Adelson Elias Vasconcellos
“...Tirem Blatter e Valcke de mim, diz presidente, ao defender que obras são para o país...”. A informação está na Folha. Não há muito para se comentar sobre estas declarações infelizes da senhora Rousseff. Talvez a solidão do poder, de que tantos falam, estejam corroendo a percepção da realidade por parte da senhora presidente.
Então vamos ver. Primeira questão que se abre: foi a FIFA e seus dirigentes quem impuseram ao Brasil que sediasse neste ano de 2014, a Copa do Mundo? É resposta é “NÃO”. Antes do país se aventurar nesta estupidez, nossos governantes e dirigentes esportivos sabiam as regras do jogo, as condições descritas no caderno de encargos. Assim, se o Brasil se candidatou e se empenhou tanto em sediar o evento, sabendo previamente quais as condições que se exigia para tanto, não pode agora, sete anos depois, reclamar o quer que seja.
Para ganhar a corrida, o Brasil apresentou muitas garantias, sendo a principal a fiança prestada pelo Lula. Apresentou também um projeto fabuloso tanto quanto fantasioso de realizações para dotar o país de condições plenas de realizar a Copa oferecendo o melhor em instalações, em segurança, em mobilidade, em infraestrutura, acomodações, etc. E foi com base neste fantasioso projeto que o país foi escolhido. A cúpula dirigente da FIFA deu um imenso crédito de confiança ao Brasil, acreditando de que seríamos capazes, até por conta do aval prestado por seu presidente na época, de entregar o pacote prometido.
Na medida que o tempo passou, a FIFA foi percebendo que o projeto não seria entregue na forma como foi concebido e apresentado. Não reclamou quando retiramos da matriz de responsabilidade inúmeras obras viárias. Para item do projeto foi fixado um prazo para cumprimento. O Brasil teve a capacidade de não cumprir prazo nenhum. Ora, esperava o que, a senhora Dilma Rousseff, que a FIFA simplesmente deixasse ao Deus dará, um evento sobre o qual ela também investiria bilhões de dólares e, em contrapartida, receberia outros tantos bilhões de patrocínio e licenciamento de produtos? Que poder tem o Brasil para interferir nos negócios de uma entidade eprivada de natureza internacional?
As inúmeras cobranças feitas por dirigentes da FIFA sequer precisariam ter acontecido se o Brasil cumprisse com seriedade os compromissos assumidos. Para que se tenha uma ideia da esculhambação com que conduzimos todo o processo, somente faltando pouco mais de 30 dias para o início da competição, é que a tal Lei Geral da Copa teve a sanção do Supremo Tribunal Federal. Mas, vamos supor que o STF entendesse de forma diferente, isto é, que a tal Lei feria frontalmente a soberania do país, dispositivos legais internos e até garantias constitucionais? Imaginem o rolo que resultaria...
A questão da bebida nos estádios, o fechamento de um perímetro em torno das tais arenas dentro do qual nada poderia ser comercializado sem o licenciamento prévio da FIFA, dentre outras exigências, não foram impostas ao Brasil, nós as aceitamos no momento em que oficializamos nossa candidatura, justamente porque tivemos suficiente tempo para ler e conhecer as condições descritas no caderno de encargos. Nada do que a FIFA pediu e cobrou fugiu àquele script.
E reparem: o Itaquerão só será 100% concluído depois da copa, dezenas de obras de mobilidade e aeroportos seguirão o mesmo destino. Que culpa tem a FIFA se nossas autoridades foram incompetentes em entregar o pacote prometido e previamente acertado com a entidade FIFA?
Tivéssemos juízo, e em 2007 teríamos agradecido qualquer convite mas, gentilmente, recusaríamos a exemplo do que fez a Suécia, país de alta qualidade de vida, rico, de primeiro mundo, mas que se negou em gastar dinheiro em jogos olímpicos por entender que o que seria gasto teria melhor aplicação na construção de moradias. Isto é governar devotado ao interesse público. O Brasil seguiu caminho inverso: tirou dinheiro público de investimentos essenciais e indispensáveis à melhor qualidade de vida de seu povo, para investi-lo numa aventura desvairada e megalômana.
Sendo a entidade FIFA responsável final pelo evento, cabe-lhe o direito e o dever de cobrar dos países que aceitaram sediar a Copa, o cumprimento das obrigações assumidas.
E este é um grande defeito de pessoas arrogantes, prepotentes, que se acham donas da verdade: detestam serem cobradas. Dilma, como presidente de uma república democrática, eleita que foi pelo voto direto da população, deveria saber que a cobrança que lhe é feita é um dos elementos presentes e inerentes ao cargo que ocupa.
Para encerrar: faltando 27 dias para inicio da Copa, o balanço que se tem é de que, do total prometido, o Brasil concluiu pouco mais de 40%. E assim mesmo, porque retirou do projeto inúmeras obras de melhoria. Há estádios ainda não concluídos, a questão da segurança permanece uma incógnita, tem aeroportos que receberão os turistas em puxadinhos, e muito do que ainda está andamento, será maquiado e improvisado até o dia 12 de junho. Portanto, senhora presidente aceite a crítica por ela ser justa. O Brasil não entregará o pacote prometido. Assim, quem pesa nas costas de quem?
Quanto a hospitalidade do povo brasileiro, dispensamos o apelo. A contrariedade não é com os estrangeiros, e sim com um governo medíocre e aventureiro que não soube medir o passo e as consequências. Preferiu a boca de urna do que a boca das ruas.
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