terça-feira, maio 19, 2020

REVOLTANTE: chegamos a mil mortes por dia, e Bolsonaro diz “não ter pressa”.

Comentando a Notícia

Começamos na faixa de 400, depois passamos para 600, em seguida subimos para 800 e, agora, ultrapassamos a barreira das 1.000 mortes por dia. 

Do Palácio do Planalto o que se ouve é a d que Bolsonaro está sem pressa para escolher o novo ministro. Parece brincadeira fúnebre, não é mesmo?

Estamos no 3º do ranking de casos e em 6º no total de mortes. Será que o presidente está torcendo para chegarmos a liderança de casos e mortes?

Como se vê Bolsonaro não está nem aí. Está mais preocupado em alinhar sua aliança com o Centrão, distribuindo cargos para gente incompetente e sem qualificação para os cargos em que estão sendo jogados.

Já no Ministério da Saúde. O comando interino com General Pazuello, já nomeou 18 militares para cargos diversos n no ministério e detalhe importante: NENHUM TEM FORMAÇÃO MÉDICA OU EXPERIÊNCIA NA ÁREA DA SAÚDE. Isto dá a dimensão insignificante que o governo Bolsonaro dedica ao combate à pandemia.

E que o tal auxílio emergencial? Um fracasso total. Prova inquestionável da incompetência deste governo socorrer a sociedade que lhe compete servir. |Nem como piada de péssimo gosto, os tais programa s de socorro às empresas podem ser vistos. E tal preocupação com a economia e os empregos vai resultar em falências e desempregos. Mas a causa não terá sido o isolamento, e sim a incompetência do governo em verdadeiramente socorrer as empresas. O socorro não passa de papo furado para ilustrar palanques eleitorais.

Como nenhum dos filhos do presidente foi acometido e, o que seria pior, veio a óbito por covid-19, parece que ele não vê motivo para agir e ter pressa. Os filhos dos outros, para Bolsonaro, O Genocida, são apenas números.  Ele não tem pressa para trata-los ou curá-los. É revoltante. 

Bolsonaro só sabe comparecer em manifestações antidemocráticas e inconstitucionais, mas é incapaz e insensível em comparecer em cadeia de rádio e tevê para se sensibilizar com as vítimas. É muita irresponsabilidade e descaso. 

Talvez este escroto crie vergonha na cara e passe a atuar com presidente responsável somente no dia que a pandemia chegar à sua família ou a ele próprio.

A melhor atitude que o senhor Bolsonaro, nosso Doutor Genocida, seria renunciar. Como lhe falta grandeza para tanto, ele prefere continuar desgovernando e assistindo, passivamente, SEM PRESSA, o acúmulo cada dia mais crescente de cadáveres, centenas nas filas de espera por UTI’s e enfermarias, e a incansável curva ascendente de milhares de infectados. 

O presidente perdeu a condição de governar

José Carlos Dias, Cláudia Costin, José Gregori, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Paulo Sérgio Pinheiro, e Paulo Vannuchi
O Estado de São Paulo

A semear a insegurança e a desinformação, e ao colocar em risco a vida dos brasileiros, seu afastamento do cargo se impõe


Foto: REUTERS/Amanda Perobelli
Em meio à pandemia do novo coronavírus, que chegou a 16 mil mortes em dois meses
 no Brasil, bolsonaristas fizeram carreata em SP a favor de abertura do comércio  

O momento é grave. É hora de dar um basta ao desgoverno. Hoje é preciso falar ao conjunto dos brasileiros, nossa população multiétnica, multirracial, com diversidade cultural e distintas visões políticas, 210 milhões de cidadãs e cidadãos. Hora de falar ao povo, detentor e destinatário dos rumos do país. 

Assistimos em 2019 ao desmanche de instituições e estruturas de Estado, em nome de alinhamentos ideológicos e guerras culturais. A partir de fevereiro último, com a chegada da pandemia em nosso território, ao grande desmanche somaram-se ataques à ordem constitucional, à democracia, ao Estado de Direito. Não podem ser banalizados, muito menos, naturalizados. 

Como alertaram os cientistas, a covid-19 encontraria no Brasil campo fértil para o seu alastramento: um país-continente com enorme desigualdade social e concentração de renda, sistema de saúde fragilizado por cortes e tetos orçamentários, saneamento básico precário, milhões de brasileiros vivendo em bairros, comunidades e distritos sem infraestrutura, sucateamento da educação pública, desemprego na casa das 13 milhões de pessoas e uma economia estagnada. Acrescente-se a esse quadro as características próprias da atual pandemia – um vírus com alta velocidade de transmissão e sintomatologia grave, para o qual ainda não há remédio ou vacina eficazes. 

Talvez imune ao vírus, mas com toda certeza imune ao sofrimento humano, o presidente da República, Jair Bolsonaro, tem manifestado notória falta de preocupação com os brasileiros, com o risco das aglomerações que estimula, com a volta prematura ao trabalho, com um sistema de saúde que colapsa aos olhos de todos e até com o número de óbitos pela covid-19, que totalizam, hoje, muitos milhares de casos – sobre os quais, aliás, já se permitiu fazer ironias grosseiras e cruéis. 

Mas a sanha do presidente não para por aí. Enquanto o país vive um calvário, Jair Bolsonaro insufla crises entre os Poderes. Baixa atos administrativos para inibir investigações envolvendo a sua família. Participa de manifestações pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Manipula a opinião pública, e até as Forças Armadas, propagando a ideia de um apoio incondicional dos militares como blindagem para os seus desatinos. Enfim, o presidente deixa de governar para se dedicar à exibição diária de sua triste figura, em pantomimas familiares e ensaios golpistas. 

Preocupado com o amanhã e sob o peso do luto, o Brasil precisa contar com um governo que coordene esforços para a superação da crise, começando por ouvir a voz que vem das casas, das pessoas que sofrem, em todas as partes. Não há como aceitar um governante que ouve apenas radicais fanáticos, ressentidos e manipuladores, obcecado que está em exercer o poder de forma ilimitada, em regime miliciano-militar que viola as regras democráticas e até mesmo o sentido básico da decência. 

Só resta sublinhar o que já ficou evidente: Jair Bolsonaro perdeu todas as condições para o exercício legítimo da Presidência da República, por sua incapacidade, vocação autoritária e pela ameaça que representa à democracia. Ao semear a intranquilidade, a insegurança, a desinformação e, sobretudo, ao colocar em risco a vida dos brasileiros, seu afastamento do cargo se impõe. A Comissão Arns de Defesa dos Direitos Humanos entende que as forças democráticas devem buscar, com urgência, caminhos para que isso se faça dentro do Estado de Direito e em obediência à Constituição.

*
JOSÉ CARLOS DIAS, presidente da Comissão Arns de Defesa dos Direitos Humanos e ex-ministro da Justiça (Governo FHC)

CLAUDIA COSTIN, ex-ministra de Administração e Reforma (Governo FHC),

JOSÉ GREGORI, ex-ministro da Justiça (Governo FHC) 

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, ex-ministro da Fazenda (Governo Sarney), ministro da Administração e Reforma do Estado e ministro da Ciência e Tecnologia (Governos FHC)

PAULO SÉRGIO PINHEIRO, ex-ministro da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos (Governo FHC),

PAULO VANNUCHI, ex-ministro de Direitos Humanos (Governo Lula), 

TODOS FUNDADORES E AQUI REPRESENTANTES DA COMISSÃO ARNS, ASSINAM O ARTIGO EM NOME DOS 22 MEMBROS DA COMISSÃO

O luto pela velha normalidade: como superar o fato de que nossos projetos desapareceram

Silvia C. Carpallo
El Pais

A vida é muito mais incerta do que nosso cérebro gostaria. Especialistas nos orientam no processo de adaptação às mudanças que nos esperam


 É hora de aceitar que muitas coisas terão de esperar.

Quando brindamos a véspera de Ano Novo e pensamos em nossos desejos para 2020 havia muitos projetos a realizar. Este seria o ano em que prestaríamos concursos públicos. Em que celebraríamos o nosso casamento. Em que tentaríamos ser pais pela primeira vez ou de novo. Em que compraríamos um apartamento.

Era o que pensava Marta, que aos 32 anos só se tornara independente havia dois anos porque tinha emendado trabalhos temporários durante algum tempo. Este ano finalmente tinha encontrado um emprego estável e pensava que era hora de começar a considerar a compra de um apartamento. Mas quando a pandemia chegou, como ainda estava em período de experiência, perdeu o emprego e, com ele, muitos planos para o futuro, não apenas no curto, mas no médio prazo.

Casos como o de Marta estão começando a chegar aos consultórios dos psicólogos. No início da crise os conflitos eram outros, mas agora que a “nova normalidade” se aproxima, chegou a hora de enfrentar muitas realidades, que vão desde a incerteza em relação ao trabalho, especialmente depois dos milhões de Expedientes de Regulação Temporária de Empregos (ERTE) ou demissões, até mudanças na vida pessoal, como gravidezes não planejadas ou rupturas que tampouco esperávamos.
A pandemia não apenas nos obrigou a cancelar viagens, shows ou viagens com amigos. Isso é o de menos. Levou-nos a mudar alguns dos nossos planos de vida. E agora?

“Voltaremos a uma realidade diferente daquela que deixamos quando o confinamento começou”, insiste o psicólogo Miguel Ángel Rizaldos. Embora isso não signifique que tenhamos que nos deixar levar pela negatividade. “A tolerância à frustração, a capacidade de adaptação e a resiliência são características muito humanas, que podem facilitar a adaptação a essa nova realidade”. Claro, não é uma tarefa fácil.

Resiliência à incerteza

Gostamos de pensar que estamos no controle das coisas e é por isso que adoramos planejar. Mas a realidade é que todos esses planos nem sempre serão realizados. Pode ser que aceitar que tenhamos de nos readaptar não seja algo novo, mas que a situação mude repentinamente, e para tanta gente, é algo com o qual não estávamos acostumados.

“Estamos em uma situação imposta, à qual tivemos que nos adaptar da noite para o dia, e isso acarretou muitas circunstâncias repletas de estresse, incerteza, medo, ansiedade...”, observa a também psicóloga Judith Viudes. Apesar disso, insiste que não se deve se deixar levar por pensamentos catastrofistas, mas é preciso assumir que é algo totalmente normal. “A vida não é um contínuo estático, vivemos em uma constante mudança”.

Por isso, assim como falamos que essa crise nos fez valorizar mais as pessoas que amamos ou os pequenos prazeres, outra lição a aprender é exatamente esta: devemos aprender a ser mais resilientes para enfrentar as mudanças imprevistas.

“Na pandemia experimentamos esse golpe de realidade, mas não sei se aprendemos que a vida é muito mais incerta do que o nosso cérebro gostaria. Não temos tanto controle sobre o nosso futuro quanto acreditamos, o percentual de incerteza é maior que o controle que pensamos ter”, insiste Miguel Ángel Rizaldos.

Aceitar não significa se resignar

A primeira coisa a ter em mente é que, embora enfrentar mudanças seja um processo da vida, é lógico e necessário sentir-se mal com a perda desses planos de vida. “É preciso aceitar que temos emoções negativas por causa dos projetos que não serão realizados. É normal, natural e até saudável que você sinta tristeza e/ou ansiedade com a perda.”

É o caso de Inés e Fernando. Passaram meses planejando um belo casamento para o fim do verão de 2020. Ainda não têm claro se terão de cancelar, adiar ou optar por um casamento mais íntimo com menos convidados. No início se sentiram tristes, depois frustrados e finalmente aceitaram que, quando a situação avançasse, acabariam encontrando a melhor solução.

“É preciso aprender a trocar a resignação pela aceitação”, acrescenta nesse sentido Judith Viudes. Em outras palavras, resignar-se significa “ficarmos paralisados com uma série de pensamentos negativos repetidamente, o que faz com que de alguma forma fiquemos imóveis e passivos. Ficamos estagnados.” Em vez disso, a aceitação passa por “mudar nosso diálogo interno e entender que aceitar a situação é o começo da mudança.” Como resume Viudes, a chave é “parar de se preocupar para começar a se ocupar”.

Não dramatizar, mas adaptar

No final, embora existam projetos importantes que são difíceis de adiar, também é preciso avaliar que outros só precisam ser reinventados. “Alguns planos terão de ser descartados até um momento melhor, outros poderão se adaptar aos novos tempos e faremos novos planos que se ajustem melhor a esta nova realidade”, observa Rizaldos.

Para isso é importante saber como lidar com a frustração. Em tempos de incerteza, a impaciência não é a melhor das companheiras. Portanto, embora seja preciso aceitar essas emoções negativas, é necessário digerir isso “para continuar avançando com projetos diferentes ou modificados”.

Embora existam situações em que é impossível ver o lado bom, e não nos reste outra opção a não ser administrá-las dentro de nossas possibilidades, como o fechamento do nosso negócio, outras podem acabar sendo uma oportunidade. Por exemplo, o confinamento nos levou a tomar a decisão de terminar um relacionamento, talvez no longo prazo tenha sido o melhor.

“Agora, mais do que nunca, trata-se de viver o momento e ver como essa nova realidade evolui para nos adaptarmos a ela. O ser humano é muito resistente e é capaz de seguir em frente nas situações mais adversas. O importante não é cair, mas voltar a se levantar”, conclui Rizaldos.


Além da saúde, negacionismo do governo Bolsonaro também põe em risco economia

André Duchiade, Bruno Rosa, Cleide Carvalho e Rafael Garcia
O Globo

Para estudiosos ouvidos pelo GLOBO, as escolhas que Bolsonaro tenta impor ao país diante da pandemia terão efeitos contrários aos apregoados por ele

Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS / 17-05-2020
Presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores durante ato pró-governo no Planalto

RIO E SÃO PAULO – Atravessando a maior pandemia do século, o Brasil assistiu em menos de um mês à queda de dois ministros da Saúde, enquanto os casos da Covid-19 no país ultrapassavam ontem 241 mil. As saídas de Nelson Teich e de Luiz Henrique Mandetta foram consequências de divergências que tiveram com o presidente Jair Bolsonaro sobre como lidar com a doença.

O presidente, que desde o início tratou a Covid-19 como uma “gripezinha”, sempre ignorou em sua conduta as normas de distanciamento social preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ele insiste em tratar a hidroxicloroquina como um remédio milagroso contra o novo coronavírus, apesar da falta de evidências científicas que comprovem sua eficácia. Em seguidas manifestações e pronunciamentos, Bolsonaro voltou-se contra as medidas adotadas por governadores e prefeitos para tentar conter a progressão do contágio e evitar o colapso dos hospitais.

Alegando defender a economia, Bolsonaro incluiu academias e salões de beleza na lista de atividades essenciais e, na última quinta-feira, conclamou empresários a pressionarem o Congresso e os gestores estaduais e municipais pela retomada das atividades.

Para estudiosos ouvidos pelo GLOBO, as escolhas que Bolsonaro tenta impor ao país diante da pandemia terão efeitos contrários aos apregoados por ele, pondo em risco, além da saúde, a própria recuperação econômica e a posição internacional do Brasil.


Colisão com a ciência

A estratégia de reação à Covid-19 defendida pelo presidente Jair Bolsonaro, que insiste no uso da cloroquina como tratamento em todos os casos e demonstra resistência ao isolamento social, aliena o Executivo federal brasileiro da comunidade médica e científica nacional e global.

A menção mais proeminente numa revista médica de prestígio foi uma referência à reação de Bolsonaro à aceleração no número de mortes, no início do mês, quando ele disse: “E daí?”. “A maior ameaça à resposta do Brasil contra a Covid-19 é seu próprio presidente”, disse em editorial a “Lancet”.

A OMS tem evitado conflito direto com o governo, mas médicos influentes partem para o confronto mais aberto. Alexandre Kalache, do Centro Internacional de Longevidade, do Rio, qualificou a proposta de “isolamento vertical” como “gerontocídio”, pela ineficácia de supostamente proteger os idosos quando o resto da população mais jovem sai às ruas.

— Ele está em atitude anticientífica, insiste que isolamento é besteira e está ouvindo o conselho de médicos que não têm crédito no meio, como o Osmar Terra — diz Kalache.

A Jama, revista da Associação Médica Americana, publicou o primeiro grande estudo bem controlado sobre o uso cloroquina contra a Covid-19, mostrando que o medicamento não reduziu a letalidade do vírus entre os pacientes voluntários do teste, mas teve efeitos colaterais graves, como o dobro de número de paradas cardíacas para quem usava a droga em combinação com o antibiótico azitromicina.

— Em janeiro ou fevereiro, ainda fazia sentido testar a cloroquina — conta o infectologista Mauro Shechter, professor da UFRJ. — Mas já existem vários dados apontando que em princípio não deve ser uma boa opção.

Desarticulação

Estados e municípios sofrem com a falta de articulação com o governo federal e com os efeitos provocados por discursos do presidente Jair Bolsonaro que minimizam a Covid-19 e semeiam desconfiança das ações dos governadores e prefeitos na luta contra a pandemia. O cientista político Adriano Codato, do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira da Universidade Federal do Paraná, afirma que essa desarticulação política, que gera uma guerra federativa, prejudica todo o Brasil.

— Há ainda uma desarticulação simbólica. Cada um fala uma coisa. O presidente, o ministro da Saúde, os governadores, os negacionistas, os grupos de WhatsApp — diz Codato.

Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, afirma que a falta de coordenação do Ministério da Saúde é o primeiro fator a prejudicar os estados. Ele lembra que a compra de 40 milhões de testes anunciada pelo ex-ministro Henrique Mandetta não aconteceu e, sem a testagem, fica difícil abrir mão da quarentena:

— O teste tem que ser comprado pelo governo federal porque é caro. Ao adquirir em grande quantidade, ele consegue descontos.

Feldmann afirma ainda que a falta de coesão nacional no enfrentamento da pandemia fará com que o isolamento, no Brasil, dure mais tempo: de três a quatro meses, quando, na maioria dos países, ele durou, em média, 75 dias. Ele lembra que os estados ainda não receberam o pacote de ajuda aprovado pela Câmara dos Deputados.

— O pacote está parado na mesa do presidente. Os recursos são indispensáveis para tratar as pessoas. Essa falta de entrosamento, de alinhamento, mata pessoas — resume.


Atraso na economia

Uma retomada agora das atividades não essenciais da economia, ainda que gradual, é vista com preocupação por especialistas. O efeito, dizem, pode ser oposto ao almejado pelo governo federal: mais desemprego e um número ainda maior de mortos.

O economista Otaviano Canuto, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e diretor do Center for Macroeconomics and Development, faz uma alusão à gripe espanhola do início do século XX para lembrar que cidades americanas que mantiveram a economia aberta, como Filadélfia, tiveram desempenho tão ruim quanto as que pararam as atividades, como St. Louis. A principal diferença foi o número de mortos, maior onde não houve quarentena.

Canuto alerta que a retomada da economia não é garantia de aumento nos negócios, uma vez que a redução da demanda continuará, com as pessoas evitando aglomerações até que o número de casos e mortes comece a cair. Também houve queda de renda, limitando o potencial de consumo.

— Enquanto não houver sinais de que a doença está perdendo força, as pessoas não irão a restaurantes ou entrarão em aviões — disse.

Istvan Kasznar, professor da FGV, ressaltou que esse comportamento dos consumidores faz com que as empresas corram o risco de fecharem logo após reabrirem.

—Falar em abrir a economia no atual momento não é uma política racional — afirmou.

Canuto lembra que países que não adotaram a quarentena para toda a população, como a Coreia do Sul, fizeram testes e rastreamento em massa, isolando novos casos, o que não ocorre no Brasil. Outras nações que retomam aos poucos as atividades, como a Alemanha, determinaram regras rígidas para o comércio e as escolas e para a circulação do público.


Isolamento internacional

A gestão da crise da Covid-19 por Jair Bolsonaro projeta uma imagem tóxica do Brasil para o exterior, que retira prestígio do país em todos os âmbitos, avaliam analistas. Chefes de Estado, diplomatas, investidores e agências de análise de risco percebem uma nação desgovernada com riscos de implosão.

— Há uma percepção péssima do governo, de descontrole, que pode ter consequências muito graves. Os brasileiros vão ter facilidade para entrar em outros países, se o país for um foco de transmissão? O intercâmbio comercial também depende de segurança sanitária, e investimentos exigem um planejamento de médio e longo prazo que não existe — afirmou Letícia Pinheiro, internacionalista do Iesp/Uerj.

Segundo Dawisson Belém Lopes, professor de Relações Internacionais da UFMG, a posição de Bolsonaro traz “prejuízos políticos, diplomáticos, econômicos e sobretudo médico-científicos”.

— As relações internacionais dependem muito da percepção. A postura de Bolsonaro assusta o mundo. Isso afasta vizinhos, investidores, torna o Brasil negativo para tudo.

Os governos de Argentina, Colômbia, Paraguai e Uruguai já tomaram medidas para reforçar a segurança das fronteiras com o Brasil. Os EUA afirmaram que estudam restringir voos.

No sábado, Ian Bremmer, presidente do influente Eurasia Group, afirmou que “Bolsonaro é de longe o mais incompetente líder de uma democracia na resposta ao coronavírus”.

— A maneira como Bolsonaro está reagindo contribui para agravar o isolamento e o desprestígio no exterior. A primeira condição para se ter uma política externa séria é ser objetivo, realista e pragmático no reconhecimento dos fatos — afirmou o embaixador aposentado Roberto Abdenur.




Suécia, vida e morte

Demétrio Magnoli
O Globo

O colapso econômico cobra vidas

Os secretários estaduais de Saúde bateram a porta na cara do agora ex-ministro Nelson Teich. Diante de uma proposta de diretrizes sobre níveis de distanciamento social, responderam que, enquanto a curva da epidemia sobe, não é hora de discutir o assunto. Nossa polarização política reflete-se como guerra retórica entre dois extremismos. Num polo, Bolsonaro e seus lunáticos fantasiam-se de defensores da economia e dos empregos. No extremo oposto, configura-se um fundamentalismo epidemiológico que, vestido com a roupagem da ciência, exibe-se como o exército da vida. A Suécia oferece uma alternativa à dicotomia irracional.

O país escandinavo rejeitou a polaridade filosófica vida versus morte e sua tradução estratégica: saúde pública versus economia. Distinguindo-se de quase toda a Europa, navega por medidas brandas de isolamento social que não abrangem quarentenas extensivas. O fundamentalismo epidemiológico acusou-a de renegar a ciência, cotejou sua taxa de mortalidade por Covid (34 por 100 mil) com a de seus vizinhos (Noruega: 4,3; Finlândia: 5,1) e, num julgamento sumário, declarou-a culpada de desprezo pela vida.

O governo sueco não classificou a doença como “uma gripezinha”, recusando o negacionismo. Como o resto da Europa, definiu o objetivo de “achatar a curva”. Mas modulou a estratégia para o longo prazo, estimando que a vacina tardará. Aceitou, portanto, taxas maiores de óbitos imediatos, em troca da mesma mortalidade que os outros no horizonte da imunidade coletiva. No plano epidemiológico, um veredicto justo deve aguardar o momento redentor da vacinação em massa.

O parâmetro sueco não é suprimir o vírus pelo bloqueio social, mas evitar as mortes evitáveis — ou seja, preservar a capacidade hospitalar de atendimento de casos graves. Nesses dias, após “achatar a curva”, os governos europeus começam suas reaberturas, ainda em meio a milhares de contágios. Todos rendem-se ao mesmo parâmetro — e, claro, enfrentam a voz indignada dos anjos da vida. 

Os anjos estão errados, por motivos pragmáticos e filosóficos. O colapso econômico cobra vidas. A depressão mundial lançará cerca de 130 milhões de pessoas na vala da fome. O desemprego crônico, com seu cortejo de alcoolismo e opioides, corta a expectativa de vida em mais de cinco anos. Por que a vida de um faminto ou de um desempregado vale menos que a de um infectado pelo vírus?

A Suécia levou em conta um valor que escapa ao domínio epidemiológico: as liberdades civis. Quarentenas prolongadas achatam direitos, tanto quanto a curva de contágios. A liberdade ou a segurança? No caso da Aids, que matou 32 milhões, jamais restringimos as atividades sexuais, impondo legalmente testagens aos parceiros para evitar a difusão do vírus. A filosofia moderna nasceu com a declaração do direito à revolta contra governos tirânicos. A escolha de viver em liberdade deflagra rebeliões, que causam conflitos e mortes.

No plano dos valores, quarentenas justificam-se pela interdição ética fundamental de deixar pacientes morrerem sem tratamento apropriado. Itália, Espanha e França recorreram ao lockdown precisamente diante desse abismo. A Alemanha, que não chegou perto dele, preferiu uma quarentena moderada — e começa a reabrir em nome dos “direitos constitucionais”. 

O exemplo sueco não indica que os italianos erraram — e não serve para moldar as respostas brasileiras a uma curva exponencial. Por outro lado, é a bússola mais precisa para nortear o debate, em todos os lugares, sobre lockdowns, quarentenas e flexibilizações. A epidemiologia militante, iracunda e intolerante, não tem o direito de invocar uma aliança preferencial com a vida, rotulando como arautos da morte os que ousam contestar suas receitas.

Teich foi elevado por Bolsonaro ao ministério com a missão de fabricar mais desordem, sabotando nossas últimas oportunidades de coordenar o combate à epidemia. Mas ele sabotou o sabotador, ao oferecer um esboço de diretrizes comuns. Os secretários de Saúde fizeram baixa política ao recusar a mera discussão da proposta. Ganham aplausos indevidos de fanáticos do bem.




Nada faz sentido

Eliane Cantanhêde, 
O Estado de S.Paulo

Reunião foi do balacobaco e ministro da Saúde tem de fazer o que dr. Jair manda

Nada faz mais sentido, com as versões oscilando entre inacreditáveis e ridículas. Mas vamos ao principal: o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril confirma toda a versão do ex-ministro Sérgio Moro e deixa o presidente Jair Bolsonaro na patética situação de alegar que não falou em Polícia Federal, só em PF... Ah, bem! 

O trecho divulgado pela Advocacia Geral da União, que defende Bolsonaro, deixa tudo em pratos limpos. Bolsonaro não apenas citou a PF como a citou em primeiro lugar. E todo o contexto não deixa dúvidas: “querem F.... com ele e a família”, é preciso cuidar da segurança da família e dos amigos. 

O órgão responsável pela segurança pessoal da família não é a Polícia Federal (ok, a PF), é a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), vinculada ao GSI. E nem a PF nem a Abin cuidam da segurança de amigos, vamos convir. Logo, o presidente não estava falando da segurança física nem da Abin. Estava falando, sim, da PF. E os desdobramentos confirmam à sobeja. 

“Vou interferir. Ponto final”, avisou o presidente. E interferiu. Onde? Na PF. Quem foi demitido foi o diretor geral da PF, delegado Maurício Valeixo, não o também delegado Alexandre Ramagem, da Abin, que chegou, inclusive, a ser nomeado para a vaga de Valeixo. O presidente promoveu quem não estava cuidando direito da segurança pessoal da família e dos amigos?! Não. 

Assim, o presidente usa nomes falsos em exames de covid-19, demora meses para entregar os laudos à Justiça, diz que não falou na Polícia Federal, mantém a versão sem sentido da “segurança pessoal”. Dr. Jair, médico renomado, também insiste em desconsiderar estudos científicos do mundo todo para impor o uso da cloroquina em pacientes iniciais, como insiste na sua cruzada contra o isolamento social. E instiga a guerra contra governadores, que “querem quebrar a economia para atingir o meu governo”. Non sense. 

Saiu Luiz Henrique Mandetta, entrou Nelson Teich e nada mudou. O presidente exige que o ministro da Saúde, seja quem for, faça o que ele próprio tem na cachola. A Dra. Damares Alves topa o jogo, falando em “milagre da cloroquina”. Mas, se insistir em nomear um general para o Ministério, Bolsonaro vai criar uma saia justa. O estudo mais completo, claro e realístico sobre a importância do isolamento social foi feito pelo... Exército. Um ministro-general vai seguir os estudos científicos ou os achismos do presidente? 

A semana, portanto, começa sob duas expectativas. Quem será e o que vai dizer e fazer o novo ministro da Saúde num momento dramático da pandemia? O relator Celso de Mello, do STF, vai quebrar o sigilo integral ou só parcial da reunião do dia 22? Há quem defenda que ele libere geral, em nome da transparência, há quem ache melhor a divulgação em parte, em nome da segurança e da imagem do Brasil. 

Curiosos foram os argumentos do procurador geral Augusto Aras, contra a divulgação integral: trata-se de um “arsenal de uso político” e de “instabilidade pública”, “proliferação de querelas” e de “pretextos para investigações genéricas sobre pessoas”. A conclusão é que a reunião foi do balacobaco. Além do presidente falando palavrão, mostrando que é capaz de qualquer coisa para proteger a família – o que consta dos trechos da AGU –, há ministros falando qualquer coisa para agradar ao presidente. 

Um verdadeiro vale tudo com provocações gratuitas contra o maior parceiro comercial do Brasil, proposta de botar na cadeia os onze ministros do Supremo, a ideia de prender junto os governadores. Celso de Mello, portanto, vai ter de decidir se os brasileiros têm ou não o direito de saber onde estão metidos e se o mundo precisa saber o que está ocorrendo no Brasil.

Um problema que o mundo não tem: Bolsonaro

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

 Temos uma sequência de mau comportamento de um presidente inconformado com os limites do poder, assustado com os inquéritos e enraivecido com a imprensa

Talvez não seja a comparação mais adequada, mas vamos em frente: suponha uma pessoa que sente já não ter motivos para viver, mas não toma consciência disso. Essa pessoa não vai tentar o suicídio, mas vai fazer coisas que configuram uma tentativa. Por exemplo: correr como um maluco na moto, beber e dirigir, exagerar nos remédios ou nas drogas.

Essa pessoa estaria “acting out”. A expressão “act out” aparece assim explicada em dicionários especializados, em tradução livre do inglês: comportar-se mal porque você está infeliz ou desconfortável, frequentemente por motivos dos quais você não está consciente.

Em termos psicanalíticos, uma definição de “acting out” é a seguinte: uma mensagem cifrada que os sujeitos endereçam para o Outro, embora o sujeito em si mesmo não é nem consciente do conteúdo desta mensagem, nem mesmo ciente de que suas ações expressam uma mensagem.

Claro, o leitor já imaginou onde queremos chegar: o presidente Bolsonaro tem tudo planejado, age de caso pensado, ou está “acting out”?

É possível encontrar objetivos nas coisas que faz. O principal é manter o poder. O problema é que o poder que encontrou na chefia do governo e do Estado é menor e mais limitado do que ele imaginava. E certamente ele não se conforma com isso.

Reparem a quantidade de vezes que diz: “eu mando”, “eu sou o presidente”. Outro dia, referiu-se a ele como sendo “o chefe supremo”. Lembram-se? Foi quando o presidente se queixou que a Polícia Federal parecia mais preocupada com o assassinato de Marielle do que com a investigação da facada.

Ora, não há chefe supremo numa democracia representativa.

Bolsonaro também não se conforma com o fato de que não é o único ator em cena. Por isso detona ministros que se destacam, abre guerra contra governadores e prefeitos que ocupam espaços e ataca a imprensa que não o segue. Pode parecer estranho, mas o presidente dá sinais de que não se conforma também com o peso e a extensão do noticiário sobre o coronavírus.

Fala-se mais da epidemia do que dele — e fala-se, na imprensa séria, de maneira que não agrada ao presidente. Ele desclassifica a doença, não se importa com os mortos e não se conforma que outros líderes políticos ganhem espaço falando e fazendo o contrário do que ele, Bolsonaro, quer.

E aqui já não estamos no campo do racional ou do consciente. Quando, no dia em que o número de mortos passava de 10 mil, o presidente disse que ia fazer um churrasquinho para 30 pessoas — claramente estava “acting out”.

Não é razoável supor que ele tenha pensado algo assim: bom, o que eu posso dizer ou fazer para derrubar essa notícia? Ou, o que eu posso fazer para provocar e suplantar isso?

É verdade que o presidente desistiu do churrasquinho. Mas não pediu desculpas, nem admitiu que se tratava de um comportamento impróprio. Disse que o churrasco era fake news da imprensa e simplesmente foi passear de moto aquática.

Também não se desculpou pelo “e daí?” — a expressão de desdém pelos mortos que aparece em toda reportagem sobre o Brasil na imprensa internacional. O “e daí?” saiu assim no ato, não planejado. Quando alertado que estava gravado, fez outra narrativa, mas, de novo, sem admitir a impropriedade da primeira.

Temos, portanto, uma sequência de mau comportamento de um presidente inconformado com os limites do poder, assustado com os inquéritos que o envolvem e sua família e seus amigos, com ciúmes dos outros atores políticos e enraivecido com a imprensa séria e independente.

Esse tipo de comportamento prejudica os outros, mas também prejudica a pessoa que o pratica. Em certos momentos, a gente pensa: mas o que quer o presidente, provocar sua queda?

É óbvio que ninguém está preparando um golpe contra ele. Mas a frequência com que o presidente fala disso é sinal de que, sim, ele acha que um inquérito no STF é uma tentativa de derrubá-lo.

O que o leva ao “acting out”. O mundo todo tem o mesmo problema: uma pandemia e uma recessão. O Brasil tem isso e mais um problema que o mundo não tem: Bolsonaro.




Psiquiatra aponta os três transtornos psiquiátricos que afetam o presidente Jair Bolsonaro

Carlos Marchi
Tribuna da Internet

Bolsonaro ostenta três transtornos psiquiátricos evidentes. O primeiro é que ele tem forte incidência de déficit de atenção. Não consegue manter o foco em seus diálogos. Está sempre virando para os lados, como se a fala que ouve o perturbasse.

Enquanto outros falam, ele está sempre com um olhar vazio e distante. Por não conseguir concentrar a atenção, não consegue absorver de forma completa o que lhe está sendo dito.


DIFICULDADES – 

Assim, não consegue formar ideias mais elaboradas sobre as grandes questões nacionais. Por outro lado, não quer ouvir nada que desminta ou negue a ideia (simplória) que ele formou sobre um assunto.

Isto constitui dois transtornos, um psiquiátrico e um neurológico, que trazem seriíssimas consequências à pessoa. Mas acima de tudo acarreta a impossibilidade de organizar de forma adequada falas, projetos e estruturas.

O segundo é o transtorno desafiador de oposição, o qual induz o presidente a sempre precisar criar um inimigo. Ele tem a necessidade vital do atrito. Como é binário, só funciona se encontrar um antípoda e o desafiar.


AGRESSIVIDADE – 

Quer dizer, o presidente só consegue funcionar, só consegue atingir um estágio de vibração com o atrito. Quando ouve uma opinião contrária, ele se sente contrariado e entra em estado de exaltação e de agressividade.

O passo seguinte é imergir-se num quadro de transtorno persecutório. Passa a considerar que qualquer opinião contrária é parte de uma conspiração para tirá-lo do poder.

A contrariedade é vista por ele como a ação de um inimigo que ele deve ser destruído imediatamente. Este pensamento paranoide é típico de pessoas que apresentam o transtorno de oposição desafiadora e o transtorno de déficit de atenção.

INCAPACIDADE – 

Por conseguinte, Bolsonaro tem forte distorção da realidade, o que leva a uma visão superficial e distorcida do que é real. Essa incapacidade de ler a realidade impede que possa fazer a gestão de qualquer projeto que demande elaboração.

Esses três transtornos psiquiátricos não inabilitam uma pessoa, a não ser que… Ele tenha sido eleito presidente de um país do tamanho do Brasil. Tendo sido eleito, o que se percebe é que o Brasil se tornou cobaia da experiência sensorial de Bolsonaro.

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P.S. – As referências acima foram feitas em vídeo pelo psiquiatra Issac Efraim, enviado por minha amiga Raquel Santilli. (C.M.)


A guerra de Bolsonaro

Editorial
O Estado de S.Paulo

Presidente quer fazer crer que o isolamento social, adotado em todo o mundo para conter a pandemia, é escolha, não imperativo

A equipe econômica do governo federal informou na quarta-feira, dia 13, que sua projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano caiu de 0,02% positivo para 4,7% negativos. O dado foi apresentado de forma a enfatizar o caráter dramático da situação e a atribuir o cerne do problema ao isolamento social para enfrentar a pandemia de covid-19. Segundo informou o Ministério da Economia, o PIB perde R$ 20 bilhões por semana em razão do isolamento.

Embora tenha negado que estivesse fazendo críticas à adoção da quarentena, o secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, disse, ao apresentar os números, que o objetivo era “deixar claro para a sociedade o custo das decisões” e mostrar que, “quanto mais semanas ficarmos em distanciamento social, maior será o número de falências e de desemprego e maior será o impacto de longo prazo”.

Ato contínuo, na manhã seguinte, o presidente Jair Bolsonaro informou aos brasileiros que há uma “guerra” em curso no País, em referência ao isolamento social determinado por autoridades estaduais e municipais. “O que está acontecendo parece uma questão política, tentando quebrar a economia para atingir o governo”, disse Bolsonaro, em seu dialeto peculiar.

Ou seja, o governo parece ter unificado o discurso em torno da narrativa segundo a qual o Brasil está à beira do precipício econômico e social não em razão da pandemia, que está arrasando mesmo países desenvolvidos, mas sim graças ao isolamento social – que, conforme Bolsonaro, é resultado de um imenso complô da oposição, em conluio com a imprensa e com o Judiciário, para sabotar sua administração.

Para essa “guerra” em defesa de seu governo e, por extensão, do País, Bolsonaro convocou os empresários a pressionar o governador de São Paulo, João Doria, a relaxar a quarentena no Estado. “Um homem está decidindo o futuro de São Paulo, o futuro da economia do Brasil. Os senhores (empresários), com todo o respeito, têm de chamar o governador e jogar pesado, porque a questão é séria, é guerra”, disse o presidente, que, prevendo “caos” social, arrematou: “O Brasil está quebrando. E depois de quebrar, não é como alguns dizem, que a economia recupera. Não recupera. Vamos ser fadados a viver num país de miseráveis, como alguns países da África Subsaariana”.

Assim, o presidente Bolsonaro quer fazer crer que o isolamento social, adotado em todo o mundo para conter a pandemia, é uma escolha, e não um imperativo – e essa escolha, aqui no Brasil, seria fruto de maquinações políticas. Ora, é um insulto à inteligência presumir que chefes de Estado ao redor do mundo estejam submetendo seus governados a privações desnecessárias. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por exemplo, estima que 9 das 11 principais economias do mundo terão retração econômica severa e, em vários casos, sem precedentes. 

O Unicef (Fundo da ONU para a Infância) prevê que o colapso do sistema de saúde aumentará em 1,2 milhão de crianças a conta da mortalidade infantil no mundo nos próximos seis meses. O empobrecimento planetário já é uma realidade – que fica particularmente dramática em países cujos governantes, como Bolsonaro, agem de maneira irresponsável.

Se o presidente estivesse realmente preocupado em mitigar os múltiplos efeitos da pandemia, travaria uma guerra não contra os governadores e contra a oposição, e sim contra o vírus – que, por ora, está em grande vantagem, graças à bagunça que Bolsonaro criou no Ministério da Saúde, incapaz de liderar os esforços contra a pandemia, e ao comportamento do presidente, que continua a desdenhar das mortes, estimulando os brasileiros a ignorar a quarentena.

Nesse seu prélio delirante, Bolsonaro chegou até a citar uma frase de Napoleão, “enquanto o inimigo estiver fazendo um movimento errado, deixe-o à vontade”, para dizer que “o movimento errado é se preocupar apenas e tão somente com a questão do vírus” – e quem ganha com isso, disse o presidente, é “a esquerda”, que “está quietinha”.

Se quisesse realmente se inspirar em Napoleão, o presidente Bolsonaro deveria buscar outra frase do general francês, aquela que diz que “o verdadeiro líder é um mercador de esperanças”. Algo praticamente impossível para um presidente cuja vocação é frustrá-las. 

78% das empresas não tiveram acesso à ajuda emergencial do governo

Renée Pereira, 
O Estado de S.Paulo

Entre aqueles que tiveram acesso, 17,5% declararam que a ajuda emergencial esbarrou na falta de informações nos bancos, mostra pesquisa da consultoria Quist Investimentos

Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Comércio fechado na Rua José Paulino, no Bom Retiro, centro de São Paulo 

A maioria das empresas está tendo dificuldade para ter acesso à ajuda emergencial do governo federal. Com queda no faturamento e caixa no limite, as companhias relatam que não conseguem ter acesso às linhas de crédito para cumprir obrigações de curto prazo. 

Uma pesquisa feita pela consultoria Quist Investimentos, especializada em reestruturação de empresa e recuperação judicial, mostra que 78% das companhias consultadas não tiveram acesso a nenhum tipo de crédito desde o anúncio da equipe econômica. A sondagem ouviu 100 empresas com faturamento entre R$ 30 milhões e R$ 300 milhões.

Entre aqueles que tiveram acesso, 17,5% declararam que a ajuda emergencial esbarrou na falta de informações nos bancos e que os profissionais dos bancos de repasse não tinham orientações claras sobre como seriam operacionalizadas na prática as linhas de socorro.

Apenas 22% das empresas disseram ter tido acesso a crédito. Mas, nesse caso, acabaram pegando empréstimos pré-aprovados pelo banco de relacionamento e não a ajuda emergencial do governo. “O dinheiro está empoçado porque o banco está com medo do que vai ocorrer. Há muito incerteza”, diz o presidente da Quist, Douglas Duek.

Segundo ele, os bancos só vão conceder crédito para quem tem uma nota de crédito melhor. Aqueles que representam mais risco não terão acesso a dinheiro novo. “Nesse cenário, quem estava mal vai entrar em colapso. Quem estava bem vai ficar ruim.”

Para Duek, apesar de os bancos serem apenas repassadores do dinheiro público, eles terão muito trabalho se houver problema de inadimplência porque teriam de ir atrás dos devedores. “As instituições não querem ficar corresponsáveis pelas dívidas com o BNDES e ter de cobrar e administrar uma carteira de crédito de empresas que eles não aprovam.”

O executivo acredita que uma das soluções seria o BNDES criar Fundos de Investimentos de Direito Creditório (Fidc), que seriam os repassadores do dinheiro. Nessa situação, o banco estatal entra como cotista do fundo e uma outra instituição faz a administração do fundo.”

Segundo ele, que tem acompanhado o dia a dia de algumas empresas, as empresas estão criando comitês de crise, que neste momento estão selecionando as prioridades de pagamento. “Funcionários estão sendo dispensados, novos investimentos postergados e lojas deficitárias fechadas. Só está sendo pago coisas consideradas essenciais.”



6 países que voltaram atrás e recolocaram medidas de quarentena

Guilherme Dearo
Exame.com

China, Coreia do Sul e Alemanha viram aumentos de casos em alguma regiões após reabertura dos comércios

 (Stringer/Reuters)
Wuhan, na China: novos casos após flexibilização da quarentena

Depois de enfrentar semanas de lockdown por causa do novo coronavírus, com escolas e comércios fechados e restrições para pessoas e carros nas ruas, alguns países, como a China, afrouxaram regras, permitindo a reabertura de negócios. As decisões, menos pela certeza de que a doença foi totalmente controlada e mais por pressão econômica diante de desemprego e péssimos resultados, nem sempre resistem ao tempo.

Na China e na Coreia do Sul, por exemplo, novos casos forçaram algumas regiões a retomarem regras mais rígidas de quarentena, temendo que a pandemia fugisse novamente do controle e a curva voltasse a ascender.

Ao menos seis países voltaram atrás e recolocaram regras de isolamento social após um período de isolamento rígido.

Confira:

China

No país onde o primeiro caso da doença pelo novo coronavírus foi reportado e onde primeiro foi imposto o lockdown, novas medidas de proteção foram impostas após aumento de casos.

Após Wuhan entrar em lockdown em janeiro e outra regiões do país sem fechadas em fevereiro, o governo chinês começou a flexibilizar as regras de quarentena após observar, em março, desaceleração no número de novos casos diários, que caíram para 200 ou menos.

Em 23 de março, por exemplo, as salas de cinemas chinesas foram reabertas. Três dias depois, voltaram a fechar.

Já Wuhan reportou na última semana seis novos casos após passar 35 dias nem registrar casos. Por enquanto, o lockdown não foi novamente imposto à cidade.

Em entrevista à CNN americana, o Dr. Zhong Nanshan disse que uma segunda onda de contaminação na China é altamente provável, já que ainda está longe o cenário onde mais de 50% dos chineses teriam os anticorpos para combater a doença e frear a curva exponencial de contaminação.

 (Stringer / Correspondente/Getty Images)
Covid-19 na China: Após aumento de casos, 
Wuhan planeja testes em massa para coronavírus


Coreia do Sul

Após semanas de baixos números, com dez ou menos novos casos, a Coreia do Sul viu, em 9 de maio, 34 novos casos. A alta na contaminação coincidiu com a reabertura dos bares no país.

Um caso também preocupou as autoridades: um homem de cerca de vinte anos teria frequentado várias casas noturnas na mesma noite. Ele foi, logo depois, diagnosticado com o coronavírus. O governo coreano corre para tentar encontrar as cerca de 1.500 pessoas que teriam tido contato com ele nessas festas.

Por causa desses casos, bares e baladas voltaram a fechar, enquanto a reabertura de escolas e alguns negócios foi adiada.

  Foto: Getty Images / (Getty Images/Getty Images)
Pessoas compram máscaras em Seul, capital da Coreia do Sul:
 cidadãos desenvolveram app para monitorar o surto de coronavírus | 


Alemanha

Após flexibilizar algumas regras nacionais, com reabertura gradual de escolas, serviços religiosos, áreas de recreação e museus, além de alguns tipos de comércios, a Alemanha viu aumento de casos na última semana nos estados de North Rhine-Westphalia e Schleswig-Holstein.

Isso fez com que o governo limitasse a movimentação da população nessas regiões e intensificasse os testes. A chanceler alemã Angela Merkel já disse oficialmente que o afrouxamento de regras, como a abertura parcial das fronteiras nesse fim de semana, não significa que medidas emergenciais de contenção não sejam impostas se necessário.

  (Fabrizio Bensch/Reuters)
RESTAURANTE EM BERLIM: Alemanha começa
 a retomar a rotina após 177.000 casos de coronavírus

Irã

O Irã foi um dos primeiros a registrar uma situação grave na pandemia, ao lado da Itália. Os casos vinham caindo desde o começo de maio, se estabilizando em 800 por dia, mais ou menos. Contudo, na última semana voltaram a subir, com 1.700 casos registrados em um único dia.

O país vinha de um lockdown rigoroso desde março, com espaços públicos fechados desde o meio de março. Pressionado pelos números ruins da economia, o presidente Hassan Rouhani flexibilizou o lockdown em 20 de abril, mesmo com o país registrando 1.300 casos por dia.

Agora, a província de Khuzestan voltou para o lockdown, onde o governador Gholamreza Shariati culpou a flexibilização do isolamento social pelo aumento de casos.

 (Thomson Reuters Foundation/Stefanie Glinski/Reuters)
Coronavírus no Irã 

Arábia Saudita

Em lockdown desde 29 de março, a Arábia Saudita flexibilizou suas regreas em 24 de abril, antes de começar o período religioso do Ramadã, sagrado para os muçulmanos. Pessoas puderam voltar às ruas e alguns shoppings foram reabertos.

Como resultado, em 3 de maio foram 1.600 novos casos e eles vêm aumentando na última semana.

Assim o governo local espera, em 23 de maio, quando acabar o mês sagrado do Ramadã, retomar as regras rígidas de isolamento.

 (Stringer/Reuters)
Mercado de Petróleo: Arábia Saudita tirou de circulação 
o equivalente a duas vezes a produção diária do Brasil

Líbano

Com o lockdown, o Líbano viu poucos novos casos por dia desde o meio de abril, com dez casos ou menos por dia. Em maio, contudo, após sair do lockdown, casos voltaram a passar dos 30 por dia. Agora, o país voltou a impor um período de lockdown, ainda que curto: apenas quatro dias.

Assim, foi apenas uma semana de regras flexíveis no país, quando restaurantes, bares, salões de beleza e centros religiosos foram reabertos.

(Hussam Chbaro/Anadolu Agency/Getty Images)
Líbano, Beirute, 22 de março de 2020: Forças de segurança vigiam ruas 
em meio ao estado de emergência por conta do coronavírus. 



Desorientação no ministério dificulta combate à covid, dizem especialistas

Gonçalo Junior e Roberta Jansen, 
O Estado de S.Paulo

Risco de ambiguidade no discurso é desencorajar ainda mais a população a aderir ao isolamento, única estratégia disponível para conter a doença no País. Mudanças no comando da Saúde também atrapalham adoção de medidas coordenadas para gerir leitos e profissionais

Foto: EDUARDO VALENTE/FRAMEPHOTO
Centro de Florianópolis tem grande movimentação; especialistas temem tragédia sanitária
 se o próximo ministro acabar com a quarentena como quer o presidente Bolsonaro 

A desorientação política que tomou conta do Palácio do Planalto e levou à troca de dois ministros da Saúde em menos de um mês pode ter um impacto avassalador na resposta governamental à epidemia de covid-19 – o maior desafio de saúde pública já enfrentado pelo Brasil. Especialistas dizem que a crise revela o despreparo do atual governo para lidar com a pandemia e pode provocar um total colapso sanitário no País. Eles temem que o novo titular da pasta ponha fim ao isolamento social, como quer Jair Bolsonaro, levando a um vertiginoso aumento do número de casos e mortes.

“Essa política está matando pessoas”, diz o epidemiologista Roberto Medronho, coordenador da força-tarefa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) contra a covid-19. “A mudança (de ministro) é absolutamente inoportuna, inconsequente e inconcebível: jamais poderia acontecer neste momento, não leva em consideração as consequências letais, e não tem nenhuma razão lógica”, diz o especialista. 

Como não há vacina nem tratamento específico para a covid-19, as únicas medidas reconhecidamente eficazes contra o novo coronavírus são o isolamento social e a lavagem frequente das mãos. As iniciativas são recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e adotadas em todos os países do mundo no enfrentamento da doença – mesmo no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde houve uma resistência inicial dos respectivos governantes. Ainda não há evidências científicas sólidas da eficácia da cloroquina no tratamento da covid; o outro grande ponto de disputa de Bolsonaro. O presidente quer que o ministério recomende o uso da droga no início da infecção, uma medida que não tem o respaldo da OMS e não foi aceita por Henrique Mandetta e Nelson Teich.

Para os especialistas ouvidos pelo Estadão a ambiguidade do discurso governamental foi o maior empecilho para que houvesse uma adesão mais consistente da população brasileira às medidas de isolamento e muito menos apoio para um eventual lockdown nas cidades mais afetadas. “A consequência direta é o abandono do isolamento social, a única estratégia eficaz no combate à pandemia”, afirma Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein.

“Com as trocas no ministério e a ambiguidade do discurso fica muito difícil engajar a população. Isso compromete não só o combate à pandemia, mas também às outras doenças, como cardiovasculares e oncológicas, por exemplo.” A mesma questão foi levantada no Estadão nesta quinta-feira por Jamal Suleiman, infectologista do Hospital Emílio Ribas. “Quando tem esse tipo de dicotomia, acontece de a pessoa ouvir aquilo que for mais confortável.”

Para Mario Scheffer, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, não houve uma coordenação nacional nem com o ministro anterior da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Ele afirma que essa falta de estratégia está na raiz das dificuldades no enfrentamento à pandemia.

“Muitos dos problemas dos Estados e municípios na falta de insumos, respiradores e equipamentos de proteção, baixa expansão dos leitos de UTI, dificuldade de contratação de médicos e profissionais têm a ver com a ausência de diretrizes, de ações nacionais e liberação insuficiente de recursos pelo Ministério da Saúde”, diz o professor da Universidade de São Paulo (USP).

Sem coordenação

Enfermeira especializada em gestão de saúde e integrante da força-tarefa da UFRJ, Crystina Barros concorda com o colega. “Os municípios estão agindo como podem, mas sem suporte, sem uma rede coordenada como deveria ser”, sustenta. “O ministério deveria ser o grande articulador, mas, na medida em que isso não é possível, perdemos uma oportunidade de gestão eficiente de recursos, leitos, profissionais e medicamentos que poderia salvar vidas.”

Especialistas temem que a posição contrária à ciência adotada por Bolsonaro tenha um impacto negativo na escolha do novo ministro. “Com suas qualidades e defeitos, os dois ministros (Mandetta e Teich) estavam ouvindo a ciência, estavam tentando adotar políticas que fazem sentido do ponto de vista científico”, avalia o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da Universidade Federal de Pelotas. “Mas eles não conseguem se manter no cargo por pressão do governo, representado pelo presidente, para que não se ouça a ciência. O que estamos vivendo é um embate constante entre a ciência e a negação da ciência e acho pouco provável que o governo consiga um ministro da Saúde respeitado por seus pares que se submeta a negar a ciência.”

A escolha de um ministro da Saúde que não siga as orientações da OMS e da comunidade científica internacional pode ser desastrosa para o País. “A saída de Teich anuncia o pior”, aponta Mario Scheffer. “Se o próximo ministro se agarrar ao fim da quarentena e ao uso generalizado de cloroquina, sabidamente ineficaz, teremos uma tragédia sanitária. Serão milhares de mortes que seriam evitáveis, em proporções muito maiores do que a pandemia já impõe.”


Militares no poder são cúmplices de mais um ato irresponsável do macabro Governo Bolsonaro

Carla Jiménez
El Pais

Saída do Nelson Teich após menos de um mês mostra que as Forças Armadas legitimam uma gestão vista como genocida e evocam as memórias mais tristes que mancharam o nome da instituição

  ANDRE BORGES / GTRES
Bolsonaro durante um ato militar em setembro do ano passado.

Os militares brasileiros que estão no poder desenterram as memórias mais tristes de seu passado de vergonha da ditadura com um presente caótico à mercê do Governo Bolsonaro. Alinhados ao discurso e à gestão diversionista do presidente, deixam claro que endossam cada ato irresponsável do mandatário em plena pandemia de coronavírus. Há mais de 200.000 infectados e quase 14.000 óbitos de brasileiros oficialmente, sem contar aqueles que não foram notificados. A saída do ministro da Saúde Nelson Teich antes mesmo de completar um mês no cargo é só mais um desses atos inconsequentes.

Teich caiu por um embate irracional sobre isolamento social e protocolos de uso da famigerada cloroquina. O medicamento, que já caiu em descrédito até mesmo nos Estados Unidos, virou uma obsessão para Bolsonaro, mesmo sem eficácia comprovada. É apenas uma maneira de se contrapor à ciência, aos governadores, aos seus críticos políticos e, ao fim e ao cabo, à realidade.

A arrogância de Bolsonaro para brincar no cargo de presidente se estende à instituição. A desfaçatez macabra do líder da nação, também. O presidente que falou “E daí?” para as mortes, quando o país somava mais de 5.000 óbitos confirmados, e fez alarde de churrasco e passeio espalhafatoso de jet ski quando o Brasil somava então mais de 10.000 vítimas, tem no corpo militar seu cúmplice. Um desprezo com valores humanos e um código de honra que a própria instituição prega.

Jair Bolsonaro já é mote de piada entre chefes de Estado. Visto como genocida mundo afora, o que não é culpa da imprensa ou de interlocutores mal-intencionados que estariam sendo guiados por interesses políticos, como sugeriu o vice-presidente Hamilton Mourão em artigo publicado nesta quinta-feira. Os fatos falam por si. A saída de Teich é destaque em todo o planeta num momento em que todas as nações lutam para atenuar os efeitos trágicos da peste. Não é preciso ser tão inteligente para admitir que trocar duas vezes um ministro da Saúde em meio à pandemia demonstra uma total falta de estratégia e a adesão a um método camicase de governar um país de 210 milhões de pessoas.

No imaginário brasileiro, os militares estampam a ideia de ordem e disciplina. Foi a partir de 2014, diante dos escândalos derivados das notícias da Lava Jato, que eles retomaram a visibilidade como alternativa de poder. O segundo Governo Dilma se afundava em denúncias e perdia apoio popular. Era o momento de rechaço da sociedade com a classe política, que Bolsonaro soube manejar como ninguém. Vendeu-se como alternativa mesmo sendo parte do mesmo status quo político por décadas.

Generais ganharam voz nesse período por repudiar a corrupção e o caos social que o petismo, segundo eles, representava. Em abril de 2018, o general Villas Boas, então comandante do Exército, fez estardalhaço com um tuíte às vésperas do julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula que poderia livrá-lo da cadeia. “Asseguro à nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”, escreveu ele.

O que pareciam interesses patrióticos e valores concretos da instituição é passível de reinterpretação. Os militares patrocinam hoje um presidente enrolado num processo do Supremo que aponta uma tentativa de interferir em investigações que podem comprometer sua família. O repúdio à impunidade não existe aqui? O conceito de paz social que reinava na cabeça de militares como Villas Boas no passado também fica desbotado no presente. Se algum deles está confortável de acreditar que existe paz com as confusões do presidente que acaba de perder o seu segundo ministro da Saúde em um mês, é preciso deixar claro que as bandeiras que erguem valem apenas como régua aos seus adversários. Acreditam que a democracia está a salvo com um presidente que participa de atos que sugerem fechamento do Supremo e do Congresso. Enxergam os brasileiros como subalternos que precisam obedecer o comandante da tropa, sem perceber o tamanho das contradições que revelam.

Em julho de 2018 o hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, também se posicionava como uma das vozes que rechaçavam conluios com deputados do Centrão, quando a candidatura de Bolsonaro era lançada. “Se gritar ‘Pega Centrão’, não fica um meu irmão”, ironizou Heleno no evento, parafraseando a música cujo verso original é “Se gritar pega ladrão...” Hoje, se vê abraçado aos deputados que negou no passado.

Os militares haviam submergido depois das desastradas tentativas de estender o Governo militar nos anos 80. Carregam até hoje cadáveres de inocentes, como o jornalista Vladimir Herzog, ou a vergonha de colocar crianças em salas de tortura. Decisões tomadas na cúpula, e não nos porões como se acreditou até pouco tempo. Voltaram à tona depois da queda de Dilma Rousseff, com a oportunidade de expor o melhor que a instituição de fato carrega. A realidade, porém, tem dado espaço a uma faceta que o Brasil lembra bem nos tempos de exceção. Bancar uma política de Estado que não dá valor às vidas de inocentes, que repete arroubos autoritários, e nega a realidade. Comprometem-se com um Governo que pretende forçar a abertura da economia, ampliando a guerra aberta com governadores — a despeito da multiplicação de vítimas por covid-19 que isso pode representar.

As operações militares em comunidades do Rio nos últimos anos já haviam deixado sequelas deploráveis. O assassinato do músico Evaldo dos Santos Rosa com 80 tiros em abril do ano passado é só um dos vários exemplos. Agora o Brasil vive sob um presidente que fomenta o caos que outrora o Exército renegava. Mas para os militares, tudo bem. Não há demérito em entrar para a História com mais uma gestão truculenta. A vida de quem se opõe a suas verdades continua valendo nada no século 21.


Seis erros de Bolsonaro no combate ao coronavírus

O Globo

Da ‘gripezinha’ ao ‘não sou coveiro’, presidente menosprezou crise, trocou ministros e entrou em choque com governadores

  Foto: SERGIO LIMA / AFP
Bolsonaro cumprimentando seus apoiadores na manifestação de 15 de março. 

RIO - Desde o início do surto de Covid-19 no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro vem colecionando erros no combate ao vírus. Menosprezou a agressividade da doença e declarou ser contra o isolamento. Respondeu com ironia sobre as mortes, espalhou notícias falsas, errou previsões e números.

Minimizou a doença

Em 10 de março, quando estava em Miami, Bolsonaro afirmou que a crise era “fantasia” e que “não é isso tudo que a grande mídia propaga”. Um dia depois, a Organização Mundial da Saúde declarou pandemia.

Em 15, 16 e 17 do mesmo mês, Bolsonaro chamou de “histeria” a preocupação com a propagação. No dia 20, o presidente disse que “depois de uma facada, não seria uma gripezinha que vai me derrubar”. Quatro dias depois afirmou que, por seu histórico de atleta, não precisaria se preocupar.


Descumpriu o isolamento

Mesmo com orientação do Ministério da Saúde e decreto do Distrito Federal, Bolsonaro participou de manifestação com apoiadores em 15 de março e 19 de abril. No dia 24, mostrou-se contrário ao isolamento social horizontal em seu pronunciamento.

Em 29 de março, o presidente fez um passeio por várias lojas de Brasília. Em 7 de maio, reuniu ministros e empresários e os levou para conversar, de surpresa, com Dias Toffoli, presidente do STF, para afrouxar o isolamento.

Saída de ministros

Após divergências sobre isolamento, Bolsonaro demitiu o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em 16 de abril. O substituto foi Nelson Teich, que pediu demissão na última sexta-feira. Sergio Moro, que comandava a pasta da Justiça e Segurança Pública, demitiu-se em 24 de abril, por tentativa de interferência na Polícia Federal. 


Desrespeito às vítimas

Em 20 de abril, sobre o aumento de vítimas fatais, o presidente respondeu a jornalistas que não era coveiro. Oito dias após, quando o país registrava 5.050 óbitos, disse: “Sou Messias, mas não faço milagres”. Para 9 de maio, Bolsonaro marcou um churrasco, que depois disse ser “fake”.


Dados errados

Em março, Bolsonaro afirmou que a quantidade de óbitos por Covid-19 em 2020 não alcançaria a quantidade de mortes por H1N1 em 2019 (796). Em 30 de abril, o presidente compartilhou no Facebook uma notícia falsa que dizia que a OMS incentiva a masturbação na primeira infância.

Nos últimos dias, Bolsonaro tem usado uma estimativa — que não diz de onde é — de que 70% da população brasileira vão pegar o novo coronavírus. Na terça-feira, o presidente teve uma publicação no Instagram marcada como falsa, ao comparar os números de mortes de doenças respiratórias de 2019 e 2020.

Desavenças com governadores e prefeitos

Por visões opostas no enfrentamento à crise, Bolsonaro criou desavenças com governadores e prefeitos. Para o governador do Rio, Wilson Witzel, Bolsonaro “nunca deu à pandemia a importância que ela merece”. Em reunião, em 25 de março, João Doria, de São Paulo, fez críticas ríspidas ao presidente, o que vem se repetindo.



Bolsonaro livra agentes públicos de responsabilidade por erros durante pandemia

Deutsche Welle

MP editada pelo presidente determina que, devido ao "contexto de incerteza acerca das medidas mais adequadas", só pode ser punido quem cometer "erro grosseiro" manifesto ou tiver agido com intenção de causar dano.
    
 Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem
 minimizado os riscos do novo coronavírus

O presidente Jair Bolsonaro editou nesta quinta-feira (14/05) uma medida provisória (MP) que isenta funcionários públicos de responsabilidade em casos de erros no combate ao novo coronavírus. A MP foi publicada no Diário Oficial.

Os agentes públicos apenas poderão ser responsabilizados nos âmbitos civil e administrativo se se houver "dolo ou erro grosseiro", "manifesto, evidente e inescusável, praticado com culpa grave" e "com elevado grau de negligência, imprudência ou imperícia".

A medida provisória trata tanto de ações ou omissões no enfrentamento da emergência de saúde pública como do combate aos efeitos econômicos e sociais decorrentes da pandemia de covid-19.

O erro grosseiro deve ser determinado "levando em conta uma série de fatores" que não estão previstos "fora do contexto da pandemia".

Entre eles estão "os obstáculos e as dificuldades reais do agente público, a complexidade da matéria e das atribuições exercidas, a falta de informações na situação de urgência ou emergência e as circunstâncias práticas que houverem imposto, limitado ou condicionado a ação ou omissão".

Além disso, deve ser considerado "o contexto de incerteza acerca das medidas mais adequadas para enfrentamento da pandemia da covid-19 e das suas consequências, inclusive as econômicas".

"O mero nexo de causalidade entre a conduta e o resultado danoso não implica responsabilização do agente público", diz o texto.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem minimizado os riscos do novo coronavírus e se colocado contra medidas de isolamento social.

A MP tem força de lei e já está em vigor, apesar de ainda depender de aprovação do Congresso Nacional.

Segundo o boletim mais recente o Ministério da Saúde, o Brasil tem 13.149 mortos em decorrência do novo coronavírus e quase 190 mil casos confirmados. Mais de 78 mil pessoas se recuperam da doença no país.


****** COMENTANDO A NOTÍCIA:


Segundo informou a Folha de São Paulo, Ministros do STF veem como vaga e inconstitucional MP que protege agente público na pandemia. Medida editada por Bolsonaro diz que poderão ser punidos aqueles que 'agirem ou se omitirem com dolo ou erro grosseiro'. A medida, em todo o seu conteúdo, acaba sendo um salvo para uma farra  de impunidades, tornando-se um salvo conduto para qualquer tipo de arbitrariedade.. Que o Congresso ou deixe caducar esta maluquice, ou devolva ao seu autor, com carimbo de RECUSADA POR SER INCONSTITUCIONAL.