segunda-feira, abril 21, 2008

Amazônia oriental é o ponto mais vulnerável da fronteira

José Maria Tomazela, Estadão

Apenas 17 soldados protegem uma faixa de 1.385 quilômetros de divisa no extremo norte do Pará

Dos 25 mil homens de que o Exército dispõe para defender a Amazônia de ameaças que vão do tráfico de drogas à cobiça internacional pelas nossas riquezas naturais, apenas 240 vigiam mais de 2 mil quilômetros de fronteira com as Guianas e o Suriname, na chamada Amazônia oriental. Destes, um contingente de 17 soldados tem a missão de proteger uma faixa de 1.385 quilômetros de fronteira seca no extremo norte do Pará. Se fossem distribuídos nesse território, caberia a cada homem a vigilância sobre 12.150 quilômetros quadrados, dez vezes a área da cidade do Rio de Janeiro.

A região é vista como o ponto fraco do sistema brasileiro de defesa e preocupa o chefe do Comando Militar da Amazônia, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira. "O contingente é muito pequeno. A distância entre dois pelotões passa de 400 quilômetros sem ligação por terra."

O general Heleno tem posições firmes sobre a questão da vigilância nas fronteiras. Na quarta-feira, em seminário no Clube Militar, no Rio, ele acabou se transformando em pivô de uma crise com o Palácio do Planalto. Disse que considera uma ameaça à soberania nacional a reserva contínua de 1,7 milhão de hectares da Raposa Serra do Sol, em Roraima, na região de fronteira, e chamou de "caótica" e "lamentável" a política indígena brasileira. Além disso, criticou o que chamou de "esquerda escocesa" - a que resolve os problemas do Brasil detrás de um copo de uísque. As declarações irritaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que cobrou explicações e avisou que manterá a reserva tal como está.

Reaparelhamento
O comandante da Amazônia diz que manter guarnições militares na fronteira tem um custo muito alto. "Nossa necessidade não é de mais gente, e sim de meios." Faltam lanchas, helicópteros, fuzis modernos, coletes e equipamentos de visão noturna. "Usamos armas com mais de 40 anos", ressalta. Ele considera essencial o reaparelhamento para aumentar o poder na fronteira.

"Se o Brasil não se voltar para o problema da Amazônia, ela vai se transformar no paraíso dos ilícitos", adverte.

Alguns pelotões na região amazônica não têm equipamentos de comunicação adequados nem energia elétrica 24 horas por dia. Segundo ele, contudo, a tropa é pequena, mas muito bem treinada. "A prioridade é melhorar a vida desse pessoal."

Como na região da Raposa Serra do Sol, localizada na fronteira com a Venezuela e a Guiana, vigiar o extremo norte do Pará é um desafio. As três unidades instaladas na fronteira - uma companhia e dois pelotões - não dispõem de um único avião ou helicóptero. A 1ª Companhia de Fuzileiros da Selva, em Clevelândia do Norte, a 60 quilômetros da foz do Rio Oiapoque no Atlântico, tem 203 homens e abrange também o pelotão destacado da Vila Brasil, localizado 100 quilômetros rio acima, com 20 soldados. Como não há estradas, o patrulhamento é feito a pé ou de barco, quase sempre por rios encachoeirados. Quando o rio está cheio, a navegação é possível, mas, em alguns pontos, os soldados precisam desembarcar e arrastar pelas rochas os batelões de madeira de 4 toneladas. Por causa das corredeiras, ali só se navega com os ubás, barcos de tronco único feitos por índios, como os usados pelos bandeirantes no século 17. Embarcações de alumínio não resistem ao choque com as pedras. A companhia dispõe de 5 ubás e 9 "voadeiras", todos motorizados. O tráfego de barcos nesse trecho do Oiapoque é intenso por causa dos garimpos do Rio Siqueri, em território francês. A busca pelo ouro atraiu 15 mil brasileiros, segundo autoridades francesas - 30 mil de acordo com os próprios garimpeiros.

Os barqueiros criaram uma associação para o transporte de mercadorias, embora a maioria dos brasileiros esteja de forma ilegal no garimpo, segundo a prefeita de Saint-Georges de I?Oyapock, Fabienne Brouard. A cidade guianense, que fala francês e tem o euro como moeda, não gosta da invasão de brasileiros. "Eles vêm aqui para ganhar dinheiro e mandam tudo para o Brasil", reclama Fabienne. O clima de conflito é permanente: a gendarmeria, polícia francesa, detém brasileiros sem visto e os entrega às autoridades brasileiras.

A guarda também apreende e afunda barcos no Oiapoque, problema que o Exército tem de administrar. A região é patrulhada pelo rio, mas falta apoio aéreo. O tráfico de drogas elevou a criminalidade. Também há informações sobre o tráfico de mulheres e crianças do Brasil para a Guiana Francesa - o governo francês paga uma bolsa de até 800 euros a cada criança em idade escolar. Índios também recebem ajuda mensal de 250 euros, por isso muitos deles, como Gian Batista de Brito, da tribo Oyanpin, do Rio Araguari, migraram para o lado francês.

Tráfico
Embora a Polícia Federal participe de operações com o Exército, não há como fiscalizar todos os barcos. A região, de selva densa e úmida, favorece uma possível infiltração de traficantes ou grupos paramilitares. A companhia, integrada por 76 recrutas, entre eles índios como o soldado Megaron Santos Silva, de 19 anos, da etnia caripuna, treina operações de assalto a posições inimigas. Os índios serão aliados do Exército também no pelotão de Tiriós, na divisa com o Suriname, o mais isolado da fronteira. A unidade fica em terras habitadas apenas por índios de várias etnias, com predominância dos tiriós.

Na aldeia de Nova Missão, no lado brasileiro, vivem cerca de 300 indígenas em situação de miséria extrema. Outros 700 estão espalhados por 20 pequenas aldeias vizinhas. De acordo com o cacique Tadei Simétrio Tarió, de 61 anos, os jovens índios querem se alistar para receber o soldo, cerca de R$ 700 por mês. Ele fará a indicação dos seis primeiros voluntários.

"Vamos começar com um número entre 6 e 10, mas a idéia é ter um pelotão todo formado por indígenas", informou o tenente-coronel Affonso da Costa, comandante do batalhão de Belém, ao qual o pelotão é subordinado. O objetivo, além de aproveitar o conhecimento natural do território para estratégias de defesa, é ensinar valores que afastem o risco de cooptação por inimigos. Do outro lado da fronteira, circulam informações sobre índios ligados a contrabando e tráfico de drogas.

O Suriname é apontado como porta de saída da droga produzida na Colômbia para a Europa. Em 1988, abrigou um movimento guerrilheiro próximo da fronteira, um dos motivos que levaram o Exército a instalar o pelotão avançado. Segundo o frei Paulo Calisto Cavalcante, franciscano que dirige a missão católica, alguns índios trazem maconha para o lado brasileiro. O frei relaciona a droga ao alto índice de suicídios na aldeia - seis nos últimos três anos.

A antropóloga Denise Fajardo Grupioni, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) que há 15 anos trabalha com os índios, diz que eles não querem se manter no isolamento. "Eles denotam um grande interesse em se profissionalizar nas mais diferentes áreas para obter renda." O interesse cresceu depois que integrantes da tribo foram contratados pelo governo para trabalhar como agentes de saúde e professores, com salários de até R$ 1.700 mensais. Com o dinheiro, compraram motos e televisores com antenas parabólicas. "Os outros índios querem o mesmo privilégio."

Resgate
O sargento Mauro Lima Baía, que é paramédico, atende soldados e recrutas do pelotão e também os índios. Há duas semanas, ele caminhou 10 horas sob chuva para resgatar uma índia picada por uma surucucu, cobra de veneno letal. A mulher se salvou graças ao empenho do sargento e ao rádio, única forma de comunicação, usado para pedir o resgate aéreo.

Tiriós abriga também uma base aérea da Aeronáutica com quatro militares. Os oficiais operam um radar do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), que repassa os dados para o Cindacta 4, em Manaus. A vigilância em terra é feita pelas patrulhas do Exército, quase sempre em longas caminhadas, pois não há estradas. Toda a região da fronteira é patrulhada apenas duas vezes por ano.

O general Jeannot Jansen da Silva Filho, comandante 8ª Região Militar, já pediu a alocação de pelo menos um helicóptero para o pelotão de Tiriós. Ele considera que o Suriname é o "Paraguai do norte" por ter a fronteira permeável. "O traficante põe a droga ali e ela segue direto para a Europa."

Diretor da Fiesp reforça as críticas de Heleno

Guilherme Botelho

Encurralado pelo governo e pela cúpula do Exército, o general Augusto Heleno obteve ontem importante apoio logístico à sua guerra particular contra a demarcação da área da reserva indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima. O empresário Jairo Cândido, diretor do Departamento de Defesa da Federação das Indsustrias de São Paulo (Fiesp), cerrou fileiras com o general ao tachar de equivocado o projeto do governo.

– Falando em nome da indústria, confirmo absolutamente as palavras de Augusto Heleno. Acho que a verdade às vezes dói. Odeio essa diferença entre sociedade civil e sociedade militar. Somos todos sociedade brasileira. Se o presidente não gostar do que eu falo, o problema é dele – atacou Cândido, no último dia do seminário Brasil, Ameaças a sua Soberania, oraganizado pelo Clube Militar do Rio de Janeiro.

O empresário criticou a forma como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tratou o general Heleno.

– Não se chama a atenção de um oficial do Exército dessa maneira – protestou.

De acordo com Cândido, os empresários não se conformam com a maneira como a demarcação foi feita

– Essa demarcação em faixa de fronteira é um absurdo. Quem já foi lá, de um certo ponto para cima, sabe que não há floresta, é só serrado. Vamos proteger serrado?

O empresário citou alguns exemplos de desmando na região, entre os quais o fato de um estrada federal fechar durante a noite, para não atrapalhar a população indígena.

Em outra palestra, o almirante Marcos Martins Torres queixou-se do atual orçamento das Forças Armadas.

– Na América do Sul, temos condições de dissuadir. Já em questões que envolvam a disputa por água-doce ou petróleo, com grandes potências, estamos desenvolvendo alternativas.

General ecoa pensamento militar

Ricardo Bonalume Neto, Folha de São Paulo

Os desabafos recentes do general Augusto Heleno Ribeiro Pereira sobre o que considera a péssima política indigenista do governo federal na Amazônia não são declarações impensadas de apenas um militar isolado. Ao contrário, refletem fielmente o pensamento da maior parte da oficialidade vinculada à região -não só do Exército, mas também da Marinha e Força Aérea.

O presidente Lula teria ficado indignado com as críticas de Heleno. É irônico, pois foi o general quem proporcionou ao presidente um dos seus momentos mais midiáticos de relações exteriores. Foi sob o comando de Heleno da força de paz da ONU no Haiti que foi ali realizado em 2004 um jogo de futebol entre as seleções dos dois países, com a presença do presidente que adora metáforas futebolísticas populistas.

Foi um verdadeiro milagre de organização fazer um jogo com estrelas mundiais do futebol, num país em conflito, num estádio que faria o campo do Juventus parecer o Maracanã.

O fato de Heleno ser hoje o comandante do Exército na Amazônia é prova de seu alto cacife na Força Terrestre. Não existe comando regional mais "peruado", isto é, "cobiçado", como dizem os militares.

E antes disso ele foi o primeiro comandante da missão no Haiti, considerada de extrema importância pelo Exército. Heleno foi adido militar na França, fala francês impecável e "se vira em inglês", em uma Força em que monoglotas são maioria. A experiência diplomática também o ajudou a se guiar no pântano da política haitiana.

Na América Latina, onde a ameaça de guerra com vizinhos é pequena, sobram conflitos "assimétricos": guerrilhas, terrorismo, ocupações ilegais.

É por isso que a Força Aérea ajudou a Embraer a desenvolver o A-29 Super Tucano, o primeiro (e único) avião de combate criado especificamente para a região amazônica, e para ações Coin (sigla em inglês para "contra insurgência"). A recente morte do líder guerrilheiro colombiano Raúl Reyes foi obra desse versátil avião.

Já a Marinha mantém presença constante na região através de navios de patrulha fluvial de projeto único no mundo, além de destacamentos de sua tropa de elite, o Corpo de Fuzileiros Navais. É curioso lembrar que, para mostrar a importância de defender o mar territorial brasileiro e sua zona econômica, a Marinha chama o oceano de "Amazônia Azul".

A Amazônia é a região do Brasil onde o Estado se faz menos presente, onde existem conflitos sérios em países vizinhos -como a narcoguerrilha da Colômbia-, para não falar de polêmicos líderes "hermanos" como Hugo Chávez.

É justamente com a Venezuela "bolivariana" que o Estado de Roraima dos atuais distúrbios indígenas faz fronteira.

Uma das populações indígenas nessa fronteira dá uma pista do "pensamento" acadêmico existente, que vai dos 8 aos 80. Os ianomâmis foram considerados, pelo antropólogo americano Napoleon Chagnon, como "o povo feroz", maníacos por guerra para obter fêmeas e matar rivais. Já antropólogos brasileiros, estribados na velha idéia rousseauniana do "bom selvagem", sempre foram ferozes críticos da tese.

Além da criação de reservas, não existem ainda soluções pensadas para de fato integrar os índios ao resto do país que não da maneira atual -pela prostituição e pelo alcoolismo.

Anos atrás, um dos mais respeitados cientistas brasileiros, Isaías Raw, que fez carreira no Instituto Butantan, de São Paulo, criticou em artigo nesta Folha que as reservas eram uma espécie de zoológico de índios, uma reserva de mercado onde os antropólogos poderiam fazer suas pesquisas. Foi, claro, muito criticado. O debate não avançou nada desde então.

PDT, DEM e governador de RR apóiam militar

Hudson Corrêa, Maria Clara Cabral, Folha de São Paulo

O governador de Roraima, José de Anchieta Júnior (PSDB), afirmou ontem "pensar da mesma forma" que o general Augusto Heleno. O militar recebeu apoio também dos partidos DEM e PDT.
Comandante militar da Amazônia, o general critica a demarcação da terra indígena Raposa/Serra do Sol em Roraima e classifica a política indigenista de "lamentável e caótica".

"Eu penso da mesma forma [que o general]. Entendo que o Exército brasileiro tem legitimidade para opinar com relação a questão de soberania e segurança nacional. A política indígena não está correta", disse o governador. Ele disse que vai mobilizar "políticos da Amazônia" para rever a demarcação.

Segundo Anchieta Júnior, o ministro Nelson Jobim (Defesa), quando ocupava a pasta da Justiça (1995 a 1997), defendia que a terra indígena de 1,7 milhão de hectares fosse demarcada de forma não contínua. "A nossa posição é que se crie uma demarcação em forma de ilhas e não contínua, como foi orientado por Nelson Jobim, quando era ministro da Justiça."

Procurada, a assessoria de Jobim não telefonou de volta. O governador recebeu, em encontro anteontem em Boa Vista (RR), apoio do presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE). O líder do partido no Senado, Arthur Virgílio (AM), pediu que o general Heleno seja convidado a falar em sessão reservada da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. Ele disse concordar com as críticas, mas afirmou que Heleno errou ao falar publicamente.

"A pretexto de transformar tribos em supostas nações independentes, ONGs estrangeiras interessadas em consolidar a invasão do território nacional, agem livremente na reserva, que faz fronteira com a Venezuela e a Guiana", disse em nota o presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ). O presidente do PDT, Vieira da Cunha (RS), da base do governo, pede uma revisão da política de demarcação de reservas indígenas.

Coordenador do Conselho Indígena de Roraima, o índio macuxi Dionito de Souza rebateu o general: "Os indígenas não têm fronteira. Mas, já que apareceu essa idéia do branco, então o indígena precisa ter seu pedaço de terra".

"Se está errada [a política de terra indígena], foi o branco que criou. Antes da invasão dos brancos, não se pensava em território. Se a política está errada, é conseqüência do passado, não de ontem nem do [governo] Lula", disse Souza. Para ele, não há risco à soberania com áreas indígenas na fronteira.

Demarcação contínua será mantida, diz Lula

Tribuna da Imprensa

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, no encontro com a Comissão Nacional de Política Indigenista, que o governo federal vai manter a demarcação de forma contínua na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. Ele recomendou ao presidente da Funai e aos ministros da Justiça (Tarso Genro) e do Meio Ambiente (Marina Silva), que formem um comitê junto com os índios para conversar com os ministros do Supremo Tribunal Federal, que analisam a questão, para defender a demarcação.

Com relação às declarações do comandante Militar da Amazônia, general Augusto Heleno, contra a demarcação contínua, o presidente, segundo os participantes, disse que vai conversar com militares para que revejam essa posição.

Segundo Marcos Xucuru, membro da Comissão Nacional de Política Indígena, essa posição dos militares é lamentável, porque joga a sociedade contra os indígenas. "Não somos uma ameaça à soberania nacional. Ao contrário, tem os índios que servem o Exército. Somos parte disso e queremos defender o nosso território", afirmou.

O presidente Lula determinou também a criação de uma comissão para levantar todas as queixas dos índios em relação às políticas públicas de saúde e educação, e acompanhá-las de perto para ver o que está sendo feito. O assessor especial do presidente, Cesar Alvarez, vai chefiar a comissão.

"Senti firmeza do presidente. Estamos confiantes de que vai manter a homologação", disse o cacique macuxi Jaci José de Souza, da Raposa Serra do Sol, que participou da reunião com Lula.

Viagem
O general Heleno viajou no início da tarde de ontem de Manaus para Brasília. A agenda dos encontros não foi divulgada, mas segundo fontes do Planalto e da Defesa, ele deveria se encontrar no início da noite com o comandante do Exército, general Enzo Peri, e com o ministro da Defesa, Nelson Jobim.

A intenção do Planalto era ordenar que Heleno parasse de falar em público sobre políticas oficiais, mas sem pedir que ele retirasse o que dissera no Rio. O que mais incomodou Lula foi ele ter dito que não serve ao governo, mas ao Estado brasileiro.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA: Voltou a afirmar o que já alertara antes: Lula, por não ter autoridade legal para se sobrepor a uma decisão contrária do STF que está com o caso sob sua alçada, está incitando a população indígena a uma rebeldia injustificada. E o que é pior: sua “promessa”, por ser dependente ainda de decisão judicial, poderá provocar um conflito de terríveis conseqüências.

O que é lamentável, neste caso, é que para quem se julga o “pai dos pobres” está simplesmente ignorando a situação em que se encontram atualmente centenas de famílias sob a ameaça de despejo, e sem que até agora ele se tenha importado um mínimo que fosse com o seu destino.

Chega a ser repulsiva e criminosa tal insistência, tanto que sua decisão em manter a demarcação contínua e insistir na desocupação levantar graves suspeitas de que o que está em jogo não são os pretensos direitos dos índios, mas sim outros que foge ao interesse do país.

Ministério da Justiça envia projeto de lei para alterar regras de mineração em terras indígenas

da Folha Online

O Ministério da Justiça encaminhou à Câmara dos Deputados uma proposta que altera o projeto de lei 1.610, que regulamenta a atividade de mineração em terras indígenas. A proposta foi enviada ao Congresso no momento em que a demarcação da terra indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, gera polêmica.

De acordo com o projeto, a atividade de exploração mineral deve sofrer algumas restrições. A principal delas é que ela só poderá acontecer se os índios autorizarem a pesquisa e extração de minérios em suas terras. O período para a realização dos trabalhos será determinado pelo Congresso Nacional.

O projeto também trata de regras ambientais e ainda garante à comunidade indigenas afetadas o direito de terem participação nos lucros da extração.

O texto apresentado foi elaborado pelos Ministérios da Justiça, Minas e Energia, além do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

Política indigenista
O comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno, declarou recentemente que a política indigenista brasileira é "lamentável" e "caótica".

A resposta do CIR (Conselho Indígena de Roraima), principal entidade favorável à retirada dos não-índios da Raposa/Serra do Sol, foi dura. "Se o Exército é contra nós, seremos contra eles também", disse o índio macuxi Dionito Souza, coordenador do CIR. "A homologação de forma contínua [da Raposa] não vai acabar com o Brasil", afirmou.

A Guerrilha da Liga dos Camponeses Pobres

por Ipojuca Pontes © 2008 MidiaSemMascara.org

“O povo foi embora com medo dos guerrilheiros. Aqui, para ficar de pé tem que se aprender a viver”(De um velho agricultor de Jacilândia, vilarejo abandonado)
A revista IstoÉ (26/03/2008), em reportagem de primeira linha, entrou no quartel general da Liga dos Camponeses Pobres, em Jacinópolis, Estado de Rondônia, e fez o levantamento preliminar – mas fundamental – daquilo que se pode chamar de “guerrilha de alta intensidade”, travada hoje de forma crua e virulenta na fronteira do Brasil com a Bolívia, a 450 quilômetros de Porto Velho. Lá, tal como ocorre nos territórios ocupados pelas FARC, na Colômbia, nenhuma forma ou manifestação do poder público tem o mínimo acesso: lei, ordem, Exército, polícia, propriedade ou a própria vida humana são prerrogativas da Liga dos Camponeses Pobres que, contando com abundantes recursos, não pára de crescer.

Neste abril de 2008, só no entorno da conflagrada região fronteiriça, vivem embrenhados nos acampamentos das LCP mais de mil guerrilheiros, todos armados com metralhadoras, pistolas, granadas e sofisticados fuzis AR-15, FAL e AK-47, de fabricação russa, controlando uma área de 500 mil hectares. Segundo o major Enedy Dias de Araújo, ex-comandante da Polícia Militar de Jaru, cidade imprensada pelos acampamentos do movimento armado, não resta dúvida que os “bandoleiros foram muito bem treinados pelos guerrilheiros das FARC” (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

Num breve exame comparativo, além do desempenho logístico, os métodos terroristas adotados pelos militantes da Liga dos Camponeses Pobres e os praticados pelos guerrilheiros das FARC são totalmente idênticos. Sob o pretexto de estabelecer no Norte do país a “revolução agrária”, eles seqüestram, torturam, assaltam, expropriam, cobram pedágio, matam e atacam vilarejos e cidades da região. Diante do claro quadro de guerra descortinado em Rondônia, um delegado da polícia local, Iramar Gonçalves, não titubeou: “A Colômbia é aqui mesmo. Nem com 50 homens armados eu tenho coragem de entrar nas terras deles”.

O narcotráfico, claro, se faz presente. Para dar escoamento à droga (originária da Bolívia) e o contrabando de armas, os integrantes do movimento abriram uma vasta trilha clandestina na floresta, conhecida como a “transcocaineira”. “Os transportadores da coca pagam generosos dividendos ao pessoal da guerrilha” – denunciam os raros habitantes com coragem suficiente de abordar o assunto.

Para executar sua “violência revolucionária”, que já se prolonga por mais de oito anos, a LCP foi responsável, somente em 2007, por 18 execuções sumárias de trabalhadores rurais e fazendeiros, além de dezenas de saques a pequenos proprietários, emboscadas, “confisco” de gado, bloqueio de estradas, devastação da floresta, depredação de máquinas e incêndios de casas e veículos.

Antes da revista “IstoÉ” investigar a ação da LCP, considerando-a nove vezes mais poderosa do que a Guerrilha do Araguaia no início da década de 1970, o notável articulista e historiador Carlos I. S. Azambuja, em 2006, no jornal eletrônico Mídia Sem Máscara, denunciava a Liga dos Camponeses Pobres como um braço rural da Liga Operária Camponesa (LOC), uma cisão da organização Ala Vermelha que, por sua vez, era uma cisão do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o mesmo que estava por trás da Guerrilha do Araguaia.

A presença da Liga dos Camponeses Pobres, infelizmente, não se limita ao desprotegido estado de Rondônia. A organização também está infiltrada e atua no norte de Minas Gerais, Pará e Alagoas, onde recentemente travou batalha campal com a polícia do estado, depois de ocupar fazendas e a prefeitura do município de Capela. Suas idéias e propostas “revolucionárias” são todas de fundo marxista-maoísta, inspiradas de perto no projeto do “Grande Salto Para Adiante”, do genocida Mão tse-Tung, responsável pela fome endêmica que levou à morte de 43 milhões de chineses, entre os anos finais de 1950 e o início da década de 1960.

Por sua vez, embora proclame como prioritária a “revolução agrária no Brasil”, os guerrilheiros da LCP estão vivamente empenhados na mobilização da luta contra a farsa das eleições, o capitalismo, a burguesia e o imperialismo. Nas bandeiras vermelhas que tremulam em alguns dos seus acampamentos, estão escritas as palavras de ordem: “Morte ao imperialismo” – obviamente ianque.

Tal como ocorre com as sucessivas invasões criminosas do MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o governo petista de Lula da Silva nada vê, ouve ou diz. Não por falta de informação. Desesperada com a situação de terror imposta pela guerrilha, a polícia de Jaru encaminhou à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Exército e o Ministério da Reforma Agrária, em Brasília, um dossiê com 120 páginas reportando a criação de verdadeiro “Estado paralelo” dentro do território de Rondônia. O próprio Ministério da Justiça, atualmente ocupado pelo ex-leninista Tarso Genro, não deu resposta ao relatório enviado sobre a ação predatória da guerrilha, que ocupou as representações do Ministério Público e da Justiça do município de Buritis, exigindo que juízes e titulares dos respectivos órgãos se afastassem dos cargos.

Enquanto a impunidade campeia, o “movimento revolucionário” da LCP cresce e se alastra. Em face da omissão dos poderes federais, o delegado Gonçalves adverte em tom dramático: “Isso vai acabar numa tragédia de proporções alarmantes. Ninguém leva a sério nossas denúncias. Eles pensam que a existência da guerrilha é um delírio”.

Coitado do delegado de Jaru. Não sabe que Lula, o PT e as FARC estão ligados por uma rede política chamada Foro de São Paulo, que, entre outras benesses, procura “recriar no espaço latino-americano o que foi perdido no Leste Europeu”.

Deus o proteja. (E a nós, também).

O esfacelamento da unidade nacional

Adelson Elias Vasconcellos

Não foram poucas as vezes que aqui adotamos a qualificação de governo do crime organizado para definir o que vem a ser este governo de Lula. E é, sem tirar nem por, o governo que mais incita a baderna interna dopais, que mais ataca suas instituições, que mais esculacha os demais poderes da República, o que esbulha o regime de leis existentes no país. E, os números estão aí para demonstrar, o mais corrupto de toda a nossa história. Nenhum outro presidente alimentou tanto ódio à democracia quanto Lula, nem Vargas tampouco os generais ditadores.

Grande parte deste ministério inútil, está povoado por dementados que cumprem fielmente a cartilha da esculhambação, da desordem, do incitamento à violência e à anarquia. Hoje, se em algum canto do território nacional eclodisse uma guerra civil, acreditem muitos do governo atual ficariam festejando pelos cantos, principalmente este cidadão que veste a faixa presidencial.

Não é difícil de se chegar a esta conclusão, bastando ver a ação zero do governo em relação ao MST e congêneres. Em qualquer país sério do mundo, não apenas seus principais articuladores estariam trancafiados na cadeia, condenados por incitamento à violência, invasão, agressão e depredação do patrimônio público e privado. Bastando ver a conduta do senhor Lula e seus cúmplices quanto aos aspectos que dizem respeito aos indígenas, tanto quanto antes já havia fragmentado o povo brasileiro, que a soma de muitas raças, em brancos de um lado, negros e pardos de outro.

Agora, Lula está alimentando outro cisma: de um lado, índios, de outro os não índios. Esta divisão não pode, no tempo, resultar em boa coisa, e por conta deste crime praticado escancaradamente por Lula, o país ainda se arrependerá amargamente. Porque é bom ficar claro que, discriminação, de que espécie for, não se combate com separação, que é a essência do que o governo faz. Se houver discriminação em relação a qualquer minoria, ao invés de integrá-las à sociedade para que esta aprimore seu sentimento humanitário e de aceitação, o que se faz é aparta-las socialmente para que formem guetos independentes do restante da nação.

Mesmo agora na questão indígena, pouco a pouco vão sendo conhecidos alguns lances patrocinados pelo governo federal que demonstram, inequivocamente, que o pensamento reinante é o de dividir o povo brasileiro em classes e guetos, para, pela divisão, reinar absoluto nosso déspota.

Quando ministros de estado vem à público e classificam crimes de “conceitos políticos”, quando presidente da república vem e qualifica de “erros companheiros” crime de extorsão, corrupção e formação de quadrilha, quando outros ministros de estados também se arrojam na defesa do ideário de anarquia, alegando de forma trágica que tais ações são necessárias para o fortalecimento da democracia, quando o que se dá é justamente o contrário, então estamos diante não de fatos isolados, de deslizes eventuais de alguns, mas sim de um projeto de poder hegemônico fundamentado na anarquia e esbulho às leis e instituições.

Nos post que iremos publicar é possível perceber os sintomas muito claro do esfacelamento institucional do Brasil. Não se trata de um projeto voltado ao desenvolvimento, ao crescimento e amadurecimento do país como nação livre e próspera, e sim, um país sem amor próprio, onde cada um faz o que bem entende desde que jure amor eterno ao regime da anarquia e curve-se diante de seus deuses. Pouco a pouco o Brasil regride em termos de civilidade, perde seu sentido de unidade e começa a correr sérios riscos de fragmentar-se.

Também será possível notar que esta questão indigenista alimenta o maior esbulho às riquezas do país e, no seu âmago, esconde aos olhos inocentes da nação, o projeto de fragmentação do território nacional, Amazônia principalmente. Muitos que até então ainda eram capazes de tecer elogios a este governo, covarde, corrupto e indecente, agora levantam suas vozes para tentar barrar o processo em curso. Contudo, quando os sinais claros disto já se podia notar, não pouparam os críticos de Lula, tentando desqualifica-los.

Aqui, ainda durante o primeiro mandato deste cidadão, várias vezes alertamos para o ponto de ruptura, e o que poderia representar em desagregação para o país a concessão de um segundo mandato presidencial, pois nele se escondia o ovo da serpente. Vemos, agora, no dia a dia, o quanto estávamos certos.

Retire-se o colorido da publicidade oficial, e o país que se irá mostrar aos nossos olhos é um verdadeiro caos. Em tudo e por tudo a degradação da vida pública nacional assume contornos de pura barbárie.

Assim, se alguém hoje levantasse sua voz pedindo a deposição, pelas vias legais do dementado que nos desgoverno, não seria golpe, seria amor ao Brasil. Golpe é um presidente reunir representantes de índios e assumir o apoio a um dos lados em litígio em questão sob jurisdição do STF e, no mesmo dia, fruto desta mesma reunião, os indígenas prometerem retirar centenas de famílias à força. Golpe é permitir que nossas fronteiras se tornem indefesas a qualquer ameaça externa, golpe é financiar com dinheiro público o terrorismo criminoso do MST, golpe é financiar o terrorismo internacional das ongs picaretas que atuam sem nenhum legitimidade dentro do pais, e incitando a desagregação interna em várias comunidades. Gole é um presidente aceitar e incentivar que se fira a Constituição Federal. Golpe para ser assim entendido, não precisa necessariamente ser aplicado com o sustento de força bélica e armada. Golpe também se caracteriza nas ações de desagregação de um povo e no esfacelamento institucional como o país vem sendo vítima desde 2003, porém, com maior intensidade desde janeiro de 2007.

Não se enganem com a jocosidade do discurso, ou com a pompa e majestade de ocasiões festivas. Tentem com objetividade analisar o que realmente é concreto em que cerimonial promovido pelo Planalto. Estamos sendo enganados de que se está construindo o país, quando na verdade estão financiando o amordaçamento das instituições, das forças políticas, e no anestesiamento da indignação popular.

A cada nova concessão que se dá para Lula, mais o projeto de aniquilação da unidade nacional avança um pouco mais. A se manter por mais tempo esta mesma gente delinqüente no poder, e em pouco tempo não restará mais país na forma como o conhecemos. A pergunta que me faço é, foi para “isto” que o povo confiou-lhe um segundo mandato?

Há muito tempo que este governo deixou de ser um caso de política para tornar-se um caso de polícia.

O FMI particular de Lula

Estadão

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem um cartão corporativo, um avião quase novo para viajar pelo vasto mundo e uma versão própria do Fundo Monetário Internacional (FMI), muito mais amigável do que o original e também muito útil politicamente. A maioria de seus colegas latino-americanos deve ter motivos, portanto, para invejá-lo. O FMI para uso interno tem sede em Brasília. É o Banco Central (BC), órgão responsável pelo combate à inflação e pelo uso dos instrumentos de controle monetário, incluída a taxa básica de juros. Quando os juros sobem, empresários, políticos de várias tendências, analistas de política econômica, sindicalistas, membros do MST e grupos estudantis podem espinafrar o presidente da instituição, Henrique Meirelles, ou o Comitê de Política Monetária (Copom). Quando convém, como ocorre com freqüência, o chefe de governo pode participar desse grande coro de censura.

O presidente Lula valeu-se dessa possibilidade, na quinta-feira, durante um comício - ou melhor, cerimônia do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em Belo Horizonte. Exibindo um colar cervical prescrito por um médico, o presidente atribuiu seu torcicolo a várias causas, incluindo na lista o aumento de juros anunciado no dia anterior pelo Copom. Não foi além desse comentário, mas provocou risos e aplausos e integrou-se, com muita facilidade, no grupo dos insatisfeitos com o novo endurecimento da política monetária.

Noutros tempos, governantes brasileiros apontavam o dedo para o FMI, quando submetiam o País a políticas monetárias e fiscais severas. A culpa era do Fundo. As autoridades não tinham escolha, porque eram forçadas a recorrer ao financiamento da mais detestada instituição multilateral. Os ministros da Fazenda, então com autoridade sobre o BC, podiam estar convencidos do acerto da política de ajuste, mas não precisavam assumir a responsabilidade da escolha. Os presidentes podiam alegar a mesma inocência. Era o padrão de comportamento da maioria dos governantes, quando tinham de adotar medidas penosas de estabilização.

O caso do presidente Lula, hoje, é parecido, mas com uma adaptação importante. O Executivo simplesmente se exime de tomar as medidas fiscais necessárias ao equilíbrio macroeconômico. Deixa todo o trabalho para o BC. Este responde elevando os juros e torna-se o alvo dos protestos. O presidente da República assume a posição mais cômoda e, quando o berreiro é grande, também aponta o dedo para quem decidiu o arrocho monetário.

O BC, nesse aspecto, é bem melhor do que o Fundo, porque em geral apanha sem protestar, carrega sozinho o peso político do ajuste e acaba entregando a mercadoria prometida - ou, pelo menos, tem conseguido entregá-la até agora. O presidente Lula valoriza esse pormenor. Aprendeu a importância política e social de manter a inflação controlada e - ainda melhor - tem faturado sem custo os ganhos dessa façanha.

A situação é especialmente confortável num ano de eleições, como este. Há algumas semanas, o presidente mostrou-se preocupado com o rápido crescimento do crédito e do consumo. Seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, chegou a falar sobre a adoção de medidas para restringir a expansão do financiamento aos consumidores. Mas alguém, no Palácio do Planalto, deve ter percebido o possível custo político de uma iniciativa desse tipo. O ministro foi obrigado a desmentir-se.

O presidente, no entanto, continuou o jogo e deu a impressão, dias depois, de julgar inevitável e necessária uma nova alta dos juros. Também essa intenção foi por ele desmentida, em pouco tempo, mas o recado não se perdeu. O Executivo reconhece a intensificação de pressões inflacionárias derivadas não só do mercado internacional de commodities, mas também da demanda interna muito aquecida. Mas não julga desejável controlar o gasto público.

O trabalho ficou, mais uma vez, na total dependência do Copom. Os custos, também. O presidente, embora tenha dado a impressão de desagrado, não se estendeu na censura. Manteve o compromisso informal de respeito à autonomia operacional do BC. Também esta é a atitude mais confortável. Se interferisse na política monetária, assumiria o custo político das decisões e do possível fracasso, no caso de as medidas não darem certo. Mas pode sempre partilhar do bônus do sucesso.