sábado, agosto 11, 2007

A grande vaia : quem é povo que a organizou

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Reinaldo Azevedo em seu blog publica uma preciosa entrevista com o pessoal que organizou pela internet a Grande Vaia. Não pertence ao grupo do movimento CANSEI. Talvez até por isso seus protestos tenham um sabor especial. Seja pelo êxito da manifestação, seja por representarem pessoas simples, indignadas com o governo dos absurdos que estão aí, e que merece ser vista com respeito. É a voz que vem das ruas, a leitura dos sentimentos de boa parte da alma brasileira, insatisfeita e, às vezes, além de inconformada, envergonhada.

A entrevista é um tanto longa, assim publicaremos um trecho e logo em seguida disponibilizaremos um link para acessar a íntegra. Vale a pena não só a leitura mas reflexão do que os jovens estão manifestando. Vale ainda como maneira de se desnudar as cretinices que têm sido proferidas por grande parte de jornalistas que se quer se dispuseram a separar o joio do trigo, ou de buscarem no passado sua opinião nos movimentos promovidos pelo petê que hoje condena os protestos. Como se protestos e manifestações de oposição fossem exclusividade deles. E vale como um momento histórico, aquele em que o Brasil deu um recado ao presidente Lula: a de que ele não é unanimidade nacional, a de que tem vida da inteligente além de seu governo, e de que parte da população que não é a elite considera-o um péssimo governante e que está provocando atrasos imensos para o desenvolvimento e progresso do país.

Quem organizou a Grande Vaia. Uma entrevista com os 15 de Esparta. Golpe na democracia é tentar calá-los.

Quem tem menos idade está com 21. Quem tem mais, 58. Um é professor secundarista. Outro é engenheiro. Há um aposentado. Alguns são representantes comerciais. Mais os arquitetos, os microempresários, os artistas, um videomaker, os estudantes. Eles são Guilherme, Carol, Luísa, Andrei, Allan, Julie, Morana, Sérgio, Juraci, Antonio, Andréa, Flores, Beth... Eis os prenomes de 13 das 15 pessoas que fizeram parte do núcleo que organizou, no sábado, a vitoriosa passeata “Fora Lula”, em São Paulo, e que inspirou o movimento em outras capitais. Dois outros membros do grupo não quiseram fornecer nem mesmo isso. Compreendo. Um governo que entrega a Fidel Castro refugiados da ditadura não inspira lá grande confiança. Temem ser perseguidos.

Eles se conheceram na Internet. Ali nasceu a passeata de protesto. Ontem, levaram um absurdo puxão de orelha de Jô Soares, que os acusou de não entender o que é democracia. Entendem, sim. E muito. Jô é que não entendeu o movimento e resolveu repetir o diagnóstico defensivo do petismo. E eles deixam isso claro na entrevista que segue. Em vez de demonizá-los; em vez de supor quem são eles; em vez de chutar, fiz a lição de casa. Eu os encontrei. Acreditem: eles nunca fizeram política antes e falam coisas dignas de gente grande no que respeita à democracia.

Como sei que eles são eles? Porque eu exigi as provas. Estão de posse do recibo de aluguel do aparelho de som e de cópias dos ofícios enviados à Prefeitura, à CET e à PM avisando que haveria a passeata. É só nas urnas que se pode gritar “Fora Lula”, como quer Jô Soares? Isso é o mesmo que dizer que só se deve fazer política em ano eleitoral. Desde que se respeitem os preceitos democráticos — e gritar “fora” para qualquer político é um direito —, o desejável é que se faça política sempre.

Eu lhes perguntei por que, afinal, eles não gostam do governo Lula. E eles mandaram brasa, como vocês lerão abaixo. Desde que me interesso por política — e comecei bem cedo —, jamais assisti a tamanha demonização de um movimento. Durante a crise final da ditadura e os governos que os petistas chamavam “de direita”, os setores formadores de opinião e a imprensa buscavam garantir o direito à livre manifestação. Desta vez, os censores vestem a pele de democratas, e setores antes afinados com as liberdades públicas resolveram esmagar a divergência. É uma vergonha. Abaixo, seguem as perguntas aos 15 de Esparta e suas respostas.

Em tempo, o e-mail do grupo em São Paulo é
organizacaosao@bol.com.br. E um site está em construção: www.grandevaia.org

Façam um resumo rápido de como surgiu a idéia da passeata. Tudo começou na Internet mesmo?
A idéia surgiu na comunidade “Fora Lula”, no Orkut, logo depois do acidente do vôo 3054, da TAM. Um dos membros sugeriu uma manifestação, o que encontrou uma grande receptividade na comunidade. A idéia se espalhou rapidamente pelo próprio Orkut, blogs, e-mails, rádio e TVs da Internet, numa grande corrente de comunicação.

Esse pessoal que fez a passeata em SP e em outras capitais é o mesmo do movimento “Cansei”?
Não temos nenhuma ligação com o movimento “Cansei”. E também não tivemos apoio de partidos políticos nem de organizações ou instituições. Houve consenso em não querer essa vinculação.

Como foi a organização da passeata? Vocês fizeram antes alguma reunião? Alguém precisou alugar o carro de som, avisar a CET, enviar ofício à Prefeitura e à Policia avisando que haveria a passeata. Quem fez isso? Ainda que o custo tenha sido mínimo, quem pagou o aluguel do carro de som?
A comunidade convidou quem desejava participar da organização. A gente se reuniu algumas vezes, e, nessas reuniões, nós dividimos as funções: como entrar com ofício na PM, CET, Prefeitura e aluguel do caminhão de som. Conseguimos um desconto de 75% no valor do veículo, dinheiro rateado entre os organizadores e complementado por cidadãos dos mais diversos locais do Brasil, que, simpáticos à nossa causa, também nos ajudaram.

Como vocês vêem a acusação de que vocês integram um grupo golpista?
Somos cidadãos patriotas, republicanos e democratas. Não acreditamos que fazer oposição a um governo insatisfatório, que arrecada muito, gasta mal, que promove o racismo ao dividir o Brasil para criar um caos em beneficio próprio, seja uma atitude golpista. Golpe é o que o governo faz, naquela máxima: “Acusemos os outros daquilo que fazemos”. Não aceitamos nem aceitaremos esse rótulo. Apenas utilizamos o legítimo direito de levantar a voz e protestar e desejamos unir ao máximo os brasileiros que querem o Brasil de volta, tomado que foi por essa quadrilha. Quem pensa igual ou nesse sentido será bem-vindo. Tolerância zero com a corrupção, com o desgoverno. Talvez sejamos uns sonhadores, mas queremos um Brasil melhor. Uma operação “Mãos Limpas”. Isto é democracia.

Exigimos:- estado de direito; - respeito às instituições; - respeito ao dinheiro público; - respeito à Constituição.

Políticos são eleitos para representar os anseios da sociedade e não de um ou outro governo ou governante. Como já afirmamos, somos republicanos e democratas, desejamos uma democracia forte no Legislativo, no Judiciário e no Executivo, diferente do governo, que já demonstrou todo o seu desprezo com as instituições, a Constituição e o estado de direito.

Vocês têm contato com algum partido, ONG ou entidade?
Não. Só com o povo Brasileiro. Aqui fazemos uma ressalva: esquecer das famílias do acidente aéreo seria um ato de injustiça. Elas nos apoiaram ao descobrirem que era um movimento sério. Queremos aqui expressar nossos sentimentos e agradecer a presença delas na passeata. Não vamos esquecê-las e nem a seus entes queridos.

Íntegra da entrevista clique aqui.