Rodrigo Sias (*)
Brasil Econômico
O primeiro turno da eleição em São Paulo deixou uma coisa bem clara: ganharia quem soubesse angariar votos conservadores.
Celso Russomanno cresceu nas pesquisas e quase foi ao segundo turno com base em uma parcela do eleitorado conservadora que não estava sendo representada pelos dois principais partidos que dominam a arena política brasileira, ou seja, PT e PSDB.
Como disse nesta coluna em 10-10-2012 (disponível em :http://www.brasileconomico.ig.com.br/noticias/delenda-est-sao-paulo_123317.html), José Serra deveria utilizar na campanha questões que mexeriam com esse eleitorado.
Mas Serra não fez nada disso. Ao contrário, preferiu tentar ligar Haddad ao mensalão e centrar seu discurso na "defesa da ética na política".
O discurso da ética foi utilizado pelo PT durante anos para destruir reputações. A observação de Leonel Brizola, anos atrás, foi cirúrgica: o PT era a "UDN de macacão", em alusão ao discurso anticorrupção da União Democrática Nacional dos anos 50 e 60.
Tal discurso petista de ética rapidamente foi desmoralizado assim que chegaram ao poder pelos diversos escândalos de corrupção que vieram à tona, em especial, o próprio mensalão. Requentar o discurso da ética sem atentar-se que o eleitorado - desiludido com o PT - simplesmente considera agora que "todo político é igual" ou "farinha do mesmo saco", foi um grave erro estratégico.
Por outro lado, é sabido que 30% do eleitorado vota sempre com o PT, com mensalão ou não. Foi uma militância pacientemente formada e disciplinada para apoiar o partido em qualquer circunstância.
A prova disso foi que Haddad se elegeu com apenas 39% dos votos válidos e foi registrado recorde de abstenção e desinteresse.
Por que tamanho desinteresse? Ora, por que votar em alguém como Serra, que não diz nada de diferente? Cargo por cargo, não seria preferível manter uma prefeitura alinhada com o governo federal?
Imagino que tenha sido esse o pensamento de muitos paulistanos no segundo turno. Ao evitar o debate ideológico e centrar sua campanha em questões administrativas e na insistência no discurso de ética, Serra sepultou todas as suas chances de vencer. Se for para insistir neste erro no futuro, José Serra deveria se aposentar de ambições mais altas e voltar ao legislativo, onde sua experiência administrativa, de fato, poderia trazer algum resultado para o país.
Outra coisa ficou muito clara. As eleições têm significado apenas uma disputa de cargos entre o partido ideologizado por excelência - o PT-, seus aliados de longa data (como PDT, PC do B, PSB e PSOL) e os aliados de conveniência como o PMDB e, agora, incrivelmente, o PSD de Kassab.
Não existe oposição ideológica no Brasil, pois outros focos oposicionistas cometem o mesmo erro de Serra. Em Minas, Aécio só teria força na disputa nacional por conta de seu sobrenome marcante e do regionalismo mineiro, que sonha em colocar novamente um presidente no Planalto.
O DEM venceu em Salvador porque ali também há um sobrenome forte que simboliza um período de relativa ordem na cidade. A verdade é que se procura uma oposição organizada no Brasil.
Achar que a existência periódica de eleições significa democracia é um erro primário. Um país sem oposição é um país com democracia fragilizada.
(*) Rodrigo Sias é Economista pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro