terça-feira, maio 07, 2013

Dólar em alta paralisa negócios na Argentina


Janaína Figueiredo 
O Globo

Caem número de turistas e de transações com imóveis. Até empregadas paraguaias são prejudicadas

Alberto Raggio/AP/27-2-2013
 Cristina Kirchner lança nota de cem pesos com o 
rosto da ex-primeira-dama, mas procura por dólar cresce 

BUENOS AIRES — Uma semana após ter conquistado seu segundo mandato consecutivo (o terceiro da família Kirchner), em outubro de 2011, a presidente Cristina Kirchner iniciou uma cruzada para “desdolarizar” a mentalidade dos argentinos. Desde então, a Casa Rosada implementou uma sucessão de medidas que restringiram as operações no mercado cambial e provocaram efeitos colaterais inesperados, entre eles, a crise do setor da construção (no qual os custos, há décadas, são calculados em dólares); paralisia do mercado imobiliário; redução do número de turistas que visitam o país; e disparada da cotação da moeda americana no mercado paralelo.

Nos últimos dias, a piada entre os operadores das chamadas cuevas(cavernas, em espanhol) — casas de câmbio ilegais — era a chegada do “dólar Messi”, batizado assim em referência à camisa dez do craque argentino, já que o dólar paralelo encostou nos 10 pesos. A moeda encerrou a semana em 9,88 pesos, após ter batido 9,98. O patamar é recorde no país desde a saída da conversibilidade (a paridade entre o dólar e o peso), em janeiro de 2002.

A escassez de dólares complicou a vida de corretores imobiliários, advogados, tabeliães, empregadas domésticas estrangeiras (na Argentina trabalham muitas paraguaias e peruanas que enviam parte dos salários a suas famílias), arquitetos e de todos os argentinos que estavam acostumados a economizar em dólares e se recusam a operar em pesos, com uma taxa de inflação que este ano deverá atingir cerca de 25%, similar à taxa do ano passado. Em coluna publicada no jornal “Clarín”, o economista Martín Tetaz explicou a “dolarmania” no país:

“Em qualquer economia, o preço de um bem depende do grau de sua escassez. Se for farto, é barato. Se faltar, é caro”.

E na Argentina, onde as pessoas, há décadas, calculam em dólares, existe escassez. E mais, o país acumula, há sete anos, uma inflação em torno de 212%. No mesmo período, o valor do dólar subiu 32%, apontou Tetaz:

“As pessoas querem se apropriar da única coisa que não aumentou tanto”, resumiu o economista no artigo.
Também entram em jogo fatores emocionais, num país que nas últimas três décadas atravessou gravíssimas crises econômicas. Para muitos argentinos, a moeda americana é o único porto seguro.

Aumenta cerco ao dólar
Os argentinos querem dólares e o governo Kirchner fecha cada vez mais a torneira. No último ano e meio, a Afip (Receita Federal local) limitou drasticamente as autorizações de compra. Paralelamente, foi proibida a aquisição de dólares e outras moedas para “atesouramento” e, nas últimas semanas, o Fisco passou a monitorar o saque de dinheiro em caixas de outros países. Essa foi, de fato, a solução encontrada por muitos argentinos para conseguir dólares a um preço mais baixo, já que retirando dinheiro com o cartão de crédito ou débito no exterior paga-se o valor do dólar oficial (5,30 pesos), mais 20% de taxa cobrada pela Afip (medida aplicada em março passado para saques, pacotes turísticos e pagamentos com cartão fora do país), 3% de custos de financiamento bancário e US$ 5 cobrados pelos bancos locais para cada US$ 300 retirados. Ou seja, quem saca no exterior paga em torno de 6,67 pesos por dólar.

Autoridades uruguaias estimam que desde que a Casa Rosada aplicou o “corralito verde”, os argentinos já retiraram cerca de US$ 10 milhões de caixas do país vizinho, principalmente em Colônia do Sacramento, que fica a apenas uma hora de barco de Buenos Aires. Os bancos desta pequena cidade uruguaia calculam que os vizinhos argentinos realizam, em média, 500 saques por dia. Ciente da existência do que a imprensa local definiu como dollar tour, a Afip enviou cartas a contribuintes que realizaram saques no exterior.

— Temos um cliente que deve justificar o saque de US$ 6 mil. A Afip quer comprovante de todos os gastos — disse o advogado Fernando del Valle.

O novo controle da Receita argentina levou alguns bancos a limitarem, na semana passada, os saques no exterior a 15 mil pesos por mês. Segundo o economista Mariano Lamothe, da consultoria Abeceb, a escassez de dólares no país “não será solucionada com restrições no mercado de câmbio”. Mês passado, as reservas do Banco Central caíram abaixo de US$ 40 bilhões (US$ 39,8 bilhões), pela primeira vez desde 2007. Para Lamothe, o mais grave é que o governo Kirchner “acha que a inflação e o dólar não são problemas e não os encaram”.