quarta-feira, junho 10, 2020

Por que o Brasil está descartando soluções tecnológicas no combate à Covid-19

Carlos Coelho
Gazeta do Povo (Paraná)

| Foto: Pixabay
 Tecnologia pode ajudar a combater o coronavírus. 
Mas é preciso debater o assunto

Desde o início de março, o governo de São Paulo usa tecnologia para monitorar as aglomerações em 104 de suas 645 cidades. Em uma parceria com telefônicas, o estado consegue cruzar dados das antenas de celular e ter uma ideia de quantos usuários estão em uma determinada área. É, obviamente, um número aproximado, já que dessa forma é impossível computar pessoas que não usam aparelhos móveis ou que não ativam os recursos de geolocalização. Os dados abastecem diariamente o que o governo chama de Sistema de Monitoramento Inteligente, uma base que identifica o índice de isolamento nestes municípios.

A solução tecnológica foi celebrada pelo governo paulistano como um importante aliado para combater o avanço da pandemia da Covid-19 e regrar a reabertura dos serviços não essenciais. Ficou na teoria. Nesta semana, por decreto, o estado passou a flexibilizar a quarentena. Anteriormente, o governador João Doria (PSDB), havia dito que permitiria a reabertura somente se o índice de isolamento diário permanecesse acima de 55% (quanto mais alto, mais eficiente estão sendo as medidas). Pouquíssimas cidades chegaram lá e a média estadual ficou na casa dos 50%.

Esse uso da inteligência de dados pelo governo de São Paulo é mais um exemplo de como a tecnologia, desde que garantida a privacidade dos cidadãos, poderia ser uma aliada no front. Em abril, após subir o tom contra as medidas de isolamento do próprio Doria, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desistiu de um acordo federal com as operadoras, o que poderia estender o sistema de monitoramento a quase todos os municípios brasileiros. A preocupação alegada pelo governo foi medo da exposição dos dados do cidadão. Com isso, alguns estados – além de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco – fecharam parcerias por conta própria com as telefônicas.

O advogado especialista em Direito Digital Fernando Peres indica que esta falta de unidade tem seu preço. “O presidente disse que não queria [o recolhimento de dados de telefonia] e com isso essa competência foi delegada aos estados. Nos Estados Unidos, é assim. Os estados têm mais autonomia para decidir. Não quero dizer que é melhor ou que é certo. Mas, se nosso país funciona de outra maneira [com a Federação definindo questões básicas], não podemos deixar para que cada um faça do jeito que acha melhor. Isso é perigoso para segurança dos dados e até para a própria segurança física dos cidadãos. Leva ao mau controle de gastos, ineficiência na conscientização das pessoas e desperdício de projetos de prevenção”, diz.

Peres é defensor do uso da tecnologia para ajudar a resolver crises de saúde, ação adotada em países europeus e Estados Unidos, por exemplo. “A aplicação de medidas tecnológicas com propósito de proteger a população, principalmente em questões relacionadas à saúde, são válidas, produtivas. Mas, diferente do que acontece em outros países, não estamos preparados. Não sabemos como utilizar a tecnologia ou quais os dados podemos adquirir para que não haja aquisição de informações em excesso”, pondera.


Tecnologia usada na Coreia do Sul teve acesso a dados sensíveis

Tida como um exemplo controverso, a Coreia do Sul conseguiu conter o avanço do coronavírus logo no início da pandemia no país. Um controle à base de recolhimento obrigatório de dados extremamente sensíveis. Uma das medidas mais polêmicas é a instalação de aplicativo nos celulares dos sul-coreanos capaz de identificar a locomoção de infectados e até avisar a pessoas de uma região sobre a condição de determinado morador. Um fator decisivo para que o país registre hoje menos de 300 mortes, enquanto o mundo passa de 376 mil vítimas. Mas a um custo alto de privacidade.

A situação levou a Comissão de Direitos Humanos do país a emitir nota pedindo "novos protocolos para o uso das tecnologias". Por sua vez, o centro de prevenção da Covid-19, ligado ao governo sul-coreano, disse que "usará os dados" apenas neste período excepcional.

Um marco legal na legislação brasileira pode minimizar esses riscos. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) – que versa sobre questões como o uso de informações de dados de telefonia, para exemplificar – poderia ter colocado ordem no Velho Oeste em que se transforma o uso de dados sem um regramento específico. Promulgada em 2018, ela entraria em vigor ao fim de abril deste ano. Porém, a vigência desta legislação foi arrolada na Medida Provisória 959, a mesma do benefício emergencial, adiando a aplicação para 2021.

Com isso, a esperança de que tecnologias possam auxiliar de forma massiva no combate à pandemia se tornam mais distantes nesse momento, ainda que possíveis. “Vamos imaginar que um buscador comece a receber diversas pesquisas de uma hora para outra de determinados sintomas de doença. É possível prever uma epidemia em determinadas regiões, cidades e estados”, diz Peres. Um alerta para possíveis novas crises.

Ministério da Saúde divulga novos dados sobre coronavírus

Victor Farias, Leandro Prazeres e Paula Ferreira
O Globo

Brasil registrou 32.913 novos infectados pelo novo coronavírus, além de 1.274 mortes em decorrência da doença

  Foto: Antonio Scorza / Agência O Globo
Crise do novo coronavírus 

BRASÍLIA - O Ministério da Saúde informou na noite desta quarta-feira que o Brasil registrou 32.913 novos infectados pelo novo coronavírus, além de 1.274 mortes em decorrência da doença, nas últimas 24 horas. Com isso, o país chega a 772.416 casos e 39.680 óbitos. Na terça-feira, o país tinha 739.503 casos confirmados e 38.406 mortes.

Foto: Divulgação/ Ministério da Saúde
 Número de casos e de óbitos por UF 

De acordo com os dados do ministério, São Paulo continua como o estado com mais casos da doença: são 156.316 infectados até o momento. Em seguida vem Rio de Janeiro (74.373), Ceará (71.403), Pará (62.095) e Maranhão (53.508).

Em número de mortes, São Paulo também aparece na frente, com 9.862 óbitos. Depois vem Rio de Janeiro (7.138), Ceará (4.480), Pará (3.927) e Pernambuco (3.531).

País é 3º em número de mortes

O Brasil permanece na terceira posição em número de mortes provocadas pela Covid-19 no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos (112.726) e Reino Unido (41.213), segundo dados da universidade norte-americana Johns Hopkins.

Quando considerado o número de casos, o país ocupa a segunda posição, perdendo para os EUA, que tem 1.996.960 infectados pela doença.

Veículos de comunicação fazem parceria para dar transparência a dados de Covid-19

O Globo

GLOBO, Extra, G1, Estadão, Folha e UOL vão coletar nas secretarias de Saúde e divulgar em conjunto números sobre mortes e contaminados, em razão das limitações impostas pelo governo

  Foto: MAURO PIMENTEL / AFP
Enfermeiros cuidam de paciente da Covid-19 em UTI de hospital em Maricá (RJ) 

RIO — Em resposta à decisão do governo Jair Bolsonaro de restringir o acesso a dados sobre a pandemia de Covid-19, os veículos GLOBO, Extra, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, G1 e UOL decidiram formar uma parceria e trabalhar de forma colaborativa para buscar as informações necessárias nos 26 Estados e no Distrito Federal.

Em uma iniciativa inédita, equipes de todos os veículos vão dividir tarefas e compartilhar as informações obtidas para que os brasileiros possam saber como está a evolução e o total de óbitos provocados pela Covid-19, além dos números consolidados de casos testados e com resultado positivo para o novo coronavírus. O balanço diário será fechado às 20h. O conteúdo terá leitura liberada para todos os acessos, incluindo não assinantes.

O governo federal, por meio do Ministério da Saúde, deveria ser a fonte natural desses números, mas atitudes recentes de autoridades e do próprio presidente colocam em dúvida a disponibilidade dos dados e sua precisão.

Mudanças feitas pelo Ministério da Saúde na publicação de seu balanço da pandemia reduziram a quantidade e a qualidade dos dados. Primeiro, o horário de divulgação, que era às 17h na gestão do ministro Luiz Henrique Mandetta (até 17 de abril), passou para as 19h e depois para as 22h. Isso dificulta ou inviabiliza a publicação dos dados em telejornais e veículos impressos. “Acabou matéria no Jornal Nacional”, disse o presidente Jair Bolsonaro, em tom de deboche, ao comentar a mudança. 

A segunda alteração foi de caráter qualitativo. O portal no qual o ministério divulga o número de mortos e contaminados foi retirado do ar na noite da última quinta-feira. Quando retornou, depois de mais de 19 horas, passou a apresentar apenas informações sobre os casos “novos”, ou seja, registrados no próprio dia. Desapareceram os números consolidados e o histórico da doença desde seu começo. Também foram eliminados do site os links para downloads de dados em formato de tabela, essenciais para análises de pesquisadores e jornalistas, e que alimentavam outras iniciativas de divulgação. 

Entre os itens que deixaram de ser publicados estão: curva de casos novos por data de notificação e por semana epidemiológica; casos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica; mortes por data de notificação e por semana epidemiológica; e óbitos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica.

No último domingo, o governo anunciou que voltaria a informar seus balanços sobre a doença. Mas mostrou números conflitantes, divulgados no intervalo de poucas horas.

Em razão das omissões, a parceria entre os veículos de comunicação vai coletar os números diretamente nas secretarias estaduais de Saúde. Cada órgão de imprensa divulgará o resultado desse acompanhamento em seus respectivos canais. O grupo vai chamar a atenção do público se não houver transparência e regularidade na divulgação dos dados pelos Estados. 

— Neste momento crucial, deixamos nossa concorrência de lado por um bem comum: levar à sociedade o dado mais preciso possível sobre a pandemia. Essas informações orientam as pessoas e as políticas públicas. Sem elas, o país mergulha em um voo cego. O jornalismo cumprirá seu papel — afirmou Alan Gripp, diretor de redação de O Globo.

— A missão do jornalismo é informar. Em que pese a disputa natural entre veículos, o momento de pandemia exige um esforço para que os brasileiros tenham o número mais correto de infectados e óbitos — afirmou Ali Kamel, diretor-geral de Jornalismo da Globo (TV Globo, GloboNews e G1). — Face à postura do Ministério da Saúde, a união dos veículos de imprensa tem esse objetivo: dar aos brasileiros um número fiel.

— Numa sociedade organizada como a brasileira, é praticamente impossível omitir ou desfigurar dados tão fundamentais quanto o impacto de uma pandemia. Com essa iniciativa conjunta de levantamento de dados com os Estados, deixamos claro que a imprensa não permitirá que nossos leitores fiquem sem saber a extensão da covid-19 — afirmou Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha.

— É nossa responsabilidade cotidiana transmitir informações confiáveis para a sociedade. E, agora, no momento mais agudo da pandemia, precisamos assegurar à população o acesso a dados corretos o mais rápido possível, custe o que custar — disse Murilo Garavello, diretor de Conteúdo do UOL. 

— É triste ter que produzir esse levantamento para substituir uma omissão das autoridades federais. Transparência e honestidade deveriam ser valores inabaláveis na gestão dessa pandemia. Vamos continuar cumprindo nossa missão, que é informar a sociedade — afirmou João Caminoto, diretor de Jornalismo do Grupo Estado.

Alexandre manda Ministério da Saúde voltar a divulgar dados de covid-19

Paulo Roberto Netto e Rayssa Motta
O Estado de São Paulo

Decisão obriga governo federal a manter transparência sobre número de óbitos pelo novo coronavírus

Foto: Gabriela Biló / Estadão 
O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. 

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, mandou o Ministério da Saúde retomar a divulgação da íntegra dos dados de covid-19 em balanços diários, como estava sendo feito até a última quinta, 4. A liminar foi proferida em ação movida pela Rede Sustentabilidade, PSOL e PCdoB, e também determina o retorno dessas informações ao site oficial sobre o combate à pandemia.

Na última sexta, 6, o governo federal excluiu os dados relativos ao acumulados de óbitos por covid-19, divulgando somente os números do dia. Reportagem do Estadão revelou que a mudança ocorreu por pressão do presidente Jair Bolsonaro, que exigiu do corpo técnico do Ministério da Saúde um método de publicidade que exibisse menos de mil mortos por dia.

Documento


“A presente hipótese não caracteriza qualquer excepcionalidade às necessárias publicidade e transparência, sendo notório o fato alegado pelos autores da alteração realizada pelo Ministério da Saúde no formato e conteúdo da divulgação do ‘Balanço Diário’ relacionado à pandemia (covid-19), com a supressão e omissão de vários dados epidemiológicos que, constante e padronizadamente, vinham sendo fornecidos e publicizados, desde o início da pandemia até o último dia 4 de junho de 2020, permitindo, dessa forma, as análises e projeções comparativas necessárias para auxiliar as autoridades públicas na tomada de decisões e permitir à população em geral o pleno conhecimento de decisões e permitir à população em geral o pleno conhecimento da situação da pandemia vivenciada no território nacional”, apontou Moraes.

O ministro classificou como ‘ameaça real e gravíssima’ a situação atual da pandemia no País, que vitimou mais de 36 mil pessoas, e apontou que cabe às autoridades brasileiras, ‘em todos os níveis de governo’, a efetivação concreta da proteção à saúde pública – incluindo o fornecimento de todas as informações necessárias para o planejamento e combate à doença.

A omissão dos dados ocorreu após pressão de Bolsonaro para reduzir o número de óbitos para menos de mil por dia. Até a semana passada, o Ministério da Saúde somava todas as mortes registradas no mesmo dia – independente da data do óbito. Isso serve para contabilizar mortes que, no momento do falecimento, eram consideradas suspeitas e só tiveram o diagnóstico confirmado para covid-19 naquele dia.

Com a mudança, apenas quem morreu no dia anterior seria contabilizado. A estratégia do Planalto seria usar o número reduzido para demonstrar que não há escalada da doença no País. A ideia é dizer que o número de mortes nunca esteve acima de mil por dia. O Brasil tem mais de 37 mil mortos e 685 mil casos confirmados do novo coronavírus, sendo o segundo País em número de contaminados e terceiro em óbitos.

A omissão dos dados levou a oposição ao Supremo em ação que foi deferida pelo ministro Alexandre de Moraes. Em outra frente, o Ministério Público Federal abriu investigação contra o governo e solicitou ao Ministério da Saúde a apresentação de atos administrativos que justificariam as decisões. O prazo para a entrega dos papéis é de 72 horas.

Nesta segunda, 8, em resposta à decisão do governo Jair Bolsonaro de restringir o acesso a dados sobre a pandemia de covid-19, os veículos O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo, Extra, G1 e UOL decidiram formar uma parceria e trabalhar de forma colaborativa para buscar as informações necessárias nos 26 Estados e no Distrito Federal. O balanço diário será fechado às 20h.

É grave a decisão de ocultar dados sobre a Covid-19

Editorial 
O Globo

Governo Bolsonaro retarda divulgação de números, tenta omitir total de mortos, mas recua após pressão

Uma das atitudes elogiáveis do Ministério da Saúde, antes mesmo de o Brasil registrar o primeiro caso de Covid-19, era a transparência. Em entrevistas coletivas, o então ministro Luiz Henrique Mandetta orientava a população sobre como se prevenir de um vírus que já se anunciava devastador. Com a chegada da pandemia, em fins de fevereiro, os informes diários do ministério serviam para divulgar números, traçar um panorama da evolução da doença, fazer projeções sobre o fim da epidemia e desmistificar fake news que contaminavam as redes.

Porém, desde a saída de Mandetta e de seu sucessor, Nelson Teich, ambos por divergências com o presidente Jair Bolsonaro, a transparência se tornou artigo tão escasso quanto respiradores. As coletivas foram esvaziadas, o ministério passou a divulgar os números cada vez mais tarde, e a metodologia das estatísticas foi alterada. Desde sexta, omitiu-se o total de mortos e infectados. No domingo, diante da repercussão negativa do fato, a pasta recuou.
  
O governo alegou que o atraso era para evitar subnotificações e inconsistências. Mas Bolsonaro admitiu que a intenção era impedir que os dados fossem veiculados no “Jornal Nacional”, da Rede Globo. Alguém precisa avisar ao presidente que manipular números da Covid-19 ou retardar a divulgação, para que não entrem no “JN”, é inútil — até porque eles são informados em edições extraordinárias. A manobra não reduzirá o tamanho da tragédia.

A questão se torna mais grave diante do anúncio de que o governo iria recontar o número de mortos. O ex-futuro secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Carlos Wizard, disse que os dados são “fantasiosos ou manipulados”. E que estados e municípios inflam as estatísticas para receber mais recursos. O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) reagiu com indignação, dizendo que o governo “insulta” a memória das vítimas.O ministro Gilmar Mendes, do STF, afirmou, no sábado, numa rede social, que a “manipulação de dados é manobra de regimes totalitários” e que “o truque não vai isentar a responsabilidade pelo eventual genocídio”

.O Brasil está se tornando uma espécie de pária pelo comportamento de seu presidente e pelo desastroso gerenciamento da crise. Ocultar ou manipular dados sobre a Covid é ato de extrema gravidade. Governos precisam desses números para planejar o combate à doença, e a sociedade tem todo o direito de ser informada sobre a pandemia.

Felizmente, as instituições estão funcionando, e tentativas de manipulação não deverão surtir efeito. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse que o corpo técnico da Casa poderia tabular os números junto às secretarias estaduais de Saúde. O TCU também sinalizou que faria o mesmo.

Não há como escapar da realidade. Com mais de 37 mil mortos, e sem ter atingido ainda o pico da epidemia, o Brasil já é o terceiro país com maior número de óbitos, atrás apenas dos EUA e do Reino Unido. A cada minuto, morre um brasileiro vítima do novo coronavírus. Esconder esses números não fará desaparecer o letal Sars-CoV-2.

Para especialistas, falta de transparência sobre dados pode configurar crime de responsabilidade

Camila Turtelli, 
O Estado de S.Paulo

Governo atentou contra as leis de acesso à informação, além de ferir um direito fundamental, o da informação


 O presidente da República, Jair Bolsonaro

BRASÍLIA - As manobras executadas pelo governo federal para mascarar o número de mortes causadas pela covid-19 pode configurar crime de responsabilidade ao presidente da República, Jair Bolsonaro, e ao ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello. Para especialistas, o governo atentou contra as leis de acesso à informação, além de ferir um direito fundamental, o da informação.
Desde o início da pandemia, o governo federal reduziu o nível de transparência nas informações sobre a crise e, mais recentemente, passou a atrasar e a maquiar os números sobre casos e mortes da doença.

O Estadão revelou nesta segunda-feira que a mudança na divulgação ocorreu após Bolsonaro determinar que o número de mortes ficasse abaixo de mil por dia. A ordem foi repassada a Pazuello, que entregou a demanda à sua equipe.  

“A Lei de Acesso à Informação fala que é uma conduta ilícita se negar a fornecer ou retardar deliberadamente e de forma incompleta, incorreta ou imprecisa. Essas tentativas de mudar a metodologia, que é uma forma incorreta de fornecer informação, poderia se configurar no artigo 32 desta lei”, diz Fernanda Campagnucci, diretora executiva da Open Knowledge Brasil.

Desde sexta-feira, o ministério mudou a forma de divulgação dos indicadores do coronavírus, deixando de apresentar alguns dados consolidados. No sábado, o presidente Jair Bolsonaro confirmou que o governo passou a adotar uma nova sistemática para prestar informações sobre o coronavírus.

Uma das mudanças é que o boletim diário do ministério, divulgado a partir de sexta, traz apenas o número de recuperados, novos casos e mortes registrados nas últimas 24h. Antes, o quadro apresentava também os números totais, registrados desde o início da pandemia.

Outra alteração é que o boletim passou a ser divulgado pelo ministério por volta das 22h. Inicialmente, essa divulgação ocorria às 17h - depois, passou para 19h.

A divulgação às 22h começou nos últimos dias sem que o Ministério da Saúde desse uma justificativa para o atraso. Além disso, o portal do governo federal que traz os números da pandemia no Brasil saiu do ar na noite desta sexta. Ao ser acessada, a página apresentava apenas a mensagem "Portal em Manutenção." Ela voltou por volta das 17h deste sábado.

No entanto, o portal retornou reformulado e com dados ínfimos, se comparado à versão anterior. Não há, por exemplo, informações detalhadas sobre cada Estado - nem o total acumulado de contágios e de mortes.

“Isso são condutas ilícitas de responsabilidade do agente público”, disse Fabiano Angélico, mestre em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e especialista em transparência. “Pelas declarações do presidente da República, ao dizer que não haveria notícia no ‘Jornal Nacional’, parece ter havido um retardamento deliberado e isso configuraria um crime”, disse Angélico.

O professor da Faculdade de Direito da USP Rafael Mafei também cita o possível enquadramento no crime de responsabilidade pública.

Manoel Galdino, diretor-executivo da Transparência Brasil, acredita que o caso possa ser enquadrado como improbidade administrativa.  A lei prevê punição a quem negar publicidade a atos oficiais ou retardar algum ato legal. “Porque isso é líquido e certo”, disse.

Na Câmara, o deputado Pedro Paulo (DEM-RJ) entrou com uma notícia-crime no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ministro interino da Saúde, o general Eduardo Pazuello, por prevaricação (crime cometido quando o indivíduo, indevidamente, faz ou deixa de fazer algo da atribuição do cargo para satisfazer interesse pessoal) e improbidade administrativa.

Já o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e outros parlamentares ingressaram com uma Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no Supremo, com medida de liminar, para que o governo divulgue a compilação de dados estaduais, sem manipulação, e também para que o balanço diário seja feito até as 19h30.

“O governo não pode se omitir de sua função básica, publicidade e transparência. Isso incorre em crime de responsabilidade”, afirmou a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA). 




Mandetta diz que manipulação de dados da covid é o “Estado ser mais nocivo do que a doença”

Breno Pires, 
O Estado de S.Paulo

Ex-ministro da Saúde classificou como estratégia política com intenção de “esconder números, manipular os números, não deixar notícias ruins” e disse que isso é prejudicial para o cidadão 

  Foto: Dida Sampaio/Estadão
Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde 

Brasília – O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) chamou de “tragédia” e de “pior dos mundos” a alteração pelo governo federal da forma de divulgação dos dados da pandemia da covid-19.  “Me parece que estão querendo fazer uma cirurgia nos números dos protocolos públicos. Não informar significa o Estado ser mais nocivo do que a doença”, disse Mandetta, em uma live da faculdade IDP, de Brasília.

Em sua fala, Mandetta também criticou a possibilidade de o País deixar a Organização Mundial de Saúde. Neste sábado, o Ministério da Saúde passou a restringir as informações disponíveis em sua página na internet que mantém sobre informações a respeito da pandemia.

Depois de retirar do ar por um dia, o site https://covid.saude.gov.br/ exibe agora apenas as informações sobre os casos de pessoas recuperadas da doença, os casos de novas contaminações e os óbitos. Todas as demais informações históricas da doença no País, dados acumulados, foram omitidas da população pelo governo Jair Bolsonaro.

O ex-chefe da pasta da Saúde desferiu uma série de críticas após ser questionado, na live, especificamente, sobre a restrição das informações. Ele classificou como estratégia política com intenção de “esconder números, manipular os números, não deixar notícias ruins” e disse que isso é prejudicial para o cidadão.

“O direito à informação é quase como um direito que ele tem para como que ele pode fazer para prevenir aquela doença infecciosa, como ele contrai, o que ele pode fazer. O que acontece na sua cidade, nos seus bairros, no serviço público, como está funcionado, cada um deles, para que ele possa se portar enquanto cidadão, sabedor dos riscos”, disse o ex-ministro.

Mandetta criticou diretamente a gestão militar no comando da saúde. O atual ministro da Saúde é o general Eduardo Pazuello e há dezenas de militares na pasta. “O SUS não foi conquistado, ele está sendo temporariamente ocupado por pessoas que têm uma excelente formação para o campo militar, mas não têm nenhuma formação para o campo da saúde pública”, disse.

“Em guerras, militares são muito acostumados a construir bunkers de segredos inacessíveis. Mas, na guerra contra vírus, a informação compõe a primeira linha de defesa do indivíduo”, afirmou o ministro, que se disse preocupado que os atuais responsáveis por conduzir a saúde possam estar lá apenas “cumprindo missão”.

“Se essa missão é se passar por sonegar as informações, colocá-las em horário inacessível, ou rever, torturar os números para que eles confessem verdades que eles entendam que sejam as que melhor se encaixam para o momento, talvez seja isso que a gente vá presenciar, uma grande noite da ciência”, afirmou. Fazendo um paralelo, o ministro disse que o regime militar escondeu informações sobre uma epidemia de meningite em 1975. “É uma tragédia o que a gente está vendo agora, o desmanche da informação”, afirmou Mandetta.

“Por mais que eles queiram retirar do MS, podem os conselhos nacionais de secretários estaduais de Saúde transmitir as informações.  É da transmissão de informações que se ganha credibilidade’, frisou. 

O Tribunal de Contas da União deve discutir a possibilidade de passar a reunir e divulgar as informações das secretarias estaduais de saúde, por proposta do ministro Bruno Dantas. 

Genocídio indígena

Mantetta afirmou também que pode estar havendo um genocídio da população indígena, por meio do novo coronavírus.

“No caso dos indígenas, que tem uma valência internacional muito elevada, tenho certeza que o Supremo vai, em algum momento, se debruçar sobre esse tema, que pode flertar com o genocídio, já que são povos alguns isolados que nunca tiveram e relação e não construíram um arcabouço de anticorpos contra a família do coronavírus”, disse.

Mandetta criticou também a possibilidade de saída do Brasil da Organização Mundial de Saúde. “Sair da OMS é nos colocar como páreas mundiais na saúde, é sair completamente da mesa. É igual a um menino mimado que fala: ‘se eu não posso jogar, vou embora pra minha casa’. E ele não sabe que o melhor não é ser dono da bola, o melhor é jogar futebol e, para isso, você precisa de 22”, disse o ex-ministro da Saúde.

O Brasil perderia muito no trânsito internacional e no acesso a mecanismos de produção e acesso a vacinas, segundo o ex-ministro. “Não somos uma superpotência para ficar de fora de um grande espaço de discussão como é a OMS, embora ela tenha cometido erros no início (da pandemia)”, disse.

Governo substitui portal sobre covid-19 por site com informações mínimas

Exame.com
Com Informações Estadão Conteúdo

Desde a sexta-feira, governo tem sido criticado pela falta de transparência na manipulação dos dados

 (Adriano Machado/Reuters)
Presidente Jair Bolsonaro utiliza máscara de proteção
 contra coronavírus durante coletiva de imprensa 

Depois de retirar do ar por um dia o site que mantinha sobre informações detalhadas a respeito a covid-19, o Ministério da Saúde atualizou a página na internet com informações básicas. O site traz apenas as informações sobre os casos de pessoas recuperadas da doença, os casos de novas contaminações e os óbitos.

Todas as demais informações históricas da doença no País foram omitidas da população.

Na página, o governo informa que “O processo de atualização dos dados sobre casos e óbitos confirmados por covid-19 no Brasil é realizado diariamente pelo Ministério da Saúde através das informações oficiais repassadas pelas Secretarias Estaduais de Saúde das 27 Unidades Federativas brasileiras” e que esses “dados fornecidos pelos Estados são consolidados e disponibilizados publicamente todos os dias, em torno das 19h”.

Não é o que ocorria até então.

Durante semanas, o Ministério divulgava as informações até as 17 horas, com coletivas de imprensa para detalhar os dados. Depois, passou a atrasar essas informações sucessivamente, até que o próprio presidente Jair Bolsonaro declarou que não teria mais dados em tempo de serem divulgados pelo Jornal Nacional, da TV Globo, às 20h30.

Desde a sexta-feira, 5, o governo tem sido criticado pela falta de transparência na manipulação dos dados.

Lideranças políticas, instituições e representantes do Judiciário e Legislativo reagiram à decisão de reduzir a publicidade das informações.

A despeito da subnotificação de casos pelo País, o futuro secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Wizard, disse que os números divulgados até agora seriam “fantasiosos” e que Estados e Municípios teriam inflacionado números de suas tragédias para receber mais recursos.

Governo tentou esconder epidemia de meningite em 1974

Redação 
Revista EXAME

Debate sobre a falta de transparência nos números de coronavírus remete a outra epidemia que parou o Brasil, durante a ditadura militar

(Getty Images/Getty Images)
Geisel: durante seu governo, epidemia de meningite se espalhou pelo Brasil 

O debate nacional sobre a transparência na divulgação de dados do coronavírus relembra outro momento pouco nobre da história estatística nacional. Desde sábado estão circulando nas redes sociais informações sobre a epidemia de meningite que se alastrou pelo país nos anos 1970 e que a ditadura de Emílio Médici e Ernesto Geisel tentou esconder.

A meningite é o processo inflamatório das meninges, as membranas que envolvem o cérebro e a medula. Pode ser causada por vírus ou bactéria e afeta sobretudo crianças. Entre os sintomas principais estão dor de cabeça, febre e rigidez na nuca.

O surto de meningites tipos A e C durou de 1971 a 1975, e teve números muito mais modestos do que os atuais da covid-19. Matou, em 1975, 411 pessoas — ou menos de 1,5 por dia. Ainda assim, o avanço foi consistente — o número de casos registrados em janeiro de 1975 foi seis vezes maior que em janeiro de 1974, segundo dados do Conselho Regional de Medicina de São Paulo. No auge, o número de contagiados chegou a 200 por 100.000 habitantes — o Brasil teve até hoje 345 casos de coronavírus por 100.000 habitantes, como comparação. Epicentro da doença, São Paulo chegou a ter 40.000 casos em 1974.

Os números, e a velocidade de expansão da doença, demoravam a vir à tona por falta de transparência do governo e por censuras a reportagens. Em outubro de 1972, a revista Veja fez uma reportagem de capa sobre a meningite, com a chamada O surto da desinformação. Na Folha, uma reportagem com o título A Epemida do Silêncio, foi censurada. Em 2020, a imprensa tem tido mais uma vez papel primordial na divulgação de informações sobre a pandemia do coronavírus.

Nesta segunda-feira, um consórcio formado por Globo, Extra, G1, Estadão, Folha e Uol vai começar a divulgar números de casos e mortes por coronavírus coletados diretamente nas secretarias estaduais de Educação. Ontem, após anunciar restrições nas informações sobre a covid-19, o governo divulgou dois números contraditórios sobre a doença — primeiro de 1.382 mortos e, depois, de 525.

Assim como acontece com o coronavírus, as regiões mais pobres da capital paulista foram as mais afetadas pela meningite — a cidade já tinha, na época, mais de 500 favelas. E, assim como acontece agora, havia um desconhecimento sobre que tratamento era o mais efetivo. Os americanos começaram em 1971 a testar vacinas em militares no Vietnã. Também relembrando tempos atuais, o governo criticou jornais por reportagens e negou a gravidade da pandemia.

Reportagen da BBC Brasil de março relembra que o Brasil já havia tido dois surtos de meningite, em 1923 e em 1945. E que, depois de negar a existência da emergência de Saúde, o governo suspendeu aulas e eventos esportivos em 1975 e até cancelou a realização dos Jogos Pan-Americanos previstos para São Paulo — os jogos foram para a Cidade do México.

Também em 1975 o governo montou à pressas um plano de vacinar 10 milhões de pessoas em quatro dias, em abril. Cerca de 93% da população da cidade de São Paulo foi vacinada, segundo o IBGE. Com a campanha, o número de casos começou a cair e voltou ao normal dois anos depois, em 1977.

Por que fizemos tudo errado?

Luisa Purchio
Revista ISTOÉ

Apesar de ter sido afetado pela pandemia bem depois dos países europeus, o Brasil não se preparou corretamente: ignorou as medidas de isolamento social, minimizou a necessidade de testes e se tornou um dos maiores epicentros mundiais do coronavírus


O Brasil deixou de ser o país da esperança e se tornou o país da decepção. Apesar de contar com a vantagem de ser alvo do novo coronavírus tardiamente em relação a outros países da Ásia e da Europa, o enfrentamento da pandemia foi e continua sendo inadequado. Graças a uma sucessão de erros, somos hoje a segunda nação com o maior número de contágios no mundo e a quarta com o maior número de mortes. Até a quarta-feira, 3, chegamos a 587 mil infectados, atrás apenas dos EUA, e 32.602 mortos, quase ultrapassando a Itália, que soma 33.601 vítimas. A cada período, recordes fúnebres são batidos pelo próprio País: na semana passada, foram 1.262 mortes em 24 horas. Estudos mostram que estamos longe do pico do número de infectados, ou seja, a curva continuará a subir.

 Divulgação


Da frase que o presidente da República, Jair Bolsonaro, adora proclamar, “o Brasil é um país maravilhoso que tem tudo para dar certo”, falta a parte final: o Brasil tinha mesmo tudo para dar certo, mas graças à uma série de erros de gestão, não deu. São vários os motivos que tornaram o país um dos principais epicentros mundiais do novo coronavírus. Uma delas, certamente, é a guerra política entre presidente, prefeitos e governadores, o que se traduziu em um mar de notícias falsas espalhadas pelas redes sociais e grupos de WhatsApp. “As pessoas ficaram inseguras e em pânico com informações equivocadas. Usa máscara ou não usa? Devemos tomar vitamina D, cloroquina? Foram encaminhadas muitas inverdades, sobretudo sobre o risco da transmissão da doença”, diz o infectologista Sergio Cimerman, diretor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia.

 (Crédito:Divulgação)
CONTRAMÃO Enquanto a Itália controlava a entrada nos aeroportos, 
o Brasil os recebia livremente para o carnaval; em Lisboa a população 
ficou em casa, mas em São Paulo as ruas lotaram; na França há proteção 
em supermercados, em Belo Horizonte, não 

Falta de controle

Não há melhor arma que a ciência para enfrentar uma crise sanitária, mas justamente essa ideia básica parece rejeitada pelo governo, vide ataques a universidades, cortes a financiamentos de pesquisas e a demissão de dois ministros da Saúde com conhecimento técnico para lidar com o problema. Em meio à desinformação, o isolamento social, única arma comprovadamente eficaz contra o vírus, foi por água abaixo. Mesmo sem chegar a ser adequadamente implantado, já está sendo flexibilizado. Dados da startup InLoco apontam que, nesse início de junho, o índice de isolamento está abaixo de 50%. No final de maio, em meio ao crescimento da curva de contaminação, foi registrado o maior número de pessoas nas ruas desde o início da pandemia. Os discursos de Bolsonaro, que promovem aglomerações, são um entrave para a efetividade da medida, mas governadores e prefeitos também deixam a desejar. Na cidade de São Paulo, o rodízio de carros “pares e ímpares” instituído pelo prefeito Bruno Covas foi inadequado: tirou carros da rua, mas lotou o transporte público. Na semana passada, o prefeito Marcelo Crivella, do Rio de Janeiro, liberou as ruas para os camelôs sem nenhum estudo que justificasse a medida. Nos aeroportos do País a situação não é melhor. 

Fontes relataram que viagens realizadas recentemente não tiveram qualquer tratamento especial. Além de voos com lotação máxima, muitas companhias aéreas e aeroportos não estão aplicando qualquer medida de segurança, como medição de temperatura ou entrevistas com os passageiros. No carnaval, quando já se sabia que o vírus estava se propagando pelo mundo, as cidades registraram recordes no número de foliões: Olinda e Recife, em Pernambuco, e Salvador, na Bahia, entre outras, receberam milhões de turistas. A situação não é mais animadora quando falamos de equipamentos de proteção individual para as equipes de saúde e, principalmente, de testes: a demora para disponibilizar o diagnóstico na rede pública, bem como a falta de máscaras, agravou a disseminação da doença. O Brasil, país que tinha tudo para dar certo, seguiu na direção contrária. Os índices negativos apenas comprovam que nos tornamos uma nação incapaz de se preparar corretamente para essa pandemia. 






Abin alertou Palácio do Planalto e ministros sobre caos em cemitérios pela covid-19

Mateus Vargas, 
O Estado de S.Paulo

Documentos obtidos com exclusividade pelo 'Estadão' revelam que agência mostrou desespero de famílias em Manaus

  Foto: Michael DANTAS / AFP
Vista aérea mostrando coveiros enterrando uma pessoa no cemitério 
de Nossa Senhora Aparecida, no bairro de Taruma, em Manaus. 

BRASÍLIA - A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) alertou o Palácio do Planalto e ministros sobre situações de caos em cemitérios do País e a falta de espaços para sepultamentos, causados pelo aumento de óbitos pela covid-19. Mesmo assim, o presidente Jair Bolsonaro tem acusado gestores de fazer "terrorismo" ao buscar novos espaços para enterros e chamou de "bosta" o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), por abrir covas coletivas.

Em informes sobre a pandemia que somam cerca de 950 páginas, com datas de 27 de abril a 13 de maio, obtidos pelo Estadão com exclusividade, a Abin mostra o desespero de famílias que não encontram parentes mortos em enterros precários em Manaus (AM). 

"Famílias relatam desaparecimento temporário dos corpos de familiares que morreram na rede pública de saúde. No cemitério público Nossa Senhora Aparecida, a prefeitura informou que os corpos serão enterrados em valas comuns, empilhados três a três", apontou a agência em documento de 29 de abril. No mesmo informe, a Abin afirma que cresce em Manaus a opção de cremar corpos "por não haver mais espaço suficiente nos cemitérios públicos" para vítimas da doença.

Ainda segundo a agência, caixões na capital do Amazonas foram abertos por pessoas que buscavam parentes. "A ação ocorre após trocas e desaparecimento de cadáveres."

Apesar de alertas de autoridades de saúde e da Abin, conforme informa o Estadão, Bolsonaro reclama da mobilização de gestores de Estados e municípios para dar conta de enterrar mortos pela covid-19. No começo de abril, o presidente chamou de “terrorismo” a abertura de dezenas de covas rasas no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, cena registrada em foto que ilustrou a capa do jornal  The Washington Post, dos EUA. Sobre a mesma foto, ele também questionou, em 2 de abril, durante entrevista à Rádio Jovem Pan: “Precisa disso?”.

Em reunião ministerial de 22 de abril, Bolsonaro chamou de "bosta" o prefeito de Manaus por abrir covas coletivas. “Aproveitaram o vírus, está um bosta de um prefeito lá de Manaus, agora, abrindo covas coletivas. Um bosta", disse. As imagens da reunião foram divulgadas após decisão do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), em inquérito sobre suposta interferência de Bolsonaro na Polícia Federal (PF). No mesmo encontro, o presidente disse a seus auxiliares que o prefeito de Manaus estava "aproveitando" a pandemia para levar um "clima desse, para levar o terror ao Brasil".

Dias após a reunião com ministros, em 4 de maio, a Abin informou sobre chegada de reforço de 300 urnas funerárias a Manaus, cidade já com a capacidade de enterros esgotada. "Devido à falta de estoque, algumas empresas interromperam os sepultamentos privados", escreveram os agentes de inteligência. "A área aberta no início de abril de 2020 no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, principal cemitério público da cidade, está praticamente cheia. Devido ao aumento da demanda e ao esgotamento de locais para enterro, há projeto da criação de novo cemitério em Manaus", completa a nota.

Os informes da Abin abastecem o Centro de Coordenação de Operação do Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19 (CCOP). Coordenado pela Casa Civil, o órgão foi criado em março, quando Bolsonaro atuava para retirar o protagonismo do Ministério da Saúde na crise. Na reunião com ministros, em 22 de abril, Bolsonaro afirmou que não recebia informações suficientes dos órgãos oficiais e disse preferir seu próprio serviço de inteligência. "Sistemas de informações... o meu funciona. O meu particular funciona. Os que têm (sic) oficialmente, desinformam", disse o presidente, na ocasião. "Prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que tenho."

A Abin faz, desde março, diagnóstico da situação da pandemia no País e um mapeamento de casos da doença no exterior. Como revelou o Estadão no domingo, adota, nos documentos endereçados ao Planalto e a ministérios, discurso oposto ao do presidente sobre a pandemia de coronavírus. No começou de abril, por exemplo, a  agência afirmou que decretar rígida quarentena foi determinante para achatar a curva de casos na Espanha, Itália, França, Alemanha e Reino Unido. Bolsonaro, no entanto, é crítico das medidas de isolamento.


Dificuldades de sepultamento no Norte e Nordeste

Nos informes obtidos pelo Estadão, o Abin aponta dificuldades para o sepultamento de vítimas da covid-19 principalmente no Norte e  Nordeste. Em 2 de maio, os agentes de inteligência apontaram filas de carros funerários no Instituto Médico Legal (IML) em Belém (PA). "Um caminhão frigorífico foi posicionado no local para armazenar corpos." O número de sepultamentos em alguns cemitérios da cidade, segundo a agência, era cinco vezes maior do que o comum.

A agência escreveu ainda, em 7 de maio, sobre protesto de moradores do bairro Tapanã, na periferia de Belém, contra a abertura de covas no cemitério particular Parque de Nazaré. "Eles temem que o enterro de pessoas que tiveram covid-19 possa poluir o lençol freático e contaminar poços artesianos na área", explicou a Abin. "Por falta de vagas no cemitério público do Tapanã, a prefeitura comprou parte do terreno desse cemitério particular para fazer os enterros", ainda segundo o órgão.

A Abin também alertou sobre colapso em necrotério do Hospital Municipal Lourenço Jorge, no Rio. Segundo o órgão de inteligência, a unidade tinha "corpos enfileirados em cima de macas em um corredor", em 30 de abril, e dois profissionais já haviam morrido pela covid-19. "Ao menos sete médicos pediram demissão alegando falta de condições de trabalho."

Em Recife, em 5 de maio, cerca de 600 das 3 mil novas sepulturas abertas para vítimas da covid-19 desde março já estavam ocupadas, mostrou a agência. Mesmo com estoques de urnas e espaço para enterros, o Acre ainda estava em fase de "adaptação" em 11 de maio, segundo a Abin. Os sepultamentos no Estado foram realizados "sem nenhuma regulamentação oficial". Procurados, a Presidência da República e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) não se manifestaram. 

Psiquiatra propõe a interdição de Bolsonaro por problemas mentais e a suspeição do procurador-geral

Carlos Newton
Tribuna da Internet


Charge do Aroeira (Arquivo Google)

O Dr.Ednei Freitas, um dos mais renomados psiquiatras e psicanalistas do pais, que é articulista da Tribuna da Internet, enviou para as Comissões Executivas do PDT, PSB e para os deputados que também estão habilitados no Inquérito 4.831 do Supremo, que investiga o presidente Jair Bolsonaro, uma mensagem na qual sugere que peticionem arguindo a suspeição e/ou impedimento do procurador-geral da República, Augusto Aras, pelas razões que constam do artigo publicado aqui na TI pelo jurista Jorge Béja. 

Além disso, o Dr.Ednei Freitas pede que seja arguida também a insanidade mental do investigado Jair Messias Bolsonaro, conforme autoriza o artigo 149 do Código de Processo Penal. Neste ponto, como psiquiatra e psicanalista, ele indica quais as doenças mentais que Bolsonaro demonstra ser portador.

RAZÕES DA SUSPEIÇÃO – 

Na mensagem aos partidos e parlamentares, o psiquiatra carioca envia o artigo publicado por Jorge Béja, que justifica a suspeição por ter sido o procurador indicado fora da lista tríplice votada pelos procuradores de todo o país, desprezando a tradição, que é fonte de Direito Consuetudinário.

Alem disso, disse o jurista, “sem acanhamento, Bolsonaro declarou, publicamente, que no caso de uma terceira vaga para ter assento no Supremo Tribunal Federal, seu preferido, seu favorito, seu predileto é Augusto Aras. A declaração pegou tão mal que o próprio Aras se sentiu “desconfortável”. Sim, “desconfortável”, pois foi a essa a palavra, o substantivo, o sentimento que o doutor Augusto Aras externou a respeito da declaração do presidente”.

“Um procurador-Geral da República que declara sentir-se “desconfortado” para o desempenho do cargo, no tocante à primazia, à exclusividade, de decidir sobre o oferecimento, ou não, de denúncia-crime contra o presidente da República, ou se autodeclara impedido, ou se autodeclara suspeito”, frisou Béja, citando as diversas leis e regulamentos que impõem essa declaração.

INSANIDADE MENTAL – 

Em seguida, o psiquiatra Ednei Freitas discorre sobre o estado de saúde do presidente. “Como médico, psiquiatra e psicanalista há quase cinquenta anos, observo  “in oculi” e por meio das imagens, falas, gestos, atitudes, ações e reações que os noticiários diariamente mostram, que o investigado Jair Messias Bolsonaro demonstra ser portador de insanidade mental”, disse o especialista, acentuando haver motivos para interdição,  segundo o artigo 149 do Código de Processo Penal.

”Sobre o número de mortes causadas pelo Coronavírus-19, o presidente deu resposta agressiva: “E daí? Lamento. Eu sou Messias, mas não faço milagres”. A soberba, todavia, revela-se no uso de outras expressões que depois utilizou: “eu sou a Constituição”, “tenho a caneta”, “o presidente sou eu”, “quem manda sou eu”, afirmou o Dr. Freitas, acrescentando que o presidente não estava a fazer blague. “

As atitudes habituais permitem supor possível Transtorno de Personalidade Paranóide (antigamente chamava-se Psicopatia),  objeto de classificação internacional de doenças da Organização Mundial de Saúde, em livro específico sobre doenças mentais.


SINTOMAS CLAROS –

 “Nessa classificação, o Transtorno de Personalidade Paranóide tem por características a indiferença insensível face aos sentimentos alheios; uma atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito a regras; a baixa tolerância à frustração; a incapacidade para experimentar culpa e propensão a culpar os outros”, assinalou o psiquiatra, acrescentando sintomas como “combativo e obstinado senso de direitos pessoais; tendência a experimentar autovalorização excessiva e preocupação com explicações conspiratórias”.

Depois de citar diversos exemplos do comportamento anormal do presidente, o Dr. Ednei Freitas enviou aos deputados e parlamentares o link do artigo do dr. Jorge Beja na Tribuna da Internet, publicado nesta quarta-feira, dia 3. Confira aqui.


Bolsonaro distorce decisão do STF e diz que cabe a governadores e prefeitos combater a covid-19

Julia Lindner, 
O Estado de S.Paulo

Cobrado pela escalada do novo coronavírus no País, presidente rebateu críticas dizendo que o Supremo determinou 'total responsabilidade' aos gestores estaduais e municipais

  Foto: Gabriela Biló/Estadão
O presidente Jair Bolsonaro em Goiás 

Brasília - Cobrado pela escalada do novo coronavírus no País, o presidente da República Jair Bolsonaro usou o Twitter, nesta segunda-feira, 8, para rebater críticas sobre a condução das medidas de combate à pandemia. Na rede social, o presidente citou que uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a "total responsabilidade" de prefeitos e governadores sobre medidas para conter a propagação da covid-19, distorcendo o teor do que decidiram os ministros da Corte. No domingo, o Brasil chegou à marca de 36.455 mortes e 691.758 casos confirmados, de acordo com o Ministério da Saúde.

Bolsonaro nesta segunda.  

- Lembro à Nação que, por decisão do STF, as ações de combate à pandemia (fechamento do comércio e quarentena, p.ex.) ficaram sob total responsabilidade dos Governadores e dos Prefeitos.

Diferentemente do que diz o presidente, a decisão do Supremo assegurou aos Estados e municípios autonomia para tomar medidas que tenham como objetivo tentar conter a propagação da doença, mas não exime a União de realizar ações e de buscar acordos com os gestores locais. Também no Twitter, a professora de Direito da FGV-SP, Eloísa Machado, rebateu a postagem do presidente. "STF disse que Municípios, Estados e União, TODOS, têm competência e dever de adotar medidas de proteção à saúde", afirmou ela. Na postagem, Machado frisa que a interpretação de Bolsonaro sobre a decisão do STF está "errada".

Abertamente contrário ao isolamento social, Bolsonaro tem sido procurado por apoiadores para que "reabra" o comércio e libere a circulação de pessoas em meio à pandemia. Em resposta, ele repete que cabem aos prefeitos e governadores essa função. Numa tentativa de "furar" estas medidas, cita ainda que já incluiu diversas atividades na lista de serviços essenciais, como igrejas, academias e salões de beleza.  Na semana passada, o Brasil foi citado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como mau exemplo na condução da pandemia.

Na postagem no Twitter, Bolsonaro afirmou que "forças nada ocultas" tentam deslegitimá-lo e atrapalhar a governança. "Ao lado disso forças nada ocultas, apoiadas por parte da mídia, açoitam o Presidente da República das mais variadas formas para deslegitimá-lo ou atrapalhar a governança. Com fé em Deus e no povo seguirei meu destino de melhor servir ao meu país", diz Bolsonaro na mensagem.

Ele também relembrou que o governo liberou o auxílio emergencial de R$ 600 a trabalhadores informais, além de ter alocado recursos para medidas de combate ao desemprego.

Ex-marqueteiro de Bolsonaro escreve primeiro artigo depois de briga com Carlos: 'O Partido dos Robôs sem Voto'

O Globo
 Jorge William | Agência O Globo


O empresário Marcos Aurélio Carvalho, um dos donos da AM4, foi peça-chave na campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018. No fim daquele ano, contudo, deixou a equipe de transição de Bolsonaro após o vereador Carlos se incomodar com uma entrevista que deu ao GLOBO. Depois de meses em silêncio, Carvalho aceitou escrever um artigo para o Sonar sobre internet e política. Abaixo o artigo do ex-marqueteiro que ajudou Bolsonaro a virar presidente:
O Partido dos Robôs sem voto

A democracia moderna foi atravessada por um desafio inimaginável até pouco tempo: a ocupação da pólis por seres irreais. Quem são esses usuários que diariamente emplacam temáticas políticas nos trending topics do twitter, com uma capacidade quase imediata de mobilização em torno de hashtags perfeitamente bem combinadas, perfeitas até demais para serem verdade?

Há uma falha no teste do pato. “Se ele parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, então provavelmente é um pato” – diz o ditado. E o usuário que se parece com eleitor, reclama como eleitor, apoia como eleitor, mas usa hashtags milagrosamente lançadas, em questão de minutos, aos assuntos mais comentados do momento? É robô.

Tudo que acontece de mais relevante na política nacional vira uma hashtag, ou mais provavelmente duas: uma de apoiadores e outra de detratores. Inicia-se, então, a batalha digital do dia.

Existem, porém, as batalhas reais e as batalhas que nascem forjadas e se tornam reais. As primeiras não deixam de interessar à análise do cenário dicotômico, mas as segundas merecem especial atenção crítica. Robô não vota. Então por que importa tanto o tumulto que ele faz? Porque a movimentação de usuários irreais tem o condão de pautar o debate. A aparência de que um assunto está sendo comentado faz com que ele passe a ser comentado de fato. Está feito o sequestro da pauta política de um país.

A movimentação de uma expressiva quantidade de usuários falsos tem a perigosa capacidade de criar uma bolha inflacionária política ou eleitoral. O que significa isso? Que ela traz uma falsa robustez a uma ideia, a uma pessoa ou a uma causa. Esse conjunto de robôs desprovidos de título de eleitor cria uma “bolha” de apoiadores - frágil, posto que mentirosa. Mas a demonstração da ampla adesão à ideia chama mais gente, desta vez pessoas reais. É uma bolha inflacionária política e eleitoral, na medida em que carrega uma pessoa nos ombros invisíveis de celulares conectados a contas falsas e entrega a ombros verdadeiros de quem sentiu que estava aderindo a um forte movimento, “que subitamente eclodiu”. Então, pouquíssimo importa que robô não vota, não comparece a manifestação, não bate panela na janela, desde que ele consiga fazer pessoas reais, capazes de tudo isso, aderirem ao movimento.

Não pode ser subestimada a grande susceptibilidade de uma pessoa real se juntar a um movimento de origem falsa. As pessoas entram diariamente nas redes sociais em busca de um tema para comentar. Não é mais só uma questão de programação comportamental, é também uma questão de pertencimento. Se uma hashtag entra para os trending topics, para muitos isso significa quase automaticamente que o assunto em torno dela merece um comentário ou uma ação.

Muita ficção científica foi produzida no passado, especulando sobre robôs usurpando empregos e até postos de comando humanos; mas pouco se imaginou sobre robôs usurpando o debate público humano, o debate sobre a própria forma de uma sociedade humana se organizar e se deixar liderar.

Qual é o grande mal disso? Justamente pela fugacidade do “assunto do momento”, a batalha política passou a ser diária, pontual e pormenorizada. Houve um claro esvaziamento da política de identificação de ideias e propostas, em favor da política de identificação de posturas e falas, cotidianamente. É um rumo perigoso para se tomar: o debate político deixar de ser sobre ideias e passar a ser sobre circunstâncias. A transitoriedade do apoio gera graves crise de representatividade e de capacidade de se liderar, pelo prazo necessário para fazer qualquer diferença.

Se esses fatos estão postos e estamos falando de uma realidade enquanto ela acontece (vide batalha de hashtags do dia), o que se há de fazer? Muito se debate, acertadamente, sobre regulação, investigação e inibição da presença digital fake. Mas conhecem-se os desafios de se controlar algo que é pouco rastreável, que desconhece fronteiras territoriais e faz-se esbarrar em alcances jurisdicionais.

Sem dúvidas, a melhor forma de encarar é escancarar. Não se questiona a importância de a comunidade digital global continuamente trabalhar para evoluir em segurança, rastreabilidade e confiança; e de as comunidades jurídicas amadurecerem os debates sobre controle, responsabilização e desmobilização. Mas a contribuição mais eficaz e imediata virá – e já tem vindo – das iniciativas de jogar luz sobre as trevas da mobilização robotizada em torno de pautas políticas.

Não tem fidelidade partidária no Partido dos Robôs sem Voto. É preciso apostar alto na “trollagem” contra os robôs. Isso significa expor suas contradições, suas obviedades, suas falhas, seus movimentos e suas inconsistências. Talvez seja essa uma boa releitura moderna do enigma da esfinge. Precisamos decifrar as redes a serviço do fake, sob pena de vermos devorado o debate público tal como se conhece. Nas urnas: um homem, um voto. Nas redes: um homem, um post.

Setor de saúde fecha mais de 2 mil vagas em abril, com suspensão de procedimentos eletivos

Luciana Casemiro
O Globo

Hospitais cortam cargos administrativos e de análise laboratorial. ANS decide hoje sobre adiamento de cirurgias e exames que não são de emergência

  Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
A crise do coronavírus afetou as finanças dos hospitais, que têm 
maiores ganhos com procedimentos eletivos, como cirurgias 

RIO - As dificuldades impostas ao setor de saúde pela pandemia já se refletem no mercado de trabalho. Em abril, mês em que tradicionalmente há saldo positivo de geração de empregos no segmento, foram fechados 2.369 postos de trabalho, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). 

Segundo fontes, os cortes atingem, principalmente, áreas administrativas de hospitais e laboratórios, além de cargos como técnico de enfermagem e de análises laboratoriais clínicas e de imagem.

Clovis Queiroz, coordenador-geral de Relações do Trabalho e Sindical da CNSaúde, confederação que representa hospitais, clínicas e laboratórios, destaca que, em abril do ano passado, o saldo positivo de criação de empregos no setor foi de 20 mil vagas.

— Esperamos números piores em maio, pois muitas clínicas estão fechadas e já esgotaram recursos de suspensão de contrato, férias e redução de jornada — diz.

As demissões, segundo executivos do setor, estão vinculadas à suspensão de procedimentos eletivos.

— Muitos hospitais não estão ganhando o suficiente nem para pagar os custos fixos, que ficam na casa dos 45% do faturamento. Se o quadro piorar, terão de cortar mais — afirma Breno Monteiro, presidente da CNSaúde.

Atendimento de planos de saúde

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) decide hoje se manterá o adiamento do atendimento pelos planos de saúde de procedimentos que não sejam de emergência, como consultas, exames e cirurgias eletivas.

A princípio, a medida expirava em 31 de maio, mas a diretoria decidiu prorrogar o prazo para nova avaliação. As operadoras defendem um retorno escalonado, de modo que o processo seja normalizado em outubro.

Para Patrícia Cardoso, coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon), da Defensoria Pública, o médico é que deve determinar se o paciente deve postergar um exame ou tratamento:

— Como está hoje estamos colocando em risco a saúde de pacientes que deveriam estar em tratamento e estão deixando de fazê-lo e podem ter a sua situação agravada.

Monteiro, da CNSaúde, concorda e acrescenta:

— A resolução da ANS está sendo usada para negar procedimentos que deveriam estar sendo realizados. Essa postergação é ruim para os hospitais, mas também para os pacientes. Em muitos estados há taxas baixíssimas de ocupação por Covid-19 e nada justifica que não se volte a atender os procedimentos eletivos.

Vera Valente, diretora executiva da FenaSaúde — entidade que congrega as maiores operadoras do setor — diz que as empresas seguem rigorosamente as orientações das autoridades sanitárias do país:

— A decisão de postergar procedimentos não parte das empresas. Elas respeitam estas diretrizes. A medida reflete também a decisão dos pacientes, no sentido de se precaver da Covid-19.

Em nota, a Associção Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) também destacou que a suspensão de atendimentos ambulatorias e procedimentos eletivos foi recomendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). 


Idec pede fiscalização

Para a coordenadora de pesquisa em Saúde do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ana Carolina Navarrete, o adiamento não é um problema:

— Trata-se de uma orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS). O que é necessário é que haja uma fiscalização efetiva da ANS para que a medida não seja usada pelas operadoras para postergar atendimentos que devem ser realizados. Para coibir tais práticas é preciso que a agência seja rigída e multe esses casos — avalia Ana Carolina.

Sobre a situação de hospitais e clínicas, a especialista do Idec ressalta que há alternativas que não estão sendo levadas em contas e que poderiam resolver parcialmente a situação financeira das empresas e o problema de atendimento ao cidadão:

—Os hospitais que não tem demanda e nem estrutura para atender a Covid-19 poderiam ceder a sua mão de obra para atender os cidadãos que recorrem ao SUS, onde falta mão de obra especializada. Com isso, garantiriam, ao menos, o pagamento da sua força de trabalho — pondera.

'Um ministério que tortura números cria um mundo paralelo', diz Rodrigo Maia

Redação, 
O Estado de S.Paulo

Presidente da Câmara criticou dados divergentes do Ministério da Saúde sobre o número de óbitos pelo novo coronavírus no País

  Foto: Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia 

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), manifestou-se sobre a divulgação de dados divergentes do Ministério da Saúde sobre a covid-19, na noite deste domingo, 7. Em uma publicação nas redes sociais, Maia afirmou que "um ministério que tortura números cria um mundo paralelo para não enfrentar a realidade dos fatos", disse ele. 

"Brincar com a morte é perverso. Ao alterar os números, o Ministério da Saúde tapa o sol com a peneira. É urgente resgatar a credibilidade das estatísticas. Um ministério que tortura números cria um mundo paralelo para não enfrentar a realidade dos fatos", escreveu o presidente da Câmara.

Na noite de domingo, a Saúde divulgou dois números diferentes de óbitos pelo novo coronavírus sem apontar o motivo para a mudança dos dados. Em material enviado à imprensa, o ministério registrava 1.382 novos óbitos por covid-19. Uma hora depois, o site do governo, que apresenta os dados sobre a doença, foi atualizado com um número diferente: 525 mortes. O Estadão indagou o ministério, mas não obteve resposta até às 05h40 desta segunda-feira, 8.

Maia disse ainda que a comissão externa da Câmara que trata da covid-19 vai se dedicar às estatísticas da doença. Na última semana, ele fez críticas à forma de divulgação dos dados da pandemia durante uma live e disse esperar que os números voltem até o começo desta semana, para que a Câmara dos Deputados e o Tribunal de Contas da União (TCU) não tenham que assumir o papel de divulgação de informações.

Governo transfere R$ 83,9 milhões do Bolsa Família para investir em propaganda, mas depois desiste

Camila Turtelli e Felipe Frazão, 
O Estado de S.Paulo

Valor que seria usado no programa social é destinado para publicidade de ações da gestão Bolsonaro; medida tomada durante a pandemia é criticada no Congresso

  Foto: Divulgação
O valor total destinado ao Bolsa Família no ano é de R$ 32,5 bilhões 

BRASÍLIA – O governo federal retirou R$ 83,9 milhões que seriam usados no programa Bolsa Família para destinar à Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência (Secom). A medida atinge os recursos previstos para a região Nordeste do País e causou críticas no Congresso por ocorrer durante a pandemia do coronavírus, quando muitas famílias estão sem fonte de renda. O dinheiro será utilizado para comunicação institucional, ou seja, para fazer publicidade das ações da gestão de Jair Bolsonaro.

A portaria que prevê a transferência dos recursos do Orçamento foi publicada na edição desta terça-feira, 2, no Diário Oficial da União (DOU). O ato foi assinado pelo secretário executivo do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues. Segundo técnicos do Congresso, como não há recurso extra, apenas realocação dentro do Orçamento, não é preciso de aval dos parlamentares. O valor total destinado ao Bolsa Família no ano inteiro é de R$ 32,5 bilhões. Procurado, o Ministério da Cidadania informou que o pagamento do benefício está garantido.

Para comparação, os R$ 83,9 milhões transferidos para Secom bancar publicidade institucional dariam para comprar 1.263 respiradores hospitalares – ao custo de R$ 66,4 mil cada, um dos preços que o governo federal pagou em compras da Saúde. Ou ainda 856.164 mil testes tipo RT-PCR para detectar a infecção pelo novo coronavírus em pacientes – o preço unitário foi de R$ 98. 

A Secom já havia aumentado para R$ 17,8 milhões suas despesas com propaganda durante a pandemia do novo coronavírus. Os recursos estão sendo utilizados para divulgar peças publicitárias com o mote de que é preciso “proteger vidas e empregos”. Depois do fracasso com a campanha “O Brasil não pode parar”, vetada judicialmente, a secretaria e o presidente também adotaram a frase “ninguém fica para trás”.

A campanha institucional da Secom é diferente da produzida pelo Ministério da Saúde para fins de utilidade pública, que tem objetivo de passar orientações sobre a doença covid-19 e o novo coronavírus, bem como recomendações de higiene, etiqueta e distanciamento social e até convocar estudantes de Medicina e Enfermagem, Fisioterapia e Farmácia. O ministério já gastou R$ 61 milhões e deve ampliar a despesa com produção de mais conteúdo.

O dinheiro para bancar a publicidade institucional do governo Bolsonaro tem saído do orçamento de “Enfrentamento da Emergência de Saúde Nacional”, de dois dos ministérios mais envolvidos em ações diretas para atendimento à população, Saúde e Cidadania. A Secom centralizou a produção das peças publicitárias.

A campanha é feita pela agência Calia Y2, sem que tenha havido uma seleção interna das propostas das outras agências contratadas pela Secom, a NBS e a Artplan, como é regra. Isso porque, segundo documentos internos da secretaria, a Calia propôs a realização da campanha, e o governo aprovou e adotou a sugestão. Nesse caso, o processo de seleção é dispensado, conforme previsto nas normas da secretaria.

Na terça-feira, relatório produzido pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Congresso apontou que governou veiculou 2 milhões de anúncios em canais com conteúdos considerados “inadequados”. A lista inclui páginas que disseminam fake news, propagam jogos de azar ilegais e até sites pornográficos.

A Secom disse que a escolha de onde os anúncios seriam veiculados coube ao Google, mas a empresa rebateu e informou ser possível bloquear que propaganda institucional seja publicada neste tipo de site.

Parlamentares criticam realocar recursos em publicidade

Parlamentares criticaram a realocação dos recursos nesta quinta-feira, principalmente por envolver dinheiro que seria destinado à população de baixa renda. “É importante lembrar que isso acontece no momento de aumento da fila do Bolsa Família, ao mesmo tempo que pairam sobre a Secom denúncias de mal uso de suas verbas para a propagação de fake news e mensagens e ódio”, disse a deputada Tabata Amaral (PDT-SP) ao Estadão/Broadcast.

  Foto: Dida Sampaio/Estadão
A deputada Tabata Amaral 

O líder do Novo, deputado Paulo Gamine (RJ), classificou a medida como “imoral”. “No meio a uma crise onde os brasileiros estão perdendo emprego, renda e a extrema miséria vem crescendo no País, é preocupante ver o governo preocupado com publicidade institucional”, disse. Ele afirmou ainda que o recurso da Secom foi reduzido de R$ 273 milhões para R$ 73 milhões na votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2020. “Nós reduzimos esse gasto e agora o governo que recompor esse valor. A que custo? Para que?”, afirmou.

A deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC) criticou a ação no plenário da Câmara. “Tirar R$ 83 milhões da boca de famílias pobres para fake news é crime”, disse ela.

“Enquanto tivermos pessoas sofrendo na fila do Bolsa Família ou do Auxílio Emergencial, qualquer redução no orçamento do ministério da Cidadania é questionável. Mais ainda quando o recurso acaba direcionado para comunicação”, afirmou o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

O Estadão revelou em março que a região Nordeste, que teve recursos do Bolsa Família transferidos nesta quinta-feira, só recebeu 3% dos novos benefícios concedidos no mês de janeiro de 2020. Por outro lado, Sudeste e Sul foram priorizadas nas novas concessões e reuniram 75% dos benefícios liberados no primeiro mês deste ano. O Tribunal de Contas da União avalia se houve irregularidade.
O Estadão/Broadcast  procurou o Ministério da Economia, responsável pela operação, além da Secom, para questionar o motivo da transferência, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Em razão da enorme oposição que precisou enfrentar, além do perigo de cometer pedalada fiscal e, deste modo, correr o risco de cometer crime de responsabilidade, o governo recuou e desistiu da transferência. 

Interessante é que, em plena pandemia, Bolsonaro iria investir este dinheiro em publicidade, ao invés da saúde, quando se sabe as muitas carências que a rede hospitalar tem enfrentado