Adelson Elias Vasconcellos
Uma questão central na educação brasileira talvez explique melhor este cenário tão paradoxal do Brasil atual: de um lado, temos uma máquina de moer e fazer picadinho de qualquer tese com algum colorido de conservadorismo. Até a imprensa, em sua grande maioria, desfila bandeiras socialistas, ou progressistas, ou, ainda, petistas.
Contudo, e isto está comprovado, temos um povo que é, em sua imensa maioria, conservadora em seus valores. E, no entanto, prefere escolher representantes de esquerda, por acharem que eles melhor defenderão e conservarão estes valores.
No fundo, o caso brasileiro, sui generis dentre as democracias mundiais, merece de há muito tempo, um profundo estudo sociológico. Na verdade, as ciências humanas encontrariam um campo fértil de fatos pitorescos para serem avaliados.
Mas este artigo não vai versar sobre este tema. É apenas um preâmbulo para encaminhar uma avaliação distorcida que é feita sobre a atuação de Lula. Aliás, tivesse ele um bocadinho de consciência de si mesmo, daria um tempo em suas múltiplas atividades para refletir aonde mesmo ele pretende chegar.
Se alguém se interessar sobre o que encaminhei no preâmbulo acima, verificará que o ensino brasileiro é bastante falho no ensino da própria história do país. É uma verdadeira colcha de retalhos que, ao cabo, resulta numa enorme distorção na capacidade crítica dos alunos sobre a construção do nosso país.
Quando tratamos da questão indígena, por exemplo, o fazemos com ares de romantismo balofo. Consideramos as diferentes etnias indígenas povos ainda selvagens, de alma pura e dócil, sem nenhuma ambição na vida a não ser caçar e pescar, sempre, claro, apreciando e cuidando da natureza por nós e por eles próprios.
Não são poucos os personagens indígenas que perambularam e perambulam mundo afora sendo exibidos como exemplares do exotismo das terra brasilis. As ONGs estrangeiras, então, adoram ouvi-los, incentivam mesmo que eles sirvam de enfeites para suas teses em favor da natureza. Mas sabem, melhor do que nós, que os índios de hoje gostam mesmo é viajarem de avião, navegar na internet, se comunicarem pelo celular, e oferecem-lhes todas as vantagens do moderno, tecnológico, em troca de alguns favores especiais. No fundo, nossos indígenas hoje não diferem muito dos que Cabral encontrou por aqui há mais de 500 anos.
Quando leio que Lula viaja mundo afora dando palestras, bancando o caixeiro viajante de empreiteiros, estes principalmente, mas também para abrir negociações em outros países para alguns empresários daqui, quando leio que ele agora assinará uma coluna no importante New York Times, quando ficamos sabendo que suas viagens de negócios são bancadas por estes empresários e, como informou a Folha de São Paulo, algumas vezes até com recursos públicos, quando o vejo recebendo no atacado inúmeros “honoris causa” concedidos por importantes instituições acadêmicas, impossível não associar a imagem atual do ex-presidente ao mesmo roteiro que é oferecido aos nossos indígenas no exterior.
É evidente que Lula não gosta da imprensa, pelo menos daquela independente. Ele próprio confessou que jamais leu um livro na vida. É sabido que, quando pode, jamais se interessou em elevar sua formação intelectual. Com tal perfil, fica claro que ele apenas assinará um coluna mensal, enquanto o texto terá sua redação entregue a terceiros, alguém, talvez de seu próprio instituto. Estranhamente, exigiu que esta coluna não poderá ser divulgada no Brasil.
E agora um pouco de história sobre o próprio Lula: quem conhece um pouco da biografia do ex-metalúrgico, e acompanhou parte de sua trajetória política e sindical até chegar ao poder maior do Brasil, sabe que Lula construiu esta trajetória a partir de um discurso veementemente crítico contra as “zelite” de seu país. Sempre que desejava atacar algum problema que afligia os mais pobres, o culpado sempre eram as elites que mantinham este povo pobre e faminto para explorar sua mão de obra em favor dos paraísos que os elitizados desfrutavam.
Ainda no poder, Lula, em diferentes ocasiões, se gabou de que seu governo ajudou os muitos ricos a ganharem muito dinheiro. Sem dúvida, o mercado financeiro, então!, “nuncadantes”.
Embora a inflação se mantivesse nos trilhos, Lula jamais se preocupou em reduzir a taxa de juros e muito menos se preocupou em se informar dos danos que nossos estratosféricos juros eram capazes de causar à nossa indústria. Forçou o BNDES a criar um bolsa empresário destinada a financiar projetos de campeões nacionais no ... exterior. É o mesmo programa que o BNDES agora resolveu acabar, em razão dos péssimos resultados colhidos. Mas os empresários eleitos, ah! , estes deitaram e rolaram.
Ou seja, ao invés de se voltar para os problemas que atormentam a vida diária dos brasileiros, o Lula tornou-se um caixeiro viajante, como ele próprio se autodenomina, daqueles a quem um dia criticou de forma contundente. Não vexa de se tornar lobista da primeira hora das mesmas “zelite” sobre quem depositou todas as culpas por todas as nossas mazelas. No poder e, depois, fora poder, Lula não apenas elitizou-se, mas passou a representar e lutar pelos interesses da elite. E, infelizmente, não se deu conta de que sua figura pública hoje representa muito mais nosso exotismo perante o mundo, do que propriamente um defensor de uma ideia construtiva em favor de um mundo melhor.
O metalúrgico dos anos 70 e 80 do século XX, transmudou-se e converteu-se em peão das “zelites” da segunda década do século XXI. Convenhamos, é uma mudança e tanto...
Isto me leva a questionar: qual a verdadeira essência de Lula, o que se fez passar por crítico das elites para agradar as massas e conquistar o poder, onde elitizou-se, ou o metalúrgico que apenas esqueceu seu passado e sua biografia por que deles não precisa mais para ser o que sempre alimentou ser?