quarta-feira, outubro 06, 2021

'Vivi para contar': 'As pessoas, às vezes, passam aqui e olham pra gente como lixo'

 O Globo

Luiz Vander Ferreira da Silva, morador de rua, de 39 anos, em depoimento a Rafael Nascimento de Souza

Homem cata em restos de ossos o que distribui na fila da fome

Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

Luis Vander frita pelanca que pega no caminhão de osso 

Eu estudei até a 4ª série lá em Japeri. Na Escola Municipal Duque de Caxias. Daquele tempo eu não gosto de falar porque eu perdi o meu coroa. A necessidade era ainda pior. Sim, era pior do que catar ossos para ter o que comer. Eu fui pintor, bombeiro, eletricista e entendo um pouco de mecânica. Não lembro quando foi a última vez que eu tive carteira assinada. Estou com 39 anos. Meu nome é Luiz Vander Ferreira da Silva. 

Eu queria mudar a vida da minha esposa, deixá-la melhor. Dar uma casa para ela, sair da rua (eles vivem perto da Praça Paris, na Glória). Ter uma casinha para ela levar os filhos, os netos. Estou com ela desde 2011. Nos conhecemos em Japeri. Lá, tem a casa da mãe dela, onde estão os três filhos dela. Eu tenho quatro. Não lembro a idade dos meus filhos. Às vezes, eu fico triste. Queria dar mais condições de vida para os meus filhos. A gente fica aqui mandando as coisas para as crianças quando dá. Tem dia que a gente tem, tem dia que a gente não tem. Lá (em Japeri), tudo é muito difícil.

Escolhemos ficar na Glória porque conseguimos as coisas. Conseguimos uma reciclagem, uma lata, um papelão, alguma coisa. Vai ali no caminhão (que transporta ossos descartados por mercados da Zona Sul) e pega uma pelanquinha, salga, manda para casa. Outra parte deixo aqui e faço para geral comer. Quem vive na rua tem uma união, mas não são todos. Aqui não tem uma alimentação certa, e a gente acaba dependendo dos outros. Mas eu não posso só ficar dependendo de ajuda. Eu vou à luta. Tem gente que ajuda, dá comida. Mas tem dia que não tem nada.

Quando eu cheguei aqui, em 2012, tinha gente, mas não isso tudo. Na rua, você tem que saber levar. Tem gente ruim e gente boa. A gente tá dormindo, e pode tomar uma pedrada, uma paulada. A rua é ruim. Na rua, a gente escuta muita coisa. As pessoas, às vezes, passam aqui e olham para a gente como lixo. Tudo é muito difícil.  

Foto: Agência O Globo

Caminhão de ossos é a salvação para moradores de rua, como Luis Vander

 Me sinto bem e mal

Eu não sou herói só porque entro no caminhão da pelanca para ajudar a distribuir. Herói, só Deus. Eu nem sei explicar isso tudo. Não sei falar direito. Ao mesmo tempo, me sinto bem e mal. (Após divulgação da reportagem do jornal Extra sobre pessoas que fazem fila para pegar sobras de ossos num caminhão na Glória), a minha imagem está no Brasil inteiro. Está no telefone, no Facebook, na internet, está rodando. Mas eu não esperava que sairia dessa forma. Entendeu? Eu só penso naquele lá de cima que me ajuda a pegar as minhas pelanquinhas. Eu ajudo qualquer um, o próximo. Eu não sei o dia de amanhã. Eu só espero que Deus me dê vida e saúde para fazer as minhas “correrias” (venda de recicláveis) e ajudar minha família. Eu nem faço oração. Entrego na mão de Deus.

Sou realista. Só peço que eu consiga uma casa, para levantar com a minha dona, meus filhos e os filhos e os netos dela, oferecer uma dignidade. Porque eles vêm aqui e, daqui a pouco, passa um choque de ordem (operação da prefeitura) e leva os netos dela para o abrigo. E aí? Até a gente correr lá para tirar a criança, é muito difícil. Às vezes, o pessoal da limpeza também passa aqui e, se a gente der mole, eles levam tudo. Mas também tem gente boa, eles conversam e’ não levam nossas coisas.

XEPA DA CARNE: CAMINHÃO COM PELANCA E OSSO VIRA ESPERANÇA DE ALIMENTO PARA QUEM TEM FOME NO RIO 

  Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo 

Caminhão de pelanca. Cerca de 19,1 milhões de pessoas vivem quadro de insegurança alimentar grave. Aumento no número de pessoas que sofrem com a escassez de alimentos é de 54% se comparado a 2018  Diante do desemprego e da inflação galopante, pelanca vira esperança de alimento para famílias que buscam com o que matar a fome 

Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo  


Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo 


Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo 


Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo


Foto: Domingos Peixoto  / Agência O Globo 


Foto: Domingos Peixoto  / Agência O Globo 


Mulheres, homens e jovens se amontoam em busca dos restos da carne e dos ossos. O que antes pediam para cachorros, agora pedem para comer  No estado do Rio, 12% da população vivem com renda entre R$ 89 e R$ 178 Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo Vanessa Avelino, 48 anos, também mora nas ruas do Rio e caminha até o ponto de distribuição, onde separa pelanca por pelanca, osso por osso em busca de algo melhor para pôr na sacola Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo Pesquisa mostra que mais de 116,8 milhões de pessoas vivem hoje sem acesso pleno e permanente a alimentos Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo Pobreza extrema que leva pessoas a garimpar restos foi acentuada no Brasil durante a pandemia de Covid-19 Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

Hoje eu nem fui pegar pelanca porque eu não tinha sal. Vou pegar lá para chegar aqui e estragar? Então fui ali, peguei umas pelinhas de galinha e estou fazendo. Não pego para jogar fora. Eu deixo aqui as pelinhas fritas e geral vai passar aqui e comer. Eu me sinto grato por ajudar as pessoas. Eu queria ter algo melhor para dar às pessoas da rua. A gente na rua é criticado. Somos mendigos, “cracudos”. É assim que somos vistos. Se eu estivesse com um político, eu só pediria que ele ajudasse os pobres. Olha se isso é certo: você vai ao mercado e paga R$ 30 em cinco quilos de arroz? Tem gente que vai ter e outros que não. Vocês têm condições. E nós? Não. Não tenho dinheiro para comprar o básico”.

******-* COMENTANO A NOTÍCIA:

O que dizer diante destas imagens vistas na reportagem,  representativas da maior tragédia nacional? O Brasil se tornou uma pátria desalmada para seu povo. Quando conhecemos como vivem os barões da nobreza estatal, impossível conter uma sentimento de repulsa, de verdadeiro ódio pelo estado de miséria que estão condenando nossa gente.  E não se diga que apenas os políticos sejam os únicos culpados. Todos os ocupantes de cargos no Judiciário (principalmente), Legislativo e Executivo colocaram suas digitais neste quadro  odioso. Voltados e devotados aos seus interesses pessoais e de pura ostentação, esqueceram qual deve ser o seu verdadeiro papel, a sua missão republicana. Dói, e dói muito ver estas pessoas catando restos de ossos para sobreviverem, enquanto a canalha brasiliense se lambuza em banquetes regados a lagostas e vinhos raros à custa da nossa miséria coletiva. Por outro lado, é constrangedor assistir o discurso de que elevar o bolsa família para míseros 300 reais, é o máximo que o país pode suportar.  É uma total canalhice e falta de humanidade. 

Agora, na hora em que o povo brasileiro despertar desta pasmaceira em que foi metido, se rebelar e sair às ruas quebrando e arrebentando tudo o que encontrar  pela frente, nossos barões sequer terão o direito de resmungar. Estão lançando as sementes do ódio que, se nada for feito para mudar este cenário de tragédia social, cedo ou tarde emergirá em forma de convulsão. É até estranho que tal explosão ainda não tenha acontecido.  O que não se estranho é a fuga de milhões de brasileiro para  outras terras onde sejam respeitados como seres humanos.  Pouco a pouco, esta elite podre, corrompida, totalmente descompromissada com seu país, verdadeira legião de  sanguessugas abomináveis, transformou o Brasil numa imensa nação de 210 milhões de famintos e desesperançados, não lhes restando outra saída senão abandonar sua terra natal. .