domingo, maio 13, 2007

TOQUEDEPRIMA...

Partidos de esquerda preparam bloco para eleição em 19 capitais

Seis partidos de esquerda estão formando um bloco, sem o PT, para possivelmente lançar um manifesto no próximo dia 22 e candidaturas de uma forte coligação em 2008. Fazem parte da parceria: PDT, PSB, PC do B, PMN, PAN e PHS. Nos bastidores, eles já armam um mapa eleitoral preliminar.
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De acordo com as previsões das siglas, haverá candidatura própria do bloco em pelo menos 19 capitais do país. Outras cidades são consideradas críticas porque existem alianças muito sólidas com o PT.
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Em São Paulo, os cogitados para o bloco são: Aldo Rebelo (PC do B), Luiza Erundina (PSB) e Paulo Pereira da Silva (PDT), o Paulinho da Força Sindical. No Rio, os cotados são Jandira Fhegali (PC do B) e Miro Teixeira (PDT). Em Porto Alegre, podem aparecer os nomes de Manuela D´ávila (PC do B), Vieira da Cunha (PDT) e Beto Albuquerque (PSB).
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Os partidos pretendem reafirmar o apoio a Lula no manifesto, defendendo a autonomia do governo para definir sobre a política macroeconômica, mas reforçam a necessidade de uma ação política para que baixe as taxas de juros.

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Morales toma simbolicamente refinarias da Petrobras na Bolívia

O presidente da Bolívia, Evo Morales, tomou simbolicamente as refinarias que prometeu comprar da Petrobras, no processo de nacionalização da indústria petrolífera iniciado há um ano.
“Só estamos cumprindo um mandato do povo boliviano, só estamos cumprindo com o sentimento do povo boliviano", disse o presidente boliviano. Ele ainda reafirmou que suas políticas de nacionalização respeitam os direitos de propriedade de empresas estrangeiras. Entretanto, advertiu que a Bolívia vai continuar com a campanha contra o Ciadi (Acordo de Diferenças Relativas a Investimento), organismo que acusou de favorecer as companhias transnacionais para “saquear os povos.”

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Após denúncias, governadora do Pará exonera irmãos de seus cargos

Após as denúncias de nepotismo, a governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT), exonerou o irmão Luiz Roberto de Vasconcelos Carepa, que era diretor de saúde pública, e o namorado, Mário Fernando Costa, que era diretor do hangar do governo.
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Ana Júlia fez as demissões porque o promotor de Direitos Constitucionais e Patrimônio Público de Belém, Jorge de Mendonça de Rocha, pediu prazo de 60 dias para que fossem exonerados os servidores que tinham parentesco com a governadora.A confusão entre o público e o privado vem acontecendo desde o início do governo de Ana Júlia. Ela havia nomeado outro irmão no começo do mandato e tinha contratado com assessoras especiais a sua esteticista e a sua cabeleireira, que já foram demitidas. A petista desistiu de morar na casa em que havia solicitado licitação para reforma.

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Câmara americana fecha acordo de livre-comércio

O governo Bush e seus oposicionistas aprovaram um acordo que deve destravar as relações comerciais com outros países, especialmente os latino-americanos. Republicanos e democratas também chegaram a um entendimento quanto a proteções trabalhistas e ambientais.
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Os trabalhadores de parceiros comerciais dos EUA deverão se organizar em sindicatos e fica proibido trabalho infantil e escravo. Todos os países que fizeram negócios com os americanos terão de seguir o padrão internacional de leis ambientais.
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Segundo Susan Schwab, chefe do USTr (órgão equivalente ao Ministério do Comércio Exterior), o tratado deve ajudar a maior circulação de produtos agrícolas, industriais e serviços.
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A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, foi mais cautelosa: “Acho que houve um reconhecimento dos resultados da eleição de novembro. Não quer dizer, porém, que isso pavimenta o caminho para tratados comerciais em relação aos quais temos outras ressalvas. Comércio livre tem que ser comércio justo. Quanto às questões trabalhistas e ecológicas, é um enorme progresso.”

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Petrobrás-Bolivia é holandesa!
Carlos Sardenberg
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O caso das refinarias da Petrobrás pode terminar com um conflito jurídico entre os países, a Bolívia e .... a Holanda.
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Isso aí. Ocorre que a Petrobrás-Bolívia é uma companhia pertencente a uma holding sediada na Holanda. Essa holding, por certo, é de propriedade da Petrobrás brasileira, mas para efeitos legais a Petrobrás-Bolívia é companhia estrangeira de capital holandês.
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Por que? Porque quando resolveu entrar pesado na Bolívia, a pedido do governo boliviano da época, a Petrobrás, na administração FHC, se deu conta de que não havia acordo de proteção de investimentos entre o Brasil e os vizinhos bolivianos. Mas havia entre Bolívia e Holanda, onde a Petrobrás tinha e tem negócios. Logo . . .
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É um caso que ilustra muitas situações. No Brasil e na América Latina em geral, sempre houve restrições ideológicas a esses acordos de proteção de investimentos estrangeiros. Considerava-se capitulação aos interesses das grandes multinacionais. Ainda há pouco, o governo uruguaio foi criticado por ter assinado um acordo desses com os EUA. No fundo, a origem da restrição é simples: governos que querem deixar sempre à mão a possibilidade de expropriar capitais estrangeiros.
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Agora que estamos do outro lado da história, agora que somos os gringos na Bolívia, se verifica como tais acordos são instrumentos importantes para dar segurança jurídica aos investimentos transnacionais. E se verifica como essa segurança é condição essencial para a atração dos investimentos.
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A história se fecha com a decisão da Petrobrás, a brasileira, de não investir mais na Bolívia – nada além do necessário para manter o fornecimento de gás ao Brasil.
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Uma lição prática e tanto, para os bolivianos (que simplesmente ficarão sem investimentos estrangeiros) e para os brasileiros. Pena que não dá para mandar a conta para os holandeses.

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Vem briga boa aí
Lauro Jardim, Radar, Veja online

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara começa a discutir nas próximas semanas um projeto de lei visando a regulamentar os artigos da legislação eleitoral que, desde a Constituição de 1988, nunca foram regulamentados. É por essa razão que a cada eleição o TSE precisa baixar um conjunto de normas que, muitas vezes, mudam de um pleito para o outro. Os deputados querem pôr ordem na casa, mas vão cutucar um vespeiro. Uma das propostas em discussão (sem pé nem cabeça, ressalte-se) tira do tribunal a fiscalização das urnas eletrônicas, que passaria a ser feita exclusivamente pelos partidos.

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Mirem-se nos exemplos de Espanha

Vitor Hugo Soares, Blog do Noblat

No primeiro turno das eleições presidenciais na França, que afunilou neste previsível confronto clássico entre esquerda x direita – Ségolène x Sarkozy - a ser decidido amanhã provavelmente pela força dos votos dos centristas que temem pelo poder nas mãos de qualquer dos dois finalistas , o chefe do governo espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero, desembarcou em Toulouse. Motivos: debelar rumores de omissão política; dar apoio explícito à candidata socialista e oferecer a Espanha como “modelo de êxito aos franceses”.

Em um dos atos mais concorridos da campanha até a festa colorida e multirracial dos imigrantes no comício final desta semana, em Lilly – africanos, asiáticos, árabes, mulheres com burka, cantores, clowns... – o secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) não negou fogo. Ditou até o tom mais agressivo da “douce Ségolène” no debate com Sarkozy esta semana ao garantir: “A França acertou sempre que apostou na valentia”.A frase, nesta eleição de amanhã, pode valer para os dois lados,onbora tenha sido destinada a ajudar a candidata da esquerda.

Dirigente do país que virou reluzente vitrine européia de administração pública, crescimento econômico e justiça social, Zapatero levou ao palanque francês temas fundamentais e gerou polêmicas ao propor a terra de Quixote como espelho onde devem mirar-se atualmente políticos e governantes europeus e de outras paragens, como o Brasil. Quando o ressuscitador do PSOE pisou em solo francês, os jornais, revistas e TVs europeus exibiam à farta uma foto do esquerdista Zapatero estreitando a mão do direitista Sarkozy. Ambos sorridentes na imagem que transmite uma ponta de cumplicidade, além da simples cordialidade civilizada exigida pelos protocolos oficiais. Propagava-se, então, o cuidado do espanhol em não atritar-se com o vizinho, com quem terá que conviver no caso bastante provável de vitória de Sarkô, segundo as pesquisas pós-debate.

Mas na passagem por Toulouse para apoiar a candidata do PSF, Zapatero tratou logo de jogar água fria na panela escaldante dos conservadores “Eu sou um presidente socialista e me orgulho disso”. Pediu aos indecisos que olhassem para a Espanha e as grandes transformações ali já produzidas e ainda em curso em seu governo socialista. “A Espanha sente-se perto, muito perto da França e Ségô propõe-se a protagonizar outra forma de governar“, proclamou o dirigente do PSOE depois de agradecer aos habitantes de Toulouse a solidariedade com perseguidos políticos espanhóis e lembrar que nessa cidade francesa ele se refugiou em boa parte do seu exílio no largo período da ditadura franquista.”Zapatero, Zapatero”, prorrompeu em aplausos a multidão.

Dias depois, de volta ao seu país, José Luis Zapatero, em duas situações diferentes – uma política e outra administrativa –, deu demonstrações práticas para reforçar o efeito da sua retórica na França e o recado para outras regiões. Diante dos atentados em Argel e da boataria de que terroristas fugidos de Marrocos preparam outro banho de sangue na Espanha, o presidente mandou a porta-voz do governo, Maria Teresa Fernandez de la Vega, comunicar a todos os espanhóis e visitantes do mundo inteiro que desembarcam em levas incessantes na capital e em inumeráveis e atraentes cidades turísticas do país: “Alarmismo, não, realismo, sim. Medo nenhum, precauções, todas”.

Ao mesmo tempo, era inaugurado o terminal denominado de Plaza Elíptica, obra monumental que agora integra e moderniza ainda mais o sistema de metrô de Madri e região metropolitana, retirando 2 mil ônibus que atravancam o tráfego nas ruas e avenidas e infernizam a vida de seus habitantes diariamente. A obra pública conta em seu orçamento com investimentos privados da ordem de 36 milhões de euros, coisa que deslumbra europeus e faz inveja a programas governamentais como o PAC, que não consegue se mover no Brasil.

Ao exortar a poderosa França e outros países a mirarem-se no espelho espanhol, Zapatero atribuiu o sucesso do seu governo “à social-democracia moderna”. Para ele, o sistema “traz os melhores índices econômicos, a mais intensa criação de empregos, a maior proteção social, mais direitos, e os países que apostam na igualdade são os que conseguem melhores indicadores de saúde democrática”. Bem, na Espanha é mais ou menos assim. A questão é saber se os franceses, tão atormentados por suas dúvidas, acreditam que o socialismo é mesmo o santo responsável pelo milagre espanhol.

Até amanhã ainda há tempo para o seu palpite.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor de Opinião do Jornal A TARDE.

Direita francesa é mais reformista que a esquerda

William Waack, Portal G1
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Uns 20 milhões de franceses assistiram ao debate entre Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy, os dois candidatos que decidem domingo as eleições presidenciais. É o mesmo número de pessoas que estava diante da TV na França durante a final da Copa de 2006 (e, para os poucos que não ligam para futebol, a França jogava). Mesmo para um país como a França, é muito raro a política empatar com o futebol. Talvez pelo fato de estar no ar um clima de decisão.
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Há anos que se arrasta pela França (mas não só) uma interminável conversa sobre o que fazer para acabar com o desemprego estrutural, especialmente entre os jovens, como integrar (ou nem tentar?) as massas de imigrantes, sobretudo os muçulmanos, e de que maneira reformar (para que?) leis trabalhistas e o sistema de segurança social. O que empurra os eleitores franceses é a noção de que alguma coisa precisa mudar.
É o que está mais do que implícito nas táticas eleitorais, no comportamento de palanque e nas articulações políticas dos dois candidatos. Os franceses detestam comparar seus hábitos e costumes políticos com os do mundo anglo-saxão, mas, no caso das atuais eleições, é impossível deixar de observar um paralelo com o Reino Unido, ali tão perto e tão longe. Da mesma maneira que aconteceu na Inglaterra de Margaret Thatcher, na França a direita de Sarkozy encontrou as bandeiras de reformas que a esquerda de Royal tem repugnância em aceitar.
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Direita reformista contra esquerda conservadora? Seria uma simplificação que pouco ajudaria a entender o que vai pela cabeça dos franceses. Sarkozy e Royal militam há décadas na política, e cada um foi buscar no campo do outro (ou no que se convencionou definir como campo do outro) argumentos para ganhar votos. Não é só a questão de seduzir o eleitor indeciso de centro, como acontece em qualquer eleição com dois campos bem identificados.
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Embora fale em corte de impostos, redução do tamanho do Estado e incentivos para que os franceses trabalhem mais (vamos lá, “clássicos” do cardápio de “direita”), Sarkozy reitera ao mesmo tempo aqueles que são os valores fundamentais da social-democracia do continente europeu (abrangendo também Alemanha e Itália): solidariedade social, respeito aos sindicatos e manutenção das redes de segurança -Thatcher detestaria essa segunda parte.
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Na postura pública de Ségolène Royal não há quase nada que faça lembrar o lado socialista nos famosos debates de 1974 entre Giscard D`Estaign e François Mitterrand, um adepto do Estado forte e intervencionista (velha bandeira gaullista também).
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Sempre atrás nas pesquisas de intenção de voto, a candidata socialista tratou de ganhar o eleitor de centro fixando uma postura e uma imagem que lhe atribuam credibilidade -e parecendo o menos socialista possível. Num item essencial para o bolso do eleitor -impostos- ela foi ao ponto de dizer que “poderão ser mais baixos”. E foi evasiva quando indagada se vai mesmo baixar um imposto sobre ganhos auferidos em operações na bolsa.
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A França é hoje um país atrasado em relação aos seus principais vizinhos. Nos últimos 26 anos de governos Miterrand (socialista) e Chirac (conservador), os franceses ficaram ao largo de reformas que foram feitas por quase todos os seus vizinhos. Holanda, Reino Unido, Espanha, Irlanda e os países escandinavos sacudiram leis trabalhistas ou criaram pactos entre o capital e o trabalho; transformaram o clima de negócios; praticaram políticas industriais que garantiram a competitividade da própria economia -mantendo, ao mesmo tempo, seus delicados e caros sistemas de segurança e previdência sociais. Até a Alemanha, onde decisões de grande alcance só são tomadas por consenso entre os partidos, iniciou uma ambiciosa reforma trabalhista e previdenciária.
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Quarenta anos atrás fazia grande sucesso um livro com o título “o desafio americano”, que, simplificando, previa a hegemonia da economia americana e a inevitável decadência da Europa, especialmente a da França. É óbvio que as previsões se revelaram bastante equivocadas, e a nenhum eleitor nos principais países europeus de hoje lhe ocorre imitar os Estados Unidos. Mas é enorme, na França, o descontentamento com as instituições no próprio país, especialmente as políticas.
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Talvez decisivo para explicar o atual clima seja o fato de que Royal ou Sarkozy não parecem mais fazer parte das velhas elites políticas e burocráticas que sempre dividiram entre si o poder no pós guerra, socialistas ou conservadoras. Sarkozy lembra o executivo francês bem-sucedido que ajudou a Airbus a derrotar a Boeing no campo da alta tecnologia. Royal, a “madame com luvas de boxe” (na definição bem-humorada do adversário Sarkozy), foi ao ponto de criticar uma vaca sagrada para a esquerda, a imposição da semana de 35 horas de trabalho.
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Provavelmente Sarkozy será o vencedor, de acordo com as pesquisas de intenção de voto. E seria errado, na minha opinião, buscar nas razões de uma provável vitória da direita apenas a combinação da soma de extremistas que votaram em Le Pen no primeiro turno, mais os centristas preocupados com distúrbios causados por jovens na “banlieu” [as periferias], e o eleitorado que sempre votou conservador -na ponta do lápis, mais numerosos do que os eleitores socialistas e os das agremiações mais à esquerda que apóiam Royal no segundo turno.
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É que a direita, na França, promete reformas mais profundas.

O “pobrema” da educação

Marcelo Côrtes Néri (*), Publicado no Valor Econômico (**)

O presidente assinou o Plano de Desenvolvimento Educacional (PDE), cujo nome relembra os PNDs da ditadura que nada diziam sobre educação. O plano acabou se popularizando como o “PAC Educacional”, cuja abreviação PACE é simbólica de um país que se preocupa mais com o passe do futebol e menos com o Português. Abreviações e erros de ortografia à parte, a nossa necessidade de aceleração educacional é gritante. Artigo recente do meu colega de Valor, Naércio Menezes apontou um baixo nível de aprendizado mesmo da escola privada no Brasil vis-a-vis outras experiências pouco lisonjeiras. Tal comparação me lembrou a de David Lam, um demógrafo que, ao contrastar os níveis de escolaridade do Brasil aos da África do Sul, descobriu inadvertidamente que os brancos brasileiros tinham um ano a menos de estudo que os negros sul-africanos. A situação da escola brasileira, seja na qualidade, seja na quantidade, sem falar na equidade, é de atraso secular.

O PDE coloca o ensino básico no topo das prioridades nacionais, num momento que várias iniciativas da sociedade, como o Compromisso Todos pela Educação, apontam na mesma direção. Não discuto aqui os caminhos propostos pelo plano para se chegar lá - até porque a filosofia do plano não é definir rotas fixas, mas reforçar os instrumentos de navegação e a estrutura de incentivos para se chegar lá. De maneira geral, o plano apresenta poucas bolas fora e uma filosofia adequada, ou IN, que enfatiza infância, informação e incentivos como elementos de combate às nossas ineficiências e iniqüidades educacionais. Discuto aqui apenas a direção do ensino básico apontada pelo plano. Defendo este norte do ensino básico por intermédio de indicadores amplos e de fácil interpretação, disponíveis em ww.fgv.br/cps/pesquisas/educa.

Inicialmente, analisamos em que medida cada nível educacional chega às pessoas mais pobres. Por exemplo, como os estratos inferiores da distribuição de renda se beneficiam do ensino fundamental, médio ou da universidade pública. O passo seguinte é precisar o retorno de ações educacionais percebido pelo cidadão, seja ele pobre, classe média ou elite. Demonstramos custos públicos e privados de diferentes níveis educacionais e quanto cada um afeta a inserção do indivíduo no mercado de trabalho.

O ranking da equidade de quem está cursando os diversos níveis de ensino demonstra que níveis mais baixos de ensino são mais pró-pobres que níveis mais altos. Para cada real gasto em média com cada estudante brasileiro de pós-graduação, zero real chega aos mais pobres, enquanto no outro extremo do espectro educacional R$ 1,9 chega aos mais pobres através de programas de alfabetização de adultos. Passando aos níveis mais usuais, no ensino fundamental R$ 1,57 chega aos pobres para cada real gasto com cada brasileiro contra R$ 0,63 do ensino médio e R$ 0,7 do ensino universitário. Isto significa que a educação fundamental tem 22,5 mais capacidade de chegar ao pobre do que o ensino superior. Conforme se poderia esperar, em todos os níveis de ensino, a oferta pública de educação é mais pró-pobre do que a privada. Em particular no ensino médio privado - R$ 0,9 chega aos pobres por cada real gasto por estudante brasileiro, índice próximo ao da universidade pública, o que é consistente com a idéia de que os alunos de escola privada são os que chegam à universidade pública. De maneira geral, a ênfase dada à educação fundamental no PDE é bem mais pró-pobre do que a preocupação federal ao ensino superior público.

Na decisão de continuar na escola, a fim de alçar níveis educacionais mais altos, o critério do indivíduo seria se o acréscimo de rendimentos do trabalho a serem aferidos até a aposentadoria de fato superaria os custos de desembolsos diretos e os de oportunidade pela substituição de trabalho por estudo. No caso dos gestores públicos há que esse considerar ainda benefícios externos emanados pela maior escolaridade, bem como os custos ao erário público. Segundo o MEC, o gasto público anual de 2004 por cada aluno matriculado no ensino fundamental era de R$ 1.359; e por aluno matriculado no ensino médio era de R$ 939. Já os gastos anuais por aluno matriculado no ensino superior eram cerca de 10 vezes mais altos: R$ 10.139. As nossas estimativas de gastos privados diretos, incluindo matrículas, mensalidades, livros, cursos, uniformes etc: os desembolsos privados no ensino superior seriam duas vezes maiores que no ensino fundamental e 66% maiores que no ensino médio. Estes números constituem referencial relativo aos diferenciais de gastos observados na educação pública.

Obviamente a política educacional não deve se guiar apenas pela bússola da equidade, ou dos custos. É preciso avaliar a sua capacidade de transformar a vida de quem recebe o benefício educacional. Caso contrário, uma escola pobre para pobres que ensina “pobrema” poderia ser eleita como destino, o que não é o caso. Olhamos agora o prêmio obtido pelo indivíduo quando ele sai da escola, mediante a análise do impacto do ensino na capacidade da pessoa se ocupar e do salário obtido. A hierarquia educacional se reflete na trabalhista. Exemplo: indo desde os R$ 322 de salário (R$ 1,97 de salário-hora) dos analfabetos até os R$ 1.682 de salário (R$ 18,2 de salário-hora) daqueles que já freqüentaram a pós-graduação. Similarmente, a taxa de ocupação entre os extremos do espectro educacional sobe de 60,7% para aqueles que nunca superaram um ano de estudo, até 81,5% daqueles que já conheceram os bancos da pós-graduação. Mesmo quando comparamos pessoas com as mesmas características sócio-demográficas - como sexo, idade, geografia etc. - os salários dos universitários é 540% superior ao dos analfabetos e a chance de ocupação 308% maior. O que impressiona no ranking é a regularidade com que cursos de nível mais alto apresentam melhor inserção trabalhista. A hierarquia educacional se espelha no ranking trabalhista. A parte a ser apropriada privadamente do prêmio educacional deveria ser financiada mais por crédito do que doação. Obviamente, neste cálculo é preciso ir além do pragmatismo da geração de renda privada, já que maior escolarização impacta outros elementos que emanam externalidades como crescimento econômico, fecundidade, criminalidade entre outros.

(*) Marcelo Côrtes Neri é chefe do Centro de Políticas Sociais do IBRE/FGV e professor da EPGE/FGV, é autor de “Retratos da Deficiência”, “Cobertura Previdenciária: Diagnóstico e Propostas” e “Ensaios sociais”

(**)Este artigo foi republicado no site do Instituto Millenium

Democracia?

por Igor Taam, site Instituto Millenium

No universo dos acordos e acertos, uma parte resolve que é melhor trocar alguma coisa que possui por uma outra que terceiros oferecem, ou então alguém se voluntaria a dar um presente, ou espontaneamente aceita ser presenteado. Simples. Nem tanto. Existe uma entidade, o governo, que pode criar um mundo à parte, extraindo o fruto da honestidade sem dar um retorno justo, nem ter o consentimento daqueles que cederam seu quinhão. Alega-se que as eleições democráticas dão legitimidade à taxação oficiosa, que a maioria escolhe o contrato a que prefere estar vinculada, que até agora foi a melhor maneira inventada para dar crédito às determinações dos governantes sobre os governados. Será?

A democracia não tem limites estruturais? Adianta ter a melhor teoria e praticá-la (entre aspas) sob falsas bases? Até onde a troca de deveres não está corrompida? Pode-se viver sob uma grossa carcaça democrática, largamente aceita como substancial, baseando-se no efeito ilusório de se ter absorvido apenas as características mais externas do regime? Democracia é só o voto da maioria?

(é importante observar que alguns esquerdistas reclamam que não há democracia enquanto há fome. Demagogia. Tentam, sim, implantar outra coisa ao invés de discutir de fato as regras que fundamentam o regime que alegam defender)

Vamos aos pontos além das interrogações: a contradição do voto obrigatório numa sociedade denominada livre; a proibição de candidaturas diretas e as fortes restrições a partidos novos (sem velhos políticos) quase não permitem a renovação dos quadros parlamentares nem evitam a entrada de exotismos personalistas; a possibilidade de reeleições sucessivas tende à constante utilização da máquina pública para fins eleitorais; o presidente pode praticamente governar via Medida Provisória; o enorme poder do governo central em detrimento dos locais, mais próximos dos votantes; a concentração da renda nacional por meio de impostos, fazendo dependentes das benesses federais em todo o país; a corrupção da separação entre os poderes Executivo e Legislativo (dos senadores biônicos até o mensalão); nossa tradição de o Estado imiscuir-se na cultura e imprensa (do DIP até o obrigatório “Café com o presidente”, até propostas ministeriais de “Conselho de Jornalismo”, até a tentativa de expulsão de um jornalista estrangeiro e similares). Não é preciso ir mais fundo para clarear esses pontos, o leitor que realmente acompanha os fatos pode catar vários outros exemplos, antigos e recentes, se quiser.

Apesar de tudo, as pessoas acreditam no valor e validade da atual democracia brasileira. Os impostos são pagos sem crítica contundente, cada nova regra e projeto do governo são aceitos sem dúvida de que todo o processo foi claro e autenticíssimo. Mas o que torna a palavra do Estado moeda forte não é bem confiança, é desinformação. Achamos que democracia é assim mesmo. Confundimos solidez institucional com um sistema engessado, rígido em suas deformidades.

É claro que a completa pureza de um contrato social parece impossível, mas se acontece satisfatoriamente em outros países, é porque os governos atendem, de maneira razoavelmente proporcionada, obrigações que muitas vezes estão em tensão: não espoliar o país sob o pretexto de enriquecê-lo, nem deixar de observar direitos básicos (propriedade, ambiente para competição e livre expressão, etc), nem dar ao imposto destinação completamente diversa da esperada pelo contribuinte. De nada adianta cumprir agendas, mesmo as democraticamente eleitas, se desembocam em tirania, populismo e exasperação dos entes produtivos; também perde a legitimidade um governo “de baixo custo” que não consagra em atos o desejo da maioria, um de seus principais alicerces institucionais.

Só há um jeito de contornar o impasse: sermos menos delirantes, não transferirmos nossas responsabilidades pessoais aos governantes, que, por limitações intrínsecas, só podem executar muito pouco do que lhe atribuem. Estes acabam reclamando por mais recursos e poder de intervenção; depois de recebê-los, fazem as imposições e as obras que prometeram, mas sem os resultados que esperavam. Daí o círculo vicioso, de que, na verdade, teria faltado pulso firme, de que foi falha de gestão. A solução brasileira: mais Estado. A conseqüência, quem melhor descreveu foi Hayek: “a atual tendência de os governos colocarem sob seu controle todos os interesses comuns de grandes grupos tende a destruir o verdadeiro espírito público; conseqüentemente, afastam-se da vida pública legiões crescentes de homens e mulheres que, no passado, teriam consagrado muita energia aos propósitos públicos”.

A democracia deve ser entendida como uma forma de cada um tomar as rédeas de sua vida e defender legítimas relações e atos individuais da corrupção do Estado nas esferas cultural, econômica, e de auto-organização. Caso contrário, as questões públicas se restringirão a questões de governo e, gradativamente, a vida privada se afasta da vida social. Embota-se não somente a liberdade, mas a capacidade de lidarmos com os problemas que empurramos para um punhado de políticos resolverem – e isso, definitivamente, não é democracia, é idiotia.

Sobre covardes e corajosos

Reinaldo Azevedo

Bento 16 criticou certa mídia: “É preciso dizer não àqueles meios de comunicação social que ridicularizam a santidade do matrimônio e a virgindade antes do casamento”. Por motivos diversos, eu também critico a mídia, mesmo sendo parte dela. Eu não sou nada, e Bento 16 é quem é. Eu não tenho como prejudicar a mídia de que discordo. O papa também não. Eu expresso uma opinião. Ninguém precisa me seguir. O papa expressa a dele, falando em nome dos católicos. Os que não quiserem segui-lo podem escolher outro caminho. Não obstante, já começou a grita dos libertários de meia-tigela. A pergunta é sempre a mesma, variando nas palavras e no tom, mas não no sentido: “Quem esse cara pensa que é?” A Veja que chega hoje às bancas e aos assinantes reproduz uma frase deste blog na seção Veja Essa: “Pregar a morte de Deus no Ocidente é covardia. Corajoso seria pregar a morte de Alá em Teerã." O sentido é claro: ninguém consegue ser valente hoje em dia contra a Igreja Católica. É uma valentia desnecessária. O máximo que pode acontecer ao desaforado é receber o perdão.
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O que vale no mundo vale, em escala reduzida, para o Brasil: os vagabundos intelectuais procuram o confronto com o papa e a Igreja Católica; quem tem coragem questiona a TV pública de Franklin Martins e a censura prévia, recriada pelo governo Lula (ver coluna de Diogo Mainardi). Eu acho que o papa está certo ao dizer que valores como matrimônio e virgindades são ridicularizados na mídia. São mesmo. Na novela da 17h, das 18h, das 19h, das 21h, nos filmes, nos comerciais de TV. Um deles, de refrigerante, pretende até ser ambíguo: “É isso, ele [o rapaz] quer que você [mocinha] dê mesmo”. Sexo como refrigerante. A virgindade — o peso sobre as meninas é pior — costuma ser associada a um comportamento histérico e, acredite, anti-social. O que fazer contra isso? Legalmente, nada! Aos católicos ou a qualquer um que discorde da pregação, resta expressar o seu ponto de vista. Travar o bom combate. Apontem-me uma só ação da Igreja que vá além disso.
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É uma covardia brigar com o papa, amigo libertário, mesmo sendo ele quem é e sendo você quem é. Eu proponho uma outra batalha: enfrentar aqueles que dispõem de recursos bilionários para fazer a mídia ao alcance do seu gosto. Leia trecho de uma reportagem que está hoje no Estadão: “A uma platéia formada por cerca de 300 petistas e representantes da comunicação popular, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que não agüenta a programação ‘chata’ das televisões abertas e fechadas em suas madrugadas de insônia. Em discurso de improviso na abertura do 1º Fórum de TVs Abertas, num hotel de Brasília, ele avaliou que as emissoras de televisão não discutem temas ‘grandes’ e ‘importantes’, como legalização do aborto, energia nuclear, células-tronco, economia e biodiesel. ‘Como cidadão, sinto ausência dos debates na televisão’, reclamou.”
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Viram só? O Supremo Babalorixá acha “chato” tudo aquilo que está fora do que é sua agenda de governo. Até aí, ele que se dane com a sua insônia. Tem remédio. O problema é que, por isso, ele decidiu criar uma TV Pública, que será gerenciada pelo mesmo homem que vai cuidar da bilionária verba de propaganda oficial, para fazer a emissora dos sonhos do nosso demiurgo. Mais: já sabemos que o governo Lula acredita, por exemplo, que um jornal que distribui ameaças de morte na primeira página é apto a receber propaganda, pasmem!, da Receita Federal. O brinquedinho de Lula vai custar, na primeira fase, oficiais R$ 250 milhões, embora especialistas do setor garantam que não sairá por menos R$ 500 milhões. E o que os "inimigos do papa" disseram até agora? Nada, é evidente. Bom é brigar com quem nada pode nos fazer de mal; bom é brigar com quem tem como arma, no máximo, o perdão. Resta, claro, também a excomunhão: mas só pode ser excomungado quem pertence à Igreja. Não se sentindo parte dela, também essa pena é irrelevante.
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Ah, sim: bem-aventurados os que têm sono. Não acho que a insônia seja uma qualidade. Mas ela costuma estar associada a alguma forma de efervescência interior, nem que seja gástrica. Eu olho para Lula e tenho certeza: “Eis um homem que dorme bem”. Eu não tenho dúvidas de que Bento 16, por exemplo, perde o sono às vezes, corroído por humanas dúvidas íntimas. Lula já superou essa fase. A cada dia, ele amanhece com certezas novas, nem que sejam contrárias às do dia anterior.
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Há mais: a censura prévia foi reintroduzida no Brasil pelo lulismo, numa afronta clara à Constituição. Está entregue a um grupo de garotos, informa Mainardi, entre 22 e 26 anos — um está na faixa dos 40. Censura não é melhor ou pior a depender da idade do censor, é claro. Mas o evento não é de todo irrelevante: trata-se de uma geração já formada pelo petismo, que completou 27 anos em fevereiro. São os “Meninos do Brasil” da era Lula.
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Os covardes atacam o MORALISMO de Bento 16. Os corajosos atacam o AMORALISMO do governo Lula, aquele presidente que é dono de muitas "morais".

Aborto contrapõe governo e igreja

Da Folha de S.Paulo

"Na véspera da chegada do papa, dois ministros, José Gomes Temporão (Saúde) e Nilcéia Freire (Mulheres), criticaram a Igreja Católica e grupos religiosos pela "agressividade" e tentativa de "censurar" o debate sobre o aborto. O presidente da CNBB, d. Geraldo Majella, acusou o governo de promover a promiscuidade no país.

Enquanto isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou que o aborto é uma questão de saúde pública. Sobre o posicionamento dos líderes católicos, afirmou: "Eu acho que a Igreja tem, primeiro, autonomia e idade pra tomar as decisões que melhor lhe convenha", disse Lula em São José (SC).

Seus ministros concordam, mas criticam a maneira como a igreja tem discutido o assunto.

"É um tema que deve ser tratado com delicadeza. Não tenho percebido isso em alguns setores da Igreja, que fizeram declarações muito agressivas e distantes dos ensinamentos de Jesus", disse Temporão à rádio CBN. "Não é possível ignorar que milhares de mulheres se submetem a esse procedimento e as pessoas digam que nada está acontecendo."

De O Globo

"A visita de cinco dias do Papa Bento XVl, que chega hoje, às 16h30m, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, mobiliza investimento de R$ 13,5 milhões, concentração de 3.600 jornalistas credenciados para cobrir os eventos, além de 20 mil homens trabalhando na segurança da comitiva. A estimativa dos organizadores é que cerca de dois milhões de pessoas compareçam aos eventos onde o Papa estiver, entre a capital paulista e Aparecida. Dois mil agentes de trânsito também foram solicitados, e pelo menos cinco mil voluntários ligados à Igreja Católica trabalharão na organização.

Há pelo menos dois meses, os governos municipal, estadual e federal abriram os cofres para preparar a recepção em São Paulo. Do total previsto para ser gasto apenas na cidade, R$ 4 milhões foram divididos entre governos estadual (R$ 1,2 milhão), municipal (R$ 1,2 milhão) e federal (R$ 1,6 milhão). O investimento inclui, por exemplo, montagem de palco, transporte e contratação de pessoal. A Arquidiocese de São Paulo bancará, com dinheiro arrecadado dos fiéis, despesa de R$ 1,5 milhão.

"O secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, disse ontem que a Igreja pode apoiar governos de esquerda. Ele é um dos cardeais mais próximos de Bento XVI.

— Se os governos de esquerda se preocuparem em ajudar os mais humildes, em distribuir melhor as terras, melhorar a assistência sanitária e a educação, promover políticas de emprego que desviem os jovens do tráfico de drogas e freiem a imigração, eles contarão com a colaboração da Igreja — disse Bertone, cujo cargo o coloca como o número dois na Cúria Romana, representando o Estado do Vaticano na ausência do Papa."

"Esse Papa fala muito bagulho bom", afirma J., um dos menores infratores internos na Fundação Casa (Antiga Febem) que vão participar do Encontro dos Jovens Brasileiros com o Papa Bento XVI, hoje à tarde. J. e mais 21 garotos foram escolhidos por bom comportamento para participar do evento organizado pela Arquidiocese de São Paulo, no Estádio do Pacaembu, às 18h.

— O Papa Bento XVI é legal, ele dá toques legais, como sobre o uso de drogas. Tenho amigos que perderam a consciência por causa das drogas— afirma J., de 18 anos, preso por roubo em um mercadinho de uma cidade do interior, há um ano."

"O novo secretário-geral e porta-voz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Dimas Lara Barbosa, que assume o cargo hoje, poucas horas antes da chegada do Papa Bento XVI ao Brasil, disse ontem que a sociedade atual cultiva o "senso do descartável" e condenou a prática do "ficar", comum entre os jovens:

— O senso do descartável do "ficar", que era próprio das garotas de programa, é hoje vivenciado pelas adolescentes. Os meninos apostam para saber quem fica com mais garotas numa noite. No dia seguinte, não sabem nem o nome delas, o que significa que a pessoa com quem "ficaram" não vale absolutamente nada. O problema é grave e atinge pré-adolescentes."

"Preocupada com a situação da Amazônia, tema da Campanha da Fraternidade de 2007, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil aprovou ontem, em sua 45 Assembléia Geral, que termina hoje em Indaiatuba (SP), a declaração "Fraternidade e Amazônia — Vida e missão neste chão". O objetivo do documento é manifestar a "grande preocupação" com a preservação e o cuidado com "tesouros de dimensões planetárias" representados pelas riquezas naturais, a sócio-biodiversidade e por ser a região um dos maiores reservatórios de água doce do mundo."


COMENTANDO A NOTICIA: Corre solta a discussão do momento em que começa a vida humana. Tem gente que defende a idéia de que enquanto não houver a completa formação do cérebro, ainda não existe vida humana, sendo possível até este ponto, ocorrer o aborto. Mas por Deus, de que vida esta gente está querendo falar? Por Cristo, se querem falar de vida “inteligente”, vá lá, até dá para se argumentar, mas falar de vida, pura e simplesmente, é papo furado e empulhação. Explico: tomemos o caso de um cravo ou um rosa, simples e rapidamente, me respondam, quando começou a vida, na raiz da planta, ou na flor desabrochada ? Uma coisa, senhores, é discutir quando começa a vida inteligente e outra quando começa propriamente a vida, porque neste, caso, perdoe-me os “tantos especialistas” e “entendidas“ na matéria. A vida começa na composição da primeira célula que se reproduzirá até a formação final do ser, e a partir do sua saída do ventre materno, para que possa exercitar e exercer sua vida inteligente e autônoma. Quem quiser desviar o foco, esteja a vontade: mas, a verdade é única, a de que o aborto, é sim, o assassinato de um inocente que não tem como se defender de seus algozes. Querem o aborto ? Vão lá e o cometam, mas não tentem criar cretinices e delinqüência em torno da questão com explicação e proselitismo canalha. Aborto é crime, e como tal deve ser considerado. A mulher pode sim dispor de seu corpo tanto quanto queira, desde que não prejudique a vida de terceiros. Se não quer ter filhos, há dois caminhos: ou se preserve quando praticar sexo, usando todos os meios que a moderna medicina lhe oferece para evitar a gravidez, ou simplesmente não pratique sexo. Neste caso, dizem, não há espírito santo capaz de forçá-la à contracepção indesejada. Outra coisa, é praticar-se o aborto consentido: aquele que preserva a mãe em caso de riscos de vida (ou de morte), e nos casos de estupros . Os demais, todos os demais, é puro assassinato.

A CPI acaba antes de começar

Villas_Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Bastou uma sessão na semana com a mídia mobilizada para cobrir a visita do papa Bento XVI para que a CPI do Apagão Aéreo da Câmara, controlada pela folgada maioria governista, comprovasse o que estava evidente: ela não foi composta com desconhecidos da safra dos novatos, com salpicos do molho de veteranos conhecidos demais, para apurar coisa nenhuma. Mas, exatamente, para bloquear o assanhamento de poucos da oposição e da turma esparsa dos dissidentes, que insistem em convocar controladores de vôo para explicar o sucateamento da área técnica com o encaminhamento das verbas orçamentárias para as obras de restauração dos aeroportos. Diga-se de passagem, crivadas de suspeitas cabeludas.

No generoso intuito de poupar o distinto público do desperdício de tempo acompanhando os trabalhos da CPI, o seu presidente, deputado Marcelo Castro, fechou a didática exposição sobre o cronograma para os próximos 120 dias improrrogáveis das investigações, com frase lapidar: "Estamos em ritmo de samba. Será a CPI de um samba apressado". Caiu em si e tentou equilibrar-se do escorregão: "Será muito frustrante se não cumprirmos a missão". É o caso exemplar do remorso antes do pecado.

Mas, pelo visto, o governo e seus guerrilheiros não têm motivos para preocupações. No clima de festa de compadres, a oposição reuniu-se para manifestar a sua concordância com o adiamento para agosto das investigações sobre a Infraero. Admite-se a hipótese de antecipar a convocação dos controladores de vôo para fins de maio, começo de junho, antes do encerramento da temporada, previsto para 11 de setembro. Com vagares para que o Comando da Aeronáutica "examine a lista dos convocados". Para quê?

A CPI do Apagão Aéreo da Câmara só escapará do ridículo se os controladores cumprirem a promessa, vazada para a imprensa, de que abastecerão a CPI com denúncias documentadas de irregularidades e falhas administrativas, o que justifica as falhas humanas que vêm sendo constatadas há anos sem despertar a atenção do comando. Foi preciso o apagão que entupiu os aeroportos, submetendo os usuários às vigílias que varavam as noites e emendavam com os dias, com o clamor nacional dos protestos e a repercussão internacional do vexame.

Nem até aí a CPI governista pretende chegar. Pelo menos por enquanto. A lista das primeiras convocações prontamente apresentada pelo diligente relator, deputado Marcos Maia, renomado destaque da bancada gaúcha do PT, focaliza as investigações no desastre com o Boeing da Gol que se chocou com o Legacy, do que resultaram 154 mortes. Para não misturar as coisas, o relator deixou fora da lista os controladores do Cindacta I. Com os controladores a turma não quer conversa.

O governo sequer disfarça a sua compreensível ansiedade. Desossada a CPI da Câmara, que promete distrair-se com amenidades que devem enriquecer o repertório dos humoristas, volta-se para o Senado para tentar repetir a dose com a segunda CPI, exatamente quando, antes de ser instalada, já ficou evidente a sua serventia.

CPI é arma de oposição: nas mãos do governo vira brinquedo, revólver de criança. E a CPI do Apagão Aéreo do Senado, como se sabe, conta com maioria oposicionista. Não é provável que a oposição entre no jogo do governo, apesar dos sinais de rendição. Basta a resistência de poucos, até de um único bom de briga para levar a oposição a lutar pela sobrevivência.

Pois, com a crescente rejeição popular, que já não tem mais como crescer além dos 99% da virtual unanimidade, o Congresso entrou na área de risco.

TOQUEDEPRIMA...

Censura prévia

Arlindo Chinaglia quer que o primeiro vice-presidente Nárcio Rodrigues (PSDB-MG) controle mais o noticiário da rádio e TV Câmara: acha que esses veículos criam uma "agenda negativa" para o legislativo.

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A TV pública na visão de Lula

De Lula, sobre suas idéias para a TV pública num fórum sobre o assunto hoje em Brasília:

- A única coisa que gosto (da TV a cabo) é que eu posso ver o futebol europeu. O Brasil não é o país que pratica o melhor futebol do mundo. O Brasil pode produzir o maior número de craques do mundo, que são vendidos para fora, mas aonde se apresentam não é mais no Brasil. (...) A gente poderia passar (futebol europeu) na TV (pública), de graça, afinal de contas esporte também é cultura.

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Associação quer frear ação da PF
Lorenna Rodrigues , Jornal do Brasil

O Judiciário resolveu reagir às operações da Polícia Federal que colocaram magistrados na berlinda. Em público, integrantes do poder assumiram a insatisfação com, pelo menos, a forma do trabalho de combate à corrupção. Ontem, a Associação dos Juízes Federais de São Paulo e Mato Grosso do Sul (Ajufesp) informou que pedirá ao ministro da Justiça, Tarso Genro, e à Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça que regulamentem as diligências - ou batidas - da polícia em tribunais.

Apesar de classificar as operações da PF como "legítimas e necessárias", a entidade declarou discordar da forma "agressiva" como foram executadas.

- Policiais federais acompanhados da imprensa, previamente avisada, cercaram os prédios com viaturas e nos mesmos ingressaram em ação cinematográfica, portando armamento pesado - criticou a Ajufesp, em nota.

A associação quer que, caso a investigação corra em segredo de Justiça, a imprensa não seja avisada. Pede que os policiais sejam proibidos de portar armas e que todas as operações em tribunais sejam acompanhadas pelas corregedorias-gerais. Magistrados deverão ser presos somente na presença do presidente do tribunal, segundo a proposta. Procurada, a assessoria de imprensa do Ministério da Justiça informou que Genro ainda não havia recebido o pedido.

Nas últimas semanas, durante as operações Furacão e Têmis, a PF fez buscas em tribunais do Rio de Janeiro e São Paulo e prendeu três juízes e um procurador da República.

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O Governo e a Camisinha
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Depois da polêmica entre o governo Lula e a Igreja, em torno dos temas camisinha, planejamento familiar e aborto, os gaiatos da Internet produzem mais um a piada bem pesada e chula, porém bem verídica.
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“O governo é igual a Camisinha: A camisinha permite inflação, impede produção, destrói a próxima geração. Além disso, protege um bando de porras e ainda transmite um sentimento de segurança. Enquanto na verdade, alguém está fodendo alguém”.

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Setor de portos fica à deriva

A Central de Abastecimento de Minas Gerais S/A (Ceasa/Minas) foi a estatal campeã em investimentos. De um total de R$ 2,8 milhões disponíveis, aplicou R$ 669,4 mil, o equivalente a 23,5%. Em segundo lugar aparece a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap). Investiu R$ 49,5 milhões de um montante previsto de R$ 221,2 milhões. O valor corresponde a 22,4% do total.

Entre as estatais que menos investiram estão as Companhias Docas do Maranhão, Pará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte. Pagaram o preço pela demora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para editar a medida provisória que criou a Secretaria de Portos. Com status de ministério, o órgão só foi oficializado na última semana, depois de meses de negociações com partidos da bancada governista. Antes, as companhias docas estavam subordinadas ao Ministério dos Transportes.

Segundo balanço divulgado pelo Tesouro, as empresas não desembolsaram um centavo sequer de um total de R$ 142 milhões. Outra estatal que não aplicou até agora nada da verba prevista é a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás). Subordinada ao Ministério da Saúde, a Hemobrás esteve no epicentro do escândalo batizado de Operação Vampiro, deflgrada pela Polícia Federal em 2003.

Já a Infraero - administradora dos aeroportos ligada ao Ministério da Defesa - registrou em janeiro e fevereiro uma execução próxima à média geral,embora tenha ficado abaixo da meta estabelecida pelo Ministério do Planejamento. A estatal, um dos possíveis alvos da CPI instalada na Câmara para investigar as causas e apontar os responsáveis pela crise no setor aéreo brasileiro, investiu R$ 86 milhões este ano, o equivalente a 8,6% do total disponível. (S.P.)

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INSS: 5 mil imóveis sem usar
Cláudio Humberto

O INSS gasta fortunas em aluguel (só a sede, em Brasília, custa R$ 365 mil mensais), mas tem 5.133 imóveis "não operacionais" ou não utilizados, dos quais 1.073 já deveriam ter sido vendidos, conforme recomendação expressa do Tribunal de Contas da União. Mas o ex-ministro Nelson Machado (Previdência) desativou o Grupo de Trabalho criado por outro ex-ministro, Amir Lando, para cuidar do patrimônio imobiliário do INSS.

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Nonchalance de boteco
Reinaldo Azevedo

Eu entendo. O governo Lula é malcriado com o papa porque, diante de Sua Santidade, o Babalorixá não consegue ser protagonista. Reparem: se vem pra cá algum chefe de Estado, Lula dá um jeito de brilhar com aquela sua nonchalance de boteco. Quando ele visita algum país do chamado Primeiro Mundo, é recebido com a curiosidade que os europeus dispensavam aos índios que eram levados ao Velho Mundo. Sempre rouba a cena. Bento 16, como se vê, não tá nem aí. É quem é. Vocês sabem, não é?, meninos, como somos os católicos: a gente olha os selvagens e logo pensa em batizá-los, em lhes botar a horrível canga do cristianismo e da culpa no pescoço, tentando mudar seus velhos e saudáveis hábitos canibais. Nós, os cristãos, achamos que o canibalismo não foi feito para excitar antropólogos. Não há muito espaço para o exotismo. E Lula fica bravo. Não “çi ajoêlia” e fica nervoso. Aí pede para aquela embaixadora esquisita dizer coisas esquisitas. E ainda pauta a imprensa afirmando que o papa pediu algumas “vantagens” ao governo brasileiro. Vantagens que o nosso “Bom Selvagem”, naturalmente, negou. Pô, quem o papa pensa que é? Uma sorte não haver espaço para o improviso. Ou o Silvícola poderia dizer ao papa que as relações entre o Brasil e a Igreja precisam encontrar o seu “ponto G”.

Nós, os idiotas

Demétrio Magnoli, site Instituto Millenium
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Curva a cabeça, sicambro! Adora o que queimaste e queima o que adoraste.”
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Segundo uma narrativa medieval, essas palavras de Remigius, bispo de Reims, assinalaram a conversão de Clóvis ao catolicismo, em 498, e a fundação mítica da França. O rei dos francos abjurou suas convicções pagãs em nome da unidade dos seus súditos e da vitória na guerra. Ele se converteu, não se vendeu.
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Na sua posse como ministro, amanhã, Roberto Mangabeira Unger queimará o que escreveu em 2005, quando, numa versão de qualidade inferior do J’Accuse, de Émile Zola, classificou o governo Lula como “o mais corrupto” da história do País e clamou pelo impeachment do presidente. O intelectual de Harvard começou a se converter à adoração de Lula seis meses depois de publicar seu libelo e, agora, completa o ato de contrição, ofertando desculpas ao homem que lhe concede um cargo. O evento consagrará uma operação comercial plena de sentido político.
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Uma transação se articula em torno de dois pólos: o vendedor e o comprador. No caso das convicções do novo ministro, os analistas investigaram as motivações do primeiro pólo, mas pouco se interessaram pelas do segundo. Mangabeira Unger colecionou fracassos tentando se tornar o Rasputin de Leonel Brizola e de Ciro Gomes. A sua busca incessante de um tribuno da plebe o conduziu ao paroxismo de vestir-se com o manto de candidato presidencial pelo partido de uma seita cristã. Ao abjurar suas convicções falsificadas para aderir ao salvador da Pátria que detém o poder, ele é fiel a si próprio e, sem o saber, conclui uma trajetória rumo à irrelevância política.
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O arremedo de Zola tupiniquim é descartável, mas o líder que compra suas propaladas convicções não é. Lula não convidou Mangabeira Unger para o círculo ministerial por não ter lido o que este escreveu, mas precisamente por ter lido. Agindo com requintada crueldade, o presidente inventou, especialmente para abrigar o intelectual, uma Secretaria de Ações de Longo Prazo, que é uma piada literal já alcunhada de Sealopra. Trata-se de humilhar e extrair uma vingança pessoal. Mas a operação não se circunscreve à mesquinharia de varejo e serve a um objetivo presidencial estratégico: dissolver a ética da convicção no ácido da galhofa pública.
Na pólis grega, a ágora cumpria as funções paralelas de praça do mercado e de fórum político - o lugar do intercâmbio de mercadorias e de idéias. A metáfora do mercado se aplica à política democrática, na qual o eleitor desempenha o papel de comprador de convicções. A condição para o funcionamento do sistema é que a mercadoria - isto é, a convicção - seja genuína. Quando se difunde a percepção de que no mercado político só se vendem produtos falsificados, os cidadãos abandonam o fórum. Eis a meta do presidente, que compra o que está à venda.
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Desde a inauguração de seu primeiro mandato, Lula empenha-se em desmoralizar a ética da convicção, a começar pelas suas próprias supostas convicções dos tempos de oposição, agora convertidas em “bravatas”. Os sucessivos congraçamentos com José Sarney, Paulo Maluf, Jader Barbalho e Fernando Collor decorreram muito menos de alegadas necessidades pragmáticas que da vontade deliberada de explodir as pontes que conduzem os cidadãos ao fórum político da ágora. A cooptação de Mangabeira Unger se inscreve como marco nessa escalada, pois, ao contrário dos deputados mensaleiros, o intelectual de Harvard aliena o patrimônio da convicção política presumida como verdadeira.
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No fórum da ágora, os governantes prezam a convicção divergente, que ajuda a configurar o debate público e confere legitimidade democrática ao programa da maioria. O governo Lula teme a divergência de idéias, que invariavelmente enxerga como um complô. O presidente e seus ministros hostilizam a imprensa e, diante da crítica, tendem a preferir a via dos tribunais à da polêmica política. Mas estão sempre prontos a pagar a abjuração com um ducado ou um mero lote vazio nos amplos domínios da máquina pública. Nunca o oportunismo e a aversão aos princípios foram tão generosamente recompensados.
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Há muito da personalidade de Lula nessa estratégia. O presidente, que declara orgulho pela própria incultura e evidencia deslumbramento com o sucesso pessoal, confunde o interesse público com a sua conveniência privada. Mas a esperteza presidencial semeia o solo fértil da crise do sistema político brasileiro. Há uma semana, sob o argumento majoritário de que os eleitores absolveram os parlamentares, a Comissão de Ética da Câmara se negou a reabrir processo contra deputados reeleitos que, temendo a cassação, renunciaram a seus mandatos no curso do escândalo do mensalão. A falácia política e jurídica que garante a impunidade foi sustentada pelo deputado José Eduardo Martins Cardozo, antigo expoente da ala “ética” do PT, que se distingue da ex-colega Angela Guadagnin pela sabedoria de protagonizar uma nova “dança do mensalão”, apenas depois da reeleição.
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Enquanto o intelectual de Harvard ilustrava voluntariamente a tese lulista de que tudo está à venda e o santarrão “ético” rasgava sua fantasia, Tasso Jereissati demonstrava que o comércio de convicções não está restrito ao governismo. Ao subir a rampa do Palácio para prostrar-se diante de Lula num encontro de pauta sigilosa, o presidente do maior partido de oposição aderia à galhofa patrocinada pelo Planalto. O ato veicula uma mensagem: Jereissati está dizendo aos eleitores que, diante de interesses inconfessáveis e articulações secretas, suas palavras solenes de ontem valem tanto quanto as de Mangabeira Unger.
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Os cidadãos da pólis grega se consideravam privilegiados por participar da vida política e cunharam o termo idiotis (idiota) para identificar aqueles que evitavam o fórum da ágora. O lulismo persegue tenazmente a meta de esvaziar o fórum, reduzindo a ágora à praça do mercado e convertendo todos os cidadãos em idiotas. Ao que parece, os chefes oficiais da oposição não têm objeções.
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Demétrio Magnoli, sociólogo, é doutor em geografia humana pela USP.

A Igreja é chiclete?

Por André Petry, Revista VEJA

"É sempre bom lembrar que a plena liberdade de culto contempla a liberdade de qualquer culto, inclusive nenhum .”

Durante a visita do papa, trataram a Igreja Católica como chiclete, puxando-a para todos os lados. Os católicos, enlevados com a presença do papa, voltaram a defender o de sempre: que a doutrina da Igreja vire política de estado. Puxando a Igreja para lá, condenam a camisinha, o aborto, o divórcio, o casamento gay – e querem que suas condenações morais sejam válidas para todos os brasileiros, e não apenas para os católicos. Chiclete para um lado.

Os que discordam disso tudo tentaram fazer com que a Igreja Católica deixe de ser o que é – uma igreja, com seus dogmas e doutrinas, suas crenças e suas verdades. Puxando a Igreja para cá, querem que ela autorize o aborto, libere o uso da camisinha, aprove o divórcio, concorde com o casamento gay – para todos os brasileiros e, inclusive, para os católicos. Chiclete para o outro lado.

Está tudo errado. Certo mesmo seria que, num estado laico e com liberdade de culto, cada lado pudesse viver segundo suas convicções. Portanto, está certo o papa quando defende a excomunhão de políticos que aprovam o aborto. O PPS chegou a divulgar nota criticando a postura supostamente autoritária do papa. Não é autoritária. O deputado José Genoíno, que começa a voltar à luz depois de ser abatido pelo mensalão, acha que é uma posição intolerante. Também não é. É apenas uma posição da Igreja Católica válida para os católicos. "O direito de matar um inocente, uma criança humana, é incompatível com estar em comunhão com o corpo de Cristo", disse o papa. Eis a palavra do representante do Deus dos católicos na Terra. É simples. Quem concorda vive segundo esses ensinamentos. Quem não concorda tem o direito de rezar em outra freguesia ou de não rezar em freguesia alguma.

O outro problema é quando o chiclete espicha para o outro lado – e a Igreja Católica não se contenta em falar apenas ao seu rebanho. É contra o aborto? Nenhum problema. Que oriente seus fiéis para que jamais o façam. Em vez disso, a Igreja Católica quer que o estado brasileiro mantenha uma proibição legal que atinge a todos... É contra o uso da camisinha, pois, segundo a clarividência divina de dom Geraldo Majella, ela incentiva "a criança, o adolescente" à "promiscuidade"? Nenhum problema. Peça aos seus fiéis, "a criança, o adolescente", que se abstenham de usá-la. Em vez disso, a Igreja Católica quer que o governo brasileiro suspenda a distribuição de camisinha nos postos de saúde para todos os brasileiros... Não gosta que os adolescentes "fiquem", pois, segundo a infinita elegância de dom Dimas Lara Barbosa, as meninas que o fazem se comportam como "garotas de programa"? Nenhum problema. Basta orientar suas meninas a não se comportarem como "garotas de programa". O raciocínio vale para tudo. Casamento gay, eutanásia, divórcio. Quando não é assim, fica parecendo que a Igreja não confia na sua capacidade de convencer seus fiéis e precisa transformar seus pontos de vista em obrigação legal para todos.

É sempre bom lembrar que a plena liberdade de culto, que a Igreja Católica tão corretamente defende, contempla a liberdade de qualquer culto, inclusive nenhum".

Pode piorar muito

por Odemiro Fonseca, site do Instituto Millenium

A América Latina é uma aberração. É a única parte do mundo ocidental com consistente história de pobreza. Mas a Argentina e a Venezuela são casos especiais. Tinham se desgarrado e estavam entre os países ricos do mundo algumas gerações atrás.

Já em 1880 a Argentina equiparava-se aos ricos europeus. Entre 1915-45, somente EUA e Inglaterra, tinham o PIB e PIB per capita (combinados) maiores do que a Argentina. Juan Alberdi e seu grupo gravaram a tradição liberal clássica na Constituição de 1853 e o resultado foi espetacular. A Argentina se tornou o rico centro econômico e cultural da América Latina, com povo educado, sociedade aberta e democracia.

No período 1945-75 o PIB per capita da Venezuela sempre foi muito maior do que os da Itália, Noruega, Irlanda e Espanha. De 55 a 75, a inflação foi a mais baixa do mundo e o salário real cresceu todos os anos. A Venezuela era democracia estável. Mas a partir de 74 foram estatizados o petróleo, a mineração, a energia elétrica e as telecomunicações. O BC independente foi extinto. Proibiu-se às empresas estrangeiras vender alimentos e estabeleceu-se completo controle das importações. Seguiram-se controles de preços, crises hiper-inflacionárias e políticas. Hoje o PIB per capita (ppp) da Venezuela é sete vezes menor do que o da Noruega, seis do que o da Irlanda e cinco do que os da Itália e Espanha. (A. Maddison, B. Mundial, L. Ball)

Já vimos grande parte deste filme. Mas a Argentina e a Venezuela são quase um mistério. Depois de ricos, optaram pelo declínio econômico, ditaduras e corrupção endêmica. Porque nossa perene opção pela pobreza na América Latina?

Usando a imagem de M. Aguinis, nosso êthos abriga “um confronto entre o conquistador e o indígena”, que seria a causa da baixa auto-estima e precária identidade latino-americana, que criou o sentimento de atraso e de marginalidade histórica com relação ao Ocidente. Seria a causa também da nossa constante expectativa com relação ao futuro e da necessidade de saltar etapas. A tal “ocidental incompleto” (D. Magnoli), fundiu-se o mercantilista (a riqueza é natural), o patrimonialista ibérico (primeiro os meus) e o nacionalista autárquico (não precisamos de ninguém). Agregou-se o positivista tecnocrático e militar e o marxista vulgar dos movimentos sindicais e intelectuais com seus dogmas de exploração e luta de classes. Estava pronto o teórico do comércio injusto e das nossas dependências periféricas ao ancestral ocidental, rico, central e de olhar complacente. Novas economias e filosofias de libertação (pós-colonial) invadiram nossas academias e foram usadas como ferramentas ideológicas por antiga figura da América espanhola – o caudilho – agora travestido de novo libertador, nacionalista, populista – pois precisa de movimentos de massas - e ungido pelas novas teorias. A Argentina introduziu os ditadores populistas, o capitalismo monopolista de estado e o Estado assistencialista “macunaímico”. Fez um retorno seguro para o nosso “Terceiro Mundo Ocidental”(ib.). A Venezuela voltou para nós pelo mesmo caminho, mais tarde e de maneira mais abrupta.

Na análise de Douglass North “ a eficiência (econômica) adaptativa exige estrutura institucional que, na onipresença da incerteza, permita o processo decisório ser por tentativa e erro. E tal estrutura exige crenças que permitam experimentação e o abandono do erro. A União Soviética representa a antítese de tal abordagem”. A América Latina também representa tal antítese.

É assustador como nossas crenças podem piorar o nosso atraso. E o populismo tem recrudescido no Brasil. O primeiro governo de Lula teve uma positiva agenda microeconômica de reformas institucionais. Nada disso se vê agora. Com relação às reformas maiores – previdência, trabalhista, tributária – a conversa é tatibitate. O que se vê é maior esforço em propaganda estatal, entrincheiramento de interesses especiais e a formação de uma república sindical em concubinato com um estado gastador. As vítimas serão as de sempre - a democracia e a prosperidade. Por aqui ainda não caiu a ficha das tragédias da Argentina e Venezuela.

Ainda há tempo

Olavo de Carvalho, Jornal do Brasil

Uma notícia do UOL, traduzida do El País, informa que o governo da Polônia planeja derrubar os monumentos construídos no território polonês pela URSS, "incluindo os dedicados aos soldados do Exército Vermelho que libertaram a Polônia dos nazistas". O preconceito pró-comunista embutido no texto não poderia ser mais visível. Os soviéticos jamais libertaram a Polônia; eles a invadiram - e invadiram duas vezes: uma em parceria com os nazistas, no começo da guerra, outra contra eles, no fim. A ocupação soviética ali, como em toda a Europa Oriental, não foi nem um pouco menos cruel que a nazista. Enquanto os EUA ajudavam os países derrotados a tornar-se potências econômicas independentes, a URSS só espalhava terror e miséria nas nações que tomou dos alemães.

Desde que tive a grata ocasião de caminhar sobre a estátua de Lênin jogada num depósito de lixo em Bucareste, tenho pensado no seguinte: não só os monumentos erigidos à glória do comunismo têm de ser demolidos, mas todos os que colaboraram para a construção da mais vasta monstruosidade política de todos os tempos devem ser tratados como os criminosos cínicos e desumanos que são - incluindo nisso o beautiful people comunista que ainda brilha na nossa mídia e no nosso Parlamento, ditando regras, posando de santo, empanturrado de verbas públicas.

Ao protestar contra a decisão polonesa, o governo russo mostrou sua fidelidade inalterada ao culto de Lênin e Stálin, mas não é da Rússia que vem hoje o grosso do ódio estrangeiro à Polônia católica. Desde a queda da URSS, a elite comunista se refugiou nos organismos políticos internacionais, de onde comanda a guerra anticristã, antijudaica e anti-americana sob novos pretextos publicitários e com armas emprestadas à estratégia anestésica do socialismo fabiano. Os gurus iluminados da ONU já ameaçam processar os governantes da Polônia por sua oposição ao abortismo, apoiada na vontade majoritária do povo polonês. Pela primeira vez na História, impedir um morticínio tornou-se "crime contra a humanidade".

Nesse momento, a proposta de um acordo antiabortista entre o Vaticano e o governo brasileiro mostra claramente o intuito papal de ampliar a frente de resistência à opressão global, cujas iniciativas contra os cristãos e os judeus no Ocidente já vão assumindo as feições nítidas de um genocídio cultural, contrapartida do genocídio tout court que prossegue, impune e mal camuflado, nas nações islâmicas e comunistas.

Funcione ou não o acordo, uma coisa é certa: se Bento XVI toma essa iniciativa, é sinal de que tem em mente algo como uma estratégia abrangente para a autodefesa da religião contra o assédio ateístico cada vez mais brutal e mendaz. Ainda há tempo para isso, mas em dois milênios de cristianismo nada trouxe mais dano à Igreja do que a acomodação com as esquerdas adotada no Concílio Vaticano II. João Paulo II esboçou uma volta atrás, mas no fim do reinado já estava engrossando o coro do anti-americanismo universal. "O destino da Igreja será decidido no Brasil", disse seu sucessor. Oremos para que saiba avaliar o peso de suas próprias palavras.

Evo Morales e seu irmão

Editorial do Estadão

O presidente Evo Morales tem carradas de razão quando afirma, com a generosidade dos vencedores, que “com o irmão Lula jamais vamos nos enfrentar”. Não que ele pense duas vezes antes de atropelar os interesses brasileiros, mas porque sempre - e não foram poucas vezes - que ele desafiou Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não reagiu. Não há, portanto, enfrentamento.No começo da semana, por exemplo, o presidente Lula, saturado com o comportamento “errático” de Evo Morales - como informaram os jornais -, determinou o endurecimento das posições brasileiras nas negociações sobre o destino das duas refinarias da Petrobrás na Bolívia. Daí a Petrobrás ter feito uma proposta “definitiva” de venda de 100% das ações por algo em torno de US$ 200 milhões em dinheiro e à vista. Vinte e quatro horas depois, o presidente mandava fechar o negócio por US$ 112 milhões - importância que não ressarce a empresa dos custos de aquisição e reforma das refinarias. Na manhã de quinta-feira, as duas partes chegaram a um acordo. À tarde, os bolivianos, vendo como havia sido fácil tratar com os brasileiros, reabriram a questão e obtiveram mais uma facilidade: o pagamento será feito em duas vezes e, em parte, com o fornecimento de gás.

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As instalações de refino da Petrobrás na Bolívia - e também as suas operações de exploração de petróleo e gás e de distribuição de combustíveis - foram perdidas, a rigor, no dia 1º de maio do ano passado, quando Evo Morales transferiu por decreto a gestão de toda a atividade petrolífera para a estatal Yacimientos Petroliferos Fiscales de Bolivia e o presidente Lula reconheceu, publicamente, o direito soberano da Bolívia de nacionalizar seus recursos naturais. Só que não era esse direito que estava em questão. O que Morales fez foi estatizar todo o setor, quebrando contratos e expropriando empresas - e era contra esse esbulho que o presidente Lula deveria ter protestado energicamente, além de exercer pressões diplomáticas e econômicas para evitar sérios prejuízos aos interesses da Petrobrás que, no caso, coincidem com os interesses do Brasil.

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Em vez de fazer isso, o presidente Lula e seus auxiliares terceiro-mundistas engataram a retórica da obrigação do gigante brasileiro de ajudar a pobre e tão explorada Bolívia. E Morales aproveitou-se desse bom-mocismo, chegando ao cúmulo de sugerir a Lula que desse de presente ao povo boliviano as refinarias da Petrobrás.

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Sem ter pela frente nenhuma resistência efetiva, as coisas ficaram fáceis para Evo Morales. Em um ano, ele transformou a Petrobrás de operadora dos campos de exploração de petróleo e gás em mera prestadora de serviços - e até hoje não se fala no pagamento de compensações pelas instalações desapropriadas -; forçou o aumento do preço do gás fornecido ao Brasil, contrariando o contrato em vigor; e, finalmente, expropriou por preço vil as refinarias que mandara ocupar por tropas do Exército, numa desnecessária demonstração de força, no dia 1º de maio do ano passado.

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A Petrobrás sai do setor de refino da Bolívia com um prejuízo que não será inferior a US$ 80 milhões. Na tentativa de dourar a pílula, o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, afirmou que o preço de venda, de US$ 112 milhões, “era o que a Petrobrás queria desde o início”. E explicou: “As refinarias foram vendidas pelo valor de mercado, que é o fluxo de caixa descontado trazido ao valor presente; a capacidade da usina de gerar riqueza.”

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Ou seja, para o ministro Silas Rondeau, US$ 112 milhões é o valor de mercado das refinarias, que em 2006 tiveram uma receita de US$ 657 milhões no mercado boliviano e de US$ 229 milhões com exportações. A conta do ministro só fecha se se considerar que o governo brasileiro tomou essa decisão política para encerrar, o mais depressa possível, o contencioso com a Bolívia.

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Mas a venda das refinarias na bacia das almas não resolve o maior dos problemas. Grandes setores da economia brasileira continuam dependendo fortemente do gás boliviano. E Evo Morales não é confiável. Ele quebra contratos com facilidade. Não respeita acordos e tratados. A palavra que empenha de manhã nada vale à tarde. De um governo assim, é melhor afastar-se, assim que possível.

TRAPOS E FARRAPOS...

O direito de cada um seguir seu próprio caminho
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

A semana foi do papa Bento XVI. Ele visitou o Brasil, mas principalmente visitou os católicos do maior país católico do mundo. Quem não for católico, esta visita serviu apenas como curiosidade.

Cada indivíduo faz lá suas escolhas. E a ninguém é dado discuti-las. A religião é o caminho pelo qual mantemos contato e nos .ligamos ao deus ou deuses de nossa crença. Portanto, se vocês observarem e lerem atentamente tudo o que se escreveu neste semana sobre o assunto, o que não faltou foi lixo para ser jogado no lixo.

1.- A importância de Bento XVI para os católicos
O Papa para os católicos, é o seu maior guia espiritual. A ele cabe defender e difundir todos os princípios basilares do Catolicismo. É preciso prestar atenção a uma coisa: a religião católica foi construída ao longo de quase 20 séculos. Portanto, suas “verdades” não são fruto de um modernismo passageiro. Os dogmas e princípios nos quais se assenta sua profissão de fé se, de um lado, podemos discordar, de outro, não podem simplesmente serem ignorados.

O ser humano, regra geral, tem uma enorme tendência a dar vazão ilimitada aos seus instintos. Sejam bons ou não. Sempre que uma norma tente frear nosso comportamento, nos posicionamos contrários à norma. Temos um quê de rebeldia nos alimentando o tempo todo. A diferença entre os grandes homens da humanidade, aqueles que serviram como referência moral às gerações futuras, e os ordinários, os medíocres, os insossos, é que os primeiros sempre mantiveram uma certa disciplina para repelir e expulsar de si mesmos as más tendências, ao passo que os segundos sempre foram covardes, sempre se agacharam à última condição da moralidade para dar vazão aos seus instintos vagabundos.

Porém, a civilização humana sempre foi construída a partir dos primeiros. Eles é que guiaram os passos do ser humano na busca constante de seu aprimoramento moral, fugindo da barbárie, da selvageria.

Bento XVI serve exatamente como esta referência moral para os católicos. Em outras religiões, também se encontram referências. Aos que não concordarem com os dogmas e princípios desta ou daquela crença, sempre haverá o caminho de escolherem aquela que melhor se casa com o seu pensamento.

A visita de Bento XVI ao Brasil nada mais é do que um tributo, uma reverência especial ao país de maior comunidade católica do mundo. Mas é também a necessidade de reforçar todos os postulados básicos do catolicismo. Portanto, não faz sentido ouvirmos as vozes discordantes cobrando mudanças nestes postulados. Assim como não há nenhuma razão para a Igreja Católica ficar ao sabor dos “modernistas”, também não os há para estes “libertários” permanecerem ligados a uma religião da qual discordam dos dogmas e princípios morais que a norteiam e que foram os pilares de sua construção ao longo da história. É preciso ficar claro que, cabe aos indivíduos adaptarem-se aos princípios de sua fé religiosa, e não ao contrário. A Igreja Católica é um caminho. Segue quem quer. E sua escolha sendo livre, há que atender portanto aos postulados ditados pela igreja que escolheu.

2.- O direito à reciprocidade
Todos quantos têm cobrado uma “renovação” nos dogmas católicos fazem o mesmo em relação às demais religiões ? E estas, são receptivas em relação aos seus apelos de renovação ?

Ninguém pode ignorar que existem religiões e seitas que “obrigam” seus seguidores a cumprirem fielmente seus princípios. A desobediência é punida com a morte. No que a Igreja Católica é intolerante, em não ceder aos modismos ? Mas que modismos são estes, tão mais importantes do que princípios morais que são oferecidos à escolha de seus praticantes ? Se atentarmos para aquilo que Bento XVI tem pregado, e está perfeitamente claro em seus discursos, o fato da Igreja Católica posicionar-se contrária ao aborto, ao homossexualismo, ao divórcio, às uniões de casais sem o rito do casamento, dentre outras, no que tais recomendações modifica o dia a dia dos católicos ? O Papa não obriga ninguém a nada, a Igreja Católica não interfere na conduta de ninguém em relação às escolhas que cada um faz. A Igreja tanto quanto o Papa recomenda aquilo que sua doutrina entende como o melhor para o indivíduo. Já que teremos de escolher, que saibamos que alternativas temos para dentre todas escolhermos a que acharmos melhor. Cada um arcará, no final, acabará arcando com as conseqüências de sua boas e más escolhas.

3.- E no que a Igreja interfere na política brasileira ?
Em nada. A Igreja Católica por exemplo, recomenda que não se aprove a prática do aborto. E expõem claramente suas razões. Ponto. Por tal razão não tem sentido que alguns políticos fiquem histéricos diante do discurso papal. Quem for católico e acreditar que as recomendações de Bento XVI fazem sentido, e muitas fazem sim, que siga os ditames de sua consciência e pratique as recomendações ditadas pela maior autoridade espiritual de sua igreja. Como disse, a religião é uma escolha individual que não cabe a ninguém julgar. Portanto que aqueles políticos que ficaram enfurecidos com os discursos de Bento XVI se recolham à sua insignificância.

4.- Jovens em busca de uma referência moral
Ouvi uma entrevista dada por um jovem católico sobre a importância para ele da visita de Bento XVI, e fui tomado por dois sentimentos contraditórios. Um, de felicidade, por conhecer pessoas que ainda preservam-se moralmente, apesar dos modismos. É sinal de que o mundo, mesmo diante dos apelos ensandecidos da grande maioria do “liberou-geral”, há quem realmente se preocupe com sua formação moral. Era assim ao tempo de Roma, quando o Cristianismo nasceu e se consolidou como crença religiosa mais importante do mundo ocidental, e continua sendo assim dois mil anos depois. O cristão preferia morrer na arena a ter de renunciar sua fé.

Saber que ainda é assim hoje, e diante de um apelo ainda mais forte a se atender, sabermos que há jovens que se mantém irredutíveis a prostituírem sua crença, é saudável. Há luz no final deste túnel.

O outro sentimento, porém, foi de tristeza. É doloroso constatar que se precisa de um alemão, residindo na Itália, investido de autoridade religiosa, precisar atravessar o mundo para vir servir como referência moral num país com mais de 180,0 milhões de pessoas ! Isto deveria servir de alerta ao Brasil. Não temos heróis contemporâneos em quem nos espelharmos como ideal humano. Se você tirar os grandes “craques” de futebol, o que sobra para o menino pobre da periferia ou dos grotões do país ? Quais são os heróis brasileiros, com repercussão nacional, para servirem de referência moral às nossas crianças e jovens ?

Acredito que esta visita do papa deveria servir de ponto de partida uma profunda reflexão de toda a sociedade brasileira, para o país que estamos formando. Que tipo de civilização estamos construindo dentro do nosso imenso e rico território? Qual a nossa contribuição para a renovação do ser humano no campo da moral e dos costumes ? E, se o que estamos oferecendo, é suficiente para melhoria do ser humano no seu crescimento interior ? Acreditem: deveriam aqueles que se julgam com poder (e não têm) para criticarem a Igreja em seus princípios e dogmas, aproveitarem o momento para se dedicarem a revisar e refletir sobre esta questão, muito mais ampla: o que o país está oferecendo para a formação moral de seu povo e se esta formação é suficiente para a composição de um brasileiro, no futuro, mais humano, mais feliz, mais evoluído, mais equilibrado, mais civilizado.

ENQUANTO ISSO...

Quando a justiça é igual prá todos: imaginem se fosse aqui...

Naomi Campbell

A modelo inglesa Naomi Campbell disse que os cinco dias que passou recentemente lavando pisos e banheiros num depósito de lixo de Nova York ensinaram-na uma lição, e prometeu evitar as drogas e o álcool daqui para frente. A faxina obrigatória no local público foi a pena aplicada à Naomi depois que ela se confessou culpada por atirar um celular contra sua empregada.

Num diário, a modelo disse que encontrou tranqüilidade enquanto cumpria a sentença. "Não tenho outra responsabilidade, não tenho telefone. Tenho tempo para pensar e ter paz", escreveu, segundo trechos de suas anotações publicados na segunda-feira pelo jornal New York Post. Naomi, de 36 anos, que compareceu para os cinco dias de trabalho comunitário usando roupas de grife, também lamentou ter começado a consumir drogas quando tinha 23 anos.

"Algumas pessoas são capazes de tomar um drinque ou cheirar uma carreira de cocaína e parar por aí, mas eu compreendi finalmente que, para mim, é tudo ou nada - e precisa ser nada. E, desde então, minha vida mudou." Ao longo dos anos, a modelo já foi acusada de agressão por pelo menos três funcionárias. Ela atribui suas explosões temperamentais ao ressentimento guardado contra seu pai, que a abandonou quando ela era criança.


Enquanto isso...
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Paris Hilton
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A socialite Paris Hilton, 26 anos, terá que suspender o consumo de álcool por 90 dias, período durante o qual deverá usar um dispositivo de segurança para evitar que encha aquela cara lindinha.
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A herdeira milionária da rede internacional de hotéis Hilton tem que se apresentar hoje à corte de Los Angeles, quando deverá ser informada da condenação.Paris Hilton poderá passar 45 dias atrás das grades por violação dos termos de sua liberdade condicional ao dirigir com carteira de motorista suspensa por ter guiado embriagada.
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COMENTANDO A NOTICIA: São exemplos como esses que fazem a diferença entre um país civilizado e outro atrasado. Não é discurso ordinário que impõem à sociedade uma conduta de respeito à vida humana. É a aplicação pura e simples da lei, sem privilégios para quem quer que seja. E se fossem políticos, também seriam condenados e teriam que cumprir pena como qualquer mortal. Não há esta coisa de “imunidade” parlamentar. Enquanto no país a imunidade parlamentar existir só servirá para criminosos vagabundos se esconderem atrás do mandato para não responderem por seus crimes. Do atual Congresso, mais de 20% dos parlamentares respondem na justiça por crimes diversos. E acreditem: nenhum dos crimes com processos em andamento guardam qualquer relação com a atividade parlamentar. Tratam-se de crimes comuns. E que também sirvam de exemplos ao nosso Poder Judiciário, para que ele cumpra a função constitucional para o qual foi criado.

Indecoroso, indecente!

Reinaldo Azevedo

No Estadão On Line. Volto em seguida:
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O presidente Lula comparou nesta segunda-feira, 7, as acusações contra os mensaleiros e todos os que foram investigados por corrupção, nos escândalos registrados ao longo do primeiro mandato (2003-2006), aos processos de "difamação" a que, no regime militar (1964-1985), foram submetidos os arcebispos d. Paulo Evaristo Arns, de São Paulo, e d. Helder Câmara (1909-1999), de Olinda e Recife (PE).
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"Passaram-se o anos e as calúnias levantadas contras essas pessoas nunca foram provadas", afirmou o presidente em resposta à pergunta do padre César Moreira, da Rádio Aparecida. O presidente concedeu nesta manhã, no Planalto, uma entrevista a um pool da Rede Católica de Rádio. Participaram da entrevista a presidente da Rede, irmã Helena Corazza, e mais outros três profissionais das rádios Aparecida, Nova Aliança de Brasília e Difusora de Goiânia.
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A comparação entre mensaleiros e os arcebispos foi em resposta a uma pergunta sobre "questões éticas" envolvendo o governo. O padre Moreira disse que "houve uma certa frustração no modo como o governo tratou, no mandato passado, a questão dos escândalos".
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E arrematou: "O senhor acha que fez tudo o que devia?". Lula disse que "o presidente da República não é policial nem tem papel de juiz". Afirmou, ainda, que a Justiça é que vai decidir quem é ou não culpado, mas acrescentou uma opinião objetiva sobre as denúncias: "Na verdade, teve muitas coisas que foram colocadas a público sem nenhuma veracidade, sem nenhuma prova, sem nenhum argumento que pudesse dizer: isso é verdadeiro".
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Depois de dizer que "o governo tem feito aquilo que é correto fazer", o presidente encerrou a resposta à Rádio Aparecida com a comparação com os arcebispos de São Paulo e de Olinda e Recife. "Os caluniadores não querem provas, eles só querem caluniar", afirmou, deixando claro que, para ele, seu governo foi vítima de calúnias
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Voltei
Eu tinha ou tenho muitas discordâncias, digamos, teológicas com d. Paulo Evaristo Arns ou com d. Helder Câmara. Mas nenhum deles foi perseguido pelo regime militar por suas teses religiosas, e sim porque compuseram a linha de frente de resistência à tortura, no que fizeram muito bem e agiram como verdadeiros pastores.
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É indecoroso, indecente, que Lula venha associar o banditismo de estado praticado por alguns de seus companheiros à perseguição sofrida pelos dois bispos. Era mentira que Delúbio Soares comandasse, quando menos, um esquema de caixa dois? Ele próprio não admitiu? É acusação ou é fato? É mentira que Marcos Valério tenha passado uma mala de dinheiro para o PL? O próprio presidente do partido não admitiu? É mera acusação ou é fato? É mentira que petistas e outros deputados da base aliada tenham recebido dinheiro de origem ilegal do Banco Rural? É acusação ou é fato?
Lula é o maior mistificador da história do Brasil. Ninguém o iguala na arte de engabelar, de dar truque, de misturar ficção e realidade. Daqui a pouco, vão negar que tenha existido, algum dia, mesmo o caixa dois petista, que é o crime que o partido assumiu para esconder o mensalão. D. Paulo está aí, ainda poderia contestar. Mas não d. Helder. Dele já se disse muita coisa boa e ruim, às vezes com injustiça nos dois casos. Mas ninguém ainda havia comparado o histórico arcebispo de Olinda a malandro que esconde dólares na cueca.
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Isso só Lula fez. É uma ofensa grave aos dois religiosos e a todos os católicos.

Populismo não tem remédio

Guilherme Fiúza, Política & Cia., NoMínimo

Quinze anos atrás, o Brasil foi fortemente pressionado pelos Estados Unidos, com direito a lobistas de alta patente circulando ostensivamente no Planalto e no Congresso Nacional, a aprovar a lei de patentes. Vozes sinceras preocupadas com a soberania nacional e a voracidade do capitalismo multinacional alertaram para o risco de escravidão comercial.

O Brasil aprovou a lei de patentes e, entre as principais conseqüências disso, passou a colher taxas recordes de investimento estrangeiro direto.

Depois de todos os rugidos nacionalistas juscelinistas, janguistas, militaristas, sarneyistas (lembram da reserva de mercado para informática?), o Brasil resolveu parar de usar o esperneio como estratégia diplomática.

Não é que Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula sejam necessariamente governantes melhores que seus antecessores. Foi a sociedade que amadureceu, e achou que estava na hora de tirar o país da adolescência.

Aos poucos, a maior parte das correntes políticas brasileiras foi entendendo que, não obstante a dureza do xadrez internacional, ter um comportamento mais transparente, mais previsível e, portanto, mais confiável diante do mundo era uma estratégia melhor – mais do que para os outros, para o Brasil. Foi assim que nasceram, entre outros, o conceito de responsabilidade fiscal (impensável até outro dia mesmo) e a cultura do cumprimento de contratos.

A decisão do governo de quebrar a patente do Efavirenz, uma droga importante no tratamento contra a Aids, está na contramão de todo esse esforço nacional empreendido nos últimos quinze anos – que, mais do que institucional, é cultural.

O recurso de autorizar o licenciamento compulsório de um remédio, deixando de reconhecer a patente do seu inventor para permitir a comercialização de um genérico, é uma arma não só aceitável, como importante. Está aí para ser usada em caso de risco social, em que a saúde da população possa ficar refém de uma lógica comercial abusiva.

Não está claro que este seja o caso do Efavirenz. Havia uma negociação difícil entre o laboratório Merck e o governo brasileiro em torno do preço do produto – de fato um produto de custo elevado. Mas a comparação entre os preços fixados em diversos países que consomem a droga não indica propriamente um caso de tirania mercadológica. O valor de 1,57 dólar cobrado no Brasil só é superior ao pago por um grupo de países africanos.

Isto não significa que o governo – que distribui de graça o coquetel anti-aids – não deva brigar pela redução desse preço. Mas se decide melar o jogo e botar a bola debaixo do braço, precisa saber que este não é um recurso trivial. É extremo e custará caro – especialmente porque tomado de forma precoce e, mais grave, com contornos lamentáveis de bravata política.

O presidente da República declarar que “não é possível alguém ficar rico com a desgraça dos outros” é um ato de completa irresponsabilidade. Esse mesmo laboratório atacado de forma tão leviana faz parte de uma indústria que investiu bilhões de dólares e seus melhores cérebros para a descoberta de drogas que deram dignidade aos doentes de Aids, dando à maioria deles a possibilidade de sair da condição de mortos-vivos depois de infectados.

Trata-se de uma exploração política inconseqüente, de viés terceiro-mundista ignorante e mal calculado. “Com o mesmo cuidado que temos para cuidar de um pobre com o Bolsa Família, queremos cuidar dos nossos companheiros e companheiras que foram infectados”, afirmou Lula. Não dá para ter dúvidas de que é jogo para a arquibancada. Jogo perigoso.

Completando a tacada populista, o ministro da Saúde veio a público agredir os executivos do laboratório multinacional, acusando-os pessoalmente de amadorismo e falta de seriedade. Para que isto? Que circunstância justifica a entrada de um ministro de Estado num tom de tal vulgaridade, transformando um debate delicado, inclusive em termos de diplomacia internacional, num bate-boca de comadres?

Está claro que o governo brasileiro esticou a corda antes da hora, propositadamente, num cálculo político mesquinho. Foi em busca do aplauso fácil contra “os tubarões multinacionais”.

Talvez colha alguns aplausos domésticos dos distraídos no curto prazo. No médio prazo, está inoculando em sua própria imagem o vírus da desconfiança. Esse, a história recente já mostrou que é letal. E não existe coquetel para curá-lo.