domingo, janeiro 23, 2022

A era da dispersão

 Fernando Schüler 

Veja online

Há uma indústria inteira focada em capturar aquilo que cada um de nós tem de mais importante: nosso tempo e nossa atenção

  iStock/Getty Images

MUNDO VIRTUAL - 

O metaverso: seremos mesmo qualquer coisa dentro dele? - 

O perigo chegou de mansinho. Você precisa entregar aquele projeto, na empresa, e quando menos percebe está assistindo a vídeos sobre tsunamis no YouTube. Você decide fazer aquela pós-¬graduação que planejava há muito tempo, mas na sexta-feira à noite, no meio da aula, está perdido checando mensagens, no Whats¬App, ou bisbilhotando a vida de um monte de gente que você mal conhece, no Instagram.

Leio que nós, brasileiros, gastamos três horas e 42 minutos todos os dias nas redes sociais. Pouco mais de dez horas na internet, sendo metade disso em um telefone celular. Achei incrível isso. Gastamos mais de vinte horas por mês só no TikTok, e a coisa vem crescendo. Fui somando tudo com o que as pessoas presumivelmente fazem desconectadas (dormir, por exemplo, ou quem sabe ler alguma coisa) e a conta não fecha. Será que as pessoas transam checando o último bate-boca no Twitter? A última novidade parece ser o metaverso. Vejo um especialista animado dizendo “você poderá ser qualquer coisa por lá, um gato, um coelho, ou mesmo um Elvis Presley”, e garante que será a rede dominante no futuro próximo.

Há quem diga que não vê nenhum problema nisso. A sobrecarga de informação é um fato do nosso tempo e é natural que percamos um pouco do dia separando o joio do trigo. Há quem vá mais longe e diga que a dispersão no mundo digital pode ser mesmo um modo de vida. Conheço uma senhora que passa o dia no YouTube, e parece que está tudo bem. De vez em quando ela faz um comentário do tipo: “Viram a última gafe do Faustão?”. A psicanalista Élisabeth Roudinesco vai nessa direção. Ela diz que “estar o tempo todo conectado é melhor do que usar drogas”. Achei fraco o argumento. Sou dos que desconfiam que há um problema bastante grave aí, que em geral costumamos empurrar para debaixo do tapete.

Talvez eu ache isso porque sou professor. Percebo o efeito destruidor sobre a atenção dos alunos pela simples presença de um celular em sala de aula. Um estudo feito na Universidade Carnegie Mellon mostrou que o desempenho de alunos com seus aparelhos ligados, em testes padronizados, é 20% menor do que o de alunos inteiramente focados. Outra pesquisa mostra que levamos até 23 minutos para retomar a atenção quando somos interrompidos. Se fossem dez ou quinze minutos, isso não faria lá grande diferença. Esse não é o ponto central.

O ponto é que andamos em meio a uma guerra. Quem faz o alerta é um ex-estrategista do Google, James Williams, que lança agora no Brasil seu livro Liberdade e Resistência na Economia da Atenção. Williams trabalhava no Google exatamente na área de “programação persuasiva”. Era pago para criar estratégias de “captura” da atenção das pessoas. Em um dado momento, percebeu que ele mesmo havia perdido o controle. Não era a primeira vez que tinha acontecido isso. No ensino médio se meteu com games digitais e quase dançou. Depois fez uma carreira de sucesso, na indústria da tecnologia, focado em “fidelizar” usuários, até perceber que ele mesmo havia sido fisgado. A partir daí, deu um tempo. Foi estudar em Oxford e tentar decifrar o problema.

Ele diz que vivemos uma epidemia. Que há uma indústria inteira focada em capturar aquilo que cada um de nós tem de mais importante: nosso tempo e nossa atenção. Captura voluntária, feita com técnicas sofisticadas de inteligência artificial, uso de cookies, de clickbaits, aqueles conteúdos “caça-¬cliques” com títulos do tipo “Dez vídeos que vão fazer você chorar”, e coisas do tipo. O tempo de atenção de cada indivíduo passou a ser milimetricamente monitorado. Se tornou, ele mesmo, o produto. Há um velho conceito de “liberdade como autodomínio” em jogo aí, e é precisamente isso, a retomada do controle sobre nossa própria atenção, que Williams enxerga como o “grande desafio da nossa época”.

A informação foi, no passado, um bem escasso. Em Relatos do Mundo, Tom Hanks faz o papel de um veterano da Guerra Civil que ganha a vida lendo notícias de jornal em teatros e igrejas nas pequenas cidades do Velho Oeste. A atenção, à época, era abundante, diante da informação rarefeita. A coisa hoje se inverteu. A informação se tornou abundante e a atenção, um recurso escasso. Acessamos muito mais informação do que precisamos. Ela vem de maneira caótica, em boa parte mesquinha, feita de qualquer besteira capaz de capturar nossa atenção.

“Há uma epidemia: uma indústria inteira querendo
 capturar nosso tempo”

Sempre me surpreendo com o oceano de informação irrelevante que toma conta do debate público. O acidente de moto do general Pazuello, a “quentinha” do Wagner Moura com os sem-teto, a última treta do Zé de Abreu com não sei quem. A lista dos trend topics do Twitter é um bom mostruário do besteirol infinito, mas está longe de ser o único. O resultado está aí. A política transformada em um exercício permanente de incomunicabilidade, em que cada um tem a sensação de ganhar alguma coisa, no curtíssimo prazo, e todos perdem, coletivamente.

O primeiro resultado da dispersão crônica é a perda do sentido de potência e realização pessoal. Tenho um amigo escritor que a cada dois anos passa um tempo numa pousada, no interior, escrevendo seus livros. Ele guarda o celular em um cofre e desliga seu acesso à internet. Ele entra em flow. Um estado de completa imersão no que está fazendo. Isso lhe dá um sentido de autodomínio e a sensação de que realmente está fazendo o que havia decidido fazer. O modo dispersivo dos meios digitais poderia tirar tudo isso dele. Em troca, lhe daria uma sucessão de recompensas de curto prazo, em geral inúteis.

Outro resultado são as microafetações de humor. Há uma tonelada de estudos que mostram a conexão direta entre o uso intensivo de redes sociais e o aumento da ansiedade e do estresse. A permanente comparação de sua vida real com a vida “editada”, dos outros; a raiva que dá, todas as manhãs, ao checar as opiniões do político que você odeia e dos queridos amigos que gostam dele. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Pittsburgh conduziu um amplo estudo identificando “uma significativa associação entre o uso das mídias sociais e o aumento da depressão”. Eu me lembrei da definição algo poética de Tim Wu sobre a liberdade: a possibilidade de “viver sem ansiedade”. No fundo é isso que está em jogo.

Sou vivido demais para acreditar que produziremos uma “solução coletiva” para esse problema todo. Que iremos disciplinar as redes sociais, que as big techs ajustarão seus algoritmos, ou que algum cometa cairá sobre a Terra e desligará a internet por duas ou três gerações. O mercado e o avanço tecnológico tratarão de despejar mais e mais informação sobre a nossa cabeça.

De modo que me permito deixar um conselho neste ainda quase início de ano: larguem um pouco a internet. Em especial, as mídias sociais. Há quem ganhe dinheiro com isso, mas não são muitos. A maioria só perde seu bem mais precioso: o tempo. Esse bem fugidio, que apenas vai escorregando, sem que a gente perceba, e cujo preço, no final, vem na conta de uma tristeza morna por tudo aquilo que deixamos de viver.

Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 26 de janeiro de 2022, edição nº 2773


Todo Bolsominion tem razão.

 Carlos Brickmann

 


A Primeira Lei da Política é a sobrevivência. Candidatos a qualquer posto adoram estar num partido forte (daqueles cujo apoio vale cargos), onde haja acesso a quem manda chover na sua horta, em que todos ajudem sua eleição. Nem é preciso gastar dinheiro com pesquisas: um partido com chances e bom dinheiro atrai políticos. O contrário também vale: o partido até pode parecer forte, mas se o pessoal quer sair é porque há algum buraco no casco. Rato é ótimo para perceber que esses furos existem. Percebe e cai fora.

Que é que dizem as pesquisas sobre a eventual reeleição de Bolsonaro? A menos que o caro leitor seja especialista em campanhas, não perca tempo. A ministra Damares quer o cargo ambicionado por Janaína Pascoal. Bolsonaro quer Tarcísio disputando o Governo paulista (o que ele fará assim que souber onde fica São Paulo), mas o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, quer também disputar o cargo.

Weintraub&Irmão já brigaram com Carluxo e com Eduardo Bolsonaro, até há pouco seus ídolos. Olavo de Carvalho fala mal de Bolsonaro (e, suprema grosseria, mandou-o enfiar uma condecoração justo na porta de entrada do Aristides). Allan dos Santos, foragido nos EUA, esteve com Fábio Farias, ministro da Comunicação, e em seguida ambos se dedicaram a trocar insultos. Weintraub&Irmão desceram a lenha no Centrão, logo depois de Bolsonaro lembrar que é Centrão desde que começou a fazer política. Mas Justiça seja feita: nenhum está mentindo.

Todos eles têm razão.

Rachou mas não foi ele

Bolsonaro briga com facilidade com seus amigos, mas alguns mantêm a amizade há muitos e muitos anos. Waldir “Jacaré” Ferraz, por exemplo, não apenas é amigo de Bolsonaro como de seus filhos, os zeros à esquerda. Que é que diz Jacaré? Que o esquema da rachadinha existia, sim, nos gabinetes parlamentares de Bolsonaro, de Flávio e de Carlos.

Mas o esquema não era deles, que aliás nem sabiam do que se passava, nem notavam o dinheiro extra na conta: o esquema, segundo Jacaré, era montado por Ana Cristina Valle, ex-mulher de Bolsonaro. Mas, a seu ver, Bolsonaro pode ser preso por causa disso: “Quem assinava era ele. Ele vai dizer que não sabe? É batom na cueca. Como é que você vai explicar? Ele está administrando. Não tem muito o que fazer (…) Acho que ele vai ter problema se não for reeleito. Vai tudo cair, vai perder o foro privilegiado e tal”. Mais? “Ele, quando soube, ficou desesperado, era uma fria. O cara foi traído. Ela que começou tudo. Bolsonaro nunca esteve ligado em nada dessas coisas. O cara não tinha visão do que estava acontecendo por trás no gabinete”. O apartamento nem era dele, era de um amigo (opa!!! Esqueça essa frase, é de outro caso estranho).

Escreveu, não leu

Eduardo Bananinha, filho 03 de Bolsonaro, disse que Jacaré não tinha dito nada. A revista Veja, que fez a entrevista, colocou as gravações no ar. Ana Cristina dá sua versão: “Não sou mentora da rachadinha. Ele (Bolsonaro) me chamava de sargentona, mas quem mandava no gabinete era ele. Quem assina as nomeações e exonerações é o parlamentar. Não faz sentido assinar sem ler porque todos eles são bem instruídos”.

Desmarrecando...

Quando decidiu se candidatar, Sergio Moro tomou algumas providências: escolheu um partido que lhe conviesse, acusou Bolsonaro e Lula de quererem o poder pelo poder, já que não têm projeto de país, e procurou dar um jeito naquela voz estridente, que o levou a ganhar o ótimo apelido de Marreco de Maringá. O partido talvez dure pouco: o Podemos é pequeno, com pouca verba de campanha. Moro negocia com um novo partido, o União Brasil, fusão do DEM com o PSL, que tem muito dinheiro e, flexível, se adapta bem a cada Estado (Luciano Bivar, cacique do União Brasil, quer ser seu vice).

...e se adaptando

Projeto de país, Moro também não tem: parece que é a favor do que é bom e contra o que é ruim. Quer pagar mais aos professores, melhorar a Educação, reforçar a segurança – tudo o que todos querem, mas como fazer? Em compensação, a voz parece estar melhorando. Já é possível escutá-lo sem dor nos ouvidos. Mas é pouco para quem imaginava chegar chegando, como candidato para ganhar. Quer mudar de partido porque no atual não se vê decolando. E acredita (é novo no ramo) que trocar de partido lhe dará força.

Número quente

Dos jornais: “Salário médio pago por estatais sob controle da União chega a R$ 34,1 mil”. Lembra do Imposto Ipiranga, que prometia não só reduzir drasticamente o número de estatais sob controle da União como, no primeiro ano, arrecadar R$ 1 trilhão com privatizações? E esqueçam a pandemia: no primeiro ano do Governo Bolsonaro ninguém tinha ouvido falar de Covid.

Elza, para sempre

Frase do colunista Ruy Castro resume com perfeição a vida artística de Elza Soares: “Cantava como uma deusa, dançava como um demônio”.

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Não é por acaso que é secreto

 Editorial

O Estado de São Paulo

Revelado pelo Estado, o esquema do orçamento secreto pode parecer, aos olhos de algumas pessoas, uma manobra de difícil compreensão e, em certo sentido, de menor gravidade. Seria mais uma tática, entre tantas existentes, para agradar à base aliada do governo no Congresso. Além disso, segundo essa lógica, o escândalo não seria especialmente danoso, uma vez que muitos dos recursos destinados por meio do orçamento secreto teriam ido para finalidades louváveis, como educação e saúde.

Toda essa tentativa de defender o indefensável – num Estado Democrático de Direito, não existe uso de recurso público sem transparência – cai por terra, no entanto, quando vem à tona o efetivo destino dado às verbas públicas por meio do orçamento secreto. Conforme revelou o Estado, uma ONG de Léo Moura, ex-jogador do Flamengo, recebeu, nos últimos dois anos, R$ 41,6 milhões, por força de indicações de políticos aliados do Palácio do Planalto. Um dos principais padrinhos dos pagamentos foi o deputado Luiz Lima (PSL-RJ).

Tamanha é a distorção gerada por esse sistema que a ONG de Léo Moura foi a entidade que mais recebeu recursos da Secretaria Especial do Esporte, do Ministério da Cidadania. A segunda colocada, a Confederação Brasileira do Desporto Escolar (CBD), recebeu R$ 27,5 milhões, seguida da Confederação de Desportos Aquáticos (R$ 9,1 milhões), Ginástica (R$ 8,4 milhões), Vôlei (R$ 8,4 milhões) e Boxe (R$ 7,1 milhões).

A principal ação da ONG de Léo Moura é um projeto de escolinhas de futebol chamado Passaporte para Vitória, que atende, segundo a entidade, 6,6 mil jovens de 5 a 15 anos no Rio de Janeiro e no Amapá. As inscrições são feitas por ordem de chegada, sem critério social. A entidade não fornece alimentação ou transporte.

Segundo o Estado apurou, os R$ 41,6 milhões foram usados para a manutenção de espaços e pagamento de funcionários, além da compra de chuteiras, caneleiras, uniformes e acessórios. No Amapá, por exemplo, foram comprados 15,6 mil pares de chuteiras e caneleiras, ao custo de R$ 2,1 milhões. Também foram adquiridas 1,6 mil unidades de um paraquedas especial, para treinamento de resistência, ao custo de R$ 128 mil.

Questionado sobre o uso dessas verbas, o Ministério da Cidadania alegou que os recursos foram indicações de parlamentares, de execução obrigatória. Ou seja, o governo federal não teria responsabilidade sobre seu destino. Este é mais um aspecto disfuncional do orçamento secreto, além da falta de transparência. A atuação do Executivo federal – no caso, a decisão sobre investimentos de uma secretaria do Ministério da Cidadania – já não seria responsabilidade do Executivo federal.

Além de profundamente ineficiente, essa confusão de funções é bastante problemática para a responsabilidade política, elemento fundamental do regime democrático. Quem o cidadão deverá responsabilizar, com o seu voto, pelas ações do Executivo federal? De quem é a responsabilidade por uma decisão de investimento, no mínimo, tão peculiar – uma ONG que atua apenas no Rio de Janeiro e no Amapá recebe quase o dobro de recursos em comparação com outras entidades de atuação nacional?

O orçamento secreto não é mero detalhe contábil. Trata-se de exemplo paradigmático da perigosa combinação entre falta de publicidade e falta de responsabilidade, produzindo gastos públicos arbitrários, sem base em critérios técnicos e racionais. Como a experiência mostra, tal sistemática é campo fértil para as várias modalidades de apropriação do público para interesses privados.

Não é simples aspecto burocrático, assim como também não é obra do acaso. O orçamento secreto é de grande utilidade para alguns: quem indica fica com o bônus eleitoral, quem gasta mal fica isento de responsabilidade. Mas é também, não se pode esquecer, de enorme perversidade para a maioria da população. A fome, a pobreza, a desigualdade social e a insuficiência de tantos serviços públicos não são casuais. O mau uso do dinheiro público, sem critério e sem transparência, tem consequências. 


Quadrilheiro ou homicida: em 2023, tudo indica, teremos o pior do pior

 Ricardo Kertzman

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Alan Santos)

O Brasil é um triste campeão em alguns dos piores índices e indicadores econômicos e sociais. Matamos como ninguém, roubamos como ninguém, não ensinamos na escola como ninguém e gastamos dinheiro como ninguém.

Num vai e vem interminável, alternamos ciclos de pequeno ou nenhum crescimento e recessão. Produzimos inflação e desemprego em série. Somos um dos países mais desiguais do mundo. E tudo só piora a cada década.

Não por acaso sermos completamente ignorados pelo planeta. Só se lembram de nós por causa da Amazônia, do futebol e do carnaval. Ok, vá lá! Por causa de nossas commodities agropecuárias e minerais também.

SEM CONSERTO

Faz tempo que o mundo desistiu do Brasil. Não temos relevância no comércio exterior e somos insignificantes na geopolítica. Ninguém se importa com o que achamos e queremos. Somos simplesmente nada.

A culpa é de Portugal, da escravidão, da República, de Vargas, da ditadura, da Constituição de 88, de Sarney, de Collor, de FHC, de Lula, de Dilma, de Temer, de Bolsonaro, da saúva, enfim, de Deus e o mundo.

Como sociedade, produzimos as piores elites possíveis: empresários corruptos, advogados cúmplices, imprensa a soldo, artistas oportunistas e uma casta de políticos semelhantes a parasitas insaciáveis.

CICLO DO MAL

Falta de saneamento básico e condições mínimas de saúde, moradia e alimentação, além de um sistema público de educação incapaz de ensinar a ler e escrever, transformam as crianças em adultos improdutivos e violentos.

O Brasil criou para si um ciclo perverso, em que o ruim produz o péssimo e ambos se alimentam do pouco que há de bom por aqui: riquezas naturais e capital humano (idade, força de trabalho, etc.) abundante.

Após a redemocratização, para piorar de vez, entramos de cabeça, corpo e alma em um processo de degradação moral amplo, geral e irrestrito, que draga do mais simples lavrador ao mais poderoso ministro do Supremo.

ERROS SUCESSIVOS

Impichamos um ‘coronel’ corrupto, que simplesmente sequestrou o dinheiro de todos os cidadãos e empresas. Mas antes, suportamos um velhaco da pior qualidade, que criou o centrão e emplacou na política boa parte da corja atual.

Suspiramos ao rejeitar um operário incendiário e eleger um intelectual – indiscutivelmente o menos pior de todos. Mas a mosca azul o fez comprar uma reeleição e dar início ao novo ciclo de horrores que permanece até hoje.

Elegemos, então, um ex-operário radical e pretenso estadista. O cara entrou, e de cara subornou o Congresso, inaugurando o período mais corrupto da história nacional, que culminou com a própria prisão.

HERANÇA MALDITA

Não satisfeito, o maior ladrão do Brasil deixou como herança uma pobre coitada incapaz de pronunciar frases simples e fazer contas básicas. O saldo: a maior recessão que já tivemos e um novo impeachment.

Surgiu, então, um grão-mestre do centrão. Fez, em dois anos, o que não foi feito em vinte. Mas ‘quem sai aos seus não degenera’, e logo caiu em desgraça e também terminou preso. Hoje, é conselheiro do presidente que aí está.

Falando nele, Bolsonaro é, disparado, o pior que nos aconteceu em todos os tempos. Perto dele, Lula e Dilma não são nada em matéria de desastre. Sua única vantagem é ser ladrão de galinhas, o que ajuda um pouco a diminuir o estrago.

ELEIÇÕES

Em pleno 2022, há pouco menos de um ano das próximas eleições, eis que discutimos – e torcemos, quase nos matando – a opção ou por um líder de quadrilha ou por um rachador homicida para presidente da República.

O STF pode dizer o quanto quiser que os processos do meliante de São Bernardo estão anulados e devem recomeçar do zero. Mas jamais poderá dizer que o mesmo não é um corrupto, condenado em três instâncias.

Lula pode dizer o quanto quiser que Sergio Moro é suspeito e blá blá blá, mas jamais terá como negar o sítio, o triplex, a planilha amigo, as centenas de testemunhas, os bilhões de reais recuperados pela Lava Jato.

NÃO ACABOU!

Muito menos o bilontra terá como negar o enriquecimento dos filhos; a prisão de três ou quatro tesoureiros (PT) de suas campanhas; as confissões de Palocci, Duda Mendonça, Marcelo Odebrecht e João Santana.

Já Bolsonaro poderá acusar, com razão, o lulopetismo, mas não poderá se defender das rachadinhas – suas e de seus filhos -, das mansões milionárias, dos ‘micheques’ na conta de sua esposa; da sua ligação com as milícias.

Poderá o verdugo maldizer as esquerdas o quanto quiser, mas carregará para sempre o carimbo de 630 mil mortes por covid-19; 13 milhões de desempregados; 10% de inflação; gasolina a R$ 8 e dólar a R$ 6 – sem falar do Queiroz.

DEGRADAÇÃO TOTAL

Mas, pior ainda, a história o terá como aquele que, do primeiro ao último dia de mandato, conspirou contra a democracia, atentou contra as instituições e tentou incansavelmente emplacar um golpe de Estado.

Lula e Bolsonaro, cada um a seu modo, são fétidos e pestilentos. Significam o que há de pior na nossa política, e caso eleitos – um ou outro – reduzirão a zero qualquer chance de melhora ou esperança em um País melhor.

Acordar em 2023 e ter um destes dois como presidente eleito será o fundo do poço da sociedade brasileira. Na verdade será como abrir a tampa do alçapão do poço, e daí em diante, conheceremos o que há de pior em nós mesmos.


Militares, evangélicos e o ‘capital’ pulam do barco de Bolsonaro, mas não caem no de Lula

 Eliane Cantanhêde,

O Estado de S.Paulo

Há espaço, sim, para buscar uma terceira via pé no chão, que trabalhe mais contra a crise e menos para ampliar confrontos ideológicos

  Foto: Dida Sampaio/Estadão

Palácio do Planalto, em Brasília;  

o eleitorado desiludido de Bolsonaro hoje está no limbo. 

As reações à coluna de domingo (“Ainda tem jeito?”) confirmam que o melhor do mundo para bolsonaristas e petistas é manter a polarização entre o continuísmo e a volta ao passado. Tudo que o presidente Jair Bolsonaro sonha é disputar com o ex-presidente Lula. Tudo o que Lula pretende é ter Bolsonaro como adversário. Nenhum dos dois quer ouvir falar em terceira via.

Sim, se a eleição fosse hoje, daria Lula no primeiro turno ou ele e Bolsonaro no segundo. O problema é que a eleição não é hoje e há milhões de brasileiros incomodados e se sentindo emparedados entre as duas soluções – o que também surgiu, claramente, nas reações à coluna.

E os monoblocos vão se desfazendo no ar, porque em todos os segmentos da sociedade há divisões, dúvidas, insatisfação. Vale para a maioria, com menor renda e escolaridade, mas também para setores com grande reverberação.

Pode-se dizer que “os militares” são incorrigivelmente bolsonaristas? Não, depois de Bolsonaro se sentir compelido a demitir o ministro da Defesa e os três comandantes. Menos ainda depois de, na mesma semana, o contra-almirante Barra Torres reagir a ataques do presidente, o Exército reforçar diretrizes contra a covid na contramão de Bolsonaro e o general Silva e Luna, da Petrobras, lembrar que cabe ao Executivo fazer políticas públicas.

É possível insistir em que “os evangélicos” estão com Bolsonaro? Não. Há evangélicos e evangélicos, que se dividem entre designações, graus de seriedade, regiões e segmentos sociais. Os mais pobres, por exemplo, sentem na pele os efeitos da política econômica – ou da falta dela.

E “o capital”, continua com Bolsonaro? Banqueiros, grandes empresários, líderes do agronegócio não passaram a troco de nada a defender democracia, Amazônia e justiça social, até em manifestos. Foi um movimento tumultuado, mas deixou uma evidência: há insatisfações e muita conversa.

Quem decide eleição é “o povo”, mas militares, evangélicos, banqueiros, empresários e o agronegócio moderno caíram do outro lado, o de Lula? Provavelmente, não. Há uma enorme aflição com Bolsonaro, mas isso não apaga a desconfiança quanto a Lula, petrolão, ligações com Venezuela, Cuba...

Logo, o eleitorado desiludido de Bolsonaro hoje está no limbo (ou num mato sem cachorro), assim como, em 2018, o eleitor do PT que ficou chocado com o petrolão e o eleitor que se descolou do PSDB. Há espaço, sim, para buscar uma terceira via pé no chão, que trabalhe mais contra a crise e menos para ampliar confrontos ideológicos. Uma opção preguiçosa a essa busca é ceder à polarização. Outra é o melancólico voto nulo de 2018. 

COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA



Bolsonaro deixa um cenário de terra arrasada que prejudicará o Brasil por muitos anos

 Marcos Strecker

Revista ISTOÉ

Ministérios desmontados, retrocesso em ações públicas, economia em frangalhos, apagão de informações e corrupção liberada. A política destrutiva do governo Bolsonaro vai impactar uma geração inteira

 (Crédito: D-Keine)

MISÉRIA 

Morador de rua em São Paulo, em setembro de 2021: desemprego recorde 

Alguns países precisam ser reconstruídos após enfrentar tragédias incontornáveis ao longo de sua história, como catástrofes naturais ou guerras devastadoras. O Brasil passou por outro tipo de emergência. Eleito dentro da normalidade democrática, sem enfrentar batalhas externas e com uma economia razoavelmente estruturada, Jair Bolsonaro conseguiu em apenas três anos provocar um cenário de destruição. Desmontou estruturas de Estado e jogou um pá de cal em políticas públicas construídas ao longo de décadas. Ele é a tragédia brasileira.

É difícil encontrar uma área que o mandatário não tenha transformado em terra arrasada. Na Saúde, aparelhou o ministério com militares e negacionistas profissionais que tentaram reverter uma tradição de imunização laboriosamente construída ao longo de décadas pelo SUS. O País ficou acéfalo diante da pandemia, salvo o esforço heróico de profissionais abnegados e agências que conseguiram resistir ao assalto. Na hora de comprar vacinas, além de impedir a compra de imunizantes, o presidente abriu a porteira para quadrilhas e oportunistas que tentaram enriquecer com verbas bilionárias, tudo fartamente documentado pela CPI da Covid.

A destruição em todos os setores virou uma política de Estado com Bolsonaro

 (Crédito:ranplett)

RETROCESSO 

No Vale do Jequitinhonha: aumento da miséria e volta da fome 

Na Educação, apenas para citar um dos casos mais extravagantes, o governo criou obstáculos para o avanço da digitalização de escolas, impedindo a conexão por banda larga de unidades pelo País. O Enem, programa que permitiu a democratização do acesso e a racionalização no ensino superior público, praticamente foi inviabilizado. A equipe técnica da pasta foi substituída por amadores e fanáticos ideológicos, uma intervenção que não acontece sem consequências. O ensino requer anos de trabalho contínuo para apresentar resultados. Sua destruição é fácil e rápida, como os países em guerra civil testemunham. Quantos anos de atraso na área o governo Bolsonaro vai impor? Os investimentos na Ciência, igualmente, foram arruinados, provocando a fuga de talentos para o exterior. Esse dado é particularmente alarmante para o avanço do País. Como a educação, a pesquisa científica é o passaporte para o futuro, uma condição necessária para o aumento da produtividade, o desenvolvimento da indústria e o avanço tecnológico. Tamanho retrocesso vai comprometer pelo menos uma geração de brasileiros.

 (Crédito:Brasil2)

EM FOGO 

Queimada na Amazônia: o desmatamento disparou com o desmonte na fiscalização 

Para se eleger, Bolsonaro se apropriou do projeto econômico ultraliberal do economista Paulo Guedes, um outsider como ele que é igualmente refratário a consensos e a negociações políticas. Guedes prometeu uma revolução com a privatização e venda de ativos públicos, além de mudanças estruturais que reduziriam o Estado de forma inédita, deslanchando os investimentos privados. Esse projeto megalômano e autoritário chocou-se com as instituições e a realidade, desorganizou cadeias produtivas, afastou investidores e fez o País voltar a indicadores que já pareciam superados. O dólar disparou para R$ 5,60. A inflação atingiu 10,06% em 2021, reduzindo o poder de compra e desorganizando os orçamentos familiares. O cidadão sente na pele. O botijão de gás aumentou 50% em 12 meses, a gasolina aumentou 43,2% e a cesta básica avançou 30%. O desemprego atingiu o número recorde de 14,8 milhões de trabalhadores. Mesmo com um pequeno recuo, esse índice se manterá no patamar de 14 milhões de desempregados este ano, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Após uma grande queda nas taxas de juros operada pelo Banco Central (insustentável, como se constatou), a Selic voltou aos dois dígitos, onde deve permanecer até pelo menos o próximo ano. Um dos maiores ganhos institucionais do País desde a redemocratização foi a introdução da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ela foi fundamental, por exemplo, para o crescimento nos anos 2000 com controle inflacionário. Até essa evolução está ameaçada pelo governo Bolsonaro. O teto de gastos (que necessitava ajustes, ignorados pelo governo) virou letra morta, liberando as contas públicas para uma farra de gastos populistas e eleitoreiros, na contramão do interesse público. A invenção do orçamento secreto para comprar apoio político no Congresso, driblando a opinião pública, marcou a entrega do Orçamento público para os interesses paroquiais e escusos, revivendo uma prática que ameaça a democracia e havia sido extirpada no mensalão. 

A folia com as contas públicas e o populismo fiscal assombrarão a população por muitos anos. A PEC dos Precatórios, que implodiu na prática o teto de gastos, consagrou o calote oficial e aumentou a insegurança jurídica, um dos pilares do custo Brasil. Criará uma bola de neve na dívida pública que pode alcançar a estratosférica cifra de R$ 900 bilhões. Da mesma forma, as pedaladas do governo Bolsonaro nas contas do setor elétrico deixarão uma bomba inflacionária, com um passivo de R$ 140 bilhões a ser repassado aos consumidores em 2023, segundo o Instituto Clima e Sociedade (iCS). A próxima gestão terá de lidar com essa disparada nas contas de luz, problema convenientemente jogado para baixo do tapete pela gestão atual. E isso sobre aumentos que já foram enormes. Sem contar as bandeiras tarifárias acionadas pela crise hídrica, a conta de luz sob Bolsonaro já subiu 35% desde janeiro de 2019, quase duas vezes a inflação medida pelo IPCA. Dados da Aneel mostram que quase 40% dos consumidores já atrasaram a conta de luz por pelo menos um mês, maior índice desde 2012. E não é apenas aí que o consumidor, principalmente o de baixa renda, enfrenta dificuldades. No final de 2021, a proporção de brasileiros endividados bateu um recorde: 76,3%.

Coronelismo

Ao invés da fartura prometida, os anos Bolsonaro são marcados pelo aumento da miséria e pela volta da fome, com cenas dantescas de pessoas disputando ossos em caminhões. A insensibilidade social é patente. O chefe do Executivo se elegeu criticando o Bolsa Família por ser um benefício viciado que perpetua a pobreza. No poder, não fez nada para aperfeiçoá-lo. Ao contrário, para tentar recuperar a popularidade perdida, turbinou o programa e o rebatizou. Mas fez isso de forma açodada, ignorando a contribuição de técnicos que ajudaram a conceber e aperfeiçoar o programa. Como não há plano para uma transição social dos pobres por meio de políticas públicas, foi eliminada a necessidade de frequência escolar e vacinação obrigatória das crianças. É a confissão da intenção eleitoreira com o Auxílio Brasil. Trata-se, na verdade, de um regresso ao cabresto e ao coronelismo. Bolsonaro nunca teve um programa para erradicar a miséria. Ao contrário. Deixou isso patente ao vetar a adoção de um regime de metas contra a pobreza, mecanismo proposto por um político do PP (partido do Centrão que virou pilar de sustentação do governo). O avanço foi descartado sumariamente pelo presidente.

Poucas áreas mostraram de forma tão cabal o desmanche quanto o meio ambiente. As queimadas calcinaram a imagem internacional de Bolsonaro, tornaram ele um pária e emperraram acordos comerciais. Também nesse caso não se trata de um desastre natural. O presidente patrocinou abertamente grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais. Órgãos de fiscalização como Ibama e ICMBio foram desmantelados. Agentes da Polícia Federal que zelavam por operações contra o tráfico de madeira foram afastados e perseguidos. O resultado, segundo o Instituto Amazon, foi o maior desmatamento na Amazônia em 14 anos, com expansão de 29% apenas em 2021. E não é apenas o próximo governo que sentirá os efeitos de tamanha destruição. A devastação da Amazônia está mudando o regime de chuvas, o que causará prejuízos bilionários ao longo dos anos ao agronegócio.

Para espanto dos especialistas e da comunidade internacional, o presidente se orgulha desse feito. Num evento em Brasília, ele anunciou com orgulho que o governo reduziu em 80% as infrações ambientais. “Paramos de ter grandes problemas com a questão ambiental, em especial no tocante à multa”, comemorou. Também elogiou o ex-ministro Ricardo Salles, investigado por suspeita de envolvimento com madeireiros ilegais. Na visão do presidente, dar sinal verde aos crimes ambientais é uma forma de estimular o progresso. É a mesma lógica torta que permitiu a expansão das milícias no Rio de Janeiro porque coibiriam os traficantes. O resultado é a que as milícias assumiram o comércio de drogas e viraram elas mesmas megafacções criminosas, incrustradas no Estado.

 (Crédito:Bruno Kelly)

SAÚDE 

Colapso em Manaus durante a pandemia, e

m abril de 2020: sem insumos e técnicos afastados

Na segurança pública Bolsonaro conseguiu um de seus maiores feitos. Relaxou as regras de controle de armamentos sofisticados pelo Exército, eliminando o rastreamento e permitindo que grupos fora do radar das autoridades criassem arsenais. É um desastre que ainda está em progresso. Os efeitos dessa aberração serão sentidos no futuro e a sua reversão, se for possível, ocorrerá apenas com um custo gigantesco para a sociedade. Desde que a violência urbana explodiu nos anos 1980, nunca a criminalidade tinha tido uma perspectiva tão favorável. Os próximos governos terão um desafio enorme para conter a expansão do crime organizado, que agradece a janela de oportunidade proporcionada pelo presidente armamentista. A volta da impunidade e da corrupção, da mesma forma, são marcos da administração. Bolsonaro aparelhou a Polícia Federal e tentou interferir em órgãos de controle como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras para impedir as investigações contra sua família. Desestimulou medidas que endureceriam o crime do colarinho branco no Congresso e nomeou um Procurador-Geral da República comprometido com o fim da Lava Jato, o que foi executado com sucesso. Avanços como a Lei da Transparência e a Lei de Acesso à Informação viraram letra morta com o regresso a práticas nefastas de opacidade na administração pública. Um sinal aberrante dessa conduta foi a decretação de sigilo ao longo de um século do processo do general Pazuello por desrespeitar o regulamento militar, medida que acaba de ser confirmada. Os próprios números reais da pandemia são desconhecidos por causa de um apagão de dados públicos causado supostamente por um ataque hacker ao Ministério da Saúde. No começo da crise sanitária, Bolsonaro explicitamente tentou esconder e maquiar os dados públicos, como fazem os ditadores em repúblicas de bananas.

O governo tenta usar a pandemia como desculpa para tantos resultados decepcionantes. É uma falácia. O País está se saindo pior do que todos os seus pares, que enfrentam as mesmas dificuldades. A taxa de crescimento e o nível de inflação são piores do que a maioria dos outros países com o mesmo estágio de desenvolvimento.

 (Crédito:greenaperture)

EDUCAÇÃO

Criança em zona rural: escolas sem internet e pautas ideológicas 

O real foi uma das moedas que mais perdeu valor no planeta. A emergência sanitária não tirou o País de seu curso. Ela expôs a incompetência de um governo que priorizou a insurreição e o ataque às instituições, apostando que um golpe de Estado poderia interromper o ciclo democrático e fazer o País voltar a um desenvolvimentismo passadista, como aconteceu na ditadura. O mundo se prepara estrategicamente para o cenário pós-Covid enquanto o governo, sem qualquer norte, mergulha em aberrações populistas e no uso escancarado do Orçamento apenas para garantir mais quatro anos de mandato para Bolsonaro.

A herança do governo Bolsonaro será adversa como poucas vezes na história do País. Pior do que o abismo hiperinflacionário legado por Sarney e Collor, mais grave do que o colapso provocado por Dilma Rousseff com a maior recessão da história. E o custo será cobrado na forma de menos crescimento e mais desigualdade. O País deixou de ser uma prioridade para os investidores há muito tempo e vai se afastar ainda mais de seu objetivo de apresentar indicadores próximos aos países desenvolvidos.

(Crédito:MajaMitrovic)

INFLAÇÃO 

A alta da gasolina vai se agravar em 2022: solução foi culpar governadores 

Nada disso foi acaso. “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz”, discursou candidamente Bolsonaro a lideranças conservadoras, em Washington (EUA), em março de 2019. A justificativa, na época, é que ele precisava afastar a ameaça “comunista” para depois implantar as bases de uma nova nação por meio de uma “revolução”. A lógica obtusa e enviesada, que já prenunciava o desmonte do Estado, caiu como uma luva para interesses escusos e objetivos criminosos. O projeto devastador estava lá, às claras, desde o início. Três anos depois, o presidente provou que está cumprindo a promessa ao pé da letra.


Bolsonaro imita Trump, mas há diferenças — o americano se vacinou e até tomou dose de reforço

 Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Tribuna da Internet

O ex-presidente Donald Trump concedia uma entrevista, com plateia favorável, quando lhe perguntaram se havia tomado a dose de reforço. Trump respondeu “sim” — e com entusiasmo. Foi surpreendido com vaias. Não se intimidou. Apontou o dedo para o grupo que vaiava e comentou que se tratava de uma minoria. Era mesmo.

Como conciliar isso com a atitude francamente negacionista dos republicanos e do próprio Trump? São contra qualquer medida que torne a vacina obrigatória — como ocorre quando uma empresa só emprega imunizados ou quando um estabelecimento só permite a entrada de quem apresentar o certificado.

NÃO É CONTRADITÓRIO? – Para os republicanos, essas regras restringem a liberdade individual, configuram uma quase ditadura. Nesse caso, vacinar-se não é contraditório? Parece. E, de fato, 60% dos americanos não vacinados se declaravam republicanos — isso em outubro, segundo pesquisa citada pelo economista Paul Krugman em coluna no New York Times.

A explosão da Ômicron vem sendo chamada de “histeria irracional” por lideranças republicanas do primeiro time. E, entretanto, Trump se vacinou e contou isso para todo mundo. Qual a lógica?

Trata-se de política, não de ciência, sugere o mesmo Krugman. A hipótese é a seguinte: mesmo sabendo que a pandemia é grave e que a vacina funciona, os chefões republicanos fazem campanhas negacionistas para, primeiro, fidelizar sua base de ignorantes e, segundo, atrapalhar o governo do democrata Biden, criar caso, gerar medo e insegurança, sentimentos que sempre se voltam contra o presidente de plantão.

PURA MALDADE – É extremamente cruel fazer política com a morte de milhares de pessoas. É pura maldade, mas lógico para quem está na oposição e não se guia pelos valores morais. Tudo isso para dizer que o presidente Bolsonaro e sua turma não agem como os republicanos dos Estados Unidos.

Bolsonaro está no governo. Seu negacionismo, que leva medo e insegurança a milhões de brasileiros, age contra o próprio bolsonarismo. Ao contrário de Trump, que se imuniza, Bolsonaro não se vacina e acredita mesmo em todas aquelas asneiras que se fala sobre os imunizantes e que tentam minimizar a pandemia.

Ele acha mesmo que existem por aqui “os tarados da vacina”, acredita que crianças não morrem de Covid-19, embora os dados provem o contrário, e desconfia mesmo que a Anvisa age com base em interesses escusos.

APENAS IGNORÂNCIA – Bolsonaro não prova nada, assim como nunca provou que as urnas eletrônicas podem ser fraudadas. Trata-se de um negacionismo realmente ignorante, e não uma tática política.

A consequência política é contra Bolsonaro. Basta olhar pesquisas mostrando que metade dos que votaram no “mito” já o abandonou. São os que votaram em Bolsonaro por medo de Lula, mas são aqueles que se vacinam e temem por suas vidas no ambiente de pandemia.

Trump mandou invadir o Capitólio para tentar reverter a derrota que sofrera nas urnas. Até hoje, ele diz que a eleição foi uma fraude. Bolsonaro tentou um golpe no 7 de Setembro, numa ação tão estapafúrdia que quase levou a sua própria queda. Continua dizendo que houve fraude na eleição que ganhou com relativa folga.

OUTRAS DIFERENÇAS – Trump joga com as palavras, Bolsonaro acredita nas bobagens que diz, como se estivesse numa mesa de botequim. Trump é esperto. Bolsonaro é um tolo que se elegeu por uma combinação incrível de circunstâncias políticas e acasos.

Trump sabe o que faz na oposição. Bolsonaro age contra seu próprio governo, uma mistura de incompetência e ideias (ideias?) ruins. Trump continua exercendo a liderança que construiu num programa de televisão. Bolsonaro continua como um deputado do baixo clero, de onde nunca deveria ter saído.

Por tudo isso, sua reeleição é altamente improvável. Não se pode dizer impossível porque, enfim, já aconteceu uma vez. Mas, em circunstâncias normais, a questão política hoje é saber quem será adversário para Lula. Num ano ruim para a economia, ainda não se sabe quem apontará um rumo para a retomada do crescimento. Não é Lula, pelo que têm dito o candidato e seus seguidores.


Brincando com a Constituição

 Editorial

O Estado de São Paulo

A destruição dos pilares da Constituição certamente é um dos objetivos do eterno candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Há três anos, o País espera que ele assuma as funções de quem chega ao mais alto posto da República e comece, de fato, a governar. O capitão da reserva, porém, insiste em atuar como um vereador que chegou ao cargo por acidente e quer se manter nele a qualquer custo. O preço dos combustíveis, que afeta a maioria dos eleitores, é uma de suas obsessões. Para reduzi-lo à força, a despeito do comprovado fracasso de tentativas anteriores, a ideia genial mais recente é mexer na Constituição. A apoiadores nas redes sociais, Bolsonaro anunciou que negocia com o Congresso zerar as alíquotas de PIS e Cofins sobre gasolina, diesel, etanol e energia para dar um “alívio” aos consumidores.

O custo dessa medida eleitoreira seria de ao menos R$ 57 bilhões para os cofres públicos, quase o dobro dos R$ 30,1 bilhões destinados ao Fundo Nacional da Educação Básica (Fundeb), valor que a União enviará a Estados e municípios neste ano para financiar a educação. A redução no preço dos combustíveis seria pífia, de menos de R$ 0,20 por litro. Na conta de luz, os tributos federais não chegam a 5% na fatura. Um presidente sério e comprometido com o governo jamais cogitaria abrir mão de uma arrecadação desse vulto para conceder um benefício de centavos à população. Mas esse cálculo jamais entrará na planilha de Bolsonaro, na qual a única conta que importa é a dos votos na urna.

Mudar as alíquotas de tributos federais é algo perfeitamente possível de ser feito por lei ou, em alguns casos, decreto. Mas há uma condição: é preciso elevar algum outro imposto para compensar a perda de arrecadação decorrente desse tipo de medida. Esse talvez seja o principal pilar da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), cujo descumprimento implica crime de responsabilidade e, no limite, pode resultar até em impeachment. Isso não representa um empecilho ao modus operandi bolsonarista. Basta driblar a lei inventando uma proposta de emenda à Constituição (PEC). Técnicos da área econômica seriam contrários à ideia, mas, segundo o Estadão, o claudicante ministro da Economia, Paulo Guedes, já deu sinais de que não será um obstáculo, desde que o prometido reajuste dos servidores seja cancelado e o fundo de amortização de preços dos combustíveis não seja criado. É provável que o desmoralizado Guedes perca nos três casos.

A causa da disparada dos combustíveis e da energia é outra. Além da subida do petróleo, que já pressiona os itens no mundo todo, há o efeito da enorme desvalorização do câmbio, causada pela instabilidade gerada pelo próprio governo. Há ainda um mal disfarçado objetivo embutido na PEC: constranger os Estados a reduzir as alíquotas de ICMS sobre os dois itens à custa do esfacelamento da educação, da saúde e da segurança pública. Pela lógica bolsonarista, se o texto passar no Congresso e os Estados não adotarem as medidas, serão os vilões. Se a PEC não for aprovada, o bolsonarismo investirá na vitimização – a ideia segundo a qual o “sistema” não deixa o presidente governar.

As medidas anunciadas por Bolsonaro visam apenas a obter o mínimo de popularidade para não ser derrotado nas eleições já no primeiro turno. Nessa saga em que tudo é válido, a estratégia é transformar em inimigo quem ainda se importa com o País. Se tiver apoio da maioria dos deputados e senadores, a tal PEC elevará o déficit primário para R$ 190 bilhões. Vencidos por um misto de ignorância e prepotência, não sobrou ninguém que tenha a coragem de enfrentar o presidente e dizer que imposto não causa aumento de preços, apenas compõe o valor final de cada produto. Tampouco há quem queira defender a maltratada Constituição de tanta instabilidade. Já foram 113 emendas constitucionais promulgadas desde 1988, das quais 15 sob a administração atual – e estamos apenas em janeiro de 2022. Não se deve ignorar a leviandade e a perenidade com que essas mudanças são aprovadas, legado que sobreviverá ao fim do desgoverno.


Os caminhos para afastar a estagnação

 Joaquim Levy *

Veja online

A enunciação de objetivos de crescimento do PIB não é vista com entusiasmo, mas pode ser útil para alinhar expectativas da sociedade

/Divulgação

Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda 

Nessas primeiras semanas do ano, muitos se perguntam sobre o que esperar de 2022. Já é claro que este será um ano de desaceleração econômica em todo o mundo. O Federal Reserve está mostrando seu compromisso em domar a inflação, e a China, os aparentes excessos do setor imobiliário. No Brasil, devemos ter desinflação na esteira do ajuste monetário: a inflação pode ficar abaixo de 5% este ano, salvo surpresas nos preços agrícolas e desde que o petróleo não dispare para US$ 100 o barril e o câmbio não se desvalorize por razões domésticas.

Apesar da alta dos juros americanos, a economia mundial continuará ajudando o Brasil, como nos últimos dois anos quando o preço das commodities permitiu aumentar nosso saldo comercial em 50%, dando certa tranquilidade ao mercado de câmbio.

O investimento aqui também poderá surpreender a alguns. Ele deve se manter acima dos níveis de 2019, apesar da retração das compras de máquinas e equipamentos, graças à construção civil. Como o número de lançamentos imobiliários cresceu muito com a Selic de 2% em 2020-21, e a construção de um prédio toma cerca de 2 anos, há inúmeros empreendimentos em curso que ajudarão a manter o nível de investimento nos próximos meses. E a infraestrutura se movimenta um pouco com as novas concessões.

O emprego já voltou quase ao nível pré-pandemia, mas com uma composição diferente, e continuará preocupando. Com menos renda e o crédito mais caro, as possibilidades de consumo das famílias devem ser limitadas, dificultando o crescimento do PIB para muito além de zero em 2022. Essa travessia pode ser suavizada por uma cuidadosa normalização das condições do crédito pelo Banco Central, na medida em que a inflação convirja para a meta, o que teria reflexos positivos na Bolsa de Valores.

Há também grandes perguntas evidentemente sobre 2023 e a eventual antecipação de expectativas. Nesse sentido, a questão fiscal continuará importante, por conta do legado do Orçamento federal de 2022 e da provável ambiguidade da proposta de lei orçamentária para 2023 que o Executivo enviará em agosto próximo. O assunto deverá mobilizar a atenção também porque a ajuda que a inflação trouxe às contas públicas em 2021 deve se diluir em 2022. E, junto com as sequelas da PEC dos Precatórios, deve deixar um aumento no custo de financiamento da dívida, pelo menos até o novo rumo fiscal se firmar. As escolhas fiscais do novo governo serão, portanto, cruciais para o desempenho econômico em 2023 e além.

O anúncio de algumas metas econômicas e sociais pelos eventuais postulantes à Presidência da República nos próximos meses também pode ser relevante para dar mais fôlego à economia.

A enunciação de objetivos de crescimento do PIB, emprego ou desempenho educacional, apesar de não ser tradicional ou vista com entusiasmo pela maioria dos economistas, pode ser útil para alinhar expectativas da sociedade, desde que acompanhada do detalhamento das ações indispensáveis para alcançá-los. Principalmente, se esses objetivos refletirem sucessos conhecidos dos seus proponentes em vencer momentos econômicos adversos mobilizando lideranças públicas e privadas e entregando um PIB envigorado, proteção na hora certa aos vulneráveis e mudanças duradouras na educação.

Assim como metas de inflação ajudam os agentes econômicos a tomarem suas decisões, desde que o Banco Central tenha credibilidade, metas de crescimento, renda e progresso social podem dar um norte às decisões de investimento e contratação do setor privado, facilitando a realização dessas metas, se elas forem acompanhadas de políticas compatíveis.

O compromisso com metas explícitas pode ser também o começo de uma real reforma administrativa. Medir e premiar o desempenho do funcionalismo depende fundamentalmente de os órgãos públicos terem prioridades, objetivos e processos bem definidos, atributos os quais, aliás, permitem esticar o orçamento de maneira surpreendente na consecução das grandes metas de uma administração.

A ambição do eventual governo precisa, evidentemente, ser lastreada em ações e reformas que aumentem a concorrência na economia e a produtividade do trabalho, permitindo a renda e as oportunidades do trabalhador crescerem, e não apenas no gasto público com a presunção de que os poupadores irão financiá-lo a baixo custo por falta de outras opções de investimento.

Mas, declarados os objetivos, eles podem ajudar a afastar a estagnação, criando ainda a disciplina necessária para se detalharem as condições necessárias para a sua concretização, inclusive o comprometimento de forças políticas e da sociedade em apoio à realização dessas condições.

* Joaquim Levy é diretor de estratégia econômica e relações com mercados no Banco Safra. Ex-Ministro da Fazenda ex-BNDES e  ex-secretário do Tesouro Nacional do Brasil


Fundão inflado: a sustentabilidade partidária é tão utópica quanto urgente?;

 Humberto Dantas *, 

O Estado de S.Paulo

O Estado não pode ser um sustentador eterno dos partidos em ritmo crescente e imensurável 

 

Congresso Nacional, em Brasília; 

fundo eleitoral para 2022 pode chegar a R$ 5,7 bilhões 

As manchetes se repetem. A realidade não muda. Todo ano somos massacrados pela frágil prestação de contas dos partidos políticos, e pelo uso questionável de parte dos recursos públicos destinados às legendas. Donos do monopólio da representação política eleitoral, o que não discuto por entender como fenômeno legítimo, tais organizações são legalmente livres para se organizarem. Mas vivendo sob forte dependência de dinheiro público, a lógica de respeito, transparência e afeição republicana é urgente. E isso não existe, a se medir pelo fato de existir um movimento chamado Transparência Partidária que nasceu para exigir respeito com o que uma legenda simboliza e consome.

Numa democracia saudável partidos deveriam ter adeptos e financiadores que minimamente se aproximassem de suas realidades com base em ideologias, causas e interesses de ordem geral. Um detalhe importante: no Brasil, a despeito do modo como isso ocorre, existiam em dezembro passado mais de 16 milhões de filiações partidárias – mais de 10% do eleitorado.

Mas o que o senso comum, e em alguma medida as pesquisas mostram é que a afeição de grandes contingentes de cidadãos às legendas não faz parte da realidade. A sustentabilidade econômica e política de tais organizações deveria se dar a partir da capacidade de um partido mobilizar quem se afeiçoa às suas bandeiras e práticas, o que apenas explica as origens históricas, mas não o presente, do PT e ancora a existência do Novo.

Assim, não existe outra solução para o que se pode chamar de sustentabilidade partidária: a legenda fala, o eleitor escuta, se aproxima, contribui financeiramente, recebe contrapartidas associadas ao uso consciente do recurso empregado e das ações promovidas com transparência e respeito. Simples assim. Funciona, em partes, com clubes de futebol, igrejas, organizações do terceiro setor, causas sociais etc. Por que não com os partidos? Porque a democracia adoeceu, e ao invés de procurar a cura no aprimoramento da política, e na relação com o eleitorado, as legendas avançaram sobre as empresas, o serviço público e os recursos federais. Resultado: criamos monstros, e para contê-los, sequer a sensação de justiça existe. Ou você já viu um partido ser fechado por conta de ilícitos? As punições são brandas e/ou esquecidas.

No universo empresarial uma das formas frágeis de conter absurdos partiu questionavelmente do ativo STF, que considerou inconstitucional a doação de empresas para campanhas após o pleito de 2014. A partir de então, em 2016 tivemos uma eleição quase secreta, sensação revertida em 2018 com a criação do Fundo Eleitoral, que se juntou ao Fundo Partidário e ao Horário Eleitoral “Gratuito” de Rádio e TV em montantes bilionários.

Soma-se a esse oceano de dinheiro, que deveria ser legitimado, o uso do serviço público em benefício das campanhas. Servidores comissionados de toda ordem, em boa medida, se travestem de cabos eleitorais, desequilibrando o jogo político. Servidores de carreira tiram licenças remuneradas legalizadas para suas próprias campanhas, algo que em 2016 foi estimado em mais de R$ 1 bilhão em salários pagos para estatutários desfalcarem repartições para pedirem votos para si.

Mas não acaba aqui. Para além do universo empresarial e do serviço público, os partidos também avançaram sobre o orçamento da União. O Fundo Partidário que entre 1996 e 1999 ficou na casa anual dos R$ 100 milhões, faz alguns anos já flerta com R$ 1 bilhão. A inflação do período 2000 a 2020, por exemplo, elevaria os R$ 100 milhões de outrora para menos de R$ 360 milhões. O Fundo Eleitoral que nasceu abaixo de R$ 2 bilhões, em quatro anos pode triplicar. Tais movimentos geram conflitos. Desde que nasceu, o partido Novo contesta esses recursos na justiça, e recentemente apresentou ação contrária ao aumento do Fundo Eleitoral para 2022. A Advocacia Geral da União, por sua vez, questionada pelo ministro André Mendonça (STF) sobre a constitucionalidade do recurso, se posicionou favorável ao investimento e entendeu que mudar os valores previstos geraria instabilidade. Além disso, em mais uma frente de conflitos, o parlamento sugeriu um valor e Jair Bolsonaro negocia reduções antes da sanção do orçamento – ao mesmo tempo em que o parecer do Executivo (AGU) tratou de falar em até R$ 5,7 bilhões.

A despeito de tais polêmicas, o erro maior parece que está justamente na lógica de longo prazo de tais garantias financeiras. Partidos políticos devem ser entendidos como organizações cruciais à representação, mas eles precisam mostrar que têm força para pararem de pé. Para tanto, a destinação de recursos públicos precisa ser calculada no tempo que tais entidades precisam para se equilibrarem. O Estado não pode ser um sustentador eterno em ritmo crescente e imensurável, sendo no máximo uma “incubadora da Democracia”. Veja o caso da cláusula de desempenho, inicialmente aprovada em meados dos anos 90, descartada sem valer pelo ativismo judicial de 2006, e que está em vigor em nova versão desde 2018. O que ela diz? Partido que não atinge performance elevada nas urnas, com base na Câmara dos Deputados, deixa de acessar grande parte do dinheiro público. Perfeito. Mas é sério que esse recurso, a despeito de uma esperada, no médio prazo, redução no total de partidos, aumenta regularmente? Leia o que está escrito: eu concentro os partidos, dou sentido de eternidade ao subsídio estatal e elevo o montante sem critério racional.

É urgente a criação de um mecanismo de redução do dinheiro de forma planejada no médio prazo, para inspirar a legitimação de tais entidades e estimular fusões, inovações e reorganizações. A cada eleição devemos ter X% menos de investimento público. Por uma razão simples: com menos partidos, e tempo para se consolidarem, é esperado que esse tipo de entidade passe a ser sustentada diretamente por seus adoradores. Impossível? Atualmente sim, em dois sentidos. Primeiro: dependemos dos próprios partidos para uma decisão desse tipo, e em certa medida dependemos de nós, que temos dificuldades para admirá-los. Você daria dinheiro para um partido? Provavelmente: não. Pois é. O Estado dá, e esse dinheiro é nosso. Segundo: não existem partidos acostumados com estratégias organizacionais sustentáveis econômica e politicamente – fruto do adoecimento da democracia, da ausência de visão estratégica nas legendas, e, principalmente, da existência de uma torneira de ouro, aberta, que jorra dinheiro público.

* É CIENTISTA POLÍTICO, COORDENADOR DA PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA POLÍTICA DA FESP-SP E DO BLOG LEGIS-ATIVO DO ESTADÃO


Negligência como padrão

 Editorial

O Estado de São Paulo

Negligência é a marca mais distintiva da gestão de Marcelo Queiroga à frente do Ministério da Saúde. Muito ocupado em acomodar seus ainda recônditos interesses eleitorais, além dos de seu chefe, em meio às pressões de uma realidade implacável, o ministro tem tido pouco tempo para trabalhar como tal, omitindo-se até mesmo do básico, como o fornecimento de testes para detecção rápida do coronavírus pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

É escandalosa a negligência de Queiroga na compra e distribuição de testes rápidos de covid-19. Em setembro do ano passado, o Estado já havia revelado que a Secretaria de Vigilância em Saúde, vinculada ao Ministério da Saúde, deixou apodrecer nos galpões do Centro de Distribuição da pasta, em Guarulhos (SP), milhares de kits para diagnóstico da doença. Outros insumos hospitalares perderam validade antes de chegar a seus destinos.

Agora, o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que o Ministério da Saúde levou nada menos do que cinco meses para concluir um processo de aquisição de mais 14 milhões de testes rápidos, ao final do qual a compra acabou sendo cancelada. A “lentidão”, como descreve o relatório do TCU, parece ser o modus operandi da pasta no curso da pandemia, já que processos de aquisição de outros insumos, não apenas os testes rápidos, também não tramitaram em tempo condizente com a premência da crise sanitária.

Pouco após assumir o cargo, Queiroga prometeu tornar o Brasil uma “referência internacional em testagem”. O ministro, que afirma querer ser “julgado pela História”, é dado a grandiloquências. Há dias, por ocasião do aniversário do início da vacinação contra a covid-19 no País, Queiroga afirmou, sem corar, que a distribuição de “mais de 400 milhões de doses é fruto do esforço do governo federal”. Entende-se o interesse do ministro em bajular Bolsonaro para obter seu apoio na campanha eleitoral deste ano, mas é muita desfaçatez afirmar que o governo federal se empenhou em trazer as vacinas para o Brasil quando, no mundo real, sabe-se que Bolsonaro foi o maior sabotador da história do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

No País inteiro, centenas de pessoas aguardam em extensas filas para realizar testes de covid-19 nos postos do SUS. Não há kits em quantidade suficiente para atender à demanda. Muitas pessoas aguardam doentes, apresentando sintomas gripais. Outras, assintomáticas, também podem estar infectadas, mas não sabem. Quem não dispõe de R$ 400 para pagar por um teste na rede privada é obrigado a passar pelo desconforto de uma espera longa que seria facilmente evitável caso o Ministério da Saúde tivesse trabalhado como deveria.

“O ritmo para aprovação de um programa de testagem, bem como das aquisições dos testes, caracteriza-se por ser moroso, o que fragiliza a prioridade que a ação (testagem em massa) necessita ter em um cenário pandêmico”, escreveram os técnicos do TCU. Em apenas um parágrafo, eles sintetizaram a falha primordial no enfrentamento da pandemia: o combate ao vírus nunca foi prioridade do governo Bolsonaro.


Lula, o PT e a economia

 Rogério Furquim Werneck

O Globo

Falta à candidatura do partido uma narrativa crível e aceitável do que se passou durante o governo Dilma Rousseff

A oito meses da disputa presidencial, pouco se sabe sobre as plataformas dos candidatos. Nas últimas semanas, a cúpula do PT tem dado sinais de inquietação com a necessidade de definir a política econômica que Lula afinal adotará, caso venha a ser eleito presidente. Mas o delineamento do programa econômico de Lula não promete ser fácil.

Para que possam articular um programa claro, crível e coerente, Lula e o PT terão de desenvolver, primeiro, uma narrativa minimamente realista sobre o que de fato ocorreu, ao longo dos mais de 13 anos em que o partido ocupou o Palácio do Planalto. As narrativas sem nenhuma aderência à realidade que têm vindo a público, tanto sobre economia como sobre corrupção, mais parecem castelos de cartas que, no calor da campanha presidencial, não resistiriam a um sopro.

Para Lula, seria bem mais confortável se, no que tange à economia, que sua campanha pudesse se basear somente nos dois mandatos em que ocupou a Presidência. E não faltou, nos últimos meses, quem tentasse insistir em narrativas fantasiosas nessa linha, cantando em prosa e verso o Brasil, de 2003 a 2010, como uma terra em que corriam rios de leite e mel.

Aos poucos, contudo, a cúpula do partido parece ter percebido que não havia como encerrar a narrativa sobre os governos petistas em 2010, deixando de fora o desastroso mandato e meio de Dilma Rousseff. É mais do que sabido que a ideia de alçar Dilma à Presidência foi um projeto exclusivo e pessoal de Lula que, face à tenaz oposição do PT, teve de ser enfiado pela goela abaixo do partido.

Em longa entrevista publicada em livro de 2013, o próprio Lula relatou, com muita franqueza, as resistências que teve de enfrentar, dentro do PT, à escolha de Dilma como candidata a presidente. “Eu sei o que eu aguentei de amigos meus, amigos mesmo, não eram adversários, dizendo: Lula, mas não dá. Ela não tem experiência, ela não é do ramo. Lula, pelo amor de Deus.”

O PT já constatou também que ninguém levará a sério esforços de reescrever a história com o argumento de que a política econômica dos governos Lula teria sido súbita e radicalmente desvirtuada por sua sucessora. Na verdade, não houve descontinuidade alguma. A política econômica do governo Lula, a partir de 2008, quando, afinal, a bandeira da “nova matriz econômica” pôde ser ostensivamente desfraldada, foi, em boa medida, a política de Dilma Rousseff. 

E é bom lembrar que, uma vez eleita, Dilma preservou em grande medida a equipe econômica de Lula, mantendo Guido Mantega no Ministério da Fazenda e todas as condições para que o Planalto pudesse exacerbar erros de condução da política econômica que já vinham sendo cometidos no governo anterior.

Constatado que, de uma forma ou de outra, Lula e o PT seriam obrigados a “falar sobre Dilma”, houve, de início, uma tentativa um tanto patética de restringir a fala ao primeiro mandato da ex-presidente. Foi o que fez o ex-ministro Guido Mantega em artigo recente na Folha de S.Paulo (5/1), em que se permitiu limitar sua análise ao desempenho dos governos petistas ao período de 2003 a 2014, com completa omissão do que ocorreu no segundo mandato de Dilma, em 2015 e 2016.

Trata-se de contorcionismo equivalente a dar por concluído o relato de uma viagem que culminou em catastrófico acidente ferroviário, pouco antes de a locomotiva saltar dos trilhos arrastando consigo várias dezenas de vagões.

É fácil perceber a enorme dificuldade que Lula e o PT vêm enfrentando para conceber uma narrativa crível, que lhes pareça aceitável, do colossal descarrilamento da economia perpetrado pelo governo Dilma Rousseff. 

Inclusive porque quase todos os envolvidos na inépcia que levou ao desastre parecem ter hoje assento assegurado, pelo PT, na longa mesa dos que terão voz e voto na concepção da narrativa sobre o passado que dará base à visão de futuro que Lula oferecerá ao país. Fácil não será.


Brincadeira de mau gosto

 Editorial

O Estado de São Paulo

A desfaçatez do governo federal no trato de regras que pareciam consagradas na gestão macroeconômica tem gerado frutos criativos, como o plano de recuperação fiscal apresentado pelo Rio de Janeiro. Elaborado para socorrer Estados em grave desequilíbrio financeiro e fornecer instrumentos para superação da crise, o combalido Regime de Recuperação Fiscal (RRF) será completamente desmoralizado se a proposta elaborada pelo governador Cláudio Castro for aceita pelo Executivo ou validada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Somente podem aderir ao regime governos quase quebrados, com despesas correntes superiores a 95% da Receita Corrente Líquida (RCL) ou gastos com pessoal que ultrapassem 60% da RCL. A vantagem é que o RFF permite acesso a crédito e suspende o pagamento de dívidas cujo credor ou garantidor seja a União. Como contrapartida, os Estados precisam adotar medidas para conter o crescimento de dispêndios obrigatórios – como vedação a reajustes, contratação de servidores e realização de concursos públicos – e evitar ações que reduzam a arrecadação, como a concessão de benefícios fiscais, de forma a manter uma trajetória de equilíbrio das contas.

Único Estado a ter conseguido adesão ao programa em 2017, o Rio de Janeiro solicitou novo ingresso em maio e se comprometeu a apresentar um plano de recuperação sujeito à aprovação do Executivo. Mas somente na distopia que se tornou o governo Bolsonaro alguém teria a audácia de apresentar algo como o que foi redigido pela equipe do governador Cláudio Castro, não por acaso amicíssimo do filho 01, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Como um alcoólatra que pede crédito para aumentar seu consumo de cachaça, o governo fluminense simplesmente propôs uma alta de 17,1% nas despesas com pessoal neste ano e de 8,9% em 2023, com aumentos salariais anuais garantidos para servidores até 2030. Para arcar com esses gastos, o Rio de Janeiro estima receitas improváveis, como R$ 19,4 bilhões em securitização da dívida, um valor que nunca nenhum ente federativo auferiu antes, e R$ 22,4 bilhões em royalties de petróleo, como se a decisão sobre o ritmo da exploração das áreas estivesse nas mãos do Estado, e não das empresas. A mais recente prova da má-fé da administração fluminense foi o calote – é essa a palavra – da dívida de R$ 4,5 bilhões com o banco BNP Paribas, cujo pagamento estava atrelado à venda da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), uma operação que rendeu R$ 18,2 bilhões. Coube à União, ou seja, a todos os brasileiros, arcar com essa conta.

Os pareceres do Tesouro e da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) consideraram que o plano do Rio de Janeiro tem “premissas técnicas frágeis para promover o equilíbrio fiscal sustentado”. Sem bons argumentos para rebater essa análise, Cláudio Castro avaliou ter havido “maldade” por parte dos servidores. “Vemos técnicos que não sabem a realidade de um hospital cheio, de investimentos que geram empregos”, disse o governador. É o velho truque dos bolsonaristas: sempre que seu populismo irresponsável esbarra nos limites institucionais, atribuem o revés a tecnocratas insensíveis, na esperança de gerar indignação e, assim, angariar votos.

A proposta de Cláudio Castro, portanto, nada tinha a ver com recuperação fiscal; era, sim, uma mal disfarçada isca para seduzir eleitores em sua campanha pela reeleição. Sem aval dos técnicos, Castro pretende apelar a Paulo Guedes para tentar um acordo, algo possível se o esquálido ministro da Economia compactuar com mais esse descalabro. Em caso de duvidosa derrota junto à equipe econômica, que deu o exemplo ao demolir o teto de gastos com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios, ele ainda poderá recorrer ao STF, sempre benevolente com devedores contumazes. Desde que aderiu ao regime, o Rio deixou de repassar R$ 92 bilhões à União, e, se for excluído do programa, terá de pagar R$ 24 bilhões em dívidas neste ano, quase 30% de seu orçamento. Seria uma punição exemplar, mas improvável para um aliado que dará palanque a Bolsonaro.


Quatro “abacaxis” que Bolsonaro precisa resolver antes da campanha eleitoral

 Wesley Oliveira

Gazeta do Povo

 Foto: Alan Santos/PR

Duplicação de palanques nos estados, escolha do vice, reforma ministerial e reajuste de servidores são alguns dos problemas que o presidente Jair Bolsonaro precisa resolver antes das eleições.|


Candidato declarado à reeleição, o presidente Jair Bolsonaro (PL) precisa resolver alguns impasses dentro e fora do seu governo antes de entrar de cabeça na campanha eleitoral. São pelo menos quatro "abacaxis" na mesa do atual chefe do Palácio do Planalto: acomodar a candidatura de aliados nos estados, fazer a escolha do melhor nome para vice em sua chapa, tocar uma reforma ministerial tampão e ainda achar solução para a crise por aumento salarial no funcionalismo público federal.

O que mais deve dar dor de cabeça a Bolsonaro é a costura política para evitar mais de um palanque no mesmo estado. Ministros e parlamentares aliados disputam o apoio do presidente em prol de suas pré-candidaturas. De acordo com assessores palacianos, Bolsonaro tem sinalizado que não pretende interferir diretamente nas escolhas e que a melhor alternativa é que os pré-candidatos resolvam entre si.

É o caso da disputa pela única vaga ao Senado pelo Rio Grande do Norte, cobiçada pelos ministros Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Fábio Faria (Comunicações). Depois de assinar sua filiação ao PL no mesmo dia que Bolsonaro, Marinho começou a articular sua candidatura junto a lideranças locais, o que, segundo interlocutores, pode esvaziar a candidatura de Faria no estado.

O Rio Grande do Norte ainda não conta com um pré-candidato ao governo estadual diretamente ligado ao presidente Bolsonaro, mas Marinho tem usado seu período de férias para viabilizar o nome do prefeito de Natal, Álvaro Dias (PSDB). Mesmo com a candidatura de João Doria (PSDB) ao Palácio do Planalto, a ideia é que Dias abra palanque para o ministro do Desenvolvimento Regional no estado. Antes de ingressar no PL, Rogério Marinho foi filiado ao PSDB e deixou o ninho tucano depois que a sigla passou a fazer oposição ao governo Bolsonaro.

Por outro lado, o entorno de Fábio Faria diz que a decisão sobre a candidatura ao Senado no estado será definida pelas pesquisas. O ministro das Comunicações pretende deixar o PSD para se filiar ao PP. No entanto, isso só deve ocorrer a partir de março, no período da janela partidária. Faria é deputado federal licenciado. Por causa disso, aliados acreditam que Marinho sai em vantagem, já que terá acordos costurados com os partidos locais.

Outra divisão entre aliados ocorre no Rio Grande do Sul, onde o ministro do Trabalho, Onyx Lorenzoni, e o senador Luiz Carlos Heinze (PP) pretendem concorrer ao Palácio Piratini. “Sou candidato e o presidente sabe disso, e ele não pretende preterir alguém em função do outro. Lá na frente, as coisas podem ser acertadas. Ambos somos pré-candidatos”, admitiu Heinze.

Lorenzoni vai deixar o DEM, que está em processo de fusão com o PSL para criação do União Brasil, e se filiar ao PL. Uma alternativa estudada pelos aliados de Lorenzoni é que Heinze assuma algum ministério do governo Bolsonaro a partir de abril. Com mandato de senador até 2026, Heinze ficaria de fora da corrida pelo governo estadual e não dividiria votos com Lorenzoni.

Outra disputa ocorre em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país e considerado estado-chave para uma eventual reeleição. Bolsonaro convenceu o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, a disputar o governo do estado. Mas o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, deseja se candidatar também e conta com o apoio do eleitorado mais raiz de Bolsonaro. No fim das contas, o movimento pode dividir os votos da direita paulista e prejudicar ambos os candidatos.

Líderes pressionam Bolsonaro para antecipar reforma ministerial

Com a expectativa de que ao menos 11 dos seus 23 ministros saiam como candidatos em 2022, Bolsonaro terá que promover uma reforma ministerial no máximo até o final de março. A legislação eleitoral obriga que ministros que desejam disputar eleição sejam afastados dos cargos ao menos seis meses antes do primeiro turno.

De acordo com integrantes do Planalto, a escolha dos ministros substitutos já é alvo de disputas entre líderes do Centrão e integrantes do governo. Por um lado, os atuais ministros pleiteiam o direito de indicar os substitutos, como no caso do Ministério da Infraestrutura, onde o secretário-executivo Marcelo Sampaio deve assumir o lugar de Tarcísio de Freitas. O titular é pré-candidato ao governo de São Paulo.

Na contramão, integrantes do Centrão pleiteiam assumir as vagas nos ministérios e trabalham para que algumas trocas sejam antecipadas por Bolsonaro. Recentemente, por exemplo, líderes da base governista pressionaram para que a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, fosse substituída ainda em janeiro, o que foi descartado por Bolsonaro. Arruda é filiada ao PL e vai disputar uma cadeira do Senado pelo Distrito Federal.

"Já começamos a pensar em nomes, alguns já estão mais do que certos. Não quero falar agora, porque vai começar uma ciumeira: por que ele e não eu? E ciúme de homem é pior do que mulher", disse Bolsonaro na última semana.

Busca pelo vice ideal tira o sono do presidente

Paralelamente, Bolsonaro e seus aliados ainda trabalham na escolha de um nome para assumir como vice na chapa presidencial. Segundo integrantes do Planalto, o presidente tem sido cauteloso nessa escolha e o nome deve ser alguém de sua confiança, que deverá se filiar a um partido do Centrão membro da sua base governista.

“Se você anuncia um vice muito cedo, de tal partido, os outros ficam chateados contigo”, disse Bolsonaro durante sua última viagem para as festas de fim de ano. Por enquanto, o nome favorito nas bolsas de aposta é a da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que deve deixar o DEM para ingressar no PP.

Correm por fora a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves; o ministro da Defesa, general Braga Netto; e o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, nome forte do PP e do Centrão. A escola é tão difícil que Bolsonaro já chegou a afirmar publicamente que não descarta repetir a dobradinha com o atual vice-presidente Hamilton Mourão.

Reajuste de servidores vira dor de cabeça para Bolsonaro

Outro impasse para o presidente Jair Bolsonaro diz respeito ao reajuste de salário para servidores federais. Depois de prometer e articular com o Congresso um aumento para policiais, outras categorias federais, como os auditores da Receita, começaram a cobrar isonomia no reajustes de salários. Sem espaço fiscal, o Ministério da Economia trabalha para que o presidente vete a medida.

Até o momento, ao menos 19 categorias de servidores protestam e paralisam as atividades para elevar a pressão contra o Palácio do Planalto. De acordo com o Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), outras manifestações como as que ocorreram neste terça-feira (18), em Brasília, devem se repetir nos dias 25 e 26 de janeiro.

Nos bastidores, aliados do Planalto defendem que Bolsonaro recue da promessa feita a policiais e que os salários de todos os servidores federais não sejam reajustados neste ano. No entanto, a medida deve causar desgaste ao presidente, o que na avaliação de aliados ampliaria a desaprovação do governo.

Nesta semana, Bolsonaro disse que não há decisão tomada sobre reajuste de servidores públicos. Ele destacou que não há aumento garantido para nenhuma categoria.

"Primeiramente, não está garantido o reajuste pra ninguém. Tem uma reserva de R$ 2 bilhões, que você pode usar. Poderia ser usado para PF [Polícia Federal], PRF [Polícia Rodoviária Federal] e também o pessoal do sistema prisional, mas não está nada garantido”, disse.


Lula, o mercado e o teto de gastos

 Álvaro Gribel

O Globo

Ex-presidente reafirmou que quer Alckmin como vice e disse que pretende buscar alianças até com a centro-direita. Isso era tudo que a Faria Lima queria ouvir.

  Foto: Agência O Globo 

Ex-presidente defende chapa com Geraldo Alckmin

e faz críticas ao mercado financeiro 

A entrevista do ex-presidente Lula a jornalistas que o apoiam foi acompanhada com atenção por investidores do mercado financeiro. Na medida em que as principais falas de Lula apareciam em destaque nas telas dos operadores da bolsa, a moeda brasileira ia ampliando os ganhos sobre o dólar. Se por um lado Lula falou mal do mercado e disse que a política fiscal no seu governo estará em segundo plano, por outro, reafirmou que quer Alckmin como vice e que pretende buscar alianças até com a centro-direita para voltar à Presidência. Isso era tudo que a Faria Lima queria ouvir.

“O candidato que saiu na frente (das pesquisas) está rumando para o centro. É isso que os investidores querem”, sintetizou o economista Roberto Motta, da Genial Investimentos, em uma live voltada para investidores pessoa física, para logo em seguida ser chamado de comunista por apoiadores de Bolsonaro. Motta explicou que não fazia juízo de valor sobre o candidato petista, apenas que, pela interpretação do mercado, Lula aproveitou que falava a jornalistas de esquerda para se afastar das alas mais radicais do partido. “Lula estava em ambiente hostil para dar declarações que surpreenderam o mercado”, completou o economista.

O clima no mercado de câmbio já era propício para as moedas dos emergentes, que se valorizavam pelo aumento dos preços das commodities. Mas a fala de Lula deu impulso para que o real tivesse os maiores ganhos do dia, fechando em R$ 5,46. Para Alvaro Bandeira, do banco digital Modalmais, “Lula fez afagos em FHC e José Serra, foi menos agressivo que na semana anterior e falou em compor chapa com Alckmin. Isso trouxe maior tranquilidade aos investidores”.

A valorização do real nem de longe significa que Lula tenha se rendido ao mercado ou que o mercado esteja morrendo de amores por Lula. Ao contrário, o ex-presidente fez inúmeras críticas aos investidores, que não podem “apenas querer discutir os seus interesses” ou colocar a regra do teto acima do combate à fome e à pobreza. Apesar disso, Lula disse que “eles (o mercado) também serão ouvidos em seu governo”, em uma clara sinalização ao diálogo.

Em relatório a clientes, a XP Investimentos afirmou que a regra do teto de gastos já foi seriamente abalada no governo Bolsonaro e que por isso um “novo arcabouço fiscal” terá que ser discutido em algum momento. Lula ainda não disse como pretende controlar a dívida pública, caso eleito. Mas, se quiser ter estabilidade em seu governo, terá que fazê-lo. Por enquanto, uma simples sinalização ao centro e a defesa de Alckmin como vice foram suficientes para reduzir um pouco as tensões com o mercado. Isso ajudou na valorização de nossa moeda ontem. 

Motivo para a desconfiança

O gráfico abaixo  mostra por que o mercado tem tanta preocupação com a política fiscal em um suposto governo petista. Foi a partir de 2013, no governo da ex-presidente Dilma, que a dívida acelerou e mudou de patamar, sendo parcialmente controlada entre 2017 e 2019, pelas medidas do teto de gastos. Vejam que a dívida bruta brasileira, como % do PIB, já destoava da média dos países emergentes, mesmo antes da pandemia.

 Editoria de Arte

Dívida bruta, como % do PIB Foto: 

Dívida brasileira está acima da média de outros emergentes / 

 China contém efeitos do Fed

O corte de juros anunciado pelo Banco Central chinês esta semana pode dar um alívio para a moeda dos países emergentes, como o Brasil, em ano de elevação dos juros pelo BC americano. Essa é a visão da economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico. “Foi uma redução pequena, mas indica que o governo chinês não medirá esforços para manter a atividade por lá aquecida. Isso aumenta os preços das commodities e traz mais dólares via exportação para países como o Brasil”, explicou. Ela projeta que o PIB brasileiro este ano terá retração de 0,2% com uma inflação de 5,6%. Ou seja, será mais um ano difícil na economia.