domingo, maio 13, 2007

A CPI acaba antes de começar

Villas_Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Bastou uma sessão na semana com a mídia mobilizada para cobrir a visita do papa Bento XVI para que a CPI do Apagão Aéreo da Câmara, controlada pela folgada maioria governista, comprovasse o que estava evidente: ela não foi composta com desconhecidos da safra dos novatos, com salpicos do molho de veteranos conhecidos demais, para apurar coisa nenhuma. Mas, exatamente, para bloquear o assanhamento de poucos da oposição e da turma esparsa dos dissidentes, que insistem em convocar controladores de vôo para explicar o sucateamento da área técnica com o encaminhamento das verbas orçamentárias para as obras de restauração dos aeroportos. Diga-se de passagem, crivadas de suspeitas cabeludas.

No generoso intuito de poupar o distinto público do desperdício de tempo acompanhando os trabalhos da CPI, o seu presidente, deputado Marcelo Castro, fechou a didática exposição sobre o cronograma para os próximos 120 dias improrrogáveis das investigações, com frase lapidar: "Estamos em ritmo de samba. Será a CPI de um samba apressado". Caiu em si e tentou equilibrar-se do escorregão: "Será muito frustrante se não cumprirmos a missão". É o caso exemplar do remorso antes do pecado.

Mas, pelo visto, o governo e seus guerrilheiros não têm motivos para preocupações. No clima de festa de compadres, a oposição reuniu-se para manifestar a sua concordância com o adiamento para agosto das investigações sobre a Infraero. Admite-se a hipótese de antecipar a convocação dos controladores de vôo para fins de maio, começo de junho, antes do encerramento da temporada, previsto para 11 de setembro. Com vagares para que o Comando da Aeronáutica "examine a lista dos convocados". Para quê?

A CPI do Apagão Aéreo da Câmara só escapará do ridículo se os controladores cumprirem a promessa, vazada para a imprensa, de que abastecerão a CPI com denúncias documentadas de irregularidades e falhas administrativas, o que justifica as falhas humanas que vêm sendo constatadas há anos sem despertar a atenção do comando. Foi preciso o apagão que entupiu os aeroportos, submetendo os usuários às vigílias que varavam as noites e emendavam com os dias, com o clamor nacional dos protestos e a repercussão internacional do vexame.

Nem até aí a CPI governista pretende chegar. Pelo menos por enquanto. A lista das primeiras convocações prontamente apresentada pelo diligente relator, deputado Marcos Maia, renomado destaque da bancada gaúcha do PT, focaliza as investigações no desastre com o Boeing da Gol que se chocou com o Legacy, do que resultaram 154 mortes. Para não misturar as coisas, o relator deixou fora da lista os controladores do Cindacta I. Com os controladores a turma não quer conversa.

O governo sequer disfarça a sua compreensível ansiedade. Desossada a CPI da Câmara, que promete distrair-se com amenidades que devem enriquecer o repertório dos humoristas, volta-se para o Senado para tentar repetir a dose com a segunda CPI, exatamente quando, antes de ser instalada, já ficou evidente a sua serventia.

CPI é arma de oposição: nas mãos do governo vira brinquedo, revólver de criança. E a CPI do Apagão Aéreo do Senado, como se sabe, conta com maioria oposicionista. Não é provável que a oposição entre no jogo do governo, apesar dos sinais de rendição. Basta a resistência de poucos, até de um único bom de briga para levar a oposição a lutar pela sobrevivência.

Pois, com a crescente rejeição popular, que já não tem mais como crescer além dos 99% da virtual unanimidade, o Congresso entrou na área de risco.