sábado, fevereiro 13, 2021

Dança macabra sobre mais de 200.000 corpos brasileiros

 Jamil Chade

El Pais

As cenas da festa para 300 pessoas promovida nesta semana por Arthur Lira são um insulto às milhares de famílias brasileiras que ainda buscam forças e razão para viver diante da perda de parentes e amigos

DIDA SAMPAIO / ESTADÃO CONTEÚDO

Arthur Lira, ao centro, festeja sua eleição para presidente da Câmara 

com festa numa casa no Lago Sul, área nobre de Brasília, para cerca de 300 pessoas.


“Zig e zig e zig, morte em cadência...

Golpear uma cova com seu calcanhar,

A morte à meia-noite toca uma melodia para dançar,

Zig e zig e zag, em seu violino”.

Henri Cazalis, em seus versos que inspirariam o poema sinfônico de Camille Saint-Saëns, jamais imaginou que estaria narrando uma cena do século 21, em plena pandemia e num longínquo território do planalto central.

Mas a realidade é que seu poema não passa de uma paródia antecipada da realidade do Brasil atual.

As cenas que o Brasil conheceu, com a festa para 300 pessoas promovida nesta semana por Arthur Lira ao ser eleito presidente da Câmara de Deputados, são um insulto às milhares de famílias brasileiras que ainda buscam forças e razão para viver diante da perda de seus avós, filhos, esposas ou amigos queridos.

Imagens ofensivas, que geram náuseas. Uma comemoração do sepultamento de valores. Uma festa para iniciar uma procissão com o caixão de instituições. Danças para mandar um recado de que, em meio à corrupção de ideais, a democracia pede oxigênio.

São cenas que chocam diante da ousadia em desafiar um vírus, o bom-senso, a ciência e a decência.

Não bastou termos um dos maiores números de casos da covid-19 do planeta. “Zig e zig e zag, a morte continua rasgando incansável seu instrumento”.

Não bastou um Governo que promoveu políticas deliberadas para permitir a circulação do vírus e desmontou estruturas destinadas para lidar com a saúde. “Zig e zig e zig, Que Sarabanda!”.

Tampouco bastou “passar a boiada”, forjar planos de poder, silenciar minorias pelo abandono e asfixiar sonhos. “Zig e zig e zag, vemos na banda o Rei brincar com o vilão!”.

Numa festa que foi um retrato da decadência moral, ecoava pelos salões um dos trechos finais do poema de Cazalis: “Viva a morte”.


Hora de pensar o futuro

 Editorial

O Estado de S.Paulo

O centro democrático deve se unir em torno da construção de um projeto de país que não passe por Bolsonaro e Lula da Silva

É cedo para dizer se as eleições de Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado, respectivamente, representaram uma vitória política do presidente Jair Bolsonaro. O Estado revelou com detalhes como o Palácio do Planalto mobilizou mundos e fundos – bilionários fundos “extraorçamentários”, é bom dizer – para angariar votos para os dois candidatos da preferência do presidente da República. Porém, já nos primeiros dias dessa nova “coalizão”, ficou bastante claro o desalinhamento entre as agendas do Executivo e do Legislativo.

Se, por um lado, ainda não é possível atestar o triunfo político de Bolsonaro – só o comportamento do Congresso nos próximos dias vai dizer –, por outro, é seguro afirmar que as vitórias de Lira e Pacheco, sobretudo a do presidente da Câmara, representaram um abalo na formação da chamada frente ampla de oposição ao governo com vistas à eleição geral de 2022. Basta ver como três dos partidos com maior consistência ideológica – PT, PSDB e DEM – se comportaram nessa espécie de “ensaio geral” que foram as eleições legislativas.

O racha no DEM foi ainda mais profundo do que o visto em outros partidos de centro e centro-direita. Em entrevista ao jornal Valor, Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara dos Deputados, disse, em termos duros, que foi traído por quem considerava um “amigo de 20 anos”, em referência a ACM Neto, presidente da legenda. “Ele (ACM Neto) entregou a nossa cabeça em uma bandeja para o Palácio do Planalto”, disse Maia, que cogita agora ir para um partido que “será de oposição ao presidente Jair Bolsonaro”.

Ao apostar todas as fichas nas vitórias de Lira e Pacheco, Bolsonaro pode ter mirado no que viu e acertado no que não viu. A ele interessa muito o enfraquecimento do movimento de formação de uma frente ampla de oposição a seu governo que esteja absolutamente comprometida com a defesa inarredável das liberdades democráticas e dos valores republicanos consagrados pela Constituição, com as reformas estruturais de que o País tanto precisa e, não menos importante, com uma gestão responsável da crise sanitária, para, mais adiante, permitir a reconstrução do País uma vez superados os efeitos mais adversos desse flagelo da pandemia.

Quem também ganha com os reveses políticos do centro democrático é o sr. Lula da Silva. Não por acaso, o dono do PT e candidato em 2022, caso lhe sejam restituídos os direitos políticos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou que Fernando Haddad começasse a “rodar o País” para fazer campanha. “Ele (Lula) me chamou para uma conversa no último sábado (dia 30/1) e disse que não temos mais tempo para esperar. Me pediu para colocar o ‘bloco na rua’ e eu aceitei”, disse o ex-prefeito de São Paulo.

Portanto, de um lado, tem-se Bolsonaro usando a força da Presidência da República para cooptar apoio político e manter a adesão de sua base de apoiadores mais aguerridos no patamar em que está – cerca de 25% do eleitorado. De outro, há o PT colocando o “bloco na rua” desde já, e não para lançar Haddad candidato, como pode parecer, mas o próprio Lula, e com isso explodindo pontes na própria esquerda, na prática impedindo a composição da frente democrática de oposição a Bolsonaro.

Caso os partidos que compõem o centro democrático não aprendam com os erros cometidos em 2018 e construam desde já uma alternativa viável ao descalabro que é o governo de Jair Bolsonaro, não é remota a chance de que a Nação, em 2022, se veja diante do infortúnio de ter de escolher, mais uma vez, entre duas propostas populistas e irresponsáveis para o País, à esquerda e à extrema direita.

O centro democrático deve se unir em torno da construção de um projeto de país que não passe mais pela degradação política que tanto Bolsonaro como Lula tão bem representam. É hora de egos feridos e vaidades darem lugar à concertação em torno de projetos vitais para o Brasil. Caso contrário, em 2022, os brasileiros estarão diante de uma escolha terrível – uma repetição do passado recente.


Um governo entre a crueldade e a burrice

  Deutsche Welle

Seja no Enem, na anunciada privatização das estatais, na economia ou na gestão da pandemia: Bolsonaro e seus ministros parecem não dar uma dentro, e o país afunda no caos. Seria má-fé ou pura incompetência?    

"Crueldade sempre foi a marca registrada

 de Bolsonaro – ou será falta de noção?"

"Nunca atribua à malícia o que pode ser adequadamente explicado pela burrice" – diz o provérbio inglês que ficou conhecido como Navalha de Hanlon. É frequentemente citado para questionar teorias da conspiração.

A questão da hora é saber se o presidente Jair Bolsonaro está levando o Brasil deliberadamente ao caos ou se tudo não passa de um acidente de percurso. Seja no Enem, na anunciada privatização de empresas estatais, na política econômica ou na luta contra a pandemia: Bolsonaro e seus ministros parecem não estar conseguindo dar uma dentro. Para onde quer que se olhe atualmente, reina o caos no Brasil.

Vejamos outros países: dificilmente alguém duvidaria que os problemas dos países europeus com a aquisição de vacinas contra o coronavírus se baseiam em um mau planejamento, ou seja, em uma espécie de estupidez; quem iria querer acusar os políticos de agir de forma maldosa, ou seja, dificultando conscientemente a compra de vacinas? Mesmo governantes autocráticos tentam ser capazes de mostrar sucesso na luta contra o vírus. Porque deixar o próprio povo sofrer é algo que só os espíritos sádicos ousam fazer.

Maldade ou estupidez?

Mas como classificar o ostensivo não uso de máscara ou o desrespeito deliberado às regras de distanciamento social do presidente Jair Messias Bolsonaro? A luta contra os lockdowns, contra o distanciamento social, contra as vacinas, a recusa em ajudar um SUS em pleno colapso? A insistência na inútil cloroquina? A incapacidade de levar oxigênio a Manaus? Maldade ou estupidez?

O colunista Mathias Alencastro, da Folha de S. Paulo, ao comentar recentemente a tentativa amadorística de busca de vacinas na Índia, citou outros termos. "No governo Bolsonaro, é impossível separar a incompetência da má-fé e a crueldade da falta de noção."

Crueldade sempre foi a marca registrada de Bolsonaro – ou será falta de noção? Armas, tortura, matança, insultos, difamações, ridicularizar os outros, ameaçá-los – tudo isso já conhecemos dele.

Palavras bonitas, gestos conciliatórios, empatia e consolação – são coisas que lhe são estranhas. Quase se poderia ter a impressão de que ele está procurando o caos, o colapso. "Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê?", foi a reação dele ao incêndio do Museu Nacional no final de 2018. "Fizemos nossa parte", foi o seu comentário há poucos dias diante dos gritos de "não consigo respirar!" vindos de Manaus.

Deixar sangrar

Os apelos por um impeachment de Bolsonaro vão se esvair. Em vez disso, ele poderá continuar por mais dois anos. Porque ninguém vai querer assumir tais responsabilidades num Brasil atolado no atual caos. Isso é algo que a classe dominante do país aprendeu com o indigno impeachment de Dilma Rousseff: no papel de Michel Temer, ninguém é feliz. Preferível é deixar sangrar até morrer nas próximas eleições. Se isso vai dar certo, é outra coisa.

Porque as eleições da semana que vem no Senado e na Câmara dos Deputados ameaçam nos ensinar outra lição. Partidos, deputados e senadores vão faturar nababescamente para poupar Bolsonaro de um impeachment. Faltam, pois, ainda dois anos, em que teremos que nos perguntar: é tudo agora estupidez ou maldade, incompetência, má-fé ou falta de noção? Ou tudo junto?

Antes de dinheiro, falta espírito público

 Editorial

O Estado de S.Paulo

Desinteresse pela sorte dos brasileiros preside a discussão sobre a volta do auxílio emergencial

É excruciante a demora do governo e do Congresso para encontrar as fontes de financiamento para retomar o auxílio emergencial para os milhões de cidadãos destituídos de renda em razão da pandemia de covid-19. O auxílio acabou em dezembro, mas a pandemia não – e lá se vão dois meses e meio sem que o poder público tenha sido capaz de se entender sobre tão urgente demanda.

Do mesmo modo, causa indignação a notícia de que caiu em 76% o total de leitos hospitalares para tratamento de covid-19 em São Paulo que são financiados pelo governo federal. O motivo é tão prosaico quanto assombroso: terminou em 31 de dezembro a validade da emenda constitucional que criou o chamado “orçamento de guerra”, que previa recursos extraordinários para o enfrentamento da pandemia. Sem a emenda, faltou dinheiro.

Nos dois casos, espanta a incapacidade do governo de Jair Bolsonaro de se antecipar a problemas com data marcada para acontecer. Ante a óbvia escalada da pandemia – em Manaus, por exemplo, já se fala em uma “terceira onda” –, é simples irresponsabilidade deixar de tomar providências tempestivas. A esta altura, nada disso era imprevisível – ao contrário, o recrudescimento da pandemia foi antecipado insistentemente pelos cientistas.

Como o governo é liderado por um presidente inimigo da ciência e indiferente ao sofrimento de seus governados, nada disso deveria espantar. Enquanto o mundo civilizado passou boa parte de 2020 na corrida por uma vacina, Bolsonaro e o intendente que responde pelo Ministério da Saúde dedicaram-se a fazer propaganda de remédios sem eficácia contra a covid-19 e potencialmente perigosos, ao mesmo tempo que o presidente questionava a segurança dos imunizantes. A vacina só se tornou prioritária para o governo quando passou a ser vista por Bolsonaro como um possível ativo eleitoral.

É esse desinteresse pela sorte dos brasileiros que preside a discussão bizantina sobre a volta do auxílio emergencial. “Acho que vai ter uma prorrogação”, disse Bolsonaro, como se fosse um comentarista político, e não o presidente da República. Um presidente não “acha” nada: ordena de acordo com a lei. É para isso que serve o poder que as urnas lhe conferiram em 2018. Se a volta do auxílio emergencial é indispensável – e é –, então cabe ao presidente mandar que aconteça o mais rápido possível, tomando as decisões políticas necessárias.

Mas é precisamente isso o que Bolsonaro não quer fazer, porque tomar decisões políticas acarretam ônus diversos. Quando era deputado do baixo clero, Bolsonaro não tinha esse problema: podia exercer sua irresponsabilidade à vontade. Como presidente, contudo, deve enfrentar o peso de suas escolhas e indicar ao País uma direção clara.

Talvez o maior símbolo atual da falta de direção do governo Bolsonaro seja o incrível atraso da aprovação do Orçamento, que deveria ter sido votado no ano passado. Sem o Orçamento, não há planejamento possível, algo especialmente grave numa pandemia.

O caso da obscena queda do financiamento federal de leitos para tratamento de covid-19, que atinge vários Estados além de São Paulo, é exemplar: “Não houve planejamento. O Orçamento de 2021 é o mesmo de 2019. Simplesmente desconsiderou o Orçamento de 2020, como se a pandemia tivesse terminado em 31 de dezembro”, disse o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, Carlos Lula. Segundo a Secretaria da Saúde paulista, a situação obrigou os gestores locais a gastarem mais de uma hora para outra.

Ao contrário das aparências, nada disso é de improviso. A pandemia serve aos demagogos como argumento para a irresponsabilidade fiscal, que hipoteca o futuro do País, mas rende votos. Como o Estado noticiou, os novos comandantes do Congresso, apadrinhados de Bolsonaro, querem relançar o auxílio emergencial fora do teto de gastos e sem cortar nenhuma outra despesa. Fala-se de novo em reeditar a famigerada CPMF como forma de financiar o auxílio. Seria o coroamento da desfaçatez, mas, a esta altura, já se sabe que o problema não é falta de dinheiro, mas de espírito público.


Como a China fez Bolsonaro comer em sua mão

 Alexander Busch

 Deutsche Welle

É uma arte diplomática como Pequim conseguiu, durante a pandemia, impôr seus interesses perante o Brasil. Bolsonaro caiu cegamente na armadilha. E agora sua sobrevivência política depende também dos chineses.    

 

Bolsonaro presenteia casaco do Flamengo ao presidente 

da China, Xi Jinping, em outubro de 2019

Até uns meses atrás, o presidente Jair Bolsonaro era contra qualquer tipo de vacinação contra o coronavírus. Especialmente se a vacina fosse da China. Seu governo, disse ele categoricamente em outubro, não compraria a Coronavac. Bolsonaro chegou a suspender temporariamente o processo de registro do imunizante junto à Anvisa. Repetidamente, seu filho Eduardo e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, se revezaram para atacar a China como o culpado por trás da pandemia.

Mas agora está tudo calmo. Bolsonaro e sua claque interromperam suas investidas contra Pequim e a vacina chinesa. A razão: as entregas de insumos por parte da China para a produção da vacina no Instituto Butantan, em São Paulo, não se materializaram. A produção, que havia acabado de começar, corria o risco de parar. E isso se tornou um problema existencial para o presidente populista de direita.

Porque, por um lado, seus índices de aprovação caíram abruptamente com o fim do auxílio emergencial. Por outro, cada vez mais brasileiros querem ser vacinados. As condições catastróficas em Manaus e a fraca gestão da crise por parte do ministro da Saúde podem ter contribuído para isso. O Brasil é hoje um dos países com o menor número de pessoas que se declaram antivacina do mundo.

Tudo isso parece ter causado uma mudança de sentido em Bolsonaro. Agora o governo está se esforçando para obter vacinas. Mas isso é complicado quando você já destruiu pontes, como com a China. Oficialmente, o presidente recorreu ao governo em Pequim para obter novos ingredientes de vacinas. Quando as autoridades chinesas anunciaram novos suprimentos, Bolsonaro lhes agradeceu gentilmente pela boa cooperação.

Mas tudo isso não saiu de graça. Nos bastidores, o ministro das Comunicações, Fabio Faria, teve que mexer os pauzinhos. Pois não há dúvidas sobre o que a China espera em troca de entregas rápidas de vacinas: o acesso irrestrito da Huawei na licitação da rede G5. O governo brasileiro tem até agora se recusado a admitir a empresa estatal chinesa, assim como muitos outros países ocidentais, especialmente os Estados Unidos. A acusação é de que que a China usaria a tecnologia para fins de espionagem.

Mas, desde o final da semana passada, isso parece não ser mais um problema. A Anatel, órgão regulador das telecomunicações, declarou, de repente, unanimemente que não havia objeções ao envolvimento da Huawei. E no caso de o governo Bolsonaro mudar sua política em relação à Huawei, como já fez algumas vezes, foram tomadas providências: os suprimentos semanais da China para a produção da vacina provavelmente ainda serão existencialmente importantes até o fim do ano, para que a campanha de vacinação não pare. Os leilões para a rede móvel devem ser realizados em paralelo, o mais tardar na metade do ano. É difícil pensar em uma moeda de troca diplomática melhor para fazer com que outro governo cumpra sua parte.

No futuro, é provável que as escolas diplomáticas em todo o mundo analisem em detalhes a estratégia da China em relação ao Brasil nos últimos meses. É uma jogada de mestre como Pequim, a partir de uma posição de fraqueza, domina agora as relações com o Brasil. Afinal, a pandemia começou sua propagação global na China. E a China é dependente das commodities agrícolas do Brasil.

Mas agora a influência política chinesa no Brasil é maior do que nunca. Bolsonaro caiu na armadilha. Pequim agora também decide sobre sua sobrevivência política.

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A força do querer

 Elena Landau*, 

O Estado de S.Paulo

Bolsonaro não quer privatização e Guedes não entra nessa bola dividida

  Foto: Eraldo Peres/AP

Bolsonaro e Guedes assumiram em um ambiente

 muito favorável para as privatizações. 

Os 90 dias chegaram e nada de privatização. Ninguém tinha levado a sério a bravata do ministro. Mais uma. Mas serviu para gerar divertidos memes nas redes sociais.

Da promessa do trilhão às quatro grandes privatizações, nada saiu do papel. Guedes coloca a conta desse fiasco no Congresso. Seja o suposto boicote do presidente da Câmara, seja a resistência política insuperável, a culpa é sempre dos outros. Bom lembrar que Bolsonaro, e Guedes como seu fiador, assumiu com um ambiente muito favorável à aprovação de um amplo programa de privatizações. Interditado nas campanhas presidenciais desde 2002, o assunto foi discutido abertamente em 2018. Bolsonaro chegou a prometer vender todas as estatais criadas pelo PT. O tempo passou e nada relevante foi proposto.

O Programa Nacional de Desestatização (PND) foi criado em 1990, pela Lei 8.031. Desde então, um decreto tem sido suficiente para incluir uma empresa no PND. Só é necessária a permissão específica do Congresso para empresas cujas vendas tenham vedação legal. É o caso do Banco do Brasil, Caixa e Petrobrás. E também a Eletrobrás, já que uma lei – e não um decreto –, de 2004, retirou a holding do programa. Ou quando haja monopólio da União definido na lei, como a Casa da Moeda, ou na própria Constituição, como o segmento de minérios nucleares. Mas a Constituição, no art.173, trata a presença estatal na atividade econômica como exceção, e não como regra. Com base nele, o Executivo toma a decisão do que vender para reorganizar o funcionamento do Estado.

Um bom exemplo de articulação entre Executivo e Legislativo é o primeiro ano de mandato de FHC. Reformas estruturais foram aprovadas em 1995, por meio de um conjunto de emendas constitucionais. Foi quebrado o monopólio da União nas telecomunicações e o da Petrobrás na exploração do petróleo. Acompanhando essas alterações, vieram leis importantes como a de Concessões, a do Petróleo e a Lei Geral das Telecomunicações, além da criação de agências reguladoras.

Essas mudanças abriram caminho para a inclusão no PND do sistema Eletrobrás, e suas subsidiárias, da Companhia Vale do Rio Doce e também para a privatização da Telebrás. O objetivo, além de ajudar nas contas públicas, era atrair capital privado e introduzir maior competição e eficiência em atividades até então exploradas por monopólios estatais, melhorando a prestação de serviços públicos. O processo obedecia a uma lógica, não era uma política de varejo, como neste governo.

Hoje há universalização na energia elétrica e nas telecomunicações. Espera-se o mesmo no saneamento com o novo marco legal, aprovado mesmo após o governo deixar caducar duas MPs sobre assunto tão relevante. Apesar do ambiente político conturbado, o leilão da Casal, companhia estadual de água e esgoto de Alagoas, foi um sucesso e mais de R$ 2 bilhões serão investidos para a universalização dos serviços. Um começo auspicioso.

Ainda que tardiamente (mais de 20 anos se passaram desde a quebra do monopólio da Petrobrás), a nova da Lei do Gás avança no Congresso e vai estimular a concorrência no segmento de óleo e gás. Ou seja, quando bem explicadas, as reformas que ajudam a desestatização recebem apoio.

O governo sempre pode propor uma nova legislação, ou mesmo emendas constitucionais, quando for necessário superar impedimentos legais. Temer enviou um PL para que o Congresso autorizasse a reinclusão da Eletrobrás no PND e Bolsonaro uma medida provisória retirando a exclusividade da Casa da Moeda na impressão de notas e passaportes. A falta de convicção do governo é o que tira a urgência dessa pauta no Legislativo. A capitalização da Eletrobrás perambula pelo Congresso e a MP da Casa da Moeda caducou.

O programa de privatização não anda porque Bolsonaro não quer e Guedes não entra nessa bola dividida. De Usiminas, no governo Collor, à Celg, no governo Dilma, bastou um decreto presidencial para incluir empresas estatais no PND. Temer fez o mesmo para vender distribuidoras de energia elétrica. Até Bolsonaro usou decretos para iniciar estudos para a desestatização de algumas poucas estatais. Ele poderia incluir outras mais relevantes, como Valec, EBC, Telebrés e Infraero. É só querer.

O que o governo demora, o tempo leva.

Alerta

Na esteira da tibieza do governo, sinais preocupantes para o futuro da desestatização começam a ser emitidos no Judiciário. Em duas votações recentes sobre a legalidade de venda de subsidiárias da Petrobrás, o STF confirmou só haver necessidade de lei autorizativa para a venda de empresas-mãe. Ressalva desnecessária, já que isso nunca esteve em discussão. Se a Constituição exige lei para a criação de uma estatal, uma lei deve autorizar sua passagem para o setor privado. Como não ratificou explicitamente que a Lei do PND é uma autorização genérica, começaram especulações de que poderia haver uma revisão da jurisprudência. O que não é bom.

*ECONOMISTA E ADVOGADA 


A ética dos condensados, em meio às dificuldades crescentes da população mais pobre

 Tribuna da Internet

Guilherme Fiuza, Gazeta do Povo

 


Charge do Dóro (Arquivo Google)

Tem certas horas que é melhor falar de culinária. Vai aqui então uma receita da vovó para adoçar um pouco mais a sua quarentena vip. Pegue uma lata de leite condensado e derrame três quartos dela no seu cérebro. Espere o tempo necessário até sentir que a sua honestidade intelectual esteja 100% embotada.

Se tiver dúvidas, consulte o site do Butantã. Depois mexa bem até que todos os seus neurônios passem a chamar urubu de meu louro e egoísmo de empatia.

TAMBÉM NOS OLHOS –

Concluída essa etapa, pegue o conteúdo restante da lata de leite condensado (um quarto) e derrame nos seus olhos, para não correr o risco de se olhar no espelho. (Nota da vovó: alguns preferem realizar essa parte da receita jogando fora os espelhos de casa. É válido, mas nem sempre se chega ao ponto certo, porque às vezes uma porta de vidro ou mesmo uma tela apagada podem súbita e inadvertidamente mostrar a você a sua própria cara).

Com seu cérebro embotado e seus olhos melecados, pare um pouco de salvar a vida de ninguém pelo zoom (você merece um descanso) e pegue uma panela vazia. Não ponha nada dentro dela, porque, como já dizia vovó, panela em quarentena vip é tamborim. Agora apanhe uma colher, vá para a janela do seu belo apartamento e plec-plec-plec-plec! Assim você estará denunciando o escândalo do Leite Moça que destrói o país e põe vidas em risco, conforme você leu nas melhores fake news de grife.

O V DA VACINA – 

Aproveite que o mundo está olhando para o seu heroísmo e faça o V da vitória e da vacina. Peça à equipe científica do Butantã para te explicar que o V se faz com dois dedos. Mas se a vacina for meia-boca, como é a sua, pode fazer com um dedo só. Preferencialmente use o dedo do meio, em homenagem às cobaias que estão pagando o experimento dos laboratórios bilionários.

Você está fazendo história com o Sarney, o Dória, o FHC e o Temer – todos recomendando uma vacina que não tem estudo suficiente para idosos, mas tudo bem porque ali ninguém é idoso. Só vaidoso. Vá, idoso! Pra onde? Procura na receita da vovó.

 Agora que o seu spa está mais doce do que nunca, pegue o seu deleite condensado, misture com o seu espírito de porco e saia gritando “fique em casa”.

VOCÊ NÃO VAI ENXERGAR – 

Pode ficar tranquilo porque com o seu cérebro embotado e seus olhos grudados de Leite Moça você não vai enxergar os ônibus lotados, nem os idosos na periferia aglomerados em casa com os jovens que vieram dos ônibus lotados. Você só vai ouvir a suave cantilena da Lady Gaga te dizendo que está tudo bem na quarentena vip e o vírus está desolado do lado de fora. O corona só pega negacionista e quem não tem avião pra seguir a ciência até Miami.

Ingrediente final para o seu delicioso brigadeiro ético: pegue um laudo de eficácia do lockdown (você encontra em qualquer camelô chinês) e entregue às pessoas que estão adoecendo em casa, sem liberdade e sem emprego. Mande por motoboy, porque o que você ouviria se saísse do zoom não pode ser publicado numa coluna de culinária.


A teimosia ignorante de Bolsonaro

 Elio Gaspari

O Globo

Imaginar que seu governo seja capaz de organizar um plano coerente, como o Bolsa Família, é querer demais

Jair Bolsonaro administra a própria ignorância com o pior dos temperos, a teimosia. Em março passado ele disse que a Covid-19 era uma “gripezinha”, vá lá que fosse, os mortos em Pindorama eram apenas cinco. Em dezembro, ele disse que a pandemia estava no “finalzinho” (os mortos passavam de 150 mil) e um mês antes classificara a segunda onda de contágios de “conversinha”. Veio a tragédia do Amazonas, os mortos já são mais de 233 mil, e a média móvel ficou acima de mil por dia por mais de duas semanas. Conversinha?

O ministro da Saúde, um general da ativa, gosta de brigas. Seu secretário-executivo, um coronel, disse que o governador João Doria estava “sonhando acordado” quando anunciou que a vacinação começaria em janeiro no seu estado. Começou.

Bolsonaro acredita em muitas coisas. A cloroquina ajuda contra a Covid-19, a Amazônia não pode ter queimadas porque é úmida, e a eleição americana foi fraudada. Todas essas crenças têm devotos e, salvo os agrotrogloditas que tocam fogo na mata, nenhum deles causa grandes prejuízos aos outros. No caso da pandemia, a superstição presidencial causa danos. O coronel do Ministério da Saúde talvez não tivesse pulado na jugular de Doria se o Planalto falasse outra língua. Talvez o general Pazuello também não saísse por aí com sua maleta de cloroquina.

O estrago feito, feito está. A eleição para as presidências do Senado e da Câmara mostrou que Bolsonaro não está condenado a perder todas. Ele pode ganhar mais uma: basta esperar o dia em que começará a vacinação dos sexagenários e, em vez de ir a uma padaria numa de suas sortidas cenográficas, para entrar no fim de uma fila de vacinação.

Será um gesto de humildade, exemplo para sua infantaria e desestímulo a seus guerreiros sem causa.

O capitão encantou-se com a popularidade que lhe trouxe o auxílio emergencial e agora está correndo atrás de uma forma de alívio social para as vítimas da crise econômica agravada pela “gripezinha”. Melhor assim, até porque viu sinais de fumaça que poderiam lhe custar um retorno antecipado ao condomínio Vivendas da Barra.

Imaginar que seu governo seja capaz de organizar um plano coerente, como o Bolsa Família, é querer demais. Escravizado pela marquetagem, seu projeto tem um slogan incompreensível — Benefício de Inclusão Produtiva — e vem sendo concebido como uma árvore de Natal de jabutis para serem digeridos pelo Congresso.

A ideia de um benefício acompanhado de contrapartidas voluntárias perdeu-se na confusão da marquetagem. Afinal, um governo que se apresenta como se fosse capaz de fazer um “Plano Marshall” brasileiro é capaz de tudo. Se o general Braga Netto, chefe da Casa Civil e pai da marca de fantasia, levasse uma ideia dessas ao general George Marshall, chefe do Estado-Maior do Exército americano durante a Segunda Guerra, seria atingido por um dos acessos de fúria daquele grande chefe militar. E as broncas de Marshall eram mais pesadas que a de Paulo Guedes: “Não chamem de Plano Marshall, porque revela um despreparo enorme”. 

Por falar no general Marshall, vale repetir a orientação que ele deu ao diplomata George Kennan quando o chamou para dirigir o planejamento político do Departamento de Estado: “Evite trivialidades”.

Se Bolsonaro e suas falanges evitassem trivialidades, o governo seria outro.


A corte brasiliense

 Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Então o juiz partilha jantar e bons vinhos com um parlamentar e no dia seguinte julga se ele recebeu corrupção?

Algum tempo atrás, um ministro do STF me ligou para reclamar de uma coluna em que eu criticava o fato de ele (ministro) ter dado um habeas corpus a uma pessoa de suas relações. Não cito o nome do ministro porque isso foi solicitado por ele. Mas o teor da conversa não está incluído nessa restrição.

Foi assim: o ministro começou perguntando se eu duvidava da isenção dele naquele julgamento. Respondi que o ponto não era exatamente isso: havendo ou não dúvidas, para mim estava claro que nem ele nem qualquer outro ministro poderia julgar pessoas com que mantinha relações sociais.

O ministro respondeu que isso seria praticamente impossível em Brasília. Lá, acrescentou, todo mundo que gira em torno das diversas esferas do poder se conhece. Disse, inclusive, que mantinha ótimas relações com políticos influentes.

E me perguntou: você acha que eu não posso julgar um deputado ou senador com quem troco ideias, e até jantamos juntos?

Respondi: pois acho que não devia de jeito nenhum. Então o juiz partilha jantar e bons vinhos com um parlamentar e, no dia seguinte, julga se ele recebeu corrupção?

Logicamente, voltamos ao tema da isenção, o ministro garantindo que era capaz de separar a função de juiz de suas atividades sociais e políticas.

Estranhei a questão das atividades políticas. O ministro então comentou que frequentemente participava de negociações com membros de outras esferas de poder para administrar crises, apagar incêndios, encaminhar projetos de lei e emendas constitucionais. Tudo absolutamente normal, sustentava com vigor. 

Na verdade, isso é mesmo normal na corte brasiliense. Diversos episódios estão acontecendo neste exato momento. O então presidente do STF, Dias Toffoli, recebe para uma pizza o presidente da República, que é investigado naquela corte. Sendo que o próprio Toffoli havia poucos dias dera uma decisão favorável a um dos filhos de Bolsonaro.

A indicação de ministros para as cortes superiores é uma manobra política. Não que não existam bons juízes, mas o aspirante a cargos superiores tem que fazer política, angariar apoio entre deputados, senadores, líderes partidários e do governo, membros das cortes às quais concorre e, claro, tomar uma tubaína com o presidente da República. (Antes, era tomar uma cerveja com Bolsonaro, mas tubaína cai melhor entre religiosos e o povão. Pelo menos, eles acharam isso.)

Também é verdade que juízes, uma vez entronizados no cargo, mudam as posições que haviam assumido durante o processo de indicação. Às vezes, é traição. Outras vezes, a força dos fatos e o andamento dos processos obrigam o juiz a abandonar uma promessa. Aconteceu, por exemplo, no caso do mensalão.

Quando começou a aparecer, quase todo mundo em Brasília, incluindo jornalistas, garantia que não aconteceria nada, que estava tudo acertado entre os ministros e o governo Lula. Como se viu, não estava. Quer dizer, até poderia ter havido alguma combinação, mas a força da investigação e o vigor de alguns juízes deram um sinal claro de virada. Um avanço que depois se materializou com a Lava-Jato.

O momento atual, contudo, é uma tentativa de volta ao passado, dos “bons” tempos da corte brasiliense, quando os jornalistas também consideravam normal toda aquela promiscuidade.

Lembro-me de um debate entre jornalistas em que um deles dizia que não se podia criticar uma decisão do presidente da Suprema Corte. Ora, é claro que se pode, e é o que se faz na imprensa independente. A Corte erra, e isso, de uns tempos para cá, nem é raro.

Há alguns meses, o STJ tomou uma decisão ridícula: dizia que o comerciante não poderia dar desconto ao comprador que pagasse à vista. Seria injusto com quem pagava a prazo.

Um ministro que participara do caso me ligou dizendo que era mesmo ridículo, mas estava na lei. Ou seja, a culpa era do Congresso.

Mas, se os juízes são capazes de tantas interpretações , poderiam perfeitamente evitar o vexame. Agora, mudou. Pode dar desconto — o que aliás todo mundo fazia, com ou sem lei. Aliás, é outro problema da corte: não sabem o que acontece no país.


Muita dívida, muitas dúvidas

 Editorial

O Estado de S.Paulo

Sobra dívida e falta um compromisso claro com a gestão fiscal responsável. 

O Brasil gastaria toda a produção de um ano – soja, milho, automóveis, aviões, sapatos, serviços domésticos, transportes, sorvetes, vestidos, jogos de futebol, tubaínas, bicicletas, celulares, etc. – se fosse preciso liquidar a dívida pública em um só pagamento. O governo geral vai terminar 2020 devendo o equivalente a 100% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo as estimativas mais confiáveis. A relação ficará pouco acima de 100% nos anos seguintes, pelo menos até 2025, de acordo com projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI). O endividamento é muito mais alto que o de países pares do Brasil, lembra o secretário do Tesouro, Bruno Funchal, acrescentando: “É um alerta”.

Não há margem, disse ele, para o governo errar na gestão das contas públicas. A mesma advertência foi feita pelo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, em outro ambiente. Qualquer política produzirá mau efeito no mercado, se indicar mudança do regime fiscal ou maior demora na correção das contas públicas. Qualquer ação desse tipo, afirmou, “vai refletir-se na credibilidade do País e, por consequência, na vontade do investidor de aplicar recursos” no Brasil.

Nenhum dos dois, Campos Neto ou Funchal, falou de um perigo remoto ou meramente hipotético. As incertezas sobre a condução das contas públicas são notórias no dia a dia do mercado, nas oscilações da bolsa de valores, na evolução dos juros futuros e na instabilidade cambial, com o dólar rondando e às vezes superando a cotação de R$ 5,60, cerca de 40% mais alta que a do começo do ano.

A ampla diferença entre a dívida pública do Brasil e a dos “pares”, apontada por Funchal, aparece com muita clareza nas informações do FMI. O contraste, já bem visível em anos anteriores, torna-se mais dramático depois do enfrentamento da covid-19.

No Brasil, a dívida bruta do governo geral deve passar de 89,5% do PIB em 2019 para 101,4% neste ano e 102,8% em 2021. A relação continuará subindo e deverá atingir 104,4% em 2025. Nas economias emergentes e de renda média, o endividamento médio deve atingir 62,2% em 2020 e 71,1% dentro de cinco anos, de acordo com as estimativas do Fundo. Em muitos países a relação dívida/PIB diminuirá nos próximos anos. Em outros, será firmemente contida, depois do choque de 2020.

Os dados fiscais passaram a ter mais peso nas decisões de política monetária, observou Campos Neto, embora as projeções e expectativas de inflação continuem sendo a referência mais importante para o BC. Mas a variável fiscal afeta as avaliações do mercado e, portanto, tende a influenciar a evolução dos juros. O mercado, disse o presidente do BC, entendeu a intenção do Executivo de cuidar da questão dos gastos sociais depois das eleições deste ano. Por isso, mais importante que o tempo é saber como será “a convergência fiscal daqui para a frente”.

Mas esse comentário foi feito no meio de outubro, quando nem sequer se pode falar com alguma segurança sobre o Orçamento federal de 2021. Questões importantes para o futuro das contas públicas permanecem nebulosas, embora o ministro da Economia, Paulo Guedes, tente criar a imagem de uma administração com rumos bem definidos.

Ele tentou, por exemplo, transmitir essa imagem na declaração preparada para a reunião do principal órgão político do FMI, o Comitê Monetário e Financeiro Internacional. O texto menciona reforma tributária, desindexação, desvinculação de gastos, privatizações, fim do crédito subsidiado, “inequívoca sustentabilidade fiscal” e manutenção do teto de gastos.

A mensagem talvez seja levada a sério no FMI. Do lado de cá, o ministro precisa vender a ideia da disciplina fiscal a um presidente concentrado em interesses pessoais. Além disso, a pauta tributária continua mal explicada. A parte conhecida inclui a simplificação de alguns tributos federais, a eliminação de encargos trabalhistas e a recriação da abominável CPMF. Quem administra uma dívida igual ou superior a 100% do PIB deveria pensar em algo mais sério e mais convincente.


Moody’s sinaliza mudar nota de crédito se País não retomar ajuste fiscal em 2021

 Altamiro Silva Junior, Thais Barcellos e Cynthia Decloedt, 

O Estado de S.Paulo

Agência de classificação de risco diz que avaliação em vigor já projeta aumento de gastos para enfrentar efeitos da pandemia do coronavírus, mas ‘também prevê retomada do ajuste’ no próximo ano

  Foto: Brendan McDermid/Reuters

Na Moody's, País está apenas dois graus abaixo do piso 

para voltar a ser considerado grau de investimento. 

A vice-presidente e analista sênior do rating do Brasil na Moody’s Investors Service, Samar Maziad, disse na última quarta-feira, 14, que a agência de classificação de risco espera algum avanço na agenda de reformas ainda este ano ou no começo de 2021, como forma de enfrentar os efeitos gerados pela pandemia, como a rápida elevação da dívida pública.

“O importante é que avancem”, disse ela, acrescentando que o atual rating do País – anunciado em maio – já considerava um aumento da dívida para fazer frente aos gastos extraordinários com a pandemia. Mas também previa um esforço para retomar o ajuste fiscal a partir do próximo ano. 

“A manutenção do rating incorpora esse aumento (de gastos), mas também prevê a retomada do ajuste fiscal em 2021”, disse Samar, em evento organizado pela agência. “Se o apoio a reformas diminuir, haverá impacto negativo em nosso cenário.”

Pelos critérios usados pela Moody’s, a chamada nota de crédito soberano do Brasil é de “Ba2”, com perspectiva “estável”. O País está dois graus abaixo do piso para voltar a ser considerado grau de investimento – indicação importante para investidores estrangeiros na hora de distribuir seus recursos. 

O Brasil conquistou pela primeira vez o grau de investimento em 2008. Sete anos depois, a S&P foi primeira a tirar o selo de bom pagador, seguida por Fitch e depois por Moody’s.

A Moody’s projeta que a relação entre dívida pública bruta e Produto Interno Bruto (PIB), que era de 75,8% em 2019, supere os 97% no próximo ano. “Esperamos que o crescimento econômico se recupere em 2021. Contudo, as reformas estruturais e o ajuste fiscal serão importantes para o Brasil conseguir um crescimento sustentável”, afirmou a analista. Ela acrescentou que espera a manutenção do teto de gastos, regra que condiciona o nível de gastos à evolução da inflação. “O teto de gastos é a principal âncora fiscal do Brasil.”

Sobre a manutenção de estímulos extraordinários, como o auxílio emergencial, ela disse que dentro do teto de gastos há espaço limitado para aumentar despesas. Assim, a ideia do ministro da Economia, Paulo Guedes, de unificar programas sociais pode requerer medidas compensatórias.

Também presente no evento, o diretor do ASA Investments e ex-secretário do Tesouro Nacional, Carlos Kawall, afirmou que, nas últimas duas semanas, ficou “mais animado” com a perspectivas de que o teto de gastos não será ultrapassado. 

Segundo Kawall, após alguns sinais do governo sobre o financiamento do Renda Cidadã, a reação negativa dos mercados foi percebida pela equipe econômica, que voltou a reforçar que a regra será mantida. “A sinalização é de que o governo vai respeitar o teto para financiar programas sociais.”


FMI estima que o Brasil terá rombo nas contas públicas até 2025

 Ricardo Leopoldo, Correspondente, 

O Estado de S.Paulo

Aumentos dos gastos para combater a crise causada pela pandemia também deve levar a dívida bruta como proporção do PIB para acima de 100% este ano

  Foto: Yuri Gripas/Reuters 

Nas projeções para 2020, o Fundo considerou a meta

 de déficit público previsto no Orçamento federal 

NOVA YORK - O aumento emergencial de gastos públicos adotado pelo governo para combater a crise provocada pela pandemia do coronavírus deve levar o Brasil a registrar déficit primário até 2025, quando atingirá um resultado negativo de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB), apontam estatísticas do Fundo Monetário Internacional (FMI) no documento Monitor Fiscal. 

De acordo com o Fundo, o déficit primário - que é o resultado entre os gastos do governo e a sua receita, sem levar em conta as despesas com juros da dívida pública - deve saltar de um resultado negativo, como proporção do PIB, de 1% em 2019 para 12% em 2020. Em abril, o FMI estimava que o déficit primário neste ano atingiria 5,2% do PIB.

Até 2013, o Brasil vinha acumulando superávits primários - ou seja, gastava menos do que arrecadava. Esses resultados foram importantes para reduzir a dívida pública e para mostrar aos investidores que o País estava com as contas sob controle. Por conta disso, o Brasil recebeu o selo de grau de investimento das agências de classificação de risco.

A partir de 2014, esse sinal se inverteu, mostrando um quadro de descontrole dos gastos, e o País acabou perdendo o selo de bom pagador, o que afugenta investimentos externos. Se as projeções do FMI estiverem corretas,  o governo vai acumular uma sequência de 12 anos com gastos maiores que as despesas.

De acordo com o Fundo, com a melhora do quadro econômico no próximo ano, dado que o PIB deverá passar de uma queda de 5,8% em 2020 para crescimento de 2,8% em 2021, haverá redução de gastos públicos, mas mesmo assim será registrado um nível elevado de despesas. A projeção é de que o déficit primário atingirá 3,1% do PIB em 2021. O déficit, em proporção ao PIB, baixará para 2,0% no ano seguinte, atingirá 1,3% em 2023 e alcançará 0,6% em 2024.

Nesse contexto de elevação de gastos oficiais, o déficit nominal - que leva em conta também o pagamento dos juros da dívida - aumentará de 6% do PIB em 2019 para 16,8% neste ano, marca bem superior aos 9,3% estimados em abril pelo Fundo para 2020. Em 2021, o indicador deverá baixar, mas ainda chegará a 6,5% do PIB, nível pouco maior do que a previsão anterior de 6,1%. 

O FMI estima que o resultado negativo das contas públicas, como proporção do PIB, deve recuar para 5,6% em 2022, continuará em 5,6% em 2023, subirá para 5,9% em 2024 e ficará estável em 5,9% no ano seguinte.

Nas projeções para 2020, o Fundo considerou a meta de déficit público previsto no Orçamento federal. "As previsões de médio prazo, assumem o cumprimento do teto de gastos constitucional."

Dívida

A dívida bruta, também como proporção do PIB, que atingiu 89,5% em 2019, deverá superar 100% neste ano, quando atingirá 101,4%. A expectativa é de crescimento até 2025. Em abril, o Fundo previa que o indicador chegaria a 98,2% em 2020. 

Para 2021, esse passivo do governo deve subir para 102,8%, acima dos 98,2% previstos antes. Em 2022, a dívida bruta deve alcançar 103,5%, aumentará para 103,8% em 2023, subirá no ano seguinte para 104,2% e chegará a 104,4% em 2025.

Da mesma forma, a dívida pública líquida deve ter uma trajetória de franca ascensão no mesmo horizonte de tempo. O FMI projeta que o indicador atingirá, como proporção do PIB, 68,5% neste ano, marca superior aos 62,8% previstos anteriormente. Em 2021, o número avançará para 74,0%, acima dos 64,9% estimados pela instituição multilateral em abril. Para 2022, a dívida líquida deve atingir 76,9%, subirá para 79,1% em 2023, atingirá 81,2% em 2024 e alcançará 82,8% em 2025.

O FMI voltou a divulgar dados fiscais para um período de seis anos. Previsões mais prolongadas haviam sido suspensas em abril devido ao caráter extraordinário do impacto da pandemia do coronavírus na economia, que provocou a pior recessão global depois da Grande Depressão.

O Fundo não informou projeções para a taxa de juros nominal para o Brasil. Em outro documento, Perspectiva Econômica Mundial, o Fundo estima que o IPCA encerrará este ano em 2% e subirá 2,9% em 2021. Além disso, também aponta que as transações correntes registrarão superávit de 0,3% do PIB em 2020, mas o indicador ficará estável no próximo ano e atingirá um déficit de 0,7% do PIB em 2025. 


Governo impõe pautas do atraso

 Eudes Lima

Revista ISTOÉ

Uma agenda negativa de Bolsonaro quer dar licença para matar, armar o povo, explorar mineração em terras indígenas e retirar a obrigatoriedade das crianças irem à escola

 (Crédito: Joel Silva)

EQUÍVOCO Bolsonaro quer inocentar integrantes das 

Forças Armadas que cometem crimes em diligências urbana

Com o País envolto em graves problemas, Bolsonaro retoma a pauta de costumes e insiste em colocar o País na contramão da história. Ele venceu a disputa pelas presidências da Câmara e do Senado embalada por uma descarada compra de votos e o resultado imediato é a volta da agenda retrógrada: o governo conta com o apoio dos novos líderes do Congresso para avançar em seus projetos que preveem a licença para matar dos integrantes das Forças Armadas; colocar em risco a vida indígena e a natureza com uma exploração mineral ainda mais intensiva; incentivar o armamento das pessoas e uma exposição descabida de propaganda na televisão; autorizar a educação domiciliar com tantos prejuízos às crianças; impor o Estatuto da Família que ignora a existência uma nova configuração social há muitas décadas; além de insistir na sua tese do voto impresso e sua teoria conspiratória de fraudes nas urnas eletrônicas.

 (Crédito: Pedro Ladeira)

PUPILO O presidente da Câmara, Arthur Lira, 

terá o poder de colocar os temas de votação no legislativo 

Infelizmente, todos os temas não têm consenso suficiente sequer para se começar as discussões. Mas o presidente quer realmente “jogar para a galera”, conforme pensa a cientista política Ilona Szabo. Ela diz que “as pautas de costumes são antidemocráticas e atentam contra os direitos das pessoas”, especialmente aquelas que promovem o uso de armas. Chama atenção a estratégia retórica de Bolsonaro. Ele entregou ao Congresso uma lista com 35 pontos preferenciais de suas pautas do retrocesso. Bolsonaro privilegia projetos que dividem a sociedade, ao invés de priorizar as reformas administrativa, tributária e as privatizações. Sabe-se que quem tem tantas prioridades na verdade não tem nenhuma ou ao menos não quer revelar quais são. As discussões a respeito de reformas administrativas, tributárias e privatizações são lendas que estão além da capacidade de articulação desse governo.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, tem dito que pretende destravar as pautas da Câmara e prega uma maior independência do Executivo, mas não conseguiu, até agora, mostrar que vai se comportar de forma a discutir os assuntos de maior relevância da população. Basta ver que ele preferiu transferir os jornalistas do tradicional comitê de imprensa para uma sala longínqua do Plenário e sem ventilação. A cientista política, Juliana Fratini, pensa que o “retorno da pauta de costumes é o meio do presidente Bolsonaro manter a hegemonia sobre os grupos que o apoiam”. O conservadorismo do bolsonarismo precisa de injeções de extremismo. A licença para matar talvez seja a mais simbólica de todas. Qual melhor maneira de expor o ódio do que por meio de projetos que tenham o assassinato como objetivo? De pano de fundo há a proteção para milícias, conforme alerta Ilona Szabo. “Estamos no País da impunidade e teríamos que discutir o processo investigativo. Ao invés disso, o presidente propõe o excludente de ilicitude que dá oportunidade de que os bons policiais sejam vistos como os maus”, explica Ilona. Ela acha que a lei brasileira já tem mecanismos de proteção para os policiais e que ignorar a atuação criminosa e ligação de policiais às milícias é incentivar o crime. Ainda sobre segurança, a cientista social denuncia que Bolsonaro segue a mesma receita da Venezuela em 2004. “Estive na Venezuela e vi o governo armando o povo. A fala de um chefe de estado tem muito impacto. É uma temeridade”, Ilona diz que armar o povo não é necessário e só aumenta a violência.

 


Índios e crianças

Outros pontos são perigosos para o desenvolvimento do País. A ampliação da exploração de reservas minerais em terras indígenas certamente vai comprometer a vida humana e os biomas. Essas áreas costumam ter a melhor preservação possível e no País ainda existem muitos lugares a serem explorados. A homeschooling também não é um tema apropriado para o momento. A escola ainda é um lugar que protege a criança, especialmente de abusos. É um direito da criança e poucos pais estão preparados para cumprir o papel do professor. A volta da pauta de costumes também afasta o Brasil de vários acordos internacionais relacionados ao meio ambiente, aos direitos humanos e à segurança. É um passo à frente no caminho da ignorância.


Governo usou Fiocruz para produzir cloroquina com recurso emergencial, diz jornal

 Por Gazeta do Povo (Paraná)

 | Foto: Yuri Cortez/AFP

Hidroxicloroquina

O Ministério da Saúde usou a Fiocruz para a produção de 4 milhões de comprimidos de cloroquina, pagos com recursos públicos emergenciais destinados a ações contra a Covid-19. As informações são da Folha de S. Paulo, que teve acesso a documentos do ministério, com datas de 29 de junho e 6 de outubro, que mostram a produção de cloroquina e também de fosfato de oseltamivir (o Tamiflu) pela Fiocruz, com destinação a pacientes com Covid-19. Os dois medicamentos não têm eficácia comprovada contra a Covid-19.

Os valores para realizar a produção saíram da Medida Provisória nº 940, editada em 2 de abril pelo presidente Jair Bolsonaro para o combate a pandemia e abriu um crédito extraordinário, em favor da pasta, de R$ 9,44 bilhões. Segundo o jornal, a informação consta em dois documentos enviados pelo Ministério da Saúde ao Ministério Público Federal em Brasília. Foram destinados para a Fiocruz um total de R$ 457,3 milhões para "enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus".

Os documentos enviados ao MPF apontam gastos de R$ 70,4 milhões, vindos da MP, com a produção de cloroquina e Tamiflu pela Fiocruz. A Fiocruz afirmou à Folha que Farmanguinhos, o instituto responsável pela fabricação de medicamentos da instituição, produziu cloroquina para atender ao programa nacional de prevenção e controle da malária. O Ministério da Saúde disse, em nota, que a aquisição da cloroquina não foi concretizada, que a produção deve ser explicada pela Fiocruz. A pasta também apontou que o Tamiflu não é para Covid-19, mas para influenza.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Perguntinha básica: quem irá arcar com tamanho desperdício de dinheiro público? É impressionante como o governo Bolsonaro adora desafiar a ciência, como se ele, um ignorante afamado, tivesse alguma qualificação para prescrever medicamentos e tratamentos. Na época desta asneira descomunal, já se sabia que os tais medicamentos não serviam para combater a covid-19. Eram inúteis. Mas, arrogante e teimoso,  Bolsonaro desafiou o bom senso e jogou no lixo milhões de reais no lixo,  dinheiro que fez e ainda faz falta para na rede pública com o indispensável para o combate à pandemia. 

Pena que ninguém cobrará de Bolsonaro a devida reparação do enorme dano causado aos cofres públicos. Pena mesmo.



A construção de bunkers

 Vera Magalhães, 

O Estado de S.Paulo

Como Bolsonaro minou o combate à corrupção para proteger a família

Bastou se aproximar do Centrão, da ala fisiológica do MDB e dos ministros antilavajatistas do Supremo Tribunal Federal que Jair Bolsonaro, logo quem, passou a ser visto por setores da política (os mesmos acima, diga-se) e até da imprensa como alguém imbuído da disposição de construir pontes.

Trata-se de uma leitura entre cínica e ingênua de uma realidade bastante clara aos olhos de quem quiser ver. Bolsonaro continua onde sempre esteve: avesso à ideia de qualquer composição a não ser as de ocasião, que lhe permitam lograr seus intentos na política e proteger a si e aos filhos da perigosa aproximação das garras da lei quando esticaram demais a corda da ruptura institucional e/ou foram com sede ao pote demais nos recursos públicos a que tiveram acesso nas suas longas carreiras políticas dotadas de todos os vícios de um clã tradicional brasileiro.

Eduardo Bolsonaro, o “03”, conhecido por ser dos menos brilhantes da família, deixou claro o jogo nas redes sociais, com direito a erro de português: “Não é arrependimento, é espertise (sic) de mudar de estratégia pois o plano original fracassou”.

Não precisa desenhar. O plano original era fazer as instituições se curvarem diante de uma tropa golpista, “antiestablishment”, como adorava se gabar o “estrategista” Filipe G. Martins. A pandemia foi o gatilho para colocar o plano original em marcha, com direito a uso de terroristas como Sara Winter, que agora se diz decepcionada, e seus 30 gatos-pingados.

O fracasso constatado pelo ex-quase-embaixador veio do próprio STF, que colocou freio aos delírios autoritários de Bolsonaro. 

A “espertise”, assim com “s”, talvez, além de desconhecimento da língua, aponte um ato falho: o filhote quis provavelmente fazer menção à esperteza de mudar de time para evitar o tão temido impeachment e frear as investigações que chegavam perto de Flávio (rachadinhas e aumento de patrimônio), do próprio Eduardo (gabinetes do ódio, aumento de patrimônio), Michele (depósitos em dinheiro da família Queiroz e dinheiro de doações desviado para programa assistencial da primeira-dama), Carlos (rachadinha, aumento de patrimônio, fomento a atos golpistas, gabinetes do ódio) e de si próprio (aparelhamento da Polícia Federal, responsabilização pelo agravamento do enfrentamento da pandemia e participação em atos antidemocráticos).

Construção de pontes? Faz-me rir, faz-me engasgar, pedindo licença a Chico Buarque para usar seus versos tão precisos.

Bolsonaro tem por figuras como Renan Calheiros, Toffoli, Gilmar Mendes, Kassio Nunes e Ciro Nogueira o mesmo apreço que por Sérgio Moro, Gustavo Bebianno, general Santos Cruz, Luciano Bivar, Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Paulo Guedes, Bia Kicis, Carla Zambelli ou Jorge Oliveira: nenhum. Assim como já fez com vários desta lista, pode descartar os demais se disso depender sua sobrevivência e a dos seus.

O presidente tem na covardia e na insegurança alguns de seus traços de caráter mais notórios, bem como o pouco apreço à gestão e o instinto destruidor de tudo aquilo que signifique construção de marcos institucionais, conquistas de minorias e legados civilizatórios.

O que Bolsonaro constrói com afinco, além de um robusto patrimônio na forma de imóveis comprados com farto uso de dinheiro vivo oriundo de gabinetes, é um bunker no qual se abrigar e abrigar mulher e filhos.

Disso decorrem a indicação de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República, a troca de Moro por André Mendonça, as mudanças no Coaf, a tentativa de interferir também na Receita e, agora, a escolha de Kassio Nunes para o STF.

A ponte (pinguela, no caso) pode bem ser implodida depois que por ela passar o último Bolsonaro, pouco importando quem for deixado para trás.

*Editora do BR POLÍTICO e apresentadora do programa RODA VIVA, da  TV Cultura


Sem emprego, jovens são os que mais devem sofrer com segunda recessão

 Da redação, Exaame.com

Com informações Estadão

Segunda recessão em um período de 5 anos afeta principalmente os trabalhadores mais jovens, que já apresentam taxas altas de desemprego no Brasil

  (sukanya sitthikongsak/Getty Images)

Desemprego entre a população mais jovem mais do que

 dobrou no trimestre, passando para 29,7%

A população jovem foi a que registrou o maior recuo de renda entre 2015 e 2019, período que marcou a primeira recessão econômica brasileira desde 2015. Com a crise do novo coronavírus, serão os jovens, novamente, que terão a maior queda de renda, com retração de até 34,2 % de acordo com o Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV Social).

De acordo a pesquisa da FGV e publicada no jornal O Estado de S. Paulo, as pessoas entre 15 e 19 anos foram as que tiveram a maior queda em suas rendas entre 2015 e 2019 com o percentual de 24%. Pessoas com 20 e 24 anos perderam 11% de seus rendimentos no período. Na segunda recessão em cinco anos, esses percentuais passaram para 34,2% e 26% respectivamente.

A explicação para esta queda na renda se dá pelo aumento do desemprego no Brasil. Somente no segundo trimestre deste ano, a taxa de desemprego no país mais do que dobrou entre a população de 18 a 24 anos, passando de 13,3% no ano passado para 29,7%.

Antes de 2015, a diferença da taxa de desemprego entre a população brasileira em geral e os jovens era de 8,3%. Essa diferença aumentou para 14,2% em 2017, com a crise política e econômica que o país atravessava com o afastamento e o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Com o coronavírus, a diferença saltou para 16,4% neste ano.

Dados da consultoria Tendências apontam que o Brasil teve ter um crescimento fraco de seu Produto Interno Bruto (PIB) na próxima década, com média de crescimento de 2,4% ao ano até 2029. Essa estimativa não é tão promissora no que diz respeito às estratégias para diminuir o desemprego entre a população mais jovem. O desemprego que atualmente está em 13,8% deve cair para 10,3%. É uma taxa ainda bastante alta.

Para o ano que vem, a taxa de desemprego deve chegar a 15,7%, já que pessoas que estão fora do mercado de trabalho e não estão procurando emprego atualmente (e por isso não contam em dados oficiais como desempregadas) vão passar a buscar por novas ocupações laborais.

Como mudar este cenário

Assis explica que, historicamente, os jovens já encontram maior dificuldade para se inserirem no mercado de trabalho. “Jovens tendem a ter menos anos de estudo e concorrem com pessoas sem emprego de maior qualificação”, disse.

Para reduzir esses números, uma alternativa sugerida pela FGV é aproximar as escolas do mercado de trabalho. “O Brasil está muito atrasado nisso, mas a reforma que vem sendo feita no ensino médio, com trajetórias (que permitem a escolha de disciplinas pelo aluno), vai na direção correta”, afirma Marcelo Neri, economista e diretor do FGV Social.

Neri cita programas como o Formare, da Fundação Iochpe. Uma média de 83% dos alunos do programa conseguem se inserir no mercado de trabalho. Para Cláudio dos Anjos, presidente da Fundação Iochpe, faltam incentivos fiscais. “Existe essa necessidade porque os colégios não estão preparados para apoiar o jovem na transição entre a saída das escolas e a entrada no mercado de trabalho”, afirmou.



Pandemia agrava problema crônico do Brasil: a desigualdade econômica

 Por Jornal Nacional

Rede Globo

A Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio mostra que, na média, os 10% mais ricos perderam 3% da renda com a pandemia, e os 40% mais pobres viram a renda familiar que vem do trabalho, descontando o auxílio do governo, cair mais de 30%.

 

Pandemia agrava problema crônico do Brasil: 

a desigualdade econômica

A Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio mostra que, na média, os 10% mais ricos perderam 3% da renda com a pandemia, e os 40% mais pobres viram a renda familiar que vem do trabalho, descontando o auxílio do governo, cair mais de 30%.

A pandemia ainda está em curso, mas já deixou muitas marcas na economia brasileira e agravou uma das mazelas crônicas do país: a desigualdade. A reportagem é de Renata Ribeiro.

Na leitura da economia, a pandemia escreve um conto das duas cidades: uma que vê do alto o saldo da crise; e outra que assiste às consequências de baixo. A teoria de que o vírus aumentou a desigualdade social foi testada em cidades do mundo todo.

No Brasil, onde o mal é endêmico, foi pior, levada ao extremo.

“Nas nossas regiões metropolitanas, já vinha numa tendência de crescimento desde 2015, com a crise. E o que a pandemia fez foi jogar essa desigualdade para outro nível. As pessoas estão perdendo renda do trabalho e, ao mesmo tempo, essa renda está se tornando, está ficando menos, está distribuindo de uma forma menos igualitária. Então, você tem uma piora da renda do trabalho e um aumento da desigualdade da renda do trabalho. O pior cenário que você pode ter”, explicou André Salata, sociólogo e professor da Escola de Humanidades da PUC-RS.

Em São Paulo, as diferenças têm endereço. Cada ponto de vista, uma história. O valor do metro quadrado das áreas nobres subiu como efeito colateral da quarentena, enquanto nas vielas estreitas as famílias vulneráveis ficaram sem saída.

Posicionada no nicho da elite de compradores, a imobiliária Boutique nunca cresceu tanto como em 2020. Já há fila de compradores esperando por uma cobertura.

“A gente teve um crescimento de 42% e a gente não esperava isso. A gente brinca que falta produto e não falta cliente para esse nicho”, revelou Rafael Guaraná Menezes, sócio da imobiliária de luxo.

As maquetes econômicas projetam para além dessa crise o abismo entre classes.

Para os economistas, uma "recuperação em K". A grafia da letra desenha a queda na atividade com a pandemia, depois indica o caminho da saída. Não é bom: ricos cada vez mais ricos, pobres descendo ainda mais na arquitetura social. E esse vírus da desigualdade deixa marcas para o futuro, tal como a pandemia.

“A pandemia não é só um problema que acontece enquanto ela dura; ela deixa marcas na educação, no trabalho dos jovens de hoje. Esse efeito cicatriz que a geração de estudantes e de jovens durante a pandemia devem sofrer depois da pandemia”, alertou Marcelo Neri, diretor da FGV Social.

Do alto, o impacto financeiro da pandemia foi sentido à distância. Pessoas acomodadas no topo da pirâmide perderam pouco ou nada, e houve até quem ganhou no período de distanciamento social. É o que indicam os dados recentes de emprego e renda. A Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio mostrou que, na média, os 10% mais ricos perderam 3% da renda com a pandemia, e os 40% mais pobres perderam 30% da renda, descontando o auxílio do governo.

É na base da pirâmide social que a estagnação econômica como sintoma do vírus faz mais vítimas. Nesse estrato social que vive do emprego informal, difícil é encontrar alguém que não tenha sido afetado.

O auxílio emergencial do governo amorteceu o impacto e fez até subir a renda dos mais pobres e reduzir a desigualdade nos meses da pandemia. Mas quando os pesquisadores tiraram o auxílio emergencial da conta, o resultado foi uma queda drástica dos mais pobres, enquanto os mais ricos praticamente não têm mudanças.

“O que é muito preocupante nesse momento, em que o auxílio emergencial teve fim no ano passado, mas infelizmente os sinais que a gente tem visto no mercado de trabalho não são de uma recuperação tão forte e rápida assim”, lamentou André Salata.

Mayara só conta agora com doações. Ela é mãe solteira e agora se ocupa da filha em tempo integral. Perdeu as duas fontes de renda.

“Por causa dessa pandemia, desse vírus, ninguém quer encostar numa água. Todo mundo tem pânico de ter algum contato físico. E o trabalho de diarista? Sumiu! Eu não quero viver de doação, eu sou jovem, saudável, eu quero um emprego! Quero ter uma renda no final do mês para a minha geladeira vai ter algum alimento, vai ter um leite para a minha filha”, desejou Maiara Santana, vendedora ambulante.

“Ambulantes, diaristas, lojistas, feirantes, foram pessoas que foram severamente impactadas com as leis de restrição de circulação de pessoas e, apesar do auxílio emergencial ter amortecido um pouco o impacto econômico desse vírus, a gente vê que, nesse momento em que o auxílio emergencial já acabou, as consequências da crise econômica que a gente viveu estão ressurgindo; e o reflexo direto disso é a desigualdade, porque milhões de pessoas estão desempregadas e aquelas que trabalhavam por conta própria tiveram um impacto muito grande nos seus rendimentos”, explicou Gabriela Chaves, economista da NuFront.

“Então eu diria que, mais do que uma sociedade desigual, teremos uma sociedade desigual mais estagnada, ou seja, o bem-estar é afetado de várias formas”, disse André Salata.

Do alto da sua experiência de quem já passou por graves crises econômicas, Pérsio Arida, um dos economistas idealizadores do Plano Real, indica um caminho.

“O grande desafio do Brasil hoje é crescer e enfrentar o problema da desigualdade, e para isso a iniciativa começa no executivo federal - ele que dá o tom, ele que dá a norma, e, nesse sentido, nós estamos perdendo tempo sim. Precisa voltar à normalidade com vacina, abrir economia, fazer uma reforma tributária, colocar o governo para funcionar direito. O estado tem que deixar de fazer o que faz mal e fazer o que de fato lhe compete, que é educação pública de qualidade, saúde de qualidade e inovação tecnológica e apoio à ciência, é isso que o estado deveria estar fazendo”, defendeu o economista.


Pandemia aprofunda ainda mais a desigualdade entre os brasileiros em relação à educação

 Por Jornal Nacional

Rede Globo

Estudo mostra o impacto do afastamento da escola em diferentes faixas etárias. Quando se compara a renda entre os estudantes, os mais ricos estudaram mais tempo do que a média. Já os mais pobres, não atingiram a média.


 Pandemia aprofunda desigualdade entre

 os brasileiros em relação à educação

Estudo mostra impacto do afastamento da escola em diferentes idades e classes sociais

A pandemia aprofundou ainda mais a desigualdade entre os brasileiros em relação à educação, como mostra a reportagem de Renata Ribeiro.

É da natureza dessa doença se espalhar, contaminar a cidade, o estado, o país.

Não é de 2020. Já faz bem mais tempo que esse vírus já é endêmico no Brasil; esse da desigualdade.

O sintoma dessa doença social é a paralisia - mais ricos de um lado, mais pobres do outro e é incrível a enorme capacidade de transmissão entre gerações.

“Vai prejudicar as oportunidades futuras das gerações que vão chegar no mercado de trabalho daqui a alguns anos. Então não é só a desigualdade desse momento que está crescendo em função da pandemia, mas ela também está afetando a distribuição de oportunidades da geração seguinte”, afirmou o sociólogo e professor de Humanidades da PUCRS, André Salata.

O diagnóstico pode estar nas crianças. Elas e os adolescentes sentiram o impacto de forma desigual.

“Repórter: Você lembra qual foi sua última nota de Português?

Breno: 10

Repórter: E Matemática?

Breno: 10

Repórter: Está preparado para o 6° ano?

Breno: Sim.

Repórter: Você sente que não perdeu muita coisa?

Breno: Não, não perdi matéria nem nada.”

Em 2020, a escola do Breno fechou, mas ele teve espaço para aprender.

“Eu já tinha, antes mesmo da pandemia, uma escrivaninha toda preparada. Então, é só instalar meu computador lá e eu conseguia estudar”, contou Breno Barranco, de 11 anos.

No universo das particulares, professores foram protagonistas.

“Tivemos que aprender a lidar com as câmeras e também nos aproximar os alunos, mesmo com a distância”, disse Sandra Lieven, professora de Matemática.

“Professores da casa, enfim, fazendo atendimentos individuais, chamando as famílias para conversa, e além de explorar todas as ferramentas tecnológicas que tínhamos disponíveis”, relatou Áurea Bazzi, coordenadora do Ensino Médio do Colégio Albert Sabin.

Era um cenário pronto para mudança. Um auditório todo preparado para transmissão de conhecimento ao vivo.

Todo o esforço dos professores e o investimento das escolas se justificaram porque tinha "plateia" para as aulas. Alunos com acesso à internet e um computador, tablet ou pelo menos um celular disponível em casa; recursos para a adaptação ao ensino remoto; isso fez com que o número de horas dedicado aos estudos na rede particular fosse bem maior do que na rede pública.

Nas escolas estaduais e municipais o grande desafio nesses meses de escolas fechadas era transmitir conteúdo à distância para alunos que às vezes não tinham nem espaço adequado para assistir às aulas de casa. Para muitos foi um ano perdido.

Nas comunidades da periferia de São Paulo, mal pega a internet. Para as crianças que vivem lá, o ano letivo passou longe.

Pedro não aprendeu quase nada. Ele não tinha como assistir às aulas fora da escola.

“Enquanto eu estava em casa, eu acompanhava pelo meu celular. Depois que eu comecei a trabalhar, tive que levar o celular. Se eu pudesse, ele faria o 3° ano novamente. Um ano que ele não conseguiu estudar”, contou Cláudia Aparecida do Amaral, auxiliar de cozinha.

A partir de dados do IBGE, a Fundação Getúlio Vargas avaliou o tempo dedicado ao estudo pelos alunos no primeiro ano de pandemia. E as conclusões não são boas: de 10 a 17 anos, os alunos estudaram pelo menos duas horas por dia, em média; acima de 18 anos, não chegou a uma hora. Então, quanto mais velho é o aluno, menos ele estudou.

Quando se compara a renda entre os estudantes, os mais ricos estudaram mais tempo do que a média. Já os mais pobres, não atingiram a média.

O estudo também mostrou desigualdades regionais. No mapa, quanto mais escura a cor, maior o tempo dedicado ao estudo. E isso mostra que os alunos da Região Norte foram os mais excluídos, enquanto os da Região Sudeste, Goiás, Distrito Federal, Piauí e Ceará tiveram mais tempo dedicado à escola.

“Os alunos das escolas privadas estão estudando 3 horas e 6 horas que não era o que deveriam, mas é mais de 1 hora do que os alunos pobres. É uma consequência bastante preocupante, porque com todos os pesares sociais, as mazelas que o Brasil já tinha e vinha piorando no período de crise pré-pandemia, uma coisa melhorava como um vento que soprava a favor que era a redução da desigualdade de educação, os pobres conseguiam fechar o gap educacional ao longo do tempo. Com a pandemia, isso foi revertido, o vento a favor começa a soprar contra. E o problema da educaçãio deixa marcas”, lamentou Marcelo Neri, diretor da FGV Social.

“O Brasil é um país profundamente desigual e infelizmente o atual governo não tenho como uma meta reduzir a desigualdade; o atual governo não vê problema nisso tudo. Então, isso vai agravar mesmo a situação, vai agravar a pobreza, vai agravar a fome e vai deixar muitos jovens sem futuro.O Brasil está vivendo um extraordinário retrocesso”, alertou Renato Janine Ribeiro.

A vendedora ambulante só descobriu a importância da escola quando já era mãe. Foram muitas noites longe da filha, nas aulas do supletivo, para concluir o Ensino Médio. Ela vê a filha pequena repetindo a mesma história.

"Como eu tenho uma filha, sou sozinha, vou terminar os meus estudos para oferecer alho melhor para a minha filha", diz a vendedora ambulante Maiara Santana.

“No Brasil, a educação pública e particularmente a educação pública pré-universitária é a grande maneira que as pessoas mais pobres, menos favorecidas têm de conseguir uma melhor oportunidade na vida, conseguir um emprego melhor, conseguir ter uma renda melhor do que os seus pais, realizar seus sonhos e assim por diante. Um ano parado sem escolas é um dano muito maior do que se pensa”, disse Pérsio Arida, economista.

Os especialistas concordam: educação é a vacina para desigualdade.

“É um instrumento maravilhoso, porque ele permite que as pessoas saiam do seu cantinho confinado, do seu bairro, da sua família, da sua classe social e conheçam o vasto mundo que está diante delas”, afirmou Renato Janine Ribeiro.

No fim do ano passado, a diretora de uma escola estadual em São Paulo cansou de esperar pelos alunos que se perderam. Atrás deles, de casa em casa, aprendeu.

"Você tem familias e crianças morando em acomodações muito precárias. Nós tivemos caso de crianças que perderam a moradia, não tinha conta de luz paga, portanto ficaram sem nenhum acesso”, relatou Rosangela de Lima Iarchel.

Mas a história não acabou.

“Nós estabelecemos um plano com os voluntários. Eu tive dentista, veterinário, arquiteta, advogado, gente de coração muito bom que achou que podia dividir esse pouquinho, mesmo não tendo crianças matriculadas aqui. Isso foi muito importante; as crianças vinham para a escola, vinham de uniforme. Quando eu os via chegar com uniforme da escola para assistir 2 horas de aula com voluntários, isso foi muito... me deixava muito emocionada. E dure o tempo que durar nós vamos vencer”, contou Rosangela.


Política da miséria

 William Waack, 

O Estado de S.Paulo

O dilema que a direção política em Brasília não consegue resolver é simples e grave

  Foto: Felipe Rau/Estadão

Fila de beneficiários do auxílio emergencial 

em agência da Caixa em São Paulo. 

Vamos simplificar a política brasileira. Ela cabe hoje em poucos números, que não são bonitos. Um deles: em 1,5 mil municípios brasileiros a ajuda emergencial de R$ 600 por conta da pandemia DOBROU a massa de salários do setor formal. É um retrato cruel da miséria brasileira.

Essas localidades se espalham pelo País inteiro com notável concentração no Norte e Nordeste. Mesmo no Sul e Sudeste, porém, em mais de 1 mil municípios a massa de salários do setor formal aumentou pela metade com o auxílio emergencial. Ocorre que esse efeito tem data para acabar: dezembro, com o fim do coronavoucher.

A essência do debate político pós-pandemia concentrou-se apenas nesse aspecto: como financiar um programa social que faça a transição da “emergência” para uma “renda básica”. Foi um dos raros elogios que a revista Economist dedicou ao governo brasileiro nos últimos tempos. A melhor conduta em países pobres como o nosso, assinalou a publicação, é mesmo dar dinheiro direto nas mãos das pessoas.

Depois de esperar em vão pela fórmula mágica de onde tirar esse dinheiro – fórmula que, se presumia, existisse no Ministério da Economia –, o presidente Jair Bolsonaro trouxe a bordo de sua coordenação política mãos experientes como as do senador Renan Calheiros. De quem ganhou fortes elogios por estar desmontando o “Estado policialesco” da Lava Jato e por ter passado a praticar não a “velha” ou a “nova” política mas, sim, a “boa” política.

Ela consiste há décadas em acomodar os mais variados interesses (como subsídios, renúncias fiscais, penduricalhos de salários, supersalários, entre muitos outros componentes de gastos públicos que sempre crescem) aumentando a carga tributária. De jantar em jantar de confraternização – Brasília parece de novo tão “normal” –, a pergunta é apenas qual será a fórmula de um novo imposto – dirigido contra o “andar de cima” ou não, mas novo imposto.

Quando o noticiário político produz todas as noites a confusão entre qual reforma, qual PEC, qual pacto, qual PL ou qual voz está valendo para definir os rumos, ele está apenas refletindo a falta de plano, foco e estratégia de um governo interessado só em reeleição. Soa contundente, e é: há pouco crédito quando o ministro da Economia reitera que tem um “road map” para a recuperação da economia. O que há é uma infindável manipulação de prazos regimentais em função de calendários eleitorais, como se dependesse da eleição de prefeitos a arrumação do País e a passagem do tempo resolvesse os problemas.

É verdade que são discretos ainda, mas já não dá para se ignorar os murmúrios em setores da economia preocupados com a subida dos juros a longo prazo, a deterioração do câmbio, a velocidade e a sustentação da recuperação pós-pandemia. Que se assume que será mais lenta do que a recuperação lá fora e nem um pouco homogênea (os exemplos mais fortes estão no contraste entre construção civil, no lado que volta a sorrir, e o de serviços como turismo e gastronomia, entre outros).

Nota-se clara convergência entre os relatórios de grandes bancos, o próprio Banco Central e o FMI quando se trata da crescente preocupação que essas várias instituições manifestam frente à dívida pública e à situação fiscal. No fundo, elas se voltam de olhos cada vez mais arregalados para a política brasileira diante de seu dilema: como proteger as camadas mais vulneráveis, que ficaram ainda mais vulneráveis, sem arrebentar a credibilidade do trato das contas públicas.

O problema é, simplesmente, miséria.

* JORNALISTA E APRESENTADOR DO JORNAL DA CNN