domingo, julho 08, 2012

Uma CPI programada para fracassar


Editorial
O Globo

Frustrado o plano de um grupo do PT de instalar a CPI do Cachoeira para manipulá-la a fim de ajudar mensaleiros e tentar emparedar a imprensa profissional, a comissão passou a ser um trambolho do qual o governo tenta se livrar.

Tem obtido êxito até agora. Criada a partir de duas operações da Polícia Federal, Monte Carlo e Las Vegas, a CPI reúne farto material para empreender uma ação histórica no Congresso contra a infiltração do crime organizado nos poderes republicanos. E por isso ela não evolui.

O esquema do contraventor goiano Carlinhos Cachoeira, investigado pela PF, parece bem conectado com a gestão do tucano Marconi Perillo, em Goiás, mas também com a administração do petista Agnello Queiroz, em Brasília, assim como no Congresso — vide Demóstenes Torres — e em meandros da administração federal responsáveis por contratar obras. Neste braço do esquema está a empreiteira Delta. Há, ainda, registros de contatos no Judiciário e no Ministério Público.

O material levantado pela PF, repleto de registros de ações criminosas, muitas na esfera da subtração do dinheiro público, mereceria um profundo trabalho de garimpagem, pela CPI, na reconstituição desta enorme trama montada a partir do contraventor.

Assim, seria possível propor alterações de legislação para evitar a repetição dos delitos. Tudo ilusório. Mas espera-se, pelo menos, que a Justiça e o MP consigam desmentir a ideia de que no Brasil reina a impunidade, ainda mais quando se trata de punir poderosos ou pessoas articuladas com poderosos.

A CPI, afinal, convocou Fernando Cavendish, da Delta — grampeado garantindo comprar políticos por milhões —, o ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antônio Pagot, um dos pontos cardeais dos “malfeitos” cometidos no Ministério do Transportes desmontado por Dilma, e o prefeito de Palmas (TO), o petista Raul Filho, protagonista da, pelo visto, farta videoteca de Cachoeira.

Assim como Waldomiro Diniz, ainda presidente da Loterj, antes de ir para a assessoria de José Dirceu, na Casa Civil, em 2003, foi gravado pelas sensíveis câmeras de Cachoeira em cena explícita de corrupção, Raul Filho foi enquadrado em cenas semelhantes, num toma lá dá cá em torno de contribuição para caixa dois eleitoral em troca de ajuda em concorrências no município.

Mas há visíveis sinais de que tudo continuará na mesma, com a CPI servindo apenas de palco de novas refregas político-partidárias entre PT e oposição. A própria convocação de Paulo Vieira de Souza, Paulo “Preto”, acusado pelo ex-diretor do Dnit, em entrevista à “IstoÉ”, de pedir aditivos para obras no Rodoanel, é nítida operação voltada às eleições paulistanas.

Pois Paulo é acusado de ser alimentador do suposto caixa dois da campanha de José Serra à presidência, em 2010. Os tucanos tentaram, em resposta, chamar o tesoureiro de Dilma, o deputado José de Filippi Jr (PT-SP), porque Pagot disse ter sido procurado por ele para indicar contribuintes em potencial.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
O Editorial do Jornal O Globo está correto em parte. Na verdade, a CPI foi incentivada por Lula por ver ali a oportunidade de embaralhar o cenário político, gerar confusão e tirar o foco do julgamento do Mensalão. Aliás, Lula também agiu para conter o STF em relação ao julgamento.

Outro objetivo antevisto por Lula era destruir mais um pedaço da oposição. Basta ver o comportamento tanto da base aliada do governo ao longo da CPI como, principalmente, a do relator da CPI, deputado Odair Cunha, com atitudes inconvenientes e pouco recomendáveis para a sua posição de relator.

Como a CPI não produziu os maus frutos que Lula desejava, e ao longo dos trabalhos foram aparecendo atores muito próximos ao governo, além da própria atuação da Delta envolver pessoas aliadas do poder, agora se tenta esvaziar a CPI para que não produza resultado algum.

Esta programação de "não dar em nada" não era o objetivo inicial quando de sua criação. Ela se tornou uma espécie de plano B em razão de que revelações tanto da Delta quanto de Cachoeira começaram a indicar a participação de outros agentes, todos ligados ao governo de uma forma ou de outra, e isto, em ano eleição não é desejável.