Josias de Souza
Em reveladora entrevista, o economista Luciano Coutinho, presidente do BNDES atribui ao empresariado uma parcela de culpa pela dificuldade do Brasil salvar o seu PIB dos efeitos crise financeira global.
Coutinho, hoje um dos principais conselheiros econômicos de Dilma Rousseff, falou aos repórteres Valdo Cruz e Ana Estela de Sousa Pinto. A certa altura da conversa, disponível aqui, falou sobre algo que chamou de “circunstância de curto prazo.”
“Precisamos lembrar aqui duas coisas. Primeiro, o empresariado é muito ciclotímico. O mercado é ciclotímico em geral.
Ele vai para a euforia quando, em 2010, tínhamos um estado de euforia que ia além da realidade. Quando as coisas, especialmente com a crise internacional, são mais difíceis, o empresariado também cai numa posição muitas vezes mais pessimista do que o potencial brasileiro.”
De fato, o empresário brasileiro está pessimista. Tão pessimista que olha para os dois lados antes de atravessar uma avenida de mão única. Todo esse pessimismo é, porém, compreensível. Num cenário em que o retorno dos investimentos é incerto, quem se arriscaria a investir? O dinheiro, como se sabe, fala grosso. Mas também tem medo.
Tem medo da taxa de câmbio, ainda desajustada. Tem medo da debilidade financeira que leva a Europa a importar menos do Brasil. Tem medo da própria ineficiência. Tem medo da concorrência dos produtos chineses. Tem medo da elevada taxa de endividamento das famílias brasileiras, que inibe o consumo interno. Tem medo da incúria do Estado, que sonega infraestrutura e onera os custos. Tem medo da extorsiva carga de tributos. Tem medo disso e daquilo.
Coutinho rebate os que acusam o governo de inércia. “Não é verdade”, afirma, em timbre peremptório. “Chamo a atenção primeiro para o fato de um dos grandes desafios brasileiros, que era o primeiro que o empresariado sempre colocava, os juros muito altos, esta é uma página que está sendo virada. Vamos fazer pouco disso? Não.”
É verdade. O desaquecimento das fornalhas propiciou a queda dos juros. Devem cair ainda mais. O diabo é que o ser humano, quando lhe dão a mão, passa a desejar o braço. E o empresariado, feito 50% de dúvidas e 50% de insatisfação, pergunta aos seus botões: e quanto ao resto?
Numa vã tentativa de borrifar otimismo na atmosfera de pessismo, Coutinho diz que o PIB tende a se reencontrar com o crescimento a partir da cominação de duas variáveis: a “condição condição macroeconômica privilegiada” do Brasil e perspectivas de “desenvolvimento do sistema financeiro privado.”
Porém, o conselheiro de Dilma reconhece: para chegar a taxas graúdas de crescimento, o país terá de responder a “dois grandes desafios que restam, que são estruturais.
Quais? O desafio da competitividade e da produtividade. E o da estrutura tributária. São os dois desafios de longo prazo.”
Coutinho disse que estão em fase de gestação no governo algumas medidas econômicas de longo prazo. Perguntou-se ao mandarim do BNDES se tais estudos incluem a encrenca tributária, um dos “grandes desafios” mencionados por ele. Eis a resposta:
“Não, a área tributária é a mais difícil. Porque qualquer mexida em sistema tributário tem impacto sobre a distribuição entre esferas de governo e regiões do país. Mudanças tributárias primeiro têm um certo grau de risco.”
Como assim? “Precisaríamos estar num grau de solidez macroeconômica tal, estamos chegando perto disso, porque qualquer mudança no sistema tributário pode produzir perdas maiores do que as previstas. Um sistema mais perfeito tem de combinar uma redução paulatina da carga tributária, porque não é realista imaginar uma redução radical da carga tributária, como muitos querem.”
Sim, mas e daí? “Esse é o desafio mais difícil, precisa ser amadurecido, não é apenas uma coisa de um governo, são propostas que precisam ser amplamente costuradas. Começa na sociedade e com o sistema político, porque caso contrário a chance de sucesso é pequena.”
Quer dizer: na opinião de Coutinho o nó tributário depende do amadurecimento da “sociedade”. Não é coisa “de um governo”. Considerando-se que o mesmo Coutinho condiciona a evolução do PIB ao desatamento laço, pode-se concluir que as coisas ainda vão piorar muito antes de… piorar.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A declaração do senhor Luciano Coutinho, se não é infantil, beira à leviandade. Ora, é fácil para a turma do governo apontar que os empresários são culpados pelo fraco desempenho da economia por conta de seu pessimismo. Muito bem, senhor Coutinho: quem é maluco de jogar dinheiro no lixo, num país em que o próprio governo não faz o que lhe compete fazer?
Ao contrário do governo, senhor Coutinho, o empresário que investir mal seu dinheiro vai à falência. Já o governo do qual o senhor faz parte, se tiver prejuízo vai descontá-lo nas costas dos contribuintes.
Considerado o Custo Brasil, o país é um dos piores no ranking de ambiente de negócios no mundo. Custo Brasil, acrescente-se, derivado da inércia e da própria incompetência gerencial do governo Dilma. Vimos há pouco, num texto do Estadão que, apesar de contar com R$ 50 bilhões disponíveis, o governo alega não ter onde investir, o que é um absurdo.
Não senhor Coutinho,o governo que dê condições mínimas para melhorar o ambiente de negócios, e lhe garanto que não faltará do empresariado vontade e disposição em investir. Um pouco de senso de realidade não faria mal nenhum ao presidente do BNDES, pelo menos evitaria dar declarações cretinas.
