Adelson Elias Vasconcellos.
A queda nas vendas verificadas em março, que representa, no trimestre, o mais fraco desde 2003, tem sido destacada como o fim de um processo. Desde 2007, mas mais fortemente, a partir da crise 2008/2009, o governo petista abriu as porteiras de incentivos ao consumo. Inteligentemente, Lula soube fazer a leitura correta do imenso potencial de consumo que havia no país, e que aguardavam apenas os instrumentos facilitadores para irem às compras.
Ainda em 2007, verificava-se a valorização do real, o que facilitou o aumento estupendo das importações, a preços baratinhos fazendo concorrência direta aos similares nacionais que precisavam carregar o chamado Custo Brasil. A explosão das importações ajudou a conter a inflação que, no período, sempre rondou o centro da meta e até abaixo dela.
Também a expansão dos beneficiados dos programas sociais, principalmente Bolsa Família, ajudou a impulsionar a capacidade de consumo de boa parte da população que estava fora do mercado. Em decorrência, verificou-se rapidamente a expansão dos serviços e de pequenas empresas, o que serviu para expandir o emprego. Por outro lado, com a inflação sob controle, também foi possível forçar a queda dos juros, principalmente por parte dos bancos oficiais os quais ainda foram beneficiados pela crédito consignado.
Olhando-se sob o espectro do crescimento econômico, este momento pouco ou quase acrescentou, justamente em razão do processos de desindustrialização que já verificava em razão do câmbio.
Porém, várias foram as advertências ao governo, no sentido de que o modelo tinha limitações. Mas qual?, em time que ganha não se mexe. Isto talvez válido no futebol, mas em economia? E, aliás, esta regra nem sempre é tão válida assim.
Além destes fatores todos, o governo petista também criou incentivos especiais para alguns ramos industriais, como linha branca, mobiliário e automobilística (por que não estendeu a todos?), que serviu para a redução de preços. Com as facilidades de crédito criadas, com o leve aumento da renda fruto dos ,programas sociais expandidos e da geração de empregos, mesmo que de baixa qualidade e menor salário, estava criado o modelo que ora se esgota.
Diante da divulgação de queda nas vendas, muitos se dedicaram a apontar as razões. Por exemplo, a inflação nos alimentos obriga o consumidor a restringir suas compras, destacando maior parte de sua renda para aquilo que não se pode prescindir. Outros gastos ficam adiados. Além disso, ninguém troca de tevê todo o ano, ou de máquina de lavar, ou até mesmo de automóvel. E o que se viu foram facilidades imensas para a compra de bens duráveis. Assim, há limites neste lado.
Com a elevação desenfreada de preços, mesmo que tarifas sejam represadas pelo governo Dilma, o Banco Central se viu obrigado a elevar os juros SELIC, já recuperando os mesmos níveis de quando a senhora Rousseff assumiu a presidência. Juros maiores servem como freio ao apetite de consumo, o que aliás, é o único instrumento ao BC tendo em vista que o governo federal não consegue controlar seus próprios gastos. A opção é reduzir investimentos, gastos correntes, nunca.
Além disso, o nível de endividamento das famílias já ultrapassou 62%, deixando muito pequena a margem para que o consumo se mantenha nos mesmos patamares de anos anteriores.
E onde podemos apontar o ponto de quebra desta cadeia de elevado ciclo de consumo? A advertência veio pela elevação dos índices de inadimplência. Tais níveis obrigaram aos bancos e financeiras a se tornarem mais restritivos na concessão do crédito. A partir deste ponto, o governo deveria ter mudado o rumo de privilegiar o consumo. Porque, dentre todas as facilidades ofertadas para que as pessoas fossem às compras, uma barreira imprescindível se manteve intacta: a limitação da renda dos brasileiros. De um lado, os “milhões” de empregos gerados, como sabemos, foram de baixa qualidade e, assim, com salários menores. De outro lado, os milhões de beneficiados dos programas sociais também sofreram e ainda sofrem com a inflação, o que lhes reduz a capacidade de compra.
Ora, dizer-se que houve um brutal aumento de renda do povo brasileiro traz um pouco de exagero. O que de fato se observou foi uma explosão de pessoas COM RENDA, e ainda assim, renda baixa. E este é o ponto extremo que estrangulou o modelo de consumo a qualquer custo. Tanto é assim que primeiro veio a inadimplência e depois o endividamento das famílias.
Mesmo com o aumento real do salário mínimo, medida que vem sendo adotada desde o governo FHC, e que Lula e Dilma deram sequência, a renda média do brasileiro ainda é muito baixa. E é por conta disto, que o modelo de consumo sempre teve, desde o início, prazo de validade curto.
Sempre se diz que, um administrador, gestor ou governante deve ter sensibilidade para ler os limites que suas decisões carregam. E é a renda pequena que deveria ter alertado os governos petistas para a necessidade de desenhar um novo modelo, ou ter alternativas que não provocassem esta queda.
Ora, nem o setor de comércio tampouco o de serviços tem capacidade para levar significativamente a renda dos trabalhadores. Tala virtude pertence ao ramo industrial, que além de elevar a renda, por oferecer empregos de melhor qualidade, tem ainda a virtude da inovação, indispensável para o progresso econômico de qualquer país.
Pouco a pouco, o governo petista foi retirando os incentivos criados para aqueles ramos específicos que selecionou para elevar o consumo interno. Lá em cima, questionamos: por que não todos? Reparem: afora os ramos da linha branca, mobiliário e automobilístico, os demais ramos industriais precisaram e ainda precisam conviver com a concorrência dos importados, que entendo desleal. Além disto, o governo petista ainda incentivou, com o cambio valorizado, as viagens ao exterior. Até aí, tudo bem. Porém, cada brasileiro que vai para fora, se defronta com países com custo de vida imensamente mais favoráveis, e passaram a comprar lá fora, por preços muito mais em conta, os mesmos produtos que aqui dentro tinham preços proibitivos. Foram muitos bilhões de renda e empregos gerados lá fora, com os salários dos brasileiros.
Em consequência, a indústria brasileira despencou. Nos últimos três anos, fecharam-se mais de um milhão de empregos, e atividade se vê obrigada a conviver com a estagnação. Com uma carga proibitiva, com faturamento reduzido, como investir em aumento de produção, em produtividade e inovação? Resultado: fechamento de muitas fábricas, algumas transferindo suas plantas para outros países, e outras mais, paralisando suas linhas de produção e dedicando mais a se tornarem distribuidora de importados pela necessidade de sobreviverem.
Com a indústria estagnada, com limitado acesso ao crédito, dedicado mais ao consumo do que à produção de bens, a renda média do brasileiro cresce devagar quase parando. Renda baixa limita a capacidade de endividamento e de consumo. Quando se tem juros altos e inflação beirando o teto da meta, quando não a ultrapassa, fica fácil concluir que as vendas chegariam ao seu limite extremo. Param de crescer e, depois, entram em queda, como agora se vê.
Assim, se quisermos alinhar as razões que levam o comércio a restringir-se, não podemos jamais ignorar o quão baixa ainda é a renda média do brasileiro.
Talvez o leitor nos questione sobre as muitas pessoas que viajam para o exterior e gastam lá fora bilhões de dólares em comprar variadas. Primeiro, boa parte desta gente é servidora pública federal, que tiveram seus salários majorados de maneira irresponsável por Lula em seu segunda mandato, preparando o terreno para a eleição de Dilma. Além disto, os pacotes turísticos se tornaram mais atrativos em razão do câmbio favorável, mesmo que de forma artificial. E, para os que não são servidores públicos, são os seres normais deste país, a facilidade de crédito se encarregou de incentivar as viagens ao exterior.
Claro que aí se pode criticar o governo petista, que deveria ter criado mecanismos de atração para o turismo interno. Para que boa parte dos bilhões de dólares gastos lá fora, fossem capturados aqui mesmo. Porém, como sabemos, os preços no Brasil, mesmo para cidadãos de países com renda muito superior à nossa, tornaram-se proibitivos. Hoje, é mais barato ir à Nova Iorque do que um final de semana em Porto Seguro. Boa parte deste alto custo se deve a impostos altos, falta de infraestrutura, burocracia, etc. E para se reduzir a carga tributária, precisaria o governo torrar menos dinheiro público em inutilidades.
Eis aí um resumo das muitas razões que justificam os pibinhos que o país vem obtendo nos últimos anos. É preciso sair desta armadilha o quanto antes. O problema está no alto custo do Estado para a sociedade brasileira suportar. E se o Estado é o problema, compete a ele fazer parte da solução. Aliás, a maior parte. Conclusão? O Brasil se tornou caro demais para uma população majoritariamente pobre.
Sem uma política industrial que se foque no aumento da produtividade, sem investimentos públicos em infraestrutura, sem redução da carga tributária, burocracia e insegurança jurídica, não há a menor chance da renda nacional sofrer um upgrade. E se ela não aumentar de forma expressiva, vamos continuar sendo um imenso mercado interno medíocre. A meta, portanto, deve ser o aumento exponencial da renda nacional, e isto só se garante com desenvolvimento econômico, comandado pela indústria. Infelizmente, para que a fórmula dê certo, precisamos muito mais conscientização e responsabilidade da classe política, devotada hoje exclusivamente aos seus próprios interesses.
Uma observação. Em um destes congressos de petistas, Lula afirmou que a força de trabalho no Brasil é de 108 milhões. Esperto o cara, hein? Até pode ser tudo isso e tal, mas tal quantidade se deve ao amadurecimento da população, e isto não foi obra do PT, certo? Contudo, força de trabalho é muito diferente de gente trabalhando. Trata-se de pessoas em idade economicamente ativa. Apenas isto. Mas por que Lula não mencionou o número de trabalhadores empregados que são pouco mais de 25 milhões? E por que ele não se referiu ao contingente de 66 milhões que não trabalham e nem procuram emprego, e que também se encontram em idade de trabalho? Como é fácil manipular números, não é mesmo?