terça-feira, maio 07, 2013

Inflação de alimentos no Brasil: não culpe apenas o clima


Exame.com
Caroline Stauffer e Silvio Cascione, Agência Reuters

Entenda como uma superpotência agrícola está lutando para fornecer alimentos de forma consistente a preços acessíveis para sua população

Paulo Whitaker/Reuters
Trabalhador empacota tomates em fazenda na cidade de Salto:  
preços da fruta vermelha dispararam 122 por cento em março ante o ano anterior

Salto - O Brasil, uma superpotência agrícola de altos e baixos com terras férteis em abundância, está lutando para fornecer alimentos de forma consistente a preços acessíveis para sua população.

Para entender como, considere o tomate.

Os preços da fruta vermelha dispararam 122 por cento em março ante o ano anterior, colocando-o na capa de duas revistas nacionais, estimulando relatos de tráfico de tomate da Argentina e acendendo indignação nacional sobre como qualquer produto poderia custar mais nos trópicos do que em, digamos, o frígido Alasca.

A produção do Brasil de commodities de exportação como soja, milho, açúcar e café está crescendo mais rápido do que em qualquer lugar do mundo, e ninguém está alertando sobre uma iminente escassez de alimentos em um país tão rico em recursos naturais.

Mas a maior economia da América Latina está se tornando um conto de duas contrastantes políticas agrícolas. Culturas de exportação são um modelo de capacidade tecnológica e alta rentabilidade, enquanto as fazendas responsáveis pela alimentação de uma classe crescente de consumidores permanecem quase nas mesmas condições há décadas: em sua maioria pequenas e familiares.

Oprimidos por dívidas, vulneráveis a danos do tempo e espremidos para fora de suas terras pelas culturas de commodities, essas fazendas são o primeiro elo de uma longa cadeia de ineficiências que fizeram os preços dos alimentos subirem em um país ainda marcado pela sua longa história de inflação galopante --complicando os esforços da presidente Dilma Rousseff para retomar o crescimento econômico.

"O governo não sabe o que é agricultura, ele só sabe o que é agricultura na balança comercial", disse o agricultor Cyro Cury, que cultiva 10 tipos de tomates em uma fazenda em Salto, no interior de São Paulo.

"Não temos nenhuma estratégia de trabalho, nenhum levantamento de dados das regiões... A gente não pode ser chamado de celeiro do mundo, não temos as políticas para isso", acrescentou ele, ao examinar tomates recém-colhidos das dezenas de estufas que administra.

Alguns dos problemas enfrentados pelos pequenos agricultores agrupados em torno de grandes cidades brasileiras, tais como mão de obra escassa e linhas de transporte pobres, também são sentidos por indústrias e empresários. É o chamado custo Brasil, que tem sufocado o crescimento econômico e tornou fazer negócios no país tão caros.

O governo federal em grande parte culpa o recente aumento de preços do tomate, da cebola e da cenoura --que ajudou a inflação em 12 meses a ficar acima do teto da meta do Banco Central em março pela primeira vez em um ano e meio-- a fatores sazonais que não pode controlar.

"Houve alguns problemas em função da clima, um pouco da seca que aconteceu depois da chuva em algumas regiões. Mas é uma política bem definida para essas culturas através de linhas de crédito, intervenção por preço mínimo", disse o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Neri Geller, sugerindo que os preços irão cair em breve.

Há um consenso crescente entre agricultores e economistas, no entanto, de que problemas estruturais mais profundos, e não apenas chuvas irregulares, deixam o Brasil vulnerável à oscilação dos preços dos alimentos em um momento em que alguns poucos países comparáveis estão preocupados com a inflação.

Como em muitos países em desenvolvimento, a comida ainda é responsável por uma grande fatia do índice de preços ao consumidor do Brasil --22 por cento-- e frutas e vegetais frescos são amplamente consumidos por todas as classes.

Falta de mão de obra
Dentre os fatores que estimulam o alto preço dos alimentos está a falta de trabalhadores agrícolas em um país agora desfrutando de quase pleno emprego. Depois de anos de forte crescimento, as empresas de serviços têm atraído os trabalhadores não qualificados, oferecendo-lhes melhores regalias e uma carga de trabalho mais leve, muitas vezes dentro de lojas com ar-condicionado e não sob o sol escaldante.

"Hoje, o tipo mais escasso de trabalhadores no Brasil é o trabalhador não qualificado", disse o engenheiro agrônomo Mauro Lopes, da FGV, no Rio de Janeiro.

Diferentemente de plantações de soja e açúcar de grande porte que são em sua maioria mecanizadas, bem capitalizadas e muitas vezes administradas por empresas estrangeiras, cerca de 60 por cento das fazendas de vegetais do Brasil ainda são familiares e contam com o trabalho manual.

Cury, o agricultor de tomate, disse que a escassez de tomates e preços recordes nesta temporada são principalmente resultantes de um surto de um fungo mortal, menos sementes plantadas com agricultores tentando emergir de dívidas e a crescente dificuldade em encontrar trabalhadores.

Ele diz que gostaria de plantar tomates em mais oito estufas nesta temporada para ajudar a atender a crescente demanda. Mas não conseguiu encontrar novos trabalhadores por um salário de cerca de 1 mil reais por mês.

Terras para culturas destinadas ao mercado interno também são cada vez mais escassas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a área plantada com arroz e feijão --alimentos básicos da dieta nacional-- caiu cerca de 30 por cento desde 1990, quando a população era 25 por cento menor.

No Estado de São Paulo, uma potência econômica que é o lar de 40 milhões de pessoas, campos de cana e laranjeiras dominam a paisagem. Açúcar e suco de laranja concentrado e congelado são as duas principais culturas de exportação para o Brasil.

"Há uma clara divisão na agricultura brasileira", disse o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), João Pedro Stedile. "Há 16 milhões de trabalhadores na agricultura familiar, eles têm apenas 15 por cento da terra, mas plantam 80 por cento do que é consumido no mercado interno." Cury e outros agricultores não podem se mover muito longe das cidades em busca de terras mais baratas e trabalhadores também porque os vegetais iriam estragar antes de chegarem aos mercados consumidores.

"As restrições de transporte são um problema crônico no Brasil", disse o professor Geraldo Barros, da Universidade de São Paulo, em Piracicaba.

Embora os preços do tomate nos supermercados brasileiros tenham caído desde março, quando eles custavam mais do que nos supermercados no norte do Alasca saindo a cerca de 8 dólares por quilo, os preços da cebola permanecem em torno de 3 dólares por quilo, o dobro do valor na Cidade do México e três vezes o que custa em Lima.

Além da falta de trabalhadores, terra e dificuldade no transporte, há uma outra parte da história da inflação de alimentos no Brasil: a grande diferença entre os preços no atacado e ao consumidor. Ao mesmo tempo em que os brasileiros comemoram uma certa estabilidade e segurança no mercado de trabalho, parece que há sempre alguém disposto a pagar preços altíssimos para bens ou serviços.

"O poder de compra mais forte fez as companhias passarem todos os aumentos de custos para os consumidores, e também inibiu as empresas de baixarem os preços quando os custos começaram a cair no portão da fazenda", disse o economista Mauricio Nakahodo, do Bank of Tokyo-Mitsubishi, em São Paulo.

Apesar de os produtores de tomate terem saudado os preços mais altos do produto neste ano, Cury disse que isso não vai fazê-los ricos. Uma caixa de seus tomates padrão no atacado custa 3,50 reais, mas estava sendo vendida por quatro vezes esse valor em um supermercado local, disse ele.

Cury afirmou ainda que a pequena margem de lucro limita a capacidade dos agricultores para aumentar a produção de alimentos para os brasileiros, garantindo um ciclo de preços elevados para os próximos anos, se nada mudar. "Se a gente não tiver uma política agrícola de pequenas culturas para garantir alimentação, nós vamos ter sérios problemas em 10 anos."

Previsão para PIB cai para menos de 3% este ano


Exame.com
Cleide Silva, Estadão Conteúdo

Desempenho abaixo do esperado no primeiro trimestre e a piora em indicadores de consumo e da balança comercial levaram à revisão de algumas projeções

REUTERS/Ueslei Marcelino
Crescimento de 3% é a projeção do Banco Central (BC)
 para a alta do Produto Interno Bruto (PIB) este ano

São Paulo - Bancos e consultorias começam a cortar as projeções de crescimento da economia para este ano e já trabalham com previsões abaixo de 3%. Crescimento de 3% é a projeção do Banco Central (BC) para a alta do Produto Interno Bruto (PIB) este ano. Até agora, o número vinha sendo endossado pelo mercado, levando-se em conta a média das projeções obtidas na pesquisa Focus, feita pelo BC, com bancos e consultorias.

Mas os analistas estão ficando mais pessimistas. O desempenho abaixo do esperado no primeiro trimestre, segundo mostram números como os da produção industrial, divulgados ontem, e a piora em indicadores de consumo e da balança comercial levaram à revisão de algumas projeções. No ano passado, o PIB cresceu só 0,9% e as projeções para este ano iam até 4%, com mais apostas em 3%.

O diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Octavio de Barros, baixou de 3,5% para 2,8% a expectativa de alta do PIB em 2013. "Nossa revisão para o crescimento doméstico foi influenciada pela incorporação recente de resultados mais fracos do que esperávamos da atividade econômica", disse. Barros também aponta um cenário global mais fraco que o imaginado.

Silvia Matos, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), reduziu sua expectativa de 2,9% para 2,7%. Segundo ela, "há chances de nova revisão, dependendo principalmente do desempenho do setor de serviços", a ser divulgado.

Os resultados do primeiro trimestre também estão abaixo do esperado pela Tendências Consultoria. A expectativa de alta de 3% deve cair para 2,8% ou 2,9%, diz a economista Alessandra Ribeiro. Ela esperava alta de 1,1% no PIB do primeiro trimestre, mas, com os dados da produção industrial, a previsão deve baixar para 1% e, com isso, o viés será de baixa para o ano.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, trabalhava desde junho com alta de 3%, mas revisou o índice para 2,5% há um mês. "Os dados fracos da indústria, aliados aos do comércio e serviços, podem trazer uma surpresa negativa." Vale não vê recuperação evidente no segmento de bens de capital e nos investimentos.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Indústria renova embate do governo com câmbio e inflação


Angela Bittencourt  
Valor

Se de um lado a criação de vagas no mercado de trabalho americano confirmou as expectativas animando os mercados, de outro o desempenho da produção industrial brasileira foi novamente frustrante. A expansão de 0,7% em março na comparação com fevereiro, praticamente a metade da variação de 1,3% projetada em média por 15 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data, indica que o governo não terá trégua no enfrentamento de uma situação persistente e delicada que contrapõe fragilidade da recuperação da atividade e inflação forte. Isso vale também (ou principalmente) para o Banco Central. Além de responsável pelo cumprimento do regime de metas para a inflação, que exibe resistência exemplar no teto da banda de flutuação de 6,5%, a autoridade monetária assumiu uma firme posição contra a política cambial defendida pelo Ministério da Fazenda. Sem deixar dúvida sobre a posição da autarquia, na saideira de 2012, Alexandre Tombini, afirmou na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado que o BC não sancionaria taxa de câmbio muito desvalorizada. Disse mais: para a competitividade da economia brasileira o que interessa é a desvalorização real e não a nominal do câmbio. O presidente do BC não declarou que dólar acima de R$ 2,10 pressionaria a inflação. Mas a mensagem de Tombini foi assim interpretada. De lá para cá, o dólar chegou a cair a R$ 1,947 e ronda R$ 2,0, sem proporcionar alívio à inflação. 

Na audiência com parlamentares da CAE em dezembro, relata a jornalista Claudia Safatle, do Valor, em post publicado no Casa das Caldeiras, Tombini  assinalou, também, que a inflação “inspira” cuidados e destacou que o cenário de recuperação do crescimento, ainda que mais lento do que o previsto, iria se materializar em ambiente com a inflação sob controle. E citou, nesse aspecto, cinco fatores que devem levar a inflação – cujo comportamento recente tem decepcionado o governo – em direção à trajetória da meta ao longo de 2013.

São eles:
- O menor reajuste do salário mínimo, que terá repercussões sobre os custos de produção, sobretudo nos segmentos intensivos em mão de obra. Para a economia como um todo antecipam-se, portanto, variações salariais mais compatíveis com os ganhos de produtividade.

- As perspectivas para os próximos semestres indicam moderação na dinâmica dos preços de certos ativos reais e financeiros, sobretudo da taxa de câmbio. “Em particular, como temos afirmado, nosso regime de câmbio flutuante não deve ser visto como um incentivo para apostas que exacerbam a sua volatilidade”, disse ele.

- As medidas adotadas pelo governo para reduzir os custos de produção e aumentar a competitividade da economia brasileira devem começar a surtir efeitos.

- O crescimento da oferta de crédito tende a ocorrer em ritmo mais alinhado ao crescimento da renda disponível das famílias.

- O ainda frágil cenário internacional é um importante fator de contenção da demanda agregada.

Em tempo: em dezembro passado ainda estava valendo a mensagem do Copom lançada em outubro, quando foi encerrado o ciclo de alívio monetário, apontando a estabilidade da Selic por um período de tempo suficientemente prolongado como a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta. O Copom já iniciou um novo aperto monetário, a Selic foi elevada em 0,50 ponto percentual para 7,50% e o mercado projeta, por ora, orçamento total de alta da taxa básica de 0,75 a 1,0 ponto percentual.

Governo gasta ignorando combate à inflação


Editorial
O Globo

O superávit primário do setor público diminuiu quase 40% de 2011 para 2013, e já equivale a 1,99% do PIB. Trajetória não indica que seja um fenômeno passageiro

No pronunciamento a propósito do Dia do Trabalho, em cadeia de rádio e televisão, a presidente Dilma afirmou que o combate à inflação é “uma preocupação imutável, permanente”, do governo. O comentário da presidente, assim como outros recentes, significa uma mudança de tom, pois antes Dilma criticava aqueles que chamavam atenção para a perigosa trajetória dos índices de preços. A inflação pode ser um dos principais adversários da presidente nas eleições gerais do ano que vem, e desse modo o tema entrou para o cardápio da política.

Mas entre o discurso e a prática parece existir uma razoável distância. No primeiro trimestre, o governo conduziu as contas públicas ignorando a inflação. Não fosse isso, voltaria a ser comedido com as despesas. Em decorrência da queda do ritmo da atividade econômica no ano passado e das desonerações tributárias ( muitas das quais saudáveis, por sinal), houve um recuo na arrecadação federal nos três primeiros meses de 2013. Em relação a igual período de 2012, a perda foi de 2,55% em termos reais. Já os gastos aumentaram 4,6%, e, infelizmente, isso não decorreu somente do incremento, positivo, dos investimentos.

Devido a esse descompasso na evolução das receitas e despesas, o superávit primário do governo vem encolhendo, em termos nominais e relativos, o que torna cada vez mais difícil atingir as metas traçadas para o ano. As autoridades econômicas anunciaram, desta vez até com antecedência, que voltarão a desconsiderar no cálculo do superávit primário alguns gastos classificados como investimentos.

Mas trata-se de uma questão contábil, cujos efeitos macroeconômicos não serão percebidos no combate à inflação, por exemplo. O superávit primário contribuiu fortemente para a construção de uma imagem de credibilidade da política econômica, e, ao desmerecê-lo, o governo se enfraquece junto aos mercados. Deixará, assim, de contar com um grande aliado na batalha das expectativas, fundamental para a guerra contra a inflação.

O setor público como um todo havia registrado um superávit primário de 3,1%% do Produto Interno Bruto em 2011. No ano passado, esse percentual caiu para 2,38%. Agora, em março, considerados os últimos doze meses, o superávit recuou para 1,99% do PIB, uma queda de quase 40% no período. Se não houver uma recuperação ao longo dos próximos meses, a percepção dos mercados será de que as finanças públicas entraram mesmo no caminho da deterioração, não se tratando mais de um fenômeno passageiro.

Se a presidente Dilma quiser ajustar seu discurso à prática, terá de ficar mais atenta às finanças públicas. O combate à inflação não combina com o aumento de gastos de custeio que o governo promove a pretexto de estar ampliando programas sociais.

Governo gasta US$ 3,8 mi com Dilma no exterior


Exame.com
Rafael Moraes Moura, Estadão Conteúdo

Valor diz respeito a todas as viagens internacionais realizadas nos anos de 2011 e 2012

AFP/ Alexander Nemenov
Dilma Rousseff se encontra com Vladimir Putin em Moscou, 14 de dezembro, 2012

Brasília - As viagens internacionais da presidente Dilma Rousseff já custaram aos cofres públicos US$ 3.897.412 (R$ 7,86 milhões, em valores atualizados), segundo o Itamaraty. O valor diz respeito a todas as viagens internacionais realizadas nos anos de 2011 e 2012, incluindo as despesas com hospedagem da comitiva oficial e das equipes de apoio da Presidência da República e do Ministério das Relações Exteriores, conforme informou o governo federal ao Estado por meio da Lei de Acesso à Informação.

Sem considerar as escalas, a presidente fez 32 viagens nos dois primeiros anos de mandato - 17 viagens internacionais em 2011 e 15 em 2012. A Argentina (quatro viagens) e os Estados Unidos (três) foram os destinos mais visitados pela presidente nesse período. Ao todo, Dilma passou 79 dias no exterior.

Conforme previsto em decreto de 1993, cabe ao Ministério das Relações Exteriores arcar com as despesas de hospedagem dos integrantes das comitivas oficiais da presidente, do vice-presidente e dos servidores da equipe de apoio em viagem ao exterior.

O Itamaraty não detalhou ao Estado os gastos das viagens presidenciais tampouco informou os gastos daquelas realizadas em 2013 - dados que haviam sido solicitados pela reportagem no pedido feito por meio da Lei de Acesso.

A soma de US$ 3,8 milhões, portanto, não inclui as despesas da viagem para a cerimônia de entronização do papa Francisco em março, quando a comitiva brasileira chamou a atenção pela escolha de um hotel de luxo em Roma. Só com pacote de hospedagem e salas de apoio e reunião o governo gastou 125.990 (cerca de R$ 324 mil).

"Os presidentes têm de viajar, e ela viaja até pouco. Mas alguns casos são desnecessários, como a viagem ao Vaticano, que foi um desastre pela dimensão que teve, pela quantidade de gente que foi junto. O que o Mercadante (Aloizio Mercadante, ministro da Educação) tinha de fazer no Vaticano?", disse o professor Pio Penna, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Exportação e inflação reduzem produção de alimentos, diz IBGE


Diogo Martins 
Valor

RIO - Dificuldades para exportação e a inflação prejudicaram a produção da indústria de alimentos em março, afirmou o gerente da coordenação da indústria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), André Luiz Macedo.

Dados da pesquisa Produção Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF), divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE, apontaram que a produção de alimentos caiu 2,7% em março na comparação com fevereiro, na série dessazonalizada, enquanto a produção industrial do país cresceu 0,7%. Foi a segunda queda consecutiva do setor alimentício. Em fevereiro e março, a produção de alimentos teve queda de 4%.



"Um conjunto de fatores explica essa queda. Há o recuo das exportações de produtos como soja e açúcar, por exemplo", disse Macedo. "Há também a inflação que atrapalha o setor", completou.

Em março, a produção de alimentos recuou 7,9% ante igual mês de 2012. Nessa base de comparação, a queda atingiu a fabricação de 72% dos itens dessa indústria. Além disso, o fato de março deste ano ter tido dois dias úteis (20) a menos que março do ano passado também influenciou o resultado do segmento, assim como de toda a indústria.



A queda da produção de alimentos em março, quando comparada ao mesmo período em 2012, é um dos fatores que levaram a produção de semi e não duráveis a recuar 8,2% no mesmo período, a maior queda desde janeiro de 2009 (-8,6%).

O IBGE destaca a queda nas produções de açúcar cristal, suco de frutas, margarina, rações e leite pesaram no resultado.

No acumulado do ano até março, a produção de alimentos caiu 3,1% ao passo que, em 12 meses, o segmento teve recuo de 2,4%.

Bancos e consultorias já falam em crescimento do PIB abaixo de 3% no ano


Cleide Silva
O Estado de S. Paulo

Com números da economia abaixo das expectativas, analistas reduzem previsões de crescimento para o País; no Bradesco, por exemplo, número foi de 3,5% para 2,8%, e na MB Associados, de 3% para 2,5%

SÃO PAULO - Bancos e consultorias começam a cortar as projeções de crescimento da economia para este ano e já trabalham com previsões abaixo de 3%. Crescimento de 3% é a projeção do Banco Central (BC) para a alta do Produto Interno Bruto (PIB) este ano. Até agora, o número vinha sendo endossado pelo mercado, levando-se em conta a média das projeções obtidas na pesquisa Focus, feita pelo BC, com bancos e consultorias.

Mas os analistas estão ficando mais pessimistas. O desempenho abaixo do esperado no primeiro trimestre, segundo mostram números como os da produção industrial, divulgados ontem, e a piora em indicadores de consumo e da balança comercial levaram à revisão de algumas projeções. No ano passado, o PIB cresceu só 0,9% e as projeções para este ano iam até 4%, com mais apostas em 3%.

O diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Octavio de Barros, baixou de 3,5% para 2,8% a expectativa de alta do PIB em 2013. "Nossa revisão para o crescimento doméstico foi influenciada pela incorporação recente de resultados mais fracos do que esperávamos da atividade econômica", disse. Barros também aponta um cenário global mais fraco que o imaginado.

Silvia Matos, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), reduziu sua expectativa de 2,9% para 2,7%. Segundo ela, "há chances de nova revisão, dependendo principalmente do desempenho do setor de serviços", a ser divulgado.

Os resultados do primeiro trimestre também estão abaixo do esperado pela Tendências Consultoria. A expectativa de alta de 3% deve cair para 2,8% ou 2,9%, diz a economista Alessandra Ribeiro. Ela esperava alta de 1,1% no PIB do primeiro trimestre, mas, com os dados da produção industrial, a previsão deve baixar para 1% e, com isso, o viés será de baixa para o ano.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, trabalhava desde junho com alta de 3%, mas revisou o índice para 2,5% há um mês. "Os dados fracos da indústria, aliados aos do comércio e serviços, podem trazer uma surpresa negativa." Vale não vê recuperação evidente no segmento de bens de capital e nos investimentos.

Alta de 2,5% também é a previsão de Thaís Marzola Zara, da Rosenberg & Associados, desde o início de 2013, e do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

André Loes, economista-chefe do HSBC para a América Latina, mantém aposta em 2,6%. Ele lembra que o ano começou um pouco mais forte, mas desacelerou. "Não achamos, contudo, que o número da balança comercial seja razão para alteração, pois o Brasil é muito fechado e as exportações representam parte pequena do PIB."

Com margem que vai de 2% a 3%, Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada (Cemap/FGV) diz que a balança comercial pode ter impacto no desempenho da economia. "A queda do mercado externo vai bater na produção industrial."

O Banco Fator é outro que vê chances de revisar para baixo a alta de 2,9% esperada inicialmente. O Credit Suisse, que tem a aposta mais alta do mercado, de crescimento de 4%, só deve rever os números em junho.

Fim do efeito energia e alta dos remédios pressionam IPC, diz Fipe


Rodrigo Pedroso
Valor

SÃO PAULO - A inflação de abril em São Paulo medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) se deve principalmente aos aumentos nos preços nos grupos habitação e saúde, que não foram observados em março, quando o indicador marcou deflação de 0,17%.

Hoje, a Fipe informou que a  inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) subiu para 0,28% na quarta quadrissemana de abril.

Com 30,9% de peso na composição do índice, habitação registrou alta de 0,25% depois de cair 1,05% em março. O resultado se deve ao fim do efeito da redução da tarifa de energia elétrica. Esse item fez o subgrupo manutenção do domicílio recuar 2,35% em março. Em abril, subiu 0,12%.

No grupo saúde, em que a taxa subiu de 0,25% para 1,31%, os preços foram puxados pela alta em contrato de assistência médica (0,84%) e remédios e produtos farmacêuticos (2,52%). Saúde possui peso de 7,7% na composição do IPC.

Segundo Rafael Costa Lima, coordenador da pesquisa, a inflação está em um nível controlado. “Ela não tem registrado uma trajetória preocupante, mas também não há sinais de desaceleração desse patamar de leve alta”, afirmou após a divulgação dos dados, nesta sexta-feira na capital paulista.

Por outro lado, dentro do índice, os grupos de alimentação e vestuário cederam em abril ante o mês anterior, segurando o resultado. O primeiro grupo, segundo maior peso (22,9%) dentro do indicador, passou de alta de 0,77% em março para incremento de apenas 0,20% em abril. A desaceleração foi disseminada nos subgrupos, fruto em parte dos efeitos da desoneração da cesta básica.

“Houve quedas maiores em produtos industrializados e semielaborados. Carnes tiveram recuo expressivo também”, disse Costa Lima. O grupo vestuário cedeu de alta de 0,44% para avanço de 0,19%.

Indústria tradicional desiste de exportar e cria déficit


Ricardo Mioto
Folha de São Paulo 

Entre 2006 e 2012, a exportação de máquinas de lavar fabricadas no Estado de São Paulo caiu 77%. Foi feia também a queda do vestuário (52%) e das bicicletas (87%).

Por outro lado, as importações desses produtos subiram respectivamente 525%, 531% e mais de 800%. Esses três tradicionais setores da indústria paulista contam a história de uma tendência mais geral.

Em 2006, o Estado tinha um superavit na balança comercial de US$ 9 bilhões --ou seja, as exportações excediam as importações. De lá para cá, a situação se inverteu. Hoje, o Estado é deficitário em US$ 18 bilhões ao ano.

A balança comercial paulista serve como termômetro da situação industrial do país, tanto na exportação (o Estado ainda é o centro industrial nacional) quanto na importação (o Estado é a sede de muitas importadoras).

CAUSA DA MUDANÇA
O consultor Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do governo federal, cita, entre outras, três causas para essa rápida mudança:

1) O aumento da renda no país sem aumento correspondente dos investimentos (e da produção) fez com que os consumidores passassem a se saciar com importados.

2) A infraestrutura (como portos) ficou congestionada, minando a competitividade. Com pleno emprego, a mão de obra também encareceu.

3) Depois da crise internacional de 2008, o mercado global se complicou. Com o consumo americano e europeu contido, produtos que antes iam a esses mercados inundaram países como o Brasil.

Há ainda uma discussão sobre o papel do câmbio valorizado nessa mudança.

Roberto Giannetti, diretor de comércio exterior da Fiesp, federação das indústrias do Estado, diz que ele "é o pior dos problemas" --moeda valorizada significa importação barata e exportação cara.

"São Paulo é o Estado mais penalizado pelo câmbio valorizado. A baixa competitividade dos nossos manufaturados não tem a ver com a gestão das empresas, com a nossa referência tecnológica ou mesmo com a qualidade de mão de obra, que tem um padrão razoável de produtividade."

Economistas mais liberais podem discordar.
Para Rodrigo Constantino, fundador do Instituto Millenium, "a taxa de câmbio é apenas mais um fator [da baixa competitividade], e nem de perto o único ou o mais importante".

Para ele, tanto quanto resolver os problemas estruturais, é preciso reforçar os incentivos para que nossas empresas busquem maior eficiência. "Só a competição coloca a devida pressão nos empresários."

Outra opção para reduzir a concorrência externa, que o governo tem utilizado, é aumentar impostos de importados. Giannetti vê como "um erro para corrigir o primeiro [o câmbio]".

Constantino também critica: "É um tiro no pé. Ajuda alguns amigos do rei, mas faz empresário investir mais em lobby em Brasília do que em competitividade".

Os concorrentes tomam mercado que era do Brasil


O Estado de S.Paulo

As dificuldades que a economia mundial enfrenta poderiam ser uma boa justificativa para o mau desempenho das exportações brasileiras. Mas, neste caso, muito pouco o governo poderia fazer para evitar a continuação da queda das nossas vendas externas, que, no acumulado de 12 meses até abril, foram 6,6% menores do que as dos 12 meses anteriores.

O que a comparação das exportações brasileiras com as importações dos principais mercados mostra, no entanto, é um quadro preocupante. A queda pouco tem que ver com a crise. Esses países já voltaram a importar mais, mas o Brasil exporta cada vez menos para eles. Com isso, é cada vez menor o espaço dos produtos brasileiros nesses mercados.

Os dados são claros. A China, principal comprador de produtos brasileiros, está importando mais do resto do mundo (o aumento foi de 8,4% no primeiro trimestre), mas as exportações brasileiras para aquele país diminuíram 2,2%, mostrou o jornal Valor (2/5), com dados da Organização Mundial do Comércio. Também outros grandes compradores - como Estados Unidos, Argentina e Chile - aumentaram suas importações, mas as vendas brasileiras diminuíram. As importações da União Europeia caíram, mas as exportações brasileiras para lá caíram bem mais.

A perda de mercados resulta, em primeiro lugar, da falta de competitividade do produto brasileiro. A crise forçou os países exportadores a buscarem mais eficiência, para produzir mais e a preços competitivos, para manter e ampliar mercados. Vários deles colhem, mesmo na crise, os frutos das medidas acertadas que adotaram. O Brasil, ao contrário, vem perdendo mercado.

As relações comerciais com os principais parceiros do País, como os Estados Unidos e a União Europeia, nunca mereceram a atenção necessária dos governos do PT. Enquanto outros países buscavam, com acordos bilaterais, facilidades de acesso a esses mercados, o governo petista procurou parcerias com governos latino-americanos com os quais tivesse afinidades políticas e ideológicas. Assim, por motivos ideológicos, e não necessariamente por interesse econômico legítimo, o Brasil se aproximou de países como Venezuela e Argentina.

Mas, enquanto o governo brasileiro cumula Cristina Kirchner de gentilezas, a presidente argentina contém as importações brasileiras impiedosamente. Os resultados não poderiam ser diferentes dos que o Brasil está colhendo.

De selins a lavadoras com secagem, indústria não consegue competir


Ricardo Mioto
Folha de São Paulo

Certas marcas de bicicleta, como Caloi, Monark, Sundown, trazem nostalgia da infância, mas já estiveram melhor. A paranaense Sundown, terceiro lugar nos anos 90, desistiu das bicicletas para se concentrar em motos.

A paulista Monark (que, com a também paulista Caloi, dominava o mercado) ainda faz bicicletas, mas encolheu. Em 2002, em valores corrigidos, lucrou R$ 52 milhões. Nos quatro últimos trimestres divulgados, foram R$ 12 milhões. Em 2010, fechou a enorme fábrica em Santo Amaro e alugou um prédio em Indaiatuba.

Mais comuns hoje são bicicletas sem marca definida, chinesas, ou com marcas brasileiras, mas montadas com componentes asiáticos.

De 2006 a 2012, no Estado, a importação de quadros (o esqueleto da bicicleta) subiu 352%. O mesmo aconteceu com selins (295%), pedais (282%) e outras partes.

A Caloi tem uma fábrica em Atibaia (SP) e segue líder, mas não deixa de sofrer com a concorrência asiática. Em 1994, vendeu 1,9 milhão de bicicletas. Em 2012, 1,1 milhão.

LAVADORAS E ROUPAS
São paulistas duas importantes fábricas de máquinas de lavar: a da Whirlpool (que faz Brastemp e Cônsul), em Rio Claro, e a da Electrolux, em São Carlos. O caso delas é o único em que a China não é protagonista. Os dois países mais envolvidos no enredo são Coreia do Sul e Argentina.

Da Coreia, LG e Samsung se destacam vendendo no Brasil suas lava-e-seca. Em 2005, custavam R$ 6.000. Hoje, R$ 2.000. A Whirlpool diz estar estudando fazê-las aqui.

Já a Argentina aparece na outra ponta, como importadora dos nossos produtos. Ela é, via Mercosul, o principal destino das exportações paulistas, à frente dos EUA, pois compra muitos manufaturados. Ou comprava: as exportações de eletrodomésticos ao país sofreram depois que ele começou a impor, nos últimos anos, barreiras aos industrializados brasileiros.

No vestuário, calcinhas e pijamas femininos mostram uma tendência maior. Em 2006, o Estado exportou 451.660 unidades. Em 2012, 10.030.

As importações dos EUA mostram algo. O Brasil, que tem um grande polo têxtil em Americana (SP), é o seu 48º fornecedor de roupas. Perde dos asiáticos ultracompetitivos China (1º), Vietnã (2º) e Indonésia (3º), mas também de países como Peru (17º), Colômbia (29º) e Israel (32º).

Para o Sinditêxtil-SP, que reúne produtores do Estado, o Itamaraty, avesso a acordos de livre comércio com os EUA fora do Mercosul, ele deixa o país refém dos argentinos.

Consumo em alta provoca déficit recorde na balança


Sergio Leo 
Valor

 Consumo em alta provoca déficit recorde na balança


O apetite do mercado consumidor brasileiro ajudou a criar um déficit recorde, de mais de US$ 6 bilhões no comércio exterior, no primeiro quadrimestre do ano, segundo dados divulgados ontem pelo Ministério do Desenvolvimento. A queda nas exportações e o crescimento das importações de petróleo, principalmente devido ao aumento do consumo interno, foram decisivos para o mau desempenho da balança comercial, como explicou a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres.

À exceção dos automóveis, cujas importações caíram 22%, houve forte aumento das compras de bens de consumo, especialmente não duráveis, que aumentaram 23% em abril, comparadas a abril de 2012. A importação de produtos de toucador, como cosméticos, cresceu 55%, a de vestuário, 35%, e de produtos farmacêuticos, 24%.

Na soma total, apesar da queda de 4%, as exportações brasileiras, fortemente baseadas em commodities, só ficaram abaixo dos valores recorde dos dois anos anteriores, e estão bem acima do resultado de todo o resto da última década. Em abril houve ainda forte influência negativa da queda de 62% nas vendas de aviões, que os exportadores dizem ser "pontual", sem risco para o desempenho agregado do ano.

Com a evolução dos embarques de soja, a recuperação registrada no mercado para o minério de ferro e o bom desempenho de produtos como o açúcar, a tendência é de pequena melhora, apesar das quedas de preços de algumas commodities. Entre os cinco principais produtos básicos exportados pelo Brasil, que somam 60% do total das vendas desse tipo de mercadoria, o único a ter queda na exportação foi o petróleo - que teve menor produção com a manutenção de plataformas da Petrobras e ainda deixou de ser exportado para atender à demanda interna.

Sem considerar o petróleo, as vendas totais de básicos teriam registrado aumento de 13,8% em abril, comparado a abril de 2012, e não queda de 5,5%. Nas exportações de commodities importantes, o país compensou com maior volume as quedas no preço ou vice-versa: no primeiro quadrimestre, a queda de 1,7% na quantidade de minério de ferro exportado, por exemplo, foi minimizada pela pequena recuperação, de 3,5%, no preço. As exportações de milho cresceram mais de 400%.

Situação dos empreendedores piora em um mês e crescem falências e pedidos de ajuda na Justiça


Estadão PME

Pior situação ocorreu entre os empresários de médias empresas que pediram falência

Felipe Rau/Estadão
Saúde financeira das empresas piorou

 A situação piorou - e bastante - em apenas um mês. De acordo com dados divulgados nesta sexta-feira (dia 3 de maio) pela Serasa Experian, todos os indicadores que medem a saúde financeira das micro, pequenas e médias empresas pioram na comparação entre março e abril deste ano.

A pior situação ocorreu no número de falências efetivamente decretadas entre médias empresas - houve alta de 116,6% no período com o número saltando de seis para 13 falências. No caso das micro e pequenas empresas, o número de falências decretadas saltou de 47 para 54 - alta de quase 15%.

A situação entre março e abril foi ruim, também, nos pedidos de recuperação judicial. No caso das micro e pequenas empresas, a alta foi de 77,27% - de 22 para 39 casos. Nas médias empresas, a evolução do índice foi de 44,4% (18 pedidos contra 26).

Em abril, a Justiça concedeu recuperação judicial para 27 micro e pequenos empreendimentos, alta de 42,10% em relação aos 19 pedidos concedidos no mês anterior. No caso das médias corporações, a alta chegou a 90% - de 10 para 19 casos.

O porcentual de evolução das falências requeridas é mais modesto. Foram feitos 93 pedidos de micro e pequenos empresários contra 88 no mês anterior, alta de 5,68%. No caso das médias corporações, a alta foi 2,63% - de 38 para 39 casos.

O indicador da Serasa Experian é feito a partir do levantamento mensal das estatísticas de falências e recuperações judiciais e extrajudiciais registradas na base de dados da empresa provenientes de fóruns, varas de falência e dos diários oficiais e da Justiça dos estados.

Belluzzo: ‘Brasil tem uma indústria atrasada, com déficit de competitividade’


Gabriela Valente
O Globo

Indústria recebe proteção do governo, mas não cumpre exigências para melhorar desempenho

BRASÍLIA — Após vários pacotes de incentivo bilionários para reanimar a indústria brasileira, o setor continua a perder espaço para os concorrentes tanto no mercado internacional quanto no doméstico. A competitividade minguou nos últimos 30 anos. Um dos motivos, segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, é que a indústria recebe proteção do governo, mas, diferentemente do que acontece em outros países, não precisa cumprir exigências para melhorar o desempenho.

Diminuir a rentabilidade do negócio é uma das saídas apontadas por especialistas para tentar recuperar o terreno perdido.

Mas os economistas preveem um efeito perverso: desestimular os investimentos. Para o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos gurus da equipe econômica, o governo deveria fazer uma política de ganho de competitividade para reanimar a indústria e estimular o crescimento.

Ele lembra que as cadeias produtivas no Brasil têm particularidades que, cada vez mais, as distanciam do novo padrão do comércio mundial. E precisam de ações customizadas de estímulo para chegar ao patamar da indústria internacional. Belluzzo cita o exemplo de uma fábrica na China que produz sozinha o mesmo número de carros fabricados em todo o Brasil.

— O Brasil tem uma indústria atrasada, com déficit de competitividade em relação ao mundo, que teve avanço nas cadeias produtivas. Fizemos muita proteção sem exigência de desempenho. Redução de margem de lucro será uma consequência para ter um mercado mais competitivo — destaca o economista.

Um índice produzido na universidade americana Princeton indica que o lucro no Brasil é alto. O indicador compara o custo da mão de obra de vários trabalhadores do McDonald’s no mundo. Aqui, um funcionário da empresa compra meio Big Mac com o que ganha em um hora de trabalho. O japonês que faz o mesmo serviço para produzir o mesmo produto pode comer três hambúrgueres com o que recebe por hora de trabalho.

— Apesar de o custo da mão de obra ter crescido no Brasil, ele ainda é baixo. Mas os preços não são, e isso indica que o lucro é maior que nos outros países — frisa o economista André Perfeito, da Gradual Investimentos.

Ainda assim, representantes da indústria afirmam que o setor já vive, hoje em dia, uma queda do lucro para evitar o repasse da alta dos custos para os preços.

Em poucos segmentos a margem é maior que de concorrentes internacionais, diz a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Para o economista-chefe da instituição, Flávio Castelo Branco, achatar a margem de lucro dos negócios seria um perigo, pois diminuiria o interesse dos empresários em investir.

Aperto teria impacto imediato
Para Júlio Gomes de Almeida, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda , o setor já vive um achatamento das margens desde o início da crise mundial. Ele alerta que a queda do lucro pode afetar não só o investimento, mas também o presente das companhias brasileiras, pois uma rentabilidade menor impactaria a capacidade de financiamento das empresas.

— O melhor dos mundos seria a indústria reduzir margem de lucro porque aumentou a produção ou as exportações ou porque está vendendo mais para o mercado interno. Isso é sadio. No entanto, reduzir o lucro por estar deprimida é perigoso.

Indústria brasileira tem em abril pior expansão em seis meses, aponta instituto


Veja online
Com agência Reuters 

Para o Markit Economics, setor cresceu pelo oitavo mês seguido, mas está em marcha lenta desde fevereiro

(Jefferson Bernardes) 
Em fevereiro, indústria brasileira teve o pior desempenho mensal em quatro anos 

A expansão do setor industrial brasileiro registrou em abril a taxa de crescimento mais lenta dos últimos seis meses. Os resultados são do Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês), publicado nesta quinta-feira pelo instituto de pesquisa inglês Markit Economics.

Em abril, o índice atingiu 50,8 pontos, patamar menor que os 51,8 pontos de março. Foi a pior expansão desde outubro do ano passado, quando o PMI foi de 50,2. Uma leitura acima de 50 pontos indica crescimento, enquanto um número abaixo indica contração. De acordo com o índice, a insútria brasileira cresceu pela oitava vez seguida, mas está em desaceleração desde fevereiro. 

Segundo o Markit, o crescimento do volume total de novos pedidos também foi o pior desde outubro. Além disso, após quatro meses em alta, o volume de novos negócios para exportação registrou queda em meio a relatos de uma demanda mais fraca. "Os empresários consultados na pesquisa que indicaram perdas de empregos mencionaram a dificuldade em repor os funcionários que se demitiram", afirmou o instituto de pesquisa em nota.

As compras de insumos pelos fabricantes aumentou de forma modesta em abril. Os estoques desses produtos caíram pelo 23º mês seguido, com quase 5% das empresas entrevistadas relatando reservas mais baixas de matérias-primas.

O Markit destacou que, embora tenha havido forte aumento nos preços de insumos como aço, plásticos e combustíveis, a concorrência impediu que as empresas repassassem aos clientes a carga total dos custos.

Indústria em marcha lenta -
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga na próxima sexta-feira os dados de março da produção industrial brasileira. Em fevereiro, a produção do setor teve o pior resultado mensal em pouco mais de quatro anos.

Outros dados recentes também vêm destacando a fragilidade da indústria. Em abril, o Índice de Confiança da Indústria (ICI) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) recuou pelo segundo mês seguido, com destaque para o pessimismo do empresariado em relação ao presente.

O maior medo


Míriam Leitão  
O  Globo

Há 30 anos, em 1983, o maior medo dos paulistanos ouvidos pelo Instituto Datafolha era da inflação; hoje, refeita a pesquisa da mesma forma — com resposta estimulada e única —, o maior medo é de que algum jovem da família se envolva com drogas. O interessante é constatar como estavam certos os que tinham medo da inflação em 1983.

O Datafolha refez a pesquisa para comemorar seus 30 anos. O que chama a atenção, quando se olha para trás, é a sabedoria das pessoas ouvidas. Em 1983, a inflação estava caminhando para 300% ao ano. E o país travaria, na década seguinte, a mais tenaz luta contra a alta dos preços da sua história. A ditadura legou ao país o descontrole inflacionário, com um gene mutante, a indexação, que o tornara mais forte. Foi preciso atravessar planos econômicos, experimentos, seis moeda — uma delas a virtual URV — para derrotar o reajuste dos preços que chegou ao patamar de 5.000%.

O medo era real naquele ano de 1983. O país já tinha entrado num túnel do qual só saiu anos depois com muito sofrimento e perdas. O fato de só 7% terem apontado que este é o maior medo agora não quer dizer, em absoluto, que os brasileiros não se preocupam mais com isso. Nos últimos meses, os consumidores mostraram várias vezes seu desconforto com os preços, mas eles sabiamente escolheram como maior preocupação "que jovens da família se envolvam com tóxicos".

As drogas mudaram de patamar. Algumas são agora mais virulentas, desagregadoras e difíceis de vencer, como o crack. Então, de novo, tem razão o entrevistado do Datafolha. É um desafio para as famílias e para as políticas públicas lidar com a complexidade a que chegou o risco que cerca os jovens.

A queda para 7% do percentual dos que elegem a inflação, se não for bem entendida pelos governantes, pode induzi-los a erros. O brasileiro mudou ao vencer a hiperinflação, em 1994. Hoje, ele é intolerante com a alta dos preços e reage a cada momento que eles sobem um pouco, ainda que seja para patamares que nem de longe pareceriam graves nas décadas de 50, 60, 70, 80 e até meados de 90. Hoje, o IPCA está um pouco acima do teto da meta e isso é considerado grave, gravíssimo.

Por que então só 7% apontam como seu maior medo? O país acha que ela não está fora de controle e que o governo impedirá que ela continue a subir, por mais que desconfie frequentemente das hesitações que a política econômica tem demonstrado. Mas a população está ligada ao problema e punirá com queda de popularidade o governo que deixar a inflação fugir ao controle. O brasileiro, que durante 50 anos viveu com índices em dois dígitos, depois, em três dígitos, e em seguida, com o descontrole inflacionário, criou anticorpos contra esse fenômeno.

Mesmo assim, estruturas mentais do passado permanecem vivas, como essa tresloucada ideia de reindexação dos salários, com gatilho, que foi apresentado pelo Paulinho da Força Sindical. Se adotada, é o caminho para a repetição da tragédia. O país tem é que varrer o que resta de lixo da indexação, em vez de recriar mecanismos que nos levaram ao desastre.

A presidente Dilma, em pronunciamento em cadeia nacional, na quarta-feira, disse que o combate à inflação é uma preocupação permanente de seu governo. Mas o que os números mostram, de fato, é o IPCA longe do centro da meta durante todo o seu mandato.

Há a expectativa bem provável de que o índice volte a cair nos próximos meses, mas o governo deixou de lado toda a ousadia de levá-la a patamares mais baixos. Pelo contrário, tem aceitado que ela fique estacionada num nível alto demais, o que a torna vulnerável a choques.

Ao contrário dos argentinos, que aceitaram que a inflação voltasse a 25%, aceitam a intervenção no instituto oficial de pesquisas de índices de preços e admitem que o ministro da Fazenda fuja (fisicamente) de uma entrevista, quando lhe perguntam sobre o tema, os brasileiros aprenderam a lição. Na minha longa vida de jornalista construí esta profunda convicção: o brasileiro de hoje não tolera inflação fora de controle.

Tombini anuncia projeto de reforma da lei bancária


Veja online
Com agência Reuters

Uma das mudanças pretendidas é criar uma modalidade de 'salvamento' dos bancos, em que os recursos viriam de credores e não do governo

 (Antonio Cruz/Agência Brasil) 
Tombini quer salvar bancos sem a ajuda do governo

O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, afirmou nesta segunda-feira que está sendo encaminhado um anteprojeto para a Lei 6024, de 1974, que dispõe sobre a intervenção e a liquidação extrajudicial de bancos. Dentre as mudanças propostas por Tombini, há a proposta da criação de um mecanismo que prevê alternativas para absorver prejuízos de instituições financeiras. Dessa forma, a economia brasileira ficaria menos suscetível a uma desestabilização causada pela quebra de um banco.

A proposta é internacionalmente conhecida como bail-in e é uma das principais inovações que nasceram da crise financeira internacional de 2008, quando houve a necessidade de uso de muitos recursos públicos para evitar o colapso total dos sistemas financeiros locais. Nessa modalidade, os recursos para salvar os bancos não vêm dos cofres do governo, mas dos credores subordinados dos próprios bancos. 

Tombini também destacou que as mudanças implicam em mais segurança jurídica para o BC. O texto ainda será discutido pelo Congresso e vai suceder ao antigo Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer), criado no governo Fernando Henrique para recuperar bancos com graves problemas de caixa.

Durante sua apresentação, Tombini não fez comentários sobre a situação da economia brasileira nem sobre a inflação.

Meta de superávit primário para 2013 é de R$ 108,091 bi


Veja online
Com Estadão Conteúdo

Decreto publicado no Diário Oficial nesta sexta-feira aponta que superávit deve ser de 2,15% do PIB

(Reuters)

Meta de superávit primário do governo é de R$ 108,091 bilhões para 2013 

O decreto de programação orçamentária e financeira de 2013, publicado no Diário Oficial da União nesta sexta-feira, confirma a meta de superávit primário de 108,091 bilhões de reais para o governo central (Tesouro, Previdência e Banco Central) em 2013, o equivalente a 2,15% do Produto Interno Bruto (PIB). A meta para empresas estatais federais mantém-se em zero em 2013, conforme já estava previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano.

No mesmo anexo que traz a previsão de resultado primário para o governo central, há uma previsão de receita líquida de 732,521 bilhões de reais para o ano. Esse valor já exclui as transferências a Estados e municípios previstas na LDO, no valor de 204,879 bilhões de reais. A previsão de receita administrada pela Receita Federal é de 754,785 bilhões de reais.

As contas do governo central (soma dos resultados do Tesouro Nacional, INSS e Banco Central) registraram um superávit primário de 285,7 milhões de reais em março, informou nesta segunda-feira o Tesouro Nacional. Depois do superávit recorde de janeiro (26,19 bilhões de reais) e do pior resultado para meses de fevereiro (déficit de 6,412 bilhões de reais), o saldo de março mostra uma pequena reação, apesar da renúncia fiscal que o governo está disposto a assimilar em 2013, que deve chegar a 70 bilhões de reais.

No ano passado, o superávit primário do Governo Central encerrou o ano em 88,5 bilhões de reais. Apesar de todas as triangulações financeiras, a chamada veja.abril.com.br/noticia/economia/the-economist-critica-contabilidade-criativa-do-governo-brasileiro, realizadas pelo governo no final do ano passado, o superávit primário ficou abaixo da meta de 97 bilhões de reais fixada pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Isso é prova que os gastos do governo avançaram em ritmo maior do que suas receitas. O superávit primário acumulado em 2012 foi equivalente a 2,01% do PIB.

Governo federal exige crianças na escola, mas não fiscaliza


Demétrio Weber
O Globo

Falta de merenda, material didático defasado e cancelamento de aulas são alguns dos problemas enfrentados

André Coelho / Agência O Globo

Filha de beneficiária, Beatriz Granjeiro dos Santos, de 25 anos, 
concluiu o ensino médio, e por R$ 160 mensais, cursa pedagogia 

CAMPO FORMOSO (BA) e TIMBIRAS (MA) — O Bolsa Família exige que os filhos de beneficiários frequentem a escola, mas não diz nada a respeito da qualidade do ensino nem da infraestrutura dos estabelecimentos. Falta de merenda, material didático defasado, cancelamento de aulas, atraso do início do ano letivo e queixas de pais e estudantes foram alguns dos problemas flagrados pelo GLOBO.

Em Timbiras (MA), a diarista Maria dos Santos Lima Costa, de 31 anos, diariamente, leva e busca os filhos de bicicleta na Escola Maranhão Sobrinho. As aulas começam às 7h15m e deveriam terminar às 11h30m. No último dia 17, contudo, por falta de merenda, os dois meninos saíram às 10h30m. Maria contou isso vem acontecendo desde o início do ano. O prefeito Carlos Fabrício Souza Araújo (PRB), de 32 anos, no cargo há mais de 100 dias, culpa a administração anterior, que não teria prorrogado contratos, e diz que está sendo feita nova licitação:

— Licitação é demorada mesmo. Aqui há uma cultura de favorecimento. Quando se tenta quebrar isso, a resistência é muito grande.

Em Tiquara, na zona rural de Campo Formoso (BA), Lívia Pereira da Silva, de 9 anos, está no 4º ano do ensino fundamental, mas recebeu na Escola Municipal Nestor Carvalho do Nascimento livros didáticos do 3º ano. A mãe, Maria Lúcia Pereira da Silva, reclamou:

— Estive com a professora na escola e ela disse que o assunto é o mesmo.

Na zona urbana de Campo Formoso, Eduardo Oliveira Porfírio, de 8 anos, recebeu, em 2012, o troféu de melhor aluno do 1º ano do ensino fundamental na Creche Casulo Dr. Heraldo Rocha, que acaba de ser reformada. Ganhou forro no teto, piso de cerâmica, cadeiras e mesas para crianças. Há turmas do maternal ao 2º ano do fundamental. Na lousa branca, pincéis atômicos substituíram o giz. Não há telefone.

O livro de atividades da creche registra a premiação, mas não os nomes dos agraciados. Por causa da reforma, o ano letivo começou em 3 de abril. No último dia 24, houve reunião de planejamento pedagógico. Pelo nome, nenhuma professora identificou Eduardo, que só foi reconhecido por foto.

Sua professora, Maria Vivânia Silva Maniçoba, disse que o menino faltou à maioria das aulas este ano. A mãe dele é beneficiária do Bolsa Família.

— Vamos mandar um bilhete. Se a mãe não vier, vamos à casa dele saber o que está acontecendo — disse a coordenadora Elisângela Maria Carvalho Monteiro.

Filha de beneficiária, Beatriz Granjeiro dos Santos, de 25 anos, concluiu o ensino médio e, por R$ 160 mensais, cursa pedagogia na Faculdade de Ciência, Tecnologia e Educação, apesar de querer fazer nutrição, cujo inexistente por lá. Ela só tem aula aos sábados, das 18h às 21h, e em uma escola particular de ensino fundamental. Está no primeiro semestre e dá aulas de artes e de educação física para turmas de 5º ano do ensino fundamental da Escola Nossa Senhora Auxiliadora.

Uma cidade que abraçou a educação


Laura Daudén
Revista ISTOÉ

Como a união entre professores, pais, alunos e autoridades de Foz do Iguaçu reverteu em pouco tempo índices ruins de aprendizado no ensino básico e conseguiu bater, inclusive, metas estipuladas para 2022

Uma música infantil anuncia o final do recreio e os alunos do 5ºA se aglomeram no corredor para colar na parede os poemas feitos por eles pouco antes. Entre as mãos que recortam, dobram e apontam estão as da professora Ana Pereira. Mais do que disposição em ajudar os alunos, chama a atenção a camiseta que ela orgulhosamente veste. Na parte de trás, em números garrafais, uma nota: 7,2. Essa é a média conquistada pela escola municipal Adele Zanotto, de Foz do Iguaçu, no último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que conjuga dados sobre evasão e reprovação com os resultados das avaliações externas – no caso das escolas municipais, a Prova Brasil. Quanto maior o número na classificação do Ideb, melhor a posição.Ver professores e funcionários vestindo, literalmente, a camisa de suas instituições mostra a importância que a educação básica ganhou na cidade paranaense. Entre os municípios brasileiros com mais de mil alunos matriculados no 5º ano do ensino fundamental, Foz é o que exibe o melhor desempenho. Bate, inclusive, a meta estipulada pelo movimento Todos Pela Educação para 2022 (ver quadro) e é um exemplo de como a mobilização da comunidade pode revolucionar a aprendizagem em pouco tempo.

REFORÇO
A escola Papa João Paulo I instituiu aulas no turno
oposto ao regular para melhorar a aprendizagem

A conquista é recente. Segundo Joane Vilela, ex-secretária municipal de educação e atual secretária-adjunta na pasta de educação da cidade de São Paulo, em 2001 o índice de reprovação na rede era de 13% e chegou a 15% em 2009. Foi o sinal de alerta. “Instituímos o Plano de Estudos Individualizados no turno oposto para alunos com dificuldades, com grande incentivo à leitura e à escrita, e o acompanhamento de frequência e desempenho”, diz ela. O retorno foi tão rápido que o vereador Dilto Vitorassi (PV) demandou em fevereiro a criação de uma comissão especial na Câmara para investigar eventuais irregularidades na aplicação da Prova Brasil de 2011. “Não encontramos qualquer indício de fraude para maquiar o resultado”, diz o vereador Nilton Bobato (PCdoB), relator da comissão. 

Descartada a possibilidade de fraude, cabe à cidade se concentrar em manter os bons resultados. E terá de fazer isso sob uma nova gestão, provando que o compromisso vai além da política. Depois de oito anos, a administração do PDT, liderada pelo prefeito Paulo Mac Donald Ghisi, deu lugar ao PSB de Reni Pereira. A nova secretária municipal de Educação, Shirlei de Carvalho, promete abraçar o desafio. Ex-diretora da escola Santa Rita de Cássia, que obteve 8,6 no Ideb, a nota mais alta do Brasil, ela promete dar sequência aos programas de maior destaque da cidade. Entre eles, estão o que garante visitas semanais de uma equipe multidisciplinar, formada por um fonoaudiólogo, um assistente social e um psicólogo, a todas as instituições da rede e o prêmio Professor Paulo Freire, que oferece uma dotação em dinheiro aos professores e escolas que liderarem as experiências e os projetos bem-sucedidos no ano. 

Um dos homenageados na edição de 2009 foi o professor Fernando Lima, hoje supervisor da escola Santa Rita de Cássia, para quem a ênfase nos projetos é um dos grandes trunfos da escola-modelo. “A aposta nesses programas criou um vínculo forte com as crianças e suas famílias”, diz. Um desafio, entretanto, é a transição para a rede estadual de ensino. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep) mostram que a porcentagem de alunos com conhecimentos adequados de português cai de 77% para 26% entre o 5o e o 9o ano. Em matemática a situação se repete: o índice despenca de 81% para 24%.

Um dos segredos do êxito de Foz do Iguaçu, segundo a ex-secretária Joana Vilela, é o envolvimento de toda a cidade. “Vimos a proliferação de mobilizações com o objetivo de garantir a todos os alunos da rede o direito à aprendizagem”, diz. Os resultados do esforço coletivo são evidentes na escola Suzana Moraes de Balen, na periferia. A diretora Rozilda Luísa dos Reis e a coordenadora pedagógica Beatriz Martins formaram uma dupla forte para driblar os problemas de evasão e cobrar o envolvimento dos pais no dia a dia do colégio. Juntas, elas passaram a ir de casa em casa buscando os alunos que faltavam com frequência. “Tivemos que lidar até com ameaças porque às vezes víamos o que não podíamos ver”, conta Rozilda. A iniciativa só foi possível porque ambas tinham legitimidade para desempenhar o trabalho. Em Foz, tanto diretores quanto coordenadores são escolhidos pela comunidade. “É importante que o entorno veja a escola como uma parte importante dele mesmo, especialmente em regiões mais vulneráveis”, afirma o economista Ernesto Martins Faria, coordenador do site QEdu da Fundação Leman, e um dos responsáveis pela pesquisa Educação com Equidade.


Do outro lado do município, a escola Papa João Paulo I também é um exemplo de como a união entre comunidade, diretores e professores pode transformar a realidade em tempo recorde. Foi lá que a diretora Janeci Maria Werdt, no cargo há 22 anos, fez sua pequena-grande revolução. Diante dos resultados negativos na Prova Brasil de 2007, ela decidiu recorrer à associação de pais e professores para contratar um docente que desse aula para os alunos do 5o ano no período inverso – um programa de reforço em contraturno, que depois foi adotado em toda a rede municipal a partir do 1o ano. “Começamos uma guerra contra os números. “Trabalhávamos manhã, tarde e noite para reverter a situação”, diz. Deu resultado. De 4,8 no Ideb em 2007 a escola passou para 8,4 em 2011.

Apesar de ser um fator objetivo para auferir proficiências, especialistas ainda divergem sobre a importância que se deve dar ao resultado das avaliações externas. “Elas não podem ser a única matriz ao redor da qual gira o currículo da escola”, diz Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, sublinhando que os rankings escondem as diferenças das quais as escolas partem e estimulam o desequilíbrio, e não a igualdade do sistema. “As provas criam, no entanto, um referencial relativamente confiável para os colégios, permitindo que a evolução dos alunos seja acompanhada ao longo dos anos.” Para ele, esse movimento já era observado na rede particular tendo como ponto de partida os vestibulares. “A novidade é que as escolas públicas aderiram ao processo”, completa. E agora, com uma base de comparação, podem empreender os avanços educacionais necessários.


 

Vestibular ou avaliação? Enem não serve a dois senhores


Lecticia Maggi
Veja online

MEC estuda atribuir à prova a dupla missão, mas educadores alertam: é praticamente impossível que exame atenda a objetivos tão distintos

Marcos De Paula/AE

Candidatos do Enem realizam passeata pelas ruas do centro do Rio de Janeiro.
Revoltados com as notas da redação do Enem 2012 

Nascido em 1998 como ferramenta de avaliação do desempenho dos alunos do ensino médio, o Enem foi transformado em vestibular das universidades federais em 2009, papel mantido até hoje. Está em estudo no Ministério da Educação uma proposta que pretende atribuir à prova as duas missões. A ideia é substituir a Avaliação Nacional da Educação Básica (Aneb), que apura o desempenho do ciclo médio, pelo resultado obtido pelos estudantes no Enem para efeito do cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) – indicador da qualidade do ensino nacional. A função de selecionar candidatos para universidades seguiria intacta. Educadores ouvidos pelo site de VEJA, contudo, fazem um alerta: é praticamente impossível que a mesma prova atenda a dois objetivos tão distintos. "O Enem não pode ser tudo. Não há qualquer experiência internacional nesse sentido", diz Maria Helena Guimarães, presidente da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e que, entre 1995 e 2002, presidiu o Inep, autarquia do MEC responsável pelo Enem.

Segundo os especialistas, a impossibilidade de o Enem cumprir simultaneamente e com louvor ambas as funções decorre da natureza distinta das duas provas: as que avaliam a qualidade do ensino e as que selecionam alunos. A primeira busca produzir um diagnóstico a partir do conhecimento de estudantes, escolas ou mesmo de uma rede de educação; a segunda pretende hierarquizar candidatos segundo seu desempenho e, assim, apontar os melhores para uma universidade, por exemplo. Com naturezas tão distintas, as duas provas só poderiam mesmo abordar a grade curricular de maneira diversa. A prova de avaliação tende a explorar todos os conteúdos que os estudantes viram no ciclo escolar, visando aferir o que aprenderam de cada matéria. Já a prova de seleção elege os tópicos segundo seu interesse: seu objetivo não é avaliar o universo de alunos, mas revelar competências e apontar quem são os melhores candidatos. "No exame de seleção você avalia bem os melhores alunos, mas não os demais", resume Ruben Klein, especialista em estatística e consultor da Fundação Cesgranrio.

Bolsa de pós-graduação é única renda de muitos estudantes


Exame.com
Mariana Tokarnia, Agência Brasil

É com uma bolsa entre R$ 1 mil e R$ 4 mil que jovens pesquisadores pagam despesas como aluguel e alimentação

Sean Gallup/Getty Images

Estudante lê livros: a partir deste mês, os estudantes recebem um reajuste 
de 10% nos valores das bolsas, considerados insuficientes por muitos estudantes

Brasília - Com valores mensais entre R$ 1 mil e R$ 4 mil, as bolsas de pós-graduação são, quase sempre, a única fonte de renda de muitos estudantes no país. Eles se dedicam exclusivamente às dissertações, teses, à publicação de artigos e a leituras. É com a bolsa também que pagam despesas como o aluguel e a alimentação.

O valor, segundo bolsistas, é insuficiente para algumas localidades, ou dá apenas para pagar as contas. Para aqueles que deixam a família e se mudam para estudar, a bolsa é o que garante a fixação na localidade. A partir deste mês, os estudantes recebem um reajuste de 10% nos valores.

O reajuste das bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado ofertadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) foi anunciado em março.

Os novos valores começam a ser pagos agora: a bolsa de mestrado passa de R$ 1.350 para R$ 1.500, a de doutorado, de R$ 2.000 para R$ 2.200 e a de pós-doutorado de R$ 3.700 para R$ 4.100.

"A bolsa é interessante porque legitima a nossa função como estudantes, nos dá um aval de pesquisadores", diz o doutorando em literatura da Universidade de Brasília (UnB) Douglas Sousa.

"Mas o valor é ainda mais interessante para aqueles que não são de Brasília [onde o custo de vida é alto], que moram em residência própria. Eles podem usar a bolsa apenas para manutenção do curso, gastam com lanches, livros e viagens para congressos. Para nós que somos de outros estados, temos que pagar aluguel, alimentação, além de bancar nossa paticipação em eventos científicos, que é quase uma obrigatoriedade para pós-graduandos".

Douglas veio de Socorro do Piauí, a 457 quilômetros da capital piauiense, Teresina. No estado de origem fez graduação e mestrado. Para o doutorado, escolheu Brasília pelo intercâmbio cultural que teria: "Não precisa sair de Brasília para ter um pedacinho do mundo aqui". Mas o preço é alto, apenas o aluguel consome 40% do que ganha.

"Eu posso dizer que não vivi Brasília culturalmente. Pesquiso dramaturgia e não tenho dinheiro suficiente para ir a várias apresentações", diz o mestrando em literatuda da UnB Francisco Alves. Ele veio de Boa Vista, Roraima. Francisco conta que sempre viveu intensamente as universidades por onde passou, sendo monitor e participando de projetos de pesquisa. "Em Roraima, na graduação, minha mãe alugou um quarto para mim perto da universidade. Disse que pagava o aluguel e o resto, eu me virasse".

Ambos estudam uma média de seis a oito horas por dia. A bolsa é uma ajuda para que se dediquem exclusivamente à pós. Na UnB, de um total de 7,6 mil alunos de pós-graduação, 4,5 mil, quase 60%, são brasileiros que não residiam no Distrito Federal.

"Temos muitos alunos que vêm de outros estados, alunos de classe média baixa que têm muita dificuldade em se fixar. A família sustenta na graduação, mas quando chega na pós, o estudante já é adulto e às vezes fica mais difícil para a família. Além disso, eles estão em uma fasa da vida em que começam a se casar, ou já são casados, têm família para sustentar e isso dificulta enormemente a vida acadêmica", constata o decano de pesquisa e pós-graduação da universidade, Jaime Martins.

"O valor da bolsa melhorou um pouco, mas ainda não é suficiente para que os estudantes possam viver em boas condições e para se dediquem exclusivamente à pesquisa. Não se trata de uma visão romântica, é algo prático, para que o estudante possa ter mais tempo dedicado ao trabalho e fazer aquilo da melhor forma possível. Com dedicação, melhor será o trabalho, melhor a publicação e mais mérito acadêmico para o aluno e para a universidade", diz o decano.