Luciana Casemiro
O Globo
Hospitais cortam cargos administrativos e de análise laboratorial. ANS decide hoje sobre adiamento de cirurgias e exames que não são de emergência
Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
A crise do coronavírus afetou as finanças dos hospitais, que têm
maiores ganhos com procedimentos eletivos, como cirurgias
RIO - As dificuldades impostas ao setor de saúde pela pandemia já se refletem no mercado de trabalho. Em abril, mês em que tradicionalmente há saldo positivo de geração de empregos no segmento, foram fechados 2.369 postos de trabalho, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Segundo fontes, os cortes atingem, principalmente, áreas administrativas de hospitais e laboratórios, além de cargos como técnico de enfermagem e de análises laboratoriais clínicas e de imagem.
Clovis Queiroz, coordenador-geral de Relações do Trabalho e Sindical da CNSaúde, confederação que representa hospitais, clínicas e laboratórios, destaca que, em abril do ano passado, o saldo positivo de criação de empregos no setor foi de 20 mil vagas.
— Esperamos números piores em maio, pois muitas clínicas estão fechadas e já esgotaram recursos de suspensão de contrato, férias e redução de jornada — diz.
As demissões, segundo executivos do setor, estão vinculadas à suspensão de procedimentos eletivos.
— Muitos hospitais não estão ganhando o suficiente nem para pagar os custos fixos, que ficam na casa dos 45% do faturamento. Se o quadro piorar, terão de cortar mais — afirma Breno Monteiro, presidente da CNSaúde.
Atendimento de planos de saúde
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) decide hoje se manterá o adiamento do atendimento pelos planos de saúde de procedimentos que não sejam de emergência, como consultas, exames e cirurgias eletivas.
A princípio, a medida expirava em 31 de maio, mas a diretoria decidiu prorrogar o prazo para nova avaliação. As operadoras defendem um retorno escalonado, de modo que o processo seja normalizado em outubro.
Para Patrícia Cardoso, coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon), da Defensoria Pública, o médico é que deve determinar se o paciente deve postergar um exame ou tratamento:
— Como está hoje estamos colocando em risco a saúde de pacientes que deveriam estar em tratamento e estão deixando de fazê-lo e podem ter a sua situação agravada.
Monteiro, da CNSaúde, concorda e acrescenta:
— A resolução da ANS está sendo usada para negar procedimentos que deveriam estar sendo realizados. Essa postergação é ruim para os hospitais, mas também para os pacientes. Em muitos estados há taxas baixíssimas de ocupação por Covid-19 e nada justifica que não se volte a atender os procedimentos eletivos.
Vera Valente, diretora executiva da FenaSaúde — entidade que congrega as maiores operadoras do setor — diz que as empresas seguem rigorosamente as orientações das autoridades sanitárias do país:
— A decisão de postergar procedimentos não parte das empresas. Elas respeitam estas diretrizes. A medida reflete também a decisão dos pacientes, no sentido de se precaver da Covid-19.
Em nota, a Associção Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) também destacou que a suspensão de atendimentos ambulatorias e procedimentos eletivos foi recomendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).
Idec pede fiscalização
Para a coordenadora de pesquisa em Saúde do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ana Carolina Navarrete, o adiamento não é um problema:
— Trata-se de uma orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS). O que é necessário é que haja uma fiscalização efetiva da ANS para que a medida não seja usada pelas operadoras para postergar atendimentos que devem ser realizados. Para coibir tais práticas é preciso que a agência seja rigída e multe esses casos — avalia Ana Carolina.
Sobre a situação de hospitais e clínicas, a especialista do Idec ressalta que há alternativas que não estão sendo levadas em contas e que poderiam resolver parcialmente a situação financeira das empresas e o problema de atendimento ao cidadão:
—Os hospitais que não tem demanda e nem estrutura para atender a Covid-19 poderiam ceder a sua mão de obra para atender os cidadãos que recorrem ao SUS, onde falta mão de obra especializada. Com isso, garantiriam, ao menos, o pagamento da sua força de trabalho — pondera.
