terça-feira, novembro 30, 2021

A sombra sobre o Brasil

 Aloísio de Toledo César

O Estado de São Paulo

Será que o Brasil e os brasileiros merecem acreditar em parlamentares que se vendem? Vê-se, a cada dia e com claridade solar, que o governo federal transforma verbas destinadas a investimentos públicos em moeda de troca para a compra de apoio político.

Isso vem ocorrendo sistematicamente no País e lança uma sombra sobre o presidente da República e os parlamentares que se vendem. Será possível confiar em pessoas que se vendem? E em quem as compra?

Os eleitores, quando elegeram seus representantes, esperavam o contrário, ou seja, desejavam que os eleitos para o Congresso Nacional e o Planalto ali defendessem os direitos e a honra de cada brasileiro, jamais o contrário. Agora, neste mar de corrupção criado pelo presidente Jair Bolsonaro, os nossos eleitos fazem o jogo sujo de receber os dinheiros e fingir que os aplicam em suas regiões (quem sabe guardando um troco para si próprios?).

São as famosas emendas de relator, nome eufemístico encontrado para esconder quem são os vendidos e, também, quanto de nosso dinheiro público foi destinado a cada um deles. Alguns órgãos de divulgação calculam que os valores desviados nesse jogo sujo passam de R$ 4 bilhões.

Tudo isso se tornou conhecido a partir de denúncia feita pelo jornal Estado a respeito do orçamento secreto – nome dado ao processo de compra de parlamentares com a finalidade de proteger o chefe da Nação de um processo de impeachment.

Os bolsonaristas negaram, xingaram, mas, no fim das contas, o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a existência da prática, exigindo transparência na conduta, ou seja, que sejam conhecidos os valores, os nomes dos beneficiados e as “obras” que estariam custeando em suas regiões.

É lamentável que este dinheiro emporcalhado não seja destinado àqueles que mais necessitam, ou seja, aos milhões de pobres brasileiros que são atirados pelo atual desgoverno a uma situação de miséria. Sim, atualmente temos muito mais miseráveis do que pobres no País – no exato momento em que o presidente da República e o presidente da Câmara dos Deputados enchem de dinheiro os bolsos dos parlamentares para que votem neste ou naquele projeto.

Não fossem as divulgações do caso pela imprensa, jamais o grande público teria notícia dessa corrupção desbragada envolvendo o Palácio do Planalto e os congressistas vendidos. Falta saber o nome de cada um dos vendidos e o dinheiro que receberam, porque o quantum destinado a cada real tende a permanecer em mistério. Rui Barbosa dizia que “a imprensa é a vista da Nação. Por ela é que a

Nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe, enxerga o mal que lhe malfazem, devassa o que lhe ocultam e tramam, colhe o que lhe sonegam ou roubam”.

A Constituição federal proclama, em seu artigo 37, III, parágrafo 4.º, que “os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível”. Essa garantia é saudável, mas, lamentavelmente, não tem aplicação ao presidente da República no curso do mandato, em face de entendimento já sufragado pelo Supremo Tribunal Federal de que a ação de improbidade administrativa não se aplica aos agentes políticos que se sujeitam à ação penal por crime de responsabilidade, com foro privilegiado estabelecido na Constituição federal (caso de Jair Bolsonaro).

De fato, assim como a inviolabilidade criminal em razão de opiniões, palavras e votos protege os parlamentares eleitos, ao lado dela a mesma imunidade impede que o presidente da República seja processado sem prévia licença da Câmara dos Deputados.

Essas imunidades alcançam apenas o processo criminal e os crimes, mas deixam de fora as cominações civis, como, por exemplo, o ressarcimento ao erário. Isso equivale a dizer que estes corruptos eleitos podem dar risada agora, mas, ao término do mandato, poderão efetivamente ter de devolver dinheiro ao erário, após julgamento de ação civil.

Lamentavelmente, a nova lei que pune a improbidade administrativa, na forma com que foi publicada – embora tenha disposto oito anos para o Ministério Público ajuizar a ação contra o corrupto –, determinou que é de apenas quatro anos o prazo prescricional.

Ajuizada a ação, passa a incidir o prazo de quatro anos para reconhecimento da prescrição intercorrente, circunstância que tornará muito difícil de punir o corrupto antes do julgamento final dos demorados processos punitivos. Boa parte das ações poderá perder sua finalidade se o prazo para julgamento da ação ultrapassar os quatro anos.

Quando chegar a hora de entrar com ação penal e civil contra esses corruptos, tomara que o Brasil tenha um procurador-geral da República que não se curve, docilmente, ao presidente da República, como o atual. 


A nova variante e o presidente invariável

 Míriam Leitão

O Globo

REUTERS/Ueslei Marcelino

 O presidente Jair Bolsonaro, durante cerimônia no Ministério da Justiça | 

A economia está operando no modo pânico em era de incerteza. É isso que se viu na sexta-feira mais uma vez. A nova variante Ômicrom produziu um episódio de alteração de todos os preços de ativos, uma volatilidade extrema, que sempre afasta o capital dos destinos de maiores riscos. O país já vem em crise, desorganizado, indo para a estagnação e com um presidente cuja capacidade de perturbação social aumenta nas fases mais agudas da crise. Quanto pior o momento, mais Bolsonaro erra.

A maneira rápida e aguda com que os mercados reagiram no mundo inteiro mostra o grau de instabilidade global. O mundo está, quase dois anos depois do início da pandemia da Covid-19, com os nervos à flor da pele, com as cadeias produtivas desorganizadas, e os preços fora do lugar. Maiores informações sobre uma nova supervariante, com capacidade maior de mutação, podem levar à reversão do episódio da sexta-feira. Mas que ninguém se engane, a crise se aprofundou um pouco mais com a chegada da nova versão do coronavírus.

No começo da semana o temor dos economistas era em relação à alta das taxas de juros americanas, que alteraria todo o fluxo de capitais e fortaleceria o dólar. Pois na sexta-feira os juros dos títulos americanos tiveram forte queda. Foi o maior recuo em um único dia desde março passado e moedas como o iene japonês e o franco suíço subiram. Antes, o raciocínio na economia era que o Fed mudaria a política monetária diante da recuperação pós-covid e dos riscos inflacionários. Agora, o temor é o contrário, que uma nova onda da pandemia leve a novos episódios de fechamento da economia.

A Europa já estava vivendo um agravamento dos casos, sem ter ainda a nova variante. Tudo piora com a chegada do inverno. Seu drama vinha do absurdo movimento antivacina, de pessoas que ao rejeitarem a imunização expõem toda a sociedade. Essa posição obscurantista na Europa e em alguns estados dos Estados Unidos contrasta com o drama africano. Lá, onde surgiu esse Ômicrom, o problema é baixa oferta de vacinas. E se sabe, a esta altura, que ninguém estará seguro enquanto todos não estiverem seguros.

A economia brasileira já não vinha bem, com uma inflação de dois dígitos, queda da confiança, queda do nível de atividade, e desordem nas contas públicas. O país será afetado diretamente pela nova onda de incerteza global. Só temos uma certeza: o presidente Bolsonaro criará dificuldade a qualquer medida de proteção da saúde da população, ele vai de novo tentar procurar culpados, vai hostilizar as autoridades que quiserem adotar medidas de precaução. Ele vai paralisar a ação dos órgãos públicos. Bolsonaro continuará sendo um tormento. Isso nos torna mais vulneráveis à nova versão do vírus, antes que se possa saber se as vacinas atuais são ou não são efetivas.

Na sexta-feira, o que se tinha era a Anvisa pedindo o fechamento do país em relação a seis países africanos e o presidente dizendo em seu cercadinho que é contra. No fim do dia, a Anvisa venceu a queda de braço. Na véspera, o ministro da Justiça, Anderson Torres, havia discordado da agência sobre a mais elementar das precauções: exigir passaporte de vacina a quem vem do exterior. Bolsonaro e seus áulicos fazem qualquer coisa que possa expor o país nesta pandemia.

O senador Omar Aziz disse que o Congresso pode aprovar rapidamente a autonomia da Anvisa. Assim a agência passaria não mais a recomendar, mas a determinar. O senador Randolfe Rodrigues falou que parlamentares podem ir ao Supremo para tentar obrigar o governo a aceitar a orientação da Anvisa.

Percebem como nós vivemos o inferno em plena pandemia? Se essa variante significar um agravamento da crise sanitária teremos que viver tudo de novo. O país terá que se salvar e se proteger, brigando com o presidente da República e seu bando de desordeiros. Terá que lutar através do Judiciário, do Congresso, das autoridades estaduais, com a ajuda dos médicos e cientistas.

Nesta semana vários indicadores devem mostrar a situação difícil da economia, com destaque para o PIB do terceiro trimestre. O Senado votará a absurda PEC dos Precatórios com as suas agressões às leis fiscais do país. Os presidentes do Senado e da Câmara brigam para manter sigiloso o orçamento secreto. O Brasil com todos os seus desequilíbrios está mais vulnerável a um novo agravamento da crise global.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)


Democracia brasileira, coitadinha

Fernando Gabeira

O Globo

Um relatório divulgado em Estocolmo pelo Idea (Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral) aponta a decadência da democracia brasileira.

Na semana passada, escrevi um longo artigo sobre isso. Reconheço que Bolsonaro é um dos principais responsáveis, da gestão da pandemia aos ataques à imprensa e ao STF. No meu entender, contudo, Bolsonaro não inventou a decadência da democracia brasileira. Apenas aproveitou-se dela para aprofundá-la ainda mais com seus impulsos autoritários.

Gostaria de anotar alguns pontos que escapam ao radar dos grandes observadores internacionais, coisas miúdas do cotidiano, que, de certa maneira, são o dínamo da decadência, pois têm o poder de arruinar o apoio popular à democracia.

O clima de Brasília mudou nos últimos tempos. Formou-se uma frente bastante ampla de parlamentares, e até setores da Justiça, destinada a favorecer a impunidade.

Durante muito tempo, vigorou o orçamento secreto, uma aberração no sistema democrático. Em menos de dois meses, surgiram duas propostas de emenda constitucional com o mesmo apelido: PEC da Vingança. Uma delas visava ao Ministério Público; a outra, ao próprio STF. Nesta última, então, a vingança parecia mais explícita: queriam aposentar exatamente a ministra Rosa Weber, que bloqueou o orçamento secreto.

É vingança, vingança, vingança, como dizia a antiga canção popular. No momento, discutem a vingança que impediu a sabatina de um candidato ao STF: André Mendonça. Foi indicado por ser terrivelmente evangélico, e querem que a sabatina seja realizada no Dia do Evangélico.

Não pode haver impedimento a um evangélico em qualquer cargo do governo. Mas escolher um ministro apenas por sua fidelidade a uma confissão religiosa distorce completamente o sentido de formação de um tribunal superior baseado no saber jurídico.

Por falar em Justiça, aqui e ali surgem casos de pessoas presas por roubar comida. Em Minas, estava presa desde julho uma mulher acusada de roubar água da Companhia de Saneamento de Minas Gerais.

Enquanto isso, o senador Flávio Bolsonaro consegue no STJ anular todas as provas contra ele acumuladas pelo Ministério Público do Rio. É um trabalho de Sísifo: recolhem-se as provas, e as instâncias superiores mandam jogá-las no lixo.

A própria campanha presidencial, que teoricamente aponta para o futuro, apresentou problemas no trato com a democracia. Bolsonaro visitou os Emirados Árabes e o Bahrein e relativizou as ditaduras do Oriente Médio.

Por sua vez, Lula, em Madri, comparou Daniel Ortega com Angela Merkel e não aceitou a tese de que é possível ser contra o embargo americano a Cuba e, simultaneamente, condenar a repressão às manifestações políticas na Ilha.

Entre os livros que saíram sobre o declínio da democracia, logo após a eleição de Trump, um deles pode ser usado ao alinhar tantas pequenas preocupações. Chama-se “O povo contra a democracia”, de Yascha Mounk. O livro mostra como “o toma lá dá cá” da política exclui o povo da tomada de decisões, criando um sistema de direitos sem democracia.

Aventureiros do tipo Bolsonaro prometem restituir o poder ao povo lutando contra as instituições, dispostos a criar uma democracia sem direitos.

Por isso sempre relembro que a política mesquinha e autorreferenciada que se faz em Brasília é, no fundo, uma política suicida. Favorecer um processo de decadência que coloque o povo contra a democracia cairá na cabeça de todos nós, menos, é claro, na do ditador de plantão e de sua tropa de apoio.

Com as mudanças que uma campanha presidencial promete, será possível reduzir o abismo entre o sistema político e o povo? Uma questão-chave é como se relacionar com o Parlamento sem ser engolido pela voracidade fisiológica ou bloqueado pela sabotagem destrutiva.

É uma linha muito tênue, um desafio a nossa sobrevivência como regime democrático.


A alma do PT

  Demétrio Magnoli

O Globo

A nota infame do PT que descreveu a “eleição” de Daniel Ortega como “grande manifestação popular e democrática” foi retirada do site para não provocar ruídos eleitorais no Brasil. Mas ela expressa a posição do partido — e o desprezo de dois ex-presidentes, Lula e Dilma, ao sistema democrático.

“Por que Angela Merkel pode estar no poder por 16 anos e Ortega não?”, indagou Lula em entrevista ao jornal El País, reativando um paralelismo cínico que mobiliza desde sempre. Diante da resposta singela da entrevistadora — “ela não encarcerava os opositores”—, o candidato favorito a 2022 simulou recuar, apenas para insistir na falácia de fundo: “Se Ortega detém opositores para que não concorram às eleições, como fizeram comigo, está equivocado”.

A democracia brasileira propiciou que um retirante nordestino, sindicalista metalúrgico, fundador de um partido de esquerda alcançasse a Presidência por dois mandatos. A ditadura de Ortega aboliu a alternância no poder, prendendo as lideranças concorrentes, inclusive os antigos companheiros de esquerda da Frente Sandinista. No Brasil democrático, Lula foi preso por corrupção, mas um Judiciário independente revisou o processo, declarou parcial o juiz que o sentenciou e anulou as condenações. Na tirania nicaraguense, os juízes fazem o que Ortega determina. Mas, segundo Lula, é tudo igual.

Lula repete, como papagaio, os mandamentos de política internacional de Cuba. Contudo, casualmente no mesmo dia, Dilma revelava algo mais: para o PT, democracia é declínio, ruína histórica.

“A China representa uma luz nessa situação de decadência e escuridão que é atravessada pelas sociedades ocidentais.” O diagnóstico de Dilma surgiu num debate de lançamento de um livro de propaganda do “socialismo do século XXI” chinês. Não foi uma observação circunstancial, confinada à economia ou à tecnologia, nem a afirmação óbvia de que o Brasil deve manter relações estáveis com seu maior parceiro comercial, mas algo como um julgamento histórico.

O contexto interessa. De acordo com o autor do livro, “o socialismo é a razão no comando”. Sob tal paradigma, o “debate” enalteceu, especificamente, a “linha justa” imposta por Xi Jinping, ou seja, a expansão do controle do Partido-Estado sobre o setor privado da economia e mais um giro no torniquete da repressão estatal sobre a sociedade chinesa. Ninguém, ali, mencionou Hong Kong — mas celebrava-se a supressão das liberdades políticas na cidade supostamente autônoma. A palavra Xinjiang não foi pronunciada — mas comemoravam-se os crimes contra a humanidade perpetrados na região, onde centenas de milhares de muçulmanos uigures estão internados em “campos de reeducação”.

Lula não vê diferença de fundo entre democracias e ditaduras. Dilma vê, sim — mas julga as segundas melhores.

O “socialismo real”, na sua versão soviética, costumava ser defendido pelos intelectuais de esquerda ocidentais por meio de argumentos que giravam em torno do “poder do proletariado” (em oposição à “democracia burguesa”). O propagandista de Xi inova, ao substituir a antiga alegação por uma invocação puramente tecnocrática: a razão no comando. O Timoneiro da Razão não pode conviver com contestações “irracionais” de partidos, sindicatos ou movimentos sociais. A Dilma que descobriu a “luz” em 2021 mandaria prender o Lula de 1980, líder dos metalúrgicos grevistas do ABC.

O PT nasceu como partido democrático de esquerda. Nos seus anos iniciais, não se furtou a condenar os regimes de partido único na URSS, na China e em Cuba. Há muito, porém, engatou marcha a ré, incorporando o discurso dos antigos partidos comunistas. Não é que o partido pretenda estatizar os meios de produção, instalando uma economia socialista. É que, no plano das ideias, ele renunciou ao princípio do pluralismo político. Nos seus delírios, governaria sem oposição: a razão no comando.

Há consequências. A alma autoritária do PT legitima a alma autoritária da extrema direita bolsonarista, normalizando a noção de que a democracia é um ornamento supérfluo ou, no limite, uma enfermidade de sociedades decadentes.


Sergio Moro: Bolsonaro usou o governo para blindar o filho

 Laryssa Borges

Veja online 

 “Um estadista tem o compromisso de dirigir o país pensando no bem-estar geral e não em proteger o filho ou a família da ação da lei", disse o ex-juiz

 - Andre Coelho/Getty Images

QUEM DIRIA? - Sergio Moro: petistas e bolsonaristas unidos contra o ex-juiz 

Era 1º de novembro de 2018 quando Sergio Moro, então juiz da Operação Lava-Jato, ouviu de Jair Bolsonaro garantias de que, se aceitasse o cargo de ministro da Justiça e da Segurança Pública, teria carta branca para combater escândalos de corrupção e reforçar mecanismos de investigação no governo que se iniciaria dentro de dois meses. Naquela época, a Polícia Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) já haviam reunido elementos sobre um esquema de rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) após vasculhar movimentações financeiras suspeitas de Fabrício Queiroz, então faz-tudo da família Bolsonaro, mas o caso só viria a público tempos depois, quando elevaria ao centro do noticiário policial o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ).

Afastado do governo desde que acusou, em abril do ano passado, o chefe do Executivo de tentar interferir na Polícia Federal em benefício próprio e de seus familiares, Moro diz que o caso Queiroz se transformou em uma “assombração” para o presidente e afirma ter presenciado sucessivos episódios em que Jair Bolsonaro, longe de cumprir a promessa que havia feito a ele, atuou para enfraquecer mecanismos de combate à corrupção com o objetivo de blindar o filho das acusações de peculato e lavagem de dinheiro decorrentes da rachadinha. “Quando meus filhos fazem alguma coisa de errado, eu os corrijo, embora eles sejam bem mais novos e nunca tenham tido problemas similares. Isso é uma virtude e é o papel de pai. O presidente da República, um estadista, tem que ter um papel na mesma linha. A Justiça demanda que o fato seja apurado e as consequências sejam extraídas. Se a consequência for uma condenação criminal, é isso que tem que acontecer. É uma questão de justiça, de mostrar para todo mundo que a lei se aplica a todos”, disse Moro a VEJA.

Em um episódio emblemático de sua passagem pelo governo federal, após o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), atender a um pedido da defesa de Flávio e paralisar processos judiciais que usavam dados do Coaf, como o da rachadinha, Bolsonaro deu ordens expressas para que o ex-juiz não se intrometesse na decisão que beneficiava o filho senador. “Se não vai ajudar, então não atrapalhe”, declarou o presidente, segundo Moro registrou no livro de memórias “Contra o Sistema da Corrupção” (editora Sextante/Primeira Pessoa, R$ 49,90 a versão impressa e R$ 29,99 o ebook, 288 páginas) a ser lançado no próximo dia 2.

 

Divulgação/Divulgação

“Um estadista, um homem público, tem o compromisso de dirigir o país pensando no bem-estar geral e não em proteger o filho ou a família da ação da lei e da Justiça”, disse ele. Na obra, Sergio Moro afirma que passou por “humilhações” em sucessivos processos de fritura promovidos pelo ex-chefe e avalia que o ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro são “muito parecidos” na falta de princípios éticos.

O ex-ministro afirma ter sido ingênuo ao acreditar no ex-capitão e diz ter pensado em abandonar o cargo ainda em 2019 ao detectar que “não poderia confiar” no chefe. “O que não se poderia admitir era a destruição do sistema de prevenção à lavagem de dinheiro com o propósito de salvar da lei o filho de alguém, mesmo sendo ele o filho do presidente da República”, resume. A seguir, as principais revelações de Sergio Moro.

1. Nova prisão de Lula: Ex-eleitor de Lula, Moro afirma que a Lava-Jato sabia que investigar o ex-presidente seria “muito desgastante” e critica a naturalidade com que o petista se eximia de responsabilidades sobre o esquema de corrupção na Petrobras. “O pior não era o ex-presidente invocar esse tipo de argumento, o mais assustador era ver quantos seguidores políticos acreditavam – e ainda acreditam – nesse argumento”, diz. Em suas memórias, Moro relata que, após Lula não se entregar de imediato para começar a cumprir pena, um advogado do ex-presidente temeu que ele decretasse uma nova ordem de prisão, o que agravaria a situação jurídica do principal alvo da Lava-Jato. O ex-juiz diz nunca ter considerado tal hipótese.

2. “Se fosse meu filho…”: Desde o início do governo, o relatório do Coaf que mostra sucessivos saques em espécie de Fabrício Queiroz na investigação das rachadinhas trouxe consequências para a agenda anticorrupção e para a permanência de Moro como ministro. O ex-juiz diz que a decisão de Bolsonaro de não vetar propostas como as que restringiam prisões e limitavam delações premiadas tinha como pano de fundo “as encrencas do filho dele com a Justiça”. “Na época fiquei extremamente preocupado com o caso Queiroz, mas o presidente disse que o fato seria apurado e que não protegeria ninguém. Ele até se sentiu compelido a dar explicações à minha equipe. O fato é que o desmantelamento do combate à corrupção colateralmente pode ter beneficiado os filhos dele nas investigações”, relatou Moro a VEJA. “Precisa ter vontade política para combater a corrupção, e essa vontade política não vai vir dos dois extremos políticos. O governo Lula falando de combate à corrupção é uma piada. E o governo Bolsonaro não tem o que apresentar”, completou ele.

3. Quase uma coisa só: Esposa de Moro, a advogada Rosângela Moro certa vez classificou o marido e o presidente da República como “uma coisa só”, dando munição para desafetos do ex-juiz o vincularem a Bolsonaro mesmo após o rompimento político de ambos. Em suas memórias, Sergio Moro faz uma analogia semelhante. “Vejo atualmente o governo Bolsonaro muito parecido com o governo Lula, especialmente na parte ética”, diz ao se defender da alcunha de “traidor” atribuída a ele por bolsonaristas. A VEJA, o ex-ministro afirmou que “não é coincidência que dois governos que transigiram com a pauta ética tenham acabado em recessão. O mensalão e o petrolão plantaram as sementes da grande recessão de 2016, e o governo atual aparentemente nos entregará uma estagnação ou uma recessão no próximo ano”.

4. A luta foi desigual: É assim que Moro define a insurreição da classe política e jurídica contra a Lava-Jato, mas diz que não vê o debacle da operação como uma “derrota pessoal”. Ele defende a decisão de ter divulgado trechos da delação premiada do ex-ministro petista Antonio Palocci às vésperas da eleição de 2018, reflete sobre dilemas pessoais de delatores, como Marcelo Odebrecht, com quem concorda sobre o papel de “bode expiatório” dentro da empresa, e rebate as recorrentes críticas de que as investigações de Curitiba “criminalizaram a política”. “Quanto à criminalização da política, quando alguém me convencer de que pagar ou aceitar subornos fazem parte do exercício da boa política, concordarei com o argumento”.

5. Eu errei: Pela primeira vez Sergio Moro admite que errou ao aceitar se tornar ministro da Justiça de Bolsonaro. Não pelo perfil misógino ou homofóbico do presidente, que o ex-juiz conhecia de antemão e acreditou que seria moderado quando o chefe assumisse o Planalto, mas pela sequência de boicotes à pauta anticorrupção, pelo surgimento do caso Queiroz e pela aliança com parlamentares corruptos. “É fácil concluir que eu errei. Sabedoria retrospectiva não vale”, diz. A VEJA, Moro afirmou que teria sido “complicado” recusar o convite para ingressar no governo. “Mais de 57 milhões de brasileiros escolheram o presidente e havia uma esperança de que poderia dar certo. [Pensar que] vamos ajudar o país, vamos construir algo melhor é algo que mexe com a sua alma. Teria dado certo se eu tivesse tido o apoio do Planalto”, relata.

6. Humilhações e rasteiras: O ex-ministro da Justiça diz que Bolsonaro tinha por hábito “constranger” e “humilhar” os subordinados, submetendo-os a frituras públicas e diminuindo seus poderes, como no ensaio do presidente para recriar o Ministério da Segurança Pública e esvaziar as atribuições do ex-juiz no governo. “Se ele não me queria mais no governo, poderia simplesmente me demitir”, relata. Moro revela que chegou a corroborar o nome de Alexandre Ramagem para a diretoria-geral da Polícia Federal porque outros dois indicados de Bolsonaro eram “absolutamente inaceitáveis”, mas diz que depois percebeu que sua anuência havia criado uma bola de neve com pressões recorrentes por substituições na PF. “Contornar aquelas crises com o presidente para satisfazer os seus caprichos tirava a minha concentração no trabalho”, relembra Moro.

7. Alianças espúrias: Quando deixou o governo Bolsonaro, Moro acusou o presidente de se aliar com o que considera o pior da política partidária: deputados do Centrão. Em seu livro de memórias, o ex-juiz afirma que parcerias com políticos “com passado e histórico comprometidos” não funcionam e levam “o país para um caminho errado, apesar de eventuais ganhos de governabilidade a curto prazo”. Ele não faz ataques diretos, mas critica os superpoderes dos presidentes da Câmara e do Senado, capazes se paralisar votações cruciais para o país – ou, no caso dele, desidratar o projeto que foi a menina dos olhos de sua gestão, o pacote anticrime.

8. O sonho do STF: Moro sempre cultivou o desejo de ser escolhido ministro do STF e chegou a ser aconselhado por amigos a estabelecer a nomeação à Corte como pré-requisito para entrar no governo. Ele disse que rejeitou o aconselhamento e afirmou que foi “ingênuo” ao acreditar que sua indicação viria “naturalmente” se desempenhasse um bom trabalho no ministério. Já desiludido com Bolsonaro, declarou que “se o meu objetivo fosse uma cadeira no STF, bastava ter concordado com a troca [na Polícia Federal] e permanecer no governo, dizendo ‘amém’ a todas as iniciativas do presidente”. “Eu havia deixado o governo por perceber a real falta de comprometimento de Bolsonaro com a agenda anticorrupção e, mais do que isso, pela constante sabotagem às iniciativas do Ministério da Justiça”.

9. E o STF de Gilmar Mendes: Durante a pandemia, Moro participou de uma reunião com o presidente para tentar demovê-lo de atacar cotidianamente o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Naquele mesmo dia o ministro do STF Gilmar Mendes,  com quem Bolsonaro se consulta esporadicamente, havia aconselhado o presidente a unificar as ações de enfrentamento à Covid para evitar uma enxurrada de ações judiciais. Na reunião, o que Moro não sabe é que Mendes teceu duras críticas à suposta inação do Ministério da Justiça na coordenação de políticas públicas relacionadas à crise sanitária. Ao se encontrar com Bolsonaro, Moro recebeu uma estocada do chefe. “O Moro que me perdoe, mas são ministros como o Gilmar Mendes que resolvem as coisas”, disse o presidente segundo o ex-juiz. Gilmar, como se sabe, era o crítico mais ferrenho da Lava-Jato no Supremo e foi o mentor da estratégia de votações que levaram ao esvaziamento da operação e à anulação das sentenças contra Lula.

10. Segredos bem guardados: Desafeto declarado do presidente Bolsonaro e político com quem pretende disputar o eleitor de perfil conservador em 2022, Sergio Moro diz que “algumas revelações” ainda não estão maduras o suficiente para virem a público e dá uma pista sobre os segredos que guarda sobre o governo Bolsonaro. “Quando saí do ministério, entendi que era necessário esclarecer, pelo menos parcialmente, os motivos de minha saída. Poderia, naquela manhã, ter prestado declarações muito mais pesadas contra o Presidente da República”, diz.



Bolsonaro prepara fuga em 2022

  Bernardo Mello Franco

O Globo

  Marcos Alves

Jair Bolsonaro e Marina Silva se enfrentam em debate da RedeTV! | 

O capitão avisou: só vai aos debates em 2022 se os adversários aceitarem suas condições. “É para falar sobre o meu mandato. Até a minha vida particular, fique à vontade. Mas que não entre em coisas de família, de amigos, porque vai ser algo que não vai levar a lugar nenhum”, disse.

“Tenho quatro anos de mandato para mostrar o que fiz”, prosseguiu. “Agora, eu não posso aceitar provocação, coisas pessoais, porque daí você foge da finalidade de um bom debate”, encerrou.

Pelas regras expostas na quinta-feira, Jair Bolsonaro não poderá ser questionado sobre o vaivém de dinheiro no gabinete do filho Zero Um. “Coisas de família”, incluindo os depósitos de R$ 89 mil para a primeira-dama. Também ficam proibidas perguntas sobre o gabinete do ódio e a indústria das fake news, que puseram o Zero Dois e o Zero Três na mira da polícia.

Que nenhum candidato se atreva a falar em rachadinha. O termo traz à memória o ex-PM Fabrício Queiroz, antigo parceiro de pescarias e churrascos. O índex ainda incluirá o miliciano Adriano da Nóbrega, fuzilado na Bahia. Este era amigo do clã a ponto de receber visita e condecoração na cadeia.

Bolsonaro sabe que não é talhado para debates. Em 2018, só participou de dois encontros com rivais. Tentou jogar na defensiva, mas saiu em desvantagem quando foi confrontado. Na Band, Guilherme Boulos lembrou que o capitão empregava funcionária fantasma e embolsava auxílio moradia com imóvel próprio em Brasília. Na RedeTV!, Marina Silva lhe passou sermão por ensinar uma criança de colo a fazer arminha com os dedos.

Depois da facada, Bolsonaro não se expôs mais a nenhum confronto direto. Alegou razões médicas, embora tenha recebido uma equipe de TV no dia em que sete candidatos foram aos estúdios da Globo. No segundo turno, ele repetiu a desculpa para não debater com Fernando Haddad. Chegou ao dia da eleição sem ter olhado nos olhos do adversário.

Não existe debate sério com assuntos proibidos. Ao impor suas exigências, Bolsonaro busca um pretexto para se esconder dos oponentes. A questão é saber se ele terá condições de bancar uma nova fuga.

O arrego é um recurso que costuma ser usado por candidatos favoritos. Era o caso do capitão em 2018, mas tudo indica que não será mais em 2022.

A história também registra exemplos de presidenciáveis que se arrependeram da tática. Em 2006, Lula faltou aos debates do primeiro turno, alegando que não pretendia se submeter a “grosserias e agressões”. Ausente, virou alvo dos adversários e não teve espaço para se defender.

Infidelidade a toda prova

Flávio Bolsonaro é um caso patológico de infidelidade partidária. O senador vai para a quarta legenda em menos de três anos. Eleito pelo PSL, mudou para o Republicanos e se transferiu de novo para o Patriota. Na terça-feira, assinará a ficha de filiação do PL.

Na prática, o Zero Um e os irmãos sempre pertenceram a uma sigla sem registro: o PFB, Partido da Família Bolsonaro. O clã só usa as legendas oficiais para receber dinheiro público e disputar eleições.


Decisão de Pacheco e Lira de desobedecer ordem do STF cria impasse institucional

  Míriam Leitão

O Globo

  Pablo Jacob / Agência O Globo


Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) 

Começou mal a campanha do presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) à presidência da República. Afinal, ele é um jurista que está desobedecendo o STF. E fez isso junto com o bolsonarista presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).

Os dois presidentes das casas legislativas federais estão desafiando o Supremo ao divulgar a nota em que dizem que não podem revelar as informações sobre as emendas de relator. Desafiam também o princípio republicano da publicidade.

Lira usa verbas do orçamento secreto para beneficiar prefeitos aliados

A decisão da ministra Rosa Weber foi referendada pela maioria do STF e faz todo o sentido: dar ampla publicidade a todas as emendas do relator dos anos de 2020 e 2021. Para os contribuintes saberem qual parlamentar determinou que gastos nos ministérios.

Em sua justificativa, Rosa Weber escreveu que “o regramento pertinente às emendas do relator (RP 9) distancia-se desses ideais republicanos, tornando imperscrutável a identificação dos parlamentares requerentes e destinatários finais das despesas nelas previstas, em relação aos quais, por meio do identificador RP 9, recai o signo do mistério".

Não pode haver mistério quando se trata de despesa pública. As duas casas dizem que não conseguem cumprir, que é impossível saber, Como assim? É gasto do nosso dinheiro, pago com os impostos. É orçamento público, são os agentes públicos dos ministérios, que são órgãos públicos. Este argumento não fica de pé. Fazem uma nota conjunta  para dizer que irão respeitar a decisão do Supremo, mas desrespeitando-a. Na verdade, estão desafiando o STF.

 


‘Ato indecente’, diz Randolfe sobre proposta para o orçamento secreto

 Laísa Dall'Agnol

Veja online

Consultoria do Senado emitiu nota constatando que projeto elaborado pela cúpula do Congresso não dá transparência às chamadas emendas de relator

 Randolfe Rodrigues/Reprodução

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) fala sobre o orçamento secreto 

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) classificou como “ato indecente” a resolução que deverá ser votada por parlamentares nesta segunda-feira sobre o orçamento secreto.

O texto, diz Randolfe, contraria a decisão do STF que suspendeu a execução dos recursos e que determinou transparência às chamadas emendas de relator.

 “É tão indecente, que nem é ato, não foi instituído. Se trata do gasto de mais de 20 bilhões de reais no ano de 2020 e de 16 bilhões em 2021. Que não se sabe pra onde é destinado, quem faz a indicação, quem recebe. É, na prática, um gravíssimo e um dos mais escandalosos esquemas de corrupção já instituídos”, publicou o senador na tarde desta segunda-feira.

Na última semana, os presidentes da Câmara e do Senado redigiram nota conjunta avisando que não poderiam divulgar as informações passadas de 2020 e 2021 sobre quem usou o orçamento secreto e para onde foi o dinheiro.

O projeto de resolução pautado para esta segunda, portanto, manteve as emendas de relator sem valor-limite e determinando transparência às informações apenas para execuções futuras — excluindo os dados referentes aos 36 bilhões de reais dos últimos dois anos.

A consultoria do Senado emitiu, também nesta segunda, uma nota técnica na qual declara que as decisões dos chefes da Câmara e Senado descumprem a decisão do STF. O documento atesta, ainda, ser possível revelar quais são os parlamentares beneficiados com a distribuição de emendas entre 2020 e 2021.

O repasse de recursos via emenda de relator é visto como mecanismo do presidente Jair Bolsonaro para obter apoio no Congresso.


Ao manter orçamento secreto, Congresso institucionaliza o toma lá, dá cá

 Breno Pires

O Estado de São Paulo

 © Dida Sampaio/Estadão - 23/7/2021 

Congresso Nacional, em Brasília

O Congresso Nacional aproveitou a exigência da transparência nas emendas de relator como uma desculpa para promover a institucionalização deste dispositivo, à revelia do que realmente decidiu o Supremo Tribunal Federal. A Câmara aprovou, por 268 votos a 31, projeto de resolução do Congresso Nacional que admite a distribuição desproporcional, sem seguir a exigência constitucional de equitatividade, previstas para as emendas individuais e de bancada. Assim, a maioria da Casa reafirmou a intenção de continuar usando o instrumento para barganha política, como o Estadão tem demonstrado ao longo do ano.

O projeto também foi aprovado no Senado. O Legislativo não esperou a decisão de mérito do Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade das emendas de relator-geral do orçamento. O plenário do Supremo por 8 votos a 2, determinou a suspensão da execução dessas emendas temporariamente e mandou o Congresso dar ampla publicidade às emendas já distribuídas. Ao aprovar a proposta de resolução, o Congresso faz apenas uma parte do que o Supremo determinou: prever a transparência daqui para a frente. Mesmo assim, há brechas para que o toma lá, dá cá siga oculto.

O texto permite que, na hora de registrar o autor do pedido de repasse, o relator-geral (cargo revezado entre Câmara e Senado anualmente) informe o nome de agentes públicos e até entidades da sociedade civil. Assim, um prefeito pode ter uma demanda atendida sem que se registre o nome do seu patrono, o parlamentar que lhe indicou o recurso. Esse risco é reconhecido por parlamentares que são contra o instrumento.

Com isso, deputados e senadores não podem ser acusados de se venderem para o governo. Afinal, por esse modelo ninguém sabe quem recebeu recursos para votar como deseja o Palácio do Planalto. Além disso, se esse dinheiro for usado em alguma obra ou compra em que houve corrupção ninguém saberá que foi que destinou a verba.

No quesito transparência, porém, o Ato Conjunto do Congresso, assinado na última quinta-feira, 25, pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), é considerado mais grave. Trata-se de um recado claro ao Supremo: o Congresso não vai cumprir a decisão judicial que determinou a divulgação dos nomes dos beneficiados com as emendas de relator-geral até agora. A narrativa da cúpula do Congresso de que não é possível atender a essa decisão não caiu bem na Suprema Corte e pode diluir o lado positivo da aprovação da resolução. Foi alegada a “inexistência de documentos que registrem essas solicitações”.

No Supremo, a avaliação é que é possível conciliar a autonomia do poder Legislativo com os princípios da administração pública. Há alguma chance de sensibilização da maioria sobre a importância da liberação dos recursos. Mas, nos bastidores do Supremo, é dado como certo que a ministra Rosa Weber não dará o braço a torcer na exigência de ampla publicidade – afinal, não existe meia transparência.

O ponto considerado principal, porém, é o entendimento que a atual Legislatura atropela o que definiu em 2019, quando aprovou Emenda Constitucional que prevê a impositividade das emendas individuais, sob argumento de impedir o toma lá dá cá. “Considera-se equitativa a execução das programações de caráter obrigatório que observe critérios objetivos e imparciais e que atenda de forma igualitária e impessoal às emendas apresentadas, independentemente da autoria”.


Brasileiros no exterior enviam recorde de dinheiro ao país

Thais Carrança - @tcarran

Da BBC News Brasil em São Paulo

 CRÉDITO,GETTY IMAGES

Real desvalorizado, desemprego no Brasil e avanço da emigração favorecem remessas

Cristina Costa, de 50 anos e moradora há 20 deles de Marlborough, no Estado americano de Massachusetts, conta que nunca esteve tão vantajoso mandar dinheiro de volta ao Brasil.

"Hoje tenho uma empresa de limpeza, uma de paisagismo e também trabalho em tempo parcial num supermercado", conta a mineira de Belo Horizonte.

"Eu sempre mando US$ 4 mil a US$ 5 mil por mês ao Brasil e ultimamente está melhor ainda para mandar, com o dólar na faixa de R$ 5,50, R$ 5,40", diz a empreendedora, que no Brasil investe em cavalos da raça Quarto de Milha, além de ajudar familiares.

Na pandemia, com os negócios indo bem nos Estados Unidos e a situação econômica se agravando no Brasil, ela enviou dinheiro também para ajudar famílias mineiras com a compra de cestas básicas.

"Durante 2020, quase o ano todo, eu ajudei 22 famílias. Até hoje, sigo ajudando três delas", conta Cristina. "Uma cesta básica estava custando cerca de R$ 77, com o dólar a R$ 5,50, você manda US$ 100, são R$ 550, dá para ajudar várias famílias com isso."

Cristina não está sozinha ao aproveitar o real desvalorizado para enviar dinheiro ao Brasil.

 


Segundo o Banco Central, de janeiro a setembro deste ano, as transferências pessoais com origem em outros países e destino ao Brasil já somam US$ 2,84 bilhões (R$ 15,9 bilhões), maior valor da série histórica com início em 1995 e alta de 18% sobre igual período de 2020.

No ano passado inteiro, o Brasil recebeu US$ 3,31 bilhões em transferências pessoais vindas do exterior, recorde para o indicador até então, que deverá ser superado em 2021.

Conforme especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, uma combinação de fatores explica as transferências recordes em meio à pandemia.

A forte desvalorização do real em relação a moedas como dólar, euro e libra; a recuperação mais rápida das economias de países desenvolvidos do que a brasileira; o desemprego elevado no Brasil; e a nova onda de emigração de brasileiros, particularmente aos EUA, estão entre as causas citadas.

Os EUA foram responsáveis pelo maior crescimento no volume de remessas, somando US$ 1,47 bilhão entre janeiro e setembro, alta de 33% na comparação anual.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, a comunidade brasileira no exterior ultrapassou os 4,2 milhões em 2020, crescimento de 17% sobre 2018, quando o último levantamento havia sido feito. Desse total, 42% ou 1,78 milhão viviam nos EUA, seguidos por Portugal (276 mil), Paraguai (240 mil), Reino Unido (220 mil) e Japão (211 mil).

Segundo dados da Receita Federal, de janeiro a novembro deste ano, 15,5 mil brasileiros entregaram declarações de saída definitiva do país ao Fisco. No ano todo de 2020, foram 20,9 mil, mesmo em meio à pandemia. Entre 2017 e 2019, as declarações superaram 23 mil a cada ano, quase o dobro da média anual de 12,8 mil declarações entregues nos seis anos anteriores.

Dólar em alta de 40%

Para Leonardo Cavalcanti, professor da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Observatório das Migrações Internacionais (OBmigra), a desvalorização da moeda brasileira é o principal motivo para o recorde de remessas vindas do exterior em 2020 e 2021.

Desde o fim de 2019, o dólar passou de R$ 4,019 a R$ 5,609 (cotação de sexta-feira, 26/11), uma alta de 40% em relação ao real.

No período mais recente, a desvalorização da moeda brasileira tem sido reforçada pelo aumento da incerteza nas contas públicos, devido ao avanço da PEC dos Precatórios, proposta que muda o cálculo do teto de gastos e permite ao governo dar um calote em algumas obrigações financeiras.

O dólar também ganha força diante dos temores do mercado com relação à nova variante ômicron do coronavírus.

"Se você está ganhando em dólar, para converter isso em real, o ganho que você obtém é quase o dobro de anos atrás, quando a moeda americana não superava os R$ 3", diz Cavalcanti.

"Muitos imigrantes que planejam voltar aproveitam, por exemplo, para investir em imóveis aqui no Brasil, porque isso é um símbolo de sucesso para o imigrante", observa o pesquisador.

Desemprego elevado no Brasil

Para Pedro Barreiro, líder de Banking e Expansão para o Brasil da Wise (antiga TransferWise, um dos principais serviços utilizados pelos brasileiros para transferência de recursos entre países), a ajuda a familiares é outro motivo importante por trás do aumento de remessas.

"Desde o início da pandemia, notamos que cada vez mais brasileiros e pessoas no exterior têm enviado dinheiro ao Brasil, não só dos EUA, mas também de outras regiões desenvolvidas, como Europa e Reino Unido", observa Barreiro.

"Pelos destinatários no Brasil, percebemos que muito dos envios são de pessoas dando suporte financeiro a familiares que foram afetados pela pandemia", diz o executivo, destacando o elevado desemprego no Brasil e a retomada mais rápida da economia particularmente nos EUA.

No Brasil, a taxa de desocupação estava em 13,2% no trimestre encerrado em agosto, com 13,7 milhões de desempregados, segundo o dado mais recente disponível pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Já nos EUA, a taxa de desemprego caiu a 4,6% em outubro, e o número de pedidos de auxílio-desemprego no país recuou em novembro ao menor patamar em 52 anos.

Segundo Barreiro, em março de 2020, os envios de recursos ao Brasil através da Wise cresceram 250% na comparação anual e, em março deste ano, houve nova alta de 30%.

"Não houve um pico e depois uma queda, o que nos mostra que não é um comportamento de tomar a vantagem do câmbio num momento específico. No começo da pandemia, o envio triplicou e estabilizou nesse patamar três vezes maior", diz o porta-voz da empresa.

Na perspectiva da Wise, o elevado volume de remessas ao Brasil deve se manter em 2022.

"Nossa previsão é que isso se mantenha, especialmente considerando que o ano que vem é um ano eleitoral, que costuma ser marcado por muitas instabilidades no Brasil", afirma Barreiro.

"Então o real deve sofrer muita volatilidade, a atividade econômica deve seguir afetada e muitas famílias no Brasil ainda devem depender de seus familiares no exterior. Por isso não esperamos que o influxo de valores vá se reduzir no curto prazo."

Nova onda imigratória para os EUA

Eduardo Siqueira, professor da Universidade de Massachusetts em Boston e pesquisador há 20 anos da imigração brasileira aos EUA, destaca ainda um último fator que pode explicar o aumento recente das remessas: a nova onda de brasileiros deixando o país.

 


"Normalmente o envio de remessas tem a ver com a necessidade das famílias no Brasil, quanto maior a crise, maiores as remessas", diz Siqueira.

"Mas é preciso também considerar o tamanho da população brasileira saída do país nos últimos anos. Não é surpresa que haja um aumento das remessas, se o tamanho da população brasileira no exterior aumentou", considera o pesquisador.

Ele destaca que, nos EUA, parte considerável da comunidade brasileira vive sem os devidos documentos e por isso sequer aparece nas estatísticas oficiais.

Segundo dados da agência americana de Alfândega e Proteção de Fronteiras, o número de brasileiros cruzando ilegalmente a fronteira sul do país bateu recorde histórico no ano fiscal de 2021 (que vai de 1º de outubro de 2020 a 30 de setembro de 2021). Foram 56.881 brasileiros detidos, um aumento de 700% em relação ao mesmo período de 2020.

Até então, o auge da migração ilegal de brasileiros havia sido em 2019, quando cerca de 18 mil tentaram entrar nos EUA ilegalmente pela fronteira terrestre com o México.

Por conta desse aumento na imigração ilegal de brasileiros aos EUA via México, o governo mexicano informou na sexta-feira (26/11) que voltará a exigir visto de viajantes brasileiros.

Os EUA são historicamente o principal destino da imigração brasileira, com destaque para os Estados americanos de Massachusetts, Flórida, Nova York e Nova Jersey. A existência de uma comunidade brasileira estabelecida nesses locais estimula a continuidade da imigração, devido aos vínculos entre imigrantes.

"É o que chamamos de imigração em cadeia: quem veio primeiro foi voltando para o Brasil e anunciando a possibilidade de ter melhoria de vida nos Estados Unidos. Isso começou fundamentalmente no vale do Rio Doce, ao redor do município de Governador Valadares, mas depois se expandiu para muitas outras regiões do Brasil", observa Siqueira.

Por ser um fenômeno principalmente econômico, de pessoas em busca de melhoria nas condições de vida, a imigração aos Estados Unidos tem caráter cíclico, crescendo quando a situação econômica no Brasil fica pior.

"Aconteceu isso no período do [governo do ex-presidente Fernando] Collor e está acontecendo de novo nesse período mais recente. Até antes do governo Bolsonaro, no fim do governo Dilma já começou a haver de novo um pico de imigração para cá", diz o professor.

"O que explica isso é a profunda crise brasileira, que não é só econômica, mas política e social e da insegurança em que as pessoas vivem", afirma o pesquisador.

"Com as pessoas perdendo seus empregos, fechando negócios e não vendo alternativas para ficar no Brasil, elas resolvem explorar a possiblidade de vir para os Estados Unidos. Mas a situação aqui também não é fácil e as pessoas muitas vezes sofrem bastante."

Dinheiro do Brasil para fora

Enquanto as remessas do exterior ao Brasil cresceram fortemente em 2020 e 2021, as transferências em sentido contrário, do Brasil para outros países, registraram forte queda no ano passado, mas mostram recuperação em 2021, porém em níveis ainda abaixo do pré-pandemia.

Em 2020, as transferências pessoais do Brasil ao exterior somaram US$ 1,47 bilhão (R$ 8,18 bilhões), queda de 30% em relação aos US$ 2,09 bilhões enviados para fora em 2019.

De janeiro a setembro de 2021, as remessas para outros países já somam US$ 1,17 bilhão, aumento de 10% em relação a igual período de 2020, mas ainda abaixo do US$ 1,54 bilhão transferido para fora de janeiro a setembro de 2019.

 


Em volume de dinheiro enviado, os principais destinos são EUA, Portugal e Reino Unido, em linha com as maiores comunidades brasileiras no exterior.

Mas os maiores crescimentos no envio de dinheiro em 2021 foram para Bolívia (29%) e Haiti (19%), refletindo a retomada da economia brasileira, que permitiu aos imigrantes desses países que vivem no Brasil voltar a enviar recursos para suas famílias.

Segundo o Ministério da Justiça, o Brasil recebeu pouco mais de 1 milhão de imigrantes entre 2011 e 2019, dos quais 660 mil de longo termo, que são aqueles que permanecem no país por período longo. Neste segundo grupo, as maiores comunidades são as de venezuelanos (142 mil), paraguaios (97 mil), bolivianos (58 mil) e haitianos (54 mil).

Apesar do número significativo de imigrantes no Brasil, a Venezuela não se destaca nas remessas registradas pelo Banco Central, devido à baixa confiança no sistema financeira do país — os imigrantes venezuelanos tendem a mandar dinheiro para suas famílias fisicamente, cruzando a fronteira, ou por meios alternativos ao sistema financeiro oficial.

Rosana Camacho, presidente da Associação de Residentes Bolivianos, avalia que a queda de 45% nas remessas à Bolívia no ano passado e a alta de 29% este ano são um retrato das dificuldades e da recuperação vividas pelos trabalhadores bolivianos no Brasil.

"Boa parte da comunidade boliviana trabalha no comércio e na área têxtil. Quando fechou tudo, paralisou a produção e as vendas, muitos ficaram desempregados e muitos também retornaram para a Bolívia devido à falta de trabalho", conta Camacho.

Com a reabertura da economia, a situações dos imigrantes melhorou, mas ainda assim, eles estão sofrendo com os mesmo problemas que os brasileiros: escassez de matérias primas vindas da China, alta de custos de produção e aumento do custo de vida devido à inflação.

"Todos os problemas que afligem os brasileiros, afligem os imigrantes, mas um pouquinho pior, porque o imigrante em geral está na informalidade e no subemprego", observa a presidente da associação dos bolivianos. "Subiu gás, subiu luz, subiu a alimentação, o que o imigrante consegue poupar para mandar fica menor."

 

 

 


Pelo menos cinquenta e dois pesquisadores da Capes que atuam em avaliação renunciam coletivamente

 Paula Ferreira

O Globo

Cientistas afirmam que instituição não tem se empenhado em defender avaliação que foi paralisada pela Justiça e citam mudanças de parâmetros sem consulta prévia

  Foto: / MArcello Casal Jr/Agência Bras

Fachada do edifício-sede da Coordenação de Aperfeiçoamento

 de Pessoal de Nível Superior (Capes) 

BRASÍLIA—  Cinquenta e dois pesquisadores da área de Matemática, Probabilidade e Estatística (Mape), e da área de Física da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes) renunciaram coletivamente aos cargos. Em duas cartas, uma da semana passada e outra desta segunda-feira,  os cientistas acusam a Capes de não respaldar o trabalho de avaliação desempenhado por eles e criticam a presidência da instituição por não defender a Avaliação Quadrienal da pós-graduação, suspensa por decisão judicial em setembro. Com a saída, os novos chefes das áreas terão de montar suas equipes.

Formalmente, apenas os seis coordenadores das áreas têm mandato de quatro anos. Os outros 46 pesquisadores, que atuam como consultores ad hoc na avaliação quadrienal assessorando os coordenadores enquanto dura o processo, também saem de suas funções. Desses assessores, 28 são da Matemática e 18 da Física.

A carta da Matemática cita que a instituição tem alterado parâmetros sem consultar as áreas responsáveis. Os pesquisadores afirmam que foram demandados a elaborar pareceres sobre expansão de programas de pós via ensino à distância com rapidez. Segundo eles, as decisões da Presidência e da Diretoria de Avaliação (DAV) da Capes têm pego os pesquisadores "de surpresa" e causam prejuízos ao trabalho.

Em um outro ofício enviado à Presidência, os coordenadores da área de Astronomia e Física também mencionam "corrida desenfreada" para atender a um calendário de ajuste em documentos relacionados à Educação à Distância. Eles citam ainda "pressão" para dar celeridade  ao processo. A carta dos pesquisadores da física reafirma essas motivações expressas no ofício enviado pelos coordenados.

Em setembro, a Justiça Federal no Rio de Janeiro determinou a suspensão dos processos de avaliação de cursos de pós-graduação feitos pela Capes sob argumento de que a instituição não poderia aplicar retroativamente mudanças nos critérios avaliativos. A suspensão do procedimento, que é responsável por atribuir nota aos programas de mestrado e doutorado no país, gerou reação na área científica.

"Assim como diversos colegas, acreditamos que a CAPES não tem se esmerado na defesa da sua forma de avaliação. Isto ficou patente nas várias manifestações da presidência e contrasta fortemente com os posicionamentos favoráveis à retomada da avaliação vindas de diversas entidades, desde a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e a ABC (Academia Brasileira de Ciências) até a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados",  diz o documento da Matemática qual O GLOBO teve acesso, acrescentando:

"Chama-nos a atenção que a recente tentativa de suspensão da liminar tenha sido apresentada pela CAPES sem qualquer urgência, apenas depois de dois meses. Esta, inclusive, foi uma das justificativas para o indeferimento do efeito suspensivo."

Os pesquisadores afirmam que consideram "quase impossível" a retomada da avaliação num futuro próximo. Segundo eles, caso haja retomada, não é garantida que a análise "atenderá aos padrões de qualidade que a área preconiza".

—  O que vimos é que a presidência da Capes parece não querer que a avaliação vá para frente. A gente não viu defesa taxativa nem na Justiça, nem nos meios de comunicação, nem no Congresso. Foram dadas amplas oportunidades para defesa e a Capes não quis —   disse ao GLOBO o coordenador Roberto Imbuzeiro, que assina a carta. — A gente perguntou se os mandatos seriam prorrogados, a presidência não fez nenhuma menção de prorrogar. A gente está sem função e se sentindo inclusive deprezados pela agência.

De acordo com os signatários da carta, somente após apresentar um novo edital de Apresentação de Propostas de Cursos Novos (APCN), a Capes discutiu o tema com os pesquisadores. Na ocasião, pediu que fossem feitas considerações sobre cursos de pós em Ensino à Distância em poucos dias.

"Na discussão sobre a APCN, a presidência da CAPES também trouxe à baila o assunto de Ensino à Distância (EaD). Fomos instados a escrever novos documentos a respeito em um prazo de dois dias úteis, depois estendidos em mais uma semana. No entanto, estabelecer parâmetros para a expansão com qualidade do EaD não é tarefa para uns poucos dias de trabalho", diz o texto.

— A gente não vê com bons olhos essa expansão, ainda mais feita a toque de caixa, parece que o interessse é realmente ter programas de baixa qualidade para favorecer o máximo possível de instituições — criticou Imbuzeiro.

Segundo ele, atualmente há programas de pós-graduação semipresenciais na área de Matemática. Mas defende que a discussão de expansão seja feita de maneira cuidadosa.

'Compromisso indeclinável'

Durante participação em um painel pelo dia em Defesa da Pós-graduação, nesta segunda-feira, a presidente da Capes, Cláudia Toledo, afirmou que a continuidade da avaliação é um compromisso de sua gestão.

— Para deixar muito claro, o compromisso com a continuidade da avaliação foi meu primeiro compromisso ao assumir a presidência da Capes em abril. É um compromisso indeclinável a defesa com unhas e dentes, com sangue nos olhos, a respeito da continuidade da avaliação como um elemento de aperfeiçoamento permanente da nossa atuação no sistema nacional de pós-graduação— afirmou Toledo.

Segundo a presidente, o processo será pautado na segunda instância no dia 2 de dezembro. A Advocacia Geral da União se reuniu com o desembargador responsável pelo tema para pedir que haja celeridade no processo.

— Os mandatos estão vigentes e pelo princípio do respeito aos mandatos quero crer que tenhamos que reunir esforços pela retomada da avaliação sem trazer para nosso cenário político e da ciência nenhuma instabilidade em relação a que todos nós estamos envolvidos no interesse público, que significa lutar pela avaliação — disse a presidente.

Toledo afirmou que ainda há "pequeno fôlego"para tratar do tema já que os mandatos ainda estão vigentes. Ela também defendeu que o tema seja tratado por canais institucionais e não por "cartas de críticas".

— Vamos colhendo fundamentações e justificativas nesse sentido. Elas não precisam ser por cartas de críticas ou cartas abertas. Acho que podem ser pelos canais abertos e diretos das sociedades de representação e da presidência, e também do Conselho Superior da Capes.


Guerras culturais na escola

  Antônio Gois

O Globo

Na semana passada, uma reportagem do jornal El País republicada no Globo mostrou como, nos EUA, escolas públicas viraram a principal frente de batalha das chamadas guerras culturais, travadas especialmente em torno de temas como o uso obrigatório de máscaras na sala de aula, novas abordagens sobre igualdade racial ou políticas de integração de pessoas trans.

Debates sobre como deve ser a abordagem nas escolas a respeito de valores morais ou da interpretação de fatos políticos e históricos não são novidade. O agravante por lá é o fato de o ambiente tóxico de polarização resultar em insultos, agressões e até ameaças de morte a membros de conselhos escolares. 

O fenômeno, como bem sabemos, não é restrito aos Estados Unidos. A intensidade pode ser (ainda) diferente, mas ele é também explícito no Brasil – vide o discurso de Bolsonaro de querer deixar o Enem com “a cara de seu governo” -, e não há perspectiva de que irá arrefecer, seja qual for o resultado das próximas eleições.

O triste é constatar que toda essa intolerância circunda e tem como alvo justamente a escola, equipamento público essencial para desenvolver na sociedade a capacidade de divergir de forma respeitosa e qualificada, exercitando a empatia, o diálogo e a resolução de conflitos. Fazer com que essas palavras tão bonitas no papel se tornem realidade é uma das missões mais árduas dos educadores nos dias de hoje.

Tentar blindar a escola de toda a polarização política seria uma estratégia irrealista. Este é um dos argumentos das pesquisadoras Diana Hesse e Paula Mcavoy (da Universidade de Wisconsin) no livro “The Political Classroom”, já citado aqui. Mas elas argumentam que é preciso formar e dar apoio aos professores para que saibam como lidar com assuntos controversos. Uma das estratégias sugeridas pelas autoras é distinguir sempre os temas abertos (que contemplam mais de uma resposta) daqueles que não podem ser tratados como mera opinião. O aquecimento global, por exemplo, é um fato sobre o qual há evidência científica sólida. Mas as estratégias para lidar com o problema permitem mais de uma resposta.

O modelo proposto pelas autoras pode ajudar a qualificar o debate nas escolas, mas não é suficiente para pacificar todos os temas polêmicos. Tomemos como exemplo, no caso brasileiro, o debate que movimentou círculos políticos nas últimas semanas, com as declarações dos candidatos líderes nas pesquisas – Lula e Bolsonaro – amenizando críticas à regimes ditatoriais mais próximos de seu campo ideológico.

Pode-se estimular o pensamento crítico dos estudantes para entenderem contextos locais e históricos que ajudem a explicar as razões que levaram nações a vivenciarem regimes totalitários, bem como debaterem sobre suas causas e consequências. Mas ditaduras – regimes autoritários que perseguem opositores, praticam censura, assumem ou se mantém no governo com o uso da violência e dificultam ou inviabilizam a alternância de poder rompendo regras do jogo democrático – precisam ser identificadas no currículo por aquilo que são: ditaduras, de direita ou esquerda.

Quando até isso é objeto de disputa – a palavra ditadura, vale lembrar, sumiu das questões do Enem desde o início da gestão bolsonarista -, percebemos o tamanho do estrago.


Pós-Covid vai exigir ainda mais de programas sociais, dizem economistas

 Folha de São Paulo

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - A nova realidade imposta desde o início da pandemia do coronavírus --com as famílias mais vulneráveis tendo de enfrentar a combinação de desemprego elevado e aumento da miséria e da fome-- vai exigir ainda mais eficiência dos programas de combate à pobreza.

O tema foi discutido na manhã desta quinta-feira (18) durante o webinar "Como enfrentar a desigualdade e a pobreza", organizado pelo jornal Folha de S.Paulo e pelo Ibre FGV (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas).

O evento contou com a participação de Vinicius Botelho (doutorando do Insper), Fernando de Holanda Barbosa Filho e Fernando Veloso (ambos pesquisadores do Ibre). O debate foi mediado pelo jornalista Fernando Canzian, repórter especial do jornal.

No cenário atual, a inflação em alta, que é ainda mais cruel com as famílias de baixa renda, o desemprego elevado nos últimos cinco anos e as perspectivas de baixo crescimento da economia brasileira tornam ainda mais necessária a adoção de programas e iniciativas para a redução da pobreza.

Veloso criticou, no entanto, a manobra feita para aumentar o valor de benefício após a substituição do Bolsa Família pelo Auxílio Brasil --que começou a ser pago na quarta-feira (17)-- a partir da aprovação da PEC (proposta de emenda à Constituição) dos Precatórios e das mudanças no teto de gastos.

"Evidentemente, a questão dos precatórios é um calote. A mudança no teto de gastos, com o novo indexador, além de gerar uma insegurança jurídica, fragiliza a única âncora fiscal que nos resta", avaliou.

Ele disse acreditar que fatores atuais, como a aceleração dramática da inflação, segundo as próprias previsões do governo, provam que o novo programa já causou enormes danos.

O pesquisador também criticou a possibilidade de mudanças nos precatórios e no teto de gastos servirem para turbinar as chamadas emendas de relator (usadas em negociações políticas), o fundo eleitoral e a proposta de criação de programas com outros objetivos, como o auxílio para caminhoneiros.

"As imagens das filas das famílias tentando receber o Auxílio Brasil mostram a confusão e a insegurança que foram geradas. O programa social que deveria resolver acaba trazendo mais insegurança", completou o analista.

Já Holanda recordou que os problemas fiscais dos últimos anos acabam se refletindo na fraqueza do mercado de trabalho. Dessa forma, a cada nova crise, o nível de desemprego subiu e a pobreza cresceu, aumentando a necessidade de programas eficientes de transferência de renda.

"O setor de serviços ligado às famílias ainda não voltou ao que era antes, e parte dos empregos que foram destruídos talvez nunca sejam recuperados. Como recolocar essas pessoas que estão desempregadas há mais de dois anos?", questionou.

Sobre a demanda por mais programas na linha do antigo Bolsa Família, Botelho acrescentou que os programas atuais têm funcionado abaixo do esperado, do ponto de vista da superação da pobreza intergeracional.

"Se olharmos para aumento dos níveis de aprendizagem e de renda, os resultados são muito ambíguos. Por um lado, há uma visão de que ainda persiste uma armadilha de pobreza, que coloca as famílias em uma situação de privação extrema e acaba fazendo com que a pobreza se perpetue."

O pesquisador complementa que o novo programa precisa focar mais em melhorar os processos de cadastramento das famílias, usando as informações de forma mais inteligente, para desenhar melhores políticas de superação da pobreza.

Veloso também lembra que o Brasil não se recuperou por completo da recessão de 2015 e 2016, e que esse biênio deixou sequelas profundas no mercado de trabalho. "E não só no Brasil, crises recorrentes deixam marcas que duram dez anos, segundo relatório do Banco Mundial."

Dado que o desemprego vai continuar alto, com projeções que apontam para que esse cenário dure até 2026, é preciso pensar em como aumentar a empregabilidade e a proteção das pessoas, disse o economista.

"Sem crescimento econômico não há programa social que resolva", provocou Canzian.

Holanda acrescentou que há uma massa de pessoas que ocupavam um posto de trabalho que deixou de existir com a pandemia. Isso aumenta a necessidade de um programa focado que possa reintroduzir as pessoas no mercado de trabalho.

"Não tem nada que gere emprego que não seja crescimento econômico. A gente costuma buscar atalhos em vez de buscar a solução estrutural, mas uma das soluções seria buscar melhorar os programas de qualificação."

Para reverter essa tendência, ele também afirmou que é preciso buscar uma política pública de crescimento sustentável.

"A gente teve o Programa de Aceleração do Crescimento que não resolveu o problema do crescimento. Investimento público não é atalho, é preciso conseguir bons investimentos, em áreas de retorno e em projetos que façam sentido."

Para permitir a continuidade de programas sociais sem comprometer a questão fiscal, Veloso também avaliou que existe espaço para aumentar a progressividade do sistema tributário.

O debate completo pode ser assistido pelo link no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=-B7NB_FXBYw


Os brasileiros que sobrevivem com comida de porco e água suja: 'Um balde para seis tomarem banho'

 Josué Seixas

De Maceió (AL) para a BBC News Brasil

 CRÉDITO,JOSUE SEIXAS

Comunidade da Muvuca, em Maceió, convive ao mesmo tempo

 com a escassez de alimentos e com 

Williams Tavares, de 19 anos, interrompe o telefonema com a reportagem para ajudar uma mulher e uma criança a transportar água para dentro da comunidade Muvuca, no Vergel do Lago, uma das regiões mais pobres de Maceió, capital de Alagoas. Ele retorna à ligação ofegante.

"Aqui, tudo é precário. Se em alguns dias falta o dinheiro até mesmo para comprar o pão ou a mistura, o que dá para fazer quando falta a água de beber ou de tomar banho?", diz Páscoa, como o morador da comunidade é conhecido.

Há 3,6 mil barracos na Muvuca, diz ele. Em alguns, vivem sete pessoas "espremidas". A BBC News Brasil esteve ali em visita intermediada pelo projeto Consultório na Rua, de acolhimento a pessoas vulneráveis, promovido pela Prefeitura de Maceió.

Era uma tarde, e a comunidade estava em silêncio, com muitos animais e moscas por entre as casas, bicicletas e motos paradas.

Só as mulheres estavam presentes. Os homens saem de casa antes das 7h da manhã para trabalhar. Eles são, em sua maioria, carroceiros e marisqueiros. A maioria volta no fim da tarde.

Não há saneamento básico, e apenas duas torneiras abastecem todas as famílias. Uma das moradoras contou que faz as necessidades fisiológicas em uma sacola, que é descartada na lagoa ou num descampado, hábito comum na região.

Com os alimentos mais escassos e a fome crescendo, os trabalhadores precisam pegar restos de comida em hotéis na parte nobre da cidade e levá-los para casa. É a chamada "lavagem".

"Essa comida antes era destinada aos porcos, mas agora as pessoas selecionam e trazem para dentro de casa", conta Páscoa.

Apesar da pobreza extrema e da falta de infraestrutura, o preço dos barracos foi inflacionado pela pandemia. Há 12 anos, Alexsandra* pagou R$ 5 mil no dela. Agora, alguns já valem mais de R$ 30 mil.

"As coisas apertaram quando essa pandemia chegou. Meu marido é carroceiro, eu sou dona de casa. Ele vive trabalhando, eu fico aqui ajeitando uma coisa, ajeitando outra", conta ela.

CRÉDITO,JOSUE SEIXAS

Sem saneamento ou serviços públicos, lixo da comunidade

 fica jogado e serve de alimento aos porcos

Água suja

Na casa de Alexsandra, a água chega bem fraquinha. Seu marido, Marivaldo, foi um dos moradores que ajudaram a cavar um buraco a 200 metros da Muvuca, onde fica o "cano-mestre" de água da região.

Graças a doações, os moradores conseguiram interligá-lo a cinco barracos, que daí distribuem a água para os vizinhos.

"Passamos semanas, até um mês, sem água, que não é limpa. É suja. Nós ficamos com dor de barriga, e muita gente fica doente. (Mas) serve para a gente beber, cozinhar e tomar banho. Usamos baldes. Tem dia que um balde serve para cinco, seis pessoas tomarem banho."

Na Muvuca, a distribuição de água é responsabilidade da BRK Ambiental, empresa privada que assumiu os serviços de saneamento na região metropolitana de Maceió em julho deste ano.

A companhia reconhece a falta de uma rede local e explica que "os ramais existentes na localidade e utilizados pela população não fazem parte da rede pública, foram construídos no passado como uma solução informal, não regularizada no município".

A concessionária diz que ainda avalia, junto aos órgãos competentes, como atuará em áreas não regularizadas pelo poder público, mas estima que, até 2027, deve universalizar o acesso à água em toda a Região Metropolitana de Maceió, com investimento de R$ 2,6 bilhões.

Outra moradora, Marleide, de 44 anos, conta que uma forma de contornar a falta de água é pagar a alguém para buscar no Rio do Remédio, que se encontra com a lagoa ali perto. "E nem sempre está boa para beber, viu?"

Marleide ajuda a cuidar da sogra, a ex-marisqueira Maria, de 56 anos, conhecida como Vaninha, que ficou cega por conta da diabetes e passa a maior parte do tempo deitada na cama.

Ela depende da família para ter água para o banho e se sustentar, porque o dinheiro da aposentadoria não tem sido suficiente para comprar comida e remédios.

CRÉDITO,JOSUE SEIXAS

Há 3,6 mil barracos na comunidade Muvuca, diz ele

'Somos esquecidos'

Páscoa vive em um barraco com a avó e a irmã mais nova. Por não serem marisqueiros ou carroceiros e trabalharem com outras coisas, estão em condições um pouco melhores que a maioria dos moradores da Muvuca.

Antes, quando a família dividia o mesmo espaço entre sete pessoas, ele pedia dinheiro nos sinais de trânsito. Atrasou os estudos por conta disso — hoje, está no segundo ano do ensino médio, e quer cursar Direito.

"Eu fiz um curso de almoxarife, tento fazer bicos, faço um curso técnico de assistente administrativo e quero passar numa faculdade. Dá pra contar numa mão quem tem carteira fichada [emprego CLT] aqui na Muvuca", diz.

"Aqui é a gente pela gente. A Muvuca fica mais afastada de tudo. Não tem médico, remédio, exame, nada. Eu mesmo já fui para uma UPA [Unidade de Pronto-Atendimento] em cima de uma carroça", conta.

Alexsandra, que estava por perto, completa: "Nós somos esquecidos''.

CRÉDITO,JOSUE SEIXAS

Páscoa faz a interlocução com os demais moradores da Muvuca e ajuda a coletar água

Cícero Péricles Carvalho, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e doutor em economia regional, diz que, em comunidades como a Muvuca, a pobreza estrutural se soma à dependência de políticas públicas.

"O fenômeno da pobreza não é recente. Podemos dizer que houve uma queda até 2015, mas o processo [de empobrecimento] vem se acentuando desde então."

De acordo com o Ministério da Cidadania, Alagoas tem 689 mil famílias inscritas no CadÚnico de programas sociais federais, das quais 425 mil recebiam o Bolsa Família.

No ano passado, o auxílio emergencial cobriu 1,2 milhão de pessoas no Estado, com um valor que variava entre R$ 600 e R$ 1,2 mil. No segundo semestre, caiu pela metade e, na parcela mais recente, foi fornecido a 717 mil pessoas no Estado, com valores entre R$ 150 e R$ 370.

Durante a pandemia, de acordo com dados do Ministério da Cidadania, Alagoas teve mais 38,6 mil pessoas empurradas à pobreza extrema, sobrevivendo com até R$ 89 por mês. O número total chega a quase 1,2 milhão de pessoas, o que corresponde a 35% da população do Estado.

A crise que o país atravessa se revela ainda pior em Alagoas, que tem a quarta maior taxa de desemprego do Brasil (18,8%), acima da média nacional (13,7%), conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de agosto.

"Qualquer aumento de desemprego e inflação dificulta muita coisa para essas pessoas. Quando a renda média cai, as pessoas passam necessidade", explica Carvalho.

Amanda, de 25 anos, está grávida e, enquanto segura uma filha, observa outro filho ao seu lado. Na geladeira, tinha só um refrigerante, um saco de banana, um pouco de água e mais dois pacotes de leite em pó.

Eram 15h, e ela ainda esperaria mais três no mínimo até que o marido chegar do trabalho com o pão e uma mistura — ou nada. Ela conta que se pegou chorando ao encarar a geladeira que anos atrás já esteve cheia.

A pandemia foi uma época diferente para Amanda, de 25 anos, e sua família. No começo, por ter dois filhos, recebia o auxílio emergencial no valor de R$ 1,2 mil e conseguia assim pagar as contas. Beneficiada pelo Bolsa Família por conta dos filhos, Amanda também disse não saber o que seria dela com o fim do benefício.

"Todo dia é assim a luta da gente. Tem dia que Deus manda [comida], tem dia que não manda. Aumentou o preço de tudo, e já estão falando que o gás vai aumentar de novo. Meu Deus do céu, onde a gente vai parar?", diz.

*Os sobrenomes da maioria dos entrevistados foram omitidos para evitar sua exposição.