Ricardo Setti, Veja online
"Presidente que embicou o país num rumo capaz de levá-lo a novo patamar"
Amigos, o artigo desta semana de Roberto Pompeu de Toledo em VEJA só ficará disponível na internet na sexta-feira. Para os leitores do blog, porém, cá está. O pai de Fernando Henrique Cardoso dizia que jamais se deve deixar de conversar com o carcereiro. O filho jamais esqueceu a lição.
O pai, general Leônidas Fernandes Cardoso (1889-1965), trilhou a carreira militar nos anos tumultuários dos golpes e “revoluções” tenentistas. Foi preso várias vezes. Dizia que, mesmo preso, era preciso falar, estabelecer contato com o adversário, não deixá-lo longe. Isso possibilitaria passar mensagens para fora da prisão, mas também conhecer melhor o ponto de vista do opositor, a fim de melhor enfrentá-lo ou, ao inverso, de encontrar pontos de convergência.
Fernando Henrique Cardoso seguiu o conselho do pai. Só não falou, ao longo da vida e, especialmente, ao longo da carreira política, com quem se fechou a qualquer aproximação.
A nenhuma obra o PT e o presidente Lula lançaram-se com mais empenho do que à desconstrução de FHC. Fabricaram o discurso da “herança maldita”. E tanto martelaram nele, que acabou por contaminar os próprios aliados do ex-presidente. Seu partido, nas últimas campanhas eleitorais, procurou esconder, quando não renegar-lhe o legado.
Outros teriam se abatido, ou reagido com amargura. FHC, em quem a famosa vaidade é temperada pela sabedoria e pelo humor, tocou em frente. Continuou aberto à conversa com os carcereiros. Eis que, ao chegar aos 80 anos, as atenções se voltam para ele e descobre-se que escapou ileso das falsificações históricas e do oportunismo eleitoreiro. FHC ressurge na devida dimensão do presidente que embicou o país num rumo capaz de elevá-lo a novo patamar.
Dilma: manifestação nobre para com FHC
A chegada aos 80 anos teve comemorações além da praxe, tantos foram os eventos e matérias de imprensa, e duas surpresas. Uma foi a nobre manifestação da presidente Dilma Rousseff, que não só saudou “o acadêmico inovador, o político habilidoso, o ministro-arquiteto de um plano plano duradouro de saída da hiperinflação e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica”, como encerrou a mensagem com um “Querido presidente, meus parabéns e um afetuoso abraço”.
Outra foi os 80 anos coincidirem com o lançamento do documentário Quebrando o tabu, do cineasta Fernando Grostein de Andrade, em que FHC aparece como paladino da procura de alternativas à fracassada política de enfrentamento no combate às drogas. Ficou claro, para quem ainda não havia se dado conta, que não está aposentado. Sobram-lhe fôlego e bravura para encarar uma briga difícil, susceptível a mal-entendidos, e de alcance internacional.
FHC não se faria merecedor do respeito e das honrarias que o cercam na efeméride dos 80 anos não fosse um fator fundamental – enfim surge alguém, na história do Brasil, que honra a instituição da Ex-Presidência. Instituição da Ex-Presidência?, estranharão alguns. Lá isso existe?
Na verdade não tem esse nome e poucos conhecem suas regras, mas existe sim, e é o segredo de alguns países, os Estados Unidos em primeiro lugar. O ex-presidente que honra a Ex-Presidência é o estadista que se alça acima da luta eleitoral, e se põe disponível para os momentos difíceis da nação e as causas apartidárias. Exemplos americanos são Jimmy Carter, devotado à causa dos direitos humanos ao redor do mundo e Bill Clinton, voltado para a defesa do meio ambiente e para a mesma busca de alternativas à atual política antidrogas que motiva FHC.
Condição primeira para o bom exercício da Ex-Presidência é o abandono da arena eleitoral. Nos EUA isto é mandatório: a Constituição limita o exercício da Presidência a dois mandatos, e o costume desaconselha o ex-presidente a rebaixar-se em busca de mandatos de deputado, prefeito ou governador.
Na Brasil, até onde a vista alcança, o caso de FHC é único.
Getúlio saiu e voltou; Juscelino queria voltar; e Jânio, ex, retornou à política
Getúlio Vargas, deposto em 1945, virou candidato (vitorioso) cinco anos depois. JK saiu da presidência, em 1960, já candidato à eleição presidencial seguinte, em 1965, frustrada pelo golpe militar. Jânio Quadros renunciou em 1961 para virar candidato a governador de São Paulo (derrotado) duas vezes (1962 e 1982), e a prefeito (vitorioso) em 1985.
Dos presidentes da última redemocratização, três são senadores e o quarto é potencial candidato à sucessão daquela que lhe sucedeu. A renúncia ao jogo eleitoral é a primeiro requisito ao bom exercício da Ex-Presidência, mas não o único.
Outros são identificar as boas causas, capacidade intelectual de analisá-las e entendê-las, generosidade para abraçá-las, disponibilidade para defendê-las e por último, mas não menos importante, jamais deixar de conversar com o carcereiro. FHC é por enquanto o único ex-presidente a preenchê-los.