gonçalves mostra que o deputado se depila - um hábito muito mais comum entre mulheres do que entre homens. Seguindo próprios conselhos de Sua Excelência, couro nele!

Uivando para a Lua
Os caciques do PSDB e do DEM se reuniram para renovar a oposição, preparando-a para competir em eleições presidenciais. Entre os caciques, Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB, Rodrigo Maia, presidente nacional do DEM, Geraldo Alckmin, governador eleito de São Paulo, e Aécio Neves, senador eleito de Minas. Todos concordam em entregar o comando da oposição apenas a políticos vitoriosos, não aos que a levaram à derrota neste ano.

Só que Sérgio Guerra comandou a campanha derrotada de Serra (e nem tentou se reeleger no Senado: optou pela Câmara, onde a eleição é mais fácil). Rodrigo Maia comandou a campanha derrotada do pai, César Maia, ao Senado. Aécio ganhou em Minas, mas Serra, seu candidato à Presidência, tomou uma surra por lá. Trabalhar só com vitoriosos não será uma tarefa tranquila para a oposição.

O bramir do futuro
José Serra prometeu não concorrer à Prefeitura de São Paulo em 2012. Serra poderia ter-se poupado da promessa: essa decisão, já a haviam tomado por ele.

O murmúrio da verdade
Nesta última quinta-feira, a Prefeitura do Rio começou a colocar placas de rua na Penha e no Alemão. Até agora, a população das favelas não tinha sequer como identificar uma rua. Se nem nome as ruas têm, se em todo o Alemão há no total duas escolas públicas, se a classe média só passa por lá para comprar seus bagulhos, se o poder público, quando sobe ao morro, vai com as armas apontadas e engatilhadas, que é que queriam da população: cidadania?

Os barões

Olavo de Carvalho, Mídia Sem Máscara

Já faz dez anos que o então principal traficante brasileiro, Fernandinho Beira-Mar, preso na Colômbia, descreveu em detalhes a operação em que trocava armas contrabandeadas do Líbano por duas toneladas anuais de cocaína das Farc.

Um leitor pede, gentilmente, que eu lhe diga quem, afinal, são os tão falados e jamais nomeados "barões da droga". Quem ganha com o crescimento ilimitado das quadrilhas de narcotraficantes e sua transformação em força revolucionária organizada, ideologicamente fanatizada, adestrada em táticas de guerrilha urbana, capacitada a enfrentar com vantagem as forças policiais e não raro as militares?

A resposta é simplicíssima: quem ganha com o tráfico de drogas é quem produz e vende drogas. O maior, se não o único fornecedor de drogas ao mercado brasileiro são as Farc, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. São elas, também, que dão adestramento militar e assistência técnica ao Comando Vermelho, ao PCC e a outras quadrilhas locais.

Já faz dez anos que o então principal traficante brasileiro, Fernandinho Beira-Mar, preso na Colômbia, descreveu em detalhes a operação em que trocava armas contrabandeadas do Líbano por duas toneladas anuais de cocaína das Farc. Também faz dez anos que uma investigação da Polícia Federal chegou à seguinte conclusão: "A guerrilha tem o comando das drogas" (v. http://www.olavodecarvalho.org/semana/031002jt.htm).

Se alguém ainda tem dúvidas, está gravemente afetado da Síndrome do Piu-Piu: "Será que vi um gatinho?"

Mas, dirá o leitor, não há políticos envolvidos na trama, gente das altas esferas, que dirige tudo de longe, sem mostrar a cara ou sujar as mãozinhas? Claro que há. Mas só são invisíveis a quem tenha medo de os enxergar. Para descobri-los, basta averiguar quem, na política, protege as Farc. Não preciso dar nomes: para avivar a memória, leia as listas de participantes do Foro de São Paulo, entidade criada precisamente para articular, numa estratégia revolucionária abrangente, a política e o crime.

Alguns ganham muito dinheiro com isso, mas nem todos, na lista, têm interesse financeiro direto no narcotráfico - o que não os torna menos criminosos. As Farc e organizações similares servem-lhes de arma de barganha, para criar o caos social, intimidar o inimigo e extorquir dele concessões políticas que valem muito mais do que dinheiro.

Quando a guerrilha está em vantagem, os políticos sublinham com as armas da retórica a retórica das armas, anunciando o advento de uma sociedade justa gerada no ventre do morticínio redentor. Quando a guerrilha está perdendo, usam o restinho dela como instrumento de chantagem, oferecendo a "paz" em troca da transformação dos bandos armados em partidos políticos, de modo a premiar a lista de crimes hediondos com a abertura de uma estrada risonha e franca para a conquista do poder.

São esses os barões. Não há outros. A parceria deles com o narcotráfico vem de longe. Começou na Ilha Grande, nos idos de 70, quando terroristas presos começaram a doutrinar os bandidos comuns e a ensinar-lhes os rudimentos da guerrilha urbana, segundo o manual de Carlos Marighela. Naquela época, os guerrilheiros e a liderança esquerdista em geral tinham um complexo de inferioridade: viam-se como uma elite isolada, sem raízes nem ressonância no "povo", em cujo nome falavam com um sorriso amarelo.

Por feliz coincidência, foram parar na cadeia numa época em que o filósofo germano-americano Herbert Marcuse lhes dera uma ideia genial: a faixa de população mais sensível à pregação revolucionária não eram os trabalhadores, como pretendia Karl Marx, e sim os marginais - ladrões, assassinos, narcotraficantes. Que parassem de pregar nas fábricas e buscassem audiência no submundo - tal era o caminho do sucesso. Quando as portas do cárcere se fecharam às suas costas, abriram-se para eles as portas da mais doce esperança: lá estava, no pátio da prisão, o tão ambicionado "povo". Sua função no esquema? Transmutar o reduzido círculo de guerrilheiros em movimento armado das massas revolucionárias.

Em 1991, o projeto, em formato definitivo, já vinha exposto com toda a clareza no livro Quatrocentos Contra Um, do líder do Comando Vermelho, William da Silva Lima, publicado pela Labortexto e lançado ao público na sede da Associação Brasileira da Imprensa, entre aplausos de mandarins da intelectualidade esquerdista que ali viam materializados seus sonhos mais belos de justiça e caridade.

Mais que materializados, ampliados: "Conseguimos o que a guerrilha não conseguiu: o apoio da população carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição, fumando e vendendo baseado. Futuramente, elas serão três milhões de adolescentes, que matarão vocês nas esquinas." Todo o descalabro sangrento que hoje aterroriza a população do Rio de Janeiro não é senão a efetivação do plano aí esboçado com a ajuda dos mesmos luminares do esquerdismo que hoje pontificam sobre "segurança pública".

O parágrafo seguinte não preciso escrever, porque já escrevi. Está no Diário do Comércio de 16 de outubro de 2009 (http://www.olavodecarvalho.org/semana/091016dc.html): "Mais tarde, os terroristas subiram na vida, tornaram-se deputados, senadores, desembargadores, ministros de Estado, tendo de afastar-se de seus antigos companheiros de presídio. Estes não ficaram, porém, desprovidos de instrutores capacitados.

A criação do Foro de São Paulo, iniciativa daqueles terroristas aposentados, facilitou os contatos entre agentes das Farc e as quadrilhas de narcotraficantes brasileiros - especialmente do PCC -, dos quais logo se tornaram mentores, estrategistas e sócios. Foi o que demonstrou o juiz federal Odilon de Oliveira, de Ponta Porã, MS, pagando por essa ousadia o preço de ter de viver escondido, como de fosse ele próprio o maior dos delinquentes, enquanto os homens das Farc transitam livremente pelo país, têm toda a proteção da militância esquerdista em caso de prisão e até são recebidos como hóspedes de honra por altos próceres petistas."

Mas também é claro que, entre esses dois momentos, os apóstolos da sociedade justa não ficaram parados: fizeram leis que dificultam a ação da polícia (o governador carioca Leonel Brizola chegou a bloqueá-la por completo), espalharam por toda a sociedade a noção de que os bandidos são vítimas e, a pretexto de combater o crime por meio de uma "política de inclusão", construíram nos redutos da bandidagem obras de infraestrutura que tornam a vida dos criminosos mais confortável e sua ação mais eficiente.

No meio de tanta atividade meritória, ainda tiveram tempo de estreitar os laços tático-estratégicos entre as quadrilhas de delinquentes e a militância política, articulando, nas reuniões do Foro de São Paulo, a colaboração entre as Farc e o MST, que hoje recebe da guerrilha colombiana o mesmo adestramento em técnicas de guerrilha que começou a ser transmitido aos presos da Ilha Grande nos anos 70.

Falar em "ligações" da esquerda com o crime é eufemismo. O que há é a unidade completa, a integração perfeita, uma das mais formidáveis obras de engenharia revolucionária de todos os tempos. Não espanta que empreendimento de tal envergadura tenha a seu dispor, entre os "formadores de opinião", um número até excessivo de colaboradores incumbidos de negar a sua existência.

A verdadeira herança maldita é a que inclui o naufrágio do sistema de segurança pública

Augusto Nunes, Veja online

Vivi muitos anos no Rio e mantenho com a cidade um sólido e tórrido caso de amor. Mas não sou malandro nem otário, o que me obriga a constatar que a ocupação do conjunto de favelas do Morro do Alemão não mudou, em sua essência, a realidade medonha. Foi animador contemplar a queda, em poucas horas, da fortaleza aparentemente inexpugnável instalada há tantos anos no coração das trevas, enfim conquistada pelas forças da lei. Mas o Rio deste começo de milênio ainda é Medellín no fim do século 20.

Pouco importa se aqui nenhuma quadrilha de narcotraficantes ou milícia formada por policiais bandidos exibe, isoladamente, as dimensões alcançadas em seu apogeu pelo Cartel de Medellin — uma das mais aterradoras organizações criminosas da história. Pouco importa se lá havia o Pablo Escobar que aqui não há — ainda. Somados, os pablos escobares que hoje governam centenas de favelas se transformaram num inimigo muito mais temível e brutal que o mítico chefão colombiano morto nos anos 90. Somados, os microcartéis que controlam os morros cariocas mobilizam um exército fora-da-lei maior e mais letal que o similar de Medellín. Somados, os bunkers fincados pela bandidagem em quase todas as 1.006 favelas do Rio compõem uma fortaleza muito menos vulnerável que qualquer edificação militar brasileira.

A invasão do Morro do Alemão, uma vitória evidente dos homens de bem, deve ser imediatamente reduzida a suas reais dimensões, sobretudo para impedir que as manifestações de otimismo e o clima de otimismo sejam logo substituído pela espécie de frustração que anuncia a rendição definitiva, a capitulação desonrosa. Vistas as coisas como as coisas são, o que ocorreu foi um louvável primeiro passo que, embora singularmente relevante, é sempre e só o primeiro passo. É apenas o início da caminhada extensa, arriscada e penosa.

Ao constatar que a mobilização da polícia estadual seria insuficiente para garantir a ordem pública, e que não dispunha de meios para enfrentar militarmente um inimigo com poder de fogo extraordinariamente superior, o governador do Estado solicitou ao presidente da República o envio de tropas das Forças Armadas. Aprovado pelo chefe de governo, o pedido foi encaminhado aos chefes do Exército e da Marinha, que cuidaram da montagem da operação em parceria com o comando da Polícia Federal e da secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Simples assim. O governador e o presidente agiram corretamente. Mas não fizeram mais que a obrigação.

Pois bastaram as cenas dos delinquentes em fuga, dos blindados arrebentando as pedras no caminho, da gente honesta do morro festejando a passagem das tropas para que ambos emergissem das sombras convenientes fantasiados de napoleão-da-favela. Ficaram ainda mais parecidos com napoleões-de-hospício. Com apenas 13 Unidades de Polícia Pacificadora em funcionamento, o governador atribuiu o desencadeamento da onda de violências ao pavor que incendeia a alma de um traficante quando topa com uma UPP pela proa. Como se não faltassem quase mil unidades do gênero. Como se a mera ocupação militar tivesse transformado o Morro do Alemão numa Avenida Delfim Moreira. Como se Cabral tivesse erradicado pessoalmente a corrupção policial endêmica.

Lula reapareceu caprichando na pose de marechal da vitória. “Eu até já tinha resolvido visitar o Morro do Alemão”, fantasiou depois de conferir se não havia nenhum espião das favelas ouvindo a bravata. “Pois agora é que vou mesmo, para conversar com o povo e cumprimentar os soldados”. Merecia ser presenteado pelos companheiros artistas com o uniforme completo de general da Banda de Ipanema. Pode também acabar aderindo ao interminável carnaval temporão de Nelson Jobim e dar as caras na zona conflagrada de farda branca, esporas e penacho. Com Sérgio Cabral fantasiado de ordenança, a dupla de novo louvará no palanque o segredo do sucesso agora estendido à segurança pública: a perfeita harmonicamente os governos federal, estadual e municipal.

Seria divertido se não fosse tão irresponsável, leviano e trágico. O governo municipal é só um espectador inerme das terras sem lei. A isso acabará reduzido o governo estadual se insistir na fanfarronice e considerar derrotado o inimigo que só perdeu uma batalha carregada de simbolismo. Os assassinos do Morro do Alemão estão em liberdade e nem lhes passa pela cabeça aposentar-se. E o governo federal é um colecionador de fiascos numa zona de guerra que sempre evitou. Lula vai completando oito anos no poder sem ter sequer esboçado um programa de segurança pública que mereça tal nome.

Os presídios de segurança máxima prometidos em 2003 ou ficaram na discurseira ou parecem hotéis com janelas gradeadas. A Força Nacional de Segurança é uma piada recorrente contada pelo presidente da República e pelo ministro da Justiça da vez. O Executivo nem sequer tentou estender os braços do Estado Democrático de Direito aos morros e a outras zonas de exclusão anexadas às imensidões territoriais dominadas pelo narcotráfico que têm no Rio (e em outras metrópoles) a face visível a olho nu. A face oculta inclui milhares de quilômetros de fronteiras que, desprotegidos, dão passagem às patrulhas de transportadores de drogas que abastecem os batalhões de distribuidores.

“O Rio vai chegar em paz à Olimpíada de 2016″, repetiu o governador Sérgio Cabral. O direito de viver em segurança não é um privilégio decorrente da escolha da sede dos Jogos, nem uma cláusula do contrato com o COI. É um direito bem mais antigo que a Olimpíada. É também uma imposição constitucional. Ganhar a guerra declarada pelos ditadores dos morros é uma urgência nacional não porque 2016 vem aí, mas porque o Rio está para o Brasil como Medellín esteve para a Colômbia. A guerra só será vencida com uma ofensiva ampla, articulada e séria envolvendo os três Poderes e todos os governos.

É preciso reincorporar os territórios amputados pelos bandidos ao mapa real do Brasil. Reincorporá-los já, a qualquer custo e sem palavrório. Os brasileiros sensatos nunca mereceram a conversa fiada, a lenga-lenga, as molecagens dos xerifes de palanque. Agora a discurseira e a enganação passaram da conta. Tornaram-se tão exasperantes quanto o barulho dos tiros no morro.

O máximo, o mínimo e o possível

Nelson Motta, O Globo

Com todo seu dinheiro e tecnologia, seus serviços de inteligência e armamentos, tropas bem preparadas, bem pagas e respeitadas pela população, as policias de Nova York e de Los Angeles não conseguiram conter o tráfico e o consumo de drogas, que de ano para ano vem aumentando.

Mas conseguiram diminuir drasticamente a violência urbana e os índices gerais de criminalidade, que, em Nova York, caíram nada menos do que 76% de doze anos para cá. E o tráfico? Continua crescendo, mas não tem poder, não manda nada, nem afeta a vida do cidadão comum. Quem quer se destruir sempre sabe encontrar os meios.

Nessas cidades, que estão entre as mais ricas e as maiores consumidoras do mundo, os traficantes têm medo da policia, fogem dela e jamais a enfrentam porque sabem que vão perder. E passar longos anos na prisão,sem celular, sem visitas intimas, sem liberdade condicional com 1/6 da pena cumprida. E pior: se for policial, vai apodrecer na cadeia, porque as penas são muito mais severas para os que usam a autoridade pública para o crime.

Mesmo com armamento pesado, que podem comprar livremente em qualquer loja, as quadrilhas de traficantes que abastecem esses ricos mercados não dominam sequer um quarteirão da cidade. Agem nas sombras e no submundo, vendem pela internet, pelo correio, por mensageiros, por infinitos esquemas que conectam a fome com a vontade de comer.

Já são quinze os estados americanos que, por referendos, liberaram a venda de maconha para “fins medicinais”. Basta se cadastrar com uma receita médica com diagnóstico de stress para comprar pequenas quantidades de maconha, plantada legal mente em pequenas propriedades fiscalizadas pela polícia. Os estados estão enchendo os cofres com os impostos de milhares de “bocas de fumo” legalizadas. E planejam investilos na prevenção e no tratamento de dependentes de drogas pesadas.

Não mudou nada, a criminalidade urbana não aumentou, e o tráfico continua vendendo cocaína, crack, ecstasy e uma infinidade de novas drogas sintéticas, de fácil produção e transporte, baixo risco e alta lucratividade. Enquanto isso, no Rio de Janeiro…

Maus costumes na montagem do ministério

O Globo, Editorial

Lula e o PT marcharam para três derrotas consecutivas em eleições presidenciais refratários a alianças mais amplas. Aprenderam a lição e, em 2002, ganharam a primeira, com José Alencar, um empresário mineiro nada revolucionário, como vice-presidente. No entanto, o avanço — a abertura a outras forças políticas e ideológicas — não se deu assentado na formulação de um projeto comum, com objetivos e programas bem discutidos e definidos.

Esta constatação ficaria evidenciada, em toda a sua dimensão, quando veio à luz a arquitetura do esquema do mensalão, engendrada na cúpula do PT e na Casa Civil daquele início de primeiro mandato, com José Dirceu no comando.

A unidade da bancada parlamentar governista estava sendo cimentada à base de pagamentos com dinheiro sujo bombeado de empresas estatais.

À medida que transcorria o governo ficava também evidente que Lula fizera mais do que um loteamento de cargos do primeiro escalão. Permitiu a criação de capitanias hereditárias, como no Incra/Ministério do Desenvolvimento Agrário, área doada aos chamados movimentos sociais.

No final, tudo deu certo para o presidente, pela clarividência dele em manter pilares da política econômica da Era FH e pela sorte de conviver com um histórico ciclo de crescimento mundial.

Pois esta preocupação exclusiva com a conquista de espaços na máquina pública, em meio a uma grande barganha em que a cessão de cargos deve corresponder a determinado número de votos no Congresso, volta a se repetir.

E no toma lá dá cá destaca-se o choque entre a gula do PMDB, já bem situado na Brasília de Dilma Rousseff com o cargo de vice, e a resistência do PT a ceder espaço ao aliado preferencial.

Os demais partidos da aliança vencedora transitam em torno desse leilão atrás de sobras. Como das vezes anteriores, nenhuma negociação em torno de um projeto estratégico para o país.

Assim, a presidente eleita procura se garantir com pessoas de confiança em cargos-chave ---- a chamada “cota pessoal” ----, e fica o resto para ser decidido no pano verde deste jogo. Assim, haverá um governo da cota pessoal, outro do PMDB, outro do PT, dos chamados movimentos sociais, e assim por diante.

Este é um método eficaz de tornar a máquina pública mais ineficiente do que já é. E custosa, pela maior permissividade com a corrupção, inerente ao modelo fisiológico de montagem de governo. Há fartas provas destas distorções na Era Lula. Os Correios são uma das mais reluzentes delas. Estatal considerada exemplar durante muito tempo, foi virada pelo avesso: passou a ser símbolo de corrupção, e a qualidade de seus serviços desabou. Consta que Dilma quer revitalizar a empresa. Prestará um serviço ao país.

O setor elétrico é outro exemplo. Nele, há o PMDB — e dentro do partido, o grupo de Sarney — e o PT. Resultado: o PT da Eletrobrás não se entende com o PMDB de Furnas, e há pelo menos uma concorrência para construção de hidrelétrica atrasada devido à briga.

É óbvio que os partidos vitoriosos na eleição devem estar representados em cargos executivos. Mas o preenchimento de vagas na máquina administrativa não pode apenas obedecer a critérios políticos e ideológicos.

Devagar com o andor

Celso Ming, Estadão.com

O Conselho Monetário Nacional e o Banco Central anunciaram na sexta-feira as duas primeiras providências destinadas a conter a expansão do crédito. O efeito colateral será o encarecimento dos financiamentos e, possivelmente, a redução do consumo. Em parte, devem ajudar os juros básicos (Selic) a dominar a inflação.

A primeira dessas medidas aumenta em 50% as necessidades de capital dos bancos para as operações de crédito por períodos de mais de um ano. Ou seja, ou os bancos terão menos interesse em esticar os prazos de financiamento; ou esse crédito ficará bem mais caro; ou, ainda, as duas coisas juntas.

(Foto: Dida Sampaio/AE) 
 MEIRELLES - Medidas prudenciais


A outra decisão impõe elevação de 50% nos recolhimentos compulsórios dos bancos, que, assim, terão à disposição menos dinheiro para emprestar.

O objetivo é reduzir os riscos de formação de bolhas financeiras que a farta distribuição de crédito pode produzir. Para justificar esse passo, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Aldo Mendes, explicou que o índice de inadimplência está subindo fortemente nos segmentos de crédito de três a quatro anos e nos de cinco a dez anos.

Ficou claro o objetivo de não atingir, pelo menos por enquanto, os financiamentos imobiliários, provavelmente porque o Banco Central não quer desestimular o programa Minha Casa, Minha Vida.

No entanto, essas operações com garantia hipotecária estão crescendo a alta velocidade, nem sempre atendendo à exigência de renda familiar proporcional ao valor do financiamento. É o que explica a enorme valorização dos imóveis urbanos. Por enquanto, não há sinais de formação de perigosa bolha financeira nas proporções das que deflagraram a crise nos Estados Unidos e na Irlanda. Mas, a continuar nesse ritmo, mais cedo ou mais tarde, as autoridades serão chamadas a arrochar também esse segmento do crédito.

São medidas prudenciais, avisou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. É outro jeito de lembrar que o santo é de barro e que é preciso seguir mais devagar com o andor. O setor mais atingido pelas restrições ao financiamento será o das vendas de veículos, um dos mais aquecidos no momento. As montadoras terão de lidar com três fatores que as obrigarão a reduzir a marcha: relativo saturamento do mercado interno; baixo apetite do mercado externo; e perspectiva de aperto dos cintos na administração das finanças públicas, o que deverá contribuir para um avanço mais moderado do consumo.

O aperto na área do recolhimento compulsório não veio apenas com o objetivo de complementar as decisões anteriores que restringem o crédito. Retiram definitivamente os estímulos ao consumo e à produção que haviam sido concedidos em 2008 e 2009 com o objetivo de dar mais flexibilidade ao País no enfrentamento da recessão imposta pela crise global.

Essas decisões têm de ser examinadas à luz da situação em que foram tomadas, ou seja, logo depois das eleições e imediatamente antes da última reunião do Copom da administração Lula, agendada para a próxima quarta-feira.

Na medida em que esperaram para que se fechasse o ciclo eleitoral, tiveram o cuidado de não criar obstáculos para a escolha da então candidata apoiada pelo governo, a nova presidente, Dilma Rousseff. Como foram tomadas antes da reunião do Copom, reforçam a percepção de que uma nova alta dos juros básicos, necessária para reduzir a velocidade da inflação, pode ser deixada para janeiro de 2011.

Confira



As cotações do ouro continuam lá em cima (veja gráfico), refletindo as turbulências do momento. Nem o dólar, nem o iene japonês, nem tampouco o euro passam segurança.

O tamanho do bolo. No final de junho, a carteira de investimentos (reservas) dos fundos de pensão do Brasil tinha R$ 489 bilhões em ativos. Desses, 62,8% correspondiam a aplicações de renda fixa; 29,6%, a renda variável (ações); 2,9%, a imóveis; e 2,6%, a empréstimos a participantes. O maior de todos, o Previ (Banco do Brasil), detinha R$ 86,6 bilhões em reservas.

Os mocinhos, os vilões e as mães

Ruth De Aquino, Revista Época

Vamos discutir como reintegrar à sociedade aprendizes do tráfico, em vez de jogá-los em cadeias que são faculdades do crime

Nada como uma semana de guerra para cair na real. Quando a realidade envolve armas, drogas e fortunas, pisamos em terreno movediço. Por que uma minoria podre de policiais bandidos quebra casas de moradores e rouba suas economias? Por que traficantes teriam fugido até em viaturas da polícia? Por que o Exército não quer deixar seus militares no Rio, sob a alegação de temer corrupção? Num conflito dessa proporção, os comandantes precisam monitorar com mão forte a fronteira entre a virtude e o vício, a ordem e o abuso.

O Rio de Janeiro se orgulha, sim, da invasão da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão. A pesquisa do Ibope só confirma o que vemos a olho nu nas ruas: 88% da população confia nas últimas ações do governo, 82% confiam na polícia, mas muitos não se sentem seguros. E é natural. Não dá para se sentir seguro se, dos 600 traficantes que estariam nas favelas invadidas, só 124 tinham sido presos até a sexta-feira. Já há notícia de assaltos a casas com reféns em outras áreas, perto da maior favela do Rio, a Rocinha. Se houve um golpe de R$ 100 milhões nas finanças do Comando Vermelho, se foram tirados, dos traficantes foragidos, suas casas, sacos de dinheiro, fuzis, bazucas, toneladas de drogas, o que mesmo eles vão fazer durante o verão?

“Eles vão partir para outros crimes”, disse o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, em longa conversa. “Mas temos de proteger o ‘Chico’ e o ‘Francisco’.” Era uma referência ao pobre e ao rico. Ao visitar o Alemão na quarta-feira, Beltrame foi abordado por uma senhora que contou como sua casa foi arrombada, revirada e roubada por policiais. “Eu me comprometi com ela. Vou atrás dos culpados. Temos de ressarcir danos e prejuízos. Minha vontade é encontrar os culpados e expulsá-los de forma exemplar, diante da tropa formada”, afirmou Beltrame, com raiva na voz.

Aumentar os salários dos policiais resolve, já que são tão mal pagos? “Ajuda, mas não resolve. É preciso levar em conta toda uma história de caráter, criação, caldo cultural”, diz Beltrame. E dá um exemplo: o Rio Grande do Sul tem o segundo pior salário de policiais no Brasil, e a corrupção lá é muito menor que em outros Estados. No Rio, diz Beltrame, “não posso trazer policiais de Marte nem de Santa Catarina”. Policiais do Rio devem ganhar agora 100% de aumento, mas isso ainda é considerado pouco.

Se salário alto bastasse para acabar com a corrupção, não haveria políticos e empresários ladrões. “Tem gente que se especializa em Direito Tributário em Harvard e manda para as Ilhas não Sei o Quê um dinheiro que daria para fazer todas as UPPs do Rio”, diz Beltrame.

Quando o Rio aderiu em massa à ação conjunta das Forças Armadas, Bope, Core, PM e Polícia Civil, houve quem classificasse o apoio de ingênuo. Ninguém de bom-senso acha que, entre as forças da ordem, só existam mocinhos. Mas, felizmente, acabou a visão romântica de que traficante armado é vítima. Ficou claro como a população das favelas está subjugada a tribunais sumários, ao silêncio do medo e a um regime de terror.

“O cerco no Alemão teve problema? Teve”, disse Beltrame. “Prender 50 traficantes é importante. Mas quero crer que muitos que fugiram, de chinelo e sem arma, não voltarão para o crime. Para mim, o foco é a retomada do território. Só isso me permite prestar serviço e dar esperança a mais de 300 mil pessoas.”

O tráfico não vai acabar. A corrupção não vai terminar. Mas a imagem das mães entregando seus filhos traficantes à Justiça, para que eles paguem por seus crimes e continuem vivos, foi uma cena inédita e emocionante no Rio. Muitos bandidos estão cansados do crime e querem levar uma vida digna, de trabalho honesto, sem violência (leia a reportagem). Para eles e para seus filhos, existe futuro. O Estado precisa dar a esses a chance de se redimir. Os presídios, além de superlotados, não podem misturar criminosos sanguinários com bandidos recuperáveis. Está na hora de discutir a ressocialização de quem embala a droga em casa por R$ 10 e gravita em torno do tráfico – em vez de jogar esse aprendiz em cadeias que são faculdades do crime.

De volta ao Alemão

Zuenir Ventura, O Globo

Nos últimos três anos, alguma coisa mudou na política de segurança pública do estado, ainda que o governador e os dirigentes da área continuem os mesmos. Percebe-se isso, comparando a invasão do Morro do Alemão de 2007 e a de agora. Estive lá naquela época e voltei na terça-feira passada.

Em junho daquele ano, 1.350 policiais civis, militares e soldados da Força Nacional entraram na comunidade, mataram 19 pessoas — a maioria sem envolvimento com o tráfico — não apreenderam drogas nem armas e sequer prenderam um bandido importante.

Foi um "massacre", como classificaram moradores e entidades de direitos humanos. Dias depois, pude constatar o reaparecimento ostensivo dos traficantes e a revolta da população local.

Nos artigos que escrevi sobre a visita — "O complexo alemão" — informava: "O chefe montou um ‘tribunal’ para torturar e matar os moradores acusados de terem colaborado com a polícia, conforme denúncia do próprio secretário de Segurança, José Beltrame."

Eu perguntava: "Será essa a estratégia mais eficaz para se ganhar, não uma batalha, mas a guerra?"

Evidentemente, não era, e agora tudo foi diferente: da concepção — não mais entrar, matar e sair, mas ocupar — ao uso de tanques blindados da Marinha, que tornaram possível a incursão, passando pela maneira como trataram os moradores.

Talvez por isso é que, apesar de alguns graves problemas táticos, como não prever as rotas de fuga dos bandidos, e de natureza disciplinar, como excessos praticados por soldados, a operação recebeu aplausos do morro e do asfalto. Acho que nunca se torceu tanto pela polícia nos dois lados da cidade.

Procurei não me identificar como jornalista para que as pessoas pudessem ser mais francas nas suas impressões. Conversei com comerciantes, fregueses, donas de casa, trabalhadores.

Vi de perto o que colegas da televisão e dos jornais já tinham mostrado, ou seja, a mudança do estado de espírito da população. Primeiro o alívio, depois a alegria, enfim aquele clima de liberdade reconquistada substituindo o medo. Me lembrei de dois momentos: o Brasil se livrando da ditadura e a festiva Revolução dos Cravos em Portugal.

Um pouco daquilo estava ali no Alemão, nos pequenos gestos: na bagunça das crianças brincando, nas gargalhadas dos adultos, nos comentários em voz alta, nas opiniões dadas sem olhar para o chão — a trilha sonora podia ser o "Apesar de você", de Chico Buarque.

Menos, colunista, menos. Não há "enorme euforia", mas cautela. Embora a esperança seja o sentimento predominante — em 2007 era a revolta — ainda existe o temor de que "eles" voltem (não custa lembrar que o Bope hasteou sua bandeira na Vila Cruzeiro em 2008).

Um senhor, que mora há 50 anos na comunidade, resumiu esse sentimento, quando lhe perguntei: "Em suma, o sr. está otimista ou pessimista?"

"Otimista", respondeu, acrescentando: "Mas com o pé atrás."