quarta-feira, junho 10, 2020

Por que fizemos tudo errado?

Luisa Purchio
Revista ISTOÉ

Apesar de ter sido afetado pela pandemia bem depois dos países europeus, o Brasil não se preparou corretamente: ignorou as medidas de isolamento social, minimizou a necessidade de testes e se tornou um dos maiores epicentros mundiais do coronavírus


O Brasil deixou de ser o país da esperança e se tornou o país da decepção. Apesar de contar com a vantagem de ser alvo do novo coronavírus tardiamente em relação a outros países da Ásia e da Europa, o enfrentamento da pandemia foi e continua sendo inadequado. Graças a uma sucessão de erros, somos hoje a segunda nação com o maior número de contágios no mundo e a quarta com o maior número de mortes. Até a quarta-feira, 3, chegamos a 587 mil infectados, atrás apenas dos EUA, e 32.602 mortos, quase ultrapassando a Itália, que soma 33.601 vítimas. A cada período, recordes fúnebres são batidos pelo próprio País: na semana passada, foram 1.262 mortes em 24 horas. Estudos mostram que estamos longe do pico do número de infectados, ou seja, a curva continuará a subir.

 Divulgação


Da frase que o presidente da República, Jair Bolsonaro, adora proclamar, “o Brasil é um país maravilhoso que tem tudo para dar certo”, falta a parte final: o Brasil tinha mesmo tudo para dar certo, mas graças à uma série de erros de gestão, não deu. São vários os motivos que tornaram o país um dos principais epicentros mundiais do novo coronavírus. Uma delas, certamente, é a guerra política entre presidente, prefeitos e governadores, o que se traduziu em um mar de notícias falsas espalhadas pelas redes sociais e grupos de WhatsApp. “As pessoas ficaram inseguras e em pânico com informações equivocadas. Usa máscara ou não usa? Devemos tomar vitamina D, cloroquina? Foram encaminhadas muitas inverdades, sobretudo sobre o risco da transmissão da doença”, diz o infectologista Sergio Cimerman, diretor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia.

 (Crédito:Divulgação)
CONTRAMÃO Enquanto a Itália controlava a entrada nos aeroportos, 
o Brasil os recebia livremente para o carnaval; em Lisboa a população 
ficou em casa, mas em São Paulo as ruas lotaram; na França há proteção 
em supermercados, em Belo Horizonte, não 

Falta de controle

Não há melhor arma que a ciência para enfrentar uma crise sanitária, mas justamente essa ideia básica parece rejeitada pelo governo, vide ataques a universidades, cortes a financiamentos de pesquisas e a demissão de dois ministros da Saúde com conhecimento técnico para lidar com o problema. Em meio à desinformação, o isolamento social, única arma comprovadamente eficaz contra o vírus, foi por água abaixo. Mesmo sem chegar a ser adequadamente implantado, já está sendo flexibilizado. Dados da startup InLoco apontam que, nesse início de junho, o índice de isolamento está abaixo de 50%. No final de maio, em meio ao crescimento da curva de contaminação, foi registrado o maior número de pessoas nas ruas desde o início da pandemia. Os discursos de Bolsonaro, que promovem aglomerações, são um entrave para a efetividade da medida, mas governadores e prefeitos também deixam a desejar. Na cidade de São Paulo, o rodízio de carros “pares e ímpares” instituído pelo prefeito Bruno Covas foi inadequado: tirou carros da rua, mas lotou o transporte público. Na semana passada, o prefeito Marcelo Crivella, do Rio de Janeiro, liberou as ruas para os camelôs sem nenhum estudo que justificasse a medida. Nos aeroportos do País a situação não é melhor. 

Fontes relataram que viagens realizadas recentemente não tiveram qualquer tratamento especial. Além de voos com lotação máxima, muitas companhias aéreas e aeroportos não estão aplicando qualquer medida de segurança, como medição de temperatura ou entrevistas com os passageiros. No carnaval, quando já se sabia que o vírus estava se propagando pelo mundo, as cidades registraram recordes no número de foliões: Olinda e Recife, em Pernambuco, e Salvador, na Bahia, entre outras, receberam milhões de turistas. A situação não é mais animadora quando falamos de equipamentos de proteção individual para as equipes de saúde e, principalmente, de testes: a demora para disponibilizar o diagnóstico na rede pública, bem como a falta de máscaras, agravou a disseminação da doença. O Brasil, país que tinha tudo para dar certo, seguiu na direção contrária. Os índices negativos apenas comprovam que nos tornamos uma nação incapaz de se preparar corretamente para essa pandemia.