domingo, julho 08, 2012

Um país sem rumo, um governo sem projeto.


Adelson Elias Vasconcellos

O artigo do Carlos Alberto Sardenberg de ontem, o segundo da série Custo Lula, praticamente resume todas as críticas que temos feito aos governos petistas – sim, Dilma além de petista incorre nos mesmos erros de seu antecessor – e a maneira estúpida como vem conduzindo a economia brasileira.

Além da imbecilidade de apelar ao empresariado brasileiro por um patriotismo que nada mais é, em tempos globais e de competição acirrada, do que assinar o próprio atestado de falência. Isto é provinciano demais para um país com as riquezas que temos e uma economia  pujante e solidificada como a nossa. 

Ou seja, o governo petista governa o Brasil em 2012 como se estivéssemos ainda na década de 50 do século passado. O resultado não poderia ser pior: a dura batalha das nossas indústrias durante três décadas para conquistar mercados internacionais está sendo solapada por uma visão medíocre do que seja a economia moderna. 

Seria interessante que o PT fizesse uma radiografia pormenorizada dos erros e acertos na condução da economia brasileira ao longo da ditadura militar. Houve erros sim, mas também houve acertos, pelo menos para aquele exato momento. Copiar o modelo em condições completamente diversa, é apostar firmemente no azar, isto é, é andar a passos largos para o abismo. E é justamente o que estamos assistindo no repeteco de Dilma em insistir no “produto nacional” cuja competitividade foi totalmente anulada pela ingerência e desacertos de um governo que não tem política industrial, que alimenta perigosamente um desequilíbrio fiscal, que toma decisões não confiáveis para induzir o crescimento do país, e que se nega terminantemente em encaminhar propostas concretas para produzir as reformas estruturais tão necessárias quanto urgentes.

Por onde olharmos, buscando vislumbrar um horizonte esperançoso para o Brasil sair da pasmaceira econômica em que se encontra, vemos a inércia, a omissão do governo federal, o improviso e tudo isto conduz a uma total insegurança, na perda da confiança na autoridade econômica quanto à sua competência em dar respostas adequadas para os problemas presentes. E todas as soluções, sejam de curto, médio ou longo prazo, dependem, exclusivamente, do governo federal. 

Alguém poderá alegar que as críticas que fazemos não tem nada a ver, uma vez que o governo está bem cotado junto à população. Bem, nem vou brigar com  os números tampouco com as    pesquisas. O fato é que algo de muito errado está acontecendo: enquanto a governante é bem avaliada, os serviços públicos que dependem justamente da ação de governar, estão abaixo da crítica. É só apanharmos os dois principais, educação e saúde, e logo descobriremos que estamos diante de um  verdadeiro engodo. É como se tais serviços não tivesse relação alguma com o governo. E, no entanto, são amostragens perfeitas do quanto o governante é competente ou não. É como se os serviços fossem entes completamente desconexos. E não são.  A qualidade de um depende intrinsecamente da ação do outro. 

Isto se explica, primeiro, pelo baixo grau de maturidade cívica de dois terços da população, contando com uma educação de péssima qualidade e um grau de informação muito aquém do que seria necessário e razoável, para poder discernir e avaliar. Em segundo lugar, também faz parte desta equação a publicidade oficial, eivada de mentiras, de estatísticas grosseiras, manipuladas e deturpadas.  

Qualquer análise que se faça para se tentar encontrar respostas para o pífio crescimento do PIB brasileiro, TODAS nos conduzem diretamente à falta de ação do governo. Qualquer pesquisa que se tente fazer  para conhecermos as razões para a pouco competitividade atual das empresas nacionais, TODAS conduzem à falta de ação do governo.

Entendia a presidente Dilma e sua equipe econômica que o xororo dos empresários na questão juros, centrava todos os nossos males. Vimos que eles eram sim um problema grave, mas não o único. Aliás, estavam atrelados a todas as demais mazelas. 

Era , também, uma convicção da mesma turma, que o mercado interno seria suficiente para alavancar o crescimento interno. Esqueceram de, primeiro, encarar de frente a ainda baixa renda per capita do povo brasileiro. Este limitador impõem certas barreiras para que o consumo possa, de fato, ser a mola propulsora do crescimento. Com uma renda limitada, limitada também será a capacidade para consumir, como limitada ainda será a capacidade de contrair dívidas. E é este limitador que está dificultando a expansão do PIB neste momento. Precisaríamos  nos voltar para a capacidade do país em atrair investimentos produtivos, para gerar emprego e renda e expandir a massa salarial, seja horizontal, e isto os programas sociais colaboram,  sejam verticalmente, pela necessidade de atrair mão de obra qualificada para a qual o valor médio dos salários tenderiam a  crescer. Mas como iremos atrair investimentos produtivos com um quadro tão desfavorável?

Seja pela carga tributária absurda que é imposta e que suga cerca de 38% do tudo o que país produz, seja pelo percentual ou pela burocracia criada para as empresas apurarem e recolherem estes tributos, seja justamente pela mão de obra com pouca qualificação dado o estado caótico da educação brasileira, seja pela péssima infraestrutura que encarecem de maneira quase proibitiva o que aqui dentro se produz, seja pela legislação debiloide,  principalmente na questão ambiental onde para se conseguir uma licença de instalação e operação é um suplício, verdadeiro calvário que obriga o investidor a manter engavetado seu projeto por um prazo proibitivo. Sem contar que, nestas plagas, demanda-se cerca de seis meses para regularizar uma atividade empresarial. Não, definitivamente, o Brasil é um país que, antes de atrair, acaba por afastar qualquer investidor interessado em implantar aqui uma atividade produtiva. Ah, faltou um ingrediente: a insegurança jurídica. 

Uma alternativo seria  a substituição do investidor privado pelo público. Mas como, se sugando 38% do PIB o governo não consegue investir mais do que 2%? Neste campo, a miserabilidade do governo chega a ser dolorosa. O noticiário está repleto de casos de obras milionárias que ficaram pelo caminho.

Por todas as questões acima, temos sido ferrenhos críticos do modo como o governo petista tem conduzido a economia brasileira. Muito improviso, reforma nenhuma, muito papo furado, muita propaganda mentirosa, e nenhum resultado prático, além de um imenso prejuízo à indústria nacional. E investir, senhores, não é criar estatais por atacado, que nada acrescentam à capacidade produtiva do país.

Reparem: durante muitos anos, os juros altos comeram toda a rentabilidade dos empresários. Para continuarem na ativa, precisavam tomar empréstimos sobre empréstimos. Mas a maldade não começava aí. O empresário era conduzido pelo próprio governo ao sistema financeiro, porque, antes, o Estado já tomara para si em impostos e contribuições escorchantes esta rentabilidade. Assim, não sobrava nada para investir em expansão, em inovação e até em giro para manter sua produção. Carga tributária alta conjugada com o pagamento antecipado  de muitos destes tributos, aniquilam qualquer possibilidade do empresário sobreviver com recursos próprios. Portanto, na economia brasileira do PT somente dois agentes ganham dinheiro: o próprio estado, e o sistema bancário a quem o coitado do empresário era empurrado por falta total de alternativas de sobrevivência.

Assim, pedir sacrifícios apelando pelo apetite “animal” dos empresários como fez Mantega nesta semana, é uma brutal sacanagem, uma total falta de senso de realidade. Quem tem quer ter apetite animal para fazer sua obrigação é o governo do qual o senhor Mantega faz parte. Está na hora do governo parar de enrolação e mentiras, e começar a fazer a sua parte. O país já se prejudicou demais pela omissão criminosa de um governo que, por falta de projeto, só age no improviso. Ou seja, é preciso que o governo deixe de ser o problema, e comece a fazer parte da solução.

Greve em tempos de eleição é chantagem
Agora, até as agências reguladoras prometem parar. É impressionante como em tempos de eleições os servidores “descobrem” que ganham mal. Isto não é mais reivindicação salarial coisa nenhuma.É chantagem, e da mais ordinária. Como o governante está interessado em atrair votos, se negar o aumento pode perder capital político. Voltem no tempo e vocês perceberão que, basta aproximar-se uma eleição, e os servidores começam a fazer greves atrás de greves. Nesta hora, dane-se o país, o povo (que vê sonegados os  serviços para os quais paga impostos), além do equilíbrio das contas públicas. A isso também se chama de falta de consciência.  Seria oportuno que a mídia mostrasse um levantamento dos generosos aumentos concedidos por Lula, principalmente no segundo mandato,   aumentos que, em alguns casos, foi superior a 100%!  A única categoria que, de fato, merece ganhar aumento, é a dos professores. O país já contraiu uma imensa e histórica dívida para com estes profissionais. Está na hora de resgatá-la. 

Marcha a ré
Uma das maiores preocupações do governo deveria ser a queda constante na exportação de manufaturados pelo país. Há algumas semanas atrás, o governo editou uma lista de produtos que seriam sobretaxados para defender a indústria brasileira da “concorrência predatória dos importados”, um retrocesso ao fundamentalismo econômico conhecido como protecionismo. Para tanto, gastou-se uma pequena fortuna via BC para forçar a desvalorização do real, permitindo assim maior competitividade para nossos produtos lá fora.

Agora, nova lista, desta vez de 600 produtos que tiveram seus impostos de importação reduzidos, o que representará cerca de R$ 1,6 bilhão de dólares a mais na balança comercial coluna importação. Sinceramente, fica difícil entender onde afinal o governo Dilma pretende chegar com tal medida. Nosso excedente na balança comercial que vem despencando continuamente desde 2006, poderá  chegar ao negativo mais rapidamente do que se imagina. Convenhamos, não é por esse caminho que o  país elevará seu PIB. Pelo contrário. E com o agravante que afetará ainda mais as já combalidas contas públicas, aumentando de maneira definitiva e perigosa nosso já alto déficit  em conta corrente.

Os gigolôs do país voltam a atacar
Nota da Vera Magalhães, na Folha de São Paulo

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Deputados usarão cartões corporativos a partir do segundo semestre

A Câmara dos Deputados decidiu adotar cartões corporativos – foco de um dos maiores escândalos do governo do ex-presidente Lula – a partir do segundo semestre.

Em uma portaria assinada pela diretoria-geral da Casa, em maio deste ano, a Câmara autorizou o uso de cartão para despesas emergenciais, relações públicas e gastos em viagens internacionais do presidente, inclusive para locação de veículos e alimentação. O limite de compras será estipulado por atividade.

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São os gigolôs da Nação atacando o bolso do contribuinte mais uma vez. Será que um dia o país terá parlamentares decentes, honestos, sérios, dignos, trabalhadores responsáveis com o dinheiro que não lhes pertence? 

A resposta é: basta não votar neles...

Começa a aparecer uma herança maldita… de Lula


Ricardo Setti
Veja online

(Foto: Dedoc / Editora Abril) 
Lula inventou uma "herança maldita" que teria recebido de FHC. 
Agora, começa a aparecer uma herança maldita novinha em folha -- a dele 

Reproduzo nota publicada no blog Política & Economia na Real, do jornalista José Márcio Mendonça e do economista Francisco Petros.

A nova herança maldita – capítulo I
Semanas atrás informávamos que nos bastidores oficiais de Brasília já se começava a rosnar sobre certa “herança maldita” – uma “nova”, é claro, distinta daquela que Lula atribuía ao ex-presidente FHC sempre que alguma dificuldade aparecia a sua frente em seus oito anos de Palácio do Planalto.

Agora, já não muito discretamente, esta nova herança começa a ser explicitada. O primeiro foco foi a Petrobras, com a revisão de seus planos de investimentos para os próximos cinco anos. Cortando daqui e dali, a presidente da empresa, Graça Foster, disse, sem citar seu antecessor, José Sergio Gabrielli, que as metas anteriores eram irrealistas, que projetos eram aprovados a esmo, sem estarem prontos e daí por diante.

Graça e sua comandante no Palácio do Planalto estão jogando para o alto facas para que estão caindo em suas próprias cabeças : Lula era o presidente dessa fase de irrealismo, mas Dilma foi ministra das Minas e Energia e, portanto, chefe da Petrobras durante uma parte desse período. Durante todo o mandato de Lula, foi presidente do Conselho de Administração da empresa, só sendo substituída por Guido Mantega quando saiu para se candidatar à Presidência da República. [Sem contar sua responsabilidade como principal ministra do governo, ao comanda a Casa Civil de 2005 a 2010.]

(Foto: Petrobras) 
Por que só Gabrielli paga toda a responsabilidade?

Por que só Gabrielli paga toda a responsabilidade por uma gestão de claro viés político na maior estatal brasileira ?

E por falar em política
A revisão feita nos investimentos da Petrobras gerou sérios ruídos políticos com aliados preferenciais e complicados de Dilma: a suspensão da construção das refinarias do Ceará e do Maranhão, dois compromissos político-eleitorais de Lula, acendeu a irritação dos suscetíveis e agressivos irmãos Gomes – Ciro e Cid [do PSB]- e o discreto (nas reações), porém não menos agressivo quando se trata de defender seus feudos, senador José Sarney (PMDB-AP).

Aplacar a irritação dos irmãos Cid e Ciro Gomes 
sobrou para o ministro Edison Lobão

Sobrou para o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, tourear as feras.

Logo ele, Lobão, que de sua pasta é sempre um dos últimos a saber das coisas.

A nova herança maldita – capítulo II
Há muitas outras línguas coçando em Brasília, além das da Petrobras vindas diretamente do Ro de Janeiro. Das mais inquietas é a área educacional. Mas que está forçada a sofrer calada para não prejudicar o candidato-delfim à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad.

Mesmo assim, possivelmente como reflexo da greve dos professores universitários, que além de reivindicarem um plano de carreira, propugnam também por melhores condições de trabalho, a presidente Dilma baixou um decreto, pouco comentado esta semana, tornando mais rígidas as regras para aberturas de novas universidades públicas federais : “A implantação de novas unidades de ensino e o provimento dos respectivos cargos e funções gratificadas dependerá da existência de instalações adequadas e de recursos financeiros necessários ao seu funcionamento”.

(Foto: Joel Silva/Folhapress) 
Decreto: universidade federal nova não pode estar
 em pandarecos, como esta, na Grande São Paulo 

Um dos orgulhos da dupla Dilma-Haddad é exatamente a criação de uma série de novas escolas federais. Em tempo : essas histórias sobre a nova herança maldita terão ainda muitos capítulos.

Não tem mais onde furar


Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

O presidente do Uruguai, José Mujica (foto), já vinha denunciando que o Mercosul virou um chiclete. Depois das decisões tomadas na última reunião de cúpula, já não se sabe o que passou a ser.

Reunidos em Mendoza, Argentina, no dia 28, os chefes de Estado de Argentina, Brasil e Uruguai primeiramente suspenderam o quarto sócio, o Paraguai, sob o argumento de que a destituição do então presidente paraguaio, Fernando Lugo, tinha sido "esquisita". Embora não fossem capazes de caracterizá-la como golpe de estado, como queriam, entenderam que ao presidente Lugo não fora concedida oportunidade de defesa - recurso exigido em processos jurídicos, mas não propriamente em movimentos políticos.

Em seguida, a troica assim constituída pela suspensão unilateral do Paraguai - a quem também não foi concedida oportunidade de defesa - optou pela incorporação da Venezuela ao bloco, embora não tenha cumprido previamente nenhuma das exigências previstas pelos tratados. Entendeu ela que a suspensão removeu também o veto do Senado do Paraguai à admissão da Venezuela.

Diante do ocorrido, parece claro que os golpistas - se golpe houve - não foram nem o Congresso nem a Corte Suprema do Paraguai, que convalidaram o impeachment, mas, sim, os dirigentes do Mercosul, que passaram a rasteira no Paraguai, com características de absurdo jurídico.

Dias depois, o próprio chanceler do Uruguai, Luis Almagro, que já havia sido contrariado no episódio pelo próprio presidente José Mujica, veio a público para afirmar que a manobra colocada em prática por 75% da cúpula do Mercosul não tinha validade jurídica.

Dados os desrespeitos aos acordos, o Mercosul já era o que o sambista Adoniran Barbosa chamou de "tauba de tiro ao álvaro", porque "não tem mais onde furar". O Mercosul não consegue ser nem sequer uma área rudimentar de livre comércio. O intercâmbio de mercadorias está bloqueado por travas de todas as categorias. Nessas condições, deixou de ser instrumento de integração econômica e social para ser um pastiche político que toma o formato dos interesses da hora.

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, bem que tentou empurrar o fechamento de um acordo do bloco com a China. O governo da Argentina não parece interessado em transformar o Mercosul numa plataforma de compras de produtos industrializados chineses. Mas, contra o interesse dos outros sócios, acha que poderia ter acesso ao baú de dólares da China, caso intermediasse manobras comerciais desse tipo.

A presidente Dilma acaba de assumir a presidência rotativa do Mercosul. Dada sua densidade na participação no bloco, o governo brasileiro bem que poderia liderar um movimento de recondução do Mercosul a seus objetivos originais. O primeiro passo seria aceitar seu rebaixamento da condição que jamais conseguiu ser, para o de uma incipiente área de livre comércio, dotada de um cronograma crível de desenvolvimento, para avançar em vez de continuar se desmantelando.

O problema é que o governo Dilma também não leva o Mercosul a sério. Não o considera mais do que instrumento para o exercício de práticas de boa vizinhança.

Polícia para quem precisa de polícia


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Lembre do hino da Seleção de 1970: "Noventa milhões em ação". Hoje, a população brasileira é superior a 190 milhões. Na época, a população do Estado de São Paulo era de 17,7 milhões de habitantes. Hoje, é de algo como 42 milhões.

Em 1964, o governador paulista Adhemar de Barros anunciava que a Força Pública, nome utilizado à época pela PM, tinha 60 mil homens. Hoje, tem pouco mais de 80 mil. Comparando: a população do Estado se multiplicou, o efetivo da PM cresceu só uns 30%. Pior: dos 80 mil homens da PM, cerca de 23 mil estão fora das ruas, em atividades diversas (e, se calcularmos quantos PMs estão de férias, em folga, em licença médica, o número de policiais nas ruas vai cair ainda mais). A população cresce depressa, a PM cresce bem devagarzinho.

Quem revelou estes números espantosos foi um órgão oficial, o Tribunal de Contas do Estado. O comandante-geral da PM, coronel Roberval França, diz que não é bem assim: uns dois mil dos soldados afastados da rua cuidam dos centros de atendimento de emergência, recebendo chamados da população. 

Alguém poderia explicar a este colunista por que se treina uma pessoa para policiamento de rua, utilização de armas, táticas de enfrentamento, para depois colocá-la no atendimento a chamados telefônicos? E isso se refere a dois mil homens: e os outros 21 mil afastados das ruas? Fazem tarefas burocráticas, que uma secretária, sem treino militar, cobrando menos, faria melhor.

Fora o governador, alguém pode se surpreender com a falta de policiamento? 

Tudo dominado
E, se o problema fosse apenas o da falta de policiais, a insegurança não seria tão grave quanto é. O crime organizado tem bases sólidas. Hoje, uma pessoa presa não "escolhe" entrar ou não para o PCC: é obrigada a obedecer às ordens dos chefes dos bandidos. Os parentes que vão visitá-los recebem listas do que devem levar à prisão, o que inclui objetos proibidos, e são instruídos sobre a melhor maneira de contrabandeá-los. E ai dos presos, reféns do crime organizado, se a família não cumprir as tarefas: eles sofrerão as consequências.

Tudo em silêncio
O comando da segurança pública paulista diz que o PCC foi desarticulado, e que usa eventuais incidentes isolados para fingir força. É a mesma tática do silêncio usada há quase 30 anos, quando surgiu a organização Serpentes Negras, desmentida enfaticamente pelo Governo estadual da época; e usada pouco mais de dez anos depois, quando Fátima Souza, repórter da Rede Bandeirantes, relatou o surgimento de nova organização criminosa, o PCC. 

Tenta-se desmoralizar o repórter, os editores do jornal recebem a palavra das autoridades de que não há nada daquilo, que os crimes visivelmente articulados são apenas coincidentes. Isso evita que tenham de combater a articulação criminosa. Dá menos trabalho.

Cala que eu te escuto
Nos parlamentos de todo o mundo, há sempre uma parcela de teatro. Aqui também; a diferença é que em Brasília a coisa ficou tão exposta que ninguém mais sente necessidade de guardar as aparências. A tal CPMI do Cachoeira, por exemplo, decidiu abertamente só convocar o empreiteiro Fernando Cavendish, da Delta, depois que se fez um acordo para que ele permaneça calado. 

Tudo bem, se ele abrir a boca pode sobrar para muita gente, dos mais diversos partidos; mas ninguém se preocupou em manter esse acordo na penumbra. 

Discrição para quê, se todos sabem que ali ninguém quer ir fundo para evitar marola?

Os dois riscos
Além de Cavendish, foram convocados também Paulo "Preto" Vieira de Souza, que foi diretor da Dersa, estatal paulista que cuida de estradas; e Luiz Antônio Pagot, ex-diretor do DNIT, Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Os dois são potes até aqui de mágoa, mas se foram convocados é porque devem se comportar. "Paulo Preto" advertiu seus amigos do PSDB que não se abandona um amigo ferido, e Pagot disse que quer falar. 

Mas "Paulo Preto" tem tradição de política tucana e Pagot é ligado ao governador Blairo Maggi, do PR - partido que, conforme o Estado, é aliado ao PSDB ou ao PT. Pode haver surpresas. Mas até agosto, quando serão ouvidos, tudo estará mais calmo.

Discriminação, não
A Rede TV! acaba de levar uma surra jurídica memorável: foi condenada por unanimidade a indenizar, com 200 salários mínimos, o modelo Carlos Cunha Gonçalves, por comentários discriminatórios sobre sua vida profissional e pessoal, que expuseram ao ridículo seu nome e imagem. A ação contra a Rede TV! foi movida pela advogada Tania Lis Tizzoni Nogueira. 

Um detalhe incomum: em vez de apenas seguir o voto do relator, como é habitual quando há concordância na sentença, o revisor, desembargador Grava Brasil, fez questão de apresentar seu voto, detalhando os motivos que o levaram a condenar a emissora e rejeitar a discriminação. É a segunda vez que a Rede TV! é derrotada neste processo.

Veja bem
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, PSB, e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, PSD, até divergem às vezes, mas estão jogando juntos.

carlos@brickmann.com.br 
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Mantega, ovo e galinha


 Rodrigo Constantino
Opinião & Notícia

A verborragia do ministro Guido Mantega agride qualquer lógica econômica

(Reprodução/Internet)
Guido Mantega deveria se perguntar: 
quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? 

O leitor está desculpado por pensar que errou de lugar ao se deparar com o título do Comentário. Não se trata de uma receita culinária, mas de economia mesmo. Para variar, o assunto é a verborragia do ministro Guido Mantega, que agride qualquer lógica econômica.

A última do ministro foi em uma entrevista para o jornal Valor, onde ele soltou esta pérola: “Não quero aumentar o BNDES, mas sem ele não teríamos investimento no Brasil”. É isso mesmo. Para Mantega, não haveria investimento no País sem o banco estatal mais querido dos grandes empresários.

Ele explicou melhor seu raciocínio: “O setor privado não gosta disso. Mas eu falo para eles: no dia em que vocês estiverem presentes, emprestando no longo prazo, eu reduzo o BNDES”. Vamos à aula do dia de economia básica para o ministro. Tema: crowding out. O que é isso? Não se trata de nenhum bicho de sete cabeças. Na verdade, é bem simples. Tão simples que uma criança pode compreender, ou até mesmo o nosso ministro.

É o seguinte: quando o governo gasta demais, ele pressiona a taxa de juros e reduz o investimento privado. Em outras palavras: a expansão dos gastos públicos espanta (crowding out) o investimento privado. Para compensar, o governo substitui a função do mercado e empresta dinheiro, a taxas subsidiadas, para os grandes grupos nacionais. Resultado: mais crowding out ainda.

Portanto, o ministro deveria se perguntar: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? O BNDES já recebeu mais de R$ 300 bilhões do Tesouro, e seus desembolsos chegam a R$ 150 bilhões por ano. Tudo isso a taxas reais negativas, ou seja, os tomadores pagam menos do que a inflação.

Pergunta do milhão: que banco seria louco a ponto de competir nestas condições? A lógica do ministro é toda invertida. Se o BNDES saísse da frente, e o governo gastasse menos, claro que o mercado ofereceria crédito de longo prazo para investimentos, o que até já acontece, mas em patamar menor por culpa do próprio BNDES e do governo.

O mundo está com abundância de capital e ausência de retorno. Claro que há interesse em emprestar para bons devedores com bons projetos de investimento. O problema é o custo Brasil, e a concorrência desleal com o BNDES. Logo, reduza o BNDES e o custo Brasil, que o setor privado estará totalmente presente. O ovo vem antes da galinha, ministro!

A presidente na campanha


João Bosco Rabello  
O Estado de S.Paulo

Ao intervir pessoalmente no diretório mineiro do PSD, em favor do PT, o prefeito Gilberto Kassab quitou uma dívida com a presidente Dilma Rousseff, de alinhamento da legenda ao seu governo, que inclui o apoio à sua reeleição em 2014.

Como efeito colateral, reduz o ritmo de aproximação entre o novo partido e o PSB, do governador pernambucano Eduardo Campos, cuja desenvoltura na cena política gera no PT a desconfiança de que considera a antecipação de seu projeto presidencial oficialmente previsto para 2018.

O movimento obrigou o PSD a declarar qual a aliança prioritária no momento - se com o governador, se com a presidente. O partido elegeu o PSB como aliado preferencial, ao mesmo tempo em que constrói um espaço próprio na base governista, onde pretende rivalizar com o PMDB e o PT, nessa ordem.

O plano estratégico de chegar em 2014 como ator influente no processo sucessório impôs ao prefeito a aposta em Dilma, sem prejuízo da continuidade da construção da aliança com Campos para 2018 - ou, se houver vento favorável, até uma candidatura própria do PSD, já que o tempo recomenda reavaliações permanentes de cenários.

O episódio revela também uma presidente ativa no tabuleiro das eleições municipais, especialmente onde elas estão nacionalizadas, casos de Minas, São Paulo e Nordeste - este, pela liderança do governador de Pernambuco.

O preço pago por Kassab ficou caro pela inabilidade na condução do processo, que já produziu dissidências num partido que se consolidou há menos de um mês com a conquista do tempo de TV e do fundo partidário.

Dissidência precoce
A condução do apoio ao PT em Minas irritou alas influentes do PSD, mais ainda as suas lideranças mineiras, revoltadas com a intervenção e revogação da ata da convenção que aprovara a coligação em favor do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB). A renúncia e desfiliação do vice-presidente nacional da legenda, Roberto Brant, foi uma reação da primeira hora a anunciar que a unidade do partido recém-nascido está comprometida. Brant se valeu do valor mais importante para os mineiros - a autonomia política - para reacender a rivalidade com os paulistas, discurso já apropriado por Aécio Neves, o outro alvo de Dilma ao intervir indiretamente no PSD local. "Como é que o prefeito de São Paulo desembarca em Belo Horizonte para interferir na política mineira?", pergunta.

Expulsão
O prefeito de Palmas (TO), Raul Filho, do PT, flagrado em vídeo negociando apoio com Carlos Cachoeira, vai à CPI na próxima terça-feira já condenado à expulsão pelo partido.

Olho por olho...
Com base em um parecer que extrapola a questão técnica, o Ibama negou licença ambiental para a construção do Estaleiro Eisa, em Coruripe, sul de Alagoas. Alega o órgão que o empreendimento estimularia a migração e produziria a "favelização" na região, embora a obra estime investimentos de R$ 2 bilhões com geração de 50 mil empregos. Em retaliação, o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), barrou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) projeto de lei criando mil novos cargos no Ibama e no Instituto Chico Mendes. Semana que vem, Renan e o governador Teotônio Vilela (PSDB) recorrerão à ministra do meio ambiente, Izabella Teixeira.

Código Penal
O senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) será o relator do novo Código Penal no Senado, que o senador José Sarney quer aprovar até dezembro.

O segredo e a alma


Ruth De Aquino
Revista Época 

Os parlamentares ainda têm medo de retaliação. Mas o voto pela transparência nas cassações é simbólico 

O segredo é uma palavra que vem do latim secretu. O significado é claro. O segredo é algo que se oculta dos olhos do público. Por vergonha ou por medo das consequências. Os segredos pessoais costumam ser fonte de sofrimento. Os segredos oficiais costumam alimentar uma cultura da obscuridade. São protegidos por razões de Estado, ditaduras e organismos de segurança. Os políticos que têm medo de revelar como votam em questões éticas são, basicamente, covardes. Não merecem nosso voto.

De tanto que a sociedade e a mídia no Brasil morderam a canela do Congresso, o Senado tomou na semana passada uma decisão importante, apesar de limitada. Os senadores – por 55 votos a 1 – aprovaram a emenda que acaba com o voto secreto em processos de cassação de parlamentares. O único voto contra foi do maranhense Lobão Filho (PMDB), excluído da Comissão de Ética e conterrâneo de José Sarney.

O voto do Senado a favor da transparência nos processos de cassação é simbólico. Não vale para o julgamento, no dia 11, de Demóstenes Torres, que caiu em desgraça com o escândalo do bicheiro lobista Cachoeira e hoje está sem partido. O voto aberto é um projeto que emenda a Constituição. Para vigorar, precisa ser aprovado também na Câmara, que está sem pressa nenhuma.

Há quem culpe a massa por votar errado. Mas o Congresso impede o eleitor de saber quem é a favor ou contra. “Medo do que ou de quem?”, pergunta Paulo Cesar Philot Barradas, do Rio de Janeiro, na seção de cartas do jornal O Globo. “Quero saber em quem votei, agora, na hora da verdade. Vote na honestidade. Faça diferente do político sem honra. Não esqueça que seu mandato é curto e que estamos de olho em você.” Paulo Cesar exige que o Congresso o ajude a votar com consciência, e não na santa ignorância. Como tantos de nós.

O voto aberto, para os otimistas, pode ser o início de uma campanha pela moralização da forma de fazer política. Uma pena que os senadores só queiram abrir o voto nos processos de perda de mandato dos colegas. Nem pensam em abrir o voto na análise de vetos da presidente Dilma ou na indicação de ministros de Tribunais Superiores. O “segredo” é óbvio: os congressistas têm um medo profundo do Executivo e do Judiciário. Medo de retaliação, de vingança, medo de tufões e ariranhas.

“Se os parlamentares não podem assumir plenamente seus votos em relação a outros poderes, isso quer dizer que, do ponto de vista da dinâmica da sociedade, não temos uma democracia propriamente dita”, afirma o psicanalista Joel Birman. “Os poderes são desiguais. Há uma verticalidade. E quem está por cima são o Executivo e o Judiciário. Isso significa que estamos numa ordem política pré-moderna.”

O Brasil está num momento salutar na busca por sua história contemporânea. É a Lei de Acesso à Informação, a Comissão da Verdade. Estamos vasculhando os porões de nossa memória. Fotos e documentos da repressão, das vítimas e dos militantes emergem de arquivos secretos. Lemos depoimentos de pessoas que torturaram e que foram torturadas. São reveladoras algumas convicções dos militares envolvidos com o golpe. Como a ficha de Chico Buarque, em relatório do SNI. Chico era fichado como o “endeusado” representante da “esquerda festiva” que fazia shows com “cenas que feriam a moral das famílias”.

Todos nós temos nossos segredos. Alguns são pueris e inocentes. Outros provocam recalque e pânico. “Nos consultórios, fica claro como os pacientes tentam se livrar do segredo para sofrer menos. O que não é assumido pode virar fonte de mutilação psíquica. Quando se amplia do íntimo para a política, o que testemunhamos não é uma neurose, mas uma perversão”, afirma Birman. Numa sociedade fundada na mentira e na dissimulação, os valores éticos são subjugados a interesses particulares ou de grupos.

Um exemplo é a atitude de Demóstenes. Ele diz que Cachoeira era apenas “um amigo enrolado”. Ao pressionar abertamente na semana passada para que o bicheiro seja ouvido na CPI, o recado é claro. O senador quer apenas que Cachoeira “entregue a quem ele beneficiou”. Soa como chantagem. Ou alguém ainda acredita que não haja beneficiados entre os que vão julgar Demóstenes no Senado – por voto secreto?

O homem comum acha que os incomuns entram na vida pública para enriquecer ilicitamente, empregar parentes, ter imunidade, garantir aposentadoria e plano de saúde integrais. Para enfiar a consciência na bolsa, na meia ou na cueca, e transformar seu voto numa mercadoria do grande balcão onde o segredo é a alma do negócio. Não existe mais ideologia – como disse o guru Maluf para seu convidado Lula. E ainda se exige de mim e de você que saibamos eleger os melhores.

Um leitor "cristão comunista"


Percival Puggina

Pois eis que um leitor, desses que vai mensagem, vem mensagem, lá pelas tantas se declarou "defensor do comunismo cristão e da felicidade nele contida, apoiado na regra dos primeiros apóstolos". Ou seja, respaldado em quanto está dito no texto abaixo. 

" A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum. Com grandes sinais de poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. E os fiéis eram estimados por todos. Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, levavam o dinheiro, e o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um." (Atos dos Apóstolos 4, 32-35).

Eu queria ter um real por vez que essa citação me foi feita por seguidores da tal teologia da libertação. De início, coisa de 40 anos já passados, essa interpretação era dita "leitura do Evangelho com chave marxista". Aos poucos, foi ganhando status de reflexão teológica. E acabou em inevitáveis apostasias e heresias. Mas isso é outra história. O que importa é entendermos a que se refere o texto em questão. 

Perceber que estamos diante do relato de uma experiência não exige grande capacidade de análise. Basta saber ler. Trata-se, ademais, de uma experiência singular, que não se reproduziu em qualquer outra das comunidades de fiéis daquele período inicial do cristianismo. O episódio, uma vez mencionado, não retorna à pauta, permitindo presumir que terminou com o fim do estoque. Os estudiosos mais interessados na verdade do que na utilização das Escrituras para fins ideológicos e políticos entendem que aquele grupo inicial de cristãos estava convencido de que a volta de Jesus para o Juízo e para o fim dos tempos era coisa imediata. Provisões para o futuro não teriam, pois, serventia alguma. 

O apóstolo Paulo nos socorre na compreensão daqueles primeiros momentos quando menciona que as "comunidades da Macedônia e da Acaia houveram por bem fazer uma coleta para os irmãos de Jerusalém que se acham em pobreza" (Rom 15,26). Referências a essas dificuldades se repetem aos Coríntios (2 Cor 9,7). Também a sentença do apóstolo - "Quem não trabalha que não coma" (2 Tes 3,10) - se relaciona com o fato e mostra que aquele "comunismo" favorecia ao ócio. Ou seja, as coisas já não iam muito bem por lá. Passara a haver necessidades e necessitados, ociosos e oportunistas. 

Foi o que expus ao meu leitor fã do "comunismo cristão primitivo" sobre a perspectiva histórica. Na perspectiva doutrinária, acrescentei ser preciso muita imaginação para supor que, ante as circunstâncias daquele momento, a pequena comunidade dos cristãos de Jerusalém estivesse empenhada em propor à humanidade e aos milênios seguintes uma ordem econômica e social. Deduzi-lo do relato acima é pura sandice ideológica, com severos riscos de incorrer em farisaísmo se não for aplicado à vida concreta de quem o propõe aos demais. Em outras palavras, como aconselhei ao leitor: muito mais útil a ele aplicar pessoalmente o modelo de repartição que sugeria do que pôr-se a oferecê-lo aos povos e nações. Bastava-lhe reunir outros que pensassem assim, juntarem os respectivos trecos e partilharem tudo. Dado que discursos propondo comunismo ao mundo não faltam em parte alguma, não lhe seria difícil reunir parceiros para viverem segundo sua regra. Que ele e os que pensam como ele começassem dando o exemplo e partilhando o que lhes pertencia. Continuo esperando resposta. 

Brasil tem 82 escolas de primeiro mundo em áreas pobres


Antônio Gois
O Globo

Colégios públicos oferecem ensino de alta qualidade para aluno de baixíssima renda

AGÊNCIA O GLOBO / MARCELO CARNAVAL
Escola Estadual Dom Bosco, em Eirunepé, sudeste do Amazonas

O Brasil ainda está distante da meta de garantir a toda criança um ensino de qualidade, mas há, dentre as mais de 40 mil escolas públicas do país, um pequeno grupo que se destaca pela excelência. São colégios que, mais do que simplesmente figurar nas primeiras posições de rankings de avaliação, conseguem algo ainda mais extraordinário: atender alunos de baixíssima renda e deixá-los com indicadores de qualidade compatíveis aos de nações desenvolvidas.

Com ajuda do economista Ernesto Martins Faria, da Fundação Lemann, O GLOBO identificou essas escolas e investigou o que há em comum entre elas. Numa série de reportagens que se inicia hoje, há relatos do bom trabalho pedagógico em localidades improváveis como o interior amazonense, a área rural do Piauí, a periferia de Alagoas ou o sertão do Ceará.

Nas estatísticas e nas visitas realizadas pelos repórteres, foi possível identificar que o bom resultado não é, como resumiu Faria, fruto do acaso. Nessas escolas, é notável o esforço da direção e dos professores em não deixar que nenhum aluno fique para trás e de corrigir as deficiências na aprendizagem e os problemas de frequência assim que eles são detectados. Também chama a atenção o bom ambiente escolar, com poucos casos de indisciplina e professores estimulados.

O levantamento mostra que há no país 82 estabelecimentos públicos que, mesmo atendendo alunos que se encontram entre os 25% mais pobres do Brasil, conseguem atingir no Ideb, principal avaliação federal de qualidade do ensino, média igual ou superior a 6,0, considerada pelo MEC como patamar hoje de nações desenvolvidas.

Para identificar este grupo, Faria calculou, a partir das respostas de alunos sobre posse de bens de consumo nos questionários respondidos na Prova Brasil — exame do MEC aplicado a todos os colégios públicos do país — um indicador do nível socioeconômico de cada estabelecimento. As 43.574 escolas públicas para as quais foi possível fazer este cálculo foram então ranqueadas por dois critérios: 1) de acordo com o nível de pobreza dos estudantes e 2) pelo desempenho no Ideb.

Do confronto entre os dois rankings, foi possível verificar colégios que ganham mais de 40 mil posições. Ou seja, trabalham com os alunos da rabeira do ranking de pobreza, mas levam-nos ao topo do aprendizado.

Especialista defende horário integral
Para o diretor executivo da Fundação Lemann, Denis Mizne, mesmo sendo raras, o exemplo dessas escolas demonstra que é possível dar um ensino de qualidade para crianças mais pobres. Para isso, no entanto, é preciso que as instituições que atendem estes alunos sejam justamente as mais bem preparadas para compensar a dificuldade que eles apresentam por causa da condição socioeconômica dos pais.

— A gente se acostumou no Brasil a justificar o mau desempenho do aluno pela baixa educação dos pais. Agora, precisamos escolher se vamos tratar a educação pública como ferramenta que mantém as desigualdades ou que ajuda a compensá-las, de modo que as condições de pobreza da família em que a criança nasceu não sejam o único determinante de até onde ela conseguirá chegar. O exemplo dessas escolas prova que isso é possível.

Ser possível, no entanto, não significa ser simples. Para o pesquisador Francisco Soares, da UFMG, autor de vários estudos sobre escolas eficazes, a dificuldade enfrentada por colégios com alunos de baixo nível socioeconômico é que, além da desvantagem por atender filhos de pais menos escolarizados, esta condição vem às vezes associada a problemas como a violência dentro e fora de casa.

— Para estes alunos, a pedagogia precisa ser diferente. É nestas situações que precisamos de projetos de tempo integral — diz Soares.

Boa gestão atenua desigualdades
Desde 1966, quando o sociólogo James Coleman publicou um relatório pioneiro sobre os determinantes do desempenho escolar nos EUA, estudos no mundo inteiro, inclusive no Brasil, têm comprovado que o nível socioeconômico dos pais é o que mais influencia o aprendizado. É por isso que escolas particulares apresentam, em relação às publicas, uma vantagem extra.

— É muito mais fácil ter bons resultados trabalhando com os alunos mais ricos, tendo autonomia para alocar recursos, para contratar e demitir professores, e podendo excluir um estudante por baixo rendimento ou por indisciplina — diz Wanda Engel, do Instituto Unibanco.

Para ela, essas dificuldades, no entanto, podem ser compensadas ou atenuadas na rede pública com uma boa gestão.

— Há nas boas escolas públicas uma preocupação com resultados e um uso das avaliações como ferramenta de diagnóstico para corrigir os problemas.

Ernesto Faria, autor do levantamento que serviu de base às reportagens do GLOBO, concorda. Ao comparar as características das 82 escolas com alto Ideb, ele identificou que as instituições que mais fazem pelos seus alunos conseguem cumprir uma parte muito maior do currículo previsto. Nelas, os professores relatam em maior proporção que se sentem motivados pelo diretor e que há um clima de colaboração na equipe.

Os problemas de indisciplina são também muito menores e há, por fim, maior zelo na tarefa de não deixar que alunos evadam ou comecem a faltar às aulas. Nessas escolas, em proporção maior do que nas outras, pais são avisados por escrito, e a direção chega a enviar alguém à casa do aluno.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Isto prova uma coisa: dá, sim senhores,para se realizar um ensino de qualidade, de alto padrão, mesmo contando com dificuldades do tipo escassez de recursos, dificuldades de acesso em razão da distância e da geografia. É preciso ter a vontade de REALIZAR,  é preciso haver comprometimento efetivo de todos os envolvidos, alunos, profissionais de ensino, pais, comunidade, autoridades públicas. Não há fórmula mágica, apenas responsabilidade e trabalho, muito trabalho que, no final, compensa muito pelos resultados que produz. 

Infelizmente, como a reportagem demonstra o universo destas escolas “modelo”, podemos dizer assim, ainda é muito pequeno.  São apenas 82 unidades num amplo universo de mais de 43 mil escolas públicas. Mesmo assim, são exemplos de como se chega lá. 

Reparem num ponto importantíssimo: por se localizarem em áreas do interior, sem muito “glamour”, constatou a reportagem o esforço dos professores e diretores destas escolas em se dedicarem ao máximo em favor das crianças sob seus cuidados. Duvido que estes profissionais tenham salários acima da média do que é pago nas demais cidades do país. E no entanto, mesmo com salários muitas vezes ínfimos, não deixam de cumprir com a sua missão de ensinar. E é muito provável que a distância tenha contribuído para outro aspecto positivo: manter a quadrilha sindical distante. E quando isto acontece, ressalta sempre o profissionalismo. Parece simples, não é mesmo? Parece e é simples, basta querer!!!

Vale, portanto, o quadro abaixo, ele diz muito sobre os tempos que vivemos.

Livre pensar é só pensar (Millôr Fernandes)



Após 52 dias, greve de professores ainda não tem previsão de término


Comentando a Notícia

O texto a seguir do Portal  G1, narra de maneira vergonhosa o quanto o governo Dilma é ruim de serviço. Mais vergonhoso, e também patético, a atuação omissa e distante do ministro Aloisio Mercadante, como se o problema não lhe dissesse respeito. Até por questão de justiça, se deve informar que o quadro miserável em que se encontram as escolas federais, universidades e técnicas, são produto da herança maldita da gestão Fernando Haddad. Mas isto não serve de escudo para Mercadante esconder-se e deixar de cumprir seu papel para resolver a questão.

Impossível não reconhecer que o prejuízo maior ficará com os estudantes que já o ano escolar completamente perdido, sem contar no prejuízo maior que sentirão mais adiante quando completarem seus cursos mal passados.

Mercadante era figurinha obrigatória nas greves dos tempos em que era oposição. Como sempre se disse e se soube, greve no governo alheio é refresco. Assim, sua atuação patética de agora demonstra que no governo dos outros, seu comportamento sempre foi demagógico, de puro oportunismo.

Não adianta o ministro ficar empurrando o problema para o Ministério do Planejamento resolver. Os grevistas estão ligados à instituições sob a direção do MEC. Assim, o senhor Mercadante já deveria ter tomado a linha de frente, ido negociar diretamente com o comando dos grevistas e intermediar uma solução viável junto ao Ministério do Planejamento, para não prejudicar os alunos mais do que já foram. Inadmissível transferir responsabilidades neste caso e cruzar os braços.

Da mesma forma, não se entende a negativa da presidente Dilma em atender ou até chamar os ministros responsáveis em resolver a questão junto aos grevistas, uma vez que que estes formam a futura classe dirigente deste país, e não podem ter sua formação profissional tão maltratada. Estamos diante de um descaso injustificável que já entrou no terreno da irresponsabilidade e da bagunça governamentais. Afinal o governo é dela, e os ministros compõem seu pessoal auxiliar, portanto, em última análise, a responsabilidade maior é justamente de Dona Dilma. 

Assim fica a pergunta: afinal, presidente, Educação é ou não prioridade em seu governo?

Segue o texto do Portal G1.     

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Não há data para a reunião de negociação com docentes das federais.

Desde 11 de junho, servidores das instituições também estão em greve.

(Foto: G1)
Manifestações de professores, servidores técnicos e estudantes
 das instituições federais em São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais e no Distrito Federal


A mobilização nacional de professores das instituições federais de ensino pela reestruturação da carreira docente completa 52 dias neste sábado (7) e ainda não tem previsão para chegar ao fim. De acordo com as entidades que representam a categoria, desde 17 de maio já aderiram à paralisação, parcial ou totalmente, professores de 56 das 59 universidades federais, 34 dos 38 institutos, além dos dois centros de educação tecnológica (Cefets) e do Colégio Federal Pedro II.

Em 28 de junho, o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão afirmou, por meio de sua assessoria, que a reunião com as entidades que representam a categoria dos docentes, agendada para o dia 19, deveria acontecer na primeira semana de julho, mas ainda sem data confirmada. Porém, ela não aconteceu. Ainda, de acordo com o Ministério, até a noite de sexta-feira (6), não havia nenhum outro encontro agendado. 

A categoria dos docentes pleiteia carreira única com incorporação das gratificações em 13 níveis remuneratórios, variação de 5% entre níveis a partir do piso para regime de 20 horas correspondente ao salário mínimo do Dieese (atualmente calculado em R$ 2.329,35), e percentuais de acréscimo relativos à titulação e ao regime de trabalho.

Servidores técnico-administrativos
Os servidores das instituições federais entraram em greve em 11 de junho. Segundo os sindicatos, atualmente todas as 59 universidades estão em greve parcial ou total, além do Colégio Pedro II, dos Cefets e de 36 institutos em 24 estados.

As principais reivindicações da categoria são o aumento do piso salarial em 22,8% e a correção das pendências da carreira desde 2007. O piso atual é de R$ 1.034. Os servidores fizeram uma greve de quase quatro meses no ano passado, mas não houve negociação com o governo e a paralisação foi encerrada.

Sisu
Mais de 40 instituições federais que participam do processo seletivo do segundo semestre do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) têm servidores técnico-administrativos em greve parcial ou total durante o período de matrículas dos aprovados na primeira chamada do sistema do Ministério da Educação, que vai até a segunda-feira (9).

Segundo levantamento feito pelo G1, na maioria delas, as matrículas estão sendo realizadas graças ao remanejamento de servidores que não aderiram à greve e estão cumprindo as tarefas consideradas essenciais, entre elas, a matrícula do Sisu.

Em nota divulgada na quinta-feira (5), o MEC informou que todas as 21 universidades e 27 institutos federais, além das oito universidades estaduais, estão recebendo normalmente as matrículas. Segundo o ministério, as federais do Rio de Janeiro, Tocantins, Maranhão, Ceará, Semi-Árido (Mossoró), Lavras, Recôncavo Baiano e o Instituto Federal do Ceará estão recebendo matrículas on-line, via internet. Os estudantes podem utilizar o telefone 0800-616161 para obter informações e esclarecer dúvidas.

Veja abaixo a lista de universidades, institutos e centros federais que têm professores e servidores parados parcial ou totalmente. Os dados sobre professores foram atualizados pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) e pelo Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe) no dia 28 de junho. Já as informações sobre servidores de universidades foi atualizada pelo comando de greve da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades Públicas Brasileiras (Fasubra) na sexta-feira (6).


ENTENDA A GREVE NAS UNIVERSIDADES FEDERAIS

PROFESSORES

SERVIDORES

Desde 17 de maio, professores das instituições federais fazem um movimento de greve nacional que já atingiu 95% da categoria, segundo o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes).

A paralisação nacional dos servidores teve início em 11 de junho e, segundo a última atualização dos sindicatos, pelo menos 90% dos institutos federais tinham servidores parados, segundo o Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe).

PRINCIPAIS REIVINDICAÇÕES

- Criação de uma carreira única, com a incorporação das gratificações em 13 níveis remuneratórios

- Aumento do piso salarial em 22,8% com a correção das pendêncais da carreira desde 2007 (atualmente, ele é de R$ 1.304)

- Variação de 5% entre níveis a partir do piso, para o regime de 20 horas correspondente ao salário mínimo do Dieese (atualmente calculado em R$ 2.329,35)

- Devolução do vencimento básico complementar absorvido na mudança na Lei da Carreira, de 2005

- Percentuais de acréscimo relativos à titulação e ao regime de trabalho

- Reposicionamento dos servidores aposentados

O QUE DIZ O MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

O MEC afirma que que quem define a agenda de negociação é o Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG). O Ministério da Educação está com uma proposta de plano de carreira pronta, para apresentar na próxima reunião agendada pelo MPOG – basicamente priorizando a dedicação exclusiva e titulação docente.





Uma CPI programada para fracassar


Editorial
O Globo

Frustrado o plano de um grupo do PT de instalar a CPI do Cachoeira para manipulá-la a fim de ajudar mensaleiros e tentar emparedar a imprensa profissional, a comissão passou a ser um trambolho do qual o governo tenta se livrar.

Tem obtido êxito até agora. Criada a partir de duas operações da Polícia Federal, Monte Carlo e Las Vegas, a CPI reúne farto material para empreender uma ação histórica no Congresso contra a infiltração do crime organizado nos poderes republicanos. E por isso ela não evolui.

O esquema do contraventor goiano Carlinhos Cachoeira, investigado pela PF, parece bem conectado com a gestão do tucano Marconi Perillo, em Goiás, mas também com a administração do petista Agnello Queiroz, em Brasília, assim como no Congresso — vide Demóstenes Torres — e em meandros da administração federal responsáveis por contratar obras. Neste braço do esquema está a empreiteira Delta. Há, ainda, registros de contatos no Judiciário e no Ministério Público.

O material levantado pela PF, repleto de registros de ações criminosas, muitas na esfera da subtração do dinheiro público, mereceria um profundo trabalho de garimpagem, pela CPI, na reconstituição desta enorme trama montada a partir do contraventor.

Assim, seria possível propor alterações de legislação para evitar a repetição dos delitos. Tudo ilusório. Mas espera-se, pelo menos, que a Justiça e o MP consigam desmentir a ideia de que no Brasil reina a impunidade, ainda mais quando se trata de punir poderosos ou pessoas articuladas com poderosos.

A CPI, afinal, convocou Fernando Cavendish, da Delta — grampeado garantindo comprar políticos por milhões —, o ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antônio Pagot, um dos pontos cardeais dos “malfeitos” cometidos no Ministério do Transportes desmontado por Dilma, e o prefeito de Palmas (TO), o petista Raul Filho, protagonista da, pelo visto, farta videoteca de Cachoeira.

Assim como Waldomiro Diniz, ainda presidente da Loterj, antes de ir para a assessoria de José Dirceu, na Casa Civil, em 2003, foi gravado pelas sensíveis câmeras de Cachoeira em cena explícita de corrupção, Raul Filho foi enquadrado em cenas semelhantes, num toma lá dá cá em torno de contribuição para caixa dois eleitoral em troca de ajuda em concorrências no município.

Mas há visíveis sinais de que tudo continuará na mesma, com a CPI servindo apenas de palco de novas refregas político-partidárias entre PT e oposição. A própria convocação de Paulo Vieira de Souza, Paulo “Preto”, acusado pelo ex-diretor do Dnit, em entrevista à “IstoÉ”, de pedir aditivos para obras no Rodoanel, é nítida operação voltada às eleições paulistanas.

Pois Paulo é acusado de ser alimentador do suposto caixa dois da campanha de José Serra à presidência, em 2010. Os tucanos tentaram, em resposta, chamar o tesoureiro de Dilma, o deputado José de Filippi Jr (PT-SP), porque Pagot disse ter sido procurado por ele para indicar contribuintes em potencial.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
O Editorial do Jornal O Globo está correto em parte. Na verdade, a CPI foi incentivada por Lula por ver ali a oportunidade de embaralhar o cenário político, gerar confusão e tirar o foco do julgamento do Mensalão. Aliás, Lula também agiu para conter o STF em relação ao julgamento.

Outro objetivo antevisto por Lula era destruir mais um pedaço da oposição. Basta ver o comportamento tanto da base aliada do governo ao longo da CPI como, principalmente, a do relator da CPI, deputado Odair Cunha, com atitudes inconvenientes e pouco recomendáveis para a sua posição de relator.

Como a CPI não produziu os maus frutos que Lula desejava, e ao longo dos trabalhos foram aparecendo atores muito próximos ao governo, além da própria atuação da Delta envolver pessoas aliadas do poder, agora se tenta esvaziar a CPI para que não produza resultado algum.

Esta programação de "não dar em nada" não era o objetivo inicial quando de sua criação. Ela se tornou uma espécie de plano B em razão de que revelações tanto da Delta quanto de Cachoeira começaram a indicar a participação de outros agentes, todos ligados ao governo de uma forma ou de outra, e isto, em ano eleição não é desejável.   

Laranja da Delta fez saque de 5 milhões de reais


Gabriel Castro
Veja online

VEJA localizou Bruno Estefânio de Freitas, que mora na periferia mas é dono de empresa de fachada que recebia recursos da construtora

(Daniel Ramalho) 
Coaf detectou transação suspeita envolvendo a Delta 

Reportagem de VEJA desta semana joga luz sobre o esquema nebuloso utilizado pela construtora Delta para esconder o destino de parte de seu gigantesco faturamento. A equipe da revista localizou Bruno Estefânio de Freitas, um laranja do empresário Fernando Cavendish que sacou 5 milhões de reais em dinheiro de uma conta abastecida pela Delta. A agência bancária onde ocorreu a retirada é a mesma utilizada pela construtora.

No papel, Bruno é dono de uma empresa de terraplenagem que recebeu, nos quatro primeiros meses deste ano, 12 milhões de reais. Parte desses recursos foram repassados pela Delta. Na prática, o improvável milionário está desempregado e tem endereço registrado em um conjunto habitacional na periferia do Rio de Janeiro.

O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que detectou a transação suspeita destaca o fato de o saque ter sido feito na Barra da Tijuca, a 140 quilômetros do local registrado como sede da MB - que, aliás, informa como endereço uma sala onde funciona uma firma de consultoria financeira. O A VEJA, Bruno negou ser dono da MB: "É engano isso aí". São mais perguntas para a CPI do Cachoeira responder.

Servidor sugere fraude e acusa aliados de prefeito de chefiar Delta em Palmas


Fernando Gallo e  Lailton Costa 
O Estado de S.Paulo

Um funcionário municipal de Palmas afirmou em depoimento à Polícia Civil do Tocantins que dois ex-secretários do prefeito Raul Filho (PT) são os reais responsáveis pelos negócios locais da Delta. A testemunha apontou ainda indícios de fraude nos serviços prestados pela empreiteira na cidade.

O prefeito petista está convocado pela CPI do Cachoeira para depor na terça-feira em Brasília a fim de explicar suas relações com a Delta e com o esquema do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Num vídeo gravado em 2004 e revelado na semana passada pelo Fantástico, da TV Globo, o então candidato Raul Filho promete benefícios na administração a Cachoeira, em troca de ajuda em sua campanha. Dois anos depois, com o petista já eleito, a Delta obteve contratos milionários de limpeza urbana - eles ainda estão em vigor e vão até 2014. A empreiteira é apontada pela Polícia Federal como integrante de um esquema corruptor do qual Cachoeira também faz parte.

O engenheiro Luiz Marques, que era responsável pela fiscalização dos serviços da Delta na capital entre 2007 e 2011, afirmou no depoimento à polícia que Pedro Duailibe, cunhado de Raul Filho e ex-secretário de Governo, e Jair Correa Júnior, ex-secretário de Infraestrutura, comandam a empresa na cidade.

Ainda em seu depoimento, prestado em agosto do ano passado, Marques disse que Raul Filho tem ciência do que ocorre entre a prefeitura e a empreiteira.

A Polícia Civil abriu inquérito a fim de reforçar as investigações sobre suspeitas de fraudes nos serviços da Delta. A apuração ainda está em andamento e vem servindo como complemento a uma ação civil de 2010 movida pelo Ministério Público contra a empreiteira e servidores da Prefeitura de Palmas. Um dos alvos da ação, Marques assumiu o papel de acusador no inquérito policial.

Pedro Duailibe foi exonerado do cargo em abril, após assumir que era para ele um depósito de R$ 120 mil feito pelo tesoureiro da Delta no Centro-Oeste, Rodrigo Dall Agnol, na conta de uma assessora fantasma de sua irmã, Solange Duailibe. Solange é deputada estadual e primeira-dama de Palmas. Jair Júnior, que também é alvo da ação civil, deixou a prefeitura no fim de 2010.

Planilhas. O engenheiro disse à polícia que o trâmite normal de fiscalização dos serviços da Delta não era seguido. Segundo ele, as planilhas de medição do serviço de coleta de lixo já lhe chegavam prontas, com a assinatura do secretário, que normalmente é o último a assinar. E acrescentou que, nos contratos feitos com outras empresas, as anotações das medições eram feitas por um subalterno seu, depois seguiam para que ele conferisse, produzisse e assinasse as planilhas. Só então elas seguiam para Jair Júnior assinar.

Luiz Marques declarou à polícia que algumas vezes um funcionário da prefeitura de nome Gleidson o procurou para trocar as planilhas mesmo depois de feitos os pagamentos à Delta com base nas planilhas anteriores. E disse que chegou a ser procurado à noite, em casa, para que assinasse documentos e que tudo o que dizia respeito a pagamentos à Delta era tido como prioridade.

O engenheiro declarou que um dos contratos de emergência entre a prefeitura e a empresa - foram quatro dispensas de licitação - chegou pronto à secretaria. Ele sustentou ainda que Jair Júnior usava um carro da Delta quando era secretário e tinha um genro que trabalhava na empresa, em Rio Verde, cidade de Goiás.

Um outro servidor do mesmo departamento, Raimundo Gonçalo, responsável pelas medições do serviço da Delta em campo, admitiu à polícia que a Delta pagou bilhetes aéreos para que seu filho Ronaílson fosse ao Rio participar de uma seletiva de um time de futebol. Ele negou, porém, ter havido "troca de favores".

Ex-funcionário da Delta, Cachoeira e seu contador sumido podem revelar como políticos movimentam milhões entre Brasil, Angola e Paris


Jorge Serrão
Alerta Total

Exclusivo - Podem vir à tona, na CPI do Cachoeira, gravíssimas revelações sobre as secretas conexões de negócios e movimentação de dinheiro que a cúpula petista e seus aliados mais próximos (principalmente do PMDB) promovem entre Brasil, Angola, Paris e arredores. Transações financeiras bilionárias e ilegais da construtora Delta, com pagamentos (também fora da lei) para deputados, senadores, governadores e outros políticos menos votados, podem ser denunciados por um ex-funcionário da empreiteira de Fernando Cavendish, que foi ameaçado de morte e pretende se vingar, contando tudo que sabe à CPI que Luiz Inácio Lula da Silva se arrepende, amargamente, de ter forçado a barra para ajudar a criar.

A petralhada e seus comparsas em esquemas escusos também tremem de medo com uma possível vingança de Carlinhos Cachoeira. Preso há 128 dias, nem o genial e influente advogado Márcio Thomaz Bastos consegue emplacar recursos para libertá-lo. Cansado de ficar na cadeia, deprimido, perdendo peso e ficando doente, o empresário é um arquivo-vivo, pronto para comprometer gente muito importante, caso corra o risco de ser o único punido no escândalo que faz o impune mensalão parecer um roubo de galinhas. Usando sua simpática, jovem e bela mulher como porta-voz, Cachoeira “pediu para falar para o Brasil que ele tem o que dizer”.

Os segredos da conexão Brasil-Angola-Paris – que podem envolver companheiros e aliados de Luiz Inácio Lula da Silva e do governador Sérgio Cabral Filho - também podem ser revelados pelo Banco Central do Brasil. O presidente da autoridade monetária, Alexandre Tombini, corre o risco de ser convocado pela CPI para explicar, oficialmente, como a construtora Delta teria feito o milagre econômico de movimentar altas somas em dinheiro, incompatíveis com a faturamento da empreiteira, entre os anos de 2002 e 2012. Antes de se tornar a super-empreiteira do PAC de Lula e Dilma, desde 2002, a Delta tinha negócios de R$ 450 milhões com o governo de Sérgio Cabral no Estado do Rio de Janeiro. 

Além do BC do B, três personagens teriam a “memória de cálculo” da gigantesca movimentação de dinheiro operada pela Delta: Carlinhos Cachoeira, o seu contador Geovani Pereira da Silva e, agora, um ex-empregado da Delta, ameaçado de morte. Muito curioso – ou sintomático – é que o tesoureiro do esquema de Cachoeira, Geovani Pereira da Silva, seja o único foragido da Operação Monte Carlo, o contador de Cachoeira seria o elo financeiro do “clube” com os políticos. Caso reapareça vivo, Geovani deverá receber o convite de uma delação premiada para explicar como o bicheiro Carlinhos Cachoeira usou duas empresas de fachada — a Brava Construções e a Alberto & Pantoja — para movimentar R$ 39 milhões, entre 2010 e 2011, liberando os mensalões para os parceiros.

A Delta era a principal empresa do PAC, cuja mãe é a Presidenta Dilma e o padrasto, lógico, era Luiz Inácio Lula da Silva. Engraçado é como só Cachoeira apareça como o “filho da mãe” de uma grande famiglia mafiosa... Investigações da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, reuniram provas objetivas de que o caixa da Delta Construções no Rio de Janeiro abastecia empresas de fachada do esquema de Carlinhos Cachoeira, usando “laranjas” – pessoas aparentemente inocentes que nem sabiam de nada ou não levaram dinheiro do esquema mafioso.

Caso Carlinhos Cachoeira resolva romper seu silêncio forçado, dedurando aliados que agora não lhe dão ajuda no momento crítico, o defensor de honra dos ilustres petistas, criminalista Márcio Thomaz Bastos, terá de trabalhar mais que Hércules para livrar a barra dos implicados no escândalo – cujos nomes ainda não vieram à tona das águas turvas e fétidas do Delta da Cachoeira (um ponto geográfico imaginário onde se centraliza o Governo do Crime Organizado).

A gente somos Inútil
Deve servir para nada ou muito pouco a convocação, para depor na CPI, de Fernando Cavendish; do ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antonio Pagot, e do prefeito de Palmas, Raul Filho (PT).

Todos apelarão para a manjada manobra de só falar em juízo, para não criar provas desnecessárias contra si.

Enquanto o negócio não pegar para o lado de gente poderosa, como Sérgio Cabral e Cia, nada vai acontecer de mais sério nas investigações.