Adelson Elias Vasconcellos
É com certa tristeza que assisto o governo federal comemorar nosso baixo índice de desemprego. Deveria, antes, estar preocupado, muito preocupado. Vamos ver.
Na última pesquisa do IBGE, que apontou algo superior a 5,0%, revelou-se que temos uma força de trabalhadores em torno de 25,0 milhões que, somados ao total de desempregados reconhecidos como tal, totalizariam em torno de 27 a 28 milhões de trabalhadores.
Infelizmente, poucos se dão conta da verdade que os números deixam muito claro. Vejam: qual seria hoje o total da população economicamente ativa no Brasil? Sempre calcado a partir de dados do próprio IBGE, este montante giraria entre 90 a 96 milhões de brasileiros. Assim, o total de trabalhadores na ativa mal atinge um terço das pessoas que, estando em idade produtiva, simplesmente não são reconhecidas pelos dados oficiais.
A partir daí já se poderia levantar uma dúvida sobre a capacidade do país de suportar o peso que, futuramente, representará, para a previdência social, a manutenção de benefícios para tamanha quantidade de pessoas que, por não trabalharem, acabam não contribuindo.
Mas há outra grave questão que a todos deveria preocupar: nosso apagão de mão de obra. Vimos bem no início desta edição, texto da BBC informando que necessitamos de cerca de 6 milhões de estrangeiros para ocuparem o espaço existente no nosso mercado de trabalho. Daqueles cerca de 70% que não trabalham, se ao menos metade estivesse empregada, este apagão poderia até acontecer, mas apenas para determinadas e pontuais atividades.
Também texto do jornal O Globo revela a dificuldade, principalmente na indústria, de se encontrar profissionais qualificados para determinadas funções, extremamente importantes para os processos de inovações e aumento de produtividade. Reportagem nesta edição da Exame.com informa que, no ramo aeroespacial, há vagas em aberto há mais de sete anos e para as quais não se encontram profissionais qualificados para preenchê-las. Isto acaba dificultando a execução plena dos planos para este setor, estratégico não há dúvida.
Considerando que o mercado atual absorve apenas 30% da população economicamente ativa, temos aí a prova provada de que, não apenas no planejamento de políticas públicas o governo petista vem fracassando, mas na escolha das prioridades. E aqui o nosso maior gargalo: educação.
O governo petista está no poder há mais de 10 anos. Não faz muito, afirmamos que, em tal tempo, teria sido possível consolidar uma verdadeira revolução no ensino, não apenas em sua universalização em todas as etapas mas, principalmente, na qualificação mais adequada às necessidades o país.
Ocupando apenas um terço da sua força de trabalho e, ainda assim, enfrentando escassez de mão de obra, a tal ponto de que precisamos investir na importação de profissionais para fazer frente às necessidades imediatas de reposição, é sim, gostem ou não, um atestado da incompetência do governo federal em todos os sentidos.
De nada vale a senhora Dilma Rousseff perambular o país inteiro, com o discurso de que a educação é prioridade em seu governo quando, no campo das ações, pouco temos avançado. Sequer se conseguiu, reparem bem, estabelecer o cumprimento em todo o território nacional, do piso nacional do magistério. Como se vê, entre o discurso e a prática, há um enorme abismo uma coisa da outra.
Um dos caminhos para aumentar o efetivo de trabalhadores rapidamente, seria dar aos programas sociais complementações no campo não só educacional, mas também no da formação e qualificação profissional, já que grande número de beneficiados se classifica na faixa de analfabetos funcionais. Vale lembrar que o contingente de beneficiários destes programas soma cerca de 50 milhões de brasileiros, ou 25% da população total, e sua grande maioria situa-se na fixa etária considerada como economicamente ativa.
Ter vagas que não são preenchidas, ou por falta de candidatos, simplesmente, ou porque os que se apresentam não possuem qualificação exigida para as funções em aberto, demonstra que o país não está formando profissionais na quantidade e qualidade suficientes para o momento atual de seu desenvolvimento. E este fato começa e termina nas salas de aula.
Poderia acrescentar ainda que um dos gargalos desta formação encontra-se no ensino médio, jovens de 16 a 24 anos, em que cerca de 50% simplesmente na comparece à escola.
Acima, referi a questão dos programas sociais de distribuição ou complementação de renda. Cedo ou tarde, o Brasil precisará rever estas políticas. Primeiro, e como todos sabem, são programas que não se completam por não oferecerem portas de saída. Segundo, não se exige de seus beneficiários a necessária contrapartida, seja por não haver preocupação quanto a presença em salas de aula, seja por não haver tempo determinado para que estas contrapartidas sejam atendidas.
Para aqueles que recebem diferentes bolsas, e já se encontram na idade adulta, o mínimo que poderia exigir seria que cursassem cursos profissionalizantes. As redes do SENAIS e do SENAC tem excelência na formação de técnicos qualificados, mas pouco são aproveitados neste sentido. Exemplo bem acabado de um programa de natureza social, que tem começo, emio e fim é o seguro desemprego.
Além disto, o governo petista se preocupou muito mais em aumentar o contingente de beneficiários do que em oferecer oportunidades reais para que estes pudessem atingir tal condição social e econômica que pudessem não mais depender da ajuda estatal. Em parte, há até um incentivo ao não trabalho.
Quem é bolsista do Bolsa Família tem à sua disposição tamanha quantidade de benefícios, sem que a concessão imponha qualquer obrigação, que em certas regiões do país as empresas encontram dificuldade para empregar esta mão de obra ociosa, porque alguns temem perder o benefício gratuitamente ofertado.
Também faz algum tempo que demonstramos aqui que ser beneficiário de Bolsa Família, em grande número de casos, sequer compensa que haja interesse em empregar-se. O total dos benefícios e vantagens que as famílias recebem acaba sendo maior que o salário mínimo pago que, além de tudo, impõem ainda a obrigatoriedade de se cumprir uma jornada de trabalho de 7 a 9 horas diárias.
Há, ainda, um outro programa federal, o Minha Casa, Minha Vida, que subsidia enormemente a aquisição da casa própria. E, nesta semana, a presidente anunciou (santo Deus!!!), conforme reportagem da Folha, uma espécie de kit mobília. Desde 2012, o governo trabalha para oferecer financiamento com juros menores para famílias de baixa renda adquirirem produtos da linha branca (eletrodomésticos). Agora, segundo a Folha apurou, os ministérios das Cidades e da Fazenda querem conceder subsídio também na compra de móveis, como sofá, guarda-roupas e armários de cozinha.
Por princípio, nada tenho contra os programas sociais que tenham por meta ajudar pessoas em condições de extrema pobreza e miséria, a saírem desta situação constrangedora e poderem, deste modo, alcançar melhores condições de subsistência. Porém, precisa ficar claro que tal ajuda não pode ser perene, e sem contrapartidas por parte dos beneficiários. Do contrário, o país estará montando um verdadeiro exército de pessoas que, podendo trabalhar, se negam em fazê-lo porque o paternalismo estatal lhe oferece condições de vida tais que desestimula a pessoas a procurarem emprego ou se qualificarem para ter acesso a ocupações que remunerem melhor. Isto pode ter qualquer nome, menos o de programa social. Por muitas vezes, o senhor Lula usou a expressão do “ensinar a pescar”. Porém, ele próprio e agora Dilma também, parecem oferecer tamanha quantidade de facilidades que o pobre assistido pelo poder público só terá o trabalho de mastigar. O resto vem pronto e servido. Gostem ou não, estamos diante de um populismo asqueroso.
Há um imenso gargalo que precisa ser afastado por conta deste apagão de mão de obra. Ele é um imenso obstáculo ao desenvolvimento do país. Nem sempre os países da Europa e da América do Sul nos fornecerão a mão de obra necessária para suprir as necessidades do nosso mercado de trabalho. Hoje, talvez se consiga atender parte desta demanda em razão da grave crise que vivem algum dos países da Comunidade Europeia. Porém, cedo ou tarde, estes países resolverão as questões mais aguda desta crise, e esta disponibilidade tenderá a desaparecer.
Além disto, conforme alertamos lá no alto, esta enorme população que não trabalha, acabará atendida pela previdência social sem que tenham contribuído uma vida inteira para tanto. E isto acabará se refletindo no valor dos benefícios daqueles que contribuíram durante 25, 35 ou mais anos e que acabarão sendo comprimidos para ajustar receita e despesa do INSS.
Que o problema do apagão de mão obra existe, disto ninguém duvida. Resta saber se o governo atual está disposto a enfrentá-lo, mirando sempre o futuro, sabendo que algum preço político há de ser cobrado. Porém, o que está em jogo é tanto o processo quanto o ritmo de crescimento que se pretende alcançar.
Para encerrar, vamos repetir o mantra que temos afirmado há algum tempo: qualquer programa social digno do nome deve se orientar por ver redução, e não aumento, no número de beneficiados. Quanto menos pessoas puderem viver em condições de não precisarem recorrer ao amparo estatal, mais o programa se consolida e se justifica. Pensar o contrário, é apostar no azar, é investir na perenização da pobreza e na situação de estado-dependência dos cidadãos.

