Adelson Elias Vasconcellos
O senhor Paulo Skaff é, sem dúvida, e para se dizer o mínimo, um grande trapalhão. Ele não sabe ainda que ideologia política abraçar, mas teima em tentar ser um. Qualquer legenda de aluguel que lhe oferecer vaga, lá vai ele em busca dos holofotes que a política pode lhe oferecer.
Ele não se decidiu ainda se atende a agenda da classe empresarial porque, grande parte desta agenda, se confronta com a ideologia que o governo petista quer impor, a qualquer custo, para o país. Pragmático, sua dúvida o faz indeciso: sabe que os empresários que se alinham ao poder, são merecedores de benesses que aos demais é negado. Uma bolsa BNDES gorda sempre serve de bengala para os submissos aos governante de plantão.
Estas considerações vem a propósito de um “comunicado” que ele fez circular na imprensa no dia de hoje em reação à crítica rombuda feita por Dilma sobre a reação negativa do mercado à Medida Provisória 579 que trata das renovações das concessões elétricas.
Dilma entende que, por ser um pleito da classe empresarial a redução das tarifas de energia, que qualquer coisa que ofereça que venha em direção ao pleito, será aceita sem discussão. Errado. O Brasil não é república de bananas, muito embora nossa classe política se comporte assim na maior parte do tempo.
Pelo novo regime de concessões proposto, contratos serão quebrados, receitas serão reduzidas, rentabilidades serão afetadas, novo plano de negócios deverá ser desenhado em função tanto da queda nas receitas quanto pelas exigências de investimentos. Ora, isto não pode ser feito de qualquer jeito. Requer estudos, avaliações, planejamento, coleta de dados e a projeção destes em relação às novas exigências e até à própria realidade da economia brasileira.
Ninguém é maluco em aceitar pacotes fechados, sem ao menos se dar ao trabalho de examinar seu conteúdo. Medidas ruins e que comprometam o futuro das empresas não pode se justificar em boas causas. Ninguém, repito, ninguém é contra a redução das tarifas de energia elétrica. Agora esta redução deve ser feita de forma ordeira, calcada em medidas tecnicamente aceitáveis.
O que está acontencendo com a Eletrobrás é bem um sintoma do quanto o pacote precisa ser revisto e reestudado em vários de seus pontos. Por exemplo: quais critérios balizaram a composição dos valores das indenizações para as companhias que venham aceitar a antecipação das renovações das concessões? O mínimo que se exigiria de parte do governo federal seria se basear na contabilidade das empresas. Ora, se atentarmos para a contabilidade da Eletrobrás e compararmos seus números com aquilo que o governo quer pagar, haverá um rombo milionário comprometedor até da saúde e futuro econômico financeiro da estatal. E ela é estatal, vejam só... Imaginem agora com as demais que são privadas!!!
Mais uma vez, o governo opta pelo caminho de que os fins justificam os meios. Ledo engano. A se aceitar o que contém a MP 579 sem discussão ou revisão, é o mercado de energia elétrica que fica comprometido, desequilibrado, já que as concessionárias não terão como atender as novas exigências.
Aliás, quando Dilma fez o anúncio eleitoreiro da redução das tarifas em 06 de setembro, aqui levantei inúmeras dúvidas. Por exemplo: qual seria o peso dos tributos estaduais nesta redução? Tal resposta é importante porque é o ICMS quem mais pesa na composição do preço final. Mexer em ICMS é um vespeiro perigoso uma vez que o governo federal precisaria convencer 27 governadores estaduais em abrirem mão de parte de suas receitas. Isto em tempos bicudos para sua maioria, onde muitos sequer aceitam pagar o piso mínimo para o magistério (e que já mínimo mesmo) fixado pelo MEC, alegando falta de recursos, em que a maioria luta para a mudança dos indexadores sobre suas dívidas para com União além da revisão do montante da própria dívida, encontraria forte resistência.
Ora, se politicamente seria um martírio para o governo federal convencer governadores abrirem mão de receitas em benefício de todos os brasileiros (eles só pensam em seus próprios interesses), por que devem as concessionárias pagarem o pato sozinhas?
Que as tarifas são elevadas, disto não se duvida, até porque já provamos aqui ser injustificável os valores cobrados no Brasil quando comparados com o restante do mundo. Mudar requer negociação, e não imposição a ferro e fogo como se está tentando agora.
Dilma Rousseff precisa entender que ela é presidente de um país democrático. Já ultrapassamos a barreira do tempo em que generais impunham sua vontade ao país de forma arbitrária e dane-se futebol clube. Estamos livres de regimes totalitários. Assim, sua intransigência em não querer negociar e debater somente dificultará ainda mais a situação de impasse que se criou.
Vou além: as concessionárias que sentirem prejudicadas quanto aos valores que se tenta impor a título de indenização pela antecipação da renovação, tem todo o direito que buscar na justiça o devido ressarcimento. Já pagamos impostos demais, para ainda fazer benemerência para um governo que não sabe respeitar contratos e que se alimenta de arbitrariedades? Não é por aí.
Portanto, senhor Paulo Skaff, o teor de seu comunicado é um amontoado de tolices. O Brasil todo, de norte a sul, consumidores residenciais e empresariais, querem sim que as tarifas de energia elétrica sejam reduzidas. Mas também desejamos que os impostos sejam menores. E que o pacote todo não implique no comprometimento futuro no fornecimento desta mesma energia. Nos últimos anos temos tido apagões demais, mesmo pagando valores exorbitantes. Assim, a palavra de ordem para se alcançar tais objetivos é a mesa de negociações, e não o púlpito do autoritarismo rombudo e da arrogância teimosa.
Há espaços para que a redução se processe sem que se destruam empresas e empregos. E boa parte desta redução, senhor Skaff e senhora Dilma, passa, obrigatoriamente, pela redução de impostos e contribuições determinadas pelo Poder Público sobre as tarifas de energia elétrica que, e a guisa de lembrança, chega, em alguns casos, a ser superior em 40% sobre o preço final faturado. Portanto, quem está sendo vilão nesta história?
Também o senhor Mantega deveria cair na real. Ao defender a MP 579, e questionado sobre o derretimento das ações da Eletrobrás, resolveu brincar de faz de conta. Disse o ministro que a queda dos papéis da estatal se deu por conta de avaliações equivocadas dos analistas. Errado, senhor Mantega. Toda a ação provoca uma reação igual e em sentido contrário. Os analistas de mercado apenas constataram diante dos números que a MP 579 na forma em que se encontra, vai sim, primeiro, rasgar contratos, segundo, provocará na queda de receitas para as concessionárias e, por fim, e especificamente em relação à Eletrobrás, a indenização acenada pelo governo não reembolsará nem de perto o montante de investimentos realizados. Resultado: com a queda dos resultados, os investidores perderão renda. O senhor pode maquiar do jeito que quiser a verdade dos fatos, não poderá, contudo, que ela seja exposta ao conhecimento público.
Portanto, o mercado, por seus analistas, reagiu na mesma medida em que o governo, por sua Presidente, intransigente e de maneira arrogante, fechou as portas para qualquer negociação, impondo de forma arbitrária e autoritária regras que o mercado não concorda e se viu prejudicado. Não tem essa de "pegar ou largar". Isto aqui não é o quintal da dona Dilma, em que ela põe e dispõe a seu bel prazer. Estamos tratando de bilhões de investimentos e de um mercado regulado e ativo há mais de uma década.
Que as tarifas sejam reduzidas sim, mas de acordo com regras claras e justas, sem ferir direitos, sem jogar no lixo bilhões de investimentos já realizados e que todos os envolvidos nesta campanha de redução deem sua cota de contribuição e sacrifícios, inclusive o Poder Público, responsável direto por quase 50% das faturas cobradas da população.
A balança, neste caso, senhor Mantega, deve pesar igualmente para os dois lados, e não apenas para um deles como está pretendendo o governo do qual vossa senhoria diz fazer parte.

