terça-feira, abril 21, 2020

Parabéns, presidente, sua estratégia está dando certo

Comentando a Notícia



 O nosso presidente, Doutor Genocida, amparado e auxiliado pela Tríade Maligna, formada pelos 01,02 e 03, todos devidamente orientados pelo Lúcifer dos Filósofos, está nos proporcionado uma lição de como se pode condenar um país inteiro à doença e, se possível, à morte. 

Passeios, não uso de máscaras, apertos de mão e abraços afetuosos, aglomerações nas ruas, padarias e na porta do Alvorada, vão fazendo a festa dos bolsominions que, efusivamente fazem passeatas e invadem redes sociais esparramando seu ódio compulsivo, suas mentiras descaradas, suas difamações maldosas, tudo que estiver ao alcance desse imenso exército de estúpidos, idiotas e fantoches, com o objetivo de dar força à pandemia, uma aliança macabra com o vírus que não poupa ninguém, independente de classe social ou econômica. 

E a estratégia está se configurando plenamente exitosa, presidente. As pessoas já saem às ruas despreocupadamente, se amontoando nas lojas, mercados, filas de banco, lotando o transporte coletivo, comércio aberto, principalmente nas periferias dos grandes centros urbanos, afrouxando, com seu incentivo fúnebre, o isolamento e o distanciamento social. O resultado é o que vemos nos últimos dias: grande aumento de infectados, elevação crescente do número de mortos, caos na saúde pública de  São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Fortaleza. Mas não se preocupe: este caos ainda vai se espalhar pelos demais estados para sua alegria genocida.  

Além disso, a pandemia contribui decisivamente para reduzir o déficit da previdência, reduzindo o números de benefícios e aposentadorias a serem pagos.  Assim, vamos comemorar a morte de muitos velhinhos..

Portanto, não há como reconhecer sua competência maligna, gerada pelo enorme esforço pessoal no sentido de tornar o vírus presença permanente entre nós. Até os cemitérios estão ficando lotados, e com isso, a economia das funerárias estão gerando os empregos pelos quais você tanto reclama.  Várias cidades estão construindo hospitais de campanha e aí temos maias empregos. E os profissionais de saúde, hein, nunca houve tanta oferta de vagas. E assim a gente  vê crescer número de vagas para motoboys nos serviços de delivery, motoristas de ambulância, maqueiros,  e por aí vai.

A população, presidente, parece ouvir seus conselhos genocidas: cada vez mais esta história de isolamento e distanciamento social vão se tornando coisas do passado. Que se dane esta tal de ciência.

E esta história de parar a economia para salvar vidas o que é que tem? A economia é mais importante, que importância tem uns milhares de doentes e mortos? São apenas estatísticas. Deixem esta história prá lá, salvem a economia, preservem os empregos, mesmo que não reste ninguém para preenche-los. O importante é levantar a bandeira da economia.

Como vemos, o Brasil não tem do que se queixar: enquanto for governado pelo Doutor Genocida e sua camarilha de defenestrados, não há perigo de dar certo e nos livrarmos da pandemia. Seu nome ficará definitivamente gravado na história de desastres e calamidades públicas. O senhor, presidente, é um vencedor. Mais uma vez, Doutor Genocida, muitos parabéns e meus pêsames. As trevas estão festa e o senhor se tornou seu grande e maior herói. Os coronazinhos estão pulando de alegria. VIVA A PANDEMIA!

Contra a recessão, FMI se alinha à OMS

Notas & Informações, 
O Estado de S.Paulo

Boas políticas sanitárias, como o isolamento social, tornarão mais provável a reativação da economia a partir do segundo semestre e algum desafogo em 2021

Conter a pandemia é condição para a retomada econômica, e isso dependerá de medidas como o isolamento social, sustenta o Fundo Monetário Internacional (FMI) em documento sobre as perspectivas mundiais. Economistas e diretores do Fundo mostram-se alinhados com a Organização Mundial da Saúde (OMS), advogando medidas de prevenção para impedir o colapso dos serviços médicos. Boas políticas sanitárias tornarão mais provável a reativação a partir do segundo semestre e algum desafogo em 2021. A melhor forma de atenuar o impacto econômico da pandemia é atacar o vírus, deixaram claro, numa entrevista conjunta em 3 de abril, a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, e o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. A experiência, o conhecimento e o bom senso dos técnicos e dirigentes das duas instituições são negados pelo presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores. Todos vão morrer algum dia, argumentou Bolsonaro numa declaração recente.

Mesmo com a contenção da pandemia, o balanço geral de 2020 será muito ruim, segundo as projeções da Perspectiva Econômica Mundial (World Economic Outlook), a mais importante publicação periódica do FMI. Na pior crise desde a Grande Depressão de 90 anos atrás, a economia brasileira deve recuar 5,3% em 2020, acompanhando uma contração global de 3%, segundo projeção do Fundo Monetário Internacional.

Mas esse cálculo vale para um cenário com a pandemia chegando ao pico no segundo trimestre e amainando na segunda metade do ano. Num quadro mais tenebroso, o produto global poderá encolher 6%. Para a maioria dos países será um desastre quase inimaginável mesmo neste momento.

A retomada econômica vai depender das condições sanitárias, como já haviam afirmado, no começo do mês, os dirigentes do FMI e da OMS. A defesa da vida criará as condições necessárias para a reativação. Se a difusão da covid-19 for achatada com o isolamento social, os sistemas de saúde poderão enfrentar a doença, e isso levará à reativação, disse a economista-chefe do Fundo, Gita Gopinath. “Nesse sentido”, acrescentou, “não há dilema entre salvar vidas e salvar as condições de sustento.”[DAS FAMÍLIAS]

Mantido o isolamento, os governos terão de continuar apoiando trabalhadores e empresas. Será preciso, segundo o FMI, continuar gastando muito com os sistemas de saúde e com a ajuda às famílias durante a crise. Os bancos centrais devem persistir no estímulo à expansão do crédito. Os governos, dentro de suas possibilidades, precisam manter os cofres abertos por algum tempo.

Muitos países precisam de ajuda. O FMI já iniciou socorro a mais de 90 nações e vem concedendo e recomendando a concessão de facilidades aos endividados, além de doações e de financiamentos em condições especiais. O próprio Fundo maneja um orçamento de US$ 1 trilhão para ajuda a países vulneráveis.

Nenhuma economia ficará ilesa. O crescimento chinês deve passar de 6,1% em 2019 para 1,2% em 2020. Os Estados Unidos devem sofrer contração de 5,9% neste ano. No ano passado houve expansão de 2,3%. Mas a retomada será sensível, em 2021, se a pandemia for contida como no cenário básico. Nesse quadro o Brasil crescerá 2,9% no próximo ano, bem abaixo da média global de 5,8%, por causa das severas limitações do País.

Os cenários incluem um severo choque financeiro. Os emergentes entraram numa tempestade perfeita – pandemia, queda do preço do petróleo, aumento da aversão ao risco e perspectiva de recessão global. Essa avaliação está no Relatório de Estabilidade Financeira Global, também divulgado ontem. As moedas de países exportadores de commodities, como Brasil, Colômbia, México, Rússia e África do Sul, caíram mais de 20% em relação ao dólar no primeiro trimestre, movimento em boa parte explicável pela fuga de capitais.

A recuperação exigirá, em 2021, um duro reparo dos fundamentos econômicos, a começar pelas contas públicas. Mas tudo será pior se a precipitação prejudicar o combate à pandemia. Mais que o atraso na retomada, haverá muitas mortes a lamentar.

Covid-19 desafia 3 autocratas de grupo cético apelidado ‘Aliança do Avestruz’

Paulo Beraldo, 
O Estado de S.Paulo

Líderes de Nicarágua, Turcomenistão e Bielo-Rússia – grupo em que a revista ‘Economist’ incluiu Brasil e ao qual acusou de ignorar pandemia – sofrem crítica interna incomum por ditar ordens contra isolamento

  Foto: Vasily Fedosenko/Reuters 
Em meio à pandemia de coronavírus, campeonato
 de MMA não foi suspenso na Bielo-Rússia
  
A maior parte do mundo tomou medidas para conter o coronavírus. Alguns países, porém, ignoram a pandemia. Na semana passada, a revista The Economist colocou Jair Bolsonaro ao lado de Alexander Lukashenko, que está há 26 anos no poder na Bielo-Rússia, do ditador do Turcomenistão, Gurbanguly Berdymukhamedov, e de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua. Segundo a publicação, eles não levam o vírus a sério.

Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, apelidou o grupo de “Aliança do Avestruz”, em referência ao mito de que o bicho enterra a cabeça na terra quando enfrenta perigo. Além dos riscos à saúde pública, a negação acarreta custos políticos. A dissidência na Nicarágua está fervilhando. Pela primeira vez em duas décadas, o presidente bielo-russo vem sendo criticado no país. A oposição no Turcomenistão, quase toda no exílio, também aumentou as críticas ao presidente.

Na Nicarágua, o comércio funciona, as crianças continuam frequentando as aulas e a bola segue rolando no campeonato nacional de futebol. Ortega esteve sumido por 34 dias, mas reapareceu na quinta-feira e disse que o vírus é um “sinal de Deus”. “Declarar quarentena é uma medida alarmante e extremista”, disse o presidente, que não explicou o que pretende fazer com os 28 mil kits de testes doados pelo Banco Centro-Americano de Integração Econômica – epidemiologistas dizem que o número de casos positivos não cresce, pois simplesmente não se testa ninguém no país. 

O mesmo filme se repete na Bielo-Rússia, governada por Lukashenko, que chamou a pandemia de “psicose” e decretou que ninguém morrerá de covid-19 sob o seu comando. “Declaro isso publicamente”, disse o autocrata, no dia 13, quando autoridades sanitárias já contabilizavam 29 mortes. Contra o vírus, ele recomendou à população sauna e 50 mililitros de vodca por dia.  

No Turcomenistão, o presidente também promove uma solução inusitada. Berdymukhamedov determinou que seus ministros usem a fumaça de uma erva chamada “harmala”, um alcaloide, para matar os “vírus invisíveis aos olhos”. Nos próximos dias, além da Nicarágua, o Estado mostra como a pandemia está sendo tratada pelos líderes colocados pela Economist entre os mais negacionistas do mundo.

Quando fechar, quando abrir

William Waack, 
O Estado de S.Paulo

Bolsonaro não é o único chefe de Estado que não sabe como sair do dilema

A realidade se encarregou de lembrar Jair Bolsonaro de que ele pode trocar de ministro quanto quiser, mas não pode trocar quanto quiser de política de saúde. Os limites aplicados às vontades do presidente – não importam méritos ou motivações – foram antes de mais nada institucionais. Em princípio, não é mau sinal.

Entrou como freio uma estrutura federativa que, no caso do combate ao coronavírus, concede aos operadores do SUS uma grande margem de ação. E os operadores são, em primeira linha, governadores e prefeitos. Além da eterna crise fiscal, eles se ressentem hoje sobretudo de falta de coordenação política, e estão assustadíssimos com a nada remota probabilidade de colapso de partes do sistema de saúde. Clamam por liderança.

É outro problema que veio junto de Bolsonaro e que a crise do coronavírus apenas escancarou. O presidente acha que seu poder vem da caneta, que ele diz não ter pavor nenhum de usar (mas não pode). Na verdade, o poder presidencial no Brasil vem de algo que o atual ocupante do Planalto renunciou a aplicar ou o faz de forma inconsistente, errática e subordinada exclusivamente ao curtíssimo prazo de redes sociais: ditar a agenda política.

Sob o avanço da doença, a postura de Bolsonaro consiste o tempo todo em “salvar” seu governo, que ele enxerga exclusivamente pelo prisma de uma ameaça de crise social urdida por adversários reais ou imaginários mancomunados para destruir a economia e criar o caos. As manobras que faz para neutralizar inimigos (governadores, por exemplo) e afastar obstáculos ao que considera necessário realizar (o ministro da Saúde e o isolamento social, por exemplo) são perfeitamente racionais dentro desse quadro mental que beira a paranoia.

O problema é muito maior e, mesmo em seu jeito tosco (Bolsonaro sobre Bolsonaro), o presidente fala diariamente de um dilema para o qual os principais chefes de governo nas democracias liberais ainda não encontraram saída. Em termos bastante brutais, trata-se de saber até quando precisa durar o fechamento de economias antes que a devastação delas se torne irrecuperável. Na outra ponta, reabrindo as economias, trata-se de saber qual é o limite tolerável do número de mortos, a partir do qual a falência de qualquer carreira política é irrecuperável.

Projeções e análises de curvas estatísticas sobre economia e saúde pública permitem no máximo contornos de cenários nebulosos, sem horizonte de tempo e qualquer “certeza”. Em outras palavras, dirigentes políticos ao redor do mundo democrático liberal estão sendo obrigados a “sentir” o dia a dia de temperaturas políticas e situações de degradação econômica e social que parecem ser, neste momento, muito mais abrangentes e que aparentemente estão reagindo timidamente ao inédito volume de medidas de estímulo e combate à recessão.

Para os que se sentem fascinados por entender qual papel exercem personalidades na História, a atual crise e sua imprevisibilidade oferecem alguns contrastes eloquentes. Donald Trump, por exemplo, ziguezagueia exibindo seu narcisismo (ele se proclamou um “gênio muito estável”). Angela Merkel, na outra ponta, demonstra uma postura próxima ao estoicismo (filha de um teólogo protestante em país comunista). E Jair Bolsonaro?

Chegou ao Palácio do Planalto na crista de uma onda política e social que ele apenas em parte entendeu e controlou, onda que vai ficar parecendo apenas uma marola diante das proporções da crise de saúde e economia que começamos a enfrentar agora. Nela, Bolsonaro não aprendeu a nadar, e está se afogando.


Drauzio Varella prevê 'tragédia nacional' por coronavírus: 'Brasil vai pagar o preço da desigualdade'

Ligia Guimarães - @laigous
Da BBC News Brasil em São Paulo


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O médico Drauzio Varella diz que se arrepende
 de ter sido otimista em relação ao novo coronavírs

Prestes a completar 77 anos em maio, o médico cancerologista Drauzio Varella diz que se arrepende de já ter sido otimista a respeito do novo coronavírus. Na época em que começaram a surgir as primeiras informações sobre o vírus na China, em dezembro do ano passado, ele diz que, como muitos, considerou que se tratava de uma doença de baixa letalidade, como pareciam indicar os dados disponíveis. "Eu participei desse otimismo e me recrimino por isso hoje."

Considerado parte do grupo de risco para a covid-19 pela faixa etária, o médico, escritor e comunicador tem vivido uma rotina profissional intensa nas últimas semanas, mesmo sem sair de casa. Concilia as reuniões matinais diárias do recém-criado grupo "Todos pela Saúde", que ele integra como sete técnicos que trabalham para direcionar uma doação de R$ 1 bilhão feita pelo Itaú Unibanco ao combate do coronavírus, com as demandas que recebe como médico, tirando dúvidas e enviando orientações a respeito da doença.

Vencer o avanço da pandemia no Brasil, pondera, exigirá estratégias e obstáculos diferentes do que foi observado em países da Europa e da Ásia. A principal peculiaridade brasileira é a imensa desigualdade social, que impõe condições de vidas muito distintas para ricos e pobres, limitando o acesso de grande parte da população às práticas que previnem o contágio, como lavar as mãos, comprar álcool gel e praticar o isolamento social.

Há no país 35 milhões de brasileiro sem acesso à rede de água potável, segundo dados do Instituto Data Brasil de 2017. Em 2018, antes da crise do coronavírus, chegou a 13,5 milhões o número de brasileiros vivendo abaixo da linha da extrema pobreza, com menos de R$ 145 por mês.

É esse contexto que, na previsão de Varella, levará o país sem dúvida a uma "tragédia nacional" durante a pandemia.

"Eu acho que nós vamos ter um número muito grande de mortes, vamos ter um impacto na economia enorme, uma duração prolongada", prevê, destacando que a naturalização histórica das mazelas sociais do país será o principal determinante de tal tragédia.

"Agora é que nós vamos pagar o preço por essa desigualdade social com a qual nós convivemos por décadas e décadas, aceitando como uma coisa praticamente natural. Agora vem a conta a pagar. Porque é a primeira vez que nós vamos ter a epidemia se disseminando em larga escala em um país de dimensões continentais e com tanta desigualdade", diz, em entrevista à BBC News Brasil, concedida por meio de teleconferência.

Na pandemia, fica mais evidente a ameaça da desigualdade social a todos os segmentos da sociedade, na visão do médico. "Enquanto tivermos essa disseminação em lugares impróprios para a vida humana, você não se livra do vírus. E é esse vírus que ameaça a todos, o tempo inteiro", afirma Varella, que prevê que a pandemia também deixará mudanças profundas na sociedade.

"Acho que o sofrimento é uma pressão para o aprendizado. Todos nós vamos perder amigos, muitos vão perder pessoas da família, e isso vai nos ensinar que não é possível viver como nós vivíamos até aqui."

Ferrenho defensor do isolamento social, uma das únicas medidas comprovadamente eficazes contra o vírus (além da higiene frequente das mãos, por exemplo), ele alerta para as possíveis consequências terríveis para os pacientes graves que, por falta de infraestrutura, eventualmente ficarem sem atendimento em meio a problemas respiratórios progressivos. "Não é que você volta para casa, sofre um pouco e passa. Não, falta de ar é o pior sintoma que existe. Porque se você tem dor, toma analgésico, você tem tosse, tem jeito de bloquear. Agora ter falta de ar é uma morte horrível. Horrível."

Leia os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil - Atualmente existem pelo menos duas versões de quarentena no Brasil. Há pessoas que estão em casa, com a família, conseguindo fazer esse home office, tendo até um momento de paz, de conviver com a família. E muita gente que está ou sem casa, ou em casas muito lotadas, sem comida, sem dinheiro. Como o senhor acha que essa situação influencia o combate brasileiro ao coronavírus?
Drauzio Varella - Nós vamos saber agora. Agora é que nós vamos pagar o preço por essa desigualdade social com a qual nós convivemos por décadas e décadas, aceitando como uma coisa praticamente natural. Agora vem a conta a pagar. Porque é a primeira vez que nós vamos ter a epidemia se disseminando em larga escala em um país de dimensões continentais e com tanta desigualdade. Na Europa, estamos vendo os problemas que eles estão enfrentando, mas são países que têm uma estrutura social relativamente bem organizada, fica mais fácil dessa maneira.

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'Agora é que nós vamos pagar o preço por essa desigualdade social', diz Drauzio

Agora estamos tendo este início de epidemia que aconteceu entre as pessoas que introduziram o vírus ao país, que vieram de fora, de viagens internacionais, e trouxeram o vírus para cá. E aí estamos vendo o que acontece nas cidades que tiveram um afluxo maior desses brasileiros que viajaram. São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus também, estamos tendo esse primeiro impacto.

Vamos ter, forçosamente, a disseminação dessa epidemia para as camadas sociais mais desfavorecidas. É assim que está acontecendo em Nova York hoje, onde os negros são representados em muito maior proporção nas mortes que acontecem nas cidades. Nós não sabemos ainda o que vai acontecer quando esses 13 milhões de brasileiros que vivem em condições precárias de habitação e que têm condições precárias de saúde também vão se infectar. Não sabemos o que vai acontecer, vamos aprender agora a duras penas. Eu rodo muito pelo país, já gravei em periferias de quase todas as grandes cidades brasileiras. E você entra nessas casas, é uma pobreza em um nível...

BBC News Brasil - Não tem condições de higiene?
Varella - Nenhuma. E você tem um cômodo em que moram quatro adultos e três, quatro crianças. De dia aquele cômodo é a sala de refeições, de noite a mesa vai para o canto e os colchões saem da parede e vão para o chão, e as pessoas dormem ali. Você não tem condição mínima de separação. Vão dizer 'fica em casa, não vão para a rua'. Como é que essas pessoas não vão para a rua?

E além do que é um nível de pobreza, que você vê o que está acontecendo: em dois, três dias essas pessoas não têm o que comer. Porque a luta é sair, e conseguir passar no supermercado e levar alguma coisa para casa, diariamente. Imagina você o dinheiro que você tem não dá para aguentar dois, três dias isolada, porque não vai ter o que comer. E a ajuda do governo, lógico que é importante, mas é difícil organizar também. As pessoas falam também 'ah, mas devia ter chegado o dinheiro'. É, vai lá organizar para ver como é, não é fácil.

BBC News Brasil - Alguns dos países que tiveram mais problemas com a doença tinham suas peculiaridades. Por exemplo, a Itália tinha muitos idosos. E os Estados Unidos, a falta de um sistema público de saúde. O senhor acha que essas questões da desigualdade e da pobreza serão as nossas principais fragilidades?
Varella - Eu acho que vai ser. Acho que vai ser a grande dificuldade que o Brasil vai enfrentar. Porque o vírus é democrático, ele atinge qualquer pessoa. Então eu disse que a gente vai pagar o preço dessa desigualdade social toda porque enquanto tiver gente vivendo nessas condições, se infectando e transmitindo o vírus uns para os outros, esse vírus vai atingir todo mundo, porque as pessoas se interconectam de uma forma ou de outra, ou dividem espaços comunitários de um jeito ou de outro.

Enquanto tivermos essa disseminação em lugares impróprios para a vida humana, como são esses, você não se livra do vírus. E é esse vírus que ameaça a todos, o tempo inteiro.

Eu, sinceramente, eu já fui otimista, sabe? Acho que no início todos nós fomos, o mundo foi otimista. E eu participei desse otimismo e me recrimino por isso hoje. Porque nós recebíamos as notícias da China e essas notícias eram muito ocasionais, e não davam ideia de como eram realmente a epidemia. Isso foi durante o fim de dezembro, que eles relataram os primeiros casos, embora a doença já tivesse se espalhando lá. Daí em janeiro, as notícias que nós tínhamos eram da mortalidade. E os dados que eles apregoavam não eram tão preocupantes.

BBC News Brasil - Se falava muito, então, da baixa letalidade...
Varella - Baixa letalidade. Ficava alta depois dos 80 anos, que chegava aí perto de uns 15%. Quando a epidemia chegou na Itália, que é um país democrático, com livre circulação de informação, nós vimos aí pelo começo de fevereiro, ao redor do dia 12, 15 de fevereiro.

Aí nós tomamos consciência da gravidade do problema. E você veja que os países não tiveram tempo de se organizar. Os Estados Unidos, com todo o dinheiro que eles têm, todos os recursos e tudo, foram pegos de surpresa.

BBC News Brasil - E o senhor acha que essa precariedade em que uma parcela muito expressiva da população vive - não estamos falando de um nicho - sendo uma condição muito antiga, histórica, o senhor acha que isso é contornável? Ou estamos fadados a uma tragédia social?
Varella - Dá para fazer muita coisa, lógico. E acho que os governos federal, estadual, estão se movimentando para isso. Na hora que você sente a dimensão do problema, todo mundo fica assustado, todo mundo pensa que tem que fazer alguma coisa. Tenho visto a movimentação em todos os cantos, mas o problema é que a transmissão é muito rápida. Eu acho que vai acontecer uma tragédia nacional, eu não tenho dúvida disso. Eu acho que nós vamos ter um número muito grande de mortes, vamos ter um impacto na economia enorme, vamos ter uma duração prolongada.

Você vê que até hoje a gente não conseguiu definir a partir de quanto tempo nós podemos relaxar. Quanto tempo? Dois meses? Três meses? Seis meses? Ninguém sabe. Ninguém arrisca dizer por ter responsabilidade. Nós não sabemos. Isso é um vírus novo, nunca existiu uma situação como essa.

Mas 'ah, a gripe espanhola'. Não compare, são situações diferentes, o mundo era diferente há cento e tantos anos atrás. Não sabemos, estamos aprendendo agora, vendo o que está acontecendo em diversos países. Mas a realidade que vale para um país não vale para todos.

BBC News Brasil - Quando o senhor fala de muitos mortos, claro que não dá para fazer uma projeção, mas quando o senhor pensa nesse cenário ruim ou provável, o que o senhor vê?
Varella - Pensa como é a doença. Você pega com vírus, que se transmite com muita facilidade, isso está provado no mundo inteiro. Começa e não para mais. Ele tem uma fase que é muito tranquila, um pouquinho de dor de garganta, uma tossezinha irritativa, a pessoa perde o olfato, uma febre baixa, nada muito importante. Esse período dura mais ou menos uns cinco dias, de cinco a dez dias, mais ou menos. E aí você tem uma divergência. Tem gente que se recupera, tiveram sintomas mínimos, às vezes até ausentes, mínimos.

Depois desses cinco a dez dias você divide os infectados em dois grupos: aqueles que vão se recuperar, mais uma semana, vai melhorando aquele cansaço, passa, ficam bons. E tem aqueles que desenvolvem falta de ar. Esses que desenvolvem falta de ar são os que têm pneumonia associada ao coronavírus. Essa pneumonia tem várias explicações fisiopatológicas, mas enfim: aí você tem os doentes que vão parar nos hospitais. Esses que vão parar, uma parte se recupera recebendo oxigênio por máscaras. E tem os que vão para insuficiência respiratória progressiva. Esses têm que ser entubados.

Então por que se defende o isolamento? Primeiro porque ele é a única evidência de medida que reduziu o número de pessoas que procuram os hospitais. A gente diz que [existe o risco de que] o sistema de saúde entre em colapso. As pessoas estão acostumadas com essa coisa de ir ao pronto socorro e demora para atender, você não é atendido às vezes, ou é mal atendido e volta para casa.

Só que agora é uma situação diferente. Você só vai para o hospital quando você tem falta de ar. E essa falta de ar é progressiva, você tem que ter os recursos de ventilação mecânica à disposição. Se você não tiver esses recursos, o que vai acontecer? Não é que você volta para casa, sofre um pouco e passa. Não, falta de ar é o pior sintoma que existe. Porque se você tem dor, toma analgésico, você tem tosse, tem jeito de bloquear. Agora ter falta de ar é uma morte horrível. Horrível.

Quando você ouve dizer na Itália os médicos que têm que decidir quais são os que vão para a UTI, quem vai ter entubação ou não, quer dizer que os outros morrem de falta de ar. Essa é a situação real e isso que tem que ser colocado para a população. Não é que vai morrer gente. Vai morrer gente com um enorme sofrimento. Por isso que os médicos defendem: vamos segurar, para que as pessoas não tenham que morrer desse jeito, que é um jeito inaceitável.

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Para Drauzio Varella, vencer o avanço da pandemia no Brasil exigirá estratégias 
e obstáculos diferentes do que foi observado em países da Europa e da Ásia

BBC News Brasil - O isolamento, no Brasil, também tem algumas peculiaridades. Há protestos contra o isolamento, até por medo do impacto econômico, há ruído nas mensagens do governo, em que um fala uma coisa e o outro fala outra. O nosso nível de isolamento é preocupante?
Varella - Em alguns lugares está indo bem. Aí voltamos à questão social. Você pega quem mora em um cômodo com três, quatro crianças, como você mantém essas crianças? Você vê as palafitas, que são os piores lugares que eu conheci no Brasil, como você mantém aquelas crianças em um barracão de madeira, no Norte ou Nordeste do país, em uma temperatura que durante o dia chega a 40 graus, 45, 50 graus lá dentro. Como é que as pessoas vão ficar lá dentro? Sem água tratada, muitas vezes, que vão buscar de balde em alguns lugares. E a gente diz lave as mãos, olha como você lava, faz tudo direitinho. É bonito para quem tem pia em casa.

BBC News Brasil - Desde o começo da pandemia os representantes das favelas têm batido muito na tecla de que é preciso ter um plano específico para as favelas. E até agora eles reclamam que não houve medida direcionada a essas localidades. O senhor acha que medidas específicas são necessárias?'
Varella - Eu acho que sim. Há iniciativas, o que não há são iniciativas que partam de órgãos governamentais direcionadas a esse público. Eu tenho confiado mais até na organização que eles estabelecem. Você vê Paraisópolis, em São Paulo, que é um exemplo maravilhoso. Puseram praticamente um inspetor ou inspetora em cada quarteirão da favela para fazer esse monitoramento. A própria sociedade tem condições de se articular. O que as autoridades têm que fazer é ter planos diretivos, que apontem o que a gente pretende com esse determinado plano.

Esse pessoal que diz que não, 'vamos fazer as crianças voltarem para a escola, os jovens que não vão ter doença grave podem se movimentar na cidade'. Primeiro: isso não foi feito em lugar nenhum do mundo, esse chamado isolamento vertical: separa os mais velhos, os frágeis, e deixa os mais jovens irem ao trabalho. Não foi feito em lugar nenhum por alguma razão, não é verdade? A Europa inteira, todos os países desenvolvidos, inclusive nos EUA em que o governo federal de início foi contra, acabaram forçados pelas circunstâncias a adotar o isolamento.

Não há prova de que esse isolamento funcione, e provavelmente não vai funcionar mesmo, porque você pode ser jovem mas os brasileiros são gregários, moram muito próximos, você pode pegar o vírus na rua e trazer para a sua casa. Nesse momento o que nós sabemos fazer é isolar. Aí as pessoas dizem: vai dar uma crise econômica. A crise econômica já está estabelecida. quando você tem uma epidemia desse jeito, se você deixar as pessoas saírem, se infectarem pela rua, à vontade, a crise econômica vai acontecer da mesma maneira. Isso é irreversível. Nós vamos ter a crise. O que os médicos defendem, e muitos economistas defendem: a crise nós vamos enfrentar de qualquer jeito. Então vamos tentar reduzir o número de doentes para abreviar duração da crise.

BBC News Brasil - O senhor citou esse projeto do Itaú, que causou muito burburinho esta semana. O que vai dar para fazer, qual o foco desse R$ 1 bilhão?
Varella - Esse projeto está na fase inicial e correndo com toda pressa do mundo porque não temos tempo para ficar fazendo grandes planejamentos, temos que adotar medidas práticas. Temos nos reunidos todos os dias, nos dividimos em áreas que o dia todo ficamos em discussões, a parte executiva é tocada pelo doutor Maurício Ceschin (ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde).

Nós estamos focando em alguns aspectos: o primeiro é a proteção dos profissionais de saúde. E isso não é uma coisa corporativa, ao contrário, porque sem os profissionais de saúde não temos condição de dar atendimento à população. Se muitos se infectarem, não vamos ter como substituí-los. Uma coisa fundamental neste momento é que todo mundo use máscara quando está na rua.

Faltam máscaras no mundo inteiro. Estamos focando em um projeto conseguindo formas de produção nacional por empresas brasileiras do maior número de máscaras possível. O governo tem dinheiro para isso, as secretarias estaduais têm dinheiro, mas não conseguem comprar nessa fase. Estamos buscando criar um estoque regulador nosso e ajudando as secretarias estaduais a conseguirem máscara pelo preço mais baixo possível.

O outro caminho é verificar quais são os problemas que nós temos neste momento nos hospitais e nas secretarias estaduais, criando gabinetes de crise. Como são: primeiro, nas secretarias de saúde ajudar a monitorar a quantidade de casos locais e os recursos hospitalares. Por exemplo: você tem uma coisa na engenharia hospitalar que diz o seguinte: em média, cada hospital você consegue aumentar em 20% o número de leitos pelo simples remanejamento da estrutura hospitalar, sem construir nada. Sem investir nada em instalações você consegue fazer esse aumento.

Quando a gente fala em R$ 1 bilhão, fala nossa, é muito dinheiro. Seria muito dinheiro nas nossas vidas pessoais. Mas se pensar que o SUS investe R$ 240 bilhões por ano, é uma grande ajuda, mas não é um dinheiro ilimitado também.

BBC News Brasil - O SUS é um ponto forte do Brasil, temos um sistema de saúde gratuito. O que o senhor diria que são os maiores gargalos?
Varella - É a desigualdade. O SUS é o maior programa de saúde pública do mundo. Os brasileiros desvalorizam o SUS. Quando eu vejo os ingleses, que põem aquela sigla NHS (National Health Service, sistema nacional de saúde em tradução livre) em tudo que é lugar, o NHS deles é uma brincadeira perto do SUS. Tem dinheiro, uma população de alto nível educacional, um país com 66 milhões de habitantes. Quero ver você dar saúde gratuita para 209 milhões em um país desigual e pobre como o nosso. Quero ver.

Imagina se nesse momento nós não tivéssemos o SUS. Então você tem um bom seguro saúde, te dá acesso aos melhores hospitais, ótimo, você pode ficar tranquila. Não, não pode. Por quê? Porque pode acontecer de o hospital maravilhoso ao qual você tem direito não tenha vaga para você. Olha o que está acontecendo nos EUA. Por que estão morrendo muito mais negros lá do que brancos? Porque os negros são mais pobres. E eles evitam ir para o hospital porque eles sabem que isso pode ser a falência da família inteira. porque não tem SUS. Você vai ter que pagar pelo menos uma parte do atendimento que ele vai receber. E ele no fim diz bom, eu vou morrer no hospital e deixar minha família endividada? Então ele segura, só vai em última consequência, como último recurso.

O SUS, na verdade, é um sistema perfeito. O problema qual foi, desde sempre? A falta de recursos. O governo federal vem há anos diminuindo sua participação no SUS. Teoricamente teria que cobrir 50% dos gastos do SUS, os municípios 25% e o Estado outros 25%. O governo federal vem diminuindo e está dando agora cerca de 44%. E os municípios, porque o prefeito está em contato com outros prefeitos, estão elevando o investimento no SUS e não têm tantos recursos, Mantivemos o SUS com problema de baixo financiamento e má gestão.

Por que o Brasil chegou nessa situação? Nos últimos dez anos, nós tivemos 13 ministros da Saúde. A média de permanência no cargo foi de dez meses, porque o Ministério da Saúde foi usado como troca política, o partido tal, para apoiar o governo, quer o Ministério da Saúde, dá para ele. O que você faz em dez meses em um país desse tamanho? O ministério tem um corpo técnico muito bom, com gente preparada que é o que tem segurado nessa questão política toda. Agora temos que nos organizar muito depressa e isso é problema.

 Direito de imagem GETTY IMAGES



BBC News Brasil - É preocupante trocar o ministro nesta altura do campeonato?
Varella - É claro que é. O ministério [sob a gestão de Luiz Henrique Mandetta] tem se comportado muito bem, tem obedecido as orientações da Organização Mundial da Saúde, tem respeitado as medidas que foram tomadas em outros países com sistemas de saúde muito mais organizados que o nosso, como é o caso da Alemanha, do Reino Unido, da França.
Eu acho que nessa hora você tirar um ministro que está fazendo um bom trabalho... Porque não é um ministro, é a equipe dele inclusive. Você tirar uma equipe que está fazendo um trabalho muito bem feito, tirar por razões políticas, é muito duro isso.

BBC News Brasil - O senhor está no grupo de risco, vivendo em quarentena e trabalhando. Como o senhor está lidando com a ansiedade?
Varella - É difícil porque eu, desde que realizei que ia acontecer uma tragédia no Brasil, eu já acordo de manhã com uma angústia, é uma angústia permanente. Pelo trabalho em educação, em saúde, que eu venho realizando há muitos anos, eu me sinto responsável, sabe. Como sei lá, como se eu fosse o ministro da Saúde. Vendo que tem que fazer, o que podemos fazer para ajudar, de que maneira o meu trabalho pode ser mais útil para as populações.

Então me liga lá no Rio Negro, uma região que eu conheço pouco, que é São Gabriel da Cachoeira. 'Ah, o senhor faz umas mensagens para a gente, para os indígenas ficarem em casa', nas comunidades. Eu não tenho como dizer não, então preparo as mensagens, leva tempo. Vem vindo as coisas de todos os lugares e eu tento selecionar para ver onde a minha atuação pode ter um impacto maior. Mas é muito difícil essa situação.

Eu lembro quando a epidemia de Aids, que a minha geração viveu bem de perto. Eu estava fazendo um estágio em um hospital em Nova York e percebi que isso ia acontecer no Brasil. E eu fiquei muito angustiado também.

Falei essa doença vai se espalhar pelo Brasil, na época não havia remédio, nem se sabia qual era o agente, o HIV não tinha sido descoberto ainda. E eu lembro que tive a mesma sensação. Mas ali havia um problema, porque você tinha que atacar o comportamento sexual. Que tudo bem, é dificílimo também, mas era um ponto específico. Aqui não, é um vírus que se espalha pelo ar, pode atingir todos. Eu de fato não consigo ficar tranquilo.

BBC News Brasil - O senhor tem algum cuidado com a sua saúde mental? Alguma rotina nesse sentido?
Varella - Olha, para meditação não tenho essa sabedoria (risos). Porque se eu parar e ficar meditando eu só vou pensar nos problemas, onde está agora, estou preocupado com o Amapá, lá não tem estrutura, não tem UTI. Aí não dá certo para mim não. O que eu tento fazer é estudar, acompanhar bem o que está acontecendo.

Pela primeira vez na vida, acho que eu parei de estudar oncologia, que é minha especialidade, e estou estudando só a epidemia. Eu às vezes leio alguma coisinha de oncologia, mas não consigo manter a atenção por muito tempo. Eu procuro ler bastante, vejo tudo o que está sendo publicado nas revistas internacionais, que agora abriram, você não precisa mais ser assinante da revista em tudo o que se refere ao coronavírus.

E eu procuro me manter calmo em relação a isso, escrever um pouco nos intervalos. E agir, da forma que eu consigo interferir, isolado desse jeito.

BBC News Brasil - Voltando à questão da desigualdade com que começamos a entrevista, o senhor acha que com esse problema evidenciado na quarentena, quando a pandemia passar, o senhor acha que, do ponto de vista de sociedade vai mudar alguma coisa? Como isso vai influenciar a sociedade?
Varella - Acho que sim, acho que vamos sair dessa experiência de maneira diferente. Acho que o sofrimento é uma pressão para o aprendizado. Todos nós vamos perder amigos, muitos vão perder pessoas da família, e isso vai nos ensinar que não é possível viver como nós vivíamos até aqui.

Você vê, anos atrás, nós decidimos sediar a Copa do Mundo e a Olimpíada no Brasil. Bonito, né. Daí construímos esses elefantes brancos que hoje são um problema para os governos estaduais, que os mantêm com dificuldade. Na época a gente dizia pô, mas esse dinheiro tem que ir para saúde, educação, não tem sentido fazer estádios. E o que eles diziam? Que nós éramos parte da elite, que queria negar aos pobres as alegrias do futebol. Muito bom. Agora estamos pegando esses estádios e transformando em quê? Em hospitais.

Essa irresponsabilidade social que nós temos tido no decorrer de tantos anos está nos levando a uma situação muito difícil agora, e isso vai deixar um aprendizado. Primeiro: o SUS nunca mais vai ser o mesmo, porque nós agora estamos conscientes da importância dele. Há quanto tempo a gente escreve e fala que o SUS é fundamental. Eu sempre cito uma frase do Gonzalo Vecina Neto (ex-presidente da Anvisa), que é um sanitarista muito respeitado por todos nós, que é; sem o SUS, é o caos. Imagina agora o que seria se não tivéssemos o SUS?

Não pode ser relegado a terceiro, quarto plano nas preocupações governamentais. Ele tem que ter prioridade. A saúde tem que ter prioridade porque nós não vamos conseguir construir um país civilizado com esse desnível de acesso, onde alguns têm acesso à melhor tecnologia, aos melhores médicos, aos melhores hospitais, e outros ficam relegados ao que é possível dar para eles. E o que é possível dar para eles não é grande coisa, porque o investimento é pequeno e a gestão é precária. Eu acho que vamos sair disso diferentes.

BBC News Brasil - Tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de abordar que eu não perguntei?
Varella - Olha, eu acho que nesse momento a gente tem que dar uma importância muito grande às máscaras. As crianças têm que usar máscaras. porque ensinando as crianças nós vamos ensinar os adultos. Não foi assim com o cinto de segurança? A criança entrava no carro, puxava o cinto de segurança e olhava para o pai: pai, põe o cinto. O pai ficava sem graça de o filho pequeno estar mandando ele colocar o cinto e passou a usar o cinto Foi assim com o cigarro também, não foi? Ensina as crianças que não pode fumar, que você vai morrer, vai ter doenças graves, a criança chegava em casa ô pai, você vai morrer, para de fumar, eu não quero ficar sem você. Um estímulo forte, uma criança que diz uma coisa dessas. A mesma coisa tem que ser com as máscaras. Nós não temos dinheiro, não encontramos máscara no mercado, faz em casa.

BBC News Brasil - E é uma coisa que vamos ter que usar por muito tempo?
Varella - Muito tempo. Porque esse vírus vai ficar um bom tempo entre nós. Não com essas características que está tendo agora, promovendo essa mortalidade absurda, mas ele vai levar muito tempo para desaparecer do contato com a humanidade.

Maioria dos brasileiros defende punição por violação de quarentena

Deutsche Welle

Segundo Datafolha, 79% dos brasileiros apoiam aplicação de algum tipo de sanção para quem desrespeita medida para conter avanço da pandemia. Advertência verbal e multa são as opções preferidas dos entrevistados.
    

Quarentena esvaziou ruas de São Paulo

A grande maioria dos brasileiros defende a aplicação de punição para aqueles que desrespeitarem a quarentena imposta para conter o avanço da pandemia de covid-19 no país. O dado é de uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada neste sábado (18/04) pelo jornal Folha de São Paulo.

Segundo o levantamento, 79% dos entrevistados apoiam a aplicação de algum tipo de punição para quem desrespeitar a quarentena. Entre eles, 43% é favor de advertências verbais, outros 33% defendem a aplicação de multas e apenas 3% acredita que a prisão seria a punição ideal nestes casos. Já 18% dos brasileiros são contra o controle sobre a circulação de pessoas.

Em relação aos tipos de punição, a pesquisa revelou que a aplicação de multas é a opção que conta com o maior apoio dos jovens entre 16 e 24 anos e assalariados com carteira assinada, 48%. Já a parcela da população mais rica prefere as advertências verbais – essa opção foi citada por 53% dos entrevistados que recebem de cinco a dez salários mínimos, entre os recebem mais de dez salários mínimos ficou em 51%.

A pesquisa do Datafolha ouviu 1.606 pessoas por telefone em todos os estados do país na sexta-feira. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.

O instituto também questionou os entrevistados sobre a decisão do presidente Jair Bolsonaro de demitir o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em meio à pandemia de covid-19. Os dados deste levantamento foram divulgados ainda na sexta-feira.

Segundo a pesquisa, 64% dos brasileiros avaliam que Bolsonaro "agiu mal" ao remover o chefe da Saúde, enquanto 25% responderam que ele "agiu bem". Outros 11% não souberam responder.

Sobre a condução da crise pelo Ministério da Saúde sem Mandetta, 36% dos entrevistados acreditam que ela vai piorar, e 32% acham que vai melhorar. No lugar do ministro demitido, tomou posse nesta sexta-feira o médico oncologista Nelson Teich.

A pesquisa também avaliou o desempenho de Bolsonaro na gestão da pandemia, que oscilou positivamente desde o último levantamento do Datafolha, no início de abril, mas ainda dentro da margem de erro.

Agora, 36% consideram seu desempenho ótimo ou bom, 23%, regular, e 38% avaliam como ruim ou péssimo. Em comparação, no início do mês 33% aprovavam a gestão do presidente, 39% desaprovavam, e 25% a consideravam regular.

Segundo o Datafolha, o nível de reprovação de Bolsonaro é mais alto entre mulheres (41%), pessoas que recebem mais de dez salários mínimos (48%) e aqueles que possuem curso superior (46%).

Questionados se o presidente tem capacidade para continuar comandando o Brasil, 52% disseram que sim e 44%, que não. Nesse quesito, homens são os que mais aprovam o mandatário (58% responderam "sim"), bem como habitantes da região Sul (também 58%).

Bolsonaro sabota o bom senso,a racionalidade e as esperanças de quem o elegeu

Tribuna da Internet
Roberto DaMatta, Estadão


Na covid-19, Bolsonaro ainda não entendeu quem é o inimigo…

É mais comum e plausível atribuir problemas e dificuldades a inimigos externos do que a sentimentos, indecisões e frustrações que vêm de dentro de nós mesmos. Bruxos, feiticeiros, demônios e inimigos são extravagantes. Pessoas deformadas, seres intermediários, gênios ou estrangeiros. Recriminamos quem não sabe bem o seu lugar ou quem simplesmente não cabe num sistema classificatório.

Basta um mínimo de saber psicológico para desvendar o problema: os inimigos nem sempre vêm de fora. De fato, quem regularmente nos ataca somos nós mesmos – ou um pedaço não percebido de nós que, inevitavelmente, vira quinta-coluna ou carrasco. Seja porque é negado, seja porque jamais é levado em conta e, eis um problema capital, seja porque nós somos inseguros ou ignorantes.


NOS TIRA A PAZ –

A covid-19 vem de fora para dentro, mas torna-se letal quando se instala dentro de nós. Então, como um pesadelo, ele nos tira a paz. É muito mais fácil lutar contra um inimigo claramente marcado do que enxergar os mecanismos que usamos para nos adoentar.

E nisso o Brasil, que experimentou todos os regimes políticos, tem sido campeão. Pois se mesmo nas democracias originais e consolidadas é complicado ser democrata, imagine fazer isso tendo como base um regime monárquico e escravocrata no qual os negros eram seres legalmente classificados como semi-humanos.

Um sistema, ademais, cujos intelectuais estavam convencidos pela ideia simplista (para não dizer cretina) de que num lugar idealizado chamado “Europa”, existiam sociedades perfeitas.

DESIGUALDADE INTERNA – 

Apesar dos dissabores, falamos com mais objetividade da covid-19 do que com o que ela, como um hóspede execrável, demanda. O problema não é só a extrema letalidade do vírus, mas como, num país de mandões, organizar as autoridades que, eventualmente, politizam o vírus para tirar da pandemia pequenas desforras como se fossem crianças disputando bolas de gude quando, na verdade, a doença nos obriga a enxergar os frutos podres de um país desgraçadamente arruinado por uma desigualdade interna da qual ele é o único responsável.

Como se a aposta no tanto pior melhor e todo esse desamor pelo Brasil não fossem suficientes, assistimos abestalhados a um teatro de horrores produzido pelo próprio presidente da República que, conscientemente, sabota o bom senso, a racionalidade e as esperanças de quem o elegeu.

Eis um líder que não sabe quem é o inimigo nesta lamentável sociedade de patrões que ainda discute se o socialismo de estado inevitavelmente autoritário é melhor do que um liberalismo econômico probo fundado na igualdade como um valor e coadjuvado por filantropia. Essa inconsciência sobre quem é o inimigo revela como somos os maiores inimigos de nós mesmos.


VARGAS E JÂNIO – 

Eu vivi o suicídio de honra de Vargas e a renúncia de Jânio Quadros – suicídios políticos que quase destruíram as esperanças de mais igualdade numa democracia incipiente. Guardando as singularidades, em ambos os casos o maior obstáculo não veio de fora, mas de dentro.

Tal como a Lisboa dos 1800 viu a família real e a sua corte abandonarem o reino, estamos vendo hoje um eleito dilapidar com gosto epidêmico e sem piedade o seu capital eleitoral. Se Vargas se matava por motivos morais, se Jânio Quadros abandonava o palco por conta de “forças ocultas” – fantasmas que podem ser atribuídos mais a Jânio do que ao sistema político –, hoje assistimos estupidificados a um presidente usar o seu papel mais para discordar, desafiar e agredir do que para executar as regras que jurou solenemente levar a sério.


O QUE FAZ O MEDÍOCRE? – 

Há um conhecido adágio na área da administração. Em geral, o medíocre prefere a mediocridade. Escolher quem é melhor pode causar o desconforto do confronto inevitável com a sua própria burrice, mas traz felicidade para a categoria ou para a terra que você lidera.

Caso contrário, faça como o personagem de Machado de Assis, o Dr. Simão Bacamarte, que se internou no manicômio criado por ele próprio porque, depois de alienar todo mundo, ele agora sabia que o louco era ele.




Guedes pede que servidores abram mão de aumento salarial por dois anos. E aí, vão colaborar com o Brasil ou não?

Natália Flach
Exame.com

O ministro da Economia voltou a defender a reforma administrativa, na qual deverá ser reduzido o número de categorias de servidores a serem contratados

 (Adriano Machado/Reuters)
Paulo Guedes, ministro da Economia: "tínhamos três torres a derrubar. A Previdência 
foi a primeira a cair e os juros também caíram. Só falta o funcionalismo público
 que não pode continuar subindo assim"

Paulo Guedes, ministro da Economia, está otimista. “Vai dar tudo certo”, disse em entrevista transmitida ao vivo pela internet, feito pelo BTG Pactual Digital. Isso porque não houve queda das exportações para a China. “Desde dezembro, sabemos que havia um problema de saúde na China, mas estávamos acompanhando principalmente o impacto econômico. Não sabíamos que seria uma pandemia. Até o momento não está havendo queda das exportações.”

“As exportações brasileiras não caíram ainda, estão subindo. A queda para Europa foi de 1%. Para os Estados Unidos, caíram mais de 30%. Para Argentina, também foi uma queda de mais de 30%. Mas a queda foi compensada pelo aumento acelerado adivinha para quem? Para a China.”

Guedes diz que são duas ondas: a primeira de saúde e de economia, e que as duas precisam ser acompanhadas concomitantemente para o Brasil não entrar em depressão. “A nossa volta pode ser em V, temos capacidade de reagir novamente. Vamos surpreender de novo o mundo.”

Segundo o ministro, o crescimento do ano passado deve ser reajustado para cima. “Na margem, [o produto interno bruto] deve ter subido 1,7% e integralmente, 1,3%”, afirma. “Além disso, em janeiro tivemos a melhor arrecadação da história e em fevereiro houve a segunda melhor. O Brasil estava decolando.”

Guedes afirma que a construção civil estava crescendo a dois dígitos, assim como o crédito privado.

Já as medidas tomadas pelo Brasil para reduzir a pandemia estão iguais ou à frente dos demais países. A Índia incluiu social, financeira e digitalmente 230 milhões de indianos. Proporcionalmente, o Brasil fez mais: 60 milhões de brasileiros serão incluídos. “Em nenhum momento, haverá um descaso com a saúde; só que precisa olhar o outro lado também: a economia”, afirmou.

O ministro lembra que o presidente Jair Bolsonaro disse que são duas ondas. “A primeira onda é da saúde. E tem a segunda da economia. Temos que trabalhar as duas ondas. Não podemos deixar virar uma grande depressão. Temos que ter todos os cuidados para salvar vidas. Mas devemos preservar os sinais vitais da economia. É como um urso hibernando. Quando ele sai da caverna, ele sai forte e sai para caçar e vai celebrar. Ele não perdeu os sinais vitais, mas economizou energia.”

Ele disse que nenhum brasileiro pode ficar para trás. “Não é hora de desentendimento entre os brasileiros, há vidas estão em jogo. E vamos sair do lado de lá da margem do rio. Preservar os sinais vitais da economia não significa sair agora do isolamento, isso é ponto futuro. Na China está acontecendo, e a Alemanha e os Estados Unidos estão pensando nisso também.”

Ao todo, o governo vai disponibilizar 700 bilhões de reais. Cerca de 500 bilhões de reais virão de receitas que o governo iria receber e que foram adiadas e de linhas de crédito disponibilizadas. Além disso, anunciou 100 bilhões de reais para auxílio para informais, mais 51 bilhões de reais para complementação salarial e 34 bilhões de reais para folha de pagamento salarial – e o governo fica com 85% do risco, mas protege empregos e empresas. “Também estamos criando programa de microcrédito e fazendo consórcio de bancos para salvar setores brasileiros com debêntures conversíveis.”

“Tínhamos três torres a derrubar. A Previdência foi a primeira a cair e os juros também caíram. Só falta o funcionalismo público que não pode continuar subindo assim. Será que o funcionalismo público pode ajudar? Ficar sem receber aumento neste ano e no ano que vem? Não vamos tirar o poder de compra de ninguém, mas vamos fazer um favor aos brasileiros e ficar sem pedir aumento por dois anos? Será que é possível?”

Segundo o ministro, o salário do funcionalismo cresceu 50% acima da inflação 17 anos seguidos, e ele voltou a defender sua reforma administrativa, na qual deverá ser reduzido o número de categorias de servidores a serem contratados. O fim da estabilidade para os novos contratados também deve entrar na pauta.

“Muita gente chegou a pedir queda de 25% do salário, redução da jornada já que muita gente ia ficar em casa. O funcionário está em casa em isolamento. Poderia muito bem declarar redução de jornada de 30% e redução de 30% de salário? Mas não é o que pedimos. Num momento de deflação, decidimos não tirar o poder de compra.”

Para Guedes, o que vai tirar o Brasil do vale do “V” é a volta dos investimento: “não é razoável que a oitava economia do mundo seja o 106o país mais fácil para fazer negócios no mundo. A nossa saída da crise será com investimentos, com reforma tributária, com respostas privadas para problemas públicos. Assim que tivermos sinais de saída do isolamento social, vamos conversar com o Congresso para aprovar medidas de saneamento e de independência do Banco Central. Vamos criar um bom ambiente”. “Não quero vender sonhos, mas o mundo estava em desaceleração e o Brasil em recuperação. Não podemos nos esquecer disso. Até agora o efeito externo foi nulo, ganhamos exportação em agronegócio e mineração. Não veio o coice externo”, disse.

O ministro diz que não sentiu que a economia foi desorganizada, de tal modo que impeça uma recuperação rápida. “Os sinais vitais ainda estão preservados, mas a coisa está ficando crítica – não sabemos quanto tempo segue a pandemia. Será que a economia aguenta mais dois meses (maio e junho) com isolamento? Eu não sei. O novo ministro disse que vai se basear em dados e testes para estudar uma saída programada.”

Perguntado sobre a possibilidade de no futuro ter de aumentar impostos, Guedes que essa não será a saída. “O Brasil tem impostos demais, é um manicômio de impostos. Precisamos desmobilizar ativos. O nosso escape será por investimentos privados.”

Sobre ventiladores, a previsão era fabricar 1.500 por mês. “Estamos em 2.400. Se sobrar ventilador, não tem problema. É melhor sobrar do que faltar.”

Focus

Com o avanço da pandemia de coronavírus e a ameaça real de retração global, a expectativa de evolução da economia brasileira em 2020 caiu mais uma vez, de queda de 1,96% para recuo de 2,96%, conforme o Relatório de Mercado Focus divulgado nesta segunda-feira, 20, pelo Banco Central. Há quatro semanas, a estimativa era de crescimento de 1,48%.

Para 2021, o mercado financeiro prevê alta do Produto Interno Bruto (PIB), de 3,10%, ante 2,70% na semana anterior. Quatro semanas atrás, estava em 2,50%.

No Focus agora divulgado, a projeção para a queda da produção industrial de 2020 passou de 1,42% para 2,25%. Há um mês, estava em alta de 1,00%. No caso de 2021, a estimativa de crescimento da produção industrial passou de 2,95% para 2,90%. Era 2,50% quatro semanas antes.


****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Até agora sempre que se falou em redução de salários do funcionalismo, a ideia foi rechaçada drasticamente. Esta seria a melhor forma desta casta elitista colaborar com o país. Mas qual? Desde quando esta gente deixa de se servir do país? Agora, Guedes acena com a possibilidade de congelamento. Querem saber? Duvido que eles aceitem. Servidor público brasileiro só quer mamar ao máximo que puder. O resto do país que se exploda!!!!!r 

Pandemia deve lançar mais 5,4 milhões de brasileiros na extrema pobreza em 2020

Pedro Capetti e Vitor da Costa*
O Globo

Caso previsão do Banco Mundial se confirme, percentual de miseráveis subirá a 7% da população, maior patamar desde 2006

  Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Ambulante Silvio Xavier, 39 anos, em ponto de ônibus, em Padre Miguel. 
Ele utiliza o transporte público para vender doces 

RIO — Há quatro anos, a carteira assinada de Silvio Xavier, de 39 anos, deu lugar à informalidade. Desempregado, passou a ganhar a vida como vendedor de balas nos ônibus do Rio. Nas últimas semanas, com as medidas de contenção do coronavírus, a atividade informal se transformou numa luta pela sobrevivência.

Xavier, que nunca recebeu Bolsa Família, viu a renda cair de uma hora para a outra. Ainda sem qualquer ajuda do governo para se proteger em casa, ele resolveu se arriscar e voltar às ruas, contrariando as recomendações de especialistas e autoridades de saúde.

trabalhar e ganhar algum dinheiro. Mas a gente almoça mais tarde para depois só jantar — contou Xavier, na última quinta-feira, ao voltar para casa após 13 horas nas ruas esvaziadas com R$ 28, menos do que ganhava antes da crise para formar uma renda média mensal de R$ 1.200.

Xavier é um dos 5,4 milhões de brasileiros que devem entrar na extrema pobreza este ano por conta da pandemia de coronavírus, segundo estimativa do Banco Mundial. A instituição também prevê retração de 5% no Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2020, a maior em 120 anos.

— O café da tarde foi suspenso aqui em casa. O da manhã não, porque ainda tenho que sair para

Se isso se confirmar, o número de pessoas vivendo com menos de US$ 1,90 por dia ou R$ 145 por mês (o Banco Mundial usa câmbio diferente do atual para o cálculo porque considera a comparação do poder de compra entre os países), no país aumentará de 9,3 milhões para 14,7 milhões até o fim de 2020.

A taxa de pobreza extrema chegaria a 7% da população, o maior patamar de miseráveis desde 2006, quando 7,2% dos brasileiros viviam nessas condições.

Parte desses “novos pobres” nunca recebeu benefícios do governo, e agora precisam de ajuda. Xavier, que mora com a mulher e três filhos numa casa alugada na Favela da Maré, na Zona Norte, se inscreveu para receber o auxílio emergencial de R$ 600 por três meses oferecido pelo governo, mas ainda não recebeu. Enquanto espera, recebe mantimentos da organização Gerando Vidas, que apoia desempregados.

— Se não receber a ajuda do governo, vou ter que continuar indo para a rua — diz o vendedor de balas.

17,9 milhões já receberam

Epidemiologistas e a Organização Mundial da Saúde (OMS) defendem o isolamento social dos que podem ficar em casa como o caminho para enfrentar o coronavírus. Especialistas afirmam que é preciso encontrar meios para amparar os mais pobres para além da renda básica prometida por três meses diante das consequências econômicas da pandemia. 

Em um ano, o país colocará mais gente na miséria que na crise econômica dos últimos anos. Entre 2014 e 2019, o país jogou 3,8 milhões de brasileiros nessa situação.

No domingo, a Caixa Econômica Federal informou que já foram finalizados 40,5 milhões de cadastros para o auxílio emergencial, sendo que 23 milhões tiveram os dados checados. Considerando os registrados no Cadastro Único, 17,9 milhões já receberam, segundo o banco. A estimativa é que 70 milhões de pessoas recebam.

— Com a paralisação da economia, temos que contar com o Estado entrando muito forte para amparar os grupos mais vulneráveis — diz Francisco Menezes, coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).


 . 
 Por que muita gente ainda não recebeu? Muitos informais eram “invisíveis” para o governo porque não recebiam qualquer assistência social, como Bolsa Família ou seguro-desemprego. A Dataprev diz levar cinco dias úteis para checar dados de inscritos e liberar o dinheiro. Muitos tiveram dificuldade na inscrição por ter CPF irregular. 

Nos últimos anos, a lenta recuperação do emprego, puxada pela informalidade, não chegou aos mais vulneráveis. A renda do trabalho ficou praticamente estagnada enquanto o PIB per capita retrocedeu ao patamar de 2009. Na avaliação do economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, esse quadro dificultou o combate à extrema pobreza no país, já limitado por questões orçamentárias e políticas. Agora, o desafio é maior.

— Tivemos um desajuste no Bolsa Família. Concedemos o 13º pagamento, mas tiramos mais de 1,1 milhão do programa, e a fila voltou. Embora tivesse uma retomada lenta em curso, essa crise do coronavírus chega num cenário no qual a extrema pobreza avançou 71% desde 2015, após ter caído 73% entre 1990 e 2014. Ou seja, não recuperamos nem o que perdemos — diz Neri.

Solidariedade como saída

Apesar de anunciado há um mês, o auxílio emergencial ainda não chegou a muitas famílias. Carla Grigório, de 43 anos, viu a renda com a venda de turbantes e acessórios na rua despencar de R$ 3 mil para zero.

Mãe solteira e com quatro filhos em casa, ela recebeu R$ 120 do Projeto Mães das Favelas, da Central Única das Favelas (Cufa), que pretende beneficiar cerca de 40 mil mulheres durante a pandemia. Ainda ganhou mantimentos de vizinhos no Complexo do Lins, na Zona Norte, onde vive e também é líder comunitária.

— Estamos dependendo de doações, mas o Lins não tem tanta visibilidade. Não há projetos sociais apoiados pelo Estado. Quando me perguntam, não sei dizer o que vamos fazer. Procuro não pensar no amanhã, só no hoje — diz.

  Foto: Guito Moreto/Agência O Globo 
Família que vive em Parque Azul, Magé, no Estado do Rio de Janeiro 

A pobreza deve se agravar ainda mais no Nordeste, onde o número de informais ultrapassa o de trabalhadores com carteira assinada em seis dos nove estados. Segundo estudo da consultoria iDados, 21,1 milhões de brasileiros que se enquadram nos critérios para receber o auxílio emergencial estão no Nordeste, o correspondente a 51,2% da população adulta da região.


Combate mais difícil

Para Victor Hugo Miro, coordenador do Laboratório de Estudos da Pobreza da Universidade Federal do Ceará, o governo terá que atuar com foco específico para reduzir essas desigualdades na região. E sob condições muito diferentes das do período anterior a 2014, com crescimento econômico, emprego e renda em alta: 
]
— Agora estamos prevendo uma recuperação lenta da atividade econômica. Será combater a pobreza em condições adversas.

Os especialistas avaliam que a pandemia pode favorecer uma expansão da rede de proteção social no país, apesar das restrições orçamentárias. Para Neri, da FGV, essa será uma decisão política:

— Os pobres se tornaram invisíveis. Eles estão em alta agora, mas isso não garante nada. Nos últimos cinco anos houve um descuido da sociedade como um todo com essa parcela. Embora estejamos falando desse benefício emergencial generoso para os mais pobres, essas coisas mudam rapidamente.

'Invisíveis’, 5,5 milhões de informais correm risco de perder ajuda de R$ 600

Douglas Gavras, 
O Estado de S. Paulo

Segundo estudo do Instituto Locomotiva, esse é o número de brasileiros que têm direito ao auxílio emergencial do governo, mas não estão no Cadastro Único, não têm conta em banco nem acesso à internet; fazer o dinheiro chegar é desafio

  Foto: Werther Santana/Estadão
Dificuldades. Viviane e Adriano dizem nunca terem contado com o
 poder público para os serviços mais básicos, como água, luz ou saneamento 

Quando o casal Viviane Santos, de 26 anos, e Adriano da Silva, de 39, soube do auxílio emergencial de R$ 600 para informais e autônomos de baixa renda por conta da pandemia do novo coronavírus, a sensação foi de alívio. “Mas, quando vimos a burocracia para conseguir o recurso, foi como se o fim do túnel ficasse mais longe”, diz Viviane. 

“O trabalho desde a pandemia está reduzido a zero”, conta Adriano, que é pedreiro. Sem emprego fixo e morando em uma ocupação na periferia de São Paulo, eles nunca contaram com o poder público para o básico: água, luz ou saneamento. O acesso à internet, que Viviane usaria para marcar faxinas, também é raro. “É como se a gente fosse invisível”, resumem.

Entre os economistas, é quase um consenso que o benefício de R$ 600 para desempregados, autônomos e informais de baixa renda é fundamental para evitar o colapso de milhões de famílias, que ficaram sem rendimento durante o isolamento social. Mas fazer o recurso chegar a quem não fazia parte de programas como o Bolsa Família ou estava inscrita no Cadastro Único (um instrumento do governo que identifica as famílias de baixa renda) é mais difícil do que parece.

O primeiro desafio era inscrever 11 milhões que não estavam no Cadastro Único do governo, mas têm direito ao benefício, segundo cálculo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O segundo é fazer o pagamento. Para quem não tem conta em banco, a Caixa Econômica Federal prometeu criar 30 milhões de poupanças digitais, movimentadas via aplicativo.

Só que mais de 5,5 milhões de brasileiros com renda de até meio salário mínimo, elegíveis para receber o benefício, não têm conta em banco ou acesso regular à internet, mostra pesquisa do Instituto Locomotiva, feita a pedido do Estado. Parcela quase invisível da população, são eles que correm o maior risco de não receber o auxílio. 

“A crise do coronavírus tirou renda e jogou para a pobreza muita gente que tinha pouco, mas não era alvo de programas sociais. O vírus joga luz a problemas que já existiam, como a baixa renda dos informais, e acentua uma desigualdade histórica”, diz Renato Meirelles, que é presidente do Instituto Locomotiva.

Vida real. Onde o poder público não chega, quem mais precisa se une. No Rio, é uma associação de camelôs que cadastra e faz o acompanhamento do pedido de benefício para colegas sem internet ou conta em banco. “Fazemos o pedido e monitoramos o andamento”, conta a ativista Maria de Lourdes do Carmo. “Se a gente não se unir, todo mundo vai sofrer.”

“A ajuda vem de ONGs e associações que nunca tiveram a simpatia deste governo”, lembra o diretor da FGV Social, da Fundação Getulio Vargas, Marcelo Neri. “É preciso agir: a crise chegou após cinco anos de aumento da pobreza. No fim de 2019, a desigualdade de renda do trabalho, enfim, parou de subir, mas deve voltar a crescer.” 

“O auxílio é bem desenhado. O desafio é chegar a todos”, diz Pedro Herculano de Souza, técnico do Ipea que estuda a desigualdade de renda.

Na sexta-feira, a Caixa Econômica Federal informou que 9,1 milhões de pessoas que se inscreveram para o programa pelo aplicativo ou site receberiam a parcela de R$ 600 até hoje.

Procurado, o banco não respondeu até a conclusão desta reportagem como o governo fará para que o auxílio chegue às famílias sem conta e acesso à internet e como elas irão movimentar as poupanças digitais. 

Ipea: País tem 1,6 milhão de pessoas vulneráveis à covid-19 com dificuldade de acesso a UTI

Daniela Amorim, 
O Estado de S.Paulo

Levantamento considerou apenas a população de baixa renda e que tem mais de 50 anos de idade

RIO - O Brasil tem cerca de 1,6 milhão de pessoas vulneráveis ao novo coronavírus com dificuldade de acesso ao tratamento intensivo em caso de infecção grave pela doença, segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O levantamento considerou apenas a população de baixa renda e que tem mais de 50 anos de idade, morando a uma distância maior do que cinco quilômetros percorridos de carro até unidades de saúde capazes de fazer a internação de pacientes em leitos de Unidade de Terapia Intensiva com respirador mecânico. O estudo abrange apenas hospitais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nas 20 maiores cidades do País.

A dificuldade de acesso a diagnóstico e atendimento médico adequado tem potencial para aumentar as estatísticas de letalidade da doença, disse Rafael Pereira, técnico de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais do Ipea.

"Isso pode ter um efeito sim sobre o aumento da letalidade. A baixa disponibilidade de leitos aumenta muito as chances de estrangulamento de tratamento de saúde. Com o estrangulamento, pode aumentar a mortalidade, seja por covid seja por outras enfermidades", ressaltou Pereira.

Nas cidades investigadas, 41% da população de baixa renda na faixa etária acima de 50 anos têm dificuldade de acesso à internação pelo SUS. O Rio de Janeiro tem o maior contingente de vulneráveis, 384,5 mil pessoas, 55,5% da população nessa faixa etária e condições precárias de renda. Em São Paulo, 263,1 mil moradores enfrentam a mesma dificuldade.

A cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, tem a situação mais grave em relação ao tamanho da população local: 82,4% dos habitantes acima de 50 anos e de baixa renda têm dificuldade de acesso à internação em UTI pelo SUS, o equivalente a 67 mil moradores.

Em Duque de Caxias, entre os 121 casos confirmados com a doença até a quarta-feira (15), houve 20 mortes e outros quatro óbitos suspeitos eram investigados. A cidade tem apenas dois hospitais que oferecem leitos de UTI com respiradores mecânicos pelo SUS. A cada 10 mil moradores, há apenas 0,3 leito de terapia intensiva em Duque de Caxias, quando a recomendação do Ministério da Saúde - em condições normais, fora de pandemia - é de um leito de adulto em UTI a cada 10 mil habitantes.

O município da Baixada Fluminense, de pouco mais de 905 mil habitantes, tem ainda 13,5 mil pessoas vulneráveis com dificuldade de acesso a atendimento médico pelo SUS para realização de triagem e atendimento médico, o que pode resultar em subnotificações de casos de Covid-19.

Nas 20 maiores cidades brasileiras, cerca de 228 mil pessoas de baixa renda e acima de 50 anos moram a mais de 30 minutos caminhando até uma unidade de saúde que poderia fazer triagem e dar encaminhamento para pessoas com casos suspeitos do novo coronavírus.

"Obviamente que se você tem uma parcela grande da população que tem dificuldade de acesso a serviços de saúde, você aumenta a chance de subnotificação e de ser encaminhado para receber o tratamento adequado", concluiu Rafael Pereira.