terça-feira, maio 07, 2013

Vestibular ou avaliação? Enem não serve a dois senhores


Lecticia Maggi
Veja online

MEC estuda atribuir à prova a dupla missão, mas educadores alertam: é praticamente impossível que exame atenda a objetivos tão distintos

Marcos De Paula/AE

Candidatos do Enem realizam passeata pelas ruas do centro do Rio de Janeiro.
Revoltados com as notas da redação do Enem 2012 

Nascido em 1998 como ferramenta de avaliação do desempenho dos alunos do ensino médio, o Enem foi transformado em vestibular das universidades federais em 2009, papel mantido até hoje. Está em estudo no Ministério da Educação uma proposta que pretende atribuir à prova as duas missões. A ideia é substituir a Avaliação Nacional da Educação Básica (Aneb), que apura o desempenho do ciclo médio, pelo resultado obtido pelos estudantes no Enem para efeito do cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) – indicador da qualidade do ensino nacional. A função de selecionar candidatos para universidades seguiria intacta. Educadores ouvidos pelo site de VEJA, contudo, fazem um alerta: é praticamente impossível que a mesma prova atenda a dois objetivos tão distintos. "O Enem não pode ser tudo. Não há qualquer experiência internacional nesse sentido", diz Maria Helena Guimarães, presidente da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e que, entre 1995 e 2002, presidiu o Inep, autarquia do MEC responsável pelo Enem.

Segundo os especialistas, a impossibilidade de o Enem cumprir simultaneamente e com louvor ambas as funções decorre da natureza distinta das duas provas: as que avaliam a qualidade do ensino e as que selecionam alunos. A primeira busca produzir um diagnóstico a partir do conhecimento de estudantes, escolas ou mesmo de uma rede de educação; a segunda pretende hierarquizar candidatos segundo seu desempenho e, assim, apontar os melhores para uma universidade, por exemplo. Com naturezas tão distintas, as duas provas só poderiam mesmo abordar a grade curricular de maneira diversa. A prova de avaliação tende a explorar todos os conteúdos que os estudantes viram no ciclo escolar, visando aferir o que aprenderam de cada matéria. Já a prova de seleção elege os tópicos segundo seu interesse: seu objetivo não é avaliar o universo de alunos, mas revelar competências e apontar quem são os melhores candidatos. "No exame de seleção você avalia bem os melhores alunos, mas não os demais", resume Ruben Klein, especialista em estatística e consultor da Fundação Cesgranrio.