quarta-feira, junho 10, 2020

Dia do Meio Ambiente: política do governo fecha as portas para acordos comerciais do Brasil

Gabriel Shinohara
O Globo

Moção de Parlamento holandês e carta de comitê do Congresso americano citam as decisões do governo como entrave ao fechamento de parcerias

  Foto: Carl de Souza / AFP
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BRASÍLIA - O Brasil chega a este Dia do Meio Ambiente — comemorado nesta sexta-feira — diante do risco de que  a política ambiental do governo inviabilize os planos de ampliar negócios com o resto do mundo.

Nos últimos dois dias, Holanda e EUA deram sinais de que não estão dispostos a fechar acordos com o país, por discordarem de decisões do presidente Jair Bolsonaro.

Na Holanda, parlamentares se posicionaram contra o acordo entre União Europeia e  Mercosul. O risco ambiental foi usado como justificativa para ceder ao lobby de agricultores locais, uma estratégia que pode se repetir em um cenário de disputa comercial.

Nos EUA, um Comitê da Câmara dos Deputados enviou carta em que assume posição contrária a acordos com o Brasil.

Na avaliação de especialistas, esses reveses podem atrapalhar os planos de abertura da equipe econômica.

— Foi a primeira vez que o Brasil conscientemente se colocou como o vilão da história. É curioso que o Brasil, que está querendo se abrir economicamente, esteja dando um cavalo de pau na política ambiental, pois é um custo que será pago na área comercial — disse Eduardo Mello, coordenador de graduação em Relações Internacionais da FGV.

Especificamente sobre a carta do comitê americano, o professor acredita que o impacto do conteúdo é mais importante para entender como agiria um possível governo democrata após as eleições deste ano. Pesquisas recentes indicam o candidato Joe Biden à frente do presidente Donald Trump na corrida pela Casa Branca:

— Se o Trump perde a eleição e você tem um cenário de grande força democrata no Congresso e na Casa Branca, de hegemonia democrata, o Brasil realmente tem um problema porque se posicionou decisivamente do lado do Trumpismo. Os democratas vão ganhar pontos políticos batendo no Brasil.
Mello avalia que a questão ambiental é o principal entrave do Brasil atualmente em sua relação com outros países. No entanto, os EUA lidam com a situação de modo diferente dos europeus.

— Os Estados Unidos são uma exceção porque ainda existem forças importantes do partido Republicano que negam o papel humano no aquecimento global, mas, no partido Democrata, já é consenso. Na Europa, um conservador não consegue se eleger mais se ele é anti preservação ambiental — comenta.

Segundo Vinícius Vieira, professor de relações internacionais da FAAP, o governo brasileiro dá elementos, como na frase do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de que quer “passar a boiada” no afrouxamento de regulações ambientais, que geram um efeito cascata nos países europeus. 

— As pessoas mais preocupadas com meio ambiente pressionam seus representantes. Os representantes, que não necessariamente estão ligados ao meio ambiente, veem isso como uma desculpa ideal para que eles rejeitem o acordo de interesses protecionistas.