Alon Feuerwerker, Correio Braziliense.
E não é que aconteceu? De símbolo da luta contra a fome o Brasil vai se transformando em motor da inflação mundial nos preços da comida
Escrevi anos atrás que o projeto de alavancar planetariamente os biocombustíveis fabricados a partir de alimentos transformaria o Brasil de campeão mundial da luta contra a fome em campeão mundial do estímulo à inflação.
A ilusão sobre a convivência pacífica entre a produção de biocombustíveis e de comida durou enquanto esteve no palco o contorcionismo verbal de Luiz Inácio Lula da Silva, um caixeiro viajante de primeira.
Aproveitou sua excelência o pânico com a ameaça do aquecimento global para vender o peixe (no caso, o álcool) e também disputar a vaga de estadista verde número um.
Mas não colou. A lábia não foi suficiente. Depois veio o pré-sal e a fantasia acabou recolhida ao baú.
Ficou entretanto o problema de o que fazer com a turma que tinha comprado o bilhete de ida para o futuro de uma humanidade abastecida com o combustível fabricado a partir da cana brasileira.
E voltaram as velhas histórias de preços mínimos e estoques reguladores, para de novo transferir a dolorosa ao contribuinte. Um remake do Proálcool em pleno século 21.
O que vem acontecendo com os preços agrícolas estava escrito nas estrelas. A conta é simples.
Se a finitude das terras agricultáveis é uma premissa, pois o pensamento hegemônico inisiste em classificar qualquer desmatamento como crime, e se a produção de alimento precisar dividir as terras disponíveis com os biocombustíveis, uma hora haverá constrangimento de oferta.
A não ser que os bilhões de asiáticos, latino-americanos e africanos que começam a comer decentemente sejam atendidos apenas com base no aumento de produtividade. Quem acredita nisso, especialmente num mundo instado a tomar como pecado todo desenvolvimento técnico e científico da agricultura?
Até porque não é razoável imaginar europeus e americanos em dieta forçada por causa dos mais pobres.
Nem o Brasil acredita na ficção que propaga. O candidato brasileiro à agência da ONU responsável pela alimentação defende o avanço firme das plantações sobre a savana/cerrado africana, como também lembrei aqui tempos atrás. Na África pode, e ali rende votos.
Mas nem tudo está perdido para o colonizado. Os Estados Unidos vêm cansados de depender do petróleo árabe e venezuelano. E de subsidiar seu caríssimo etanol de milho.
Há uma porta de saída para quem deseja o Brasil atrelado à demanda americana por biocombustíveis.
Há alguma chance de as boas terras agricultáveis do Brasil serem mobilizadas para produzir o líquido que abastecerá os tanques de combustível dos carrões da superpotência.
Quem está preocupado com isso? Em primeiro lugar os chineses. Eles precisam de comida e relutam em importar inflação apenas para ajudar a manter o padrão irresponsável de consumo energético da América do Norte. No que têm razão.
Os chineses têm exibido nas décadas mais recentes boa capacidade de olhar para seu futuro com olhos próprios, e não subordinados a interesses alheios.
Daí que o Brasil esteja, como a reunião de Paris pôde observar, alinhado neste tema aos esbanjadores do Primeiro Mundo, e oposto aos amigos dos Brics. Que aliás ultimamente não se unem para nada mesmo. Uma amizade apenas teórica.
Capitalismo
O governo está preocupado com a compra de terras por estrangeiros, e as autoridades falam em tratar diferentemente o investimento para produção e para especulação.
Será possível? Talvez a preocupação principal devesse ser outra. Estimular fortemente a produtividade. Por que não repensar, por exemplo, o engessamento das terras usadas para assentamentos da reforma agrária?
Progrediu? Beleza. Não conseguiu? Pense em passar o negócio adiante.
Se apesar de todo o apoio do governo o sujeito não consegue fazer sua parcela render, que seja liberado para vendê-la legalmente.
Ganharia todo mundo. A começar do assentado que sairia com um dinheiro no bolso e a oportunidade de fazer outra coisa, para a qual esteja mais apto.
Ganhariam também, naturalmente, o investidor no agronegócio e o país.