domingo, maio 13, 2007

Mirem-se nos exemplos de Espanha

Vitor Hugo Soares, Blog do Noblat

No primeiro turno das eleições presidenciais na França, que afunilou neste previsível confronto clássico entre esquerda x direita – Ségolène x Sarkozy - a ser decidido amanhã provavelmente pela força dos votos dos centristas que temem pelo poder nas mãos de qualquer dos dois finalistas , o chefe do governo espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero, desembarcou em Toulouse. Motivos: debelar rumores de omissão política; dar apoio explícito à candidata socialista e oferecer a Espanha como “modelo de êxito aos franceses”.

Em um dos atos mais concorridos da campanha até a festa colorida e multirracial dos imigrantes no comício final desta semana, em Lilly – africanos, asiáticos, árabes, mulheres com burka, cantores, clowns... – o secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) não negou fogo. Ditou até o tom mais agressivo da “douce Ségolène” no debate com Sarkozy esta semana ao garantir: “A França acertou sempre que apostou na valentia”.A frase, nesta eleição de amanhã, pode valer para os dois lados,onbora tenha sido destinada a ajudar a candidata da esquerda.

Dirigente do país que virou reluzente vitrine européia de administração pública, crescimento econômico e justiça social, Zapatero levou ao palanque francês temas fundamentais e gerou polêmicas ao propor a terra de Quixote como espelho onde devem mirar-se atualmente políticos e governantes europeus e de outras paragens, como o Brasil. Quando o ressuscitador do PSOE pisou em solo francês, os jornais, revistas e TVs europeus exibiam à farta uma foto do esquerdista Zapatero estreitando a mão do direitista Sarkozy. Ambos sorridentes na imagem que transmite uma ponta de cumplicidade, além da simples cordialidade civilizada exigida pelos protocolos oficiais. Propagava-se, então, o cuidado do espanhol em não atritar-se com o vizinho, com quem terá que conviver no caso bastante provável de vitória de Sarkô, segundo as pesquisas pós-debate.

Mas na passagem por Toulouse para apoiar a candidata do PSF, Zapatero tratou logo de jogar água fria na panela escaldante dos conservadores “Eu sou um presidente socialista e me orgulho disso”. Pediu aos indecisos que olhassem para a Espanha e as grandes transformações ali já produzidas e ainda em curso em seu governo socialista. “A Espanha sente-se perto, muito perto da França e Ségô propõe-se a protagonizar outra forma de governar“, proclamou o dirigente do PSOE depois de agradecer aos habitantes de Toulouse a solidariedade com perseguidos políticos espanhóis e lembrar que nessa cidade francesa ele se refugiou em boa parte do seu exílio no largo período da ditadura franquista.”Zapatero, Zapatero”, prorrompeu em aplausos a multidão.

Dias depois, de volta ao seu país, José Luis Zapatero, em duas situações diferentes – uma política e outra administrativa –, deu demonstrações práticas para reforçar o efeito da sua retórica na França e o recado para outras regiões. Diante dos atentados em Argel e da boataria de que terroristas fugidos de Marrocos preparam outro banho de sangue na Espanha, o presidente mandou a porta-voz do governo, Maria Teresa Fernandez de la Vega, comunicar a todos os espanhóis e visitantes do mundo inteiro que desembarcam em levas incessantes na capital e em inumeráveis e atraentes cidades turísticas do país: “Alarmismo, não, realismo, sim. Medo nenhum, precauções, todas”.

Ao mesmo tempo, era inaugurado o terminal denominado de Plaza Elíptica, obra monumental que agora integra e moderniza ainda mais o sistema de metrô de Madri e região metropolitana, retirando 2 mil ônibus que atravancam o tráfego nas ruas e avenidas e infernizam a vida de seus habitantes diariamente. A obra pública conta em seu orçamento com investimentos privados da ordem de 36 milhões de euros, coisa que deslumbra europeus e faz inveja a programas governamentais como o PAC, que não consegue se mover no Brasil.

Ao exortar a poderosa França e outros países a mirarem-se no espelho espanhol, Zapatero atribuiu o sucesso do seu governo “à social-democracia moderna”. Para ele, o sistema “traz os melhores índices econômicos, a mais intensa criação de empregos, a maior proteção social, mais direitos, e os países que apostam na igualdade são os que conseguem melhores indicadores de saúde democrática”. Bem, na Espanha é mais ou menos assim. A questão é saber se os franceses, tão atormentados por suas dúvidas, acreditam que o socialismo é mesmo o santo responsável pelo milagre espanhol.

Até amanhã ainda há tempo para o seu palpite.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor de Opinião do Jornal A TARDE.