Carlos Brickmann
Observatório de Imprensa
Quem disse que o Brasil não muda? Muda, claro que muda. Os 200 milhões de técnicos de futebol agora são especialistas numa teoria jurídica de alta complexidade, de um jurista alemão, Claus Roxin. Este colunista, que de Direito só sabe que se deve chamar juiz de “meritíssimo”, jamais tinha ouvido falar em Roxin. Perguntou então a vários advogados conhecidos, disputados por bons clientes, e nenhum jamais tinha ouvido falar em Roxin. Mas um monte de gente que jamais tinha ouvido falar em Roxin antes do julgamento do mensalão, que certamente não leu nenhuma obra dele, e se lesse não a entenderia, está discutindo sua teoria em minúcias. E há quem leia, e há quem responda!
A tese do “domínio do fato”, de Roxin (pelo menos é o que este colunista acha: vai ver, ele é apenas um dos juristas que estudam o assunto, ou o mais conhecido dos seguidores do verdadeiro idealizador da doutrina, seja quem for), virou assunto popular, em consequência do clima de guerra entre torcidas que se trava entre defensores e críticos das decisões do Supremo Tribunal Federal no caso do mensalão.
Os meios de comunicação não ajudam muito seus clientes: eles, como quase toda a população, não mergulharam nas 50 mil páginas do processo, não têm como avaliar a densidade e coerência de cada voto e precisaram recorrer à Wikipédia para saber quem, afinal, é o tal Roxin.
O jornalismo caiu na armadilha da saída fácil: quem queria a condenação dos mensaleiros elegeu o ministro-relator Joaquim Barbosa como seu novo ídolo e nomeou Claus Roxin para o posto de sacerdote-inspirador do moderno Direito; quem queria a absolvição dos réus elegeu Ricardo Lewandowski como o corajoso xerife capaz de enfrentar a opinião pública e desmoralizar aquele alemão que andou falando bobagem e subvertendo os princípios jurídicos mais sagrados.
E a avaliação do julgamento, do lado de fora, sem torcida? Isso é difícil, sai caro. Deixa pra lá. Aos vencedores, a alegria – embora, num caso que envolve perda de liberdade, mesmo que não se possa decidir diferentemente, a alegria soe como mau gosto. Aos perdedores, o esperneio. Espernear é justo.
Mas atribuir aos oposicionistas (a zelite, o zianque, os golpista, a mídia parcial de extrema direita conservadora e alienada) as condenações efetuadas por um tribunal em que, dos dez ministros, nove foram nomeados pelo atual governo e por seus aliados, é um pouco meio muito.
Esperneio, vá lá, mas também não é necessário cair no ridículo.
Denúncia vazia
Estamos diante de uma das maiores falhas jornalísticas dos últimos tempos; uma grande rede de TV divulgou entrevista com alguém que se disse policial militar de São Paulo e garantiu ter assassinado cinco ou seis pessoas, num esquema de vingança contra os matadores de uma centena de policiais. É uma reportagem com grande repercussão política: anuncia, em outras palavras, o renascimento do Esquadrão da Morte, que atuou em São Paulo e no Rio na época da ditadura.
A reportagem foi ao ar numa quarta-feira. Um trecho de manhã; a reportagem inteira, em horário nobre, no principal telejornal da rede. Na mesma quarta, tão logo foi ao ar a primeira parte, a Corregedoria da PM paulista instaurou inquérito policial militar e solicitou à rede que identificasse o policial entrevistado, para que fosse preso (tinha confessado homicídios em massa) e investigado. O departamento jurídico da rede informou que só daria a informação por ordem judicial. OK: no mesmo dia, o juiz Luiz Alberto Moro Cavalcante, corregedor permanente da Justiça Militar do estado, determinou que a rede fornecesse não apenas o nome do PM entrevistado como também uma cópia da reportagem. A emissora enviou a cópia da reportagem, mas não o nome do assassino confesso. E disse oficialmente, em documento encaminhado ao juiz, que os jornalistas que haviam feito a matéria não tinham essa informação.
A emissora poderia, alegando sigilo da fonte, se recusar a fornecer o nome do entrevistado (a questão seria decidida na Justiça). Mas divulgar reportagem de tamanha gravidade, segundo a qual agentes públicos saíam às ruas com o objetivo de matar quem considerassem bandidos, sem saber sequer o nome do entrevistado? Sem isso, como verificar se os fatos eram verdadeiros?
Como ensinava o grande Frederico Branco, em jornalismo tem coisa que pode e tem coisa que não pode. Como divulgar uma entrevista sem saber quem a concede? Isso é coisa que não pode. Há malucos em quantidade suficiente na praça que, para aparecer na TV, mesmo com o rosto borrado e a voz modificada, contam qualquer história. Pois não houve aquele cavalheiro que foi a Nova York com a foto de uma jovem que tinha sido morta pelo marido, com o objetivo de mostrar a foto a pessoas com quem se encontrassem na rua e provar que a falecida estava vivendo em outro país? Não houve um cavalheiro que se fazia passar por pastor protestante e dizia ter visto quem matou Celso Daniel, prefeito de Santo André? Ele não apenas estava longe dali quando o crime ocorreu como nem era pastor: era estelionatário procurado pela polícia.
E nem se imagine, porque seria impossível acreditar, que a rede tivesse forjado uma reportagem, em busca de audiência. Também não seria a primeira vez: lembra do bandido do PCC que era apenas um ator contratado para se passar por bandido do PCC?
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo negou por muito tempo a força do crime organizado (segundo o secretário, o PCC estava reduzido a 30 ou 40 pessoas, todas presas e sem contato com o mundo exterior), ignorou o aviso da Polícia Federal de que os bandidos se preparavam para um ataque em massa e advertiu quem o levou a sério; a secretaria é falha sob os mais diversos aspectos – até na incrível licença do secretário, no meio de uma batalha com o crime organizado, para assistir a um jogo de futebol em Buenos Aires.
Mas a Secretaria de Segurança comete seus inúmeros erros sozinha. Não precisa ser auxiliada por meios de comunicação que botam qualquer coisa no ar sem se preocupar nem em saber quem lhes dá a informação.
O mundo como ele é
Sílvia Zaclis, jornalista de boa escola, leitora assídua desta coluna, comenta a nota a respeito do programa em que uma entrevistada, contando seu drama, chegou a chorar no ar – e, na parte inferior da tela, corria a informação de que, no fim do programa, entrevistada e entrevistadora trocariam um selinho.
“E a edição dos telejornais? Dão um desastre que matou milhares de pessoas em algum país distante, as pessoas chorando, desesperadas, aquelas cenas de destruição, e aí a chamada: ‘Seleção brasileira goleia Iraque’. E o âncora sorri. O desafio é conseguir mudar de expressão com a rapidez suficiente”.
Só TV? Não, rádio também (e, cá entre nós, internet e imprensa escrita entram no mesmo esquema): “Vinte pessoas morreram num grave acidente...” Ora, precisa dizer que é grave? Não é um insulto à inteligência do ouvinte?”
Não chega a ser um insulto: é um velho vício de linguagem, a tautologia. O pessoal adora! Quantas vezes você leu ou ouviu algo do tipo “a chuva cai”? E que é que a chuva pode fazer, tadinha?
Brigando sozinho
É famoso, fez novela na Globo, fez política. Mas isso não muda nada: como consumidor, é maltratado (e os meios de comunicação silenciam, embora ele tenha notoriedade suficiente, e toda a credibilidade, para ser ouvido).
Kito Junqueira está brigando com a Sky. Pediu uma instalação, o técnico foi à sua casa e disse que não havia condições técnicas no local para fazê-la. Deixou os aparelhos sem instalá-los e foi embora. Desde então, e já se passaram seis meses, a Sky cobra mensalmente a fatura, como se o canal pago tivesse sido instalado. Kito guardou vários protocolos (aqueles com dezenas de algarismos), e nada. A informação que recebe é de que a Sky está verificando e o prazo é indeterminado. Tentou a imprensa, não houve retorno. Agora vai à Justiça.
Lembrando Esmeraldo
Era uma figura notável: um político corretíssimo, honesto, trabalhador, figura emblemática daquele MDB que lutava contra a ditadura. Nos palanques, impressionava pelo porte físico – negro, alto, levemente acima do peso – e pela excelente voz. Bom orador, também. Extremamente popular, jamais perdeu uma eleição. E foi isso que o levou a ser perseguido pela ditadura militar.
Esmeraldo Tarquínio de Souza Santos é o personagem principal do livro Tarquínio – Começar de Novo, escrito por um jovem jornalista, Rafael Motta, da Tribuna, de Santos, que não teve a ventura de conhecê-lo pessoalmente, mas entrevistou, durante quase dois anos, as pessoas que o conheceram. Sabia dele que era o primeiro negro a se eleger prefeito de Santos, em 1968 (não chegou a tomar posse: preto, e ainda por cima socialdemocrata, era demais para a ditadura. Seus direitos políticos foram suspensos, seu mandato foi cassado). Santos virou área de segurança nacional, a ser administrada por prefeitos nomeados, todos brancos, todos se preocupando com temas sociais – aqueles tratados na coluna social.
Em 10 de novembro completaram-se 30 anos da morte de Tarquínio. No dia 27/11, às 18h, na Prefeitura de Santos, no Salão Nobre Esmeraldo Tarquínio, o livro de Motta será lançado. Este colunista, avesso a cerimônias, estará lá. Vale pela presença, pelo livro, para conversar com o autor e receber seu autógrafo; e vale como homenagem a um político como todos deveriam ser.
Ganhando eficiência
Rodrigo Constantino é um jovem economista, ligado à Escola Austríaca – cujas teses, desenvolvidas inicialmente pelos professores Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, levam à presença mínima do Estado e ao predomínio do indivíduo na sociedade. Constantino é odiado pela esquerda em geral; mas seus pensamentos instigam o leitor a refletir.
Uma das frases de que gosta é de Milton Friedman, de outra escola, a de Chicago, também odiado pela esquerda em geral: “Se colocarem o governo para administrar o deserto do Saara, em cinco anos vai faltar areia”. Ou, como dizia o professor Delfim Netto antes de suas recentes mudanças políticas, se o governo comprar um circo o anão vai crescer.
Constantino vai mais longe: acha que, sob administração do governo, não apenas faltaria areia no Saara como haveria uma folha de pagamento com cerca de cinco mil cargos de confiança que investigariam o desaparecimento da areia, a CPI do Grão de Areia, uma Comissão de Ética e governantes afirmando que, embora não tivessem percebido que a areia estava diminuindo, iriam atrás do culpado, doesse a quem doesse, mesmo que tivessem de cortar na própria carne.
A editora Leya está lançando, de Rodrigo Constantino, o Privatize Já. Nele, o autor mostra que as estatais brasileiras funcionam mal, empregam muito por conveniências políticas e oferecem maus serviços aos consumidores. Mesmo assim, boa parte da população treme ao ouvir falar em “privatização”. Na opinião do autor, “é pura falta de informação”. É preciso privatizar logo e ao máximo, criar condições para a livre concorrência, obtendo assim melhores serviços a preços mais baixos e formando empresas mais eficientes que as de hoje.