quarta-feira, outubro 06, 2021

Reabertura e insatisfação no Brasil iniciam nova onda de imigração para Portugal

 Gian Amato

O Globo

 Passageiros checam informações na Estação São Bento, no Porto | Gian Amato

A reabertura das fronteiras de Portugal aos voos de turismo do Brasil já impulsiona uma nova onda de imigração. Milhares de brasileiros chegaram ao país e têm esperança de ficar. Outros estão de passagem comprada para entrar no país como turistas. E há quem procure trabalho antes de embarcar para viajar de forma regular.

Mais que a falta de segurança pública, é a insatisfação política, a perda do poder de compra e a escassa oferta de vagas no mercado de trabalho em suas áreas que levam os brasileiros a Portugal nesta nova fase de imigração.

Assim como em 2017, ano da retomada do crescimento da população brasileira em Portugal após seis anos estagnada, o perfil dos novos imigrantes é diverso. Empresas de consultoria em imigração ouvidas pelo blog confirmaram um aumento da procura de brasileiros por informação.

Mas aqueles que foram entrevistados pelo Portugal Giro têm algo em comum: acumularam dinheiro e planejaram a mudança de vida para tentar minimizar imprevistos, uma lição aprendida com a pandemia de Covid-19. 

Ao mesmo tempo, reconhecem que pode levar tempo até conseguirem emprego em Portugal, mesmo com a falta de mão de obra.  E não se importam em trabalhar em outras áreas.

Com passagem comprada desde abril deste ano, a biomédica paraense Poliane Pereira afirma ter marcado voo para a próxima quinta-feira. Na última sexta-feira, o governo manteve a reabertura ao turismo do Brasil até o fim de outubro.

— Esta abertura foi uma luz no fim do túnel. Impulsionou muito a ir em busca dos meus sonhos — disse Pereira. 

A biomédica Poliane Pereira | Arquivo Pessoal

Ela diz que, mesmo o pai sendo médico, não conseguiu emprego estável na área e acabou indo trabalhar numa loja de um shopping em Belém.

— O Brasil está tão difícil, tudo muito caro e a falta de reconhecimento não ajuda. O salário é péssimo. Não está fácil viver, várias pessoas estão se formando e não conseguindo emprego em sua área. Daí pensei, por que não fazer outra coisa, que não seja na minha área, fora do Brasil? — ponderou.

Pereira afirma ter um filho e estar disposta a trabalhar em outras áreas. Tenta arrumar trabalho à distância, mas revela que está complicado. Enquanto a estabilidade não chegar, ela conta que tem planejamento para se manter.

— Sem ele (planejamento) se torna mais difícil sair, porque é necessário levar uma quantidade boa de dinheiro e também estar disposto a procurar emprego em diversas áreas Acho que acima de tudo tem que ter coragem pra assumir esse risco. O planejamento faz com que tenhamos uma segurança a mais — contou Pereira.

Inflação, crise política e a falta de oportunidades para construir carreira em sua área estão entre os motivos para ir embora do Brasil apontados pela farmacêutica Raphaela Pereira, de Maringá (PR). Ela conta que é formada pela Universidade Estadual de Maringá (UEM-PR) e fez doutorado em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), mas lamenta não conseguir emprego financeiramente compatível com a sua formação.

— Acredito que tem muito a ver com o atual presidente, que mostrou e deu voz a uma parte da população retrógrada, contrária à mudanças. O Brasil nunca investiu muito na educação, pesquisa e desenvolvimento, mas desde que este governo assumiu, as coisas pioraram muito. E mesmo que ele não seja reeleito, o estrago feito durará muito e muitos anos— contou Raphaela.

Ela explicou ter feito parte do doutorado em Ferrara, na Itália, o que mostrou novas possibilidades de vida. E expôs a diferença em relação ao Brasil:

— Voltei acreditando que conseguiria um emprego compatível, mas me enganei, consigo geralmente um emprego onde ganho o piso do farmacêutico, o que é pouco. Universidades públicas quase não abrem vagas mais, somente de temporários, que duram dois anos, trabalhei na UEM-PR, o contrato acabou um pouco antes do começo da pandemia, e precisei trabalhar em farmácias, o que não gosto. Particulares pagam mal e contratam o mínimo de professores, e geralmente os que têm menor titulação tem preferência. Durante meu mestrado e doutorado, desenvolvi e caracterizei novas formulações farmacêuticas. Tenho paixão por isto, mas no Brasil não é possível, porque as indústrias farmacêuticas  não fazem pesquisa e desenvolvimento. Somos um país cada vez mais refém da tecnologia dos outros países.

Raphaela informou que é neta de portugueses e dará entrada no pedido de cidadania em breve. Ela afirma que voltou a estudar francês e inglês, além de falar italiano. Quer abrir portas não só em Portugal, mas na Europa. Procura emprego na área e também oportunidades para fazer um pós-doutorado. Pretende embarcar no início de 2022.

— Ter cidadania portuguesa é um facilitador, mas não pretendo esperar sair para ir embora, pretendo ir o quanto antes. Como sou solteira e sem filhos, o caminho fica um pouco mais fácil, dependo somente de uma oportunidade de trabalho para conseguir meu visto de trabalho. A reabertura animou muito, trouxe esperança, cor na vida. Ainda não comprei passagem, porque quero ir com visto de trabalho e não de turista. Quero ir de uma vez e voltar para cá eventualmente como turista— contou Raphaela.

A falta de perspectiva também deverá mover o carioca Yuri Motta, descendente de portugueses, e a mulher, a pedagoga Janaína Nava. Eles estão na fase de planejamento.

— Motivos: incerteza política, aumentos incontroláveis de combustíveis e falta de perspectivas em relação às melhoras. Aguardando menos exigências, os preços das passagens diminuírem e se realmente vamos como turistas ou com um emprego já garantido — contou Motta

A esteticista cearense Moniky Cristina diz estar na fase de juntar dinheiro para imigrar.

— Gostaria de imigrar para ter qualidade de vida, segurança, saúde e poder de compra— diz ela.


Consumo de pé de galinha em alta e outros 5 dados que revelam retrato da fome no Brasil

 BBC Brasil

 CRÉDITO,EDNUBIA GHISI E REGIS LUÍS CARDOSO/FOTOS PÚBLICAS


São 19 milhões de brasileiros passando fome, uma em cada três crianças

 anêmicas e um auxílio emergencial médio que só compra 38% da cesta básica.

Primeiro, foi a fila quilométrica em um açougue de Cuiabá, no Mato Grosso — maior Estado produtor e exportador de carne bovina do país —, para receber ossos. Depois, cariocas garimpando restos em um caminhão de ossos e pelancas descartadas por supermercados.

E assim, dia após dia, as imagens da fome vão voltando ao noticiário nacional.

Eram 19,1 milhões de brasileiros com fome em 2020, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan).

Em relação a 2018 (10,3 milhões), são quase 9 milhões de pessoas a mais nessa condição.

O auxílio emergencial que, no ano passado, em seu valor máximo (R$ 1.200), chegou a comprar duas cestas básicas e sobrar, agora, mesmo em seu maior valor (R$ 375) não compra nem 60% da cesta da região metropolitana de São Paulo.

Em meio a essa realidade, as crianças são as mais afetadas, já que são os lares com pequenos os mais propensos a estarem na pobreza e na extrema pobreza.

Mesmo antes da pandemia, uma em cada três crianças brasileiras sofria de anemia por falta de ferro, segundo estudo da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).

Confira esses e outros dados que mostram como a fome voltou a ser um drama cotidiano no Brasil.

1) Aumento de 85% no número de brasileiros com fome em dois anos

A pandemia do coronavírus teve um efeito devastador sobre a segurança alimentar no Brasil, revelaram estudos da Rede Penssan e da Universidade Livre de Berlin publicados este ano.

No país, a fome atingiu 19,1 milhões de pessoas em 2020, parte de um contingente de 116,8 milhões de brasileiros que convivam com algum grau de insegurança alimentar — número que corresponde a 55,2% dos domicílios, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Penssan.

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Pessoas em situação de rua recebem marmitas nas ruas de São Paulo. Março de 2021

A insegurança alimentar abrange desde a alimentação de má qualidade, passando pela instabilidade no acesso a alimentos, até a fome propriamente dita.

O aumento no número de brasileiros passando fome, de 10,3 milhões em 2018, para 19,1 milhões em 2020, representa um crescimento de 85% em dois anos.

O resultado fez a Oxfam — organização internacional que atua no combate à pobreza, desigualdade e injustiça social — classificar o Brasil como um dos focos emergentes de fome no mundo, ao lado da Índia e da África do Sul.

De acordo com estudo do grupo de pesquisas Food for Justice: Power, Politics, and Food Inequalities in a Bioeconomy (Comida por Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares em uma Bioeconomia, em tradução livre), da Universidade Livre de Berlim, a insegurança alimentar é marcadamente desigual.

Os mais altos percentuais de insegurança alimentar são registrados em famílias com apenas um responsável pela geração de renda (66,3%).

Isso se acentua ainda mais quando essa responsável é uma mulher (73,8%) ou uma pessoa parda (67,8%) ou preta (66,8%).

Também é maior nas residências com crianças de até 4 anos (70,6%), nas regiões Nordeste (73,1%) e Norte (67,7%) e nas áreas rurais (75,2%).

2) Uma em cada três crianças com anemia

De cada três crianças brasileiras, uma apresenta um quadro chamado anemia ferropriva, revelou um estudo da UFSCar publicado em julho deste ano.

A anemia ferropriva é marcada pela falta de ferro no organismo. Esse nutriente é encontrado no leite materno, na carne vermelha e em alguns vegetais, como as folhas verde-escuras, o feijão e a soja.

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Prevalência de anemia por falta de ferro atingia 33% das crianças brasileiras 

mesmo antes da pandemia. Na foto, bebê é pesada por voluntárias da Pastoral da Criança

As crianças com deficiência de ferro sofrem alterações no desenvolvimento do cérebro que, mais para frente, se manifestam na forma de dificuldade de aprendizado, sonolência e desânimo. Muitos desses problemas repercutem pela vida toda e são irreversíveis.

Para chegar ao resultado, os especialistas da UFSCar compilaram dados de outros 134 estudos feitos entre 2007 e 2020, que reuniram informações sobre a saúde de 46 mil indivíduos com menos de 7 anos de idade de todas as regiões do Brasil.

Os dados, no entanto, só vão até o início de 2020, o que traz um alerta: a situação pode ter se agravado ao longo da pandemia, diante da acentuada queda no consumo de carne vermelha no país, em meio à forte alta de preços.

Estudo alerta: uma em três crianças sofre de anemia no Brasil

3) Menor consumo de carne bovina em 26 anos

Em 2021, o consumo de carne bovina no Brasil deverá ser de 26,4 quilos por pessoa, uma queda de quase 14% em relação a 2019, ano anterior à pandemia, e de 4% ante 2020.

Esse é o menor nível registrado para consumo de carne bovina no país em 26 anos, segundo a série histórica da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), com início em 1996.

CRÉDITO,REUTERS/AMANDA PEROBELLI

Consumo de carne bovina no Brasil deve cair em 2021 

ao menor patamar em pelo menos 26 anos

Até agosto, as carnes acumulavam aumento de preço de 30,8% em 12 meses, bem acima da alta de 9,68% da inflação geral, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A alta de preços da carne começou antes da pandemia, puxada pela demanda da China, cujo rebanho suíno foi fortemente afetado pela peste suína africana.

A tendência foi acentuada no ano passado pela alta do dólar, que estimula as exportações, reduzindo a oferta do produto no mercado interno.

Pesaram ainda a seca, que piora a qualidade do pasto e aumenta a necessidade de uso de ração, elevando o custo de produção; e o menor abate de fêmeas, que são retidas pelos pecuaristas para produzir novos animais, aproveitando a alta de preços.

Então foi assim que a carne vermelha sumiu dos prato dos brasileiros mais pobres.

4) Auxílio emergencial não compra mais uma cesta básica

Um dos fatores que explica a crescente dificuldade dos brasileiros em se alimentarem adequadamente é a perda do poder de compra do auxílio emergencial, em meio à redução do valor do benefício e à alta da inflação.

Em abril de 2020, quando o auxílio começou a ser pago, ele tinha valores que variavam de R$ 600 a R$ 1.200. Naquele mês, a cesta básica custava R$ 556,36 em São Paulo, segundo dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

Ou seja: mesmo com o valor mais baixo, era possível comprar todos os produtos da cesta e ainda sobrava algum dinheiro.

CRÉDITO,DIVULGAÇÃO MST/FOTOS PÚBLICAS

Protesto pela manutenção do auxílio emergencial em R$ 600. Brasília, maio de 2021

De abril de 2020 a agosto deste ano, o valor da cesta básica paulistana subiu 16,9%, segundo o Dieese, para R$ 650,50.

Já o auxílio emergencial foi na direção oposta, tendo seus valores reduzidos em 2021 para R$ 150, R$ 250 ou R$ 375.

Assim, quem recebe o valor mais baixo só consegue comprar atualmente 23% da cesta básica. Quem recebe o valor médio, 38%. E mesmo quem recebe o valor mais alto — pago às mães solteiras chefes de família — só consegue comprar 58% da cesta.

Considerando que as pessoas também têm aluguel e contas básicas para pagar, a perda do poder de compra do auxílio emergencial dá uma dimensão da precariedade em que têm vivido os brasileiros mais pobres.

5) Consumo de pés de galinha e miojo

Outros indicadores da piora das condições de alimentação do brasileiro estão nos próprios alimentos consumidos.

Segundo dados da Abimapi (Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães e Bolos Industrializados), o consumo de macarrão instantâneo movimentou R$ 3,2 bilhões em 2020, ante R$ 2,7 bilhões em 2019.

Em toneladas, o consumo cresceu de 167 mil para 189 mil entre os dois anos, refletindo o aumento da prática de cozinhar em casa durante a pandemia, mas também a perda de renda da população, que recorre ao miojo como um alimento barato.

Nos açougues, em meio aos preços proibitivos da carne, consumidores recorrem a cortes antes desprezados pela maioria, como pés e miúdos de galinha.

"Antes da pandemia se vendia cerca de 100 quilos de pé de frango no mês, agora estamos vendendo em torno de 250 quilos", disse José Carlos Viale, dono de um açougue em São José do Rio Preto, ao Diário da Região.

"Sempre teve saída, mas as pessoas compravam em menor quantidade e para tratar animal. Agora, temos famílias que chegam a comprar dois quilos de pé e pescoço por semana", relatou o empresário ao jornal.

CRÉDITO,REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS

Geisa Sfanini, de 32 anos, morreu após ter 90% do

 corpo queimado ao tentar cozinhar com álcool

6) Aumento das queimaduras provocadas por cozinhar com álcool

Diante da alta do preço dos alimentos e do botijão de gás, muitas famílias têm tido que escolher entre a compra de comida ou do combustível.

Em agosto, o preço médio do botijão de gás de 13 kg estava em R$ 93, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), mas já superava os R$ 100 em diversos Estados brasileiros, como Mato Grosso (R$ 114), Rondônia (R$ 111), Amapá (R$ 109), Roraima (R$ 109) e Pará (R$ 102).

Em meio aos preços proibitivos, as notícias de queimados por cozinhar com álcool se multiplicam. Isso num momento em que o acesso ao álcool etílico mais inflamável, com concentração de 70%, foi popularizado pela pandemia.

Em Goiás, segundo o portal Metrópoles, em menos de dois meses, pessoas de três famílias diferentes sofreram queimaduras e foram internadas depois de usarem álcool para cozinhar.

Na mesma situação, um homem morreu, em julho, em Goiânia, com 50% do corpo queimado.

Em 27 de setembro, morreu Geisa Sfanini, de 32 anos, que teve 90% do corpo queimado após usar álcool combustível para cozinhar em sua casa em Osasco, na Grande São Paulo, segundo o G1. O bebê dela de 8 meses teve 18% do corpo queimado, mas sobreviveu.



'Vivi para contar': 'As pessoas, às vezes, passam aqui e olham pra gente como lixo'

 O Globo

Luiz Vander Ferreira da Silva, morador de rua, de 39 anos, em depoimento a Rafael Nascimento de Souza

Homem cata em restos de ossos o que distribui na fila da fome

Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

Luis Vander frita pelanca que pega no caminhão de osso 

Eu estudei até a 4ª série lá em Japeri. Na Escola Municipal Duque de Caxias. Daquele tempo eu não gosto de falar porque eu perdi o meu coroa. A necessidade era ainda pior. Sim, era pior do que catar ossos para ter o que comer. Eu fui pintor, bombeiro, eletricista e entendo um pouco de mecânica. Não lembro quando foi a última vez que eu tive carteira assinada. Estou com 39 anos. Meu nome é Luiz Vander Ferreira da Silva. 

Eu queria mudar a vida da minha esposa, deixá-la melhor. Dar uma casa para ela, sair da rua (eles vivem perto da Praça Paris, na Glória). Ter uma casinha para ela levar os filhos, os netos. Estou com ela desde 2011. Nos conhecemos em Japeri. Lá, tem a casa da mãe dela, onde estão os três filhos dela. Eu tenho quatro. Não lembro a idade dos meus filhos. Às vezes, eu fico triste. Queria dar mais condições de vida para os meus filhos. A gente fica aqui mandando as coisas para as crianças quando dá. Tem dia que a gente tem, tem dia que a gente não tem. Lá (em Japeri), tudo é muito difícil.

Escolhemos ficar na Glória porque conseguimos as coisas. Conseguimos uma reciclagem, uma lata, um papelão, alguma coisa. Vai ali no caminhão (que transporta ossos descartados por mercados da Zona Sul) e pega uma pelanquinha, salga, manda para casa. Outra parte deixo aqui e faço para geral comer. Quem vive na rua tem uma união, mas não são todos. Aqui não tem uma alimentação certa, e a gente acaba dependendo dos outros. Mas eu não posso só ficar dependendo de ajuda. Eu vou à luta. Tem gente que ajuda, dá comida. Mas tem dia que não tem nada.

Quando eu cheguei aqui, em 2012, tinha gente, mas não isso tudo. Na rua, você tem que saber levar. Tem gente ruim e gente boa. A gente tá dormindo, e pode tomar uma pedrada, uma paulada. A rua é ruim. Na rua, a gente escuta muita coisa. As pessoas, às vezes, passam aqui e olham para a gente como lixo. Tudo é muito difícil.  

Foto: Agência O Globo

Caminhão de ossos é a salvação para moradores de rua, como Luis Vander

 Me sinto bem e mal

Eu não sou herói só porque entro no caminhão da pelanca para ajudar a distribuir. Herói, só Deus. Eu nem sei explicar isso tudo. Não sei falar direito. Ao mesmo tempo, me sinto bem e mal. (Após divulgação da reportagem do jornal Extra sobre pessoas que fazem fila para pegar sobras de ossos num caminhão na Glória), a minha imagem está no Brasil inteiro. Está no telefone, no Facebook, na internet, está rodando. Mas eu não esperava que sairia dessa forma. Entendeu? Eu só penso naquele lá de cima que me ajuda a pegar as minhas pelanquinhas. Eu ajudo qualquer um, o próximo. Eu não sei o dia de amanhã. Eu só espero que Deus me dê vida e saúde para fazer as minhas “correrias” (venda de recicláveis) e ajudar minha família. Eu nem faço oração. Entrego na mão de Deus.

Sou realista. Só peço que eu consiga uma casa, para levantar com a minha dona, meus filhos e os filhos e os netos dela, oferecer uma dignidade. Porque eles vêm aqui e, daqui a pouco, passa um choque de ordem (operação da prefeitura) e leva os netos dela para o abrigo. E aí? Até a gente correr lá para tirar a criança, é muito difícil. Às vezes, o pessoal da limpeza também passa aqui e, se a gente der mole, eles levam tudo. Mas também tem gente boa, eles conversam e’ não levam nossas coisas.

XEPA DA CARNE: CAMINHÃO COM PELANCA E OSSO VIRA ESPERANÇA DE ALIMENTO PARA QUEM TEM FOME NO RIO 

  Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo 

Caminhão de pelanca. Cerca de 19,1 milhões de pessoas vivem quadro de insegurança alimentar grave. Aumento no número de pessoas que sofrem com a escassez de alimentos é de 54% se comparado a 2018  Diante do desemprego e da inflação galopante, pelanca vira esperança de alimento para famílias que buscam com o que matar a fome 

Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo  


Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo 


Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo 


Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo


Foto: Domingos Peixoto  / Agência O Globo 


Foto: Domingos Peixoto  / Agência O Globo 


Mulheres, homens e jovens se amontoam em busca dos restos da carne e dos ossos. O que antes pediam para cachorros, agora pedem para comer  No estado do Rio, 12% da população vivem com renda entre R$ 89 e R$ 178 Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo Vanessa Avelino, 48 anos, também mora nas ruas do Rio e caminha até o ponto de distribuição, onde separa pelanca por pelanca, osso por osso em busca de algo melhor para pôr na sacola Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo Pesquisa mostra que mais de 116,8 milhões de pessoas vivem hoje sem acesso pleno e permanente a alimentos Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo Pobreza extrema que leva pessoas a garimpar restos foi acentuada no Brasil durante a pandemia de Covid-19 Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

Hoje eu nem fui pegar pelanca porque eu não tinha sal. Vou pegar lá para chegar aqui e estragar? Então fui ali, peguei umas pelinhas de galinha e estou fazendo. Não pego para jogar fora. Eu deixo aqui as pelinhas fritas e geral vai passar aqui e comer. Eu me sinto grato por ajudar as pessoas. Eu queria ter algo melhor para dar às pessoas da rua. A gente na rua é criticado. Somos mendigos, “cracudos”. É assim que somos vistos. Se eu estivesse com um político, eu só pediria que ele ajudasse os pobres. Olha se isso é certo: você vai ao mercado e paga R$ 30 em cinco quilos de arroz? Tem gente que vai ter e outros que não. Vocês têm condições. E nós? Não. Não tenho dinheiro para comprar o básico”.

******-* COMENTANO A NOTÍCIA:

O que dizer diante destas imagens vistas na reportagem,  representativas da maior tragédia nacional? O Brasil se tornou uma pátria desalmada para seu povo. Quando conhecemos como vivem os barões da nobreza estatal, impossível conter uma sentimento de repulsa, de verdadeiro ódio pelo estado de miséria que estão condenando nossa gente.  E não se diga que apenas os políticos sejam os únicos culpados. Todos os ocupantes de cargos no Judiciário (principalmente), Legislativo e Executivo colocaram suas digitais neste quadro  odioso. Voltados e devotados aos seus interesses pessoais e de pura ostentação, esqueceram qual deve ser o seu verdadeiro papel, a sua missão republicana. Dói, e dói muito ver estas pessoas catando restos de ossos para sobreviverem, enquanto a canalha brasiliense se lambuza em banquetes regados a lagostas e vinhos raros à custa da nossa miséria coletiva. Por outro lado, é constrangedor assistir o discurso de que elevar o bolsa família para míseros 300 reais, é o máximo que o país pode suportar.  É uma total canalhice e falta de humanidade. 

Agora, na hora em que o povo brasileiro despertar desta pasmaceira em que foi metido, se rebelar e sair às ruas quebrando e arrebentando tudo o que encontrar  pela frente, nossos barões sequer terão o direito de resmungar. Estão lançando as sementes do ódio que, se nada for feito para mudar este cenário de tragédia social, cedo ou tarde emergirá em forma de convulsão. É até estranho que tal explosão ainda não tenha acontecido.  O que não se estranho é a fuga de milhões de brasileiro para  outras terras onde sejam respeitados como seres humanos.  Pouco a pouco, esta elite podre, corrompida, totalmente descompromissada com seu país, verdadeira legião de  sanguessugas abomináveis, transformou o Brasil numa imensa nação de 210 milhões de famintos e desesperançados, não lhes restando outra saída senão abandonar sua terra natal. . 


A preocupante alta de suicídios entre jovens brasileiros

 Malu Delgado

Deutsche Wlle

Número de suicídios na faixa etária de 11 a 20 anos dobrou no Brasil em cinco anos, e pandemia deve agravar o cenário. Especialistas pedem mais políticas públicas e alertam para efeitos da internet sobre a saúde mental.  

O suicídio foi a quarta causa de morte entre jovens brasileiros

 entre 15 e 29 anos em 2019, segundo a OMS

Transtornos mentais passaram a receber mais atenção durante a pandemia de covid-19, mas, bem antes da chegada do coronavírus, dados estatísticos já deixavam claro haver uma curva ascendente perturbadora no Brasil, em especial entre jovens de 11 a 20 anos.

Dados compilados pela insurtech (startup do setor de seguros) Azos – a partir de cruzamento de informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com a base histórica de mortes disponibilizada pelo governo federal – apontam que, num período de cinco anos (2014 a 2019), o número de suicídios de jovens nessa faixa etária dobrou no país.

A Azos aguarda a divulgação de dados do Ministério da Saúde sobre 2020 para agregá-los à base, mas não há dúvidas de que, com a pandemia, esse cenário tornou-se ainda mais grave.

O tema já era alvo de preocupação constante da Organização Mundial da Saúde (OMS). Antes da pandemia, a OMS estimava que um em cada cinco adolescentes no mundo enfrentava desafios de saúde mental. No Brasil, entre os jovens de 15 a 29 anos o suicídio foi a quarta causa de morte depois de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal, de acordo com relatório da OMS divulgado em 2019.

Somado aos dados sobre suicídio, há ainda a elevação significativa da violência autoprovocada entre jovens de 15 a 29 anos, como já havia detectado o próprio Ministério da Saúde em boletim epidemiológico divulgado em 2019: mais de 45% dos casos de autolesão e automutilação no país ocorreram nessa faixa etária na última década. E mais: do total de lesões autoprovocadas, em 2018 (o dado oficial mais recente), 40% foram registradas como tentativas de suicídio.

Necessidade de políticas públicas sólidas

O tema da saúde mental ganhou destaque no mês de setembro, com a campanha do Setembro Amarelo, para conscientização sobre suicídio e contra a psicofobia (preconceito contra as pessoas que apresentam transtornos e/ou deficiências mentais).

No entanto, profissionais da saúde no Brasil afirmam serem necessárias a implementação e ampliação de uma rede de atendimento permanente e eficaz de políticas públicas sólidas que possam auxiliar os jovens a enfrentar situações de sofrimento mental ao longo dos próximos anos.

A base de dados da Azos, afirma Bernardo Ribeiro, diretor de marketing e sócio-fundador da insurtech, pode auxiliar na elaboração de políticas públicas. "As estatísticas sobre suicídios nos assustaram, e é preciso entender melhor as causas", diz.

William Chung, cientista de dados da empresa, passou três meses reunindo informações oficiais para estruturar a base de dados. "O dado, por si só, não diz nada. Precisamos formular hipóteses. O que impactou esse fenômeno no Brasil?", questiona. Para os integrantes da insurtech, cabe aos profissionais da saúde e especialistas em políticas públicas buscar respostas e tentar reverter a curva ascendente no país.

"Não estamos conseguindo reduzir as taxas de suicídio"

De acordo com o vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Cláudio Meneghello Martins, houve "ampliação significativa de sintomas psiquiátricos no período de pandemia". Porém, desde 2014, explica ele, a ABP se engaja na campanha do Setembro Amarelo por entender o suicídio como questão de saúde pública.

"Temos conseguido reduzir as taxas de mortalidade por câncer e por doenças cardiovasculares, por exemplo, pelos avanços significativos nos tratamentos e diagnósticos precoces. Mas as taxas de suicídio não estamos conseguindo reduzir", afirma Martins.

"No Brasil, há cerca de 13 mil mortes por ano de casos notificados. Sabemos que o suicídio é subnotificado por vários fatores – culturais, políticos, de seguro. É uma taxa muito alta. A OMS já diz que no mundo há um suicídio a cada 40 segundos", aponta.

Os profissionais da saúde no Brasil, em especial os psiquiatras, afirma o vice-presidente da ABP, precisam lutar continuamente contra a estigmatização da doença mental. "Vários segmentos da sociedade têm muita resistência em buscar orientação. Temos ampliado o número de assistência e precisamos buscar sensibilizar as políticas [públicas de atendimento]."

"Transtornos mentais se desenvolvem a partir de um conjunto de fatores, de causas, como predisposição genética, vivências infantis, fatores estressores precoces, como maus-tratos, negligência, dificuldades nutricionais", explica Martins.

A pandemia amplificou os chamados fatores estressores, gatilhos significativos para o desenvolvimento de transtornos mentais. "Alterações comportamentais, de relações intrafamiliares, de relações laborais, as dificuldades financeiras e educacionais, enfim, há um conjunto de situações ambientais que impactaram a humanidade e evidentemente a nossa realidade com a covid-19. O próprio medo da doença, de ela ser instalada no núcleo familiar, já é fator estressor", diz o vice-presidente da ABP.

Fenômenos perenes da adolescência

Euclides Colaço, médico de família e comunidade especializado em psiquiatria e saúde mental, diz ser perceptível o boom de casos de automutilação e suicídio entre jovens a partir do primeiro semestre de 2020.

"São dois fenômenos que têm ficado perenes na adolescência e juventude. Até a década de 80, a idade média de suicídio oscilava em torno de 30 anos. Hoje em dia a idade caiu mais, na faixa de 20 anos", lamenta o especialista, que também é professor de medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais.

"Na minha prática cotidiana, acompanho casos de sofrimento mental de todos os tipos e faixas etárias. A automutilação, muito ligada à questão do suicídio, tem aumentado brutalmente. Percebo desde 2015, 2016, um aumento do número de professores que procuram a procurando UBS (Unidade Básica de Saúde) para dizer que estão com dificuldades para lidar com situações desse tipo nas escolas", diz Colaço.

O professor enfatiza que a desestruturação familiar é um dos fatores que pode desencadear os transtornos mentais. Segundo ele, é também visível a falta de estímulos positivos e perspectivas para os jovens no Brasil. "Principalmente para os mais vulneráveis. Geralmente eles só têm o ambiente da escola e de casa. Fora disso, não têm perspectiva de nenhuma outra atividade que os estimule. Ficam muito absortos só em informações na internet."

Lançado em junho deste ano, o Atlas das Juventudes e de novos estudos da FGV Social confirma o desalento, insatisfação, frustração e falta de perspectivas de jovens, sobretudo entre 15 a 29 anos: dos 50 milhões de brasileiros nessa faixa etária, 47% querem deixar o país.

Efeitos do mundo virtual

O mundo virtual pode alimentar um vazio e uma frustração com a qual os jovens não sabem lidar, acrescenta Colaço. Em seus atendimentos, o médico diz ver muitos casos de depressão e ansiedade em crianças e adolescentes, transtornos de comportamento e personalidade, "algo em que não pensaríamos há 20 anos". Em muitos casos, esses transtornos aparecem associados ao uso de entorpecentes, álcool e drogas, acrescenta.

Fenômenos contemporâneos, como o cyberbulling, a sexualização cada vez mais precoce, as influências digitais e um debate público sobre questões de gênero também estão relacionados aos transtornos mentais de crianças e adolescentes, explicam os especialistas. Para o médico Euclides Colaço, isso torna imprescindível um trabalho em rede, envolvendo as escolas e os profissionais da saúde.

Segundo o vice-presidente da ABP, é preciso ampliar e integrar toda a rede ambulatorial no país, pois muitas vezes a porta de entrada, onde se busca um primeiro atendimento, é o posto de saúde. O psiquiatra pontua que a demora no atendimento e a falta de acolhimento adequado aumentam os riscos de um desfecho trágico.

"Se a gente demora para fazer assistência, os sintomas vão se agravando. Se uma pessoa tem uma dor anginosa, por exemplo, isso pode se ampliar, e ela pode ter um infarto fulminante e morrer. Se os transtornos depressivos se prolongam, a sintomatologia também se agrava", compara Martins.

Desafio brasileiro

Oficial de Desenvolvimento e Participação de Adolescentes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, Joana Amaral disse à DW Brasil que a reversão de indicadores de morte por suicídio e violências autoprovocadas de adolescentes e jovens no país se tornou uma das prioridades da entidade. 

"O aumento é significativo, e temos acompanhado com muita preocupação esses comportamentos." Um grupo de trabalho nacional, criado em 2018, tem refletido sobre o que está acontecendo no Brasil e sobre quais são as causas de agravamento desse cenário. Em 2019, o governo federal lançou o Plano Nacional de Enfrentamento a Mutilações e Suicídios, o que é citado por Amaral como uma política pública positiva.

O contexto atual, acrescenta a oficial do Unicef, exerce forte influência nos transtornos mentais. "É importante a gente começar a pensar de que adolescências estamos falando. Temos um Brasil muito diverso, e para o Unicef é importante colocar isso na análise, as diferenças regionais, as diferentes estratégias de enfrentamento ao suicídio, pensar em situação socioeconômica, diferentes idades, raças e gênero, e como tudo isso reflete no comportamento de adolescentes e jovens", pontua.

As políticas públicas atuais, diz ela, não têm comportado o aumento gradual da demanda por atenção psiquiátrica especializada. A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), do SUS, é elogiada por especialistas, mas há muitas lacunas a  serem contornadas. Amaral cita, por exemplo, o fato de muitos pequenos municípios brasileiros não terem os chamados Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e muito menos o CAPSi, voltado ao público infanto-juvenil.

O Unicef tem desenvolvido políticas preventivas de acolhimento a essas crianças e adolescentes. A principal iniciativa recente é o espaço virtual Pode Falar, com três canais: Quero me cuidar, Quero me inspirar, Quero falar. O espaço oferece informações, testes de ansiedade, baralho para falar do suicídio, depoimentos inspiradores de adolescentes que contam situações que estão vivendo e como tentam superá-las, além da possibilidade de um primeiro atendimento psicológico virtual com encaminhamento para a rede pública se necessário.

"A ideia é que se tenha um espaço livre, seguro, sem julgamentos, de escuta empática, em que se possa oferecer alternativas", diz Amaral. De março até agora já foram mais de 29 mil acessos, concentrados na faixa etária de 15 anos.

Superar preconceitos, tabus e capacitar profissionais da saúde pública e da educação para lidar com o sofrimento mental de crianças e adolescentes é um grande desafio brasileiro.

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Se você enfrenta problemas emocionais e tem pensamentos suicidas, não deixe de procurar ajuda profissional. Você pode buscar ajuda neste site: https://www.befrienders.org/portugese


Mil dias rumo ao isolamento

 Fernando Gabeira, 

O Estado de S.Paulo

Os dias que restam de governo devem confirmar esta marcha de Bolsonaro para sua verdadeira estatura política. 

No momento em que o governo comemora mil dias e nós lamentamos a morte de 600 mil pessoas na pandemia, creio que a expressão isolamento define a trajetória de Bolsonaro.

Pode parecer inadequado falar de solidão nestes mil dias, sobretudo quando se mobiliza tanta gente como ele. Mas, se consideramos o percurso de um presidente que se elegeu com 57 milhões de votos e hoje é rejeitado pela maioria, vemos como ele perdeu terreno, o que é pior, supondo que estava avançando.

Quando Bolsonaro se elegeu, havia uma visão crítica internacional baseada nas suas declarações sobre violência e suas posições machista e homofóbica. O tempo encarregou de transformar essa desconfiança numa certeza mundial. Em primeiro lugar, as posições negacionistas na pandemia e, logo em seguida, também com grande peso, uma política devastadora no meio ambiente.

A última performance internacional de Bolsonaro serviu para transformá-lo numa espécie de líder exótico, destes que figuram apenas nas piadas de apresentadores de tevê. Ele quebrou o código de honra da ONU que previa um encontro de líderes vacinados.

Quando Bolsonaro disse que sua vida era uma desgraça, que não podia sair nas ruas para tomar um caldo de cana, já expressava de certa forma o desconforto que marca seu percurso na Presidência.

Muitos analistas afirmam que Bolsonaro fala apenas para seu público e que não se importa com a maioria. Na verdade, seu público hoje é formado pela extrema-direita e grupos de seguidores fiéis que não têm condições de avaliar criticamente sua performance. Nesse sentido, pode-se dizer que Bolsonaro se isolou de seus eleitores, uma vez que foi vitorioso numa eleição majoritária.

Mas existe um tipo de isolamento não estudado em detalhes, exceto por pesquisadores mais voltados para a questão militar, como o antropólogo Celso Castro, autor do livro O Espírito Militar. Trata-se de uma pesquisa entre cadetes na Academia das Agulhas Negras e revela que existe entre os militares uma tendência a dividir o País entre fardados e paisanos. Os militares mais disciplinados, idealistas, tendem a ver os paisanos como individualistas e pouco confiáveis. Bolsonaro parece ter herdado esse espírito ao determinar que os militares ocupassem o governo e escolher um grupo de oficiais de alta patente para seus assessores mais próximos.

Grande parte de sua agenda é voltada para solenidades militares, mas o principal exemplo que revela essa tendência discriminatória é seu argumento para aceitar as urnas eletrônicas.

Como se sabe, Bolsonaro afirmou várias vezes que as eleições no Brasil são fraudadas, embora tenha sido vitorioso em inúmeras proporcionais e na majoritária, para presidente, em 2018.

Ele só aceitaria eleições limpas com a presença do voto impresso e auditável – como se as urnas eletrônicas não fossem auditáveis.

Derrotado no Congresso, Bolsonaro ainda resistiu na sua campanha contra as urnas eletrônicas. Só depois de algum tempo admitiu as eleições tal como serão realizadas, mas argumentou assim: agora confio porque as Forças Armadas vão fiscalizar.

As Forças Armadas sempre conheceram o processo eleitoral, a porta nunca esteve fechada para sua fiscalização. Bolsonaro usou sua presença como uma desculpa para racionalizar o recuo.

Mas é um tipo de desculpa que merece análise, pois ela pressupõe que, para Bolsonaro, a única instituição confiável são as Forças Armadas.

Nesse simples movimento, o processo de isolamento, que já é ululante em termos internacionais, aparece com toda a clareza na dimensão nacional: ao longo de todo este período, Bolsonaro preocupou-se apenas com a aproximação com os militares e com aqueles setores da sociedade que os acham os únicos capazes de dirigir o Brasil, de preferência com um viés ditatorial.

Candidato, Bolsonaro desfrutou de uma configuração favorável, inclusive com atentado a faca, que permitiu envolver a maioria da população.

Como candidato, Bolsonaro aproxima-se rapidamente daqueles grupos que fazem manifestação em porta de quartel, usam camisa amarela e acreditam que fazem história antes da macarronada de domingo.

Com urnas eletrônicas ou voto impresso, não importa que tipo de mecanismo, uma posição como esta de Bolsonaro e seus fiéis nunca será majoritária no Brasil.

As condições de 2018 não estão mais presentes. Desde quando assumiu o governo, Bolsonaro caminha decisivamente, inclusive estimulado pelos filhos, rumo à sua posição mais autêntica, mais inequivocamente minoritária. É um líder da extrema-direita e possivelmente seguirá assim, até que a própria corrente que representa chegar à conclusão de que pode dispor de alguém melhor que ele.

Nunca é possível fazer uma previsão política com exatidão. Mas os dias que restam de governo devem confirmar esta marcha de Bolsonaro para sua verdadeira estatura política.

Ao afirmar que sua vida era uma desgraça, estava próximo de uma descrição real, pois cair em desgraça, em termos políticos, é um sinônimo de isolamento.

*

JORNALISTA


Quando os demônios não gostavam de gritos

 Juan Arias

El Pais

Afirmação do exorcista vaticano me levou a pensar que hoje, entre os políticos, os demônios também evoluíram, falando aos brados e fazendo muito barulho, enquanto lhes falta reflexão e compostura

 EDUARDO MUNOZ / POOL (EFE)

Presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU

Houve um tempo em que os demônios não gostavam que ninguém gritasse. Foi o que me contou há vários anos, quando eu era correspondente deste jornal na Itália, o então exorcista oficial do Vaticano, monsenhor Corrado Balducci, já falecido, que era chamado para tratar os casos mais graves de possessão diabólica.

Consegui uma entrevista com ele depois de uma série de peripécias. Encontrei-o em seu gabinete dentro do pequeno e poderoso Estado do Vaticano. Recebeu-me cordialmente, mas me advertiu em seguida que procurasse falar em voz baixa, já que, segundo ele, “os demônios não gostam que gritem”.”Como sabe?”, perguntei-lhe. Respondeu-me, sem mais detalhes, que “por experiência própria”. E assim a entrevista foi feita aos sussurros. 

Lembro ainda hoje alguns detalhes curiosos que consegui arrancar dele, embora tenha me pedido depois que não os incluísse na entrevista publicada. Por exemplo, também os animais podem ser possuídos pelo demônio. E me deu o exemplo do seu cavalo, que às vezes amanhecia possuído. Perguntei-lhe como sabia, e me explicou que nesses casos o animal “ficava com todos os pelos do rabo arrepiados”.

Essa afirmação do exorcista vaticano de que os demônios não gostam de gritos me levou a pensar que hoje, entre os políticos, os demônios também evoluíram, já que boa parte deles parece só falar aos brados e fazendo muito barulho, enquanto lhes falta reflexão e compostura.

Também relembrei aquela afirmação do exorcista por conta da gritaria e da confusão que o presidente Jair Bolsonaro e sua comitiva criaram durante sua recente estadia em Nova York para participar da Assembleia Geral da ONU. A imprensa brasileira e internacional já relataram todas as peripécias ocorridas – do fato de que o presidente brasileiro precisou comer uma pizza de pé na rua, porque não o deixaram entrar em um restaurante sem estar vacinado, até o gesto obsceno oferecido pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga contra os manifestantes.

Há um detalhe que, entretanto, passou despercebido e poderia ser uma metáfora da atual política bolsonarista. Na cerimônia de abertura da Assembleia da ONU, inaugurada, conforme a tradição, com o discurso do presidente do Brasil, houve um detalhe pouco conhecido e que foi gravado pela imprensa dos EUA. Assim que o mandatário brasileiro saiu, e antes que fosse a vez do norte-americano Joe Biden discursar, a tribuna onde acabara de falar foi rapidamente higienizada.

Naquele momento já se sabia que o presidente brasileiro não se vacinou contra a covid-19, e havia o temor de que Bolsonaro pudesse contagiar os demais presentes. Talvez por isso tenha voltado ao Brasil sem que pudesse se encontrar com o presidente norte-americano.

Entretanto, a cena da tribuna onde Bolsonaro discursou sendo higienizada às pressas poderia ser lida também como metáfora da periculosidade política que o negacionista de extrema direita representa no país considerado o maior defensor da democracia e das liberdades. É como se aquele ritual de desinfetar o lugar onde o presidente brasileiro discursou fosse visto como um exorcismo contra os demônios da discórdia, da mentira, do ódio, do gosto pelas ditaduras, do culto às armas e à morte.

A higienização do lugar onde Bolsonaro discursou entrará para a história e deveria agora ser uma lição para os poucos brasileiros que continuam a apoiá-lo. Às vezes, há pequenos gestos que podem passar despercebidos, mas que acabam fazendo história.

A cena de desinfetar a tribuna do presidente brasileiro foi mais que uma simples cena de limpeza. Deem vocês o nome que preferirem.

Uma coisa é certa: quem suceder Bolsonaro no Planalto, algo que a grande maioria dos brasileiros deseja, como indicam todas as pesquisas, deverá antes de mais nada desinfetar aquele lugar junto com o cercadinho onde o capitão vomita a cada manhã aos seus seguidores mais fiéis os demônios que lhe fazem lançar anátemas, ameaças e mentiras. “É que ele é assim mesmo”, alegam aqueles que o seguem de perto. É verdade, mas também são assim mesmo os desequilibrados psíquicos, os incapazes de juntar duas frases com sentido, os que falam o que lhes vem à cabeça sem esses filtros dos quais todos necessitamos, como explica a psicanálise. O que ocorre é que personalidades dessa tipologia deveriam ser incapacitadas para presidir e governar uma nação.

Esses políticos que sonham com o poder absoluto são como vulcões sempre em perigo de erupção, que provocam desastres e morte. Quem vier a substituir o capitão na presidência deverá se apressar em desinfetar com essa mesma urgência um pedaço da história deste país que está sendo impedindo de sonhar com dias melhores sem o medo de ser devorado pelo vírus de uma política que preocupa o mundo e gera medo e pobreza nesses milhões de pessoas para quem já ficaram muito distantes os tempos em que se acreditava que Deus era brasileiro. Talvez nunca tenha sido, pois a história do país ainda arrasta muitas injustiças, violências e segregação social, mas o perigo de hoje é que esse “Deus acima de tudo”, lema do presidente, tenha se metamorfoseado em um demônio da discórdia e da ruptura existencial.

Não sou dos que minimizam a periculosidade dos medíocres na política que acreditam ser deuses encarnados e acabam agindo como os novos demônios da discórdia. A História está cheia de ditadores que eram insignificantes quando entraram no poder e acabaram arrastando seus países para o inferno. Nada pior, de fato, que um despreparado que acredite ser enviado pelos deuses, enquanto aparece mais como a encarnação dos novos demônios do fascismo e da intolerância que hoje parecem ressuscitar no mundo e dos quais eles gostariam que o Brasil fosse seu epicentro político.

É possível que os demônios de hoje em dia gostem de gritar e mentir, mas o que continua sendo verdade é que os deuses preferem o silêncio, a reflexão, os valores que enaltecem, a compaixão que cura, e não o gosto pela violência, a discórdia, a mentira e a morte.

Alguém será capaz de higienizar a política brasileira para impedir que o vírus da intolerância e do fascismo continuem a contaminá-la, deixando rastros da dor e da desesperança engendradas por quem governa o país?

Juan Arias é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como ‘Madalena’, ‘Jesus esse Grande Desconhecido’, ‘José Saramago: o Amor Possível’, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente.


Pague sem reclamar

 Carlos Brickmann

 


 O problema do eleitor brasileiro é que se divide entre cobrar os excessivos gastos do Congresso, ou do Supremo, ou do Executivo. De vez em quando aparece alguma conta exagerada demais: as picanhas de R$ 1.700,00 o quilo, do presidente da República, a multiplicação por três dos gastos eleitorais do Senado e da Câmara, a concorrência do STF para banquetes com camarões, lagostas e vinhos com pelo menos quatro prêmios internacionais. O fato é que normalmente Suas Excelências gastam demais o nosso dinheiro. Não é só a picanha de alto luxo: é espantosa a tranquilidade com que o Executivo paga aos fardados quantias superiores ao teto constitucional, o Supremo admite funcionários encarregados de vestir a toga nos ministros e puxar-lhes a cadeira, os parlamentares se entopem de assessores bem pagos – muitos dos quais têm como maior mérito dividir o salário em rachadinhas com os parlamentares que os contratam.

É uma festa com dinheiro público. E ninguém entende por que é preciso limitar a Bolsa Família – não sem antes gastar um dinheirão para trocar o nome do programa assistencialista. Afinal, a propaganda é a alma do negócio. E a população mais pobre que se vire: pé de frango vira sua grande fonte de proteína animal.

O curioso é que o Imposto Ipiranga, Paulo Guedes, foi aluno de Milton Friedman, economista liberal que criou o Imposto de Renda Negativo. Guedes, se quiser, faz. Estudou bem o tema. Mas prefere louvar Bolsonaro.

Sentando em cima

O presidente da Câmara, Arthur Lira, tem 120 pedidos de impeachment de Bolsonaro para avaliar. No Senado, o presidente Rodrigo Pacheco deixou por dois meses de avaliar os pedidos para instaurar uma CPI da Covid, na qual os senadores estudariam eventuais falhas cometidas pelo Governo. Só agiu por ordem do Supremo.

Mas multiplicar por três as verbas destinadas à campanha eleitoral foi uma medida que saiu rapidamente. Campanha boa é aquela em que verbas abundam.

Todos ganham, todos ficam felizes, menos os eleitores e o Tesouro.

Lembrai-vos de Sua Excelência

Ainda se lembra do general Pazuello (“aqui um manda e outro obedece”), o que confundiu o Amazonas com o Amapá? Isso: aquele que o presidente Bolsonaro costuma chamar de “meu gordinho”. Pazuello acaba de ganhar novo posto: deixou a Secretaria de Assuntos Estratégicos e foi nomeado pelo ministro Ciro Nogueira para a Assessoria Especial da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Especialíssimo, pois. Seu cargo anterior, secretário especial de Assuntos Estratégicos, foi extinto.

Mas ele garantiu uma boa colocação. Quem tem padrinho não morre pagão.

Acomodando Bolsonaro

O presidente Bolsonaro, hoje sem partido, está no momento escolhendo entre duas opções, ambas do Centrão: o PP, do ministro Ciro Nogueira, e o PTB de Valdemar Costa Neto. Não há ideologia nas escolhas: Bolsonaro deve escolher o partido que lhe dê o controle da legenda. Desistiu do PSL, pelo qual se elegeu e que transformou num grande partido, o segundo do país, porque Luciano Bivar fez questão do controle da sigla – incluídos os cofres.

Bivar encaminha agora a fusão do PFL com o DEM, no qual não há lugar para Bolsonaro & Filhos. A nova legenda pode até apoiar Bolsonaro, se lhe for conveniente, mas não irá aceitá-lo no partido, nem lhe dará o controle. PP e PTB são os favoritos para abrigar o presidente.

Acomodando Moro

O ex-juiz Sergio Moro tem contrato até o fim do ano com uma empresa de advocacia dos EUA, e tudo indica que voltará ao Brasil. Pode sair candidato a presidente, ou ao Senado, sempre pelo Podemos, partido de Álvaro Dias. Mas só sai para presidente se achar que tem chance entre Lula e Bolsonaro. Não é o que as pesquisas apontam hoje. Mas há quem acredite que Moro vai ressuscitar a Lava Jato. Não vai, mas esperança sempre existe.

Moro talvez prefira se instalar nos EUA e não se candidatar a nada. Pode ser. Se for candidato, a tendência é que se transforme em alvo tanto de Lula quanto de Bolsonaro – uma experiência desagradável.

Veja em livro

O repórter Luís Nassif acaba de lançar um livro, O caso Veja, com o objetivo de narrar a “ascensão e queda da imprensa brasileira”. Em sua opinião, a desorganização da informação, promovida pelo partidarismo que vê na imprensa, desestruturou todos os poderes. O livro de Nassif já está à venda na Amazon.

A seu ver, o bolsonarismo nasceu por volta de 2005, quando a imprensa descobriu o que chama de jornalismo de esgoto. Liderada por Veja, a imprensa resolveu seguir o exemplo de Rupert Murdoch e assumir o protagonismo político e o discurso de ódio. Aí teria acabado a imprensa como a conhecemos e vieram, em seu lugar, as fake news. Vale ler.

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Populismo contra o povo do mentiroso preguiçoso

 José Nêumanne, 

O Estado de S.Paulo

Expoente da direita estúpida ajudou a tornar Lula elegível por prever que o derrotará. 

Em 8 de abril de 2020, Jair Bolsonaro traçou, em cadeia de rádio e TV, as linhas gerais de sua conduta no comando do combate à pandemia da covid-19: receitou cloroquina ineficaz, pregou reabertura do comércio, condenou o uso de máscaras, inculpou prefeitos e governadores por medidas de restrição à circulação de pessoas como forma de evitar o contágio da doença e ainda citou o que o diretor da Organização Mundial da Saúde, de fato, não disse.

Em 18 meses de guerra da Pátria, que ele nunca provou amar, contra o contágio do vírus, chegando perto de 600 mil baixas, muitas delas que poderiam ter sido evitadas, presidiu o populismo contra o povo. Daí 53% dos entrevistados pelo Ipec terem achado sua gestão “ruim ou péssima”. Apesar de bater recorde e ultrapassar a metade, o índice não reflete a dimensão de seu desastre. Após ter festejado a previsão de retomada da economia, pálida, segundo a previsão do Focus (mais 1,88%), a nova fica abaixo de 1%. Enquanto países desenvolvidos crescem aproveitando o êxito de isolamento, uso de máscara e vacina, o tríduo desprezado por seu negacionismo de resultados arrebanha fanáticos seguidores, calculados em 11% da população pelo diretor do Datafolha, Mauro Paulino.

No Estadão, Marcelo de Moraes registrou o marco dos mil dias com duas constatações: “O índice de inflação exibe uma alta de 9,68% em 12 meses até agosto. Já a Pnad Contínua, que registra o movimento da economia informal, mostra 14,8 milhões de desempregados até o meio do ano.” É sabido que a inflação dos mais pobres ultrapassou dois dígitos. Carlos Madeiro relatou, no UOL, que, desde o início da atual gestão, pelo menos 2 milhões de famílias caíram para os níveis de extrema pobreza (renda per capita de até R$ 89 mensais), “pessoas que vivem nas ruas ou em barracos e enfrentam insegurança alimentar recorrente”. E mais: “o número de junho, por sinal, é o maior de famílias na miséria desde o início dos registros disponíveis do Ministério da Cidadania - desde agosto de 2012 - e representa 41,1 milhões de pessoas.” Mas ele não dispensa a pose: “Eu avisei”, berra em lives e comícios ilícitos.

No Globo, Miguel de Almeida deu ao chefe do Executivo a pecha de “pé-frio”, que, segundo o etimologista Deonísio da Silva, se inspira em baixa temperatura de cadáver. Os indícios são fortíssimos. A pandemia, que ele apelidou de “gripezinha”, é o tema principal da única oposição digna dessa definição no cenário republicano atual, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado. Seus sete membros majoritários usarão documento de juristas, escrito sob a liderança do ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr., e lhe atribuíram sete crimes com possibilidade de abertura de processo de impeachment pela Câmara dos Deputados: contra a saúde, a administração e a paz públicas e a humanidade, infração de medidas sanitárias preventivas, charlatanismo, incitação ao crime e prevaricação.

A má fama da pandemia da covid pode superar as pragas do pesadelo do faraó do Egito explicado por José. A crise hídrica, que faz o desgoverno do capitão das malícias aumentar a níveis imorais a tarifa da luz, não resulta de sua incurável falta de vontade de trabalhar. Mas a verdade completa é que os caprichos do preguiçoso que tem ódio mortal ao trabalho anabolizam os efeitos do vírus e da seca porque ele não adota atitudes que gestores laboriosos e responsáveis tomariam em seu lugar. Como lembrou o epidemiologista Gonzalo Vecina, no Dois Dedos de Prosa no blog do Nêumanne no portal do Estadão, ele manteve a obra nefasta da passagem devastadora de seu líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, no Ministério da Saúde no governo Temer, seu escriba de falsa pacificação. Ele também esperou que São Pedro mandasse chuva para evitar a seca nos reservatórios e não preparou o País para a crise.

“Mil dias sem corrupção”, apregoam seus seguidores desde a segunda 27. Não é o que revelará o relatório de Renan Calheiros na CPI. Nem o Ministério Público do Rio, que repetirá no gabinete do filho Carlos, dito eleitor único de sua vitória em 2018 pelo áulico secretário-genro das Comunicações, Fábio Faria, a devassa das traquinagens do coleguinha paraquedista Fabrício Queiroz sob a gestão irresponsável do primogênito Flávio na Alerj.

A maior prova da falácia é a demolição sistemática e brutal feita com parceiros parlamentares e ministros do Supremo Tribunal Federal do combate ao furto do erário realizado pela Operação Lava Jato e pelo ex-juiz Sérgio Moro. Ele ajudou a tornar Lula elegível por achar ser este o mais fácil a derrotar. Ao nomear Augusto Aras procurador-geral da República para derrubar pedra sobre pedra as conquistas do combate à corrupção, que exaltou falsamente para sair vitorioso na campanha eleitoral de 2018, o péssimo cristão, que cultua morte e mentira, e não vida e verdade, Jair (nada messias) Bolsonaro, serviçal do Centrão de Arthur Lira e do patrimônio imobiliário dos filhos, finge-se de Dimas, à direita do Cristo na cruz, para servir a Simas, o mau ladrão, à esquerda de Jesus.

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JORNALISTA, POETA E ESCRITOR


Instituições de terceiro mundo

 Editorial

Gazeta do Povo

 Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados 

Plenário da Câmara dos Deputados.| 

No meio da uma reportagem publicada em 2016, o jornal New York Times fez uma afirmação sobre o Brasil que talvez retrate o principal obstáculo ao projeto de o país se tornar uma nação desenvolvida. Disse o jornal: “O Brasil quer ser país de primeiro mundo, mas insiste em manter instituições de terceiro mundo”. A palavra “instituições” pode representar um leque amplo de entes econômicos, jurídicos e sociais; logo, é necessário delinear o que isso significa. O substantivo “instituição” deriva do verbo “instituir” e significa algo que foi fundado e passa a ter existência real (caso de uma empresa ou um órgão público, como o Banco Central, por exemplo), ou leis e normas que têm existência compulsória ao obrigar pessoas físicas e jurídicas, individual ou coletivamente, a seu cumprimento e obediência, sob pena de punição.

De forma geral, pode-se citar o conjunto de leis, regulamentos e normas públicas aprovadas e com força de obrigação, destinados à satisfação de interesses coletivos. A lista pode começar pela formação do Estado, a Constituição, o Poder Legislativo, o Poder Executivo, o Poder Judiciário, os códigos Civil, Penal, Comercial, Tributário, Trabalhista, as leis e portarias comerciais, tributárias, ambientais, patrimoniais, comportamentais etc. Essas são instituições públicas, no mais das vezes de natureza estatal, complementadas por extenso leque de instituições religiosas, educacionais, assistenciais, empresariais e outras de natureza privada destinadas a atender necessidades da comunidade.

Instituições mal estruturadas e com regras ruins e prejudiciais ao crescimento econômico e ao desenvolvimento social travam o crescimento e impedem o país de evoluir na economia e superar seus graves problemas sociais

Entre as instituições mais importantes estão a moeda, os contratos, os poderes constituídos e tudo o que gira em torno deles e regula a vida nacional em seu todo. O economista Douglass North, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1993, tornou-se um dos maiores especialistas sobre as causas do desenvolvimento das nações; ele escreveu, falou e publicou livros dizendo que a essência do desenvolvimento está na qualidade das instituições, seguida das crenças do povo, sua mentalidade e sua cultura. A base de seu pensamento é que esse conjunto de atributos e características determina o comportamento e o modo de agir das pessoas e das autoridades, no campo privado e no campo coletivo, e isso determina a constelação de feitos e fatos da economia da vida individual e da vida coletiva – logo, determina o grau de desenvolvimento econômico e de bem-estar social.

Pois o Brasil parece ser uma prova de que as instituições, quando mal estruturadas e com regras ruins e prejudiciais ao crescimento econômico e ao desenvolvimento social, efetivamente travam o crescimento e impedem o país de evoluir na economia e superar seus graves problemas sociais, como a miséria e a pobreza. Não é preciso listar o conjunto de instituições de baixa qualidade, porquanto não há grande divergência quanto ao fato de que a federação brasileira – com 5.570 municípios, 26 estados, Distrito Federal e União – funciona mal: os papéis de cada ente são mal definidos e as distorções são muitas. Isso vale para os parlamentos municipais, estaduais e federal, como também para a estrutura do Poder Judiciário e o conjunto de leis e normas que regulam os atos da vida privada e da vida social.

Já foi noticiado na imprensa que o Brasil produziu mais de 4 milhões de leis, normas e regulamentos desde a aprovação da Constituição de 1988 – ela própria um documento precário, tanto que recebeu mais de 100 emendas em 33 anos. Isso bastaria para qualquer analista internacional ficar assombrado e concluir que o Brasil é um hospício legislativo, posto que é impossível sequer imaginar a existência de mais de 4 milhões de leis e normas públicas em pouco mais de três décadas. Esse aspecto é apenas um dos reflexos da baixa qualidade das instituições e tudo de ruim que disso resultou e já foi incorporado à cultura política e pública do país, sem que o próprio povo afetado por essa insanidade tenha se mobilizado para desmontá-la.

As distorções, a ineficiência e loucura ilógica do arsenal de leis, órgãos e regras passaram a ser o normal na vida das pessoas e das instituições econômicas e sociais. Um dos efeitos desse quadro é o contorcionismo refletido no tal “jeitinho brasileiro”, que, de uma cultura de adaptação – a saudável epiqueia aristotélica, a qualidade de contornar leis e regulamentos exagerados e injustos –, passou a ser sinônimo de ineficiência e coisas malfeitas (quando não de corrupção pura e simples). É o caso da cultura da gambiarra, das coisas feitas sem qualidade, das obras inacabadas e descumprimentos de acordos, os quais sobrevivem como normais e aceitáveis. Um exemplo é a absurda quantidade de obras inacabadas de responsabilidades dos municípios, dos estados e da União, conforme todo ano é publicado, sem que isso gere revoltas e queda de governantes.

Um exemplo que muitos dizem ser um ato isolado (coisa que não foi), é o ocorrido nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, quando a Vila Olímpica sofreu duras críticas de delegações internacionais, que se recusaram a ocupar certos apartamentos por apresentarem problemas elétricos e de encanamento. Na época, diante da reclamação dura da delegação da Austrália, que se recusava a ficar na Vila Olímpica após constatar tais problemas, o prefeito Eduardo Paes fez uma piada infame ao dizer que, para reparar as falhas, iria colocar um canguru nos aposentos da delegação australiana, ao que recebeu merecida resposta. “Não queremos canguru, mas apenas encanadores”, disse um dos chefes da delegação. Curiosamente, a cerimônia de abertura dos Jogos de 2016 incluiu uma homenagem à gambiarra, que em sentido real simboliza a coisa malfeita, de baixa qualidade.

A sociedade brasileira precisa levantar suas mazelas, falar delas e evoluir para deixar de aceitar passivamente que o país apresente tantas distorções e instituições ruins – tidas no mundo adiantado como coisa de país atrasado de terceiro mundo –, mas principalmente porque é essa realidade que está na base da miséria, da pobreza e da dificuldade de, mesmo com os abundantes recursos naturais, crescer e colocar a nação no nível dos países desenvolvidos.


Um governo sem remédio

 Míriam Leitão

O Globo

  Foto Pablo Jacob / Agencia O Globo

Cerimônia de assinatura do decreto da Cédula de Produto 

Rural Verde, na foto, o Presidente Jair Bolsonaro

A inflação está de volta aos dois dígitos com seu efeito devastador sobre os mais pobres, num momento em que há um forte aumento da pobreza. Isso deveria estar no centro das atenções do governo, mas o presidente está ocupado em fazer campanha antecipada, em jogar a culpa dos problemas sobre os governadores. O Ministério da Economia não conseguiu formular uma boa proposta de combate à inflação, de redução da pobreza, e está num jogo de faz de conta fiscal.

Faz de conta que o teto de gastos está sendo respeitado, faz de conta que a Lei de Responsabilidade Fiscal está sendo obedecida. O teto fica onde está, mas muitas despesas vão sendo depositadas sobre ele. E quanto mais despesas sobem, mais fictícia se torna essa trava fiscal. A ideia de financiar um novo programa social com receitas ainda a serem criadas é delirante. E sim, fere a LRF. O secretário especial de Fazenda, Bruno Funchal, diz que se o projeto do Imposto de Renda não for aprovado não haverá o novo programa. Isso é de tranquilizar, por um lado, mas não resolve a outra questão. Há necessidade de mais dinheiro para as transferências de renda. E isso é necessário porque os pobres ficaram mais pobres, e há mais pobres no país.

Na visão do mercado financeiro o que está claro é que o governo não quer cortar despesas para compensar a ampliação da rede de proteção aos mais pobres. Espaço há, como as emendas bilionárias de relator, que só servem para comprar o apoio dos políticos do centrão. A saída, então, será através do velho truque do aumento de impostos. Por isso subiu o IOF e o governo quer urgência na aprovação do seu projeto de IR. Ainda assim, as contas não fecham, porque existe a limitação do teto de gastos. A proposta inicial era ruim, foi piorada na Câmara e empacou no Senado. Não há qualquer certeza de que ela de fato vai arrecadar mais. O governo diz que o projeto será neutro, mas que com o aumento da receita vai financiar o programa. Ou é neutro ou aumentará a receita. Mas vários economistas estão prevendo que, na verdade, haverá perda de arrecadação. Os estados sabem que perderão.

O que o Brasil não precisa? De inventar um programa de transferência de renda só para tirar a marca do PT do Bolsa Família. E foi exatamente o que governo fez. Ele baixou uma Medida Provisória extinguindo o programa e criando o novo Auxílio Brasil, mas não sabe ainda como vai financiar. Enquanto isso, cria-se o que já existiu, como o vale-gás. Ele foi extinto quando o governo Lula eliminou vários programas para concentrar no Bolsa Família, porque uma política potente é melhor do que a pulverização dos programas sociais.

Tempo para formular ideias melhores houve. E foi desperdiçado neste improviso constante que domina o governo Jair Bolsonaro. O negacionismo é ruim em si mesmo e por todos os efeitos colaterais. Ele impede que o governo tenha uma visão da sequência dos eventos e planeje a ação pública. Bolsonaro achou que a pandemia seria curta, negou a segunda onda, combateu as vacinas, brigou com os dados, desuniu o país e só agiu empurrado. Agora, unido ao Ministério da Economia, o presidente lança mão de medidas populistas para ver se consegue reverter a queda forte de popularidade.

A inflação vai atingir, com o dado de setembro, 10,2% segundo o Banco Central. As famílias estão endividadas, empobrecidas, e os juros terão que subir porque o BC tem que cumprir seu mandato de atingir a meta de inflação. Seria melhor se o presidente não atrapalhasse tanto a economia, com suas ameaças, mentiras e ataques.

O Brasil já reduziu tanto a sua expectativa em relação ao comportamento adequado de um presidente da República que comemora o fato de ele não falar de golpe desde o dia 7 de setembro. O país vai contando os dias como se, por decurso de prazo, Bolsonaro fosse deixar de ser o que é. Nesse meio tempo ele usou descaradamente o dinheiro público em campanha antecipada, atacou os governos estaduais por causa do preço do combustível, mentiu inúmeras vezes, fez apologia de armas colocando uma criança no ombro com um fuzil de brinquedo na mão, ameaçou as famílias dizendo que quem não se armar terá que atirar com balas de feijão quando invadirem sua casa. Não há o que salve esse governo. Ele não tem remédio.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)


Em nome do pai, dos filhos e da esposa (amém!), hoje tudo é permitido no Brasil

 Ricardo Kertzman  

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

É estupefaciente que Jair Bolsonaro, o verdugo do Planalto, ainda seja presidente da República – ao menos oficialmente. ‘Nunca antes na história desse País’, como dizia aquele conhecido corrupto e líder de quadrilha, um Chefe de Estado fez tanto por merecer o impeachment.

Fernando Collor, o novo amigo de fé e irmão camarada do devoto da cloroquina, foi pro saco por causa de um Fiat Elba – algo como um Fiat Uno 90 nos dias de hoje. Já a Dona Doida, Dilma Rousseff, nossa eterna estoquista de vento, sucumbiu justamente por ser Dilma Rousseff, coitada.

Bolsonaro, porém, a despeito das rachadinhas e das mansões; da cloroquina e da falta de vacinas; da inflação e do desemprego; dos 1.000% e dos atos golpistas, e de motociatas, aglomerações, ameaças, queimadas, ONU, enfim, dos milhares de motivos, mantém-se no cargo.

CONGRESSO

O fiel da balança sempre foi o Congresso Nacional, notadamente o presidente da Câmara, responsável por ‘fazer andar’ qualquer pedido de impeachment. Uma vez contrariado, o todo-poderoso atira o inquilino do Planalto aos leões, que, famintos, ou devoram a presa ou a descartam.

Jair Bolsonaro, o maníaco do tratamento precoce, ainda serve de ração para estes leões. Principalmente a raça centrão, que costuma roer até o último osso antes de abandonar a carcaça. Apenas por isso continua a desgovernar e a destruir o País, além de ajudar a matar 600 mil pessoas.

Não estivessem Arthur Lira, presidente da Câmara, e centenas de cúmplices, que se dizem deputados (são meros abutres), entupindo os bolsos de dinheiro público, o amigão do Queiroz já estaria mais morto – e enterrado! – que o poder de compra dos brasucas pobres e desempregados.

MICHEQUES

A primeira-dama Michelle Bolsonaro ficou conhecida popularmente por ‘Micheque’ após vir à tona uma série de cheques, totalizando 90 mil reais, emitidos pelo casal miliciano – e operador da família Bolsonaro – Fabrício e Márcia Queiroz, depositados em sua conta bancária.

Eram tempos difíceis aqueles, já que Bolsonaro era um relés deputado do baixíssimo clero da Câmara, e só conseguia acesso a funcionários fantasmas e rachadinhas. Porém, como quem batalha sempre alcança, o peculatário se tornou presidente, e agora o sarrafo subiu de patamar.

Reportagem da revista digital Crusoé, publicada nesta sexta-feira (1/10), mostrou que a ‘nossa’ primeira-dama deixou de lado o passado de receptora de cheques de milicianos, para exercer advocacia administrativa – atividade, em tese, criminosa – em favor de amigos interessados em empréstimos na Caixa.

IMPEACHMENT

É de tal sorte escandaloso esse caso, que não basta apenas investigação e punição. Aliás, não é a primeira vez na família. O senador das rachadinhas e da mansão de 14 milhões de reais, comprada por apenas 6 milhões (ahã), conseguiu empréstimo subsidiado em um banco estatal também.

Então, ficamos assim: ‘em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo’, pai, filhos e esposa jactam-se, ao fastio, de dinheiro público, em favor próprio ou de terceiros, e vida que segue, sem impeachment ou punição, graças aos amigos do Congresso Nacional e do – e aí, golpistas? – STF.

O Brasil está completamente destruído e à mercê dos piores políticos e governantes que já tomaram de assalto o poder em toda a nossa triste história. Mais um ano e meio disso tudo enterrará de vez o pouco que sobrou do País. Não há nada que seja pior do que não impedir essa corja imediatamente.


Mil dias de bravatas

 Marcos Strecker

Revista ISTOÉ

Para tentar estancar a queda de popularidade, Bolsonaro improvisa inaugurações paroquais e transforma o marco do milésimo dia de gestão em palanque para candidatos governistas

 (Crédito: Alan Santos)

ELEITOREIRO Jair Bolsonaro inaugura obra e distribui 

títulos de propriedade em Teixeira de Freitas (BA), no dia 28 

O problema de celebrar um marco, para qualquer governo, é quando ele não tem realizações a comemorar. É o caso da gestão Bolsonaro. Ao trombetear os mil dias de gestão, o mandatário mobilizou toda a equipe para projetar uma imagem de dinamismo, mas vendeu um fiasco. Uma comitiva de ministros foi organizada para rodar o País. Qualquer inauguração valia, numa agenda típica de currais eleitorais. Todas as unidades da Federação deveriam receber a visita de pelo menos um membro do governo. O presidente compareceria ao longo da semana em pelo menos um estado de cada região do País. A questão é que o próprio elenco de obras é uma prova da inércia e da falta de rumos da administração. A lista incluiu praça de esportes, entrega de ônibus, títulos agrários, moradias populares, unidade da Polícia Rodoviária Federal e pontos de wifi.

Celebração começou com programa da Caixa feito para driblar regras orçamentárias

O pontapé das festividades ocorreu um dia depois de o presidente testar negativo para Covid, após a contaminação de quatro membros da delegação oficial que o acompanharam no discurso da ONU, na semana anterior (um deles é o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que ficou retido em quarentena nos EUA). Foi o lançamento de um programa de microcréditos da Caixa Econômica Federal no Palácio do Planalto, na segunda-feira. O presidente do banco, Pedro Guimarães, participou de forma virtual pois era um dos contaminados na viagem. Esse próprio programa é um símbolo de populismo econômico e do uso político do banco, facetas dessa gestão. Mostra como o governo tem usado a instituição para driblar as restrições no Orçamento. É um pacote de empréstimos de R$ 300 a R$ 1.000 concebido para driblar a dificuldade em lançar o novo Bolsa Família ou estender o Auxílio Emergencial. Na contramão do mercado, a instituição também diminuiu as taxas do crédito imobiliário, apesar da alta dos juros. O banco também foi usado para lançar um programa de crédito imobiliário subsidiado para policiais, base de apoio eleitoral do presidente. 

(Crédito:José Cruz/Agência Brasil)

INFECTADO O presidente da Caixa, Pedro Guimarães,

 participou à distância do início das comemorações 

Ministros em campanha

Em seguida, nada menos que 12 ministros, metade do governo, foram a campo. O festival de aglomerações (sem máscara) começou na terça-feira, na Bahia, quando Bolsonaro entregou pouco mais de 10 quilômetros de rodovias asfaltadas: 5,4 km de duplicação da BR-116 e mais 5 km da BR-101 (uma obra mais portentosa do que a ponte de 18 metros de comprimento no Amazonas, inaugurada em agosto, em cerimônia que consumiu R$ 711 mil, quase três o valor da própria ponte). No mesmo dia, em Alagoas, o presidente participou da entrega de 200 casas. Em um dos eventos, chamou para o palco o ex-presidente Fernando Collor, um aliado que provocou vaias da plateia. Na quarta-feira, dez ministros se dirigiram a Roraima, para a inauguração da Usina Termelétrica de Jaguatirica. Na sexta, a escala era em Maringá, no Paraná, reduto eleitoral do encrencado líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, para inaugurar a reforma do aeroporto da cidade. Mais do que exibir um governo em ação, a programação virou um palanque para ministros que serão candidatos em 2022. Além de Barros, ganharam palco para suas pré-campanhas Ciro Nogueira (no Piauí), Fábio Faria (no Rio Grande do Norte), Gilson Machado (em Pernambuco) e João Roma (na Bahia). O próprio Pedro Guimarães, da Caixa, é cotado para uma vaga no Senado, mas mantém na mira o governo do Rio e já sonhou até com a vaga de vice de Bolsonaro no ano que vem.

Em termos de realizações, o País não tem nada a comemorar. A gestão Bolsonaro até o momento foi responsável por uma atitude criminosa que multiplicou os óbitos na pandemia, deixou a economia em frangalhos com a volta da inflação e a fuga de investidores, desmontou a educação, agrediu o meio ambiente, asfixiou a ciência e patrocinou uma legislação armamentista. Bolsonaro não deixará nenhum legado além da tentativa de acabar com a democracia. O delírio liberal de Paulo Guedes, até o momento, escondeu apenas mais um avanço populista irresponsável sobre o Estado e o desmonte da política de responsabilidade fiscal duramente conquistada na redemocratização. Desde 2019, não ocorreu nenhuma privatização, mas duas novas estatais foram criadas. O “choque de energia barata” propagandeado pelo ministro nunca aconteceu. Ao contrário, os preços no setor explodiram e o País está na iminência de um novo apagão.

“Os 1000 dias de Bolsonaro representam um atraso absurdo em todas as áreas, mas uma em particular exige atenção: quem se elegeu para ‘mudar tudo isso aí’ se juntou ao PT e o Centrão para acabar com a Lava Jato e atrasar todo o trabalho de combate à corrupção”, disparou o senador Alessandro Vieira sobre as comemorações. Antes de mais nada, o espetáculo representou uma tentativa desesperada de melhorar a imagem do governo e estancar a queda na popularidade de Bolsonaro. Além de um show de improviso, os eventos viraram uma mal-disfarçada campanha eleitoral antecipada. Para o País, o problema são os 457 dias que ainda faltam para o governo acabar.