Antônio Gois
O Globo
Na semana passada, uma reportagem do jornal El País republicada no Globo mostrou como, nos EUA, escolas públicas viraram a principal frente de batalha das chamadas guerras culturais, travadas especialmente em torno de temas como o uso obrigatório de máscaras na sala de aula, novas abordagens sobre igualdade racial ou políticas de integração de pessoas trans.
Debates sobre como deve ser a abordagem nas escolas a respeito de valores morais ou da interpretação de fatos políticos e históricos não são novidade. O agravante por lá é o fato de o ambiente tóxico de polarização resultar em insultos, agressões e até ameaças de morte a membros de conselhos escolares.
O fenômeno, como bem sabemos, não é restrito aos Estados Unidos. A intensidade pode ser (ainda) diferente, mas ele é também explícito no Brasil – vide o discurso de Bolsonaro de querer deixar o Enem com “a cara de seu governo” -, e não há perspectiva de que irá arrefecer, seja qual for o resultado das próximas eleições.
O triste é constatar que toda essa intolerância circunda e tem como alvo justamente a escola, equipamento público essencial para desenvolver na sociedade a capacidade de divergir de forma respeitosa e qualificada, exercitando a empatia, o diálogo e a resolução de conflitos. Fazer com que essas palavras tão bonitas no papel se tornem realidade é uma das missões mais árduas dos educadores nos dias de hoje.
Tentar blindar a escola de toda a polarização política seria uma estratégia irrealista. Este é um dos argumentos das pesquisadoras Diana Hesse e Paula Mcavoy (da Universidade de Wisconsin) no livro “The Political Classroom”, já citado aqui. Mas elas argumentam que é preciso formar e dar apoio aos professores para que saibam como lidar com assuntos controversos. Uma das estratégias sugeridas pelas autoras é distinguir sempre os temas abertos (que contemplam mais de uma resposta) daqueles que não podem ser tratados como mera opinião. O aquecimento global, por exemplo, é um fato sobre o qual há evidência científica sólida. Mas as estratégias para lidar com o problema permitem mais de uma resposta.
O modelo proposto pelas autoras pode ajudar a qualificar o debate nas escolas, mas não é suficiente para pacificar todos os temas polêmicos. Tomemos como exemplo, no caso brasileiro, o debate que movimentou círculos políticos nas últimas semanas, com as declarações dos candidatos líderes nas pesquisas – Lula e Bolsonaro – amenizando críticas à regimes ditatoriais mais próximos de seu campo ideológico.
Pode-se estimular o pensamento crítico dos estudantes para entenderem contextos locais e históricos que ajudem a explicar as razões que levaram nações a vivenciarem regimes totalitários, bem como debaterem sobre suas causas e consequências. Mas ditaduras – regimes autoritários que perseguem opositores, praticam censura, assumem ou se mantém no governo com o uso da violência e dificultam ou inviabilizam a alternância de poder rompendo regras do jogo democrático – precisam ser identificadas no currículo por aquilo que são: ditaduras, de direita ou esquerda.
Quando até isso é objeto de disputa – a palavra ditadura, vale lembrar, sumiu das questões do Enem desde o início da gestão bolsonarista -, percebemos o tamanho do estrago.