Adelson Elias Vasconcellos
Não é só certa pomada que consegue retardar veneno de cobra. Democracia evita o veneno do autoritarismo. E competência evita o veneno da corrupção.
Desde que o Brasil ganhou a corrida para sediar a Copa do Mundo de 2014, é visível o movimento feito tanto pelo governo federal quanto pela CBF (esta a mando daquela), para retirar São Paulo do círculo das subsedes dos jogos. Basta retornar às exigências iniciais da FIFA em relação ao Estádio do Morumbi e se perceberá não só a má vontade, mas a vontade nenhuma em aprovar as inúmeras vezes que o São Paulo apresentou projetos e sempre em consonância com as exigências finais da FIFA. A cada lista atendida, a FIFA se apressava em apresentar uma nova. Se a memória não me trai, o São Paulo chegou a apresentar três projetos de reformulação de seu estádio, todos refugados pela FIFA. E, apesar do enorme tempo que havia para que o assunto fosse melhor estudado, debatido até se encontrar uma alternativa, rapidamente se descartou o Morumbi.
Agora, se formos comparar aquelas exigências e pressa com o Morumbi, com as bondades e prazos que estão sendo concedidos ao Corinthians em relação ao seu Itaquerão, fica clara a manifesta a má fé. E fica clara também, a chantagem que o próprio Corinthians tem feito ao Poder Público, da qual resultará para o clube a propriedade de novo e moderno estádio, a um custo praticamente zero.
Do lado federal, trabalha-se intensamente para evitar que o estado paulista abrigue o jogo inaugural, o que já seria uma desmoralização ao governo estadual, que renderia em capital político para o PT, doido como só ele para tomar posse do Palácio dos Bandeirantes e da Prefeitura. Os petistas não se conformam em ser oposição há mais de dezesseis anos no maior e mais rico estado brasileiro.
Agora, convido o leitor para ler e reler as entrelinhas da postagem abaixo, Planalto cria entraves para novo aeroporto em São Paulo, e tirar suas conclusões. São Paulo já foi descartado da Copa das Confederações, a se realizar em 2013. As propaladas obras de modernização de Congonhas vêm sendo discutidas há mais de quatro anos, e nunca se chega a uma conclusão definitiva. Agora, se anuncia um plano de privatização de pelo menos três aeroportos no país, mas as regras de como o processo acontecerá só serão divulgadas até o final do ano, quando então restarão dois anos e meio para a Copa de 2014. No inínio do ano, já se sabia que, mesmo que as obras começassem em 2011, não haveria tempo hábil para sua conclusão até o início da Copa.
Outro rolo que não termina nunca é a promessa do tal trem bala. Vamos para o terceiro adiamento e nada do leilão se realizar (muito embora eu seja contrário não à ideia, mas quanto ao momento do país torrar em torno de 50 a 60 bilhões em uma única obra). Considerando-se o porte da obra, considerando-se, também, o volume de desapropriações que o empreendimento terá que bancar, seria quase um milagre que a obra ficasse pronta a tempo. Ou seja, se o governo e prefeitura não se unirem e fizerem um enorme esforço conjunto em favor das obras de mobilidade urbana e até do estádio, seja ele qual for, desprezando qualquer promessa de apoio do governo Dilma, que até agora não passou de puro papo furado e da mesma forma como já acontecera com Lula, dificilmente São Paulo será subsede em 2014.
É preciso que os governantes paulistas se deem conta de uma coisa: o evento COPA DO MUNDO é muito mais do que um mero acontecimento esportivo. E vai muito além dos resultados econômicos que porventura ele possa gerar para o país. Basta ver a nenhuma força ou iniciativa tomada pelo governo Lula, desde o anúncio, para acelerar o cumprimento por parte do Brasil do caderno de encargos da FIFA.
Mesmo que alguma coisa – obras de infraestrutura esportiva ou urbana – no dia da apresentação da candidatura brasileira ao Comitê da FIFA, ainda estivesse condicionada à aprovação do país como sede para 2014, no máximo, em seis meses, os projetos e orçamentos eram para estar delineados e concluídos. O estádio paulista, Itaquerão, teve suas obras começadas apenas há menos de dois meses, o de Natal sequer tiveram início, a questão dos aeroportos sequer está encaminhada, e as obras de infraestrutura urbana ainda estão ou no papel ou ainda em fase de projetos e obtenção de licenciamentos. TODOS OS EMPREENDIMENTOS, a esta altura do campeonato, já deveriam estar a pleno vapor. Tínhamos, lá atrás, plenas condições de, em 2013, na Copa das Confederações, apresentar cerca de 90% concluído. E, como todos sabemos, ainda se discute no Congresso o tal Regime Diferenciado de Corrupção para acelerar o ritmo das obras que ainda vão ser licitadas, quando já deveriam estar em pleno andamento. E há uma questão que me preocupa particularmente: o governo edita uma MP impondo sigilo durante a fase de licitação destas obras, com a desculpa oficial de que, com o sigilo, evita-se a fraude. Ok. Se o bom senso não me falta nesta hora, imagino que o governo reconhece que, com a lei de Licitação em vigor, nas demais obras não ligadas à Copa do Mundo, as fraudes acontecem. É isso? E, depois da Copa, quando tudo voltar ao normal, o que ficará valendo, a atual lei, onde o governo reconhece haver fraudes, ou o país adotará o Regime Diferenciado como substituto definitivo? E, se assim for, continuará a sociedade sem saber ao certo onde o governo torra o dinheiro que lhe toma em impostos, já que os preços das obras públicas serão conhecidas apenas pelos órgãos de controle que, mesmo com a atual Lei de Licitações, não param de encontrar irregularidades de toda a sorte?
Portanto, de um lado, a sociedade deve se mobilizar para evitar que o governo federal, sobre a desculpa esfarrapada de que precisa acelerar as obras que teve quatro anos para iniciar e não fez, acabe por instalar um regime que tornará sigilosa a roubalheira, e por outro, é de se convocar as forças que movem São Paulo no sentido de evitar que o governo federal, em promíscuo conluio com a CBF continue atuando no sentido de evitar que o estado abrigue uma das subsedes. O interesse por detrás da tramoia não é esportivo tampouco econômico. É político apenas, ou seja, é totalmente canalha. Mas a guerra, é preciso ficar atento, é feita de modo bastante dissimulado, justamente para não chamar a atenção dos incautos.
Semana passada, reproduzimos aqui um artigo, (vejam link abaixo), do site Opinião & Notícia, onde esta denúncia está exposta de forma clara, muito embora ali se informe apenas que a briga parte da CBF. Mas a informação é incompleta: o interesse da CBF está em perfeita sintonia com a direção do PT - leia-se Luiz Inácio Lula da Silva, o ex – e esta união espúria é que está comandando este jogo nos bastidores. Para lembrar, reproduzo a seguir trecho do artigo:
(...) “Geoff Thompson, ex-vice-presidente da Fifa, que deixou o cargo na última quarta-feira, 02, assegurou que a Fifa não tem interesse em ver a cidade excluída, mas a ideia da CBF é concentrar as atividades no Rio de Janeiro. A cidade demorou a solucionar os problemas políticos e financeiros para a construção do estádio do Corinthians, em Itaquera, e acabou se transformando no maior problema da Copa.
Devido aos problemas, o estado foi excluído da Copa das Confederações e está sob ameaça de perder a cerimônia de abertura do Mundial. Thompson afirma que não há como não incluir a maior cidade brasileira na Copa do Brasil. “São Paulo precisa entrar e vai ser mantida. É muito importante”, afirma.
A relação de Ricardo Teixeira com o PSDB, partido que governa São Paulo há 16 anos, é conflituosa desde o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Durante o governo FHC, duas CPIs investigaram os negócios do cartola.”(...)
Eis aí: que o governo do estado e a prefeitura de São Paulo estejam atentos, porque o jogo que se joga neste submundo é muito mais pesado do que eles imaginam. E, se ficarem cobrando apoio do governo federal, pagarão caro demais a falta de visão da realidade que se negam em enxergar. Está na hora de agirem por si mesmos. São Paulo tem a competência necessária para superar as barreiras que se ergueram e estão postas à sua frente.
Isto me faz lembrar um trecho no texto de despedida de Adriana Vandoni, que era uma das mais combatentes e irreverentes blogueiras do Mato Grosso, e que, por desencanto com o país e sua classe dirigiente e dominante, resolveu parar por não encontrar em si mesma forças para ajudar num processo de mudança desta cultura podre que nos governa.
Disse, ou melhor, escreveu a Adriana:
“Não há divisão entre os Poderes, o que há é uma massaroca que divide funções: o executivo paga, o legislativo cobra e o judiciário estabelece o preço.”
Portanto, que Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab não queiram pagar o pato da podridão que se arma em torno de seus mandatos. Eles não merecem, é certo, mas quem sofrerá as consequências será o povo paulistano que, além de privado de sediar um dos grupos da Copa e até do jogo inaugural, pode ainda ficar entregue ao bando organizado para o crime na política de seu estado.
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