sábado, maio 17, 2014

Prá quando a festa acabar...

Adelson Elias Vasconcellos



Nas edições anteriores da Copa do Mundo, realizada em outros países, 30 dias do evento a gente observava um burburinho diferente no comércio,  as pessoas só tinha um único tema em suas conversas, e as televisões se encharcavam com o clima da Copa. 

Agora, que ela será realizada no Brasil, e estando a 30 dias de seu início, quando se imaginava que o país iria explodir em festas, decorações, papos de botequim, campanhas publicitárias intensas, comércio a mil por hora, o que se percebe pela frieza dos torcedores é que a Copa ainda não pegou embalo. Parece que será realizada na Austrália, não no Brasil.  E parte deste desencanto se deve, sobretudo, a forma como o país se preparou para sediá-la. Há um sentimento muito mais de reprovação do que de satisfação e orgulho. 

Acompanho copa do mundo desde 1958. Posso, portanto, falar com autoridade. Em todas as edições desde então, e todas realizadas em outros países, o mesmo movimento no comércio se repete. Portanto, o fato da Copa este ano ser no Brasil, não vai acrescentar um movimento muito maior. Além disto, em algumas cidades sede, nos dias de jogos, já foi decretado feriado. Deste modo, a Copa no Brasil não vai acrescentar muita coisa. 

Claro que bares, restaurantes e hotéis, terão seus faturamentos mais engordados. A venda de artesanatos e bugigangas variadas, também se beneficiarão. Mas é só. Os acontecimentos de insegurança no país noticiados mundo a fora nos últimos meses,  vai prejudicar o fluxo de turistas para o Brasil. Findo os jogos, o que restará será dívidas a pagar, obras inacabadas infernizando a vida de todos e que se estenderão por anos a fio, e alguns elefantes brancos com manutenção caríssima.  

Nesta edição, reproduzimos reportagem da BBC Brasil mostrando o que se fez na Alemanha. Em muitos dos estádios funcionam creches, escolas, etc., dando uma destinação social para as tais arenas. No Brasil, em que a estrutura física de grande parte das escolas públicas é vergonhosa e onde também faltam creches fruto da omissão do poder público, temos aí uma boa ideia para que determinados estádios, de custo bilionário, não fiquem entregues às moscas. 

Diante de um evento desta magnitude, o país era para estar em festa faltando menos de um mês para o inicio da Copa, repetindo o mesmo clima verificando em edições anteriores não realizadas aqui. Mas não é isto que observamos. Daquela euforia toda verificado quando do anúncio, em 2007, de que o Brasil sediaria a Copa em 2014, o que se vê Brasil afora são inúmeros grupos protestando pela falta de padrão FIFA para os serviços públicos que ficaram abandonados e se encontram em situação calamitosa. 

Até os mais fervorosos adoradores do futebol, sentem-se com pouco ânimo, muito embora possam sair às ruas, em clima festa, durante o tempo que a copa durar.    

Lula, em artigo para o El Pais, manteve o mesmo discurso da senhora Rousseff, a de que a Copa vai ser um sucesso e de que os protestos são comandados por políticos interessados em desestabilizar o partido no poder.  Não sei de onde Lula tirou tal constatação, mas se vê que ele tem viajado para o exterior seguidamente e, em consequência,  sua percepção se distanciou da realidade. Com exceção de um ou outro grupo, a quase totalidade dos agitadores e manifestantes contrários à Copa é formada por gente financiada pelo governo petista através de ong’s, grande parte picareta,  dinheiro usado não em nome de uma causa social, mas sim política, que é a de comprar o silêncio dos “inocentes”.  São os mesmos grupos e entidades com as quais seguidamente o senhor Gilberto Carvalho, secretário da Presidência da República, dialoga. 

Não se observou até agora um único político da oposição ou alguém pertencente às “zelites”, manifestar-se contrariamente ao país sediar a Copa. Ninguém disse um “ah” de contrariedade. Todo o protesto vem das ruas, de gente pobre, de gente que depende até da esmola estatal para sobreviver que, em contrapartida, não se deixa curvar à submissão,  que não se deixa iludir pela fantasia e perfumaria com que os governos petistas tentam iludir o país para se manterem no poder. 

Há sim um sentimento generalizado de decepção. Em 2007, o projeto então apresentado ao país, para receber o apoio da população em prol da realização da Copa no país, é completamente diferente daquele que está sendo entregue.  Também se dizia, na época, que a construção dos estádios não envolveria dinheiro público, e isto é o que mais tem.  E é preciso lembrar aqui que os apaixonados por futebol não representam um terço da população. 

Também as obras de mobilidade urbana, talvez o legado mais desejado por todos, mostrou-se frustrante.  Vimos ontem, na reportagem de reportagem da Folha de são Paulo, que apenas 41% do total prometido foi entregue. E que muitos projetos maravilhosos simplesmente foram postos de lado dado ou a sua inviabilidade, ou a precariedade de tempo para sua realização. E do que será realizada, grande parte sequer será concluída a tempo.

Portanto, nãoa são os políticos de oposição, nem os reaças das “zelites”, tampouco a imprensa que depõe contra a Copa. É  o próprio governo federal  que dá testemunho de sua incompetência para realizar a contento um evento deste porte. Já em 2009, alertávamos para o atraso das obras. O que se dizia então é que, até 2014, tudo será concluído, esquecendo estes estafetas do PT de que, um ano antes,  2013, se realizaria  a Copa das Confederações, quando a FIFA imaginava que encontrava pelo menos 60 a 70% do projeto total previsto já pronto. 

Durante anos, de 2007 a 2010, o governo petista se dedicou em comemorar apenas a escolha, pondo de lado de forma irresponsável,  os ônus assumidos pela escolha. Foi preciso alguns puxões de orelha da FIFA para que o país despertasse de sua inanição, arregaçasse as mangas e se pusesse em realizar, uma parte ao menos, do prometido. 

Ainda em 2007, logo após o anúncio afirmei neste mesmo espaço que não tinha dúvidas de que pelo menos os estádios seriam concluídos a tempo. E quase quebrei a cara. Tem estádio que só será completamente concluído depois da Copa. Tinha dúvidas quanto ao resto, e nisto firmei convicção plena, não porque o Brasil não fosse suficientemente capaz de realizar o projeto como um todo. É que para tal, exigiria do governo federal uma capacidade de gestão que ele nunca teve, além de mobilizar recursos públicos que seriam realizados de outras áreas, como educação, saúde, segurança, saneamento, infraestrutura.   E a voz que mais se ouve e que protesta pelo país todo é pedindo exatamente  estes serviços com padrão FIFA.

Fica claro, assim, que a afoiteza de se querer capturar valioso capital político em cima do evento, não levou em conta as condições do país. O interesse público sempre ficou em segundo plano. Os aproximadamente 40 bilhões de reais que serão gastos, ao fim e ao cabo desta farra toda, fazem e farão muita falta em áreas muito mais emergências EME favor da população, sem contar os muitos bilhões de reais que já foram e ainda serão gastos para os Jogos Olímpicos de 2016. 

Se era para mostrar a cara do Brasil, como afirma Lula, que a oportunidade fosse aproveitada para mostrar a melhor, e não a pior das faces.  Em consequência, e mais uma vez, vamos desperdiçar uma preciosa oportunidade de mostrar que o país mudou, que o país melhorou, que o país se tornou sério e responsável, que é merecedor da confiança da comunidade internacional. É claro que haverá festa, foguetório, sorrisos verde-amarelo, agitação de bandeiras, burburinho nas ruas. A Copa sempre teve esta virtude em qualquer país que se realize. Mas a mobilização local não será a mesma tivesse tido o senhor Lula melhor senso de oportunidade, tivesse respeitado as prioridades que o povo tanto reclama, tivesse dedicado seus esforços e os recursos do país a atender em primeira mão as inúmeras, históricas e gigantescas carências deste povo.  Tivesse feito isto, e ninguém se importaria se a Copa de 2014 fosse realizada em outro país ou até em outro continente. Porém, Lula jamais considerou tais fatores: sempre decidiu pensando unicamente em seu beneficio pessoal e o de seu partido. 

Lula afirmar como fez nesta semana, em artigo no jornal El Pais, que “... a Copa tornou-se objeto de feroz luta política e eleitoral no Brasil...” é pura cascata e falta de algo mais útil para fazer. É querer ver chifres em cabeça de cavalo. Inclusive dos movimentos de protestos anti-Copa são muitíssimo ligados ao próprio PT.  

O resultado desta falta de consciência, considerando-se ele um homem público,  é este clima pouco animador que se observa em todo o país, fruto do legado negativo que, todos sabemos, esta Copa deixará, mesmo que a seleção levante o caneco. Será no dia seguinte ao último jogo, quando a festa acabar, que nossos problemas voltarão nos atormentar.